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Trump e tarifaço: o dólar como arma de guerra

meme reproduzido das redes de internet

Donald Trump tem um projeto: recentralizar os Estados Unidos no jogo global e decide fazê-lo por meio do conflito. Assim como o jovem que, ao jogar War se vê perdendo e simplesmente bagunça o tabuleiro todo, lembrando para os amigos que as peças do  jogo são dele. Assume o comércio mundial como uma arena de disputa por poder real onde, para ele, os EUA estão perdendo, apesar de serem os emissores da moeda lastro. A crítica de Trump ao sistema é profunda e não creio que seus cálculos sejam infantis. O que ele sabe é: independente das regras do jogo, ele tem a bola, o dólar e quem tem a bola define se a brincadeira é futebol ou vôlei ou, o mais provável, alguma brincadeira com regras inventadas por ele.

Por mais que para muitos soe uma prática antiquada de protecionismo, não o é. Trump explode uma subjetividade que responde ao americano de classe média estagnado na economia que a mesma não é um elemento neutral e estável. Enquanto, historicamente, trabalhadores vêm perdendo empregos, fábricas saem do país migrando para países mais estratégicos do sistema internacional e a infraestrutura se degrada. Lembremos aqui de Detroit, que em julho de 2013 decretou falência, se tornando a maior cidade dos EUA a fazer isso.  Enquanto isso, países asiáticos e europeus acumulam reservas em dólar, compram dívida americana e exportam seus produtos para os EUA com vantagens cambiais que, segundo Trump, jamais seriam aceitas se fosse o inverso.

O dólar, pilar da ordem financeira internacional, é ao mesmo tempo fonte de prestígio e fraqueza. Sua hegemonia faz com que os EUA possam se endividar à vontade e manter um aparato militar gigantesco. Assim, cria uma máquina de poder extremamente forte no mundo. Seu principal conflito, me parece ser contra o sistema financeiro internacional que mantém artificializada o valor de sua moeda para a boa operação do sistema especulativo global em detrimento do sistema produtivo industrial das nações.

A resposta de Trump a esse cenário é a ruptura, lhe interessa o impacto, sua política tarifária instrumentaliza o desequilíbrio monetário e produtivo global, força a valorização das moedas estrangeiras, força o reestudo de logísticas de produtos e de mudanças de sites industriais. Trump força o mundo a aceitar um dólar mais fraco sem que os EUA percam o privilégio da hegemonia da moeda.

Trump aposta no limiar do colapso, como mesa de negociação com o mundo. É uma estratégia de alto risco, flerta com crises globais e instabilidades duradouras. Mas, para ele, é melhor provocar o terremoto do que continuar enterrado sob os escombros de um sistema que já não serve aos interesses americanos (na sua visão).

Ao tentar reconstruir o jogo do poder a partir do abalo sísmico. Trump joga as fichas porque acredita que todos voltarão à mesa? talvez. Mas, dessa vez, com novas cartas e novas regras feitas por ele. Esse projeto se sustentará? Tudo depende de como as nações afetadas irão se articular na reorganização de seus mercados.

E até nisso a operação foi interessantemente sofisticada. As bruscas diferenças de tarifas colocam o mundo em duas disputas concomitantes: Países como o Brasil se tornam atrativos como um canteiro industrial, enquanto China e outros são hipertaxados.  Trump não racha o mundo em um Todos contra Trump, ele racha em uma disputa onde redefine a ordem das desigualdades entre as nações. Algumas subitamente ganham oportunidades atraentes enquanto outras sofrerão as sanções.

Seu plano é mais político do que econômico. Envolve diplomacia direta, bilateral, baseada na força, e disputas constantes. Trump traz o mundo para uma negociação olho no olho, país a país.. Para uns, exigirá compra de armas; para outros, que migrem fábricas para solo americano. Quem não aceitar suas condições, enfrentará tarifas, retaliações e, em último caso, o uso do poder militar como elemento de pressão. Este é o recrudescimento de um Estado de Guerra que ainda tem seu dinheiro, leia-se confiança de mercado, como lastro da economia global. O que nos parece loucura é apenas uma guerra em curso.

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Por que Estudar Teoria da Arquitetura e por que eu leio Tafuri?

É surpreendente a decisão de Trump, que ao assinar um decreto impôs uma estética clássica para as artes e os edifícios cívicos. Em vez de recorrer a análises já exploradas, como as apresentadas no Arquitetura da Destruição, de Peter Cohen, proponho uma leitura que nos convide a repensar aspectos naturalizados e que demandam uma abordagem crítica. Afinal, não há prática arquitetônica sem teoria.

A estética arquitetônica está intrinsecamente ligada às disputas sociais. Cada transição estilística, seja a tensão entre modernistas e neo-coloniais ou outras mudanças de paradigma, evidencia que a arquitetura nunca pode ser considerada isolada de seu contexto histórico. As obras construídas são, acima de tudo, produtos de ambientes históricos e culturais, marcados por contradições sociais, políticas e econômicas. Reduzir a arquitetura a uma mera linguagem estética ou funcional é ocultar a influência concreta dos interesses de poder que orientam diretrizes, planos, projetos e até a escolha dos materiais construtivos.

Nesse sentido, a arquitetura atua como uma escritura, um documento que registra as lutas e disputas de uma sociedade na produção do espaço. Manfredo Tafuri exemplifica essa ideia ao analisar o modernismo, destacando a contradição entre a utopia revolucionária que fundamentava a ideologia moderna e a prática concreta, que se dissolveu sob o sistema capitalista. Dessa forma, a promessa de uma arquitetura libertadora frequentemente se transforma em instrumento de dominação e controle.

Esse cenário revela, ainda, o “esquecimento” dos estudos sobre Tafuri, reflexo da disputa por novas formas de organizar a sociedade. Embora seu trabalho seja historicamente relevante e conceitualmente denso, seu rigor metodológico nem sempre se coaduna com o discurso acadêmico contemporâneo  que tende a valorizar produções mais acessíveis e diretamente aplicáveis à prática do design, em favor dos interesses do capital e do poder. Essa tendência gera debates estilísticos automáticos, tratando a arquitetura como uma arte desconectada de sua função social. Em tempos de automação, inteligência artificial, tecnologias digitais e globalização dos processos construtivos, a crítica torna-se indispensável. Hoje, obras pragmáticas e orientadas pelo mercado ilustram exatamente o que Tafuri apontava: a organização da arquitetura atua como um mecanismo de controle e representação do poder.

Ao construir mundos contrastantes, como os de Dubai e Orangi Town, esse modelo evidencia a dualidade entre a prática imediata e a reflexão crítica. Enquanto a linguagem dos projetos contemporâneos privilegia inovações rápidas, a análise dos fundamentos teóricos possibilita uma compreensão integral do processo de produção do espaço. Conhecer a teoria que molda nosso campo fortalece nossa consciência crítica e profissional, revelando o que realmente estamos produzindo enquanto trabalho.

Na escola modernista, e entre seus discípulos, inclusive esse que escreve, havia a aspiração de transformar a sociedade por meio da arquitetura. O objetivo era criar espaços que não apenas abrigassem, mas também emancipassem os indivíduos, promovendo uma profunda reconfiguração das relações sociais, políticas e econômicas. Acreditava-se que essa nova arquitetura poderia servir de alicerce para uma sociedade mais justa e igualitária, onde o ambiente construído expressasse a libertação humana. Crer no potencial transformador da arquitetura é, de fato, um ideal compartilhado.

Entretanto, na prática contemporânea, essa utopia é frequentemente apropriada e subvertida pelos próprios mecanismos do sistema. Projetos emblemáticos emergem sob o manto da inovação e modernidade, mas, na realidade, estão marcados pela lógica do consumo, do espetáculo e da exclusão. Arranha-céus  que deveriam simbolizar a grandeza arquitetônica acabam se transformando em complexos sistemas de engenharia e automação, onde elementos como elevadores, fluxos de circulação, condicionamento de ar e a separação entre o natural e o construído definem a estética, como exemplifica o Burj Khalifa. Dessa forma, o espaço destinado à realização de ideais emancipatórios torna-se um palco para a concentração de poder econômico e riqueza, reafirmando as estruturas de dominação.

Outra ilustração dessa tensão encontra-se nas iniciativas de “smart cities” e no conceito da “cidade dos 15 minutos”, amplamente debatidos em centros urbanos como Paris. Embora tais propostas prometam uma organização mais integrada e sustentável do espaço urbano, na prática, a ausência de políticas inclusivas faz com que seus benefícios se concentrem em áreas já privilegiadas, diluindo seu potencial revolucionário. O uso intensivo de tecnologias para monitoramento e gestão urbana revela um duplo caráter: a promessa de melhoria na qualidade de vida contrasta com o aumento da vigilância e do controle social. Em cidades como Rio e São Paulo, por exemplo, a persistência de altos índices de violência, frutos de décadas de desigualdade, descaso e falta de investimentos em educação, demonstra que sistemas de segurança privados, como as “câmeras da Gabriel” mencionadas neste texto aqui, não resolvem os problemas de fundo.

Enquanto, por um lado, pregávamos o sonho revolucionário da arquitetura, a proposta de Trump evoca o reacionarismo ao defender o retorno ao estilismo clássico, justamente questionado pelo modernismo. Esse retorno nos surpreende, pois, parafraseando Latour, nunca deixamos de ser modernos. Mas o que Trump pretende comunicar com esse aparato estético? Ao revisitar as Beaux-Arts, ele define um conceito próprio de beleza e de expressão cultural, afastando-se do capital contemporâneo e evocando um tempo que se perdeu. Ao apelar para um passado repleto de signos que persiste em nossas memórias por meio de contos e histórias  ele se vale de uma arquitetura que jamais foi concebida para solucionar os problemas fundamentais da população, como a reabilitação de bairros carentes ou a crise habitacional, questões centrais no pensamento moderno e revolucionário. Nosso estranhamento reside no fato de que o tempo evocado por Trump não se coaduna com nossa perspectiva contemporânea. O neoclássico que o inspira carrega um discurso e uma estética do século XVIII e anterior, símbolo de uma era marcada pelo Iluminismo e pelas revoluções francesa e americana, mas também uma era altamente escravagista e um sonho de passado utópico.

Dessa forma, somos convidados à reflexão. A abordagem teórica que vai além da mera descrição dos estilos e projetos procura revelar as condições socioeconômicas e políticas que moldaram cada momento histórico, exigindo uma análise criteriosa dos contextos de produção e das narrativas oficiais. Essa postura crítica nos instiga a questionar a eficácia e o impacto dos projetos arquitetônicos, bem como a própria essência da disciplina. Apesar do aparente desinteresse contemporâneo pelos estudos de Tafuri, possivelmente decorrente da ênfase em soluções tecnológicas e mercadológicas e da proliferação de novas abordagens teóricas alinhadas ao capitalismo global , sua obra continua a oferecer um olhar essencial para questionar os pressupostos que regem a produção do espaço.

Compreender os mecanismos que moldam o o meio ambiente construído fortalece nossa capacidade de atuar com menos ingenuidade e de reconhecer que a arquitetura não se resume ao “como” projetar, mas, sobretudo, ao “porquê” de projetar, estando imersa em complexas relações de poder, ideologia e história. O que Trump acaba por nos revelar é esse efeito: uma construção de linguagem de poder fundamentada na representação estética. Ao romper com a linguagem que naturalizamos, expõe nossa própria contradição. De certo modo, estamos todos nus enquanto representantes de uma arquitetura do poder em disputa.

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Ciberassentamentos: Como Enfrentar o Domínio das GAFAM

vale do silicio flerta com trump leia em:https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2025/01/vale-do-silicio-flerta-com-trump.shtml

O Paradoxo GAFAM

As manifestações de apoio de lideranças do Vale do Silício ao governo Trump reacendem questões pertinentes: como as corporações digitais moldam o comportamento humano e restringem a liberdade social? E, mais importante, como nos instrumentalizar para enfrentar esse poder?

Vivemos em um mundo onde o poder digital não opera como uma estrutura hierárquica simples. Google, Amazon, Facebook (Meta), Apple e Microsoft (GAFAM), para além de controlar fluxos globais de informação, operam redes complexas que mercantilizam desejos e fetiches humanos. Embora suas plataformas permitam a comunicação coletiva, essas redes, alinhadas com a ideologia vigente, incentivam a busca incessante pela construção de indivíduos, enquanto marginalizam as relações de comunicação coletiva, compartilhamento de informações úteis, dados e articulação social. 

As GAFAM criam territórios digitais, controlam protocolos, algoritmos intencionalmente opacos ao usuário comum e fluxos de dados, regulando assim o comportamento da sociedade no espaço digital. Esse modelo gera um paradoxo: embora se baseiam em redes distribuídas, as decisões de controle permanecem centralizadas em poucas corporações.

Isso impede a definição de um eixo central para protestos e boicotes contra as empresas. O poder dessas redes é fluido, ajustando-se rapidamente às tensões e capturando a subjetividade dos usuários, que, ao criar conteúdo, alimentam o sistema que os transforma em produtos. 

Diante dessa conjuntura, a resistência deve ser tão fluida e híbrida quanto o próprio sistema dominante.

A resistência às GAFAM deve transcender o digital, articulando-se com movimentos territoriais reais. Ferramentas descentralizadas, como Mastodon e Peertube, oferecem alternativas interessantes, transparentes e autônomas, conectando demandas locais e globais em uma rede híbrida de colaboração.

As redes sociais hegemônicas criam “vidas condominiais”, limitando a liberdade e autonomia dos usuários. Para escapar desse cerco, é necessário fomentar o uso de plataformas descentralizadas sem abandonar completamente as grandes plataformas. Compreender os protocolos de cada rede ajuda a desenhar estratégias eficazes de uso. Sistemas como Matrix, Discord e IPFS, tecnologia peer-to-peer pode nos ajudar a criar um ecossistema organizativo alternativo. Assim como as comunidades locais organizam encontros e mutirões, essas plataformas podem servir como espaços para a troca de saberes e para a coordenação de ações territoriais e globais.

Hackear os Protocolos por Dentro é preciso!

Uma resistência ao GAFAM pede que subvertamos seus protocolos internos. Em vez de lutar apenas por regulamentações mais restritivas, é necessário exigir por exemplo interoperacionalidade entre plataformas. Permitir que os usuários possam transitar entre redes sem perder contatos, rastreabilidade e histórico de dados.

Explorar brechas nos algoritmos também nos é crucial para redistribuir a recepção de conteúdos e amplificar vozes independentes. No entanto, uma falha nossa comum é tratar as redes como canais panfletários, ignorando elementos que favorecem engajamentos orgânicos, como debates, opiniões pessoais e interações dinâmicas. Campanhas não podem ser reduzidas a mero compartilhamento em massa de uma postagem. Isso funcionava no tempo dos panfletos, porém na geografia das redes, precisamos criar um ecossistema plural das mensagens que queremos transmitir.

Movimentos locais, como organizações de trabalhadores digitais e coletivos de criadores de conteúdo, podem formar redes de educação e mobilização. Por meio de ações coordenadas, como boicotes globais a plataformas específicas ou campanhas para desmascarar práticas oligopolistas, é possível criar um impacto significativo. Imagine, por exemplo, um protesto digital iniciado no Brasil que articule greves trabalhistas no México: com conexões corretas, isso se torna uma possibilidade concreta.

Embora as redes sociais tradicionais continuem hegemônicas, é possível usá-las estrategicamente para impulsionar movimentos. Ações interplataforma, com o uso de canais seguros para organização, articulação e comunicação, podem germinar movimentos virais que desviem a atenção de algoritmos dominantes, exponham as contradições e furem brechas das redes.

A exploração de redes distribuídas permite construir resistência que não depende de lideranças centralizadas. Conectar plataformas independentes para produzir ações coordenadas, transformar pequenos grupos em coletivos de inovação social e dar visibilidade às consequências sociais, econômicas e políticas dessas ações são passos importantes.

Futuros da Resistência: do Ciberassentamento ao Cibersindicalismo

Resistir ao domínio das GAFAM exige uma abordagem que combine esforços locais e globais em uma rede de redes, construindo múltiplas camadas de ação. Um cibermovimento ou cibersindicalismo ofereceria um caminho para disputar o espaço das tecnologias digitais e enfrentar o furto de nossa produção de vida, esse trabalho que desempenhamos para as redes em troca de dependência e vício. Essa prática organizativa une o melhor do virtual e do real, resgatando a utopia das plataformas livres e suportes comunitários que marcaram o início da internet.

A experiência histórica de movimentos como o MST, os zapatistas, comunidades indígenas andinas ensina que a luta por territórios não se limita à terra física, mas inclui a construção de redes de solidariedade, a ocupação simbólica e a criação de formas autônomas de organização. Esses movimentos demonstram como a interconexão de coletividades pode superar fronteiras geográficas, articulando resistências locais em um plano global. Articular formas operacionais de organização que se inspirem nestes modelos, com suas devidas proporções, nos permite pensar em ocupar os territórios virtuais controlados pelas GAFAM, e de forma descentralizada, utilizar as ferramentas tecnológicas para criar espaços de autonomia e troca.

Podemos propor um território sem fronteiras, território-movimento, mobilizado pelas práticas colaborativas, conectando a luta física com a virtual em uma lógica de constante dinâmica. O futuro da resistência estaria assim na construção deste “ciberassentamento”, onde a autonomia e a criação se desenvolvem de forma descentralizada e conectada. Hackear as brechas e limites das redes, por sua vez, será um exercício constante das lutas, mas absolutamente necessário para exercer nosso potencial de transformação social.

cena da colher: filme Matrix.

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Do Trump ao Bolsonaro: Política de Medo e a Ascenção da Era da Inteligência Artificial

A política é um campo das paixões, cujos afetos se constroem, em grande parte, pela linguagem. Seria leviano da minha parte fazer conjecturas definitivas sobre o possível retorno de Trump ao poder. Não falaria em “renascimento”, pois nunca o considerei, digamos, “morto”. O grupo político global ao qual Trump pertence – e é referência – permanece organizado e atuante no sistema contemporâneo. Demonstrando total capacidade de se manter firme em uma rede global.

Embora as redes sociais (muitas vezes taxadas como vilãs) valorizem a polarização e a autorreferência numa busca insólita por reconhecimento individual, não creio que isso explique, por si só, o fracasso do progressismo. Até porque existem redes que não operam nessa lógica, como o Discord, Mastodon, Couchsurfing, Goodreads entre outras. Também considero um exagero atribuir o fenômeno do trumpismo a um conjunto de erros do lado progressista, como se estivéssemos falando de eleições de duas décadas atrás. Prefiro encarar a dura e possível verdade: a pauta de Trump encontra eco nos corações de pessoas muito diversas, em diferentes partes do mundo. Além disso, esses grupos encontraram e aperfeiçoaram as ferramentas de linguagem e comunicação para alcançar esse impacto.

Hoje, em meio a uma mistura de insegurança econômica, mudanças culturais e medo da perda de identidade nacional em um mundo cada vez mais globalizado, abre-se espaço para uma busca desesperada por soluções rápidas e simplistas. É como se quiséssemos frear a Terra para encontrar algum eixo onde possamos ancorá-la.

A retórica de líderes extremistas ou populistas explora o desajuste em relação ao projeto de poder vigente, vendendo esse porto seguro. O modelo de poder articulado em organizações de representação (partidos, instituições, movimentos sociais, raciais, de gênero etc.) parece esbarrar em uma limitação: seu funcionamento exige a criação de uma máscara standard de imagem, capaz de gerar dados para políticas públicas com algum alcance expressivo. Contudo, a padronização, em uma sociedade tão complexa como a nossa, torna-se inviável atualmente. As ações afirmativas, por exemplo, atingem um teto estrutural: jovens cotistas, formados, que não encontram empregos dignos e precisam se lançar no empreendedorismo de sobrevivência, acabam esbarrando nos mitos do “self-made man”, encontrando ali algum tipo de referência para suas vidas.

Diante de um progressismo que não garante a completude da segurança psicológica e encontra limitações, o trumpismo, putinismo assim como o bolsonarismo no Brasil, trazem uma receita fácil para tempos de medo. Sugerem um inimigo comum – mesmo que mal definido –, seguido de um desejo coletivo: unir a nação, sermos “um só povo”, buscar a “grandeza”. Esse desejo, porém, carece de consistência prática, e aí paramos, pois não há soluções, apenas a retórica e a guerra para manter o inimigo comum vivaz nos corações apaixonados por um líder caricato.

Sugiro aqui, o retorno à linguagem como tema. “Palavras têm poder”, já dizia o profeta… ou talvez tenha sido minha avó, durante a infância. Uma das grandes viradas de chave em 68 foi a percepção das mudanças sociais: onde estavam os desencaixados no mundo polarizado pela guerra fria? Os desajustados? Essa discussão, sei, já está batida, porém ainda não solucionada. Somada a ela reside minha nova preocupação: os avanços da inteligência artificial podem concentrar ainda mais o poder político e econômico nas mãos de um pequeno grupo de pessoas ou corporações que controlam os dados e a tecnologia.

O paradigma da IA traz uma transformação radical na forma de acumulação de poder e exploração do capital, em contraste com o modelo de produção industrial. Antes, o capital dependia diretamente da força de trabalho humano; agora, a IA reduz essa dependência ao automatizar tarefas e dispensar a intervenção humana em diversas etapas produtivas. Grandes corporações e governos acumulam esses recursos, monopolizando os meios de produção e elevando a concentração de riqueza a níveis jamais vistos.

Essa mudança aprofunda o controle social e psicológico, com algoritmos que monitoram e manipulam preferências, criando uma nova “mais-valia comportamental”. A IA explora desejos e comportamentos de consumo, ampliando o lucro de forma indireta ao influenciar escolhas e subjetividades. O mercado de trabalho também sofre um impacto estrutural: o desemprego cresce com a substituição de trabalhadores por automação, e os empregos restantes tendem a ser mais precarizados, sem os direitos e o poder de organização típicos da era industrial. E a sobrevivência, o empreendedorismo real, torna-se a fusão completa de vida-trabalho-consumo, onde o made-yourself é a auto exploração e objetificação de si mesmo. Resta a humanidade que vive da sua força de trabalho, se auto vender enquanto objeto, retroalimentando as grandes plataformas que geram lucro. Seu novo trabalho nesta indústria é ser o próprio produto final vendido por ela.

Resistir às práticas exploratórias torna-se cada vez mais difícil.

Com a dissociação entre valor e trabalho, o paradigma da IA rompe o ciclo de reprodução do capital como o entendemos. A acumulação de riqueza continua sem a necessidade de redistribuir valor por meio de salários, uma vez que o capital pode ser reproduzido por máquinas e algoritmos. O capital, assim, torna-se menos dependente do trabalho humano, o que amplia as desigualdades e centraliza ainda mais o poder sobre a vida social e política. A IA impõe um desequilíbrio profundo ao sistema capitalista, redefinindo as bases da exploração e o papel da força de trabalho na sociedade.

Estamos diante de uma luta algorítmica que passa pela linguagem. Não é sensato pensar que a interface da IA ou das redes sociais seja um mero processo de manipulação; acredito que o maior desafio é perceber que elas criam camadas de existência relacional. Interfaces, mundos dentro de mundos. São novos territórios que se sobrepõem e se aproveitam do fato de que o espaço virtual, diferente do real, é infinitamente expansível em dimensões possíveis.

Hoje, as redes sociais permitem que os desencontrados e descontentes encontrem seus pares para dialogar e se organizar. Um jovem imigrante palestino, por exemplo, que não se sente representado pelas políticas de guerra do partido democrata, pode buscar apoio online. Mesmo que esse partido financie a guerra de Israel, ele acaba escolhendo Trump – alguém que, ironicamente, poderia deportá-lo para o centro do conflito, sem frear as ações israelenses. No entanto, em um futuro próximo, a IA poderá ir além: ela será capaz de criar personas virtuais que simulam uma presença real nesses debates.

Conclusão

Diante de um mundo repleto de inseguranças de futuro, surge um processo extremamente concentrador. A evolução de uma mais-valia comportamental, que já era prenunciada pela turma de maio de 68, capturada pelas redes algorítmicas trazem à tona um controle constante e  sutil sobre a exploração da vida. Ampliando o controle psicológico por meio de tecnologias cada vez mais intrusivas.

A ameaça iminente é de um aumento das desigualdades estruturais e da concentração de poder nas mãos de corporações e elites políticas, tendo a IA como ocorrência desse processo. Ao redefinir as bases do trabalho e da acumulação, estamos testemunhando um desequilíbrio que pode alterar de forma irreversível a sociedade, reforçando uma natureza paradoxal do progresso tecnológico.

Precisamos retomar a linguagem como pauta e construir a premissa ética sobre a automatização do mundo e o controle algorítmico, enquanto os avanços estão acontecendo. Este novo controle da linguagem nos permitirá organizar minimamente um futuro de segurança no tecido social e econômico da Terra.

Nestas semanas onde o Rio prepara-se para receber o G20 cabe a nós ter este tipo de debate na pauta. A democratização do kernel, a abertura dos códigos e a disputa urgente do direito a esta nova linguagem.

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