Ser um estranho familiar. Usam nosso sangue, nossas forças e nossa alegria. Usam nossa cultura, nosso marasmo, nossas dores. Me enterram em seus cemitérios, furtam meu pedaço de terra. Terra que só serve a quem não sabe plantar. Fora do corpo, todos os cães ladram, sou fugitivo dentro da terra, culpado pelo suor do meu trabalho.
Entre Teerã e Minneapolis há um mar repleto de distinções. Mas existe um elemento que se repete: a escala da rua. Quando o poder decide que a fronteira é flexivel, qual é o limite? ao que tudo parece indicar, está na vizinhança. Este é o lugar onde nossentimos estrangeiros-familiares.
Em Minnesota, diante da escalada de ações federais de imigração e de uma presença ostensiva de agentes do U.S. ICE, moradores montaram redes de resposta rápida: buzinas e apitos que avisam a aproximação, mensagens em aplicativos, gente filmando, acompanhando, oferecendo carona, abrigo e apoio jurídico. Diante do medo da morte, Amar o seu vizinho vira desejo de vida. A rua ganha o espectro de um rádio. E quando esse rádio se amplia, ele bagunça a economia: o chamado ao walkout e ao blackout economico de 23 de janeiro é um recado tão bonito, quase infantil: ninguém deixa o vizinho pra trás.
No Irã, a mesma escala aparece como resistência a outra brutalidade. Em 2009, gritos noturnos nos telhados foram respondidos com batidas, invasões e espancamentos por milícias como a Basij, numa tentativa de calar o coro e impedir que a madrugada virasse notícia. Há uma guerra pelo som: quando a rua canta, ela se reconhece; e se reconhecendo, ela se organiza. Em 2019, a repressão matou centenas e o apagão da internet ajudou a invisibilizar a violência. Em 2022, após a morte de Mahsa Amini, a revolta se espalhou e o Estado respondeu com força letal. O método é comum aos totalitários: controlar a multidão pelo medo. Mas na escala do quarteirão: aviso, rotas de fuga, comida na porta, cuidado entre desconhecidos, nos diz que outro mundo é possível.
Comparamos o poder iraniano e o poder trumpista nos parentescos de método. Ambos dependem de uma política de pureza: inventar um ser perfeito, um corpo-padrão, e transformar a multidão de corpos em suspeitos. No Irã, a pureza é religiosa e estatal, e o dissenso vira blasfêmia, pecado, desordem moral. No Trumpismo, a pureza parece ser nacionalizada, rica e racializada: a cidade vira triagem de seres humanos, o corpo vira documento e o imigrante, caça. Em ambos, a pedagogia do terror se alimenta do território-espetáculo e da ruptura do cotidiano, tão absurda quanto Joseph K sendo detido no Processo. Batida na porta, patrulha na esquina, confisco, prisão, narrativa oficial deturpada e silêncio dos bons. O objetivo, para além de prender alguns; é encarcerar a vida, construir um comportamento coletivo passivo e limitante.
Aqui, Jane Jacobs segue contemporânea. Seus olhos da rua não são ferramenta política da insurgência: uma rede voluntária de atenção e padrões comuns que mantém a rua viva pelo carinho ao próximo. A diferença está em para onde esses olhos apontam. Quando o Estado captura a vizinhança, os olhos viram a delação. Quando a vizinhança se organiza por solidariedade, os olhos viram proteção. Minnesota e Irã são uma encruzilhada: a resistência começa no açúcar emprestado, no olho no olho, no corpo que decide ficar. Depois, o coro encontra a cidade inteira. Porque, no fim, a rua só vira fronteira para quem depende do medo para sustentar as máquinas de poder. Pra quem resiste, a rua é caminho, feita de corpos, olhos e voz.
Quando o comércio corre mais rápido do que a justiça territorial, quem tropeça primeiro é quem pisa no barro.
Estrada
A enchente levou a estradinha de terra batida. No dia seguinte, o atravessador apareceu com o caminhão-baú e um papel na mão. “Sem esse documento, você não vende.” E, como diria Ana Castela, “acreditei que era herói, mas é bandido”.
No dia 9 de janeiro de 2026, o Conselho da União Europeia autorizou a assinatura do acordo UE–Mercosul. Para quem não acompanha: é um acordo de livre comércio que pretende reduzir tarifas e ampliar cotas entre os blocos, mexendo com o que cada lado vende e compra, principalmente agro e indústria. Visto do alto, parece diplomacia com elementos interessantes. No chão, porém, é disputa: preço, rota, contrato, e a terra rural voltando a ser peça do tabuleiro do capital.
Fresta
No Brasil, quem corre o risco de receber esse vendaval pela fresta é um ente imenso e pouco fotografado: a agricultura familiar. O Censo Agro de 2017 aponta mais de 10 milhões de pessoas ocupadas nisso e cerca de 23% do valor da produção vindo daí. Isso não é detalhe, é estrutura social de país. É renda circulando em cidade pequena e média, feira, caminhãozinho, escola rural, estrada de terra. É território respirando baixo, enquanto o agronegócio faz show com telão.
A primeira tensão nasce rápido. Se essa janela comercial aumentar o apetite por commodities, a terra encarece, o arrendamento endurece, a fronteira produtiva ganha força. O pequeno produtor, sem colchão financeiro, sentirá como água entrando pela soleira. A desigualdade no campo não chega com anúncio. Chega como “o preço do hectare”, “o vizinho vendeu”, “o atravessador apertou”. Chega como chuva que enlouqueceu, enchente onde era seca e, às vezes, sorrateira como tocaia de jagunço.
O Brasil traz uma notícia ambígua. Houve redução do desmatamento divulgada pelo PRODES. Respiro diante das tentativas de passar a boiada. Mas a economia que empurra o desmatamento é rede, e rede muda de humor com o mercado. Tem grilagem, licença duvidosa, legalidade convivendo e negociando com ilegalidade. E governança que evapora quando a renda da terra chama.
A Europa tenta colocar freio na própria fome de importação. A regra antidesmatamento exige diligência e rastreabilidade: produto “desmatamento zero”, legal, rastreável até a área de produção. Só que a própria UE vem adiando e revisando prazos porque sabe o peso operacional disso tudo. Agora imagine essa exigência aterrissando na América do Sul, onde o Estado muitas vezes chega tarde, e o atravessador chega cedo.
ESG não enche o prato
E aqui aparece a segunda tensão, silenciosa e cruel. Como fazer justiça ambiental num país que nunca pagou a dívida da reforma agrária? Rastreabilidade é necessária, sim. Eu não romantizo cadeia produtiva submersa, desenhada em Brasília nos gabinetes do agro. O problema é o Brasil real. O grande ajusta a exploração por compliance, como quem vive passeando de ponte aérea. O pequeno paga seu labor como quem compra botijão no desespero, no fim do mês. E quando não consegue, some da cadeia formal: vira refém de intermediário, vende mais barato, trabalha mais para sobrar menos. Quando vira marketing, “verde” vira barreira de entrada. O selo verde brilha, mas o prato do povo continua vazio.
Daí o paradoxo: a floresta em pé aparece como narrativa, mas quem entra decisivo no mercado global é quem já tinha estrutura, advogado, crédito barato e uma geografia montada a seu favor. Leia-se: latifúndio, lastro e poder.
Uma imagem simples, quase como se Jane Jacobs tivesse crescido no interior do Maranhão. Um satélite olha a Amazônia enquanto um homem olha a própria cerca. O satélite mede quilômetros quadrados. O homem mede dias de chuva, preço do adubo, a dívida do mês. Quando a política internacional só enxerga o satélite, atropela a escala da vida. Quando só enxerga a cerca, fere a escala da Mãe Terra. Falta olhar de chão, de dentro do território, e talvez principalmente de quem não tem nem satélite nem cerca.
Aqui já não cabe o maniqueísmo de vitrine que virou a política eleitoreira. Livre comércio versus protecionismo. Ambientalismo versus produção. O problema é a velocidade voraz do capital sobre a terra. O comércio corre, a governança territorial anda, e o pequeno produtor tenta pegar um trem que já saiu, carregando documento, nota fiscal e a esperança básica de não passar fome.
Contrapartida
Se a gente quiser falar sério de Sul Global, sem romantizar pobreza e sem engolir propaganda de “modernização” que sempre chega junto do capital, o papo é reto: como impedir que esse acordo vire motor de concentração territorial? Como evitar que o campo pobre e a floresta voltem a ser zona de sacrifício, agora com etiqueta reciclável e selo ESG?
A resposta, a meu ver, não é instagramável. É infraestrutura pública. Rastreabilidade precisa ser serviço público, cooperativo e territorializado: cadastro georreferenciado acessível, assistência técnica forte, cooperativas, consórcios municipais, plataformas de governança simples que virem prática campesina, não burocracia. Se o mundo exige geolocalização e diligência, o Estado precisa entregar ferramentas ao povo para isso não virar exclusão.
E aqui entra o urbanismo, no sentido mais político da palavra. A cidade consome sem ver a origem, especula a terra e terceiriza o custo social do alimento. A gente pega a carne no freezer e não vê o sangue vertido. Se a agricultura familiar é base social, ela não pode virar refém do humor do mercado externo ou de chantagem logística. CEASAs, mercados municipais, cozinhas públicas, logística curta. PNAE e PAA como programa de país, não apenas de governo. Escola pública e hospital público como compradores regulares de cooperativas e agricultores familiares, com contrato estável e rota planejada são alguns caminhos.
O UE–Mercosul é uma operação territorial transcontinental: gera valor, especulação e espalha impacto. E uma operação territorial deste porte exige contrapartida política. Uma contrapartida concreta possível para o Sul é criarmos um programa público que priorize a agricultura familiar, articulado a uma política urbana de alimentação do povo pobre. Sem contrapartida realmente popular, o acordo corre o risco de virar atalho para a riqueza passar correndo na sua lógica de extração, enquanto o pobre do campo fica no acostamento, vendo a vida se desfazer no pó da estradinha de terra batida.
O ano começa cinematográfico: Nicolás Maduro sequestrado por forças dos EUA. Numa crua ambiguidade conceitual, Washington chama de “operação de aplicação da lei”, enquanto Trump fala em administrar a Venezuela até uma transição. A lógica é de exceção e retomada do controle do quintal: a potência veste farda de polícia e de tutela, reorganiza o tabuleiro e debocha do direito internacional. Não nos enganemos, o direito só vale até a linha do interesse. A democracia representativa reaparece como mito pacificador: acalma consciências, enquanto convive com o submundo da política crua dos impérios.
No subsolo econômico, a Venezuela é petróleo e infraestrutura em ruínas. A Casa Branca acena a investimentos de empresas “interessadas” para “reconstruir” o setor. Enquanto isso, o povo venezuelano sente a vida no preço. A geopolítica de Trump tem estilo de capitão de obra emergencial: chega de solavanco, troca o comando do canteiro e abre concorrência pelos contratos.
E Putin, deixou Maduro isolado? Moscou condena, mas evita personalizar; chegou a alertar seus cidadãos a não viajarem ao país. É o pragmatismo frio, comum a todos os líderes aqui citados, mas na Rússia ele parece método nacional: no inverno da geopolítica, aliados são ativos, não parentes. Maduro era um aliado simbólico no quintal americano; a prioridade russa segue sendo a Ucrânia, e o episódio vira laboratório caro.
Trump, num primeiro momento, reage com choque à alegação de que a Ucrânia teria tentado atingir uma residência de Putin e entra no diálogo. Depois, recua: diz não acreditar que Kiev tenha mirado a residência. O padrão que confunde ideólogos é menos lealdade e mais transação comercial: cúpulas, negociação e garantias para Rússia e Ucrânia. Zelensky pede garantias longas porque conhece o preço de promessas vagas do amigo norte-americano; Putin testa limites; Trump tenta produzir uma saída negociada na reorganização dos blocos de influência.
A China entra nisso como em quase tudo: sem muito espetáculo. Para ela, Venezuela parece ser menos aliança ideológica e mais energia, dívida e posição estratégica. Condena a violação de soberania porque o precedente lhe interessa, inclusive no léxico sobre Taiwan, mas joga o pragmatismo: negociar com quem controlar o canteiro amanhã para preservar petróleo, contratos e recebíveis.
E o chavismo: cai junto? Sequestrar um líder não desmonta o ecossistema, e nem parece ser esse o objetivo. Delcy Rodríguez como interina sugere continuidade ainda que com possível disputa interna, não colapso automático. A base burocrático-militar pode soar fragilizada ou desleal pela facilidade e velocidade com o qual o presidente da nação foi raptado. Assim, parece muito aberto, o chavismo pode rachar; mas pode também se fortalecer na defesa da soberania diante da invasão do inimigo comum.
Aqui faço parêntese e saio da arquibancada acrítica da vida: nenhuma das lideranças citadas está pensando primeiro no povo pobre. Não é essa a pauta. Maduro, que também debocha do direito internacional, sai de cena justamente quando a Venezuela ensaiava uma melhora insípida e desigual: riqueza circulando em bolsões dolarizados, enquanto o país segue com salário pulverizado, serviço público em ruína, pobreza massiva e migração como destino. O país parece preso entre limites internos do chavismo e do Estado rentista e a pressão geopolítica das sanções, que estrangulam receita, crédito e a operação petroleira.
Os erros estruturais são conhecidos: incapacidade de focar e diversificar os caminhos de produção de riqueza, aprofundamento do rentismo; câmbio prolongado se transformando em máquina de arbítrio e corrupção; Estado aparelhado por amiguismo. Um projeto político que finda (querendo ou não) por misturar austeridade e welfarismo: benefícios pontuais como sustentação política enquanto a austeridade recai sobre salário derretido, investimento público e capacidade técnica estatal. O caminho misto do Chavismo mantém as elites, organizadas em duas redes sobrepostas: empresarial tradicional e burocrata-militar, que disputam o próprio Estado como “meio de produção” decisivo para manutenção de seus interesses corporativos, enquanto o povo fica ao relento da própria sorte.
O Brasil, vizinho estrutural da Venezuela e fronteira ativa, corretamente condena os bombardeios e o sequestro do então presidente Maduro enquanto tenta manter canal com Caracas, sem abrir mão de diálogo com os EUA e da postura de mediador de conflitos.
Os riscos principais, entre muitos, cito três:
humanitário-fronteiriço: pressão migratória e acolhimento dos irmãos latinos diante do aumento da instabilidade,
geopolítico-comercial: preservar canais com Washington sem aceitar o precedente arbitrário como padrão e
político-interno: nos prendermos em caricaturas de “defender ditadura” x “entreguismo yankee” em um ano eleitoral.
A verdade do mundo é velha: a riqueza é produzida coletivamente e privatizada pelos que têm poder para fazer isso. E aqui a esquerda falhou de um jeito especifico, foi elegante e engenhosa em distribuir renda, mas tímida em reorganizar os caminhos da produção e universalizar a riqueza. Como diria minha avó, perdeu o fio da meada. Enfraqueceu-se ao não fazer os enfrentamentos estruturantes da sociedade. Agora, diante da austeridade e do colapso de expectativas, parte da esquerda latino-americana se refugiou na liturgia militante: slogan, panfleto, guerra imagética, e manutenção do poder pelo poder, deixando o campo livre para forças que capturam a indignação popular ou a domesticam com retórica e medo.
Lembro-me de uma conversa com um venezuelano que era repositor de mercado em Buenos Aires, um dos dez venezuelanos que conheci na vida. Embora sofresse preconceito, tivesse um emprego pobre, morasse em uma periferia de Buenos Aires, estava se sentindo melhor ali. Sua fuga não fora ideológica, apenas material, uma frase me dele marcou, era algo como: “Chaves é um Bolsonaro de bandeira trocada”. Com todos que conversei aprendi o quão complexo é o problema do país deles, e que nós, brasileiros não sabemos xongas do que acontece na América Latina.
Mediante isso, uma coisa é certa: responsabilidade não se fabrica por intervenção unilateral, narrativa panfletária ou verticalização burocrática; o precedente piora o mundo. A crítica ao Trump é simples: não é santificar o Chavismo-Madurismo, é não normalizar a soberania como detalhe e a instabilidade como padrão político. Amanhã a exceção escolherá outro alvo, e nunca há motivo nobre, e o alvo, direto ou indireto será a vida do pobre. No fim, todos tratam “democracia” como gramática útil para legitimar violência, negociação, força e propriedade.
Se a esquerda latino-americana quiser virar o jogo, precisa parar de tratar produção como palavra inimiga e empreendedorismo como culpa, mérito como crime, entre muitas outras pautas contemporâneas. É preciso começar a falar de produção popular organizada, com regra, técnica e escala, sem precarizar a vida.
Diversificar não é palavra solta, é criar milhares de pequenas indústrias do cotidiano: alimento, reforma, saneamento, manutenção urbana, reciclagem, energia solar de bairro, logística leve, carpintaria, metal, costura, software simples, conectadas por cooperativas, consórcios comunitários e redes multi-escalares de serviços. O motor não precisa ser só o Estado, embora ele deva ter participação ativa: pode ser fundo rotativo de bairro (crédito barato gerido localmente e alimentado por imposto sobre grandes fortunas), compras ancoradas por médias e grandes empresas via metas de consumo local e cadeias curtas, cooperativas de plataformas (o app pertencendo a quem trabalha, não a um rentista), e direitos para o trabalhador por conta própria que se enquadre em microempreendedor individual (bolsa auxilio, previdência, seguro, descanso, proteção à doença), pra que autonomia não vire abandono.
Substituir a disputa etérea e moral por uma arquitetura de vida: desenho institucional simples, replicável, que faça o pobre produzir com dignidade, e não apenas sobreviver no intervalo entre um benefício e outro. É recolocar o fio da meada na agulha. Sem isso, a exceção seguirá escolhendo seus alvos, e, como sempre, o alvo final será a vida do pobre, enquanto os bilionários aproveitam o mundo como parque de diversões.
Desenho de autoria pessoal: viagem a Buenos Aires em 2019: Roda de conversa – Venezuelanos terminando seu dia de trabalho enquanto muitos da cidade estavam começando o dia de trabalho. os temas: América Latina, Chaves, Bolsonaro, Conca jogava muita bola. — em Caballito.
O Brasil vive momentos de aparente ascensão estratégica. A retomada de relações com blocos globais, especialmente a aproximação com a China, abre novas trilhas para a industrialização do Norte e Nordeste, regiões historicamente à margem do modelo de desenvolvimento nacional. Essa reorientação poderia sinalizar uma guinada justa, com mais equilíbrio territorial, autonomia energética e cooperação tecnológica Sul-Sul.
Sob a cortina de fumaça gerada pela prisão domiciliar de Bolsonaro, o Congresso avança no desmonte do licenciamento ambiental. Ironias à parte, trata-se de uma pauta essencialmente bolsonarista, quem não se lembra de Ricardo Salles mandando “passar a boiada”? O mais alarmante, no entanto, é que a flexibilização vem sendo aprovada com apoio expressivo de partidos da própria base ministerial do governo. A boiada agora atravessa novamente o plenário com selo de governabilidade.
Há nisso um problema profundo, recorrente e perigoso: o Brasil tenta construir um novo futuro, sempre com os mesmos vícios técnicos e políticos do passado. A tentativa de flexibilizar o licenciamento ambiental; vendida como “destravar o progresso”; ameaça corroer não só os ecossistemas, mas também a credibilidade internacional do país.
A erosão das salvaguardas ambientais expõe o Brasil a riscos estratégicos. Parcerias internacionais que se pautam por critérios ESG, por soberania alimentar e por transições verdes justas, começarão a desconfiar da validade de investir no País. Não se assina acordo com um País que desmonta seus mecanismos de controle ambiental enquanto a grilagem, jagunçagem e todo tipo de violencia territorial avançam sobre terras indígenas, áreas de proteção ambiental, biomas frageis e raros, reservas e zonas de recarga aquífera. O arco que se estende do Centro-Oeste à Amazônia Legal tornou-se um laboratório de guerra e destruição que ameaça travar qualquer agenda diplomática climática. Isso, em pleno ano de COP30!
Há, portanto, uma dicotomia gritante: de um lado, a construção de polos tecnológicos e produtivos no Nordeste, com apoio de infraestrutura ferroviária, energia limpa e intercâmbio científico. Que ajudaria o país a criar um desenvolvimento moderno que nunca teve. De outro, a legalização do desmatamento por omissão e a reprodução de velhos pactos extrativistas no coração do território nacional.
A crítica aqui não é à industrialização, nem à aproximação com potências não ocidentais. O erro está em imaginar que o mundo de 2025 permitirá um projeto de desenvolvimento que ignore os limites ecológicos do planeta. Defender este projeto é assumir que queremos como parceiros exploradores insensatos, milícias, grileiros, e tudo de pior que existe aqui e suas versões mundo a fora.
O trator do desenvolvimento não pode passar pelas florestas sem licença. O tempo da expansão predatória acabou. Países que insistem nisso tornar-se-ão párias comerciais e diplomáticos.
O que está em jogo é mais do que proteção de florestas, é a reinvenção do Brasil como parte de um ecossistema global de justiça, autonomia e regeneração. Um Brasil que tem toda condição de se tornar modelo global para um novo paradigma de nosso ser-estar no mundo. Um país que queira liderar o novo século não pode ser cúmplice de sua própria ruína.
Leituras complementares:
1 Correntão é vendido na internet como dicas para evitar fiscalização – aqui
2 Brazil’s congress passes bill to overhaul environmental regulations: – aqui
3 El Congreso de Brasil desmonta el pilar de la legislación ambiental del país y asesta otra derrota a Lula. – aqui
4 Brazil passes ‘devastation bill’ that drastically weakens environmental law: – aqui
A transformação da presença chinesa na América Latina nas últimas duas décadas é contundente: o que antes era um ator periférico virou potência econômica, diplomática e geopolítica, hoje rivalizando com Estados Unidos e União Europeia. No Brasil, e, em especial, no Nordeste, esse fenômeno eclode como marco estratégico. Após décadas de centralidade econômica no Sul e Sudeste, a região nordestina desponta como um pólo decisivo para os investimentos chineses, com potencial real de impulsionar a economia local e intenção de reverter parte da desindustrialização nacional.
A China é, desde 2025, o principal parceiro comercial da América do Sul e, no conjunto da LAC, ocupa a segunda colocação. Seu interesse está centrado em matérias-primas críticas como o lítio, cobre, níquel e terras raras, essenciais à transição energética global. A construção do megaporto de Chancay, no Peru, financiado por capitais chineses, é peça-chave dessa nova logística: uma mega engenharia que posiciona o eixo Ásia–América Latina diretamente pelo Pacífico, reduzindo custos e tempo de transporte. O projeto: integrar o Nordeste brasileiro a essa rede, seja por meio de uma ferrovia ligando Ilhéus a Chancay, criando uma alternativa inclusive ao Canal do Panamá.
Na área energética, o engajamento chinês no Nordeste é evidente. Empresas como State Grid, CGN, Three Gorges Group e Goldwind mantêm presença ativa, especialmente em parques eólicos no Piauí e na Bahia. A chegada da BYD, instalada em Camaçari, assumindo a estrutura industrial antes ocupada pela Ford, simboliza a reconfiguração da indústria automotiva: o futuro elétrico chegou, e a China o lidera. Soma-se a isso o interesse de gigantes tecnológicos como a ByteDance por data centers na região, atraídos pela energia renovável e pela posição geográfica estratégica.
É inegável que tais investimentos trazem esperança de crescimento e diversificação econômica para as regiões historicamente negligenciadas. Mas, sem políticas públicas bem estruturadas, os riscos são grandes. Casos como o de operários chineses submetidos a trabalho análogo à escravidão, cisternas rompidas, aerogeradores implantados sem consulta prévia e o controle estrangeiro sobre jazidas estratégicas como a mina de Serrote, em Alagoas, acendem alertas.
Esses riscos ganham relevo num cenário geopolítico de disputas entre China, EUA e UE. Sob a presidência brasileira, o BRICS tenta articular uma nova ordem global mais inclusiva. O New Development Bank, com seu fundo de garantias, e iniciativas como o BRICS Pay apontam para uma tentativa de descentralização financeira. Recentemente, Xi Jinping anunciou US$ 9,2 bilhões em crédito para a América Latina, fortalecendo os laços Sul–Sul. Contudo, a ausência do líder chinês na cúpula do BRICS no Rio acentua dúvidas sobre a real capacidade de coesão do bloco.
Se o Brasil deseja transformar essa conjuntura em um projeto de desenvolvimento nacional genuíno, será preciso mais que otimismo. É necessário investimento em infraestrutura, educação técnica, pesquisa aplicada, soberania digital e, sobretudo, regulação ambiental rigorosa. A preservação do semiárido e da caatinga e floresta amazônica, biomas únicos e frágeis, precisa ser pensada junto aos modelos de produção, energia e mobilidade. A política nacional precisa ser firme: sem mecanismos de compensação ambiental, fiscalização e retorno social, corremos o risco de transformar a riqueza natural em mais uma tragédia socioambiental.
A negligência de parceiros tradicionais, como EUA e UE, abriu espaço para o avanço chinês. Mas isso não pode significar submissão a uma nova forma de colonialismo, como já se observa em partes da África. Precisamos garantir que os investimentos estrangeiros venham acompanhados de troca de saberes e tecnologia, empregos qualificados, inovação local e respeito aos povos e territórios.
O Brasil opera sua política internacional hoje muito sob a diretriz do “não alinhamento ativo”, posição delicada, mas que tem sua potência. Ela exige articulação diplomática séria para garantir ações de mediação continua, porém mais ainda, um projeto de país muito claro, que enfrente a desigualdade com estratégia, soberania e visão ecológica de futuro para que não nos tornemos mediadores indecisos, o que nos levaria a perder credibilidade.
O Norte e o Nordeste podem ser os motores de uma nova etapa do Brasil. Mas é fundamental que isso aconteça com transparência, regras bem definidas, valor agregado e benefícios reais à população. Estamos falando do território mais fragilizado do país, onde convivem índices alarmantes de pobreza com uma biodiversidade preciosa e ameaçada. A entrada cega de um modelo econômico puramente extrativista, ou de um desenvolvimentismo sem planejamento ambiental, ou um novo parceiro econômico sem definir os limites do jogo (mesmo um tabuleiro de go tem seu limite padrão definido em 19×19), pode nos colocar no pior cenário possível: crescer se destruindo.
A história exige vigilância e a política exige ação. A janela está aberta. O bonde passa agora. E é hora de decidirmos como queremos conduzir.
Lantera Chinesa (Abutilon striatum): Nativa da América do Sul.
Alaa com Nimah menos de 24 horas após seu nascimento – Cortesia de Alaa al-Nimer foto original: Aljazeera
Na madrugada de 21 de junho de 2025, o mundo acordou mais tenso. Os Estados Unidos bombardearam instalações nucleares no Irã com bombas de penetração massiva. Os alvos principais foram as estruturas de enriquecimento de urânio. Compondo uma nova encruzilhada geopolítica que ameaça empurrar o planeta para mais um ciclo de violência.
A justificativa oficial é a contenção. Impedir que o Irã desenvolva armas nucleares que, segundo os aliados israelenses, poderiam ameaçar a paz de Israel. É a lógica do ataque preventivo. Muitos israelenses, inclusive críticos de Netanyahu, apoiam essa narrativa, chamando-a de “guerra existencial”. Uma guerra, dizem, por sobrevivência.
O conflito entre Israel e Irã, e de forma mais ampla entre Israel e Palestina, revela um espelho humano desconfortável. Ali se projetam séculos de colonialismo, intervenções ocidentais mal resolvidas e narrativas cuidadosamente moldadas para justificar o injustificável. O Ocidente precisa reconhecer seu papel neste processo de limpeza étnica, ao se omitir diante das estruturas territoriais que ajudou a consolidar.
Não vejo, no horizonte próximo, uma saída nítida. Com o fim da era do petróleo e a busca global por novas fontes energéticas, o Irã precisará apostar na energia nuclear como estratégia de soberania. Por sua vez, a desconfiança do bloco formado por Israel, EUA e Europa torna impossível qualquer avanço sem tensão entre as partes. A ascensão de poderes ultraconservadores, sejam teocráticos como no Irã, parlamentares ultra-nacionalistas como em Israel ou militantes como no Hamas, transforma a guerra em condição permanente no território. Vamos explorar alguns pontos.
O argumento sionista da “guerra existencial” perde força diante da desigualdade bélica. Não é possível comparar de forma equânime os arsenais de Israel e Palestina, nem justificar como defesa, a recusa de ajuda humanitária à população de Gaza. Aqui precisamos assumir um princípio pétreo: o Ocidente se cala diante das ações de Israel, rotulando qualquer crítica como antissemitismo. Em nome de práticas e acordos econômicos historicamente firmados, não praticam uma boa política de resolução de conflitos. Poucas nações tiveram a coragem da África do Sul em denunciar Israel na Corte Internacional por prática de genocídio. Enquanto isso, seguimos exigindo que os palestinos se comportem como bons colonizados. Se resistem, são terroristas. Se protestam, são ignorados. Se morrem, viram estatística. E pedimos uma paz etérea, sem ação.
O ataque ao Irã, mais que mera resposta a ameaças nucleares, é uma exibição de força, um recado sobre quem deseja comandar o tabuleiro. Mais uma vez, os civis pagam o preço. Em Teerã, Gaza, Tel Aviv ou Beirute, pessoas comuns só querem viver, trabalhar, criar filhos e cuidar dos seus. Mas veem seus sonhos destruídos por discursos belicistas disfarçados de patriotismo, autodefesa, ou religião e bombas que transformam suas vidas e cidades em terra arrasada.
As potências se movem com a frieza clássica das Nações. A Rússia torce pelo caos, desviando atenções da Ucrânia enquanto negocia com quem lhe interessa. A China observa, pragmática, enquanto seu fornecedor de petróleo entra em colapso. A Europa vacila. Quer paz, mas teme confrontar Washington. Quer direitos humanos, mas evita encarar seus próprios telhados de vidro.
O mundo, por sua vez, se perde num jogo maniqueísta. Uns defendem o Irã ou o Hamas, como resistência pura, outros o Ocidente Judaico Cristão, Israel e sua “necessidade” de guerra. Esquecemos que nenhum desses garante os direitos humanos nem para seus próprios povos. Precisamos romper esse ciclo. Boicotes e sanções precisam ser aplicados não apenas a Palestina ou a Israel, mas principalmente ao Hamas, Irã, EUA, Rússia, China e todos que alimentam e fazem girar uma parte da economia pela lógica da destruição.
O caminho mais difícil, porém necessário, é o reconhecimento de que nenhum povo liberta a si mesmo destruindo o outro. Assim foi no passado, antes do delírio sionista que nem todos os judeus aceitam. A vida pós-Holocausto não pode existir à custa de um novo Holocausto, seja ele palestino, curdo ou iraniano.
Para piorar, a guerra também se alimenta de discursos religiosos dogmáticos. A ideia de uma Terra Santa, o retorno do profeta, a reconstrução do templo sagrado, criam terreno fértil para o circuito global de ódio. No Brasil, líderes evangélicos como André Valadão justificam o genocídio com base em profecias. A guerra seria inevitável, parte do fim dos tempos e necessária para a volta do Messias. Como se Cristo, o mesmo pregou o amor ao próximo, precisasse do extermínio de um povo inteiro para retornar. Assim, a distopia e o apocalipse substituem a política.
Essas estruturas de poder no Oriente Médio, marcadas por patriarcado, religião e geopolítica, atingem com força especial as mulheres. A guerra, em todas as suas camadas, reforça o domínio masculino sobre o território, o poder e os corpos. Não à toa, os maiores índices de vítimas são mulheres e crianças. No Irã, avanços conquistados antes da Revolução de 1979 foram revertidos tão logo o Regime se implantou. A moral religiosa restringiu direitos, reduziu a presença feminina no mercado de trabalho e impôs submissão legal. Vale lembrar que não faz nem três anos que Mahsa Amini, uma jovem curda-iraniana foi assassinada por forças policiais tendo como crime: seu hijab não atendia aos padrões obrigatórios do governo.
Na Palestina, a condição das mulheres, especialmente em Gaza e Cisjordânia, é ainda mais agravada pela colonização israelense e pelas práticas ideológicas conservadoras tanto do Sionismo quanto do próprio Hamas. Elas enfrentam uma dupla opressão: a violência e o controle de Israel, que restringe seus direitos básicos e perpetua práticas de apartheid, e as leis discriminatórias impostas pelo Hamas. A contradição e violência institucionalizam a desigualdade e limitam a presença das mulheres na esfera pública, embora mantenham taticamente ativas suas mobilizações de resistência. Além da baixa participação política, mulheres palestinas lidam com restrições legais à herança, ao trabalho, à mobilidade e ao próprio corpo. A falta de leis contra a violência doméstica, aliada a um sistema jurídico que marginaliza a palavra feminina, consolida um cenário de violação sistemática dos direitos humanos.
A situação em Israel também revela contradições profundas. O feminismo é incompatível com o sionismo, uma vez que este se estrutura na colonização e dominação de outro povo. A ocupação e a negação de direitos aos palestinos e a sistemática ação de limpeza étnica por meio do extermínio, inclusive realizada por mulheres soldados, evidencia um tipo de feminismo seletivo, que se mostra insustentável frente às lutas por igualdade universal.
A luta da mulher palestina se torna múltipla: ao mesmo tempo enfrenta todas as contradições internas de um sistema conservador do qual faz parte, enquanto combate e resiste diante do processo de criminalização e desumanização traçado pelo ocidente. Ao mesmo tempo, também tem de lidar com a lógica colonizadora do ocidentalismo de ajudar a suas lutas, que muitas vezes atrapalham mais que apóiam.
Porém, mesmo diante da repressão, os movimentos feministas islâmicos resistem. No Irã, por meio da educação, do ativismo jurídico e da reinterpretação do Corão. Na Palestina, mulheres atuam nas linhas de frente da resistência (ainda que não estejam nas direções políticas do Hamas), atuam em espaços comunitários, questionam normas religiosas machistas e organizam redes de solidariedade. Sob regimes autoritários, sua força continua sendo central para a transformação política e cultural no Oriente Médio.
Talvez seja hora de mudar a pergunta. Em vez de discutir que nação está certa nessa guerra, precisamos pensar no que estamos dispostos a fazer para que a guerra acabe. A vida não é sobre lados. É sobre recusar uma lógica que transforma sofrimento humano, racismo, machismo, xenofobia em ferramenta de controle de poder.
Se viver no Rio de Janeiro nos ensinou algo, foi que mais armas nunca trarão paz. Bombardear sem diálogo não desfaz o ódio. Ocupações e bloqueios não garantem segurança. É preciso inventar outro caminho. E ele só começa quando reconhecemos o valor da vida como centro de qualquer política e damos voz a quem está sendo massacrado. Parafraseando o Rappa: Paz sem voz, não é Paz, é medo, e o medo não deve ser instrumento do fazer político.
Lista de Referências interessantes:
GIL, Rafaela Herrmann. A mulher palestina e sua representatividade nos espaços de poder. 2019. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Relações Internacionais) – Universidade de Brasília, Brasília, 2019. Disponível em: https://bdm.unb.br/bitstream/10483/24494/1/2019_RafaelaHerrmannGil_tcc.pdf. Acesso em: 25 jun. 2025.
PETIT, Jérémie. L’autonomie féminine en islam chiite contemporain : l’exemple de l’Iran. Revue des mondes musulmans et de la Méditerranée, n. 143, 2018. Disponível em: https://journals.openedition.org/remmm/6971. Acesso em: 25 jun. 2025.
As duas frentes de conflitos armados do nosso tempo: Rússia vs Ucrânia e Israel vs Palestina, partilham uma engrenagem comum: a guerra converte solo habitado em tábula rasa, criando a oportunidade perfeita para que o capital entre, mapeie, loteie e venda. A assimetria de força militar é flagrante, A capacidade de resistir ucraniana sempre parece apontar para um momento impossível de segurar o contra-ataque, enquanto Palestina e Israel já pode ser assumido como um caso de genocídio disfarçado de narrativa de autodefesa. Mas há outra assimetria em vigor, a do espólio de guerra. Esta é a que mais interessa aos investidores: quem controla a ruína controla também o redesenho urbano do território. Em ambos os casos, o campo de batalha é precursor do canteiro de obras — e, muitas vezes, da corretora de imóveis.
Na Ucrânia, a recente ofensiva de drones que incendiou parte da frota estratégica russa mostrou que a tecnologia barata pode ferir um gigante, porém, isso não muda o desnível estrutural de poder nem evita que os escombros do combate virem um ativo financeiro. Já se calcula um plano de reconstrução de US$ 524 bilhões, acompanhado de um sistema de capital sedento por rentabilidade e de consultorias que apresentam Kiev como mercado dinâmico. Paralelamente, mantém-se o debate sobre abrir o mercado de terras a estrangeiros, enquanto moradores de cidades ocupadas precisam adotar passaportes russos para não perder a moradia. Enquanto a guerra devasta; o mercado imobiliário global agradece.
Em Gaza e na Cisjordânia, o roteiro é similar. A devastação de bairros inteiros alimenta projetos que sonham erguer um Balneário Camboriu do Oriente Médio ou um Dubai neofuturista: Gaza 2035, construído acima de um vazio demográfico, um apagamento histórico que se traduz em anúncios nas redes que vendem casas sobre ruínas vivas. O custo estimado para reconstruir Gaza passa de US$ 50 bilhões, cifra que desperta tanto fundos soberanos quanto incorporadoras privadas, todos prontos para transformar luto em metro quadrado. Aqui, a tábula rasa é literal: degola a história para assentar resorts, data-centers para os GAFAM e empreendimentos verdes.
O padrão é nítido: onde o míssil abre crateras, o mercado financeiro abre terrenos férteis de rendimento. A terra arrasada vira contabilidade no sistema, a dor e morte se converte em lucros e dividendos, e o mapa se refaz sem aqueles que habitavam a terra.
Assim, são pelo menos dois os níveis do massacre: o primeiro a limpeza étnica, territorial, comunitária e o segundo a transformação do solo criado em dinheiro para o vencedor. Este é o mesmo enfrentamento que acontece em escala local no tocando de uma ocupação sem teto. A ruptura desta engrenagem é dificílima, exige a retomada dos territórios pelos povos sobreviventes, a retomada do direito à memória e o não apagamento de seus modos de vida.
É possível construir um modelo de habitação ou de engenharia que não precise passar pelo instrumento da guerra? Sim, é totalmente possível, já temos inúmeros exemplos construídos e estudos de caso. A relação entre guerras e construção não é condicional. Não precisamos de guerras para construir, mas a guerra sempre gerará como espólio o território conquistado e o direito a reescrever a história e geografia de um povo inteiro.
Donald Trump tem um projeto: recentralizar os Estados Unidos no jogo global e decide fazê-lo por meio do conflito. Assim como o jovem que, ao jogar War se vê perdendo e simplesmente bagunça o tabuleiro todo, lembrando para os amigos que as peças do jogo são dele. Assume o comércio mundial como uma arena de disputa por poder real onde, para ele, os EUA estão perdendo, apesar de serem os emissores da moeda lastro. A crítica de Trump ao sistema é profunda e não creio que seus cálculos sejam infantis. O que ele sabe é: independente das regras do jogo, ele tem a bola, o dólar e quem tem a bola define se a brincadeira é futebol ou vôlei ou, o mais provável, alguma brincadeira com regras inventadas por ele.
Por mais que para muitos soe uma prática antiquada de protecionismo, não o é. Trump explode uma subjetividade que responde ao americano de classe média estagnado na economia que a mesma não é um elemento neutral e estável. Enquanto, historicamente, trabalhadores vêm perdendo empregos, fábricas saem do país migrando para países mais estratégicos do sistema internacional e a infraestrutura se degrada. Lembremos aqui de Detroit, que em julho de 2013 decretou falência, se tornando a maior cidade dos EUA a fazer isso. Enquanto isso, países asiáticos e europeus acumulam reservas em dólar, compram dívida americana e exportam seus produtos para os EUA com vantagens cambiais que, segundo Trump, jamais seriam aceitas se fosse o inverso.
O dólar, pilar da ordem financeira internacional, é ao mesmo tempo fonte de prestígio e fraqueza. Sua hegemonia faz com que os EUA possam se endividar à vontade e manter um aparato militar gigantesco. Assim, cria uma máquina de poder extremamente forte no mundo. Seu principal conflito, me parece ser contra o sistema financeiro internacional que mantém artificializada o valor de sua moeda para a boa operação do sistema especulativo global em detrimento do sistema produtivo industrial das nações.
A resposta de Trump a esse cenário é a ruptura, lhe interessa o impacto, sua política tarifária instrumentaliza o desequilíbrio monetário e produtivo global, força a valorização das moedas estrangeiras, força o reestudo de logísticas de produtos e de mudanças de sites industriais. Trump força o mundo a aceitar um dólar mais fraco sem que os EUA percam o privilégio da hegemonia da moeda.
Trump aposta no limiar do colapso, como mesa de negociação com o mundo. É uma estratégia de alto risco, flerta com crises globais e instabilidades duradouras. Mas, para ele, é melhor provocar o terremoto do que continuar enterrado sob os escombros de um sistema que já não serve aos interesses americanos (na sua visão).
Ao tentar reconstruir o jogo do poder a partir do abalo sísmico. Trump joga as fichas porque acredita que todos voltarão à mesa? talvez. Mas, dessa vez, com novas cartas e novas regras feitas por ele. Esse projeto se sustentará? Tudo depende de como as nações afetadas irão se articular na reorganização de seus mercados.
E até nisso a operação foi interessantemente sofisticada. As bruscas diferenças de tarifas colocam o mundo em duas disputas concomitantes: Países como o Brasil se tornam atrativos como um canteiro industrial, enquanto China e outros são hipertaxados. Trump não racha o mundo em um Todos contra Trump, ele racha em uma disputa onde redefine a ordem das desigualdades entre as nações. Algumas subitamente ganham oportunidades atraentes enquanto outras sofrerão as sanções.
Seu plano é mais político do que econômico. Envolve diplomacia direta, bilateral, baseada na força, e disputas constantes. Trump traz o mundo para uma negociação olho no olho, país a país.. Para uns, exigirá compra de armas; para outros, que migrem fábricas para solo americano. Quem não aceitar suas condições, enfrentará tarifas, retaliações e, em último caso, o uso do poder militar como elemento de pressão. Este é o recrudescimento de um Estado de Guerra que ainda tem seu dinheiro, leia-se confiança de mercado, como lastro da economia global. O que nos parece loucura é apenas uma guerra em curso.
As manifestações de apoio de lideranças do Vale do Silício ao governo Trump reacendem questões pertinentes: como as corporações digitais moldam o comportamento humano e restringem a liberdade social? E, mais importante, como nos instrumentalizar para enfrentar esse poder?
Vivemos em um mundo onde o poder digital não opera como uma estrutura hierárquica simples. Google, Amazon, Facebook (Meta), Apple e Microsoft (GAFAM), para além de controlar fluxos globais de informação, operam redes complexas que mercantilizam desejos e fetiches humanos. Embora suas plataformas permitam a comunicação coletiva, essas redes, alinhadas com a ideologia vigente, incentivam a busca incessante pela construção de indivíduos, enquanto marginalizam as relações de comunicação coletiva, compartilhamento de informações úteis, dados e articulação social.
As GAFAM criam territórios digitais, controlam protocolos, algoritmos intencionalmente opacos ao usuário comum e fluxos de dados, regulando assim o comportamento da sociedade no espaço digital. Esse modelo gera um paradoxo: embora se baseiam em redes distribuídas, as decisões de controle permanecem centralizadas em poucas corporações.
Isso impede a definição de um eixo central para protestos e boicotes contra as empresas. O poder dessas redes é fluido, ajustando-se rapidamente às tensões e capturando a subjetividade dos usuários, que, ao criar conteúdo, alimentam o sistema que os transforma em produtos.
Diante dessa conjuntura, a resistência deve ser tão fluida e híbrida quanto o próprio sistema dominante.
A resistência às GAFAM deve transcender o digital, articulando-se com movimentos territoriais reais. Ferramentas descentralizadas, como Mastodon e Peertube, oferecem alternativas interessantes, transparentes e autônomas, conectando demandas locais e globais em uma rede híbrida de colaboração.
As redes sociais hegemônicas criam “vidas condominiais”, limitando a liberdade e autonomia dos usuários. Para escapar desse cerco, é necessário fomentar o uso de plataformas descentralizadas sem abandonar completamente as grandes plataformas. Compreender os protocolos de cada rede ajuda a desenhar estratégias eficazes de uso. Sistemas como Matrix, Discord e IPFS, tecnologia peer-to-peer pode nos ajudar a criar um ecossistema organizativo alternativo. Assim como as comunidades locais organizam encontros e mutirões, essas plataformas podem servir como espaços para a troca de saberes e para a coordenação de ações territoriais e globais.
Hackear os Protocolos por Dentro é preciso!
Uma resistência ao GAFAM pede que subvertamos seus protocolos internos. Em vez de lutar apenas por regulamentações mais restritivas, é necessário exigir por exemplo interoperacionalidade entre plataformas. Permitir que os usuários possam transitar entre redes sem perder contatos, rastreabilidade e histórico de dados.
Explorar brechas nos algoritmos também nos é crucial para redistribuir a recepção de conteúdos e amplificar vozes independentes. No entanto, uma falha nossa comum é tratar as redes como canais panfletários, ignorando elementos que favorecem engajamentos orgânicos, como debates, opiniões pessoais e interações dinâmicas. Campanhas não podem ser reduzidas a mero compartilhamento em massa de uma postagem. Isso funcionava no tempo dos panfletos, porém na geografia das redes, precisamos criar um ecossistema plural das mensagens que queremos transmitir.
Movimentos locais, como organizações de trabalhadores digitais e coletivos de criadores de conteúdo, podem formar redes de educação e mobilização. Por meio de ações coordenadas, como boicotes globais a plataformas específicas ou campanhas para desmascarar práticas oligopolistas, é possível criar um impacto significativo. Imagine, por exemplo, um protesto digital iniciado no Brasil que articule greves trabalhistas no México: com conexões corretas, isso se torna uma possibilidade concreta.
Embora as redes sociais tradicionais continuem hegemônicas, é possível usá-las estrategicamente para impulsionar movimentos. Ações interplataforma, com o uso de canais seguros para organização, articulação e comunicação, podem germinar movimentos virais que desviem a atenção de algoritmos dominantes, exponham as contradições e furem brechas das redes.
A exploração de redes distribuídas permite construir resistência que não depende de lideranças centralizadas. Conectar plataformas independentes para produzir ações coordenadas, transformar pequenos grupos em coletivos de inovação social e dar visibilidade às consequências sociais, econômicas e políticas dessas ações são passos importantes.
Futuros da Resistência: do Ciberassentamento ao Cibersindicalismo
Resistir ao domínio das GAFAM exige uma abordagem que combine esforços locais e globais em uma rede de redes, construindo múltiplas camadas de ação. Um cibermovimento ou cibersindicalismo ofereceria um caminho para disputar o espaço das tecnologias digitais e enfrentar o furto de nossa produção de vida, esse trabalho que desempenhamos para as redes em troca de dependência e vício. Essa prática organizativa une o melhor do virtual e do real, resgatando a utopia das plataformas livres e suportes comunitários que marcaram o início da internet.
A experiência histórica de movimentos como o MST, os zapatistas, comunidades indígenas andinas ensina que a luta por territórios não se limita à terra física, mas inclui a construção de redes de solidariedade, a ocupação simbólica e a criação de formas autônomas de organização. Esses movimentos demonstram como a interconexão de coletividades pode superar fronteiras geográficas, articulando resistências locais em um plano global. Articular formas operacionais de organização que se inspirem nestes modelos, com suas devidas proporções, nos permite pensar em ocupar os territórios virtuais controlados pelas GAFAM, e de forma descentralizada, utilizar as ferramentas tecnológicas para criar espaços de autonomia e troca.
Podemos propor um território sem fronteiras, território-movimento, mobilizado pelas práticas colaborativas, conectando a luta física com a virtual em uma lógica de constante dinâmica. O futuro da resistência estaria assim na construção deste “ciberassentamento”, onde a autonomia e a criação se desenvolvem de forma descentralizada e conectada. Hackear as brechas e limites das redes, por sua vez, será um exercício constante das lutas, mas absolutamente necessário para exercer nosso potencial de transformação social.
“Sou negra, lésbica, toco na noite e não vou votar no candidato de vocês. Quero que me expliquem o porquê.” Uma jovem abruptamente pegou um panfleto das nossas mãos e lançou esta frase.Lembro-me até hoje da campanha eleitoral. Distribuíamos panfletos para uma eleição onde Marcelo Freixo (candidato pelo PSOL) disputava a prefeitura contra Crivella (representante da Igreja Universal), no pólo gastronômico de Vista Alegre.
Parece estonteante, à primeira vista. A militância, embebida em suas certezas e métodos, não está habituada a lidar com contradições tão explícitas. No lugar de argumentos automáticos, optamos por simplesmente sentar e ouvir. “Me explique você o porquê”, dissemos.
A jovem, negra, lésbica e música da noite, frequentava ativamente uma igreja batista onde encontrou acolhimento e pertencimento. Para ela, a fé, diferente do que muitos imaginam, nunca foi fonte de intolerância ou desrespeito. Pelo contrário, foi ali que encontrou segurança e aceitação. Quem conhece o cristianismo evangélico sabe de suas múltiplas expressões, das mais acolhedoras às mais excludentes e intolerantes.
Escutar a jovem, genuinamente e sem julgamentos, foi nosso maior ato revolucionário naquele momento.
Ao final, ela compreendeu que Crivella, representante de um modelo institucional da Universal, não representava os valores da Igreja Batista que a acolhia. Nós, por outro lado,compreendemos que há mais profundidade diante das relações singulares do que supõe os cânones vermelhos.
Identidades e Fluxos: contradições no caminho das militâncias
Essa contradição não é um caso isolado. Nas periferias, onde as múltiplas crises da vida se entrelaçam, identidades rígidas não sustentam a complexidade da existência. Recentemente, li um texto de blog do Emilio Bazan Sanchez (link aqui) que questionava: Estamos limitando o potencial humano ao dividir a vida em caixas organizadas? Ele sugeria que uma visão mais fluida das identidades pode abrir possibilidades de crescimento individual e social.
Pensadores já vislumbravam essa fluidez. Beauvoir, ao dizer “não se nasce mulher, torna-se”, indicava a mutabilidade de quem somos e a forma como as definições são construídas socialmente. Deleuze, numa alegoria que gosto, agenciava um cavalo de carroça ao boi de carga, distanciando-o do cavalo de corrida. O que importa para a turma de 68, é o processo contínuo, o devir e não um estado fixo, essência divina, casta.
Contudo, no mundo real, essa fluidez encontra resistência. O ser humano busca conforto nas caixinhas organizativas. Políticas públicas, por exemplo, precisam categorizar e padronizar para alcançar resultados concretos. Estruturamos nossa vida social a partir destes limites. Porém, ao cristalizar identidades, excluímos uma enormidade de pessoas que não se enquadram na escritura de significados da identidade. Na vida real, transitamos simultaneamente por diversos papeis: colegas, pais, amigos, vizinhos, trabalhadores, para cada papel há um jeito de perceber e vivenciar nossa identidade. Somos fluxos, redes em constante mutação. Como acolher as contradições sem perder o sentido de coletividade? Como agenciar as singularidades em identidades e complexidades ao mesmo tempo?
Para superar as crises do nosso tempo, precisamos encarar as contradições de frente, quiçá mergulhar nelas. Como integrar os desencaixados de nossos “sonhos tão mesquinhos” de revolução? Afinal, é utópico pensar em justiça para as minorias enquanto não conseguimos escutar sequer as demandas de uma jovem negra, lésbica e evangélica.
A militância de esquerda, historicamente centrada em organizações, categorias e bandeiras, precisa reconhecer que antigas estratégias já não dialogam com a complexidade contemporânea. Urge construir ações que acolham contradições e singularidades. Isso exige escuta ativa, valorização da pluralidade, integração com o divergente e, acima de tudo, ações práticas.
Reconhecer que expressões culturais, mesmo aparentemente contrárias às nossas crenças, têm valor social intrínseco e podem ser pontos de conexão entre os explorados. Devemos permitir que os povos periféricos articulem suas demandas sem o paternalismo de quem dita as pautas, inclusive as nossas pautas. É essencial construir alianças verdadeiras, abertas e ampliadas, mesmo que não caibam em categorias pré-definidas.
Ressignificar o Acolhimento: um novo caminho para a revolução
O reacionarismo sabe usar o conceito de “pátria” como uma quimera de unidade popular, vendendo um passado irreal como futuro paraíso perdido. A esquerda, muitas vezes, cai na mesma armadilha, trocando apenas a cor da moeda. Ressignificar o acolhimento, a meu ver, é nosso desafio. Não se trata de apenas reagir ao conservadorismo, mas de inspirar esperança concreta, conectando sonhos coletivos às condições reais de quem vive às margens. Criar um novo desejo não é simples, eu sei, mas precisamos dar o primeiro risco no papel.
Um devaneio: um jovem ambientalista evangélico que mora em uma casa ribeirinha. Ele está mais próximo da realidade sofrida dos povos originários do que de uma liderança rica de uma mercoigreja. Sua identidade coletiva, para a esquerda, pode ser a de um ribeirinho. Mas, para ele, talvez seja mais importante ser um profeta de Deus em sua rua. Ignorar essa contradição e esse jovem é cair num dualismo que nos isola.
Entre Martin Luther King e Silas Malafaia, há um abismo ético. Há uma contradição histórica entre Abdias do Nascimento e o Integralismo. São nesses espaços tensionados que a complexidade humana se revela, e desde algum tempo, são nestes espaços de tensões que prefiro caminhar politicamente. Entendo que a militância precisa agir nessas margens, navegando as crises lendo as letras miúdas que ninguém quer ler.
Como ensinou Zaratustra: “Por variados caminhos e de várias maneiras cheguei à minha verdade.” O futuro exige que atravessemos as identidades como fluxos, redes e elos. Não importa tanto quem somos, mas quem podemos ser com as ferramentas que temos disponíveis.
Navegar bem na crise não é apenas sobreviver. É criar, acolher e construir um lugar mais humano, onde as contradições se tornem pontes. Esse lugar não estará pré-definido em nossas bandeiras nem será o resultado de sonhos fixos em um passado quimérico. Creio que este lugar será construído por um mosaico de vidas que ousaram não temer o outro, o diferente, o divergente, o desajustado. Vidas pobres, e pensem, ainda assim não é simples compreender a pobreza, afinal temos muitas gradações e escalas de pobres, cada qual com um universo girando em suas singularidades enquanto são explorados pelas máquinas de moer corpos. Porém, se não fazemos parte dos 1% que controlam o mundo, somos todos parte de uma ralé que precisa encontrar novas formas de sonhar e novos mundos para construir dentro deste mesmo mundo.