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Contradições, Delírios e Utopias. A Política Precisa Escutar as Margens

“Sou negra, lésbica, toco na noite e não vou votar no candidato de vocês. Quero que me expliquem o porquê.” Uma jovem abruptamente pegou um panfleto das nossas mãos e lançou esta frase. Lembro-me até hoje da campanha eleitoral. Distribuíamos panfletos para uma eleição onde Marcelo Freixo (candidato pelo PSOL) disputava a prefeitura contra Crivella (representante da Igreja Universal), no pólo gastronômico de Vista Alegre.

Parece estonteante, à primeira vista. A militância, embebida em suas certezas e métodos, não está habituada a lidar com contradições tão explícitas. No lugar de argumentos automáticos, optamos por simplesmente sentar e ouvir. “Me explique você o porquê”, dissemos.

A jovem, negra, lésbica e música da noite, frequentava ativamente uma igreja batista onde encontrou acolhimento e pertencimento. Para ela, a fé, diferente do que muitos imaginam, nunca foi fonte de intolerância ou desrespeito. Pelo contrário, foi ali que encontrou segurança e aceitação. Quem conhece o cristianismo evangélico sabe de suas múltiplas expressões, das mais acolhedoras às mais excludentes e intolerantes.

Escutar a jovem, genuinamente e sem julgamentos, foi nosso maior ato revolucionário naquele momento.

Ao final, ela compreendeu que Crivella, representante de um modelo institucional da Universal, não representava os valores da Igreja Batista que a acolhia. Nós, por outro lado,compreendemos que há mais profundidade diante das relações singulares do que supõe os cânones vermelhos.

Identidades e Fluxos: contradições no caminho das militâncias

Essa contradição não é um caso isolado. Nas periferias, onde as múltiplas crises da vida se entrelaçam, identidades rígidas não sustentam a complexidade da existência. Recentemente, li um texto de blog do Emilio Bazan Sanchez (link aqui) que questionava: Estamos limitando o potencial humano ao dividir a vida em caixas organizadas? Ele sugeria que uma visão mais fluida das identidades pode abrir possibilidades de crescimento individual e social.

Pensadores já vislumbravam essa fluidez. Beauvoir, ao dizer “não se nasce mulher, torna-se”, indicava a mutabilidade de quem somos e a forma como as definições são construídas socialmente. Deleuze, numa alegoria que gosto, agenciava um cavalo de carroça ao boi de carga, distanciando-o do cavalo de corrida. O que importa para a turma de 68, é o processo contínuo, o devir e não um estado fixo, essência divina, casta.

Contudo, no mundo real, essa fluidez encontra resistência. O ser humano busca conforto nas caixinhas organizativas. Políticas públicas, por exemplo, precisam categorizar e padronizar para alcançar resultados concretos. Estruturamos nossa vida social a partir destes limites. Porém, ao cristalizar identidades, excluímos uma enormidade de pessoas que não se enquadram na escritura de significados da identidade. Na vida real, transitamos simultaneamente por diversos papeis: colegas, pais, amigos, vizinhos, trabalhadores, para cada papel há um jeito de perceber e vivenciar nossa identidade. Somos fluxos, redes em constante mutação. Como acolher as contradições sem perder o sentido de coletividade? Como agenciar as singularidades em identidades e complexidades ao mesmo tempo?

Para superar as crises do nosso tempo, precisamos encarar as contradições de frente, quiçá mergulhar nelas. Como integrar os desencaixados de nossos “sonhos tão mesquinhos” de revolução? Afinal, é utópico pensar em justiça para as minorias enquanto não conseguimos escutar sequer as demandas de uma jovem negra, lésbica e evangélica.

A militância de esquerda, historicamente centrada em organizações, categorias e bandeiras, precisa reconhecer que antigas estratégias já não dialogam com a complexidade contemporânea. Urge construir ações que acolham contradições e singularidades. Isso exige escuta ativa, valorização da pluralidade, integração com o divergente e, acima de tudo, ações práticas.

Reconhecer que expressões culturais, mesmo aparentemente contrárias às nossas crenças, têm valor social intrínseco e podem ser pontos de conexão entre os explorados. Devemos permitir que os povos periféricos articulem suas demandas sem o paternalismo de quem dita as pautas, inclusive as nossas pautas. É essencial construir alianças verdadeiras, abertas e ampliadas, mesmo que não caibam em categorias pré-definidas.

Ressignificar o Acolhimento: um novo caminho para a revolução

O reacionarismo sabe usar o conceito de “pátria” como uma quimera de unidade popular, vendendo um passado irreal como futuro paraíso perdido. A esquerda, muitas vezes, cai na mesma armadilha, trocando apenas a cor da moeda. Ressignificar o acolhimento, a meu ver, é nosso desafio. Não se trata de apenas reagir ao conservadorismo, mas de inspirar esperança concreta, conectando sonhos coletivos às condições reais de quem vive às margens. Criar um novo desejo não é simples, eu sei, mas precisamos dar o primeiro risco no papel.

Um devaneio: um jovem ambientalista evangélico que mora em uma casa ribeirinha. Ele está mais próximo da realidade sofrida dos povos originários do que de uma liderança rica de uma mercoigreja. Sua identidade coletiva, para a esquerda, pode ser a de um ribeirinho. Mas, para ele, talvez seja mais importante ser um profeta de Deus em sua rua. Ignorar essa contradição e esse jovem é cair num dualismo que nos isola.

Entre Martin Luther King e Silas Malafaia, há um abismo ético. Há uma contradição histórica entre Abdias do Nascimento e o Integralismo. São nesses espaços tensionados que a complexidade humana se revela, e desde algum tempo, são nestes espaços de tensões que prefiro caminhar politicamente. Entendo que a militância precisa agir nessas margens, navegando as crises lendo as letras miúdas que ninguém quer ler.

Como ensinou Zaratustra: “Por variados caminhos e de várias maneiras cheguei à minha verdade.” O futuro exige que atravessemos as identidades como fluxos, redes e elos. Não importa tanto quem somos, mas quem podemos ser com as ferramentas que temos disponíveis.

Navegar bem na crise não é apenas sobreviver. É criar, acolher e construir um lugar mais humano, onde as contradições se tornem pontes. Esse lugar não estará pré-definido em nossas bandeiras nem será o resultado de sonhos fixos em um passado quimérico. Creio que este lugar será construído por um mosaico de vidas que ousaram não temer o outro, o diferente, o divergente, o desajustado. Vidas pobres, e pensem, ainda assim não é simples compreender a pobreza, afinal temos muitas gradações e escalas de pobres, cada qual com um universo girando em suas singularidades enquanto são explorados pelas máquinas de moer corpos. Porém, se não fazemos parte dos 1% que controlam o mundo, somos todos parte de uma ralé que precisa encontrar novas formas de sonhar e novos mundos para construir dentro deste mesmo mundo.

Foto: Solen Mourlon/MSF – original: https://www.msf.org.br/noticias/por-que-a-crise-climatica-e-tambem-uma-crise-humanitaria-e-de-saude/

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Um dia do Arquiteto

Esta semana celebramos o Dia do Arquiteto e Urbanista no Brasil. Uma profissão curiosa e pitoresca. Parece-me um ofício tão essencial à sociedade e, ao mesmo tempo, tão supérfluo. Multidisciplinar, multi-escala, mas, convenhamos, nunca esqueçamos: é um ofício, um trabalho.

A carreira do arquiteto é vendida com um ar de vislumbre exclusivo. Não sei se chegamos a ser capitalistas. Tenho minhas dúvidas. Creio que somos aristocratas. As boas relações, o prazer do afago vaidoso, os elogios sinceros ou não, as capas de revista e vernissages parecem mais valiosos do que fechar o mês sem sufoco. A verdade nua e crua é: somos apenas proletários com bom gosto para cortinas e para boletos atrasados.

A arquitetura é essa jovem senhora que ainda mora na última mansão de um bairro que já foi chique. Ela observa a rua com relutância, escondida atrás de cortinas que não troca desde o enxoval de casamento. Do lado de fora, a vida acontece: o pau quebra, o churrasco estala, toca Naldo nas caixinhas JBL. Ela insiste no Chanel nº 5 comprado nos anos 80. Finge desgosto, mas dá pra ver o pé batendo discretamente ao som de “Amor de Chocolate”.

Ainda vivi um tempo em que as escolas de arquitetura recebiam grandes nomes como Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha e Zaha Hadid, gente que inspirava mais pelo gesto do que pelo marketing. Hoje, porém, a moda é influencer ensinando como ganhar milhões e lançando livros de autoajuda. Nada contra, afinal, nem eu tenho uma grande obra para vos apresentar. Enquanto isso, a profissão enfrenta recessão: evasão crescente, salários em queda e prestígio diminuindo. Sei que pareço um velho ranzinza, mas, no meu tempo, isso não era mato. Era paisagem.

Agora, na Delfim Moreira, vi varandas “orgânicas” e jogos de luzes de um edifício milionário tentando roubar o protagonismo da própria orla do Rio. Se me pagarem 38 milhões, talvez eu aceite morar lá. Mas, sinceramente, prefiro uma casinha de meia água com quintal e gramado na Praia Seca.

Minha irmã, formada em TI ou algo do tipo, me deu uma Caran D’Ache. Só mesmo alguém da tecnologia para bancar isso. Qualquer capitalista sabe que salário de arquiteto não banca essa lapiseira. E um bom comunista diria que é só parte do fetiche do imperialismo. Já o grafite? Compro na Shopee. Sei que é como ter uma Ferrari e instalar um kit-gás, mas esta é minha vida.

Enquanto discutimos formas orgânicas e conceitos abstratos no nosso baile da Ilha Fiscal, o povo mete a mão na massa e constrói a casinha pequenina que, cá entre nós, é a que eu gosto. “Ah, Rodrigo, não desvalorize tanto o seu saber!” Não o faço. Amo o saber e pratico o ofício. Mas aprendi com o velho Niemeyer que “o mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar.”

Feliz Dia do Arquiteto e Urbanista, ainda que atrasado!

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Fundamentalismo Contemporâneo e sua Ascensão nas Margens da Exclusão Social

O Fundamentalismo contemporâneo cresce na desigualdade. A grande insegurança social, econômica e, por que não, existencial, que o coletivo humano vivencia atualmente, torna-se um terreno fértil para que esse tipo de pensamento brote. Crescido a isso, temos uma hegemonia de redes de comunicação interpessoal, estruturadas de forma a reforçar esse tipo de pensamento. Exemplificando: muitas pessoas, inseguras de si, buscam respostas absolutas em discursos fechados nas redes sociais, encontram nestas seus pares e ficam alimentando comunidades que repelem o contraditório. Se tornam assim um campo fértil para o dogmatismo e polarização social.

Primeiro, o que considero fundamentalismo quando escrevo aqui: Quaisquer formas de pensar e se organizar socialmente que tenham: rigidez ideológica, busca por uma liderança ou estruturas hierárquicas que reforcem obediência e controle, ausência de diálogo entre as diferenças, gerando intolerância e exclusão e resistência a transformações sociais, culturais e políticas e reforço ideológico com base em dualismo maniqueísta (sempre haverá um mal a combater). Tendo dito isso, percebemos que a leitura não se prende a uma visão religiosa, como o senso comum está acostumado e muito se ampara para tratar o fundamentalismo como algo a parte do seu dia a dia. Quando pensamos, por exemplo, em certos grupos online que se reúnem para definir regras de comportamento e valores morais, percebemos como a força e o controle se sobrepõem à diversidade e ao diálogo, resultando em hostilidade contra qualquer perspectiva que divirja da norma estabelecida pelo grupo.

Regiões historicamente marcadas pela desigualdade, marginalização e falta de infraestrutura tendem a ser mais vulneráveis ​​ao surgimento de pensamentos fundamentalistas. Nas comunidades periféricas, onde a exclusão social é evidente, imagine um jovem que cresceu em um bairro periférico onde o Estado pouco aparece e os direitos básicos são precários. Ao ser privado de acesso digno aos direitos materiais e subjetivos, necessários para o bem-estar, ele busca construir algum sentido de comunidade e segurança.  Diante da perda cultural, abraça portos seguros que lhe são apresentados. E aqui a religião acaba por ter um papel importante. Ao prover um senso de futuro seguro e de paz, desde que seguidos um secto de dogmas, provém a resposta simbólica.  Além disso, cria um elo comunitário entre os fiéis, oferecendo alto material e simbólico ao mesmo tempo.

Em um mundo extremamente mutável e com um futuro imponderado e instável, a necessidade de controle se torna quase um acontecimento natural. Assim, apegar-se a crenças fixas e absolutistas, recusar o dissenso e a contradição como parte da experiência humana na Terra e buscar certezas simplistas servem como defesa psicológica. Um exemplo disso é a tendência que muitos têm de se refugiar em doutrinas, grupos e seitas que oferecem respostas definitivas para suas angústias. Constitui-se no indivíduo o medo da mudança como uma forma de manter sua identidade estável em meio ao caos.

Quando isso se expõe ao coletivo, ele se torna a defesa diante da ameaça aos valores tradicionais e à identidade coletiva. Em um mundo de niilismo e sofrimento extremo, é compreensível que as pessoas queiram preservar os pequenos momentos de paz e amor que sentem em suas comunidades, como uma reunião de vizinhos que compartilham da mesma opinião e rejeitam “ameaças” externas. O elo com nossos iguais. Esse elo é reforçado, por sua vez, dentro de um discurso ideológico (maquinado verticalmente ou organicamente em redes complexas) que prega a homogeneidade do grupo, criando uma visão de “nós contra eles”. Essa visão reforça tanto laços internos quanto hostilidade aos diferentes. Eu sou pois o outro não é. É uma lógica que permite até pequenas interações do dia a dia, como a evidência defensiva de um grupo que se fecha contra críticas externas ou de famílias que se dividem em posições políticas opostas, cada uma vendo a outra como inimiga.

O grande problema deste “eu contra o outro” é que ele alimenta um clima de conflito que, além de reduzir o poder dos laços comunitários, pode extrapolar os limites do diálogo e entrar no circuito da indústria de guerra. Afinal, a lógica dos movimentos fundamentalistas é um ótimo campo de prospecção para manter e expandir seu mercado. Esse tipo de geopolítica do fundamentalismo constrói uma identidade coletiva. A lógica dos movimentos fundamentalistas torna-se um terreno fértil para a manutenção e expansão do mercado armamentista, com as empresas do setor lucrando com a venda de armas que “protegem a identidade ameaçada” desses grupos.

A indústria de guerra e o fundamentalismo muitas vezes se retroalimentam. Assim, a indústria armamentista se aproveita desses cenários para a venda de armamentos, reforçando a narrativa de que o aumento de arsenais é essencial para proteger o Estado ou uma identidade ameaçada. Influenciam políticos e lideranças influentes para promover políticas de militarização, aumentando os orçamentos de defesa, e direcionando-os principalmente para a venda de equipamentos bélicos em larga escala, ignorando as possibilidades de diplomacia, diálogo e estratégia de inteligência. Afinal, a indústria lucra com a manutenção controlada dos conflitos, ocorrendo em escalas diversas desde a construção de porta-aviões e bombas atômicas ao comércio de fuzis que circulam legal e ilegalmente.

Este tipo de geografia global na sociedade contemporânea, nos ajuda a compreender como as periferias globais se tornam reféns passivas ou voluntárias ou até mesmo crentes nestas guerras ideológicas. O fundamentalismo pode nascer em quaisquer frentes que tenham material suficiente para tal: seja ele no conflito Israel Palestina, seja no evangelismo do complexo de Israel sejam nas inúmeras guerras africanas. Também pode ser encontrado em territorialidades como as grandes polarizações políticas cujo debate e construção diplomática se perde para um populismo apaixonado desenfreado que desmonta famílias em festas de natal. O fundamentalismo contemporâneo seca a esperança, sufoca o diferente, mata o outro e usa da miséria e do desespero de muitos para retroalimentar seus podres poderes.

O grande paradoxo está no fato de que: quanto mais íntimos nos tornamos do outro, percebemos que somos muito mais diferentes do que iguais e este é o ponto onde somos humanos demasiado humanos. É exatamente essa diferença que faz os humanos criarem os pontos disruptivos que movimentam a cultura e a vida como um todo. E isso por si já demonstra que, o senso de comunidade gerado em torno dos pensamentos fundamentalistas não é tão comunitário assim, pois não coloca como principal a partilha e solidariedade acima de tudo. Em vez disso, a identidade é construída a partir da existência de um “outro” a ser combatido, e não de um amor fraterno amplo, capaz de, como São Francisco de Assis, abraçar a mãe Terra e todos os seres que nela habitam.

Deixo esse texto como uma humilde reflexão sem muita pesquisa. Deixo-o e sigo no campo que mais me agrada caminhar nos territórios. O campo da contradição, do imponderado e do casuístico. Gosto deste lugar onde o bem e o mal não precisa disputar uma verdade fixa, mas se encontra na caminhada da vida, no jogo e no baile entre os dois. As armas sempre vão encontrar as mãos de um iludido que se acha esperto e as balas sempre vão encontrar o corpo de um pobre que nada tinha a ver com o conflito.

imagem original de Viviane Costa: autora do livro: Traficantes evangélicos: Quem são e a quem servem os novos bandidos de Deus (livro que ainda preciso ler) – link na Amazon Aqui
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Arquitetura e Bioeconomia: Caminhos para um Brasil Sustentável

Proponho uma leitura possível de Brasil que integre três conceitos interessantes para projetarmos novos tempos, na verdade dois conceitos e o meu ofício: bioeconomia, biossegurança e arquitetura. Embora esta construção exija uma base de pesquisa acadêmica sólida para um aprofundamento efetivo, pretendo humildemente oferecer uma abordagem que funcione como ponto de partida para reflexões e ações. Neste texto, tento conectar esses conceitos para pensarmos em um desenvolvimento sustentável capaz de unir a alta tecnologia e a industrialização necessária com a preservação ambiental e inclusão socioeconômica, em um país periférico e vulnerável como o Brasil.

O Brasil, com sua biodiversidade e populações vulneráveis ao lado de atividades industriais, precisa se apropriar dos conceitos de bioeconomia. Este é um ponto crítico, pois ainda não há um marco regulatório para a bioeconomia, e estamos lidando com um campo repleto de violentas disputas, que frequentemente vitimizam os povos mais vulneráveis, povos estes que deveriam ocupar o protagonismo das políticas nacionais de manejo sustentável. Assim, é crucial instrumentalizar juridicamente o país para que os conhecimentos locais sejam integrados aos processos industriais sem exploração cultural e econômica de povos vulneráveis, possibilitando colaboração para todos.

A bioeconomia surge como um modelo potencial para unir tecnologia, sustentabilidade e uso racional dos recursos biológicos, apontando para um desenvolvimento mais sustentável. Políticas públicas e linhas de crédito específicas podem fornecer suporte essencial a essas populações, promovendo estratégias de desenvolvimento que conectem alta tecnologia e economias locais sem comprometer a autonomia das comunidades.

No contexto brasileiro, setores industriais como o farmacêutico, o petrolífero e o alimentício poderiam atuar em sinergia com economias populares, valorizando saberes tradicionais de comunidades indígenas e ribeirinhas. Contudo, implementar essa visão encontra desafios práticos e requer soluções que viabilizem essa interação de forma justa.

Alcançar uma industrialização avançada e sustentável depende de alinhar o desenvolvimento tecnológico aos princípios da bioeconomia, inclusive para atrair investimentos. Comunidades indígenas e ribeirinhas podem oferecer conhecimentos valiosos às indústrias farmacêuticas e alimentícias, desde que seja garantido seu protagonismo e seguridade de direitos na gestão do patrimônio genético e dos saberes tradicionais, criando um ciclo de respeito às práticas culturais e ao território.

A pandemia de covid 19 nos ensinou sobre outro saber fundamental contemporâneo. A biossegurança envolve ações e métodos de contenção de riscos biológicos, como barreiras físicas e medidas operacionais para evitar a liberação de agentes prejudiciais ao ambiente e à saúde pública. Embora esse conceito seja aplicado sobretudo em indústrias e laboratórios estratégicos, ele pode se expandir para o urbanismo, ajudando a tratar das fronteiras entre o urbano e o rural, o construído e o natural. Há potencial para desenvolver uma mentalidade projetual que centralize a saúde pública e coletiva nas decisões de planejamento territorial e arquitetônico.

O Brasil possui um potencial estratégico em bioeconomia, mas esse potencial exige investimentos estruturais de grande escala. Por meio de um planejamento urbano bioeconômico, cidades brasileiras podem avançar no uso sustentável dos territórios, preservando biomas e gerando renda local, evitando a expansão urbana em áreas preservadas e espraiamento desenfreado. Espaços urbanos com jardins comunitários e agricultura urbana fortalecem a coesão social e a segurança alimentar, assim como o uso concomitante de parte do sistema industrial que permite a massificação da produção girar em favor de produções de escala menor. E o desenvolvimento arquitetônico sustentável pode promover inclusão e mitigar os efeitos massivos das mudanças climáticas.

A estruturação desse futuro bioeconômico requer políticas públicas consistentes. Incentivos, linhas de crédito e centros de pesquisa são fundamentais para conectar o conhecimento científico aos saberes tradicionais, racionalizar os riscos das ações nocivas à natureza por parte da industrialização e fomentar no seio da sociedade o valor agregado em torno de uma vida mais verde. Fortalecer a engenharia nacional para garantir a infraestrutura tão sonhada do país, as redes educacionais e as redes de solidariedade é vital dentro deste projeto.

Integrar biossegurança, bioeconomia e arquitetura representa uma transformação estrutural profunda. É um projeto de longo prazo que depende de políticas sólidas e da colaboração entre setores diversos, incluindo e relacionando comunidades e indústrias. Com sua biodiversidade e riqueza cultural, o Brasil possui uma vantagem única para desenvolver modelos que possam servir de referência global. Essa é uma oportunidade que exige planejamento, mas que pode fundamentar um futuro sustentável e inclusivo.

Construir um Brasil que valorize inovação, preservação ambiental e justiça social depende de abordagens colaborativas que promovam uma economia inclusiva e responsável. O valor da bioeconomia está em disputa no mundo, e é imprescindível que os povos mais vulneráveis estejam organizados e constituam força política para disputar os marcos regulatórios e implementar sistemas de segurança jurídica que defendam a biodiversidade. O papel do arquiteto, nesse contexto, pode ser o de apoiar a criação de valores e relações espaciais que defendam solos protegidos, nascentes, terras indígenas demarcadas, reflorestamento, soluções urbanas e tecnológicas de baixa poluição. Para que essa transição verde ocorra, o papel da arquitetura e do urbanismo pode ser crucial, pois traduz em materialidade espacial as demandas e fomento das práticas de bioeconomia.

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Caminhos para Sobrevivência e a Urgência de uma Revolução Ambiental

Vivemos a intensidade de um novo mundo que se desenha entre tragédias. Este momento nos empurra para a borda de um novo modelo de vida, potencialmente transformador. Pela primeira vez, enfrentamos crises que atravessam a geografia desigual do planeta; o que antes parecia ficção, agora arrasta o coletivo.

A pandemia foi o primeiro grande alerta: um sinal de que as políticas públicas precisam superar fronteiras para alcançar essa nova esfera de interdependência. Em um passado recente, o pensamento progressista abandonou as disputas classistas e centrou-se na inclusão, na equidade, na justiça social, buscando a inserção democrática dentro do capitalismo. Hoje, porém, é inevitável incorporar à pauta uma dimensão ampliada que recupere o centro da discussão da produção e da desigualdade e inclua a crise ecológica – é na racionalidade sobre produção e consumo que repousa a sustentabilidade social, vital para a vida na Terra.

Sem essa dimensão, o sistema revela-se um organismo exausto. As enchentes em Valência são um retrato disso: a vasta extensão de terra tomada pelas águas grita uma realidade incontestável – não estamos prontos para os desastres naturais da era da superexploração. E no sul do Brasil, as chuvas caem sem distinguir no território, o recorte de classe. Desaba sobre todos, ainda que os mais ricos encontrem alguma proteção. Mas todos, sem exceção, sentem algum peso da tragédia.

Viver numa sociedade focada em mitigação e inclusão não resolveu o cerne da questão: o próprio modo de produção e reprodução do sistema está desalinhado com a capacidade de equilíbrio do planeta. A intensidade dos efeitos naturais sobre a vida humana exige uma ruptura, uma pausa que permita recomeçar – algo que soa utópico, até mesmo na literatura.

Contudo, é preciso lembrar: as tragédias globais apontam para a urgência de um modelo transformador. Crises são janelas para redesenhar o presente. A justiça climática poderia ser a base de um novo modelo, onde o poder econômico serve à sustentabilidade e à inclusão, rompendo o ciclo de exploração que multiplica as tragédias sociais e ambientais.

A pandemia nos deixou um eco profundo da fragilidade global e demonstrou a imensa necessidade da interdependência entre políticas públicas, saúde e sustentabilidade. O caminho aponta para a busca de sistemas de saúde integrados e políticas que criem uma “saúde planetária”, capaz de prever e mitigar futuras pandemias, reconhecendo o laço estreito entre degradação ambiental e zoonoses. Esse novo olhar sobre a vida – sistêmico, ecológico, preventivo – surge como urgência.

Asimov nos lançou um interessante paradoxo sobre tecnologia: “O fogo é perigoso a princípio, assim como a fala (…) mas os humanos não seriam humanos sem eles.” A tecnologia é parte do que nos define, ao mesmo tempo nos desafia. Em vez de apagá-la, devemos redirecioná-la, fazê-la pulsar por metas coletivas e planetárias, onde “techné” recupere seu sentido grego de habilidade útil, arte, equilibrada com a razão. Assim, não é a inovação tecnológica em si o problema, mas a ética que a rege.

Poderíamos então nos dedicar a outra ciência, uma ciência do ofício, do sensível e do toque ancestral. Em um mundo que se despedaça, recuperar o manejo sustentável da terra e dos biomas é inovador. A justiça ambiental emerge como uma expansão da luta por equidade, elevando o direito à vida para além da humanidade. A superexploração é um elemento a ser reescrito, com a diminuição das práticas extrativistas e a adoção de práticas regenerativas, ainda que isso traga rupturas profundas na organização global atual.

Adoramos a ciência moderna, que nos deu anos a mais de vida. Mas a imortalidade não é um parâmetro humano alcançável. Precisamos, talvez, de uma ciência que valorize a vida enquanto coletividade, que enxergue o humano demasiado humano enquanto um ser múltiplo, que deixe uma história viva após nossa passagem. Reconstruir escalas de valor, sem o romantismo de que a ação individual é o bastante. Um novo pacto passaria primordialmente pela articulação entre indivíduos, instituições e culturas. Formação de redes, encontro entre muitas vozes, ativismos locais, lideranças globais, são muitas as frentes que disseminam o caminho possível.

Há um desejo forte, de parte de lideranças globais, de estruturar uma governança para as grandes crises; mas essa iniciativa precisa das raízes locais, comunitárias. Precisamos atingir a microescala, aprender com a natureza a respiração de seus ciclos. Retomar o encontro do relógio maquínico com o tempo sagrado dos astros.

Alguns mitos e símbolos ancestrais nos ensinam sobre valores sustentáveis. Povos originários, em suas relações simbióticas com o sagrado da natureza, trazem outra ética. Em movimentos de direitos da natureza, como no Equador e Nova Zelândia, rios e florestas têm voz. Esse novo olhar ecológico, ao reintroduzir os mitos no debate ambiental, nos afasta da visão instrumental da natureza. Não falo sobre dogmas, verticalidades de pensamento, mas sobre o saber do sensível, da capacidade de religar-se com o que importa.

A urgência é, então, costurar a rede existente de forma que ela se entrelace com a governança global e local. Dar voz aos modelos de gestão e resistência que permitam decisões políticas concretas, enraizadas na realidade das micro escalas. Redes como o Navdanya, Pachamama.org, Rede Ambiental Indigena, Seed Freedom, Global Forest Coalition, Via Campesina, entre outros, nos permitem conhecer outros mundos possíveis. Mundos capazes de tentar frear o ciclo devastador e realinhar nosso modo de viver com as possibilidades reais do planeta.


Ultimo pedaço de terra livre

No alto dessa colina estamos reunidos sob o céu carregado. Somos camponeses, cientistas, poetas e anciãos de diversas etnias, unidos pelo propósito que nos sobrou. Transformar essa colina em um santuário de resistência e renascimento. Sem certeza de nada, apenas uma missão clara: desacelerar o tempo. Queriam, como quem retém a respiração, reconfigurar a existência.

Sentimos o peso da crise em cada camada da pele, mas ali, no silêncio coletivo, começamos a compreender o real significado do vínculo entre terra e vida. A humanidade, percebe atônita, não poderia sobreviver sem mudar o curso de seus passos.

Ali, plantamos as últimas sementes que nos alimentavam. A “ciência do toque”, técnica ancestral de cultivo e afeto com o ecossistema local. Ao lado do plantador, cientistas traduzem aquele saber em dados, replicáveis e espalháveis para outras comunidades. O que germinou em nós, espalhamos pelo mundo, como um fogo que arde em nome da cura. Será que há outros de nós por aí?

E no murmurar da madrugada que já não ve estrelas, em torno da fogueira debatemos um futuro onde a economia serve à terra e não o oposto. No silêncio da urgência,  esta é uma revolução do sensível. Se um dia o futuro existir, começaria exatamente ali, sob o céu em murmúrio e o último solo fértil e livre. Ali respiramos o tempo calmo das sementes.

autoria própria: ultimo pedaço de terra livre

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Do Lamento da Ciência Solitária ao Êxtase do Abraço Coletivo

Tomo a liberdade de remixar um termo citado por Darcy Ribeiro em uma entrevista para refletir sobre a ciência e seu papel na sociedade. A ciência enfraquece quando se torna o território dos “cavalos de santo” da intelectualidade.

O campo acadêmico e científico é um dos pilares mais promissores da estrutura social contemporânea. Talvez o melhor investimento que a humanidade possa fazer esteja naqueles que se dedicam à experimentação, à pesquisa e ao desenvolvimento. Esses indivíduos arriscam-se no terreno das hipóteses, buscando inovações que transformam o mundo. Contudo, esse campo encontra-se hoje estruturado sob uma lógica de exploração e alienação, refletindo a organização de todo o sistema econômico. Se antes reverenciávamos a intelectualidade, como quem presta tributo a uma divindade, hoje nos deparamos com cientistas altamente precarizados, dedicando praticamente 24 horas por dia a seus projetos, enquanto enfrentam depressão, burnout e crises financeiras.

A realidade é dura: sem desmerecer outras profissões, eu, Rodrigo, com meu diploma de técnico em elétrica, consigo um emprego com um salário superior ao de uma bolsa de doutorado, e de forma relativamente confortável.

No entanto, não pretendo me aprofundar aqui na crise material, pois ela caminha ao lado de outra, ainda mais complexa e subjetiva. Um paradoxo emerge: a ciência e a produção de conhecimento são, por natureza, processos coletivos, contínuos e sem fronteiras. Contudo, o exercício científico, quando organizado como um sistema de produção formal, tornou-se altamente competitivo, individualista e solitário.

As publicações científicas, hoje, perecem ao valorizar mais o rigor da formatação, a citação de autores consagrados e a quantidade de títulos acadêmicos do que os resultados verdadeiramente inovadores e de impacto social relevante. Esses artigos são revisados por pares, em processos lentos e custosos, que muitas vezes limitam o acesso aos próprios resultados da pesquisa. A ciência se perdeu naquilo que criticava: tornou-se hermética, o território de poucos iluminados. A quantidade vale mais que a qualidade, e o furto de trabalhos, ideias e dados é uma constante, um verdadeiro campo minado. A ciência, que deveria ser um empreendimento coletivo, compartilhado entre aqueles que se dedicam ao seu avanço, foi reduzida a uma luta solitária por financiamento e reconhecimento. Nesse contexto, muitas vezes falta a abertura para o diálogo e a colaboração entre pares, assim como a coragem para assumir riscos e explorar caminhos menos convencionais.

autoria própria: Stephen Hawking e o Pequeno Príncipe conversando sobre o universo

Produzir conhecimento, por sua vez, é algo que fazemos continuamente. O maior desafio do indivíduo é ter a coragem de se lançar ao risco, diante de um sistema que aprisiona e formata a vida científica. Para além das universidades e dos centros de pesquisa, há saberes que nascem nas comunidades tradicionais, nas práticas cotidianas, nas trocas entre trabalhadores e em movimentos sociais que enfrentam desafios locais com soluções criativas. Esses conhecimentos têm suas próprias metodologias e princípios, muitas vezes transmitidos oralmente ou por práticas de convivência, como é o caso do conhecimento de povos indígenas sobre o manejo sustentável da terra ou das experiências comunitárias de cooperativas urbanas.

A estrutura científica contemporânea alcança resultados, mas, para isso, limita a existência da vida ao não se permitir costurar a trama dos muitos estímulos sensoriais que ritualizam a experiência humana na Terra. Falta à ciência o toque fino na vida e no outro, algo comum aos poetas, aos esotéricos, às culturas mais tradicionais.

O reconhecimento acadêmico desses saberes ainda é limitado. Muitas vezes, o que não se adequa aos rigorosos critérios de validação científica acaba sendo subvalorizado ou considerado anedótico, mesmo quando essas práticas trazem respostas concretas para problemas ambientais, sociais e econômicos. Rezadeiras, cartomantes, yogues tântricos, praticantes de tai chi, meditação e herbalistas são desconsiderados como parte da formação do saber.

É justamente nesse ponto que surge a necessidade urgente de reimaginar a ciência como um espaço de liberdade intelectual, onde o risco e a colaboração estejam no centro. Reimaginar a ciência significa, também, resgatar a noção de que o conhecimento científico não é um fim em si mesmo, mas um meio para melhorar a vida das pessoas, construir soluções coletivas e responder às crises que atravessamos enquanto sociedade global. Significa criar espaços em que cientistas possam trabalhar sem a sombra constante da precarização e da pressão por métricas de impacto. A experiência da pandemia de COVID-19 mostrou o valor de esforços colaborativos, como as coalizões internacionais para desenvolvimento de vacinas, demonstrando que, diante de grandes desafios, a união de esforços e a abertura de dados podem gerar avanços rápidos e transformadores.

É fundamental também repensar os critérios de avaliação científica, valorizando a qualidade do impacto social dos projetos e o compromisso com questões urgentes da população mundial fragilizada. Importa menos os santos da ciência, e muito mais os dispositivos que eles trazem e as formas como os utilizamos.

O próximo salto está aí, a meu ver: construir uma ciência aberta ao diálogo, ao risco e ao compartilhamento de saberes, onde a criatividade possa florescer. Com esses passos, talvez possamos resgatar a esperança de que a ciência, em sua diversidade, possa novamente ser um território de construção de um mundo mais justo para todos. Fazemos ciência nas conversas de bar, nas trocas cotidianas e na observação dos momentos simples de prazer e boas risadas.

No encontro entre o saber acadêmico e os conhecimentos que emergem dos povos, há um toque sutil, como um fluxo que pulsa entre a racionalidade e a intuição, tal como a respiração que conecta os corpos ao espírito. A ciência, ao abrir-se para esse toque, transcende seus recalques e mergulha num campo onde cada descoberta se torna um ato libertário de entrega, de diálogo com o desconhecido.

Ali, dissolve-se o ego sofrido do pesquisador isolado, dando lugar ao movimento coletivo, onde o risco é uma forma de êxtase e a colaboração entrelaça razão e sentimento. Assim, a ciência pode se transformar num espaço relacional, onde cada troca expande os limites da compreensão, ecoando um desejo profundo de alcançar e tocar, mesmo que de leve, a pulsação da vida real.

viva o SUS!!

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Algoritmos Sociais: Quem Escreve as Regras que nos Guiam?

Dando sequência ao texto anterior, sigo explorando temas que não inseri naquele, mas que refleti a partir da literatura de Asimov (somado às outras coisas que li na vida).

Podemos definir algoritmo como uma sequência finita de instruções claras, quando seguidas, levam à solução de um problema ou ao alcance de uma meta. A partir dessa ideia, gostaria de explorar o conceito para além de sua conotação técnica e matemática. Pensando no algoritmo como um paradigma global, podemos agenciá-lo como um processo estruturado, onde as condições iniciais geram resultados previsíveis a partir de alguns passos lógicos.

Podemos, então, falar em “algoritmos sociais”?

Esse é o ponto central deste texto. Vale lembrar que este é um texto reflexivo, e não uma pesquisa científica formal. Com isso, dou-me a liberdade de explorar ideias originais, sem a necessidade de rigor científico, ainda que seja uma tentativa de produzir conhecimento, e dou-me também o direito de estar equivocado. Voltemos, então, às elucubrações.

Uma “organização algorítmica” da vida implicaria na existência de regras e padrões que regem o comportamento coletivo e individual em uma sociedade. Pensando assim,  convenções sociais, normas culturais e até sistemas econômicos podem ser vistos como algoritmos sociais, pois seguem preceitos que moldam as interações humanas.

As redes sociais são um exemplo contemporâneo de como os algoritmos impactam a sociedade. Eles filtram, priorizam e promovem informações, influenciando comportamentos e opiniões. Surge, então, uma crise: estamos sendo controlados pelas corporações que detêm os algoritmos?

Expandindo essa reflexão, podemos dizer que qualquer contexto social com processos estruturados de interação ou decisão opera dentro de “algoritmos sociais”. Eles podem ser explícitos, como regras de conduta, ou implícitos, como preconceitos culturais que orientam decisões.

Legislações, por exemplo, podem ser vistas como uma forma de algoritmo social, pois estabelecem regras formais que orientam as ações das pessoas. Assim como um algoritmo processa informações de maneira determinística, as leis processam entradas legais e produzem saídas específicas, como sanções ou recompensas. O novo aqui não está apenas em controlar o ambiente, mas nos corpos e nas disputas que se dão dentro desse ambiente.

No caso dos algoritmos digitais, seu impacto é evidente na circulação da informação, influenciando decisões políticas e de consumo. Eles intensificam a desterritorialização e criam rupturas nos contratos sociais e democráticos.

Diante disso, surge a questão da neutralidade desses sistemas. Assim como os algoritmos digitais carregam intenções e vieses, as leis são escritas por pessoas com poder político e econômico, refletindo interesses e desigualdades. A velha máxima prevalece: quem controla a escrita, detém o poder.

Mas, se não sabemos quais regras nos guiam, como saber para onde estamos sendo levados? Aqui surge um equívoco comum: assumir uma regra: o controlador é inimigo e negar o sistema por completo. Fechar o mundo iniciado por Alan Turing é impossível, uma luta quixotesca. A disputa concreta creio que está no direito à escrita, no poder de sermos os autores de nossas próprias leis.

Assim, o discurso das redes abertas precisa ser retomado. Devemos trilhar dois caminhos: a curto prazo, compreender os algoritmos que nos cercam; a médio prazo, garantir o direito de escrever nossos próprios algoritmos.

No conto Andando em Círculos, de Asimov, o personagem principal, diante de um movimento robótico que parecia um bug, precisa fazer uma operação inteligente. Ele para, lembra das três leis da robótica, investiga o fato estranho e a partir do debruçar intelectual encontra uma saída original para si. O conto não mostra que, ainda que um algoritmo tenha sido produzido pra dar um resultado enviesado, ele possui linhas de fuga diante da investigação profunda e original.

O filme Bill e Ted é outro que explora de maneira divertida o poder do algoritmo. Bastou uma regra resumida em uma frase adolescente, e o futuro encontraria a paz mundial: “Sejam excelentes uns com os outros”.

A disputa urbana de uma smart city passa por aí, disputarmos o sistema lógico de gerenciamento automatizado da cidade, sem negá-lo como algo útil. O que precisamos é fazer parte de quem governa a produção das regras, ou ao menos ter as regras escritas de forma aberta para que possamos investigar os processos.

Estudar os algoritmos, tanto em seu sentido técnico quanto social, nos ajuda a entender como sistemas de regras influenciam a dinâmica social, muitas vezes de maneira invisível ou intencionalmente projetada. Também nos aprimoramos para construir os novos sistemas de interação política e social que virão a estruturar o mundo. O grande barato é vermos que algoritmo não é algo novo, hermético e complexo. O que não faz torna-lo um vilão, é que estamos excluídos do direito de comunicação, que por sua vez dificulta um direito de ação.

Desenho autoria própria só para alegorizar o texto.
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Arquitetura e Urbanismo, artigo, pensamento

Sobre o partido arquitetônico

O partido arquitetônico é um instrumento essencial na prática da arquitetura, praticamente o núcleo que orienta o desenvolvimento de um projeto. Mais do que uma solução formal, o partido é um posicionamento diante do processo criativo, desde a concepção até a materialização da obra.

Quando pensamos no partido como uma expressão de visão de mundo e uma reflexão da relação entre o ser humano, o espaço e o tempo, elevamos a arquitetura a um elemento de construção de significado. O partido confere unidade à obra arquitetônica, permitindo que ela seja tratada como uma obra de construção e arte, com narrativa, conjunto estético e significação. O partido, podemos assumir, é uma tomada de posição do arquiteto em relação à sociedade; é decisão e desejo, mas sem deixar de lado o rigor técnico.

Se enxergamos a arquitetura como um campo de batalha, repleto de contradições e disputas sociais e econômicas, o partido opera como um mecanismo que pode revelar ou ocultar estes conflitos. Ele atua ideologicamente, reforçando pontos de vista, posições estéticas e políticas. O partido é uma arma criativa: capaz de ser disruptivo, defensivo, fomentar a agregação, mas também a segregação.

A importância do partido arquitetônico reside em sua capacidade de sintetizar e expressar visões de mundo, integrando aspectos estéticos, funcionais, simbólicos e críticos e materializar o espaço destas relações, ele cria uma dimensão. Ele é o ponto de inicio que orienta a criação arquitetônica e o resultado de um profundo engajamento com as questões culturais, sociais e políticas de seu tempo.

Tomemos como exemplos o trabalho de Rem Koolhaas no edifício CCTV em Pequim, onde ele explora monumentalidade, dinâmica de perspectivas, complexidade, transparência e interconexão. Tendo estes conceitos, Koolhaas traz para a arquitetura os valores que a corporação estatal quer transmitir à sociedade, e como o faz? tendo como partido um edifício monumental que ao invés de se verticalizar como torre, dobra ao alto revelando-se como um elo, utiliza-se da transparencia do vidro para revelar o interno para o externo, etc.

Já os Yanomami, ao construírem seu xabono, expressam valores fundamentais de sua cultura, como o imenso comunitarismo, a conexão corpo-natureza, e o conceito de tempo e regeneração. A arquitetura fluida e central é um marco de como sua cosmovisão constrói suas espacialidades. Criam assim uma grande espaço comum. No centro da área fica a praça da comunidade e circunscrevendo-a, se levanta uma construção contínua feita de troncos de árvores e folhas de palmeiras, coberta por um vasto telhado inclinado de uma água onde a parte ampliada olhar para a grande praça central. Esse local é o espaço doméstico, onde acontecem as interações sociais e rituais.

CCTV de Rem Koolhas e Xabono Yanomami

O partido de uma casa por exemplo pode refletir questões como afetividade, conforto e contemplação. Já o partido de uma corporação pode expressar tanto os valores da empresa quanto o esforço em garantir maior conforto e segurança aos trabalhadores. Tudo depende da disputa que o arquiteto deseja travar na sociedade. Assim, podemos entender que o partido não é apenas um desejo criativo individual do arquiteto, mas o resultado de uma construção social.

Aqui vem a questão: seria possível tratarmos de um desejo individual como uma espécie de elemento isolado ideal?

Tafuri por exemplo defendia que as cidades, as metrópoles são um meio de produção, uma linha de montagem onde a arquitetura é um objeto superestrutural, isto é, ela é a projeção estética e espacial deste meio de produção. Esta interconexão por si só já é o suficiente (neste momento) para compreendermos que não há como construir um pensamento isolado e aplicá-lo. Ainda que Niemeyer, um arquiteto assumidamente comunista e a maior referência da categoria na profissão nos traga experiencias estéticas interessantes em seus principais projetos de cunho estatal, sua plástica mobilizava hegemonia do concreto armado, deixando em segundo plano uma série de outros sistemas construtivos (dos tradicionais aos mais contemporâneos).Alimentava assim o interesse do mesmo sistema econômico vigente no país.

No entanto, muitos arquitetos têm deixado o partido arquitetônico em segundo plano, focando mais energia na busca do conceito para suas obras. Embora ambos desempenhem papéis importantes e complementares no processo criativo, essa substituição pode representar um risco tanto criativo quanto profissional por conta do resultado final. Afinal, é a bom trato do partido arquitetônico que vai garantir a boa legibilidade do conceito pensado pelo arquiteto.

É no aprofundamento sobre o partido arquitetônico que o profissional traça a estratégia geral da organização espacial e material da obra. É ao se debruçar sobre o partido que o arquiteto consegue concretizar a intenção abstrata do conceito em uma forma prática e tangível, e não o inverso. Portanto, dedique-se a explorar e desenvolver o partido arquitetônico com profundidade.

referencias para leituras e aprofundamentos:
O partido Arquitetônico e A Cidade

Teoria e Prática do Partido Arquitetônico

Cidades amazônicas: como é viver tão próximo da maior floresta tropical do planeta

Arquitetura Indigena Brasileira: da Descobera aos Dias Atuais

croqui meramente ilustrativo – autoria própria

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Arquitetura e Urbanismo, artigo, Inteligencia Artificial, pensamento, política

A Transformação Digital na Construção Civil: BIM, Digital Twins e IA

A indústria da construção civil segue ufanista com as plataformas BIM, embora muitos ainda confundam BIM com certas ferramentas proprietárias. No entanto, suspeito que essa lógica de pensamento esteja se tornando obsoleta, mesmo antes de atingir seu auge. O avanço tecnológico tem dessas peculiaridades; quem se lembra dos laserdiscs, precursores dos CDs?

O Papel das Ferramentas na Arquitetura e Engenharia Digital

Primeiramente, é crucial entender que a questão central não são as ferramentas em si, mas seus métodos de operação, interface com o usuário e propósito. O BIM continua sendo o melhor método para produção de dados e gerenciamento de documentação em projetos de arquitetura e engenharia. No entanto, ferramentas de inteligência artificial estão surgindo para potencializar decisões em projeto, manutenção preditiva, simulação e análise em tempo real. Quando integrados a sistemas de Machine Learning, esses dados ajudam a construir um arcabouço de soluções possíveis para problemas complexos.

Integração de Digital Twins e IA na Arquitetura e Engenharia

Na fase atual, a IA se tornou um complemento importante às ferramentas de projeto. A aplicação de Digital Twins, por exemplo, permite uma análise robusta de dados em tempo real, automação de decisões e otimização através de simulações. O que o Digital Twin faz é criar um “gêmeo virtual” de objetos, processos ou sistemas físicos, monitorando-os em tempo real e de forma detalhada. Isso permite a otimização de seu equivalente real, seja ele uma máquina, um mega edifício, uma indústria ou até mesmo uma cidade.

Sinergia entre BIM, Digital Twins e Machine Learning

A complementaridade entre BIM, Digital Twins e Machine Learning está transformando a arquitetura e engenharia ao automatizar processos de design, documentação e operação. O BIM já facilita a criação de modelos detalhados e a coordenação entre disciplinas. Com a integração de algoritmos de Machine Learning, será possível otimizar designs e reduzir erros de forma automática. Digital Twins, por sua vez, permitem monitoramento e simulação em tempo real, possibilitando manutenção preditiva e ajustes contínuos durante o ciclo de vida do projeto.

No futuro, essas tecnologias combinadas podem automatizar grande parte do processo de arquitetura e engenharia. Ferramentas de design generativo, integradas ao BIM, junto com a análise de dados históricos realizados por Machine Learning, permitirão que projetos sejam otimizados autonomamente. Os Digital Twins terão um papel crucial ao prever o desempenho dos ativos e permitir ajustes dinâmicos, resultando em construções mais eficientes e adaptáveis.

Até aqui,  falamos de algo que já está em curso na engenharia de ponta e nem consideramos o avanço tecnológico de ferramentas de design generativo que permitem a criação de múltiplas opções de design baseadas em critérios definidos pelo usuário. Nos permitindo explorar várias soluções de design rapidamente nas fases conceituais.

Sistematizando:

  • Concepção projectual: partindo do BIM e ferramentas de design generativo, auxiliado por Machinhe Learning, criamos automaticamente múltiplas opções de design, otimizadas para diversos critérios. Temos como papel, dentro disso, formular os critérios e diretrizes, aquilo que na língua do arquiteto chamamos de Partido e Programa, inserir os principais dados e selecionar, dentre as múltiplas opções entregues pelo design generativo, quais seriam as melhores soluções sugeridas.
  • Desenvolvimento e Simulação: O Digital Twins simulará continuamente o desempenho dos designs gerados em um ambiente virtual, permitindo ajustes em tempo real e a otimização antes da construção. Destes ajustes finos escolhemos o melhor projeto a ser construído.
  • Execução e Operação: A construção  será acompanhada e ajustada automaticamente com base no contínuo feedback do Digital Twins e nas previsões do Machine Learning. Durante a fase operacional, a manutenção e os ajustes de desempenho serão feitos de forma automatizada, gerando dados para otimização da obra e operação atual, tanto quanto para melhorias em novos projetos.

A partir desta sinergia, o ciclo de vida de um  projeto e obra pode ser  gerido de forma contínua, da sua concepção até o limite máximo de seu uso. Com o Digital Twins e ML ajustando o BIM conforme necessário para garantir que o ativo físico opere da maneira mais eficiente e durável possível.

O Compromisso Ético na Era da Automação

Nesse cenário de transformação, o compromisso central dos profissionais de arquitetura e engenharia deve ser a criação de diretrizes que assegurem a preservação da vida e do meio ambiente. Inspirando-se nos ensinamentos de Isaac Asimov, é fundamental estabelecer limites claros para o uso dos recursos naturais e desenvolver estratégias que não apenas minimizem os impactos negativos, mas que os transformem em benefícios ambientais. Com essas diretrizes, que garantem a proteção da humanidade e do planeta Terra enquanto entes vivos, os sistemas de automação poderão nos guiar para soluções inovadoras, potencializando compensações ambientais e estratégias globais que não apenas reduzam impactos negativos, mas quiçá também gerem impactos positivos.

Decisões estratégicas exigem um comportamento ético e político da profissão, além da competência técnica. É hora de caminhar em direção a um futuro mais digno e sustentável, onde a tecnologia seja uma aliada na construção de um mundo melhor.

imagem gerada pelo DALL-E tendo como input o comando: crie uma imagem artística de modelo de cidade com favelas toda formada com partes de lixo eletrônico.
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Arquitetura e Urbanismo, artigo, pensamento

Um papo sobre a possível Bolha Imobiliária nos Grandes Centros Urbanos do Brasil.

A expressiva valorização dos preços dos imóveis, a desconexão entre esses valores e a renda dos consumidores e o aumento significativo no estoque de imóveis não vendidos, são indícios que nos levam a considerar seriamente a hipótese de estarmos vivendo uma bolha imobiliária.

Evidências da Formação de uma Bolha Imobiliária

Entre 2008 e 2014, os preços dos imóveis nas principais capitais brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, tiveram uma expressiva valorização, registrando aumentos que chegaram a 200% em alguns casos. Essa valorização acentuada, em um período relativamente curto, é um sinal clássico de formação de bolhas imobiliárias. Comparações internacionais revelam que o aumento dos preços no Brasil superou o de outros países emergentes e até mesmo desenvolvidos, refletindo uma desconexão entre o crescimento dos preços e os fundamentos econômicos, como renda e crescimento populacional.

A relação entre o preço dos imóveis e a renda média dos brasileiros é outro indicador importante. Nos últimos anos, o preço médio dos imóveis se distanciou significativamente da capacidade de compra da população, especialmente quando olhamos pra cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Essa tendência é evidenciada pelo índice de acessibilidade habitacional, que tem se deteriorado, indicando que os preços estão fora do alcance de grande parte da população. Além disso, a desaceleração nas vendas de imóveis e o aumento no estoque de unidades não vendidas, registrado pela Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (ABRAINC), reforçam a ideia de que o mercado pode estar caminhando para uma correção de preços.

Estratégias Governamentais para Mitigação

Diante desses sinais, o governo brasileiro, tem adotado medidas para evitar o estouro de uma bolha imobiliária. O Banco Central do Brasil, por exemplo, impôs regras mais rígidas para o crédito imobiliário, incluindo a exigência de maiores reservas de capital para os bancos que concedem financiamentos nessa modalidade. Essas medidas visam limitar a alavancagem excessiva das instituições financeiras, o que poderia inflacionar os preços dos imóveis de forma insustentável.

Além disso, o governo tem promovido políticas de controle da inflação. O endividamento das famílias, especialmente com crédito imobiliário, também é monitorado de perto, com o Banco Central implementando políticas macroprudenciais que limitam a relação entre o valor do imóvel e o financiamento concedido e ajudam na prevenção de uma inundação de crédito fácil no mercado, um dos principais catalisadores de bolhas imobiliárias.

Considerações

A possibilidade de uma bolha imobiliária nas grandes cidades brasileiras é uma preocupação legítima, dada a expressiva valorização dos preços dos imóveis e a desconexão entre esses preços e a renda dos consumidores.

No entanto, as ações governamentais, particularmente as políticas de regulação do crédito imobiliário e o monitoramento macroeconômico, têm sido importantes para mitigar os riscos de um colapso no mercado. Porém elas sozinhas não resolverão a problemática. Há um viés que precisamos debater: o que é construído nas grandes cidades enquanto solução habitacional?

Problemática dos Empreendimentos Studio

Nos últimos anos, os empreendimentos do tipo Studio, caracterizados por espaços habitacionais extremamente compactos, têm proliferado nas grandes cidades brasileiras. Esses empreendimentos, muitas vezes vendidos como uma solução moderna e prática para a vida urbana, acabam por se revelar desconectados da realidade de grande parte das famílias brasileiras.

A problemática desses imóveis está na inadequação às necessidades habitacionais da maioria da população. Enquanto o público-alvo desses empreendimentos é geralmente composto por jovens solteiros ou casais sem filhos, o perfil médio das famílias brasileiras, composto por mais membros e com necessidades espaciais mais complexas, não é atendido. Basta ver qualquer peça de marketing de vendas destes produtos e notará que não são destinados a vida cotidiana de uma família brasileira, são vendidos um meio de vida quase turística, o cidadão  almoça fora todo dia nos melhores restaurantes do bairro, passa o dia na rua e volta para o apartamento como quem volta para um quarto de hotel.

Esses imóveis, embora compactos, frequentemente são vendidos a preços por metro quadrado que superam em muito a média dos demais imóveis na mesma região. Isso cria uma bolha de especulação em torno desse tipo de empreendimento, descolando ainda mais o mercado imobiliário da realidade econômica da maioria da população. Assim, os empreendimentos do tipo Studio, apesar de sua aparente modernidade, agravam essa desconexão ao não atenderem às reais necessidades habitacionais da maioria da população.

Possíveis caminhos de mitigação

Para melhorar a equidade habitacional no país, é necessário repensar as políticas de incentivo à construção de imóveis. Uma abordagem mais inclusiva, que considere o perfil demográfico e as necessidades das famílias brasileiras, é essencial. Além disso, o fomento ao desenvolvimento de habitações populares de qualidade, associadas a boas condições de infraestrutura urbana, pode ser uma solução eficaz para equilibrar o mercado imobiliário.

Programas habitacionais que incentivem a construção de moradias acessíveis, diversificadas e bem localizadas, além de um planejamento urbano que promova a integração social e econômica, são fundamentais para evitar o aprofundamento das desigualdades e a formação de bolhas especulativas no mercado imobiliário.

Imagem meramente ilustrativa, gerada por AI -DALL-E tendo como referencia um apartamento studio de 22m² e pé direito de 3,20m.

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