cultura, economia, filosofia de vida, onu, política

Sob os Véus de Gaza

Alaa com Nimah menos de 24 horas após seu nascimento – Cortesia de Alaa al-Nimer foto original: Aljazeera

Na madrugada de 21 de junho de 2025, o mundo acordou mais tenso. Os Estados Unidos bombardearam instalações nucleares no Irã com bombas de penetração massiva. Os alvos principais foram as estruturas de enriquecimento de urânio. Compondo uma nova encruzilhada geopolítica que ameaça empurrar o planeta para mais um ciclo de violência.

A justificativa oficial é a contenção. Impedir que o Irã desenvolva armas nucleares que, segundo os aliados israelenses, poderiam ameaçar a paz de Israel. É a lógica do ataque preventivo. Muitos israelenses, inclusive críticos de Netanyahu, apoiam essa narrativa, chamando-a de “guerra existencial”. Uma guerra, dizem, por sobrevivência.

O conflito entre Israel e Irã, e de forma mais ampla entre Israel e Palestina, revela um espelho humano desconfortável. Ali se projetam séculos de colonialismo, intervenções ocidentais mal resolvidas e narrativas cuidadosamente moldadas para justificar o injustificável. O Ocidente precisa reconhecer seu papel neste processo de limpeza étnica, ao se omitir diante das estruturas territoriais que ajudou a consolidar.

Não vejo, no horizonte próximo, uma saída nítida. Com o fim da era do petróleo e a busca global por novas fontes energéticas, o Irã precisará apostar na energia nuclear como estratégia de soberania. Por sua vez, a desconfiança do bloco formado por Israel, EUA e Europa torna impossível qualquer avanço sem tensão entre as partes. A ascensão de poderes ultraconservadores, sejam teocráticos como no Irã, parlamentares ultra-nacionalistas como em Israel ou militantes como no Hamas, transforma a guerra em condição permanente no território. Vamos explorar alguns pontos.

O argumento sionista da “guerra existencial” perde força diante da desigualdade bélica. Não é possível comparar de forma equânime os arsenais de Israel e Palestina, nem justificar como defesa, a recusa de ajuda humanitária à população de Gaza. Aqui precisamos assumir um princípio pétreo: o Ocidente se cala diante das ações de Israel, rotulando qualquer crítica como antissemitismo.  Em nome de práticas e acordos econômicos historicamente firmados, não praticam uma boa política de resolução de conflitos. Poucas nações tiveram a coragem da África do Sul em denunciar Israel na Corte Internacional por prática de genocídio. Enquanto isso, seguimos exigindo que os palestinos se comportem como bons colonizados. Se resistem, são terroristas. Se protestam, são ignorados. Se morrem, viram estatística. E pedimos uma paz etérea, sem ação.

O ataque ao Irã, mais que mera resposta a ameaças nucleares, é uma exibição de força, um recado sobre quem deseja comandar o tabuleiro. Mais uma vez, os civis pagam o preço. Em Teerã, Gaza, Tel Aviv ou Beirute, pessoas comuns só querem viver, trabalhar, criar filhos e cuidar dos seus. Mas veem seus sonhos destruídos por discursos belicistas disfarçados de patriotismo, autodefesa, ou religião e bombas que transformam suas vidas e cidades em terra arrasada.

As potências se movem com a frieza clássica das Nações. A Rússia torce pelo caos, desviando atenções da Ucrânia enquanto negocia com quem lhe interessa. A China observa, pragmática, enquanto seu fornecedor de petróleo entra em colapso. A Europa vacila. Quer paz, mas teme confrontar Washington. Quer direitos humanos, mas evita encarar seus próprios telhados de vidro.

O mundo, por sua vez, se perde num jogo maniqueísta. Uns defendem o Irã ou o Hamas, como resistência pura, outros o Ocidente Judaico Cristão, Israel e sua “necessidade” de guerra. Esquecemos que nenhum desses garante os direitos humanos nem para seus próprios povos. Precisamos romper esse ciclo. Boicotes e sanções precisam ser aplicados não apenas a Palestina ou a Israel, mas principalmente ao Hamas, Irã, EUA, Rússia, China e todos que alimentam e fazem girar uma parte da economia pela lógica da destruição.

O caminho mais difícil, porém necessário, é o reconhecimento de que nenhum povo liberta a si mesmo destruindo o outro. Assim foi no passado, antes do delírio sionista que nem todos os judeus aceitam. A vida pós-Holocausto não pode existir à custa de um novo Holocausto, seja ele palestino, curdo ou iraniano.

Para piorar, a guerra também se alimenta de discursos religiosos dogmáticos. A ideia de uma Terra Santa, o retorno do profeta, a reconstrução do templo sagrado, criam terreno fértil para o circuito global de ódio. No Brasil, líderes evangélicos como André Valadão justificam o genocídio com base em profecias. A guerra seria inevitável, parte do fim dos tempos e necessária para a volta do Messias. Como se Cristo, o mesmo pregou o amor ao próximo, precisasse do extermínio de um povo inteiro para retornar. Assim, a distopia e o apocalipse substituem a política.

Essas estruturas de poder no Oriente Médio, marcadas por patriarcado, religião e geopolítica, atingem com força especial as mulheres. A guerra, em todas as suas camadas, reforça o domínio masculino sobre o território, o poder e os corpos. Não à toa, os maiores índices de vítimas são mulheres e crianças. No Irã, avanços conquistados antes da Revolução de 1979 foram revertidos tão logo o Regime se implantou. A moral religiosa restringiu direitos, reduziu a presença feminina no mercado de trabalho e impôs submissão legal. Vale lembrar que não faz nem três anos que Mahsa Amini, uma jovem curda-iraniana foi assassinada por forças policiais tendo como crime: seu hijab não atendia aos padrões obrigatórios do governo.

Na Palestina, a condição das mulheres,  especialmente em Gaza e Cisjordânia, é ainda mais agravada pela colonização israelense e pelas práticas ideológicas conservadoras tanto do Sionismo quanto do próprio Hamas. Elas enfrentam uma dupla opressão: a violência e o controle de Israel, que restringe seus direitos básicos e perpetua práticas de apartheid, e as leis discriminatórias impostas pelo Hamas. A contradição e violência institucionalizam a desigualdade e limitam a presença das mulheres na esfera pública, embora mantenham taticamente ativas suas mobilizações de resistência. Além da baixa participação política, mulheres palestinas lidam com restrições legais à herança, ao trabalho, à mobilidade e ao próprio corpo. A falta de leis contra a violência doméstica, aliada a um sistema jurídico que marginaliza a palavra feminina, consolida um cenário de violação sistemática dos direitos humanos.

A situação em Israel também revela contradições profundas. O feminismo é incompatível com o sionismo, uma vez que este se estrutura na colonização e dominação de outro povo. A ocupação e a negação de direitos aos palestinos e a sistemática ação de limpeza étnica por meio do extermínio, inclusive realizada por mulheres soldados, evidencia um tipo de feminismo seletivo, que se mostra insustentável frente às lutas por igualdade universal.

A luta da mulher palestina se torna múltipla: ao mesmo tempo enfrenta todas as contradições internas de um sistema conservador do qual faz parte, enquanto combate e resiste diante do processo de criminalização e desumanização traçado pelo ocidente. Ao mesmo tempo, também tem de lidar com a lógica colonizadora do ocidentalismo de ajudar a suas lutas, que muitas vezes atrapalham mais que apóiam.

Porém, mesmo diante da repressão, os movimentos feministas islâmicos resistem. No Irã, por meio da educação, do ativismo jurídico e da reinterpretação do Corão. Na Palestina, mulheres atuam nas linhas de frente da resistência (ainda que não estejam nas direções políticas do Hamas), atuam em espaços comunitários, questionam normas religiosas machistas e organizam redes de solidariedade. Sob regimes autoritários, sua força continua sendo central para a transformação política e cultural no Oriente Médio.

Talvez seja hora de mudar a pergunta. Em vez de discutir que nação está certa nessa guerra, precisamos pensar no que estamos dispostos a fazer para que a guerra acabe. A vida não é sobre lados. É sobre recusar uma lógica que transforma sofrimento humano, racismo, machismo, xenofobia em ferramenta de controle de poder.

Se viver no Rio de Janeiro nos ensinou algo, foi que mais armas nunca trarão paz. Bombardear sem diálogo não desfaz o ódio. Ocupações e bloqueios não garantem segurança. É preciso inventar outro caminho. E ele só começa quando reconhecemos o valor da vida como centro de qualquer política e damos voz a quem está sendo massacrado. Parafraseando o Rappa: Paz sem voz, não é Paz, é medo, e o medo não deve ser instrumento do fazer político.

Lista de Referências interessantes:

GIL, Rafaela Herrmann. A mulher palestina e sua representatividade nos espaços de poder. 2019. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Relações Internacionais) – Universidade de Brasília, Brasília, 2019. Disponível em: https://bdm.unb.br/bitstream/10483/24494/1/2019_RafaelaHerrmannGil_tcc.pdf. Acesso em: 25 jun. 2025.

AUTOR DESCONHECIDO. Conflito entre Israel e Irã reacende debate evangélico sobre fim dos tempos. UOL, São Paulo, 25 jun. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2025/06/25/conflito-entre-israel-e-ira-reacende-debate-evangelico-sobre-fim-dos-tempos.htm. Acesso em: 25 jun. 2025.

U.S. CAMPAIGN FOR PALESTINIAN RIGHTS. Palestine is a feminist issue. [S.l.]: USCPR, s.d. Disponível em: https://uscpr.org/activist-resource/grassroots-advocacy-toolkit/palestine-is-a-feminist-issue/. Acesso em: 25 jun. 2025.

POLLITT, Katha. No, you can’t be a feminist and a Zionist. Forward, [S.l.], 31 out. 2017. Disponível em: https://forward.com/opinion/387675/no-you-cant-be-a-feminist-and-a-zionist/. Acesso em: 25 jun. 2025.

ISRAEL DEFENSE FORCES. The status of women in Gaza. [S.l.]: IDF, s.d. Disponível em: https://www.idf.il/en/mini-sites/the-hamas-terrorist-organization/the-status-of-women-in-gaza/. Acesso em: 25 jun. 2025.

COMMON DREAMS. UN: ‘Hell on Earth’ for Gaza’s children and women. [S.l.]: Common Dreams, 6 nov. 2023. Disponível em: https://www.commondreams.org/news/united-nations-gaza. Acesso em: 25 jun. 2025.

PETIT, Jérémie. L’autonomie féminine en islam chiite contemporain : l’exemple de l’Iran. Revue des mondes musulmans et de la Méditerranée, n. 143, 2018. Disponível em: https://journals.openedition.org/remmm/6971. Acesso em: 25 jun. 2025.

NORTHEASTERN UNIVERSITY. Why are women’s rights groups silent after Hamas sexual violence against women? Political leanings are to blame, experts say. CSSH News, 16 nov. 2023. Disponível em: https://cssh.northeastern.edu/why-are-womens-rights-groups-silent-after-hamas-sexual-violence-against-women-political-leanings-are-to-blame-experts-say/. Acesso em: 25 jun. 2025.

AL ARABIYA ENGLISH. Iranian woman beaten by police for not wearing hijab dies after coma. Al Arabiya, 16 set. 2022. Disponível em: https://english.alarabiya.net/News/middle-east/2022/09/16/Iranian-woman-beaten-by-police-for-not-wearing-hijab-dies-after-coma. Acesso em: 25 jun. 2025.

AL JAZEERA. Muslim women in the West in the crosshairs of Zionists, white feminists. Al Jazeera, 31 out. 2023. Disponível em: https://www.aljazeera.com/opinions/2023/10/31/muslim-women-in-the-west-in-the-crosshairs-of-zionists-white-feminists. Acesso em: 25 jun. 2025.

AL JAZEERA. Feminists need to oppose hijab bans as much as hijab mandates. Al Jazeera, 21 mar. 2023. Disponível em: https://www.aljazeera.com/opinions/2023/3/21/feminists-need-to-oppose-hijab-bans-as-much-as-hijab-mandates. Acesso em: 25 jun. 2025.

SILVA, Renata Corrêa da. A morte de mulheres palestinas e o silêncio das feministas e da academia. Jornal da USP, 29 nov. 2023. Disponível em: https://jornal.usp.br/artigos/a-morte-de-mulheres-palestinas-e-o-silencio-das-feministas-e-da-academia/. Acesso em: 25 jun. 2025.

Referências de instagram:

Irã

  1. Faravaz Farvardin – artista e cantora – @faravazmusic
  2. Masih Alinejad – jornalista e ativista exilada – @masih.alinejad
  3. Reihane Taravati – fotógrafa e videomaker – @reihanetstudio
  4. Nesa Azadikhah – DJ e produtora musical – @nesaazadikhah
  5. Farnaz Abdoli – estilista e designer de moda – @farnazabdoli
  6. Shirin Heidari – modelo e ativista – @shirinshirinak
  7. Elaine Chaya – influenciadora iraniano-americana – @elainechaya

Israel

  1. Hagit Ofran – ativista do Peace Now – @hagitofran (X/Twitter)
  2. Yael Mellul – advogada e ativista feminista – @mellul_yael
  3. +972 Magazine – coletivo jornalístico crítico à ocupação – @972mag

Palestina

  1. Palestinian Feminist Collective – coletivo feminista da diáspora palestina – @palestinianfeministcollective
  2. Bisan Owda – jornalista e ativista em Gaza – @wizard_bisan1
  3. Renad Attallah – influenciadora juvenil de Gaza – @renadfromgaza
  4. Malak Mattar – artista visual de Gaza – @malakmattarart
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Arquitetura e Urbanismo, cultura, economia, filosofia de vida, política

O mundo precisa reaprender a dialogar

Vivemos tempos estranhos. Enquanto as redes sociais gritam, os mercados oscilam e as potências se encaram, parece faltar algo básico na política: a capacidade de ouvir, entender e negociar. A era Trump, com sua retórica agressiva e decisões impulsivas, expõe uma fragilidade maior; a de um mundo que paulatinamente tem perdido seus mecanismos de mediação.

A Europa, nesse cenário, parece ter ficado sem rumo. Diante das pressões americanas e do avanço econômico da China, suas reações foram, muitas vezes, descoordenadas e marcadas por políticas internas que mais enclausuram e desunem do que somam. O economista Yanis Varoufakis aponta isso com lucidez: a Europa está se tornando um apêndice hesitante de um império em declínio. E o pior é que faz isso sem um plano próprio, sem coragem de assumir um papel autônomo na discussão global.

Mas o que significaria, hoje, retomar um projeto coletivo? Talvez não seja tão complexo quanto parece. Não se trata de criar novas alianças para enfrentar inimigos, mas de reinventar os modos de convivência globais. Abandonar tarifas que não servem a ninguém. Investir conjuntamente em tecnologia e sustentabilidade. Fortalecer laços com países que também buscam um lugar mais justo na engrenagem global. E, acima de tudo, recuperar a capacidade da mediação e da negociação. Essa arte, que em tempos de polaridades exacerbadas e guerras, parece tão esquecida, de construir acordos a partir de interesses compartilhados.

Quando diferentes interesses são colocados à mesa, a mediação busca justamente aquilo que, à primeira vista, parece impossível: transformar conflito em oportunidade. Para isso, é preciso mais do que diplomacia formal. É necessário método, é isso que separa a mediação do romantismo. Reconhecer os próprios limites, abrir mão de posições rígidas e aceitar que o outro também tem razões legítimas. Essa é uma arte rara, especialmente em tempos de egos inflados, disputas sangrentas de poder e nacionalismos exacerbados.

Em vez de disputas baseadas em força ou prestígio, os acordos bem-sucedidos tendem a se apoiar em algo mais sutil: o reconhecimento de que há um ganho possível para todos, ainda que não seja o ganho pleno. Parcerias econômicas, intercâmbios tecnológicos, cooperação climática, tudo isso exige uma mudança de postura, em que algum grau de interesse comum se sobreponha à vaidade  da disputa distópica da geopolítica. A Europa, por exemplo, poderia negociar diretamente com a China em torno de tecnologias verdes, não como quem desafia os EUA, mas como quem constroi pontes a partir de necessidades mútuas.

Essas negociações não se constroem em conferências relâmpago, mas em processos contínuos de escuta e operação conjunta. Elas exigem paciência, linguagem precisa e disposição para lidar com desacordos sem transformar tudo em guerra. É aí que a mediação se revela mais do que uma técnica: torna-se um modo de estar no mundo. Um modo de afirmar que, apesar das diferenças, ainda podemos e devemos construir futuros compartilhados.

É possível imaginar um mundo menos polarizado, se houver disposição para cooperar em vez de competir o tempo todo. A mediação, quando levada a sério, não é fraqueza: é maturidade política. É reconhecer que ninguém sobrevive sozinho em tempos de transição climática, crise econômica e tensões geopolíticas. Para a Europa, o convite está feito: em vez de seguir reagindo, pode escolher atuar. Não com gritos, mas com inteligência.

Talvez o que esteja em jogo não seja apenas uma disputa entre potências, mas a chance real de redesenhar as bases do sistema. As teorias da complexidade nos mostram que sistemas vivos, inclusive os sociais e econômicos, não operam bem sob controle centralizado e previsões lineares. Eles evoluem a partir da interação de múltiplos agentes, da cooperação descentralizada e de adaptação constante. Nesse sentido, o futuro não precisa repetir os impérios do passado: pode emergir como uma constelação de economias interdependentes, plurais, distribuídas, sem centros fixos, sem moedas únicas que arrastem nações inteiras para ciclos de dependência.

Uma economia global pensada a partir dessa lógica complexa não precisaria se apoiar em um único lastro, como o dólar, nem aceitar como naturais as atuais hierarquias de valor e poder. Poderia, ao contrário, reconhecer a diversidade de soluções locais, fomentar moedas complementares, redes de trocas descentralizadas, circuitos cooperativos de produção e alianças tecnológicas orientadas pelo bem comum. Em vez de mercados auto-regulados à moda antiga, teríamos ecossistemas econômicos interligados por princípios de equidade, sustentabilidade e solidariedade. A mediação, nesse novo mundo, deixa de ser um mero instrumento de conciliação entre velhos blocos, para se tornar um modo de cultivar a inteligência coletiva capaz de sustentar essa ordem viva e interdependente.

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Arquitetura e Urbanismo, cultura, economia, onu, política

Terra Arrasada: o espólio imobiliário das guerras

As duas frentes de conflitos armados do nosso tempo: Rússia vs Ucrânia e Israel vs Palestina, partilham uma engrenagem comum: a guerra converte solo habitado em tábula rasa, criando a oportunidade perfeita para que o capital entre, mapeie, loteie e venda. A assimetria de força militar é flagrante, A capacidade de resistir ucraniana sempre parece apontar para um momento impossível de segurar o contra-ataque, enquanto Palestina e Israel já pode ser assumido como um caso de genocídio disfarçado de narrativa de autodefesa. Mas há outra assimetria em vigor, a do espólio de guerra. Esta é a que mais interessa aos investidores: quem controla a ruína controla também o redesenho urbano do território. Em ambos os casos, o campo de batalha é precursor do canteiro de obras — e, muitas vezes, da corretora de imóveis. 

Na Ucrânia, a recente ofensiva de drones que incendiou parte da frota estratégica russa mostrou que a tecnologia barata pode ferir um gigante, porém, isso não muda o desnível estrutural de poder nem evita que os escombros do combate virem um ativo financeiro. Já se calcula um plano de reconstrução de US$ 524 bilhões, acompanhado de um sistema de capital sedento por rentabilidade e de consultorias que apresentam Kiev como mercado dinâmico. Paralelamente, mantém-se o debate sobre abrir o mercado de terras a estrangeiros, enquanto moradores de cidades ocupadas precisam adotar passaportes russos para não perder a moradia. Enquanto a guerra devasta; o mercado imobiliário global agradece.

Em Gaza e na Cisjordânia, o roteiro é similar. A devastação de bairros inteiros alimenta projetos que sonham erguer um Balneário Camboriu do Oriente Médio ou um Dubai neofuturista: Gaza 2035, construído acima de um vazio demográfico, um apagamento histórico que se traduz em anúncios nas redes que vendem casas sobre ruínas vivas. O custo estimado para reconstruir Gaza passa de US$ 50 bilhões, cifra que desperta tanto fundos soberanos quanto incorporadoras privadas, todos prontos para transformar luto em metro quadrado. Aqui, a tábula rasa é literal: degola a história para assentar resorts, data-centers para os GAFAM e empreendimentos verdes.

O padrão é nítido: onde o míssil abre crateras, o mercado financeiro abre terrenos férteis de rendimento. A terra arrasada vira contabilidade no sistema, a dor e morte se converte em lucros e dividendos, e o mapa se refaz sem aqueles que habitavam a terra. 

Assim, são pelo menos dois os níveis do massacre: o primeiro a limpeza étnica, territorial, comunitária e o segundo a transformação do solo criado em dinheiro para o vencedor. Este é o mesmo enfrentamento que acontece em escala local no tocando de uma ocupação sem teto. A ruptura desta engrenagem é dificílima, exige a retomada dos territórios pelos povos sobreviventes, a retomada do direito à memória e o não apagamento de seus modos de vida. 

É possível construir um modelo de habitação ou de engenharia que não precise passar pelo instrumento da guerra? Sim, é totalmente possível, já temos inúmeros exemplos construídos e estudos de caso. A relação entre guerras e construção não é condicional. Não precisamos de guerras para construir, mas a guerra sempre gerará como espólio o território conquistado e o direito a reescrever a história e geografia de um povo inteiro.

foto Zain JAAFAR / AFP, publicado no O GLOBO.

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O Tempo Entre os Mundos


O tempo é um elemento estruturante da vida humana e da forma como organizamos a existência. Entre cronômetros e algoritmos, a sociedade moderna se desenvolveu sob a primazia de um tempo linear, homogêneo e quantitativo, uma abstração herdada do Iluminismo e potencializada pela Revolução Industrial. Entretanto, este modelo não esgota a compreensão sobre o tempo e suas possibilidades. Ao redor do mundo, epistemologias indígenas, cosmologias africanas e saberes populares oferecem alternativas à temporalidade hegemônica, propondo formas de viver que entrelaçam passado, presente e futuro de maneira mais orgânica e integrada.


O conceito de aceleração social, demonstra como a modernidade tardia impõe ritmos insustentáveis de trabalho e consumo, fragmentam a experiência da vida e comprometem a profundidade das relações humanas. Boaventura de Sousa Santos nos traz as epistemologias do Sul, aponta a necessidade de resgatar e articular saberes ancestrais que operam em temporalidades alternativas, não subordinadas à lógica produtivista.
Diferentes sociedades tradicionais estruturam o tempo de maneira não-linear.

Povos originários das Américas, como os Krenak, veem o tempo como um fluxo cíclico onde a relação entre humanos, natureza e cosmos não está sujeita à ditadura da urgência. Tradições iorubá remetem a flexibilidade do tempo,onde passados não estão encerrados e futuros são constantemente atualizados pelas ações no presente. Esses sistemas desafiam o tempo ocidental e apontam para modos de existir que valorizam a continuidade e a coexistência na Terra.


Para construir um futuro que equilibre os saberes tradicionais com a produção contemporânea da vida, precisaremos repensar os modelos de desenvolvimento. O paradigma da “desaceleração” tem ganhado força em movimentos como o decrescimento econômico, que propõe uma relação mais harmônica com os recursos naturais e com os ritmos da vida. Práticas como a agroecologia, organizadas nos calendários naturais dos povos campesinos, a arquitetura vernacular, que respeita os ciclos materiais dos territórios, são boas formas de viver, respeitam e dialogam com as diferentes temporalidades


A degustação do tempo não é um exercício romântico de retorno ao passado, mas sim um esforço de articulação entre as possibilidades que os avanços técnicos proporcionam e a sabedoria acumulada que por milênios nos capacitam. O futuro pode ser um espaço onde o tempo não seja um senhor impiedoso, cronos que tudo devora, mas um aliado na construção de um mundo mais habitável e justo.
Tomo um café com sabor de café, leio um livro, escrevo cartas a mão. Redesenho meu passeio pela teia do tempo dentro do cotidiano. Saboreio a fumaça que sai do copo e o desgaste do grafite no risco.

Lembro-me de Gana, onde o tempo do dia se iniciava com o bater da massa do Banku. Um som que ecoava por todo o país e dava um ritmo, o som do alimento de uma nação. O trabalho vivo de produção do próprio alimento dava o ritmo, o tom, demarcação do tempo.

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A praça de Grève, reflexões urbanas com Victor Hugo


Pensamentos da leitura de Notre Dame de Paris.

Victor Hugo tem um papel imprescindível no debate sobre memória e espaço. Em Notre Dame de Paris, o autor realiza uma verdadeira ode ao caráter gótico da cidade, utilizando a narrativa para revelar as camadas de história presentes em seus espaços urbanos. Recentemente, durante uma viagem de ônibus rumo ao trabalho, me deparei com o capítulo “Praça de Grève” e fiquei tentado a refletir sobre como o urbanismo dialoga com a preservação dos vestígios históricos e a memória coletiva.

Parte 1: A Praça como Símbolo do Espaço Urbano Histórico


No capítulo, Victor Hugo vai além da mera descrição de um espaço público. Ele apresenta a Praça de Grève (atual Place de l’Hôtel de Ville), situada às margens do Rio Sena, como um cenário carregado de simbolismo e nostalgia. Historicamente palco de execuções e eventos marcantes, a praça surge como um verdadeiro repositório de histórias e emoções. Ao transitar entre o passado e o presente, o autor nos convida a enxergar cada elemento físico da cidade como parte de uma narrativa viva, na qual os conflitos sociais e as transformações históricas se entrelaçam.


A dualidade presente na narrativa, a sobreposição de um espaço marcado tanto por momentos de horror e violência quanto por mobilizações sociais, reforça a ideia de que praças e outros espaços urbanos são pontos de convergência para a transformação social.victor Hugo, ao descrever esses ambientes, enfatiza a necessidade de preservá-los e revitalizá-los, pois são verdadeiros símbolos da cultura e e da memória de uma cidade.


Parte 2: O Legado na Valorização do Patrimônio e do Gótico


A beleza da obra de Victor Hugo reside na sua contribuição para a conscientização sobre a preservação do patrimônio histórico. Em Notre Dame de Paris, Hugo celebra a arquitetura gótica como elemento central da identidade cultural de Paris. Ao descrever a catedral e seus arredores, o autor destaca a grandiosidade e a complexidade desse legado arquitetônico, transformando-o em personagem dentro da narrativa.


A estética gótica, com suas altas arcadas, vitrais coloridos e imponentes contrafortes, é apresentada como um verdadeiro repositório de memória e experiências coletivas. Essa valorização não só encantou gerações, mas também inspirou movimentos de restauração e conservação, como o realizado por Eugène Viollet-le-Duc na reabilitação de Notre Dame.


Hugo utiliza o cenário urbano para enfatizar a importância de preservar a história e os espaços que a abrigam. Ao resgatar elementos que definem a identidade de Paris – desde monumentos imponentes até praças repletas de eventos históricos – o autor propõe uma reflexão profunda sobre o valor intrínseco do patrimônio. Para o urbanismo contemporâneo, essa abordagem ressalta que cada espaço preservado contribui para a construção da memória coletiva e da identidade cultural de uma cidade.


A influência de Notre Dame de Paris ultrapassa os limites da literatura, impactando políticas de preservação e o olhar crítico sobre a arquitetura histórica. Victor Hugo não apenas enriqueceu a narrativa literária, mas também transformou a forma como entendemos e valorizamos os espaços urbanos, pavimentando o caminho para uma abordagem que integra análise crítica, preservação e valorização cultural.


Considerações Finais

Victor Hugo nos oferece uma visão multifacetada do espaço, apresentando-o como um elemento vivo e repleto de significados. Sua narrativa não só enriquece a literatura, mas também dialoga de forma profunda com os princípios do urbanismo e da preservação do patrimônio. Ao valorizar o gótico e cuidar da memória, Victor Hugo estabeleceu um precedente que continua a influenciar tanto as políticas urbanas quanto a percepção cultural dos espaços históricos. Ele revelou que a memória está em constante disputa, mostrando que cuidar do passado é essencial para a construção de um futuro que respeite a vida coletiva das cidades.


Como blog gosta de lista, segue uma pequena lista:


1 Amplie seu repertório cultural: Estude literatura, música e história para enriquecer sua visão e inspirar projetos com referências profundas e diversas.


2 Busque a interdisciplinaridade: Integre conceitos de diferentes áreas do conhecimento, assim como Victor Hugo uniu a arte literária à história e à cultura, para criar obras com significado e originalidade.


3 Valorize as narrativas históricas: Entenda que a história e a cultura, presentes em livros e músicas, oferecem lições valiosas para a construção de espaços que dialoguem com o passado e o presente.


4 Inspire-se em outras artes: Assim como a estética gótica foi resgatada por Victor Hugo, encontre na música, na literatura e em outras manifestações artísticas elementos que possam transformar e enriquecer seus projetos.


5 Crie pontes entre disciplinas: Use o conhecimento adquirido em diferentes frentes para desenvolver soluções inovadoras e contextualizadas, contribuindo para a preservação e valorização do patrimônio cultural urbano.

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Arquitetura e Urbanismo, cultura, política

Por que Estudar Teoria da Arquitetura e por que eu leio Tafuri?

É surpreendente a decisão de Trump, que ao assinar um decreto impôs uma estética clássica para as artes e os edifícios cívicos. Em vez de recorrer a análises já exploradas, como as apresentadas no Arquitetura da Destruição, de Peter Cohen, proponho uma leitura que nos convide a repensar aspectos naturalizados e que demandam uma abordagem crítica. Afinal, não há prática arquitetônica sem teoria.

A estética arquitetônica está intrinsecamente ligada às disputas sociais. Cada transição estilística, seja a tensão entre modernistas e neo-coloniais ou outras mudanças de paradigma, evidencia que a arquitetura nunca pode ser considerada isolada de seu contexto histórico. As obras construídas são, acima de tudo, produtos de ambientes históricos e culturais, marcados por contradições sociais, políticas e econômicas. Reduzir a arquitetura a uma mera linguagem estética ou funcional é ocultar a influência concreta dos interesses de poder que orientam diretrizes, planos, projetos e até a escolha dos materiais construtivos.

Nesse sentido, a arquitetura atua como uma escritura, um documento que registra as lutas e disputas de uma sociedade na produção do espaço. Manfredo Tafuri exemplifica essa ideia ao analisar o modernismo, destacando a contradição entre a utopia revolucionária que fundamentava a ideologia moderna e a prática concreta, que se dissolveu sob o sistema capitalista. Dessa forma, a promessa de uma arquitetura libertadora frequentemente se transforma em instrumento de dominação e controle.

Esse cenário revela, ainda, o “esquecimento” dos estudos sobre Tafuri, reflexo da disputa por novas formas de organizar a sociedade. Embora seu trabalho seja historicamente relevante e conceitualmente denso, seu rigor metodológico nem sempre se coaduna com o discurso acadêmico contemporâneo  que tende a valorizar produções mais acessíveis e diretamente aplicáveis à prática do design, em favor dos interesses do capital e do poder. Essa tendência gera debates estilísticos automáticos, tratando a arquitetura como uma arte desconectada de sua função social. Em tempos de automação, inteligência artificial, tecnologias digitais e globalização dos processos construtivos, a crítica torna-se indispensável. Hoje, obras pragmáticas e orientadas pelo mercado ilustram exatamente o que Tafuri apontava: a organização da arquitetura atua como um mecanismo de controle e representação do poder.

Ao construir mundos contrastantes, como os de Dubai e Orangi Town, esse modelo evidencia a dualidade entre a prática imediata e a reflexão crítica. Enquanto a linguagem dos projetos contemporâneos privilegia inovações rápidas, a análise dos fundamentos teóricos possibilita uma compreensão integral do processo de produção do espaço. Conhecer a teoria que molda nosso campo fortalece nossa consciência crítica e profissional, revelando o que realmente estamos produzindo enquanto trabalho.

Na escola modernista, e entre seus discípulos, inclusive esse que escreve, havia a aspiração de transformar a sociedade por meio da arquitetura. O objetivo era criar espaços que não apenas abrigassem, mas também emancipassem os indivíduos, promovendo uma profunda reconfiguração das relações sociais, políticas e econômicas. Acreditava-se que essa nova arquitetura poderia servir de alicerce para uma sociedade mais justa e igualitária, onde o ambiente construído expressasse a libertação humana. Crer no potencial transformador da arquitetura é, de fato, um ideal compartilhado.

Entretanto, na prática contemporânea, essa utopia é frequentemente apropriada e subvertida pelos próprios mecanismos do sistema. Projetos emblemáticos emergem sob o manto da inovação e modernidade, mas, na realidade, estão marcados pela lógica do consumo, do espetáculo e da exclusão. Arranha-céus  que deveriam simbolizar a grandeza arquitetônica acabam se transformando em complexos sistemas de engenharia e automação, onde elementos como elevadores, fluxos de circulação, condicionamento de ar e a separação entre o natural e o construído definem a estética, como exemplifica o Burj Khalifa. Dessa forma, o espaço destinado à realização de ideais emancipatórios torna-se um palco para a concentração de poder econômico e riqueza, reafirmando as estruturas de dominação.

Outra ilustração dessa tensão encontra-se nas iniciativas de “smart cities” e no conceito da “cidade dos 15 minutos”, amplamente debatidos em centros urbanos como Paris. Embora tais propostas prometam uma organização mais integrada e sustentável do espaço urbano, na prática, a ausência de políticas inclusivas faz com que seus benefícios se concentrem em áreas já privilegiadas, diluindo seu potencial revolucionário. O uso intensivo de tecnologias para monitoramento e gestão urbana revela um duplo caráter: a promessa de melhoria na qualidade de vida contrasta com o aumento da vigilância e do controle social. Em cidades como Rio e São Paulo, por exemplo, a persistência de altos índices de violência, frutos de décadas de desigualdade, descaso e falta de investimentos em educação, demonstra que sistemas de segurança privados, como as “câmeras da Gabriel” mencionadas neste texto aqui, não resolvem os problemas de fundo.

Enquanto, por um lado, pregávamos o sonho revolucionário da arquitetura, a proposta de Trump evoca o reacionarismo ao defender o retorno ao estilismo clássico, justamente questionado pelo modernismo. Esse retorno nos surpreende, pois, parafraseando Latour, nunca deixamos de ser modernos. Mas o que Trump pretende comunicar com esse aparato estético? Ao revisitar as Beaux-Arts, ele define um conceito próprio de beleza e de expressão cultural, afastando-se do capital contemporâneo e evocando um tempo que se perdeu. Ao apelar para um passado repleto de signos que persiste em nossas memórias por meio de contos e histórias  ele se vale de uma arquitetura que jamais foi concebida para solucionar os problemas fundamentais da população, como a reabilitação de bairros carentes ou a crise habitacional, questões centrais no pensamento moderno e revolucionário. Nosso estranhamento reside no fato de que o tempo evocado por Trump não se coaduna com nossa perspectiva contemporânea. O neoclássico que o inspira carrega um discurso e uma estética do século XVIII e anterior, símbolo de uma era marcada pelo Iluminismo e pelas revoluções francesa e americana, mas também uma era altamente escravagista e um sonho de passado utópico.

Dessa forma, somos convidados à reflexão. A abordagem teórica que vai além da mera descrição dos estilos e projetos procura revelar as condições socioeconômicas e políticas que moldaram cada momento histórico, exigindo uma análise criteriosa dos contextos de produção e das narrativas oficiais. Essa postura crítica nos instiga a questionar a eficácia e o impacto dos projetos arquitetônicos, bem como a própria essência da disciplina. Apesar do aparente desinteresse contemporâneo pelos estudos de Tafuri, possivelmente decorrente da ênfase em soluções tecnológicas e mercadológicas e da proliferação de novas abordagens teóricas alinhadas ao capitalismo global , sua obra continua a oferecer um olhar essencial para questionar os pressupostos que regem a produção do espaço.

Compreender os mecanismos que moldam o o meio ambiente construído fortalece nossa capacidade de atuar com menos ingenuidade e de reconhecer que a arquitetura não se resume ao “como” projetar, mas, sobretudo, ao “porquê” de projetar, estando imersa em complexas relações de poder, ideologia e história. O que Trump acaba por nos revelar é esse efeito: uma construção de linguagem de poder fundamentada na representação estética. Ao romper com a linguagem que naturalizamos, expõe nossa própria contradição. De certo modo, estamos todos nus enquanto representantes de uma arquitetura do poder em disputa.

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Jovens Arquitetos e Futuro

Os jovens de hoje cresceram conectados. Acostumados com redes sociais, fóruns online, plataformas digitais e games em rede, pertencem a um mundo repleto de ferramentas que permitem organizar ações de forma rápida e articulações horizontalizadas. A arquitetura no entanto, ainda opera sob dinâmicas de mercado saturado , elitizado e atravessado por desigualdades estruturais. Recessão, machismo estrutural , desvalorização profissional e classismo são alguns dos enfrentamentos cotidianos de quem se forma no país.

Atualmente, o Brasil conta com mais de 200 mil arquitetos e urbanistas registrados no CAU/BR. Apesar desse crescimento, a falta de investimentos públicos e privados no setor da construção civil e a crise imobiliária, ausência de industrialização e de um plano nacional de habitação colocou a categoria e na verdade todo o campo da construção civil em um limbo. Cerca de 60% dos arquitetos brasileiros trabalham de forma autônoma , a maioria, enfrentando precarização e instabilidade. Para as mulheres, que representam a maioria entre os formados, a realidade é ainda mais árdua: desigualdade salarial , assédio e invisibilização profissional fazem parte do cotidiano. Em um mercado altamente elitizado, muitos desistem da carreira, migrando para áreas correlatas ou aceitando condições de trabalho precarizadas em qualquer área pra sobreviver.

Quando estudante, lembro-me de algumas táticas. Sem dinheiro para conhecer o mundo, desbravei-o nas bibliotecas da FAU. Lia em todos os meus tempos vagos, revistas, livros, artigos, teses. Porém não falarei sobre isso agora. Para este texto vou citar 3 documentos que me auxiliaram na auto-organização: o livro Manual do Arquiteto Descalço (aqui); o documento da FNA, na época da gestão Jeferson se não me engano, Manual de Defesa Pessoal do Jovem Arquiteto e Urbanista (aqui), e mais atualmente a Cartilha T.A.B.A. Trabalhadores Articulados em Benefício da Arquitetura (aqui).

A verdade dura é: minha geração já não via muito futuro na profissão, pois a forma estruturante dela é para poucos terem sucesso.

Apesar das enormes dificuldades deste porvir, os jovens de hoje têm à disposição ferramentas e práticas que podem revolucionar o campo da arquitetura, na verdade do trabalho. Redes sociais e plataformas digitais como Discord, Instagram e TikTok já estão sendo utilizadas para criar comunidades de troca e apoio . Diferentemente da minha geração, que utiliza essas ferramentas de forma mais expositiva, os mais jovens constroem nichos e espaços de diálogo muito próprios que desafiam a lógica tradicional. Para além do entretenimento, o que precisamos é otimizar estas ferramentas para articulação. 

Jovens Arquitetos podem utilizar esses espaços para compartilhar oportunidades de trabalho, oferecer ajuda técnica e podem divulgar projetos colaborativos em redes de interesse mútuo ou complementar. Um exemplo inspirador no Brasil é a rede Arquitetos pela Moradia , que conecta e articula profissionais e estudantes interessados ​​em Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) . O grupo promove debates sobre políticas habitacionais, divulga editais e cursos, e fomenta projetos que impactam comunidades locais.

No âmbito internacional, iniciativas como o Open Architecture Collaborative (nascido do Architecture for Humanity), nos Estados Unidos, demonstram o poder do trabalho coletivo. Esse grupo cria projetos de impacto social em áreas vulneráveis, promovendo soluções de habitação e infraestrutura. Na Colômbia, o MU Micro Urbanismo em Bogotá realiza intervenções urbanas táticas em comunidades periféricas, promovendo a transformação de espaços públicos negligenciados.

Esses exemplos mostram que, em contextos de crise, a organização coletiva pode ser uma ferramenta poderosa de transformação econômica e social. No Brasil, movimentos autogeridos como mutirões, cooperativas, coletivos culturais e coletivos de assistência técnica e melhorias habitacionais, assim como coletivos de jovens arquitetos realizando diversas entradas de trabalho e experimentações podem propor um novo paradigma para a arquitetura.

Táticas de Ação: Como Começamos um Coletivo de Arquitetura?

  1. Forme o Grupo
    • Identifique colegas com interesses em comum. Um coletivo pequeno e bem alinhado é mais eficaz do que grupos dispersos. Não precisam ser necessariamente arquitetos.
  2. Organizar Grupos de Estudo
    • Utilize bibliotecas públicas, materiais online e promova rodas de debate. Estude além da sala de aula para entender como aplicar o conhecimento na realidade local.
  3. Crie uma Rede Digital
    • Use plataformas como Discord, telegram ou WhatsApp para organizar canais dedicados a oportunidades de trabalho, compartilhamento de materiais e discussões sobre temas de interesse global e local: justiça ambiental, urbanismo sustentável, crise climática e assistência técnica, por exemplo.
    • Um coletivo deve possuir uma agenda ativa de ações. Rodas de conversa, grupos de estudo, cineclubismo, oficinas de experimentação e projetos utópicos, estudos de estética, estudos políticos, entre outros.
  4. Mapeie Demandas Locais
    • Identificar espaços públicos ou habitacionais que necessitem de intervenção. Use ferramentas como o Google Earth para mapear condições e criar um portfólio. Conheça sua vizinhança, caminhe e identifique os problemas, produza documentos pessoais, compreenda a economia que gira em torno da construção de uma casa popular periférica.
  5. Busque Apoio e Financiamento
    • Articule-se para, quando apresentar o portfólio e a proposta de impacto social do coletivo, ter capacidade de pleitear recursos.
    • Auxiliar ONGs, Cooperativas, associações de moradores ou coletivos a realizar ações de melhorias. Disputar editais, organizar-se para acompanhar metodologicamente os instrumentos de fomento, assim como captar recursos via ferramentas de doação colaborativa. 
  6. Realize Projetos Colaborativos
    • Comece pequeno: revitalizar uma calçada, criar mobiliário urbano sustentável ou promover oficinas de educação ambiental, de estudo do lugar, de memórias afetivas.

A formação em arquitetura nos capacita com habilidades que vão além de projetos e obras. Cito alguns que considero interessantes. O olhar generalista e multidisciplinar, que comunga técnicas exatas, artes e ciências sociais aplicadas, nos dá flexibilidade para atuar em outros campos de trabalho. A capacidade de análise sistêmica é altamente valorizada em setores como gestão de projetos , consultoria estratégica e inovação tecnológica . A habilidade criativa nos conecta a áreas como design de serviços e publicidade, além de áreas que exigem soluções inovadoras para problemas. 

O equilíbrio entre conhecimentos técnicos e sociais também permite que arquitetos transitem por áreas como políticas públicas , consultoria ambiental e empreendedorismo social. Assim, apesar da recessão, um bom preparo pode nos levar a algumas possibilidades que ampliam o horizonte de atuação e mostram que a formação em arquitetura apesar de não ser o principal elemento, se torna um ativo importante.

Estudar é um Ato Político

Lembro-me de uma frase que se lia num banheiro público e que sempre ouvi nos tempos de FAU: “Não deixe a faculdade atrapalhar seus estudos”. Estudar, no sentido amplo, vai além das aulas e exige esforço ativo. Quando jovens arquitetos se reúnem para aprender juntos, estão resistindo a um modelo de educação que prioriza a competitividade em detrimento da colaboração. Círculos de estudo livres podem ser sementes de movimentos maiores, assim como os cafés modernistas ou os escritórios brutalistas um dia o foram. Teoria e prática não andam separadas.

Em uma economia de recessão, a utopia também é panfleto. Muitos movimentos da Arquitetura se organizaram a partir de projetos panfletos, de produção de ideias, narrativas, discursos utópicos, experimentações teóricas. Cidades futuristas do Archigram ou o Cenotáfio de Newton de Boullée, são exemplos interessantes de arquiteturas sem sombra. Curioso, usei o termo panfleto alguns dias após tê-lo criticado em dois textos anteriores sobre organização política. Mas aqui cabe.

Conclusão

A arquitetura nunca foi apenas sobre construir prédios. Os desafios do mercado brasileiro são reais, mas as oportunidades para transformar a profissão também. A recessão constante e a desvalorização nos mostram que o modelo está muito equivocado. Nosso esforço atual precisa caminhar para a transformação do campo de trabalho, é um esforço que exigirá a emancipação da profissão e o realinhamento dela com as necessidades do Brasil Real.  Ao organizar-se, estudar juntos, criar redes, elos e cooperativismos e agir coletivamente, jovens arquitetos podem criar algo novo, redefinindo o papel da arquitetura na sociedade. Fica como um pequeno convite à ação. 

archigram cities: veja aqui

@rodrigobertame

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Contradições, Delírios e Utopias. A Política Precisa Escutar as Margens

“Sou negra, lésbica, toco na noite e não vou votar no candidato de vocês. Quero que me expliquem o porquê.” Uma jovem abruptamente pegou um panfleto das nossas mãos e lançou esta frase. Lembro-me até hoje da campanha eleitoral. Distribuíamos panfletos para uma eleição onde Marcelo Freixo (candidato pelo PSOL) disputava a prefeitura contra Crivella (representante da Igreja Universal), no pólo gastronômico de Vista Alegre.

Parece estonteante, à primeira vista. A militância, embebida em suas certezas e métodos, não está habituada a lidar com contradições tão explícitas. No lugar de argumentos automáticos, optamos por simplesmente sentar e ouvir. “Me explique você o porquê”, dissemos.

A jovem, negra, lésbica e música da noite, frequentava ativamente uma igreja batista onde encontrou acolhimento e pertencimento. Para ela, a fé, diferente do que muitos imaginam, nunca foi fonte de intolerância ou desrespeito. Pelo contrário, foi ali que encontrou segurança e aceitação. Quem conhece o cristianismo evangélico sabe de suas múltiplas expressões, das mais acolhedoras às mais excludentes e intolerantes.

Escutar a jovem, genuinamente e sem julgamentos, foi nosso maior ato revolucionário naquele momento.

Ao final, ela compreendeu que Crivella, representante de um modelo institucional da Universal, não representava os valores da Igreja Batista que a acolhia. Nós, por outro lado,compreendemos que há mais profundidade diante das relações singulares do que supõe os cânones vermelhos.

Identidades e Fluxos: contradições no caminho das militâncias

Essa contradição não é um caso isolado. Nas periferias, onde as múltiplas crises da vida se entrelaçam, identidades rígidas não sustentam a complexidade da existência. Recentemente, li um texto de blog do Emilio Bazan Sanchez (link aqui) que questionava: Estamos limitando o potencial humano ao dividir a vida em caixas organizadas? Ele sugeria que uma visão mais fluida das identidades pode abrir possibilidades de crescimento individual e social.

Pensadores já vislumbravam essa fluidez. Beauvoir, ao dizer “não se nasce mulher, torna-se”, indicava a mutabilidade de quem somos e a forma como as definições são construídas socialmente. Deleuze, numa alegoria que gosto, agenciava um cavalo de carroça ao boi de carga, distanciando-o do cavalo de corrida. O que importa para a turma de 68, é o processo contínuo, o devir e não um estado fixo, essência divina, casta.

Contudo, no mundo real, essa fluidez encontra resistência. O ser humano busca conforto nas caixinhas organizativas. Políticas públicas, por exemplo, precisam categorizar e padronizar para alcançar resultados concretos. Estruturamos nossa vida social a partir destes limites. Porém, ao cristalizar identidades, excluímos uma enormidade de pessoas que não se enquadram na escritura de significados da identidade. Na vida real, transitamos simultaneamente por diversos papeis: colegas, pais, amigos, vizinhos, trabalhadores, para cada papel há um jeito de perceber e vivenciar nossa identidade. Somos fluxos, redes em constante mutação. Como acolher as contradições sem perder o sentido de coletividade? Como agenciar as singularidades em identidades e complexidades ao mesmo tempo?

Para superar as crises do nosso tempo, precisamos encarar as contradições de frente, quiçá mergulhar nelas. Como integrar os desencaixados de nossos “sonhos tão mesquinhos” de revolução? Afinal, é utópico pensar em justiça para as minorias enquanto não conseguimos escutar sequer as demandas de uma jovem negra, lésbica e evangélica.

A militância de esquerda, historicamente centrada em organizações, categorias e bandeiras, precisa reconhecer que antigas estratégias já não dialogam com a complexidade contemporânea. Urge construir ações que acolham contradições e singularidades. Isso exige escuta ativa, valorização da pluralidade, integração com o divergente e, acima de tudo, ações práticas.

Reconhecer que expressões culturais, mesmo aparentemente contrárias às nossas crenças, têm valor social intrínseco e podem ser pontos de conexão entre os explorados. Devemos permitir que os povos periféricos articulem suas demandas sem o paternalismo de quem dita as pautas, inclusive as nossas pautas. É essencial construir alianças verdadeiras, abertas e ampliadas, mesmo que não caibam em categorias pré-definidas.

Ressignificar o Acolhimento: um novo caminho para a revolução

O reacionarismo sabe usar o conceito de “pátria” como uma quimera de unidade popular, vendendo um passado irreal como futuro paraíso perdido. A esquerda, muitas vezes, cai na mesma armadilha, trocando apenas a cor da moeda. Ressignificar o acolhimento, a meu ver, é nosso desafio. Não se trata de apenas reagir ao conservadorismo, mas de inspirar esperança concreta, conectando sonhos coletivos às condições reais de quem vive às margens. Criar um novo desejo não é simples, eu sei, mas precisamos dar o primeiro risco no papel.

Um devaneio: um jovem ambientalista evangélico que mora em uma casa ribeirinha. Ele está mais próximo da realidade sofrida dos povos originários do que de uma liderança rica de uma mercoigreja. Sua identidade coletiva, para a esquerda, pode ser a de um ribeirinho. Mas, para ele, talvez seja mais importante ser um profeta de Deus em sua rua. Ignorar essa contradição e esse jovem é cair num dualismo que nos isola.

Entre Martin Luther King e Silas Malafaia, há um abismo ético. Há uma contradição histórica entre Abdias do Nascimento e o Integralismo. São nesses espaços tensionados que a complexidade humana se revela, e desde algum tempo, são nestes espaços de tensões que prefiro caminhar politicamente. Entendo que a militância precisa agir nessas margens, navegando as crises lendo as letras miúdas que ninguém quer ler.

Como ensinou Zaratustra: “Por variados caminhos e de várias maneiras cheguei à minha verdade.” O futuro exige que atravessemos as identidades como fluxos, redes e elos. Não importa tanto quem somos, mas quem podemos ser com as ferramentas que temos disponíveis.

Navegar bem na crise não é apenas sobreviver. É criar, acolher e construir um lugar mais humano, onde as contradições se tornem pontes. Esse lugar não estará pré-definido em nossas bandeiras nem será o resultado de sonhos fixos em um passado quimérico. Creio que este lugar será construído por um mosaico de vidas que ousaram não temer o outro, o diferente, o divergente, o desajustado. Vidas pobres, e pensem, ainda assim não é simples compreender a pobreza, afinal temos muitas gradações e escalas de pobres, cada qual com um universo girando em suas singularidades enquanto são explorados pelas máquinas de moer corpos. Porém, se não fazemos parte dos 1% que controlam o mundo, somos todos parte de uma ralé que precisa encontrar novas formas de sonhar e novos mundos para construir dentro deste mesmo mundo.

Foto: Solen Mourlon/MSF – original: https://www.msf.org.br/noticias/por-que-a-crise-climatica-e-tambem-uma-crise-humanitaria-e-de-saude/

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Lavanderias

Teia

Certa vez, eu inocente, joguei no Google a pergunta: como ganhar dinheiro com arte? Uma indagação banal que me conduziu a algo que eu já imaginava mas não fazia ideia de que fosse tão real. A lavagem de dinheiro com arte, em escala global. Quem diria que um quadro de gosto duvidoso poderia valer tão caro?

Lembrei de um amigo num papo de café que me disse algo do tipo: o dinheiro contabilizado no mundo é só a ponta do iceberg. O que está abaixo é um mundo oculto, habitado por cifras inimagináveis.  No Brasil, suspeito que esse iceberg finca raízes em setores tipo o agronegócio, o entretenimento, as igrejas e a cultura. Nada mal para quem busca transformar o ilegítimo em capa da Forbes.

Vamos criar uma narrativa hipotética, uma alegoria. Começaria pelo agro. O agronegócio, pop, paixão nacional, lucrativo, conectado aos mercados globais, com uma imagem púdica, gerada por comerciais que exaltam o poder do campo. Primeiro, compraremos terras com dinheiro de origem, digamos, desconhecida. Dê preferência por regiões remotas, onde o conceito de fiscalização é tão frágil quanto o sinal do celular.

Essas propriedades, mais tarde, serão vendidas a preços inflacionados, gerando lucros que magicamente se tornam renda agrícola. Se perdermos um pouco no processo, não tem problema. Afinal, o importante é que o dinheiro outrora oculto ganhe uma nova roupagem rural. Claro, para os mais ousados, há sempre as opções tradicionais de possuir terras: grilagem, especulação imobiliária, violência e destruição ambiental. Transformar o verde em reais.

Com o dinheiro limpo em mãos, partimos agora para o entretenimento. Por que não organizar shows e festivais? Afinal, bilheterias inflacionadas e patrocínios superfaturados são um interessante passaporte para a legitimidade financeira. Além do que, eventos culturais elevam nossa imagem. Nada como patrocinar um festival de música e aparecer como mecenas nas páginas sociais da sua cidade. A fiscalização é tão subjetiva quanto o gosto musical. Não estamos apenas espalhando alegria?

Apogeu

Mas o ápice dessa jornada para mim, é o mercado de arte. Aqui, meus amigos, alcançamos o nirvana do prestígio. Afinal, se é pra lavar dinheiro, que façamos com elegância e classe.

Compramos quadros ou esculturas, algumas tão duvidosas quanto o gosto de novos-ricos, mas que agora carregam importantes discursos de curadores e marchands. Com algumas aquisições bem escolhidas, nos tornamos filantropos da cultura, intelectuais. Estamos em outra escala da sociedade dos dinheiros duvidosos.

Ninguém pergunta muito sobre o dinheiro que pagou a última obra conceitual. A questão mais importante é se ela combina com a sala de estar de alto padrão ou se vamos doá-la para a próxima exposição. A subjetividade desse mercado é seu clímax. Como questionar o valor de algo que se mede em inspirações? Marchands e casas de leilão cuidam de criar narrativas, enquanto seguimos anônimos nas transações. Em algumas vernissages, sairemos nas fotos e a proteção legal faz o resto.

E assim, entre uma obra de arte e outra, acumulamos prestígio. Somos capa de revistas, frequentadores de leilões badalados, convidados para festas exclusivas. Tornamo-nos o exemplo perfeito de como transformar o que era suspeito em algo digno de aplausos. Há quem prefira os bets, jogadores de futebol, clubes de samba-funk, sertanejo universitário. Gente cafona, tem dinheiro mas não tem estilo. Honestamente, podemos lavar dinheiro com elegância.

Essa conexão entre agro, entretenimento e arte é minha obra prima, uma rede de lavagem que tem a estética de uma vida perdida entre Picasso e Romero Britto.  Ao misturar esse dinheiro oculto com setores socialmente aceitos, fecho um ciclo que, embora mantenha as desigualdades e mine a confiança global nas instituições, me permite boas conversas numa manhã de terça feira no Café Max, bem longe do Brasil. Ao fim, o que sobra é uma ironia: Estou na capa da Forbes, na ilha de Caras, nas festas do Morro da Urca. O trabalhador da base, com seu salário mínimo, admira nossas fotos na Suíça, enquanto está em pé num 804 voltando pra casa.

A moral da história? Desde quando precisamos encontrar alguma moral em alguma história? Entre leilões, festivais, igrejas e vastas plantações, já não sei se é a arte que imita a vida ou o dinheiro lavado que imita a arte.

Quem quer dinheiro?

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Interiorizar a Arquitetura: Uma possibilidade de reinventarmos a Profissão

A arquitetura, como era conhecida em tempos antigos, acabou. O que nos resta é a oportunidade e  dever de reinventar nossa capacidade de trabalho, utilizando nossas ferramentas para enfrentar as pautas urgentes que moldam nosso tempo. Entre elas, quero destacar algo que me incomoda: premente necessidade de descentralização do desenvolvimento econômico e social do Brasil.

O modelo atual concentra riqueza e impactos no eixo Sudeste, deixando vastas áreas do território nacional relegadas ao abandono ou à exploração predatória. É um ciclo que alimenta desigualdades regionais e ambientais. O arquiteto militante, consciente de sua responsabilidade social, deveria propor e implementar projetos que alavanquem o interior do Brasil. Penso que criar polos de inovação sustentável por exemplo, é um caminho para mitigar os efeitos da concentração de renda e da superexploração territorial.

Interiorizar a arquitetura não é apenas deslocar profissionais para regiões periféricas. É articular esferas distintas de poder, estatal, comunitário, acadêmico, movimentos sociais, para criar espaços de gestão compartilhada. Centros regionais de pesquisa, ensino e prática podem ser organizados com o objetivo de oferecer soluções em arquitetura bioclimática, agroecologia e infraestrutura de baixo impacto extrativista e alto desempenho social.

O Brasil, em sua vastidão e diversidade, exige soluções regionais, não cabem em um modelo único e genérico. Dito isso, precisamos dispor de um olhar não nostálgico para o vernacular e o cultural, mas como um ponto de partida para construir uma arquitetura que dialogue com os desafios e recursos locais.

Uma estratégia central para essa mudança é a mobilização de arquitetos para territórios desassistidos. Há cidades e regiões inteiras onde sequer há um profissional atuando. Um esforço político sério deve permitir a interiorização de profissionais, incentivando a criação de soluções que priorizem o baixo impacto ambiental e a alta capacidade de transformação social.

Urge também reformular o currículo das escolas de arquitetura. Devemos integrar o foco regionalizado que prepare os arquitetos para os desafios locais, desmistificando que a única linguagem certa é a gramática globalizada que muitas vezes ignora as especificidades do território brasileiro. Trata-se de uma educação que valorize o contexto, o lugar e a realidade concreta de cada comunidade.

Mobilização e Impacto Político

A mobilização para interiorizar a arquitetura pode e deve operar em escalas comunitárias e globais. Redes com movimentos sociais, universidades e lideranças locais devem ser construídas para fortalecer as propostas e ampliar a capacidade de intervenção.

Plataformas digitais também tem um papel fundamental nesse processo. Ajudam a conectar ideias, expondo projetos de sucesso e promovendo o diálogo entre atores diversos. Exemplos concretos de transformação territorial sustentável precisam ser divulgados e trabalhados como modelos a serem replicados e transformados em políticas públicas.

Interiorizar a arquitetura é, antes de tudo, um ato político. É reivindicar a profissão como uma ferramenta de justiça social e ambiental. É garantir que os povos historicamente silenciados tenham voz, que suas demandas sejam ouvidas, e que as soluções não lhes sejam impostas, mas construídas coletivamente. Sabemos que a arquitetura sempre foi uma ferramenta de legitimidade do Poder, o que devemos nos propor agora é: Que poder queremos legitimar e que povo gostaríamos de empoderar?

Este é um desafio e uma oportunidade viável para o renascimento da arquitetura contemporânea no Brasil. Não podemos nos limitar a projetar a centralidade do país. A profissão está diante de um ponto de inflexão, que a escolha seja clara: reconstruir a arquitetura a partir da periferia, do interior, com força de quem acredita na transformação coletiva. 

Quanto ao poder público, pode criar linhas de fomento e recurso para regiões pobres possam ser atendidas. Se isso nos soa algo inovador e talvez interessante de aplicar, o que digo é: basicamente este é o princípio pensado a décadas pelos ativistas da Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social. E suas ações diretas, soam quase quixotescas nestes muitos Brasis existentes que negligenciam a maior parte da população pobre. Tudo que precisamos é implementar o recurso, massificar a política e usar os bons exemplos como instrumentos de melhoria das políticas.

casas ribeirinhas – Tarsila do Amaral

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