Se você perguntar a 40 pensadores sobre o significado do termo cidade, provavelmente receberá 40 respostas diferentes. E essa pluralidade importa muito quando elucubramos sobre este espaço onde a vida de muitos de nós se desenrola. A cidade é algo tão complexo que escapa às definições.
Um recorte que gosto especialmente vem de Mumford: a cidade é “um símbolo estético de unidade coletiva”. Exploremos a estética a partir de Espinosa, não reduzindo-o a uma categoria puramente formal, mas refletindo nele como uma experiência subjetiva capaz de nos afetar, tornando-nos mais potentes e desejantes. Podemos entender a experiência estética como uma manifestação da nossa potência de existir, uma busca incessante por liberdade.
A vivência da cidade, com sua capacidade de promover dor ou prazer, nos potencializa a agir. Pense em um bairro aprazível, onde a comunidade, fortalecida pelo prazer e alegria de morar ali, se movimenta para melhorar o ambiente, impedindo ações outras contrárias aos interesses coletivos. Por outro lado, quando um local é constantemente marcado pelo medo e imersa na falta de potência vital, torna-se muito difícil a organização para a ação comum dos moradores em mobilizar uma vida diferente.
Existe uma vontade de existir que nos transcende, nos faz amar um ícone arquitetônico, uma pintura, uma música, ou outras expressões que parecem nos mover para o eterno. De certa forma, é como se a experiência estética nos permitisse escapar da morte, como uma pintura rupestre que nos conecta diretamente com a mensagem de um de nós que há muito se foi.
Construir a cidade como um símbolo estético da unidade coletiva nos obriga a pensar a cidade pelo desejo de vida, de estarmos vivos e ativos enquanto coletividade. Essa coletividade se torna capaz de fazer a melhor política, aquela que não precisa passar pelas estruturas de controle. E aqui temos um desafio: como abandonar a cidade construída pelo medo da morte e substituí-la por uma cidade que seja um desejo de vida? Suspeito que os melhores indícios estão nas conversas de rua, nos encontros de bar, nas feiras, no futebol, resumindo: nos encontros dos diferentes.
A questão da cidade é global. Estamos acostumados com os grandes estudos metropolitanos que envolvem mega arquiteturas, grandes intervenções urbanas, entre outros. Hoje queria apresentar uma questão peculiar, mas não menos importante.
Agbogbloshie é um subúrbio de Accra, cidade de Gana. Primeiro pra contextualizar, estamos falando de um país da África Oeste cuja história é demarcada por violentos processos de colonização, exploração de recursos e escravidão. Estes processos seguem até hoje, quando, dentro das lógicas da divisão internacional do trabalho, o país segue como produtor de minérios e agricultura e como um grande consumidor de produtos industriais de segunda ou terceira mão. E é nestas condições que vamos partir de Gana, um tipo de país de subúrbio global para Agbogbloshie, um subúrbio de Gana.
Num dado momento, o País propôs incentivar, como tentativa de abastecer o mercado interno, a importação de eletroeletrônicos usados (como faz com automóveis por exemplo). Uma proposta que, vista sem crítica, parece inocente e até promissora se transformou em um dos maiores problemas do país. Hoje, Gana abriga um dos maiores lixões de eletroeletrônicos do planeta, servindo de escoamento internacional para este ciclo de mercadoria. Falamos aqui de um ciclo que ainda é alimentado pelo movimento da obsolescência programada, criando um dos maiores problemas humanitários da região.
Uma quantidade significativa de cidadãos Ganenses sobrevive de um verdadeiro comércio de lixo tóxico, resultado de um descarte que para maioria de nós é invisível. A propaganda da sustentabilidade nos vende uma gama de discursos sobre indústria carbono zero, elementos reciclados, baixo consumo de água, mas pelo visto, são regras e códigos que só aparecem nas fotos do Vale do Silício. A imagem de simplicidade expressa no New Balance do Steve Jobs ou no Brunello Cucinelli de Zuckerberg cujo luxo silencioso esconde o silencio do lixão do Silício.
Aqui gostaria de propor um pensamento singular. Por um momento abandonemos o conceito de cidade ou metrópole como assumimos em nossas mentes e vamos realocar as fronteiras pelos fluxos e redes. Por um determinado recorte de tempo e espaço, Agbogbloshie é uma periferia de uma metrópole do Vale do Silício, sua destruição é aceitável desde que a roda da fortuna gire e a sustentabilidade se dará apenas sobre o meu quintal. Esta leitura que falseia o próprio senso da natureza, onde o todo é um só indivisível e onde não há um fora. Este subúrbio que é resultado de um movimento político internacional pesa, e pesa ainda mais quando está em um País que exporta ouro, pedras preciosas e demais minérios.
É possível que o custo do luxo silencioso de uma camisa do Zuckerberg mate a fome por um dia dos moradores de Agbogbloshie. Esta é a metrópole que me proporei a debater em breve, uma metrópole cujas principais fronteiras estão nas redes de poder que a impactam.
Foto de Andrew McConell para o jornal The Guardian.
Vamos fazer aqui algumas associações. Primeiramente, partir do conceito de capital, esse tipo de sujeito que movimenta o mundo. Para Marx (vamos resumir grosseiramente como) um tipo de valor que empregado em algum processo retorne ampliado ao proprietário (o lucro). Vamos agenciar isso com desejos, com vontades de poder, e outras coisas mais.
Quando o mundo opera e amarra materialmente as necessidades materiais e subjetivas do ser humano a produção de capital e a aquisição de renda, ele vende que: basta conseguir acumular capital que você vai ter conforto, vai ser feliz, vai ser amado, desejado, virar referencia. Esse é o mundo que se vende, porém ele esquece de te dizer que a acumulação do capital é relacional: pra um estar bem alguns precisarão continuar ferrados. E não está na pauta das dinâmicas do capital a solução do todo. Logo, você está num ciclo de sorte e fortuna: nascer herdeiro, ganhar na loteria, por um acaso se tornar um craque em algo que transforme você num objeto de valor, fazer parte de algum nicho de exclusividade te trará o bem-estar, caso não aconteça, vai fazer parte do ciclo que precisará lutar dia a dia pra sobreviver enquanto vai viver bombardeado de dizeres que vão tentar provar que voce vive e está no lugar errado de se estar.
O problema é: E todos os que não estão nesta situação? Viverão o infortúnio. Uma questão que pesa, desde a morte de Deus em Nietzsche, o ser humano perdeu também uma certa pacificação transcendente institucional, a recompensa que está no além túmulo. Esta recompensa que servia como moeda de troca diante da violência sofrida pelos trabalhadores escravizados para construir pirâmides, templos, cidades megalomaníacas, se esvaiu e sobrou a exploração e o trabalho. Vamos ver o trabalho como um lugar, o lugar do pobre no capital. Mas também proponho que pensemos o mesmo como uma arma de luta.
É mister pensar, quando Cidinho e Doca cantaram pela primeira vez: Eu só quero é ser feliz, morar tranquilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. Há algumas leituras possíveis, não sei dizer ao certo o que pensavam, se apenas na paz e conforto da vida, se pensavam na busca de igualdade de tratamento, porém quero aqui subverter um pouco alguns conceitos e debruçar sobre a frase para armá-la.
A busca da felicidade, do amor do conforto psíquico, o desejo de afeto, é sobre isso que se trata a primeira parte. Um direito que parece banal, mas que nos é tirado e é perceptível em qualquer levantamento de dados de doenças da mente o quanto a desigualdade social refletida na forma como a violência é espacializada. Na segunda parte, uma cobrança, qual é o lugar do pobre? Um olhar colonizador trata a música como uma aceitação, porém, o sujeito que canta a música é o próprio pobre na busca de um direito. A frase não diz a priori sobre aceitar o lugar que foi imposto ao pobre, ela se abre sobre a cobrança do pobre de que aqueles que o exploram terão de aceitar nos seus lugares.
Se o funk melody tendia a falar sobre cantos de paz, um pouco de afeto e o direito ao seu lugar na terra, o funk contemporâneo segue traçando novas contradições, mas como cantou mc kevin: “Eu vim do funk, sou favela, mato e morro por ela”, expõe hoje como Bezerra da Silva expôs num passado recente a contradição desse capital. No fundo, todos buscando uma saída pra si com os códigos e condições de possibilidades que estão dados no espaço onde se encontram.
A frase do Senador americano Marco Rubio diz muita coisa sobre um problema que temos de enfrentar: “As vendas de armamentos são importantes não apenas pelo dinheiro, mas também porque proporcionam influência sobre comportamentos futuros”. A máquina de guerra dada está aí: os mesmos senhores da guerra que fazem fortuna e controlam comportamentos a partir da venda de armas vão condenar arbitrariamente todos que eles quiserem condenar. Seu filho pode aparecer no Datena com uma arma ou um guarda chuva, pode ser avião ou estudante, ele sempre vai ser condenado ou suspeito, vai morrer de tiro porque a opinião pública não está nem aí.
Adriano Imperador vai ser criticado por ser rico e decidir morar na favela, os MCs da ostentação serão criticados e rechaçados por ganharem dinheiro e decidirem morar na Barra da Tijuca. Mas os críticos são aqueles que até podem querer ir no baile da Penha a noite mas não vão querer morar na Merendiba e pegar o trem pra trabalhar no centro todo dia.
Assim, proponho deixar um flanco aqui aberto, pensar nosso espaço sem romantismo, sem culpa e com a crueza da vida. Lembrando Bezerra: “As coisas na Terra estão mal divididas, o pobre levando uma vida bandida e comendo mais o pão que o diabo amassou”. É isso, planos diretores, macro textos só servem até onde a cidade legal garante direitos, ali onde a cidade legal nos esquece, eu quero mesmo é aprender com Bezerra da Silva como entender, operar e modificar a cidade. A cidade é minha arma de guerra.
O intenso debate em torno da maconha frequentemente se torna cansativo quando abordado com um viés excessivamente moralista, em vez de ser visto de maneira séria e científica.
Tal debate atrasa, entre muitos, pesquisas farmacológicas e de produção, bem como geram uma falta de investimento mapeado de capital na exploração das potencialidades das fibras do cânhamo e dos produtos derivados dessa planta. Isso ocorre em parte devido à complexidade do mercado global da maconha é praticamente um comodities global paralelo capaz de mexer com todo o cenário do agro (, que pode influenciar drasticamente o panorama agrícola, dominado por culturas como algodão, soja e milho.
No mercado paralelo, a maconha desempenha um serviço ótimo ao capital, cria instrumentos de controle dos mais pobres, cria espaços financeiros para lavagem de dinheiro e fluxos de riqueza não rastreáveis, fortalecendo estruturas de poder substanciais. No entanto, devemos questionar se esse mundo que queremos? Vamos seguir vendo as coisas andarem soltas por aí e gente pobre morrendo? verdadeiramente desejamos permanecer passivos diante do sofrimento dos menos afortunados, enquanto os mais ricos desfrutam sem restrições legais ou morais. Isso não é uma perspectiva de sociedade aceitável.
A descriminalização da maconha apresenta uma oportunidade de aprimorar até o controle de forma muito mais eficiente! Num país como o Brasil, essa medida inseriria a maconha na discussão sobre saúde pública.
Por outro lado, é válido mencionar a associação entre o uso da maconha e o risco de esquizofrenia, ou outros males causados por ela. No entanto, esse risco não é diferente do que observamos em relação ao tabaco, que amplia as chances de enfisema, ou ao álcool, que contribui para a cirrose. Analogamente, problemas de saúde pública como burnout, depressão e outros são agravados por diferentes fatores, como condições de trabalho precárias ou desemprego persistente. A ciência médica é a chave para lidar com essas questões.
É inegável que o debate sobre a maconha enfrenta dificuldades nos estratos sociais mais pobres, pois é justamente nesse território carentes que o Estado não consegue chegar. É nesses ambientes onde a qualidade dos serviços de saúde é deficiente que a maconha, assim como outras substâncias, tende a ser utilizada de forma descontrolada e criar mais prejuízos comunitários, gerando um imaginário do senso comum que se cristaliza. Nesse contexto, a ilegalidade é explorada como uma ferramenta de exploração econômica pelo sistema.
A comparação entre diferentes estratos sociais também é relevante. Um pai de família pobre, que se torna alcoólatra, provavelmente enfrentará um destino mais severo do que um pai de classe média ou rico, que tem acesso a melhores cuidados médicos e uma rede de apoio mais sólida. Para muitos de nós, médico é aquele cara que só conhecemos quando estamos perto do leito de morte, nas portas de uma emergência ou UTI. Só recente que os médicos de família conseguiram furar uma bolha cultural.
Nem toda política de Estado deve agradar a todos; isso seria populismo. O objetivo de uma política de Estado deve ser a caminhar para um lado popular. Embora a legalização da maconha possa ser cooptada pelo sistema capitalista, é viável que com pequenos ajustes institucionaliza a economia que gira por fora dos fiscos e sistemas de controle financeiro, ela pode se tornar uma grande ferramenta nacional de equidade e socialização nacional. Penso que a descriminalização, fazendo parte um programa abrangente de saúde pública, possa contribuir para a produção agrícola, a indústria farmacêutica e têxtil, além do entretenimento, de forma a abordar problemas sociais complexos, como a violência urbana decorrente do mercado ilegal.
Mercados ilegais frequentemente estão associados a níveis mais altos de violência. Se até mesmo o guaraná antártica fosse proibido, logo surgiriam pontos de venda clandestinos protegidos por segurança privada, competindo por áreas de alto valor econômico. A analogia serve para ressaltar que a descriminalização das drogas traz consigo a ação de desmilitarizar as narcocidades e campos e, no mínimo colocar em visibilidade a relação capital-trabalho que envolve esta pauta. Se esta pauta tiver conectada em um programa que vislumbre a ruptura da contradição capital-trabalho e da hiper acumulação de renda em cima da maioria do povo, melhor ainda! não apenas reduziria a violência, mas também permitiria uma abordagem mais ampla das questões sociais, com a possibilidade de uma inserção estratégica da cannabis na economia e sociedade do país.
Concluindo, é crucial associar a descriminalização da maconha a um plano de desenvolvimento estratégico social, incorporando-a em todas as esferas do país. Isso evitaria a repetição de erros do passado, como a abolição da escravidão sem uma estratégia de inclusão socioeconomica da população negra. O processo de descriminalização e legalização deve ser planejado, considerando suas implicações econômicas e sociais, com o objetivo de transformar a relação entre capital e trabalho e reduzir a desigualdade.
Mesmo que pareça que o debate pertença só a um nicho estereotipado de população, ao benefício do usuário de classe média ou outros, o que pretendi apontar foi o quanto a descriminalização pode movimentar dentro do sistema: da agricultura familiar ao agronegócio, a indústria, os mais pobres, usuários ou não, envolvidos direta ou indiretamente. O Brasil e qualquer país se beneficiaria muito ao ajustar as ferramentas de controle, orientação e tratamentos necessários. Descriminalizar também é sobre isso! O oba oba que os moralistas tanto temem é o que já acontece com as drogas ilegais, onde os pobres morrem na ponta do fuzil enquanto os ricos se divertem em suas festanças liberais.
Para ilustrar simbolicamente essa discussão, compartilho uma imagem de meu pequeno pé de Mertiolate. Meus amigos que consomem maconha sabem que ela não é uma planta de cannabis, mas os amigos não usuários frequentemente têm essa impressão, e assim, o pé de mertiolate pode ser perseguido por pura falta de conhecimento. Essa experiência destaca a importância da percepção pública e das narrativas construídas em torno de determinados temas.
O trabalho autobiográfico de william professor, ao contar a história do nascimento do chamado Comando Vermelho desmistifica de forma muito simples algumas distorções que vislumbramos no senso comum.
Destacando algumas:
A primeira delas, o tal encontro entre presos políticos e presos comuns passa meio periférico no livro, demonstrando que pra professor este não foi um eixo fundamental.
Notar isso é importante em um país onde até esta história perpassa trazendo no imaginário uma espécie de encontro de iluminados fazendo um trabalho de base.
O eixo que professor demonstra com força é o fato de que sob a lei que prendia os presos políticos, pessoas que não participavam de nenhuma organização também sofriam das penas mais severas, porém, quando veio a anistia, a materialidade do racismo e classismo brasileiro se via no fato de que os presos políticos sairam e os presos comuns ficaram (embora ambos assaltasse bancos por exemplo).
Entre outros, professor demonstra como a construção do chamado Comando nasce mais em função da estrutura de repressão do estado e da necessidade deste criar um inimigo do que de um desejo das lideranças. Desejo este que fica sempre claro: conseguir a liberdade.
O livro é um papo reto, retíssimo, destes que a gente não gosta de ter por aí e por conta disso seguimos navegando no meio do racismo que marginaliza criando dicotomias que não solucionam nada.
Ler esta obra faz pensar muito, até detalhes que parecem bobos como a baixa presença de Bezerra da Silva nos setlists das rodas de samba.
Reflito como a gente cria imaginários de uma pretensa pureza ideal para tentar combater a máquina de propaganda racista que vende uma parte significativa da sociedade como criminosa, membros de facção, etc. Esquecemos de lidar com o humano das pessoas e com a materialidade dos problemas.
Por enquanto só esses pitacos, o livro é muito maior que isso e por isso recomendo muito.