Uma das mais belas críticas a arquitetura que já li se chama Nodre-Dame de Paris de Victor Hugo. No livro terceiro, quando expõe seu desencanto com os processos de mudança na arquitetura do Templo, ressalta quão nocivos são o tempo, as mudanças políticas coléricas, mas principalmente as modas estéticas decadentes.
“As modas fazem mais mal que as revoluções. Elas dissecaram o vivo, atacaram a medula óssea da arte, (…)” cita o autor. Victor Hugo nos traz nessa obra a importância do valor estético do gótico, do medievo e da vida periférica. Seus principais personagens: A arquitetura, a cigana, a pessoa com deficiência e o arquidiácono. No triângulo trágico da história temos duas pessoas que vivem a margem da sociedade e que passam por uma complexa relação de controle e manipulação do representante da institucionalidade (o livro é imensamente mais amplo que isso, leiam). A arquitetura é valorizada por ser incompleta (como o autor cita) por ser algo que representa uma transição de tempos. O tempo expresso nas rusgas, nas mudanças dos adornos e do altar, são denunciados como uma violência a obra e aos modos de vida da época.
No debate de patrimônio, a obra teve peso após o incêndio que afetou a catedral. Da literatura para a vida, o livro diz: Há algo de valor na arquitetura e na vida marginal, uma ética.
Os pobres, que dão vida e espírito ao lugar (catedral) Quasimodo, cuja falta de beleza e deficiência o torna um pária, traz o amor altruísta e o sacrifício de si, esmeralda, rejeitada por sua condição marginal no povo representa uma liberdade impossível dentro dos cânones sociais e frollo que vê sua moral abalada pelo desejo de possuir o que não tem é o representante do poder em seu eterno conflito. Frollo, o diácono arquiteto da catedral opera obcecado pelo ser-livre da cigana, uma liberdade que só é possível quando nossa existência acontece para além das fronteiras, uma liberdade marginal. É isso que conforma a arquitetura da catedral, entre o espaço construído e o vivído (ainda que vivido nos textos de Victor Hugo).
Com olhar sensível, Victor Hugo torna visível a potencia marginal, os conflitos sociais e o papel da arquitetura nesse entremeio. E nos ensina que preservar arquitetura não é só manter fachada, mas saber como contar a história da nossa existência a partir daquela obra construída.
Não sou um defensor da busca de identidades, mas sim dos agenciamentos.
Apesar de entender os caminhos pelos quais a busca de uma identidade é utilizada como instrumento de organização social e agregação, minha crítica ao tipo consiste em uma limitação que vejo acontecer por aí: a identidade, após ser definida com acúmulos de signos tende a se cristalizar num dado ponto no tempo.
Veja, boa parte das organizações humanas usou ou usa a identidade como ferramenta. Ao construir uma unidade nacional, a identidade é moldada pra se tentar criar um ser humano tipo representante daquela nação. Assim, por mais que a identidade garanta ao sujeito a estabilidade e contato com seu território (como diz Hall), ela entrava a solução em momentos de crise. Isto é, há momentos na história da vida em que a identidade precisa experimentar rupturas de seus campos seguros e lançar-se diante de um campo de forças e tensões para que algo diferente se faça.
Cristo era Judeu, e na qualidade de Judeu propõe novos parâmetros em uma terra dominada por Roma, a ruptura de Jesus com seus pontos estáveis e de solidez permitiu tanto ao judaísmo perpassar pelas ocupações Romanas, quanto ao monoteísmo cristão (e porque não também árabe) sobrepujar a visão de mundo representada pelo Panteão, este espaço que nada mais é do que uma biblioteca das muitas estruturas identitárias existentes no mundo naquela época.
O que me move são os agenciamentos, e o que quero dizer com isso? Trago aqui um Macunaíma subversivo ou subvertido. Mário de Andrade traz o personagem complexo, contraditório, numa história aberta porém que é muitas vezes traçado pelo senso comum como elemento de uma busca de identidade nacional, a busca da representação do povo brasileiro. Este traço que o senso comum reflete tem sua importância e foi necessário num dado momento histórico para o enfrentamento dos processos de apagamento social e embranquecimento deste país. Porém, Macunaíma se torna resistente e potente na medida em que revela ao Brasil que sua formação é africana, indígena, branca e repleta de muitas entradas e interfaces de luta pela vida.
Por este caminho que penso em Macunaíma. Macunaíma enquanto subversão, enquanto uma chave de agenciamentos. Macunaíma é a potência da constelação, cujo caráter se molda a luta que precisa ser travada pela vida. Um vir a ser Macunaíma é compreender que, dentro de um mesmo espectro de povo brasileiro teremos muitos devires a enfrentar, é compreender que mesmo tendo nascido numa família que não sofre as agruras do racismo você faz parte da galera que sofre com as perseguições da Polícia ao 474 (pois jovens negros da periferia não tem direito de ir a praia sem ser suspeitos de arrastão).
Devolver ao Brasil a sua cara é sermos capazes de retomar os agenciamentos, mesmo os mais contraditórios para avançarmos naquilo que é nosso sofrer comum, a ausência de direitos. E falamos aqui de direitos que só serão conquistados com enfrentamento e luta. Para lutarmos, sejamos Macunaíma em uma explosão de constelação, uma rede de agenciamentos cuja principal característica é sabermos onde estamos fluindo pelo território e sob que perspectivas.
Pois falamos de visões de mundo, de formas de entender e viver o tempo, o espaço e muitos outros caminhos e entradas possíveis. Este texto é parte de uma pesquisa apócrifa, em breve falaremos mais a respeito.
Rodrigo Bertame, rio de janeiro, 17 de setembro de 2023.
A crise da construção civil traz à tona o discurso de desregulamentação do salário-mínimo profissional de arquitetos e engenheiros. Entre os argumentos mais falados entre arquitetos (leiam, entre nós) sempre se citam os pequenos escritórios que não conseguem arcar com os custos empregatícios de profissionais devidamente registrados. Me aterei a esse recorte no momento.
Estes mesmos pequenos escritórios sofrem também com a tributação excessiva e com os gastos em softwares e hardwares para manter-se vivos, e isso denota uma coisa importante: a crise não é por conta do trabalhador, mas por conta da má inserção do arquiteto no universo jurídico empresarial do Brasil. Quaisquer escritórios são tratados e vistos como uma construtora ou grande empresa de consultoria e não pelo perfil do profissional liberal como médicos ou psicólogos, que podem ter seus pequenos consultórios.
Sobre o caso do trabalhador no ramo de serviços, há uma questão viável de se fazer, os arquitetos podem compor um contrato civil entre as partes e ser pagos por prestação de serviços, o que isso acarreta é basicamente uma mudança de cultura de trabalho, pois não caberia mais a cobrança por CLT e sim por serviço entregue, visto que não há vínculo empregatício.
Quanto aos tributos, este sim é o grande entrave que ninguém aparentemente quer tocar. Inventam-se meios e subterfúgios, mas a realidade é que um pequeno escritório NÃO DEVERIA SER TRIBUTADO COMO UMA GRANDE EMPRESA DO CAMPO DA CONSTRUÇÃO CIVIL. Ao que parece a reforma tributária não prevê uma mudança nisso, correndo ainda o risco de haver uma maior tributação sobre o profissional liberal e com isso uma pane no campo da profissão.
Como, diferente da engenharia, que se manteve no canteiro de obras e se fortaleceu enquanto categoria hegemônica na construção civil pesada e na indústria, os arquitetos se tornaram um item de serviço que muitas das vezes se vende pelo luxo e pela exclusividade. Isso para o mercado é um prato cheio a favor da precariedade, nós mesmos criamos um campo oferta e demanda de serviços que é muito mais de nicho social que de massa.
Somado a isso tudo ainda temos os altíssimos custos de um sistema de ferramentas que nos cabem: pacotes proprietários de softwares que cobram preços anuais astronômicos por exemplo. Todo o desenho de sistema é dado para que se crie alguns pouquíssimos grandes conglomerados de projeto. Como um campus industrial da arquitetura e urbanismo, que aglutinará projeto, gerenciamento e acompanhamento de obras. Estes subcontratarão arquitetos por pequenas demandas (encaixando legalmente na lógica de contrato civil). Com isso, a hegemonia de controle da profissão estaria completamente domesticada por meia dúzia de grandes bilionários no mundo a fora. Não é ilusório pensar nisso em um planeta onde a disputa de controle territorial é travada de forma cada vez mais severa.
Assim, retomo uma tecla que sempre bato, o que o brasileiro médio não consegue compreender é que o recorte classista da sociedade inclui ele – o pequeno profissional liberal – no balaio dos explorados, para que uma casta de grandes donos de capital consiga manter seus privilégios.
No campo ampliado da arquitetura, o projeto parece claramente o mesmo de sempre: a constituição e manutenção de um determinado grupo privilegiado que, ainda assim, sofrerá danos materiais. Estes danos serão repassados em uma manifestação contra os donos do capital do Brasil? Provavelmente não, estes irão estourar na massa de arquitetos sem sobrenome famoso no meio, sem dinheiro e contatos para ir a congressos e afins, arquitetos estes que acabarão hiper explorados ganhando salários de estagiário premium e muitos destes quietos pois sonharão que um dia pertencerão ao tal ciclo privilegiado. Porém, sem um embate real com as políticas trabalhistas vigentes, a tendencia é isso virar um ciclo vicioso de escritórios mambembes que entregam projetos e obras de pouco esmero realizados por trabalhadores hiper explorados e nada recompensados (nada muito diferente do que já acontece na educação com as escolas privadas).
Este é o charco diário na cabeça do trabalhador. Ainda somos uma categoria que se enquadra numa certa classe média brasileira, e infelizmente isso coloca as possibilidades reais de luta em uma letargia sem fim. Vamos seguir tomando prosecco no último baile da ilha fiscal enquanto o Brasil pega fogo.
Nossa terra tem palmeiras onde canta o sabiá, já dizia o poeta, embora a sabiá que mais ouvi cantar nasceu fruto de uma jaqueira em Oswaldo Cruz bem pertinho de Madureira. São muitas as árvores da nossa vida, assim como são os sabiás que por aí avoam, bem como muitas são nossas bandeiras. Cresci sob a sombra de uma amendoeira que infelizmente a civilização torpe assassinou, toco tambor sob a benção da Tamarineira que um cacique um dia plantou.
Minha bandeira não é vermelha ou verde e amarela, esse país do medo cansou. Minha bandeira é verde e amarela, mas também é vermelha sangue, mas também é azul e branca, verde-branco e grená, branco e vermelho era a bandeira de meu avô e trago também no coração, como bom neto de Bangu que sou. Não me interessa mais a política dos corpos tristes e amedrontados, o Brasil é maior que isso e sinto muito os amantes do passado, o Brasil não cabe em uma bandeira só. Sâo tantas as bandeiras que me dariam esperança em um mundo novo, que seria impossível fazer cabê-las aqui.
Quero ver caminhando comigo aqueles que estão felizes por ganhar uma copa latino americana flamulando suas bandeiras preto e vermelhas, quero ver pular de alegria os cruz maltinos por saírem do sufoco, e que brilhe a estrela solitária assim como terá de brilhar a estrela vermelha em favor do povo. Aos que estão com medo, aos que estão com raiva, não me levem a mal, mas não dá pra enjaular o universo de dores e alegrias que somos dentro de suas caixas pré-montadas que já não respondem a realidade da humanidade.
O Brasil ameríndio, negro, favelado, macumbeiro nunca coube nos comerciais de margarina, nunca tomou o café da manhã da Xuxa e nunca teve a cozinha da Ana Maria Braga. Somos uma espécie de Macunaímas subversivos. Foi esse Brasil que ficou sem vacina a tempo, que morreu e que deu um não ao projeto de poder de vocês. Esse Brasil que são muitos Brasis emaranhados não escolheu o Lula por que o idolatra, mas o escolheu principalmente pra dizer um não a vocês. Esse projeto de poder antiquado, que funciona na base do encarceramento, do terror, de enquadrar e enjaular. O povo sofrido já sabe como lidar com o bico do fuzil (infelizmente) e não vai cair nesse terror barato, podem armar o alçapão a vontade.
E nessa terra que, além de Palmeiras, tem Corinthians que abre os caminhos na paulada, vocês ainda tem muito o que aprender com os povos originários, a começar que a vida dos sabiás não cabem numa gaiola. Não fomos feitos para ficarmos nas suas jaulas, mas para voar livres.
A principio, sigo a plantar as sementes nessa tentativa de construir um universo tão plural e diverso onde posso ver livres e felizes todos sabiás, curiós e uirapurus. Aos que se acham os representantes da verdade, da pátria e de Deus, aos que se acham capazes de reduzir o Brasil a duas cores, sinto muito desapontá-los porém, são infinitas as cores que compõem os sonhos do nosso País.
E no mundo onde livre cantarão os sabiás, deixo um recado da sabiá que encantou os filhos da jaqueira:
“Não temo quebrantos Porque eu sou guerreira Dentro do samba eu nasci Me criei, me converti E ninguém vai tombar a minha bandeira”.
Algumas palavras caem no senso comum e vão ganhando formas diversas enquanto se perdem no seu conceito. Assim aconteceu com sustentabilidade, assim está acontecendo com o empreender.
Em nome de um sistema de marketing que pretende transformar o ato de empreender em um padrão natural, quase uma essência humana, vamos criando máscaras e distorções históricas tremendas. Uma delas é dar o ar científico do termo ismo a palavra, e outra delas é investigar o ato de empreender como um ato a-histórico, atemporal, como se o conceito existisse desde nossos primórdios.
Primeiro precisamos entender que um conceito é cunhado e consolidado quando um certo conjunto de possibilidades e significações corroboram com isso. Em sociedades como as primitivas, ou mesmo na era do bronze, o conceito de empreendedor não cabia. O que falamos aqui é algo muito similar com as tentativas forçadas de vincular Jesus ou os indígenas ao comunismo marxista. Ainda que não haja uma definição unanime sobre o conceito de empreendedorismo, alguns dados são bem-vistos, entre eles a capacidade potencial de inovar em algo assumindo os riscos.
A problemática da discussão do empreendedorismo se dá quando analisamos processos complexos de inovação apenas a partir dos indivíduos que centralizam a gestão ou liderança do processo sem assumir que estes processos são uma construção de corpos coletivos (direta ou indiretamente). A busca de competitividade e inovação constante fez com que aumentasse o grau de investimento do sistema em empreender o que materialmente é muito bom. O ponto crítico está justamente em um simbólico que implementa em torno de algo amplo e social a um homem. Brecht em seu famoso poema: “Perguntas de um trabalhador que lê” já alertava a esta crítica, questões como:
“No dia em que a Muralha da China ficou pronta,
Para onde foram os pedreiros?
A grande Roma está cheia de arcos-do-triunfo:
Quem os erigiu? Quem eram aqueles que foram vencidos pelos césares?”
Nenhuma sociedade, nenhuma aventura humana na terra, se reduz aos seus ícones e heróis. Os próprios estudos sobre inovação contemporânea já compreendem a importância capilar de todos aqueles que estão vinculados nas redes envolvidas na construção dos seus caminhos. O problema é que, refletir esta materialidade dos fatos rompe com um simbólico fundamental de sustentação do sistema que também é antiquado, a construção do incone-herói.
O que o sistema faz no lugar disso é construir uma série de novas significações para empreendedor, entre elas quaisquer enfrentamentos na vida que envolvam risco e autossuperação vira automaticamente ação empreendedora. Com isso tentam igualar romanticamente o camelô que vende bala numa luta hercúlea pela sobrevivência com um Elon Musk, cuja herança o permite investir nas mais diversas experimentações globais e interplanetárias.
Casos como o dos camelôs não são empreendedorismo, são luta pela sobrevivência mesmo em um país que não promove o mínimo de direitos civis dignos pra seus cidadãos. Por sua vez o empreendedorismo como construção social pode nascer de um pacto social importante: investimentos pesados do Estado em P&D, valorização dos polos de desenvolvimento tecnológico e de desenvolvimento social, fortalecimento da educação de base garantindo o olhar mais realista e humanista sobre o Brasil e estrutura social digna para que o povo tenha tempo de estudar e se desenvolver.
É necessário que entendamos de vez que os grandes e famosos empreendedores do mundo não foram pessoas avulsas, mas sim pessoas que conseguiram articular uma gama de sorte e possibilidades em torno de si e que seus grandes empreendimentos nunca teriam saído sem a lapidação e suor de muita gente, dos faxineiros das empresas até o presidente da república de alguns países. No fim, o empreendedorismo mesmo é consequência de uma ação coletiva de sociedade disfarçada de uma ação individual refletida em uma liderança.
A disputa pelo simbólico não vai construir sozinha a saída da crise nacional.
Ontem caminhando na rua tive o prazer de conhecer uma música gospel cuja letra dizia:
“Não toque nos profetas do senhor E nem fale mal do seu ministério Pois quem toca nos ungidos do senhor Pode acabar no cemitério”
Por um lado, as forças à esquerda se encastelaram e se auto fagocitar nos mesmos espaços de militância que quase não tem representação e vivem sendo disputadas a ferro e fogo por burocratas. Por outro, as forças mais conservadoras avançaram bruscamente por anos e anos em estruturas capilares de comunicação e contato popular (rádios, TVs, jornais, centros cívicos e de sociabilidade, etc).
Na disputa simbólica nacional, a hegemonia sempre esteve com os lados mais conservadores. A visão que o povo tem de comunismo por exemplo foi bem definida nas escolas militares da ditadura e disseminada pelos mais diversos meios de comunicação de massa. Esta mesma visão muitas vezes pauta inclusive os movimentos de esquerda (liberais e comunistas) que assumem para si um conjunto de signos identitários comunistas estereotipados pelas forças conservadoras, e assumem de forma acrítica quaisquer narrativas.
As forças mais conservadoras avançaram bruscamente por anos e anos em estruturas capilares de comunicação e contato popular (rádios, TVs, jornais, centros cívicos e de sociabilidade etc.). Por um lado, as forças à esquerda se encastelaram e se auto fagocitam nos mesmos espaços de militância que quase não tem mais representação embora vivam sendo disputadas a ferro e fogo por burocratas.
Lembremos, o Brasil é um país sem um projeto nacional de educação de base e que nunca construiu uma lógica de pensamento livre e crítico a partir das massas populares. Somos um dos países da América Latina que menos lê e que menos entende de sua própria história.
Armas no Brasil não estão conectadas a um desejo de direito civil como nos EUA, a guerras internacionais ou a morte, elas se conectam com o senso comum pelo sentido de proteção e defesa individual e familiar. Seja a proteção que se crê pela institucionalidade das forças militares, seja no sentido de defesa pessoal ou até mesmo conquista de status e poder. O militarismo (em todas as suas vertentes, inclusive a paramilitar) é uma das principais portas de seguridade social e ascensão dos mais pobres.
Por estas brechas, o conservadorismo construiu sua narrativa em meio a degradação de todos os sistemas públicos existentes. Hospitais não funcionam, educação precarizada, previdência social derretida, mas o militarismo segue firme e forte. Nossa base material frágil garante aos grupamentos armados este tipo de poder. É preciso uma compreensão extra! As discussões antiviolência não funcionam tão bem no Brasil contemporâneo, por ser um país onde parte gigante do seu povo relativiza a violência. Esta já nos é familiar.
A eleição do Bolsonaro foi um banho de água fria em quem acreditava que o povo poderia escolher livros ao invés de armas. Como fazer tal escolha em um país onde o prazer da leitura é escasso e vemos fuzis em cada esquina? Por mais que pareça insano, percebemos que boa parte dos brasileiros não se importa com o aumento do armamentismo. Precisamos entender que tal discurso é dizer que devemos escolher entre aquilo que a maioria nunca teve um acesso decente com algo que lhes é tão familiar que já não temem.
O Deus cristão é também o Deus da espada, que levará ao cemitério quem tocar no ungido dele. Esta narrativa ganha espaço no povo que vive a materialidade de um país onde a violência se tornou naturalizada no dia a dia. Não será fugindo da realidade que vamos fazer renascer o Brasil, precisamos sim elevar nossa discussão de projeto de nação para além disso. Vocês têm armas? Ok, nós não teremos medo de encarar vocês de peito aberto e na mão! Vamos com a cara e a coragem reconstruir tudo que der para reconstruir do chão deste povo.
Ano a ano a esquerda taxou tudo e todos que eram sua oposição como fascistas, ao mesmo tempo em que governava lado a lado com o ovo da serpente (Crivelas e IURDs, Pastor Everaldo, os muitos acordos e composições com a escória política nas cidades de interior). Fazemos campanha estereotipada de fascismo neste país onde sequer estudamos a fundo o que foi o momento histórico e o levante das forças fascio. Soma-se a isso o fato de que o Brasil é um país onde os micros fascismos habitam emaranhados na sociedade.
Se ilude quem acredita que as eleições vão resolver o país, que simplesmente recuperar o controle do governo vai resolver. Se ilude também quem crê que o maniqueísmo sobre o armamentismo vai angariar votos. Esta eleição está fadada ao risco da incredulidade, perdeu-se o bonde da história quando a indignação popular que começava a crescer nas ruas diante do desarranjo na lida com a pandemia foi silenciado em nome de um: Tiraremos Bolsonaro nas urnas. Agora as urnas chegaram e as ruas estão vazias. Vivemos o volume morto da despolitização e da confusão entre fazer marketing e fazer política.
Entendam de uma vez: o grosso do povo brasileiro não gosta de políticos frágeis, o povo espera alguém que tenha peito e coragem de enfrentar. Este marketing o Bolsonaro faz, por mais que ele seja um covarde e um incapaz de gerir qualquer coisa (como bem se mostrou seu mandato) se vende como o ex-militar capacitado de acabar com a corrupção do centrão. Porém sua demagogia caiu por terra, a corrupção está aí e nada foi construído neste país além dela.
Aqui cabe aquele chavão máximo de Maquiavel: ser amado ou ser temido? E a resposta que acredito para tal: Sejamos amados por quem tiver a fim de nos amar, estes que venham conosco, mas acima de tudo sejamos temidos pelo bolsonarismo!
O bolsonarismo e o conservadorismo tolera em parte os indivíduos que compõem as minorias, mas temem a capacidade destas se organizarem. Não importa se gostamos ou não do Lula, do PT, do PSDB, de quem quer que seja, o que nos importa é: Ninguém mais vai poder se sentir corajoso de meter o bico do fuzil apontado para quaisquer de nós que sejam, porque a organização a partir de agora tem que ser temida. O medo que a classe média começa a sentir nesta eleição já é vivido por qualquer um que milita e faz campanha nos subúrbios, baixadas, periferias deste país a muito tempo.
A discussão não é mais a identidade, a representação ou o levante do protagonismo por dentro do sistema. A pauta principal é resolver as arestas materiais que trazem mais sofrimento, dificuldade de emprego e renda, dificuldade de se manter estudando, discrepâncias salariais, entre outros.
O povo tem fome, não tem mais tempo de ter medo, então fica o recado aos que militam, mas nunca passaram fome: não tenhamos medo! Nada gera mais pânico ao bolsonarismo (em todas as suas faces) do que um povo que encara esta escória miliciana. O bolsonarismo já está pronto para ir as ruas questionar as urnas, e as massas de esquerda farão o que? Seguirão encasteladas em seus aparelhos na esperança e fiança de um judiciário que só tem legitimidade para meia dúzia da classe média e da elite?
O que o Brasil precisa mesmo é aposentar estes modelos de disputa e se debruçar na construção social do seu projeto de país inserido no mundo. Precisamos redesenhar o nosso campo produtivo, fomentar um projeto factível de reestruturação da infraestrutura material: indústrias, logísticas, manejo ambiental, habitação de massa repensada pelo direito a morar e não pela financeirização, criar mecanismos de combate à fome e miséria e remontar a educação de base para que me 12 anos tenhamos uma nova geração forte e capaz de produzir uma sociedade muito melhor.
Segue sendo nossa maior vergonha termos um sistema educacional onde: aos mais pobres é destinado a degradação do sistema de educação pública, a classe média em geral seguirá as escolas privadas de ensino também frágil, mas com lógica de clube e festa para se manterem atraentes para os estudantes e meia dúzia de escolas de ponta onde serão formados os filhos da elite desta nação. Tentamos debater democracia sem sequer sairmos completamente da visão de mundo aristocrática. Uma educação emancipadora e revolucionária seria aquela capaz de dar ao povo as ferramentas de construção e sistematização de saberes científicos e de gerar crítica concreta.
Este Brasil só é possível de construir a partir da ampla organização popular, algo que perdure para além das disputas dadas. Muitos ungidos do Senhor estão neste momento passando fome e sofrendo das mesmas violências cotidianas que os LGBTQ+ ou os povos originários, enquanto o Bolsonaro e seus asseclas comem picanha a R$1799,00 mil e setecentos e noventa e nove reais o quilo, nada diferente do que Cabral estava consumindo na cadeia.
Não nos iludamos! Não há saída possível sem passarmos pela retomada das ruas, independente do que as ruas construam, e por um trabalho árduo que caminhe para além dos processos eleitorais, isso é o que impõe o medo e o respeito diante dos poderes dados. O povo em sua incógnita de descrença que segue tentando encontrar os caminhos para a melhora material de suas vidas não é mais um alienado ou um agente passivo ao que está dado.
Na noite da última segunda feira, no auditório da UNISUAM em Bonsucesso ocorreu uma Audiência Pública Territorial da Comissão Especial do Plano Diretor. Como eixo principal destacou-se o que estava sendo pensado para a Zona da Leopoldina, mais especificamente a região que abarca de Manguinhos até a Penha.
O triste destaque se deve a uma apresentação extremamente focada em um tipo de modelagem de uso do solo para verticalização imobiliária disfarçada de adensamento. Entre os principais equívocos que foram apontados, destaco algumas questões fundamentais que nos são extremamente caras ao lugar e à qualidade de vida de todos os cidadãos, não foram sequer pinceladas pelo poder público, questões como mobilidade, áreas livres, arborização, entre outros.
É um erro absurdo acreditar que aumento de gabarito por si só significa reestruturar bairros. Ficou claro nas falas da população a saturação e reais problemas que esta, que reside, sofre. Chega a ser um pensamento antiurbano acreditar que se resolve a cidade apenas aumentando oferta construtiva. O gabarito legal permitido na região hoje já é alto e ainda assim nunca fora alcançado.
Para entendermos o motivo, precisamos assumir a cidade real: A região debatida sofreu um imenso esvaziamento por inúmeros processos mal resolvidos de planejamento, desde a escolha do território como território industrial num dado momento histórico até o processo de desindustrialização da cidade e o crescimento da especulação imobiliária para a Barra da Tijuca e Jacarepaguá, entre mil outros fatores, promoveu o esvaziamento local. Ao longo de décadas houveram discrepâncias absurdas de investimento público na cidade, vendeu-se por anos que os subúrbios, em especial a Zona Norte e Oeste AP3 e AP5, são lugares ruins para se morar. Ser cool no Rio, desde a década de 50 é morar na Zona Sul, curtir a cultura da Zona Sul, parar nos pólos gastronômicos da Zona Sul.
Nos últimos anos, além de obras extremamente equivocadas e de qualidade duvidosa, complementou a degradação destes espaços que perderam pólos de cultura e lazer, árvores, praças entre outros.
Temos de ter em mente que, o que atrai população, tensiona a demanda por moradia e por sua vez atrai o mercado imobiliário, é a garantia de um lugar infraestruturado e com interesse de lazer-cultura-educação-segurança. É uma anacronia a comparação da Zona da Leopoldina com a região da Zona Sul na qualidade de afirmar que: a verticalização que torna a Zona Sul agradável.
O interesse da sociedade em morar na Zona Sul foi construído a partir de suas belezas naturais, paisagísticas, valores de cultura e sociedade e de sua qualidade urbana e de um bombardeio de propaganda simbólica que vendeu a Zona Sul como o lugar certo de ser carioca. Esta por sua vez tensionou o Estado a infraestruturar a região, urbanizando-a, precisou deste conjunto de operações para que o processo de verticalização acontecesse, de maneira a atender a forte demanda por moradia na região. Mesmo em Copacabana, um dos bairros mais verticais e densos da cidade, só perdeu sua última casa baixa da orla no ano de 2013. É importante demarcar estas informações para a compreensão de que a verticalização só se completou na orla de Copacabanda a partir deste ano citado.
Pergunto eu:
O que levaria quaisquer pessoas a morar em um apartamento de 50m² de frente para a Avenida Brasil? O que levaria estas pessoas a não comprar seu imóvel em outro lugar da cidade, visto que os preços tenderiam a ser competitivos ou até mais atrativos?
Não digo com isso que devemos ficar presos num bucolismo de tempos pretéritos, mas é preciso compreender o básico do espaço real e vivido: sem qualidade urbana e paisagística, sem pertencimento, não se gera interesse e nem desejo de morar. E sem um interesse massivo, não se viabiliza moradia verticalizada com qualidade. Isso é tão basal que o próprio mercado imobiliário compreende como parte de suas estratégias. Assim, é totalmente falso qualquer afirmação de que basta construir um prédio que as pessoas irão naturalmente desejar morar.
Dito isto, não podemos tratar de um Plano Diretor da cidade que simplesmente deixe livre um mega potencial construtivo a beira da avenida brasil sem nenhum parâmetro de organização. Isso é dar uma carta branca a sociedade construir qualquer coisa de forma não planejada. Resumindo o plano nega o próprio objeto de planejar.
O que fica claro é: para gerar interesse do mercado imobiliário na Zona da Leopoldina, desmonta completamente quaisquer requisitos urbanísticos e cria instrumentos de tábula-rasa que favoreça o lucro a partir da quantidade (potencial de construir no terreno), Esta ferramenta pode ser utilizada como moeda de troca para que o mesmo mercado invista com mais qualidade nas áreas Centro-Sul e Barra da Tijuca. Fica claro mais uma vez que o alvo das discussões do Plano Diretor para a região da Leopoldina não é a população, mas a possibilidade de gerar algum interesse para os grandes investidores de terras.
Entre os elementos extremamente arriscados, segue no plano a possibilidade de remembramento de pequenos lotes (que representam a maior parte dos lotes desta região), para a construção de um grande lote. A princípio isso parece algo inocente, mas é muito perigoso em uma região onde a maioria dos lotes não possuem escritura definida corretamente, casas que possuem acréscimo, famílias que construíram no quintal ou no segundo andar da casa dos pais e não fizeram desmembramento. Estamos falando de um território cujos lotes próprios são vulneráveis também.
A materialidade destes projetos onde só o que pesa é imprimir potencial construtivo e liberar aumento de gabarito em vazios urbanos dos bairros gera projetos como já vimos por aí, cito ruas como os empreendimento da Rua Degas, ou o novo lançamento da CURY com entrada direto pela Linha Amarela, sem qualquer relação com entorno ou com impactos diversos do empreendimento no local. O poder público fala em construção de condomínios no mesmo lugar onde o povo claramente pediu saneamento, escolas, ônibus, creches, praças e parques. Precisamos discutir mobilidade decente, áreas de lazer, pontos de cultura, planejamento de arborização, espaços de educação, saúde e cultura. São estes elementos que podem fazer surgir o interesse popular por estes bairros. É sobre isso que o Plano Diretor deve se debruçar, ao invés de repetir erros de um Rio de Janeiro já cansado destes processos imobiliários.
A solução para o BROP ou para a própria Av. Brasil passa primeiramente pelo resgate das relações comunitárias vigentes locais, pela valorização das qualidades e signos importantes dos bairros e pela geração de interesse popular nos mesmos. Bonsucesso é interessante quando o clube de Bonsucesso se torna interessante, quando o mercado é barato, quando as praças estão aptas a vivência e sociabilidade, quando os bares estão com movimento a noite. A Penha será ótimo a medida em que os pólos de lazer tirem partido da paisagem da Igreja, ou o parque shangai seja patrimonializado pelo que representa para aquela região. Assim também é Ramos ou Olaria. Ninguém que mora na URCA seria louco de esconder o cara de cão, ninguém que mora na Zona Sul seria louco de transformar suas praias e calçadões num aterro sanitário, destronar a escultura de Drummond.
Ao construir e consolidar os projetos de estruturação dos bairros, garantir a revitalização deles, valorizar a cultura local, suas construções e associações de bairro e território, compreender as muitas nuances rua a rua, saberemos realmente como lidar com bairros. É preciso termos essa compreensão, estamos falando de Bairros, com história, memória, simbolismos mil e infraestrutura e não de terra a avulsa. Quem nesta cidade ainda fala de terra avulsa disfarçado de falar de cidade em geral é especulador formal, grileiro ou miliciano.
As grandes glebas abandonadas da Avenida Brasil precisariam, antes de receber um empreendimento de qualquer porte imobiliário, de investimentos urbanos e urbanísticos. Isso é um mínimo dos mínimos. Por que não pensar o Centro Expandido como se pensa os PEUs ou como se pensou o Reviver Centro? Por que a prefeitura precisa de uma tal Zona Franca Urbana que não diz exatamente a que veio? Estas são questões que precisam ser respondidas com muita urgência, antes que nada sobre para se chamar de bairro nesta cidade do Rio de Janeiro.
Qualquer pessoa que vê o resultado da Transcarioca, do Porto Maravilha, das obras abandonadas do entorno do Maracanã, enxerga exatamente do que se trata o modus operandi desta prefeitura para a cidade. Esta é a cidade real que nos restou.
Em meio a inúmeros alertas da ONU e enfrentando uma pandemia que cobrou da humanidade a capacidade de parar o giro do sistema para se recompor, o sistema global permaneceu tentando remendar a si mesmo. Passando-se dois anos de pandemia, a escolha dos grandes operadores dos modos de produção foi por manter a roda da economia como conhecemos em pleno movimento, apesar de todas as limitações e embaçamentos que podem causar catástrofes ainda maiores. Assumimos esta escolha política, mesmo distante das inúmeras disputas.
Estamos, enquanto espécie, diante de um flanco. Enfrentamos uma necessidade urgente de ruptura do paradigma atual que, diferente dos processos de mudança do iluminismo ou do modernismo, não passa por signos de busca de evolução da humanidade, mas sim pela própria necessidade de sobrevivência dela. Assim, nos resta a certeza de que não temos mais tempo de experimentações sem encarar os riscos de para onde a trajetória econômica está nos levando. Diante disso fica a pergunta: Como repactuar a economia global diante do dilema ambiental? Essa pergunta precisa de uma resposta aplicada em larga escala urgentemente.
Dentro deste dilema trago um recorte para reflexão: Os atuais avanços do mundo industrial já nos permitem gerar novos modelos que podem colaborar com a busca deste novo paradigma. O discurso vigente do sistema capitalista, que centra a produção em lucro, competitividade e propriedade do conhecimento (patentes, copyright, P&D) como fomentadores de uma sociedade mais eficiente já não cabe mais. Foi justamente dentro deste raciocínio que chegamos aonde estamos. Tentamos sobreviver em um planeta que transforma vida em recurso e tudo que toda em produto de consumo.
Por outro lado, o sistema vigente em modelos de produção socialista produzira um nicho de relações burocráticas que tornaram a indústria menos potente em inovação (argumento que é questionável), hoje, com o atual nível de conexão de redes, não precisamos mais nos ater a tal debate. Vamos recortar o que é comum a ambos, a busca da produção e o uso estratégico do modelo industrial para garantir o controle social. Por sua vez, não é mais necessária uma megaprodução de excedentes para otimizar lucros, ou um grande sistema de exploração de força de trabalho braçal para garantir eficiência (como defendiam/defendem alguns).
Podemos criar redes de automação capazes de inferir na produção dentro de melhor racionalidade de demanda, interesse, uso, capacidade produtiva e capacidade destrutiva. Podemos integrar todos os instrumentos de produção e logística globais em redes de possibilidades capazes de monitorar em tempo real a necessidade de produção, reduzir custos, reduzir desperdícios e excedentes que viram lixo. Com o Big DATA podemos tornar os ecossistemas de produção industrial mais flexíveis e ajustados a demandas globais.
Um exemplo alegórico: O aumento expressivo do consumo de um determinado remédio destinado a uma doença contagiosa em uma cidade pode dar indícios de um possível surto, apontar para a rede industrial a necessidade de se produzir mais deste remédio para esta cidade ou deslocar de um lugar com pouca necessidade deste remédio. Esta indústria pode dar indícios a rede de indústrias de motores sobre a necessidade de produzir certo tipo de transporte para garantir a logística de mobilidade para aquela região e por aí vai. Uma reação em cadeia que ligue ponta a ponta: consumo e produção conforme diagnóstico em tempo real das problemáticas e potencialidades de atendimento das demandas.
Cada vez mais, o ato de implementar uma indústria envolve também pensar nas relações urbanas, paisagísticas, naturais de onde esta se insere. O modus operandi de um planeta rateado pelos setores econômicos que garantem a eterna repetição dos mesmos ciclos de centro-periferia global. Da mesma forma devemos pensar se ainda se torna necessário investir energia na produção constante de veículos automotores individuais por exemplo.
Precisamos rever urgentemente a relação do lucro e propriedade relacionados a produção industrial. Não cabe mais, em um mundo complexo, pensar o grande campo industrial como um sistema de proprietários de capital e relações de poder e disputas privadas. Não cabe mais a produção seguir com base em excedentes de necessidade duvidosa para girar uma economia desvinculada dos impactos ambientais e das reais demandas da sociedade. Com um olhar atento sobre a produção globalizada e internacionalizada seríamos capazes de economizar tempo e material, baratear a produção a partir da logística de produtos sob demanda, ao invés de repetir o padrão de barateamento gerado por uma megaprodução de excedentes.
Podemos portanto, reinserir a produção dentro de um sistema ampliado de organização social. Atualmente podemos gerir complexos industriais através de bigDATA de forma a garantir maior eficiência nos processos. Porém, precisamos de um ciclo ampliado constante de gestão política e governança, que englobe sociedade civil, sindicatos, ambientes comunitários, parlamento, entre outros.
É preciso pensar uma estrutura social que viabilize a redução da jornada de trabalho sem a redução dos salários. Precisamos considerar as ferramentas que o capital apresenta, podemos por exemplo redefinir a produção do lucro do capital financeiro, cujo principal alvo é a geração de renda e crédito através da confiança. O lucro segue como conhecemos, sendo produzido pela capacidade produtiva dos trabalhadores e pelas máquinas de exploração da vida, porém se compõe via capital financeiro, de forma indireta a isso. É preciso repactuar a renda, pois a realidade é que teremos uma massa de desempregados ou de subempregados muito maior do que a que existe hoje. Esta massa por sua vez é parte significativa na produção da mais valia, ao mesmo tempo em que é potencial consumidor.
O sistema de lucros deve ser reorganizado e costurado. Ao invés da produção de bilionários, a industrialização global, automatizada e gerida de forma racional pode produzir um sistema universal de redução e mitigação da miséria. Para tal, precisamos reinvestir o lucro gerado em políticas de renovação e proteção social e ambiental. O valor excedente produzido precisa entrar em um ciclo de benefícios locais, ser reinvestido prioritariamente na busca da equidade social em todas as esferas de governança. Visamos com isso reduzir os danos causados e prevenir que novos danos ocorram. Com o investimento global dos lucros industriais organizados, podemos estruturar bancos de apoio e distribuição da renda, programar e fomentar políticas de pesquisa e desenvolvimento que se fundamentem prioritariamente na constante ação em rede.
Pesquisa e desenvolvimento é um trabalho global e colaborativo. É um equívoco seguirmos crendo ainda nos modelos míticos da grande genialidade. Precisamos Consolidar as redes de possibilidades dos encontros. Quanto mais integrados estamos, melhor é a eficiência e racionalidade de ações que planejamos.
O que deve se tornar predominante e paradigmático acima do lucro, é o impacto de preservação e recuperação ambiental do entorno, seja natural ou construído. Neste sentido, a partilha pode ser peça importante para organizar o novo modelo de operação industrial, focando na cooperação internacional, na racionalização da logística de transporte dos bens de consumo e de transporte das matérias primas muito mais que na concorrência. O planeta não suporta mais nossa organização social modernista, essa é a triste realidade, precisamos urgentemente mudar as rodas de funcionamento do planeta, o tempo é pouco.
O mundo é propício a receber qualquer pequeno impacto no ecossistema e vai nos cobrar. Já demos alguns passos culturalmente. Aumenta o número de cidadãos, para quem, a existência passa pela experiência do mundo e não mais pelo controle de posses. Precisamos reforçar estes modelos se quisermos seguir vivendo neste planeta.
A ideia de uma identidade carioca, ou uma carioquisse, surge de um recorte específico e estereotipado da cidade do Rio. Esta que já foi capital nacional e viveu anos de pujança. Esta identidade a meu ver se demarcou por um recorte geográfico muito bem definido, a escolha de uma vertente de espraiamento e especulação voltada à burguesia e as elites tanto cariocas quanto nacionais.
Assim, criou-se a imagem de Rio de Janeiro voltada ao eixo Zona Sul da cidade. O próprio termo Zona Sul nasce deste processo de autossegregação (há pesquisas muito importantes que explicam melhor esse momento). O lugar do carioca nesta construção se divide pelo seu recorte de classe. Para a burguesia e todos os que podem pagar, destinou-se o eixo de crescimento situado entre o oceano e os maciços, e para o restante da população destinou-se dos maciços ao interior do continente (simplificando o recorte).
Neste sentido, podemos entender que, se por um lado o capital cultural, simbólico, narrativo da cidade que vence historicamente como verdade de representação foi forjado em uma parte desta (mesmo que capturando diversos elementos da cidade como um todo), ao outro lado, ficou o relento de fazer sua própria história, porém sem que esta esteja na oficialidade das narrativas, exceto quando domesticada pelos que escrevem e tem voz.
A complexidade do Rio é que sua construção cultural/territorial não é dicotômica, há nuances das mais diversas que surgem no intraurbano. Entre as muitas nuances vou destacar 3 grandes topônimos: O Rio (retratado pelo eixo centro-sul estendendo-se a Barra da Tijuca e Recreio), Os Subúrbios (retratados pelas Zonas Norte e Oeste excluindo-se Barra e Recreio), as Favelas (retratado por lugares de ocupação não formal que se encontram pulverizados pela cidade como um todo).
As favelas sempre foram denotadas como o lugar que deve ser expurgado, desde termos como área de risco, até o estigma de território da violência, a favela é o território onde o Estado tem liberdade garantida pela opinião pública para executar o que quiser, independente das leis. As favelas resistem a morte, a remoção, a ausência (ou presença torta) do Estado e a presença das disputas mais viscerais de poder e espólio sobre o direito a vida.
Os subúrbios por sua vez, expressam um sombreamento difuso. São territórios legalizados, em geral propriedades privadas destinadas aos mais diversos tipos de pobres que, em algum momento da vida tiveram condições de adquirir um bem, um imóvel. Ainda que muitas vezes, tenhamos bairros tão ou mais pobres que algumas favelas, há um caráter de origem formal no território. Além de formal, há uma relação de distinção e heterogeneidade na constituição dos mesmos.
Assim como não podemos dizer que o tratamento dado ao Vidigal é o mesmo dado ao Cesarão, também não podemos dizer que o tratamento dado ao Méier é o mesmo dado a Honório Gurgel. E são justamente nestas disparidades que a busca de uma certa identidade se torna limitada. O que unifica as lutas das favelas, antes de uma identidade favelada e periférica, é a disputa de classe, o desejo de que a máquina do poder pare de matar os moradores deste lugar. Para os subúrbios esta discussão é mais complicada, pois não há por parte do Estado um ataque claro aos territórios. A PM não passa da mesma forma nas ruas da Vila da Penha como passa nas ruas de Costa Barros, por exemplo. Este tipo de relação torna complicado a construção de um sentido comum e de elementos de igualdade entre os dois bairros (base para a construção de sentido de identidade).
É com base nisso que temos que lidar na hora de produzir nossa história e nossas lutas. Uma identidade suburbana, a meu ver é cada vez mais inviável de se constituir sem que a mesma se reduza a um estereótipo domesticado, um Zé Carioca contemporâneo, um Zé Pelintra que anda pela Lapa pra tentar chamar a atenção de gringos. O que precisamos compreender é a construção de uma emanação de enfrentamento de subúrbios e favelas como agentes de lutas, uma emanação do vir a ser pobre que reconhece na sua condição de vida o impacto que a segregação social, econômica e territorial lhe impõe. Sob este reconhecimento que seremos capazes de entender o que leva um jovem branco morador de um bairro pobre hegemonicamente negro a ser visto pelas forças do poder como um jovem também negro quando está no seu bairro.
Esta segregação invisibiliza sua voz, deforma seu bairro em nome da especulação imobiliária descolada do cotidiano, mata quaisquer infraestruturas como transporte, hospitais, escolas, etc. Ela implode os saberes e fazeres do povo, apaga sua paisagem, seu patrimônio construído, e sua história. O pobre não tem acesso à cidade como um todo, sem que seja questionado. Ainda que alguns tenham conseguido romper certas brechas e ganharam espaços de fala, o discurso hegemônico ainda é domesticado. Não se modifica a estrutura, mas se constrói um equipamento x ou uma apropriação cultural y e isso é vendido como uma solução. Criamos um pólo gastronômico em um bairro qualquer e deixamos o bairro vizinho entregue ao poder paralelo do tráfico, milícia e igreja unificados.
Não importa as forças que estão no poder, a base de constituição delas nasce da burguesia que pouco conhece os espaços segregados e invisíveis da cidade. Somos governados e geridos (seja pelo público ou pelo privado) por grupos e forças cuja origem está no mais elitizado dos espaços, nas universidades de ponta, nas escolas de ponta, onde muitos dos mais pobres nunca pisaram, pois precisam enfrentar uma luta hercúlea pela sobrevivência desde cedo. Quem é pobre não tem tempo de estacionar o carro no Leblon às dez da manhã de segunda-feira, não tem tempo de dar opinião em jornais de grande circulação ou de passar o dia bebendo uísque a beira da praia como forma de compor um grande sucesso nacional.
Por isso e outras mais, nossa luta não pode ser apenas uma disputa de identidades, pois a identidade carioca já está formada e dentro dela, o pobre já tem seu lugar definido e estereotipado. Nossa luta é um combate de classes, onde o suburbano e periférico veste seu Clóvis. Sob a fantasia está o lazer, a alegria, a dor, a paz e a violência. É com este ferramental de quem, nesta cidade, é realmente capaz de experimentar com tranquilidade as mais doidas contradições da sociedade, sem cair no maniqueísmo raso das intempéries, que teremos de buscar nossa alternativa para não sucumbir.
Turma do Indio 2017 – Guadalupe – imagem de Vincent Rosenblatt
Desde que a humanidade tomou consciência de si e constituiu sociedade que ela tem de lidar com os mais difíceis desafios da natureza. Construindo ferramental prático, técnico, teórico e científico para resistir e construir seus espaços de garantia de bem viver.
Impressiona como um país como o Brasil sucumbiu a um projeto de existência terminal, tornando-se incapaz de enfrentar quaisquer questões mais severas. Em mais de 500 anos de história de ocupação colonizadora, e milhares de anos de ocupação do território pela humanidade, nossa história é marcada pelo constante achatamento da produção científica e técnica e do conhecimento como um todo. Ensino de qualidade sempre foi um projeto excludente no país, as pouquíssimas tentativas de formação de educação de base com qualidade e democrática foram rapidamente arrasadas, tão logo tentava-se instituir. Esta construção de nação dá o tom da nossa sociedade, um país com projetos rasos e efêmeros, que pouco valoriza a capacidade técnica e que entrega a sorte e ao destino todos os seus.
A destruição de Petrópolis, uma das cidades símbolo da história deste país, se torna mais um capítulo desta tragédia chamada Brasil. Não há surpresa no acontecido, a real é que há negligência histórica em lidar com a necessidade de se planejar. A tragédia é o desfecho de uma lógica que atravessa todo o sistema do campo da construção deste país. Embora seja um dos campos de trabalho e mercado que são estratégicos para o giro da economia, ele sempre opera de forma leviana. Preferimos construir estádios a hospitais, preferimos construir megamuseus a sistemas de saneamento, preferimos entregar o valor da terra por aumento de gabarito a respeitar limites ambientais frágeis. Esta é a cara das obras e da gestão pública neste lugar.
A política educacional, nossa principal chave de mudança está também destruída. Escolas funcionam como depósitos de jovens sem perspectiva. O sistema de universidades se tornou mera ferramenta de arrecadação financeira para grandes corporações e formação de mão de obra pouco reflexiva, isso em um país que é incapaz de absorver sequer um terço desta mão de obra formada. São décadas em que o projeto é achatar a produção de conhecimento, um projeto que se dá com mudanças gradativas.
Para piorar o caso, quaisquer forças progressistas atualmente organizadas se tornaram meros agentes de reação a tudo que surge, sem que se construa alternativas de saída. Tudo se resume a marketing e estratégia furada, o que também é um reflexo claro de um povo que pouco lê, que pouco consegue estudar e trabalhar por si mesmo a crítica, a reflexão e a produção de ideias. Não basta ao país apenas consumir, andar de avião, ter geladeira, ter televisão, precisamos de um país que saiba construir isso tudo, que saiba produzir tecnologias de defesa, que saiba monitorar tecnicamente os riscos de tragédia, entre outros.
Vivemos no desespero, em uma espécie de deixa acontecer e vamos ficando aqui. O Brasil na real não vive mais, apenas segue existindo enquanto respira. Este desespero que produz o crescimento das mais diversas formas de fé, de crença, de busca messiânica e equivocada de uma saída ou uma fuga.
Consta que, para sairmos deste abismo nacional, precisaríamos de um trabalho de longos anos. Precisaríamos recuperar os esforços em um projeto de educação concreto que garanta a nós formação suficiente para lidar com o revés do mundo. E um primeiro passo precisa ser tomado, a construção de um desejo de Nação, de nos entendermos como um povo onde um são todos, onde um cidadão não é problema só de si mesmo, mas um problema da cidade. Em resumo, precisaremos reconstruir o sentido coletivo da vida, o sentido político dela.
Temos de enfrentar fortemente a inércia que a tábula rasa dos 4 anos eleitorais coloca. Precisamos consolidar um olhar científico e técnico integrado, romper com o viés corporativo e particionado do indivíduo em si mesmo, do profissional em si mesmo, do saber como uma caixa cartesiana. Precisamos recuperar a costura e o sentido da função social do nosso trabalho e explodir os sistemas de captura financeira da vida. Não dá mais para aceitar cidades definidas e geridas com base em especulação financeira da terra, não dá mais para pensar hospitais geridos por quem vende nossa saúde a preço de banana, não dá mais para pensar a produção alimentar com base no lucro que posso ter com a fome do povo. Sem um olhar integral da vida, não sairemos desta lógica de ser um país cujo único projeto parece ser o de se tornar uma fazenda para o mundo onde poucas famílias fazem fortuna às custas da miséria de todos.
Petrópolis, Brumadinho, Morro do Bumba, Chuvas de 86, a história do nosso fracasso social segue cíclica.