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Terra Arrasada: o espólio imobiliário das guerras

As duas frentes de conflitos armados do nosso tempo: Rússia vs Ucrânia e Israel vs Palestina, partilham uma engrenagem comum: a guerra converte solo habitado em tábula rasa, criando a oportunidade perfeita para que o capital entre, mapeie, loteie e venda. A assimetria de força militar é flagrante, A capacidade de resistir ucraniana sempre parece apontar para um momento impossível de segurar o contra-ataque, enquanto Palestina e Israel já pode ser assumido como um caso de genocídio disfarçado de narrativa de autodefesa. Mas há outra assimetria em vigor, a do espólio de guerra. Esta é a que mais interessa aos investidores: quem controla a ruína controla também o redesenho urbano do território. Em ambos os casos, o campo de batalha é precursor do canteiro de obras — e, muitas vezes, da corretora de imóveis. 

Na Ucrânia, a recente ofensiva de drones que incendiou parte da frota estratégica russa mostrou que a tecnologia barata pode ferir um gigante, porém, isso não muda o desnível estrutural de poder nem evita que os escombros do combate virem um ativo financeiro. Já se calcula um plano de reconstrução de US$ 524 bilhões, acompanhado de um sistema de capital sedento por rentabilidade e de consultorias que apresentam Kiev como mercado dinâmico. Paralelamente, mantém-se o debate sobre abrir o mercado de terras a estrangeiros, enquanto moradores de cidades ocupadas precisam adotar passaportes russos para não perder a moradia. Enquanto a guerra devasta; o mercado imobiliário global agradece.

Em Gaza e na Cisjordânia, o roteiro é similar. A devastação de bairros inteiros alimenta projetos que sonham erguer um Balneário Camboriu do Oriente Médio ou um Dubai neofuturista: Gaza 2035, construído acima de um vazio demográfico, um apagamento histórico que se traduz em anúncios nas redes que vendem casas sobre ruínas vivas. O custo estimado para reconstruir Gaza passa de US$ 50 bilhões, cifra que desperta tanto fundos soberanos quanto incorporadoras privadas, todos prontos para transformar luto em metro quadrado. Aqui, a tábula rasa é literal: degola a história para assentar resorts, data-centers para os GAFAM e empreendimentos verdes.

O padrão é nítido: onde o míssil abre crateras, o mercado financeiro abre terrenos férteis de rendimento. A terra arrasada vira contabilidade no sistema, a dor e morte se converte em lucros e dividendos, e o mapa se refaz sem aqueles que habitavam a terra. 

Assim, são pelo menos dois os níveis do massacre: o primeiro a limpeza étnica, territorial, comunitária e o segundo a transformação do solo criado em dinheiro para o vencedor. Este é o mesmo enfrentamento que acontece em escala local no tocando de uma ocupação sem teto. A ruptura desta engrenagem é dificílima, exige a retomada dos territórios pelos povos sobreviventes, a retomada do direito à memória e o não apagamento de seus modos de vida. 

É possível construir um modelo de habitação ou de engenharia que não precise passar pelo instrumento da guerra? Sim, é totalmente possível, já temos inúmeros exemplos construídos e estudos de caso. A relação entre guerras e construção não é condicional. Não precisamos de guerras para construir, mas a guerra sempre gerará como espólio o território conquistado e o direito a reescrever a história e geografia de um povo inteiro.

foto Zain JAAFAR / AFP, publicado no O GLOBO.

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Governança em Metrópoles: O Rio de Janeiro e uma Transição Possível para Redes Distribuídas

Este texto propõe uma pequena análise ensaística ou de opinião sobre a crise institucional enfrentada por metrópoles contemporâneas, com especial atenção ao caso do Rio de Janeiro. A partir das discussões em aula realizada no curso A inteligência do espaço-tempo e o stress global e da teoria desenvolvida por Robin Dunbar que fora citada, sugere-se aqui uma pequena reflexão acerca dos limites cognitivos e organizacionais que moldam a governança urbana. Ainda que não se trate de um modelo absoluto, a teoria de Dunbar oferece um ponto de partida relevante para pensarmos os desafios atuais de gestão em cidades de grande porte.

Robin Dunbar, antropólogo britânico, propôs que existe um número máximo de relações sociais estáveis que um indivíduo é capaz de manter é de aproximadamente 150 pessoas. Conhecido como “número de Dunbar”, esse limite marca o ponto em que formas de organização social baseadas apenas em vínculos informais e confiança direta tornam-se inviáveis. A partir desse ponto, a complexidade social crescente demandaria a construção de instituições formais para manter a coesão e a funcionalidade do grupo. Mesmo que não tomemos esse número como exato, ele nos permite levantar uma questão fundamental: todo sistema organizacional possui um limiar a partir do qual precisa se tornar mais sofisticado para manter sua capacidade de governança.

Assim, podemos sugerir que tais instituições formais atualmente conhecidas por nós também enfrentam limites operacionais. Diversos estudiosos apontam que, em populações acima de 1 a 10 milhões de habitantes, os custos de manutenção institucional tendem a superar os benefícios, gerando ineficiência, sobrecarga burocrática e vulnerabilidades estruturais. Nesse ponto, os sistemas entram em risco de disfunção, colapso ou rupturas sistêmicas.

Essa problemática se torna plausível no contexto do Rio de Janeiro. Com uma região metropolitana que ultrapassa os 13 milhões de habitantes, a cidade opera em um grau de complexidade que supera a capacidade adaptativa de suas instituições centralizadas, construídas sob lógicas administrativas do século XX. A excessiva centralização do poder decisório, aliada à fragmentação territorial, à assimetria de informações e à lentidão das respostas institucionais, compromete a eficácia das políticas públicas e alimenta uma crise permanente de governança.

Nas periferias urbanas, como favelas e comunidades autogeridas, observa-se a formação de sistemas sociais quase autônomos, ou dominados por outras estruturas de poder, muitas vezes desconectados ou mesmo em confronto com os canais formais de poder consituído. Esses territórios, diante da ausência do Estado ou de sua atuação precária, tornam-se espaços disputados por múltiplos atores, legais ou não, que passam a exercer formas locais de governança mais ágeis e eficientes em seu escopo limitado. A perda gradual de controle institucional sobre o território fluminense reflete, assim, tanto a falência administrativa, como um descompasso entre o desenho das instituições e a complexidade do tecido social contemporâneo.

Redes distribuídas como alternativa estrutural

A ciência dos sistemas complexos nos oferece uma alternativa teórica e prática a esse modelo centralizado. Inspirada em estruturas biológicas e tecnológicas informacionais, ela propõe a reorganização da governança em redes distribuídas, sistemas com múltiplos centros de decisão, autônomos, interconectados por fluxos contínuos de informação e orientados por protocolos colaborativos.

Essa proposta poderia ser sintetizada em três linhas (a princípio):

  1. Descentralização inteligente: por meio da criação de núcleos decisórios com autonomia territorial, como subprefeituras, associações locais e redes comunitárias. Esses núcleos seriam capazes de deliberar sobre questões específicas de seu território, comunicando suas decisões ao sistema mais amplo, sem a necessidade de submissão hierárquica. A descentralização, neste modelo, não implicaria a atual fragmentação vigente, mas uma reconfiguração organizativa a partir das redes.
  2. Inteligência coletiva: com o uso de plataformas digitais participativas para elaboração, monitoramento e fiscalização de políticas públicas. Esses espaços virtuais podem funcionar como canais de escuta contínua e construção colaborativa, onde a população contribui de maneira orgânica e descentralizada. A tecnologia atual já nos permite sistematizar essas contribuições de forma eficiente, acelerando os processos pré-deliberativos e fortalecendo a legitimidade popular das decisões.
  3. Adaptação em tempo real: a partir da incorporação de dados urbanos, sensores, algoritmos e inteligência artificial, é possível monitorar dinâmicas territoriais e redistribuir recursos públicos de forma responsiva e eficaz, acompanhando as variações reais da demanda nos diferentes bairros e regiões da metrópole. Um exemplo simples: uma mesma linha de ônibus poderia traçar uma rota diferente em determinados períodos como: dia e madrugada, em função do levantamento de demanda.

No caso do Rio de Janeiro, a adoção de um modelo de rede distribuída implicaria na reconversão de suas instituições executivas: elas deixariam de ser instâncias de comando centralizado tradicionais e passariam a funcionar como plataformas de articulação entre diferentes territórios. A administração pública atuaria como orquestradora de uma malha de redes locais, reconhecendo, fortalecendo e conectando as capacidades já existentes nas bases comunitárias. Iniciativas que hoje são tratadas como exceções ou soluções paliativas ou vozes retificadoras das políticas pensadas pelos poderes constituídos, como associações de moradores, mutirões urbanos e coletivos culturais, passariam a integrar a estrutura legítima de governança metropolitana como verdadeiras construtoras das políticas estruturantes da cidade.

O Rio de Janeiro encontra-se em um ponto crítico de inflexão. A insistência em modelos centralizados diante da complexidade crescente da metrópole não apenas limita a eficácia administrativa, como também representa uma ameaça à própria coesão urbana, cada vez mais frágil e tensionada pelos inúmeros poderes paralelos que conformam nosso território. A transição para uma governança distribuída, orientada pelos princípios da ciência dos sistemas complexos pode ser uma boa alternativa de saída. Ela oferece uma oportunidade para ressignificar o papel do Estado, potencializar o protagonismo cidadão e construir uma cidade mais adaptativa e democrática.

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Estatal, Público, Privado e Comum

Falemos um pouco sobre os conceitos de estatal, público, privado e comum. Muitas vezes soam embaralhados no debate político e no circuito popular. É muito corriqueiro pensarmos o sistema estatal e o sistema público por exemplo como a mesma coisa, coisa de governo. Esse tipo de confusão acaba por esconder disputas de poder e visões diferentes, principalmente, sobre quem deve gerir o que é de todos e como deve ser gerido.

Estatal é tudo aquilo que pertence diretamente ao Estado. São bens e instituições geridas pelo poder público, com autoridade centralizada. Público, em sentido mais amplo, é aquilo que existe para uso e benefício de todos, independentemente de ser estatal ou não. Aqui está um sombreamento corriqueiro. Muitas vezes entendemos um bem estatal como um bem público. Ainda que seu produto final seja deste caráter específico, sua gestão não necessariamente é. Decisões de gestão da Petrobrás, por exemplo, não precisam de audiência pública aberta a todos os cidadãos brasileiros para acontecer.

O privado por sua vez, é mais simples de entender: aquilo que é de propriedade de indivíduos ou empresas, voltado para interesses particulares, ainda que sob regulação pública. É no campo privado que florescem a autonomia, o empreendedorismo e, ao mesmo tempo, as desigualdades.

Além destes, vou retomar aqui o conceito de comum, trazido por Antonio Negri. O comum não seria nem estatal, nem público nos moldes tradicionais. Sua principal distinção está no fato de que ele emerge da própria colaboração social. Ele é um modo de organização mais horizontalizado por natureza. Conhecimentos compartilhados, redes de solidariedade, práticas coletivas que não dependem do Estado nem de interesses privados. O comum é um espaço de invenção social e resistência.

Há um modelo que deva ser hegemônico? A meu ver não, cada modelo responde a um conjunto específico de necessidades sociais e pode ser operado de forma estratégica a partir da complexidade. Talvez o maior erro da gestão global, desde a revolução industrial, tenha sido a tentativa de impor um modelo hegemônico e referência paradigmática.

Simplificando: nem a estatização de todo o sistema econômico, como pregado por algumas tradições políticas de esquerda e nem o enxugamento ou fim da máquina estatal como pregado por inúmeros discursos neoliberais e capitalistas, resolverão o sistema. No meu modo de pensar: Há bens, instituições e serviços que precisam de uma gestão pública, há os que precisam de uma gestão estatal, há os que funcionam melhor no sistema privado e ainda há aqueles que funcionam muito melhor na organização pelo comum.

As confusões realmente começam quando os limites entre esses conceitos se tornam turvos. Uma escola pública, estatal em estrutura, deveria servir ao interesse público, mas quantas vezes vemos interesses privados infiltrados em sua gestão? Quantas vezes o Estado administra mal o que é público, esvaziando o sentido coletivo do bem? Ao mesmo tempo, quantas vezes uma corporação privada se utiliza de recurso e privilégio público e estatal para conseguir lucro ou benefícios?

Fora outros espectros de sombreamento. Organizações sociais que prestam serviços de saúde com verbas públicas, mas operam com gestão privada; empresas estatais que agem como corporação privada no mercado internacional; espaços públicos privatizados sob concessão. O mercado tenta se apropriar dos privilégios e benefícios do que é público; o Estado tenta governar o que poderia ser comum; o comum se perde sendo cooptado pelo Estado ou pelo mercado.

Entender essas distinções é um ato político. Saber onde termina o interesse público e começa o interesse privado é fundamental para defender direitos, garantir justiça social e reinventar novas formas de vida. Um bom desafio para o nosso tempo seria justamente este: resgatar o comum como um campo vivo de liberdade coletiva e reorganizar o projeto de nação espacializando melhor o que deve ser gerido de forma estatal, de forma pública, de forma comum e o que pode ser mercado.

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Superposição do colapso – tarifas, algoritmos e alternativas do Sul

Hoje falamos muito em algoritmos, mas  lembro de quando tudo era quântico: palestras, filmes, conceitos, literatura. Saber física quântica parecia sinônimo de vida intelectual, mesmo que a gente entendesse pouco do que de fato estava falando, até hoje não sei se o gato de Schrödinger estava vivo ou morto, na verdade sequer sei escrever Schrödinger sem consultar o Google. Vivemos num mundo em que cada decisão parece conter todas as decisões possíveis, até que uma escolha se imponha ou um colapso ocorra. Aquilo que me soa como um labirinto borgeano, a física chamaria de superposição quântica. 

Se não fosse o algoritmo do Google, talvez eu nem soubesse que hoje é dia de celebrar esses conceitos. Na vida prática, chamamos isso de incerteza. Mas, ao contrário do mundo subatômico, nossos dilemas não colapsam por leis naturais, são empurrados por interesses, movidos por algoritmos e tensionados por forças geopolíticas.

A recente decisão de Donald Trump em retomar tarifas contra a China, a meu ver, não revela um equívoco ou protecionismo antiquado. Considero que se trata mais de uma ação de guerra de poder e medo. A guerra tarifária, por sua vez, é só um sintoma de algo mais profundo: a incapacidade dos antigos centros de poder de sustentar a ficção de crescimento contínuo num planeta exaurido, hiperconectado e radicalmente desigual. 

Trump, ao colocar em xeque a confiança no dólar, expõe o esgotamento de uma ordem que ainda se sustenta pela inércia. Enquanto a Casa Branca tenta manipular a bola do jogo a seu favor, Wall Street já precifica a estagnação e o capital global pressente a necessidade de reorganizar seu campo (ou as regras, ou a bola), talvez além do dólar.

Quando o sistema produtivo global ganha autonomia, o centro perde o comando da engrenagem. A China, com sua força produtiva e avanço tecnológico, representa uma ameaça real ao modelo ocidental, não só econômica, mas também política. Talvez por isso, os EUA imponham além de tarifas, barreiras diplomáticas, tecnológicas e militares. Além da China, outras referências surgem do Oriente. Uma explosão de subjetividades que deixou de ser exótica ou folclórica descentralizam a hegemonia do entretenimento americano. O BTS substituiu o N’SYNC; antes deles, o fenômeno Gangnam Style já sinalizava um entretenimento internacional com identidade própria. Nada disso foi acaso. Trata-se de um projeto nacional estratégico da Coreia do Sul.

Nesse ponto, a tentativa americana de restaurar seu domínio por meio de tarifas escancara uma certa impotência atual, quase como uma última cartada da vida. Tarifas não reconstroem cadeias produtivas, não requalificam trabalhadores, não recupera subjetividades e tampouco geram inovação orgânica. No máximo, adiam a implosão de um modelo insustentável. Ao fazer isso, alimentam tensões globais, inflamam nacionalismos econômicos e aprofundam desigualdades. Trump aposta alto, um lance que pode não ter volta.

O colapso da superposição quântica está em curso. Tarifas, algoritmos  e acordos comerciais disputam quem vai conduzir o novo ciclo. Mas talvez o caminho não seja escolher uma trilha dominante. Talvez seja hora de aprendermos com as margens, com as economias informais, com a inteligência prática de quem sempre viveu fora da lógica centralizada. Até porque, mesmo em uma reestruturação do capital, ainda seremos margem. 

Em meio à guerra tarifária, precisamos desenhar uma racionalidade econômica que não dependa dos conflitos comerciais atuais, nem da volatilidade financeira. Uma economia que funcione mesmo sem PIBs exuberantes, porque se ancora em vínculos reais e não em promessas especulativas. Uma economia, onde o novo lastro possa ser gerado pela partilha, como num belo sistema P2P de compartilhamento de dados.

No Brasil, cooperativas agroecológicas enfrentam o agronegócio exportador. No Senegal, startups solares descentralizam o acesso à energia. Na Índia, o sistema público de saúde convive com inovação tecnológica. Essas experiências não prometem utopias, são tentativas práticas de uma nova forma de viver e produzir.

Assim, o Sul Global observa e age. Experimenta soluções locais, modelos híbridos de produção e redes descentralizadas de troca. A reorganização do capital que nos favorece não virá de Davos. O que parece hoje disperso e marginal pode se tornar central, num mundo em que as velhas engrenagens emperram. Centralidade que nasce das bordas, dos territórios sempre negligenciados que agora, aos poucos, cultivam autonomia.

Nosso desafio é abandonar o olhar exótico e reconhecer essas experiências como fundamentos de outra ordem econômica. Uma construção que redesenhe o sentido de valor: não mais centrado no dólar, mas ancorado em novos ativos, como a floresta em pé, a energia limpa, o saber tradicional, para além de  resistir, é hora de propor. De formar pactos sustentáveis entre os excluídos de ontem, para que sejam os arquitetos do amanhã.

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Trump e tarifaço: o dólar como arma de guerra

meme reproduzido das redes de internet

Donald Trump tem um projeto: recentralizar os Estados Unidos no jogo global e decide fazê-lo por meio do conflito. Assim como o jovem que, ao jogar War se vê perdendo e simplesmente bagunça o tabuleiro todo, lembrando para os amigos que as peças do  jogo são dele. Assume o comércio mundial como uma arena de disputa por poder real onde, para ele, os EUA estão perdendo, apesar de serem os emissores da moeda lastro. A crítica de Trump ao sistema é profunda e não creio que seus cálculos sejam infantis. O que ele sabe é: independente das regras do jogo, ele tem a bola, o dólar e quem tem a bola define se a brincadeira é futebol ou vôlei ou, o mais provável, alguma brincadeira com regras inventadas por ele.

Por mais que para muitos soe uma prática antiquada de protecionismo, não o é. Trump explode uma subjetividade que responde ao americano de classe média estagnado na economia que a mesma não é um elemento neutral e estável. Enquanto, historicamente, trabalhadores vêm perdendo empregos, fábricas saem do país migrando para países mais estratégicos do sistema internacional e a infraestrutura se degrada. Lembremos aqui de Detroit, que em julho de 2013 decretou falência, se tornando a maior cidade dos EUA a fazer isso.  Enquanto isso, países asiáticos e europeus acumulam reservas em dólar, compram dívida americana e exportam seus produtos para os EUA com vantagens cambiais que, segundo Trump, jamais seriam aceitas se fosse o inverso.

O dólar, pilar da ordem financeira internacional, é ao mesmo tempo fonte de prestígio e fraqueza. Sua hegemonia faz com que os EUA possam se endividar à vontade e manter um aparato militar gigantesco. Assim, cria uma máquina de poder extremamente forte no mundo. Seu principal conflito, me parece ser contra o sistema financeiro internacional que mantém artificializada o valor de sua moeda para a boa operação do sistema especulativo global em detrimento do sistema produtivo industrial das nações.

A resposta de Trump a esse cenário é a ruptura, lhe interessa o impacto, sua política tarifária instrumentaliza o desequilíbrio monetário e produtivo global, força a valorização das moedas estrangeiras, força o reestudo de logísticas de produtos e de mudanças de sites industriais. Trump força o mundo a aceitar um dólar mais fraco sem que os EUA percam o privilégio da hegemonia da moeda.

Trump aposta no limiar do colapso, como mesa de negociação com o mundo. É uma estratégia de alto risco, flerta com crises globais e instabilidades duradouras. Mas, para ele, é melhor provocar o terremoto do que continuar enterrado sob os escombros de um sistema que já não serve aos interesses americanos (na sua visão).

Ao tentar reconstruir o jogo do poder a partir do abalo sísmico. Trump joga as fichas porque acredita que todos voltarão à mesa? talvez. Mas, dessa vez, com novas cartas e novas regras feitas por ele. Esse projeto se sustentará? Tudo depende de como as nações afetadas irão se articular na reorganização de seus mercados.

E até nisso a operação foi interessantemente sofisticada. As bruscas diferenças de tarifas colocam o mundo em duas disputas concomitantes: Países como o Brasil se tornam atrativos como um canteiro industrial, enquanto China e outros são hipertaxados.  Trump não racha o mundo em um Todos contra Trump, ele racha em uma disputa onde redefine a ordem das desigualdades entre as nações. Algumas subitamente ganham oportunidades atraentes enquanto outras sofrerão as sanções.

Seu plano é mais político do que econômico. Envolve diplomacia direta, bilateral, baseada na força, e disputas constantes. Trump traz o mundo para uma negociação olho no olho, país a país.. Para uns, exigirá compra de armas; para outros, que migrem fábricas para solo americano. Quem não aceitar suas condições, enfrentará tarifas, retaliações e, em último caso, o uso do poder militar como elemento de pressão. Este é o recrudescimento de um Estado de Guerra que ainda tem seu dinheiro, leia-se confiança de mercado, como lastro da economia global. O que nos parece loucura é apenas uma guerra em curso.

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O fim da CLT está só começando

No início da noite de um domingo chuvoso no Rio de Janeiro, deparo-me com a seguinte matéria:“prefiro sair. Pedidos de demissão batem recorde e já são quase 38% do total de dispensas” link ; Ainda junto a esta, li “Crianças demonizam CLT’: carteira assinada vira ofensa entre os jovens” link . Precisamos refletir sobre. 

O Brasil enfrenta um fenômeno crescente de evasão de trabalhadores do regime CLT, demonstrando uma tendência de recusa à exploração laboral tradicional. Explicações psicológicas individualizadas têm sido propostas, mas não respondem à complexidade da realidade. É importante considerar fatores estruturais e coletivos que moldam o desmonte das relações trabalhistas.

Desde 2016, o Brasil passou por reformas que enfraqueceram as leis previdenciárias, trabalhistas e sindicais, desmantelando proteções históricas não apenas dos trabalhadores, mas também dos empregadores, afinal, o sindicato é um instrumento legal de negociação dos dissensos entre as partes. Esse processo resultou em uma reorganização do mercado de trabalho, onde o vínculo formal perde atratividade tanto para quem contrata quanto para quem busca emprego. As empresas, ao promoverem a flexibilização, agora enfrentam dificuldades em atrair trabalhadores para posições formais, evidenciando uma contradição em suas próprias estratégias de mercado.

Devemos acender aqui um sinal amarelo. Tracemos um paralelo com a experiência africana, que oferece elementos valiosos para reflexão. Em muitas nações da África Subsaariana, a economia informal predomina, empregando entre 60% e 80% da força de trabalho e contribuindo significativamente para o PIB. Embora forneça meios de subsistência, essa informalidade está associada à ausência de proteção social e à hiper vulnerabilidade econômica. Em Gana, por exemplo, a criação da Union of Informal Workers Associations, refletiu a época, a urgência de construir estruturas representativas para os trabalhadores invisíveis, que sobrevivem à margem da formalidade.

Sem uma economia organizada em torno de uma estratégia de nação, os governos têm enorme dificuldade de promover melhorias significativas. O resultado é um ambiente que beira a barbárie, com conflitos civis mal resolvidos e lutas desesperadas pela sobrevivência, que muitas vezes culminam no êxodo de jovens e famílias inteiras para países europeus, em busca de um sonho vendido pelo capital, que não passa de miragem.

Nesse contexto, a promoção do autoempreendedorismo como resposta ao desemprego cria uma corrida solitária pelo ouro perdido. Indivíduos competem em um mercado saturado, sem direitos, proteções e seguridades do trabalho formal. Essa dinâmica resulta em instabilidade econômica e social, dificultando inclusive a implementação de políticas públicas estruturantes e a atração de novos investimentos para o país.

Necessidade de Reestruturação Sindical e Proteção Social

Para evitar um ciclo de precarização irreversível e o colapso, é essencial que o Brasil promova uma reforma sindical robusta, que fortaleça a representação dos trabalhadores e estimule negociações coletivas efetivas. Políticas que incentivem a formalização do trabalho, a construção de um sistema de bem-estar social e o desenvolvimento humano são importantes para garantir a estabilidade econômica e social. A experiência africana nos mostra que, embora a informalidade possa funcionar como rede de sobrevivência, ela limita qualquer projeto de crescimento inclusivo e sustentável. O empreendedorismo nem sempre traz dinheiro fácil, na maioria das vezes ele seduz porque entrega algum dinheiro rápido, mas que, por ser escasso e volátil, se dissipa sem deixar raízes para o futuro. “Dinheiro na mão é vendaval”.

O sindicalismo, por sua vez, precisará reaprender a caminhar sobre o novo solo das lutas. A luta dos precários atravessa outros territórios, físicos e virtuais, e exige novas formas de mobilização, para além da clássica negociação entre patrões e empregados. Precisamos mapear a nova geografia do trabalho e ocupar, com coragem e estratégia, os territórios por onde caminha.

O Brasil está em um ponto crítico, onde decisões sobre políticas trabalhistas e sindicais terão impactos duradouros. Aprender com as experiências de outras nações e reconhecer a importância de estruturas de proteção coletiva será vital para construir um campo de trabalho equilibrado. Se os campos que estão mais sentindo como: construção civil, um dos motores da economia do Brasil, não se atentarem a estas reais necessidades, o que veremos é a degradação que pode não ter volta. 

O Brasil está em uma encruzilhada histórica. As decisões que tomarmos sobre as relações de trabalho e o papel dos sindicatos impactarão significativamente o futuro do país. Se setores estratégicos, como a construção civil, um dos motores da economia nacional, não se atentarem à gravidade do cenário, presenciaremos uma degradação profunda e, talvez, irreversível.

Assim, precisamos alinhar o debate na direção que ele precisa ser tratado: o das lutas coletivas e relações de trabalho, e não o psicológico-social que faz parecer que os jovens estão iludidos, quando na verdade eles estão simplesmente pesando o seu preço real no mercado de trabalho. se eles não precisam neste momento se submeter a salários defasados, falta de direitos, jornadas exorbitantes como as 6×1, assédio moral, entre outros, eles estão certos em não ir trabalhar. O erro dos jovens está em não conseguirem se organizar coletivamente para enfrentar o vilipêndio que foi a destruição do fraco sistema de bem estar social do Brasil e esta é uma luta a qual gostaria de convocar com este texto. 

É preciso alinhar o debate ao que realmente está em jogo: as lutas coletivas e as relações de trabalho. Não podemos mais aceitar apenas análise psicológica que retrata os jovens como mimados ou iludidos por não aceitarem trabalho CLT. Eles estão, na verdade, fazendo um cálculo objetivo e subjetivo, embebidos da subjetividade do autoempreendedorismo, avaliam o custo de se submeter a jornadas abusivas, salários aviltantes, assédio moral e ausência de direitos. E estão certos em não aceitar esse jogo, vão arriscar enquanto são jovens o outro caminho que lhes é aberto pelo capital, a corrida do ouro perdido. O erro, se é que se pode chamar assim, está na falta de organização coletiva para enfrentar o saque sistemático ao que restava do já frágil sistema de proteção social brasileiro. Esta é a luta à qual este texto deseja convocar.

Para o mercado que achou que o desmonte seria o fim dos sindicatos só esqueceu de uma coisa básica: não são os sindicatos que constroem as lutas, são as lutas que constroem os sindicatos. O desmonte criará um sindicalismo diferente que poderá ser mais visceral e combativo diante do massacre popular.  

Ao mercado que acreditou que o desmonte selaria o fim dos sindicatos, um recado: esqueceram do fundamento! Não são os sindicatos que constroem as lutas; são as lutas que constroem os sindicatos. E quando o povo voltar às ruas, às redes e às praças, não vai ser de paletó e crachá, virá selvagem. Virá com fome, com raiva e com uma clareza feroz de que ou este país se reconstrói a partir do trabalhador, ou arderá em sua própria injustiça, e esta será a cara do sindicalismo. Sua nova forma, ainda não sabemos.

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O Tempo Entre os Mundos


O tempo é um elemento estruturante da vida humana e da forma como organizamos a existência. Entre cronômetros e algoritmos, a sociedade moderna se desenvolveu sob a primazia de um tempo linear, homogêneo e quantitativo, uma abstração herdada do Iluminismo e potencializada pela Revolução Industrial. Entretanto, este modelo não esgota a compreensão sobre o tempo e suas possibilidades. Ao redor do mundo, epistemologias indígenas, cosmologias africanas e saberes populares oferecem alternativas à temporalidade hegemônica, propondo formas de viver que entrelaçam passado, presente e futuro de maneira mais orgânica e integrada.


O conceito de aceleração social, demonstra como a modernidade tardia impõe ritmos insustentáveis de trabalho e consumo, fragmentam a experiência da vida e comprometem a profundidade das relações humanas. Boaventura de Sousa Santos nos traz as epistemologias do Sul, aponta a necessidade de resgatar e articular saberes ancestrais que operam em temporalidades alternativas, não subordinadas à lógica produtivista.
Diferentes sociedades tradicionais estruturam o tempo de maneira não-linear.

Povos originários das Américas, como os Krenak, veem o tempo como um fluxo cíclico onde a relação entre humanos, natureza e cosmos não está sujeita à ditadura da urgência. Tradições iorubá remetem a flexibilidade do tempo,onde passados não estão encerrados e futuros são constantemente atualizados pelas ações no presente. Esses sistemas desafiam o tempo ocidental e apontam para modos de existir que valorizam a continuidade e a coexistência na Terra.


Para construir um futuro que equilibre os saberes tradicionais com a produção contemporânea da vida, precisaremos repensar os modelos de desenvolvimento. O paradigma da “desaceleração” tem ganhado força em movimentos como o decrescimento econômico, que propõe uma relação mais harmônica com os recursos naturais e com os ritmos da vida. Práticas como a agroecologia, organizadas nos calendários naturais dos povos campesinos, a arquitetura vernacular, que respeita os ciclos materiais dos territórios, são boas formas de viver, respeitam e dialogam com as diferentes temporalidades


A degustação do tempo não é um exercício romântico de retorno ao passado, mas sim um esforço de articulação entre as possibilidades que os avanços técnicos proporcionam e a sabedoria acumulada que por milênios nos capacitam. O futuro pode ser um espaço onde o tempo não seja um senhor impiedoso, cronos que tudo devora, mas um aliado na construção de um mundo mais habitável e justo.
Tomo um café com sabor de café, leio um livro, escrevo cartas a mão. Redesenho meu passeio pela teia do tempo dentro do cotidiano. Saboreio a fumaça que sai do copo e o desgaste do grafite no risco.

Lembro-me de Gana, onde o tempo do dia se iniciava com o bater da massa do Banku. Um som que ecoava por todo o país e dava um ritmo, o som do alimento de uma nação. O trabalho vivo de produção do próprio alimento dava o ritmo, o tom, demarcação do tempo.

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Por que Estudar Teoria da Arquitetura e por que eu leio Tafuri?

É surpreendente a decisão de Trump, que ao assinar um decreto impôs uma estética clássica para as artes e os edifícios cívicos. Em vez de recorrer a análises já exploradas, como as apresentadas no Arquitetura da Destruição, de Peter Cohen, proponho uma leitura que nos convide a repensar aspectos naturalizados e que demandam uma abordagem crítica. Afinal, não há prática arquitetônica sem teoria.

A estética arquitetônica está intrinsecamente ligada às disputas sociais. Cada transição estilística, seja a tensão entre modernistas e neo-coloniais ou outras mudanças de paradigma, evidencia que a arquitetura nunca pode ser considerada isolada de seu contexto histórico. As obras construídas são, acima de tudo, produtos de ambientes históricos e culturais, marcados por contradições sociais, políticas e econômicas. Reduzir a arquitetura a uma mera linguagem estética ou funcional é ocultar a influência concreta dos interesses de poder que orientam diretrizes, planos, projetos e até a escolha dos materiais construtivos.

Nesse sentido, a arquitetura atua como uma escritura, um documento que registra as lutas e disputas de uma sociedade na produção do espaço. Manfredo Tafuri exemplifica essa ideia ao analisar o modernismo, destacando a contradição entre a utopia revolucionária que fundamentava a ideologia moderna e a prática concreta, que se dissolveu sob o sistema capitalista. Dessa forma, a promessa de uma arquitetura libertadora frequentemente se transforma em instrumento de dominação e controle.

Esse cenário revela, ainda, o “esquecimento” dos estudos sobre Tafuri, reflexo da disputa por novas formas de organizar a sociedade. Embora seu trabalho seja historicamente relevante e conceitualmente denso, seu rigor metodológico nem sempre se coaduna com o discurso acadêmico contemporâneo  que tende a valorizar produções mais acessíveis e diretamente aplicáveis à prática do design, em favor dos interesses do capital e do poder. Essa tendência gera debates estilísticos automáticos, tratando a arquitetura como uma arte desconectada de sua função social. Em tempos de automação, inteligência artificial, tecnologias digitais e globalização dos processos construtivos, a crítica torna-se indispensável. Hoje, obras pragmáticas e orientadas pelo mercado ilustram exatamente o que Tafuri apontava: a organização da arquitetura atua como um mecanismo de controle e representação do poder.

Ao construir mundos contrastantes, como os de Dubai e Orangi Town, esse modelo evidencia a dualidade entre a prática imediata e a reflexão crítica. Enquanto a linguagem dos projetos contemporâneos privilegia inovações rápidas, a análise dos fundamentos teóricos possibilita uma compreensão integral do processo de produção do espaço. Conhecer a teoria que molda nosso campo fortalece nossa consciência crítica e profissional, revelando o que realmente estamos produzindo enquanto trabalho.

Na escola modernista, e entre seus discípulos, inclusive esse que escreve, havia a aspiração de transformar a sociedade por meio da arquitetura. O objetivo era criar espaços que não apenas abrigassem, mas também emancipassem os indivíduos, promovendo uma profunda reconfiguração das relações sociais, políticas e econômicas. Acreditava-se que essa nova arquitetura poderia servir de alicerce para uma sociedade mais justa e igualitária, onde o ambiente construído expressasse a libertação humana. Crer no potencial transformador da arquitetura é, de fato, um ideal compartilhado.

Entretanto, na prática contemporânea, essa utopia é frequentemente apropriada e subvertida pelos próprios mecanismos do sistema. Projetos emblemáticos emergem sob o manto da inovação e modernidade, mas, na realidade, estão marcados pela lógica do consumo, do espetáculo e da exclusão. Arranha-céus  que deveriam simbolizar a grandeza arquitetônica acabam se transformando em complexos sistemas de engenharia e automação, onde elementos como elevadores, fluxos de circulação, condicionamento de ar e a separação entre o natural e o construído definem a estética, como exemplifica o Burj Khalifa. Dessa forma, o espaço destinado à realização de ideais emancipatórios torna-se um palco para a concentração de poder econômico e riqueza, reafirmando as estruturas de dominação.

Outra ilustração dessa tensão encontra-se nas iniciativas de “smart cities” e no conceito da “cidade dos 15 minutos”, amplamente debatidos em centros urbanos como Paris. Embora tais propostas prometam uma organização mais integrada e sustentável do espaço urbano, na prática, a ausência de políticas inclusivas faz com que seus benefícios se concentrem em áreas já privilegiadas, diluindo seu potencial revolucionário. O uso intensivo de tecnologias para monitoramento e gestão urbana revela um duplo caráter: a promessa de melhoria na qualidade de vida contrasta com o aumento da vigilância e do controle social. Em cidades como Rio e São Paulo, por exemplo, a persistência de altos índices de violência, frutos de décadas de desigualdade, descaso e falta de investimentos em educação, demonstra que sistemas de segurança privados, como as “câmeras da Gabriel” mencionadas neste texto aqui, não resolvem os problemas de fundo.

Enquanto, por um lado, pregávamos o sonho revolucionário da arquitetura, a proposta de Trump evoca o reacionarismo ao defender o retorno ao estilismo clássico, justamente questionado pelo modernismo. Esse retorno nos surpreende, pois, parafraseando Latour, nunca deixamos de ser modernos. Mas o que Trump pretende comunicar com esse aparato estético? Ao revisitar as Beaux-Arts, ele define um conceito próprio de beleza e de expressão cultural, afastando-se do capital contemporâneo e evocando um tempo que se perdeu. Ao apelar para um passado repleto de signos que persiste em nossas memórias por meio de contos e histórias  ele se vale de uma arquitetura que jamais foi concebida para solucionar os problemas fundamentais da população, como a reabilitação de bairros carentes ou a crise habitacional, questões centrais no pensamento moderno e revolucionário. Nosso estranhamento reside no fato de que o tempo evocado por Trump não se coaduna com nossa perspectiva contemporânea. O neoclássico que o inspira carrega um discurso e uma estética do século XVIII e anterior, símbolo de uma era marcada pelo Iluminismo e pelas revoluções francesa e americana, mas também uma era altamente escravagista e um sonho de passado utópico.

Dessa forma, somos convidados à reflexão. A abordagem teórica que vai além da mera descrição dos estilos e projetos procura revelar as condições socioeconômicas e políticas que moldaram cada momento histórico, exigindo uma análise criteriosa dos contextos de produção e das narrativas oficiais. Essa postura crítica nos instiga a questionar a eficácia e o impacto dos projetos arquitetônicos, bem como a própria essência da disciplina. Apesar do aparente desinteresse contemporâneo pelos estudos de Tafuri, possivelmente decorrente da ênfase em soluções tecnológicas e mercadológicas e da proliferação de novas abordagens teóricas alinhadas ao capitalismo global , sua obra continua a oferecer um olhar essencial para questionar os pressupostos que regem a produção do espaço.

Compreender os mecanismos que moldam o o meio ambiente construído fortalece nossa capacidade de atuar com menos ingenuidade e de reconhecer que a arquitetura não se resume ao “como” projetar, mas, sobretudo, ao “porquê” de projetar, estando imersa em complexas relações de poder, ideologia e história. O que Trump acaba por nos revelar é esse efeito: uma construção de linguagem de poder fundamentada na representação estética. Ao romper com a linguagem que naturalizamos, expõe nossa própria contradição. De certo modo, estamos todos nus enquanto representantes de uma arquitetura do poder em disputa.

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Jovens Arquitetos e Futuro

Os jovens de hoje cresceram conectados. Acostumados com redes sociais, fóruns online, plataformas digitais e games em rede, pertencem a um mundo repleto de ferramentas que permitem organizar ações de forma rápida e articulações horizontalizadas. A arquitetura no entanto, ainda opera sob dinâmicas de mercado saturado , elitizado e atravessado por desigualdades estruturais. Recessão, machismo estrutural , desvalorização profissional e classismo são alguns dos enfrentamentos cotidianos de quem se forma no país.

Atualmente, o Brasil conta com mais de 200 mil arquitetos e urbanistas registrados no CAU/BR. Apesar desse crescimento, a falta de investimentos públicos e privados no setor da construção civil e a crise imobiliária, ausência de industrialização e de um plano nacional de habitação colocou a categoria e na verdade todo o campo da construção civil em um limbo. Cerca de 60% dos arquitetos brasileiros trabalham de forma autônoma , a maioria, enfrentando precarização e instabilidade. Para as mulheres, que representam a maioria entre os formados, a realidade é ainda mais árdua: desigualdade salarial , assédio e invisibilização profissional fazem parte do cotidiano. Em um mercado altamente elitizado, muitos desistem da carreira, migrando para áreas correlatas ou aceitando condições de trabalho precarizadas em qualquer área pra sobreviver.

Quando estudante, lembro-me de algumas táticas. Sem dinheiro para conhecer o mundo, desbravei-o nas bibliotecas da FAU. Lia em todos os meus tempos vagos, revistas, livros, artigos, teses. Porém não falarei sobre isso agora. Para este texto vou citar 3 documentos que me auxiliaram na auto-organização: o livro Manual do Arquiteto Descalço (aqui); o documento da FNA, na época da gestão Jeferson se não me engano, Manual de Defesa Pessoal do Jovem Arquiteto e Urbanista (aqui), e mais atualmente a Cartilha T.A.B.A. Trabalhadores Articulados em Benefício da Arquitetura (aqui).

A verdade dura é: minha geração já não via muito futuro na profissão, pois a forma estruturante dela é para poucos terem sucesso.

Apesar das enormes dificuldades deste porvir, os jovens de hoje têm à disposição ferramentas e práticas que podem revolucionar o campo da arquitetura, na verdade do trabalho. Redes sociais e plataformas digitais como Discord, Instagram e TikTok já estão sendo utilizadas para criar comunidades de troca e apoio . Diferentemente da minha geração, que utiliza essas ferramentas de forma mais expositiva, os mais jovens constroem nichos e espaços de diálogo muito próprios que desafiam a lógica tradicional. Para além do entretenimento, o que precisamos é otimizar estas ferramentas para articulação. 

Jovens Arquitetos podem utilizar esses espaços para compartilhar oportunidades de trabalho, oferecer ajuda técnica e podem divulgar projetos colaborativos em redes de interesse mútuo ou complementar. Um exemplo inspirador no Brasil é a rede Arquitetos pela Moradia , que conecta e articula profissionais e estudantes interessados ​​em Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) . O grupo promove debates sobre políticas habitacionais, divulga editais e cursos, e fomenta projetos que impactam comunidades locais.

No âmbito internacional, iniciativas como o Open Architecture Collaborative (nascido do Architecture for Humanity), nos Estados Unidos, demonstram o poder do trabalho coletivo. Esse grupo cria projetos de impacto social em áreas vulneráveis, promovendo soluções de habitação e infraestrutura. Na Colômbia, o MU Micro Urbanismo em Bogotá realiza intervenções urbanas táticas em comunidades periféricas, promovendo a transformação de espaços públicos negligenciados.

Esses exemplos mostram que, em contextos de crise, a organização coletiva pode ser uma ferramenta poderosa de transformação econômica e social. No Brasil, movimentos autogeridos como mutirões, cooperativas, coletivos culturais e coletivos de assistência técnica e melhorias habitacionais, assim como coletivos de jovens arquitetos realizando diversas entradas de trabalho e experimentações podem propor um novo paradigma para a arquitetura.

Táticas de Ação: Como Começamos um Coletivo de Arquitetura?

  1. Forme o Grupo
    • Identifique colegas com interesses em comum. Um coletivo pequeno e bem alinhado é mais eficaz do que grupos dispersos. Não precisam ser necessariamente arquitetos.
  2. Organizar Grupos de Estudo
    • Utilize bibliotecas públicas, materiais online e promova rodas de debate. Estude além da sala de aula para entender como aplicar o conhecimento na realidade local.
  3. Crie uma Rede Digital
    • Use plataformas como Discord, telegram ou WhatsApp para organizar canais dedicados a oportunidades de trabalho, compartilhamento de materiais e discussões sobre temas de interesse global e local: justiça ambiental, urbanismo sustentável, crise climática e assistência técnica, por exemplo.
    • Um coletivo deve possuir uma agenda ativa de ações. Rodas de conversa, grupos de estudo, cineclubismo, oficinas de experimentação e projetos utópicos, estudos de estética, estudos políticos, entre outros.
  4. Mapeie Demandas Locais
    • Identificar espaços públicos ou habitacionais que necessitem de intervenção. Use ferramentas como o Google Earth para mapear condições e criar um portfólio. Conheça sua vizinhança, caminhe e identifique os problemas, produza documentos pessoais, compreenda a economia que gira em torno da construção de uma casa popular periférica.
  5. Busque Apoio e Financiamento
    • Articule-se para, quando apresentar o portfólio e a proposta de impacto social do coletivo, ter capacidade de pleitear recursos.
    • Auxiliar ONGs, Cooperativas, associações de moradores ou coletivos a realizar ações de melhorias. Disputar editais, organizar-se para acompanhar metodologicamente os instrumentos de fomento, assim como captar recursos via ferramentas de doação colaborativa. 
  6. Realize Projetos Colaborativos
    • Comece pequeno: revitalizar uma calçada, criar mobiliário urbano sustentável ou promover oficinas de educação ambiental, de estudo do lugar, de memórias afetivas.

A formação em arquitetura nos capacita com habilidades que vão além de projetos e obras. Cito alguns que considero interessantes. O olhar generalista e multidisciplinar, que comunga técnicas exatas, artes e ciências sociais aplicadas, nos dá flexibilidade para atuar em outros campos de trabalho. A capacidade de análise sistêmica é altamente valorizada em setores como gestão de projetos , consultoria estratégica e inovação tecnológica . A habilidade criativa nos conecta a áreas como design de serviços e publicidade, além de áreas que exigem soluções inovadoras para problemas. 

O equilíbrio entre conhecimentos técnicos e sociais também permite que arquitetos transitem por áreas como políticas públicas , consultoria ambiental e empreendedorismo social. Assim, apesar da recessão, um bom preparo pode nos levar a algumas possibilidades que ampliam o horizonte de atuação e mostram que a formação em arquitetura apesar de não ser o principal elemento, se torna um ativo importante.

Estudar é um Ato Político

Lembro-me de uma frase que se lia num banheiro público e que sempre ouvi nos tempos de FAU: “Não deixe a faculdade atrapalhar seus estudos”. Estudar, no sentido amplo, vai além das aulas e exige esforço ativo. Quando jovens arquitetos se reúnem para aprender juntos, estão resistindo a um modelo de educação que prioriza a competitividade em detrimento da colaboração. Círculos de estudo livres podem ser sementes de movimentos maiores, assim como os cafés modernistas ou os escritórios brutalistas um dia o foram. Teoria e prática não andam separadas.

Em uma economia de recessão, a utopia também é panfleto. Muitos movimentos da Arquitetura se organizaram a partir de projetos panfletos, de produção de ideias, narrativas, discursos utópicos, experimentações teóricas. Cidades futuristas do Archigram ou o Cenotáfio de Newton de Boullée, são exemplos interessantes de arquiteturas sem sombra. Curioso, usei o termo panfleto alguns dias após tê-lo criticado em dois textos anteriores sobre organização política. Mas aqui cabe.

Conclusão

A arquitetura nunca foi apenas sobre construir prédios. Os desafios do mercado brasileiro são reais, mas as oportunidades para transformar a profissão também. A recessão constante e a desvalorização nos mostram que o modelo está muito equivocado. Nosso esforço atual precisa caminhar para a transformação do campo de trabalho, é um esforço que exigirá a emancipação da profissão e o realinhamento dela com as necessidades do Brasil Real.  Ao organizar-se, estudar juntos, criar redes, elos e cooperativismos e agir coletivamente, jovens arquitetos podem criar algo novo, redefinindo o papel da arquitetura na sociedade. Fica como um pequeno convite à ação. 

archigram cities: veja aqui

@rodrigobertame

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Ciberassentamentos: Como Enfrentar o Domínio das GAFAM

vale do silicio flerta com trump leia em:https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2025/01/vale-do-silicio-flerta-com-trump.shtml

O Paradoxo GAFAM

As manifestações de apoio de lideranças do Vale do Silício ao governo Trump reacendem questões pertinentes: como as corporações digitais moldam o comportamento humano e restringem a liberdade social? E, mais importante, como nos instrumentalizar para enfrentar esse poder?

Vivemos em um mundo onde o poder digital não opera como uma estrutura hierárquica simples. Google, Amazon, Facebook (Meta), Apple e Microsoft (GAFAM), para além de controlar fluxos globais de informação, operam redes complexas que mercantilizam desejos e fetiches humanos. Embora suas plataformas permitam a comunicação coletiva, essas redes, alinhadas com a ideologia vigente, incentivam a busca incessante pela construção de indivíduos, enquanto marginalizam as relações de comunicação coletiva, compartilhamento de informações úteis, dados e articulação social. 

As GAFAM criam territórios digitais, controlam protocolos, algoritmos intencionalmente opacos ao usuário comum e fluxos de dados, regulando assim o comportamento da sociedade no espaço digital. Esse modelo gera um paradoxo: embora se baseiam em redes distribuídas, as decisões de controle permanecem centralizadas em poucas corporações.

Isso impede a definição de um eixo central para protestos e boicotes contra as empresas. O poder dessas redes é fluido, ajustando-se rapidamente às tensões e capturando a subjetividade dos usuários, que, ao criar conteúdo, alimentam o sistema que os transforma em produtos. 

Diante dessa conjuntura, a resistência deve ser tão fluida e híbrida quanto o próprio sistema dominante.

A resistência às GAFAM deve transcender o digital, articulando-se com movimentos territoriais reais. Ferramentas descentralizadas, como Mastodon e Peertube, oferecem alternativas interessantes, transparentes e autônomas, conectando demandas locais e globais em uma rede híbrida de colaboração.

As redes sociais hegemônicas criam “vidas condominiais”, limitando a liberdade e autonomia dos usuários. Para escapar desse cerco, é necessário fomentar o uso de plataformas descentralizadas sem abandonar completamente as grandes plataformas. Compreender os protocolos de cada rede ajuda a desenhar estratégias eficazes de uso. Sistemas como Matrix, Discord e IPFS, tecnologia peer-to-peer pode nos ajudar a criar um ecossistema organizativo alternativo. Assim como as comunidades locais organizam encontros e mutirões, essas plataformas podem servir como espaços para a troca de saberes e para a coordenação de ações territoriais e globais.

Hackear os Protocolos por Dentro é preciso!

Uma resistência ao GAFAM pede que subvertamos seus protocolos internos. Em vez de lutar apenas por regulamentações mais restritivas, é necessário exigir por exemplo interoperacionalidade entre plataformas. Permitir que os usuários possam transitar entre redes sem perder contatos, rastreabilidade e histórico de dados.

Explorar brechas nos algoritmos também nos é crucial para redistribuir a recepção de conteúdos e amplificar vozes independentes. No entanto, uma falha nossa comum é tratar as redes como canais panfletários, ignorando elementos que favorecem engajamentos orgânicos, como debates, opiniões pessoais e interações dinâmicas. Campanhas não podem ser reduzidas a mero compartilhamento em massa de uma postagem. Isso funcionava no tempo dos panfletos, porém na geografia das redes, precisamos criar um ecossistema plural das mensagens que queremos transmitir.

Movimentos locais, como organizações de trabalhadores digitais e coletivos de criadores de conteúdo, podem formar redes de educação e mobilização. Por meio de ações coordenadas, como boicotes globais a plataformas específicas ou campanhas para desmascarar práticas oligopolistas, é possível criar um impacto significativo. Imagine, por exemplo, um protesto digital iniciado no Brasil que articule greves trabalhistas no México: com conexões corretas, isso se torna uma possibilidade concreta.

Embora as redes sociais tradicionais continuem hegemônicas, é possível usá-las estrategicamente para impulsionar movimentos. Ações interplataforma, com o uso de canais seguros para organização, articulação e comunicação, podem germinar movimentos virais que desviem a atenção de algoritmos dominantes, exponham as contradições e furem brechas das redes.

A exploração de redes distribuídas permite construir resistência que não depende de lideranças centralizadas. Conectar plataformas independentes para produzir ações coordenadas, transformar pequenos grupos em coletivos de inovação social e dar visibilidade às consequências sociais, econômicas e políticas dessas ações são passos importantes.

Futuros da Resistência: do Ciberassentamento ao Cibersindicalismo

Resistir ao domínio das GAFAM exige uma abordagem que combine esforços locais e globais em uma rede de redes, construindo múltiplas camadas de ação. Um cibermovimento ou cibersindicalismo ofereceria um caminho para disputar o espaço das tecnologias digitais e enfrentar o furto de nossa produção de vida, esse trabalho que desempenhamos para as redes em troca de dependência e vício. Essa prática organizativa une o melhor do virtual e do real, resgatando a utopia das plataformas livres e suportes comunitários que marcaram o início da internet.

A experiência histórica de movimentos como o MST, os zapatistas, comunidades indígenas andinas ensina que a luta por territórios não se limita à terra física, mas inclui a construção de redes de solidariedade, a ocupação simbólica e a criação de formas autônomas de organização. Esses movimentos demonstram como a interconexão de coletividades pode superar fronteiras geográficas, articulando resistências locais em um plano global. Articular formas operacionais de organização que se inspirem nestes modelos, com suas devidas proporções, nos permite pensar em ocupar os territórios virtuais controlados pelas GAFAM, e de forma descentralizada, utilizar as ferramentas tecnológicas para criar espaços de autonomia e troca.

Podemos propor um território sem fronteiras, território-movimento, mobilizado pelas práticas colaborativas, conectando a luta física com a virtual em uma lógica de constante dinâmica. O futuro da resistência estaria assim na construção deste “ciberassentamento”, onde a autonomia e a criação se desenvolvem de forma descentralizada e conectada. Hackear as brechas e limites das redes, por sua vez, será um exercício constante das lutas, mas absolutamente necessário para exercer nosso potencial de transformação social.

cena da colher: filme Matrix.

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