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Conectividade Global vs. Coesão Local: O Dilema da Reconstrução Urbana em um Mundo Globalizado

Entre Pólis e Civitas, cidades em desalinho.

Ao ler sobre as obras nos municípios de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, destruídos pelo rompimento da barragem de Mariana, fui confrontado com uma dicotomia intrigante. Nessas áreas, foram construídos condomínios aos moldes de bairros-jardim e de condomínios fechados contemporâneos, soluções que se encaixam na lógica das cidades globais. No entanto, um relato de um morador expressa bem o desencontro que essa urbanização criou para aqueles que sofreram as perdas do desastre e agora recebem essas casas: “Antes, por ser zona rural, as pessoas trabalhavam nas casas ou na dos vizinhos. Hoje, não é área rural, não pode ter galinha (…) A Renova precisa criar um modo de sobrevivência da comunidade.” Este testemunho, divulgado em uma matéria da Folha de São Paulo, revela a falha dessas novas construções em atender às necessidades e expectativas de uma população que tinha sua vida profundamente conectada ao contexto rural.

Este exemplo nos leva a refletir sobre as cidades contemporâneas e a forma como elas absorvem ou negligenciam os valores comunitários em favor de modelos globais padronizados. As palavras “pólis” e “civitas”, embora ambas significassem “cidade” para os gregos e romanos, carregam significados intrínsecos que podem nos ajudar a compreender e reavaliar a organização urbana atual.

A pólis grega representava o espaço do ethos, da ética e da política, onde a unidade comunitária e cultural era fundamental. As cidades-Estado gregas eram autônomas, cada uma com sua forma de governo, leis e instituições, e a participação cívica era um valor central. Já a civitas romana, apesar de também ser uma unidade política, possuía uma concepção mais expansiva, onde o ethos enfatizava a obediência à lei e o dever para com o Estado, em busca de coesão em um império diversificado.

Nas cidades globais contemporâneas, podemos observar uma combinação dessas heranças. Elas são frequentemente organizadas em torno de centros cívicos, como as pólis, e utilizam grandes infraestruturas — como arranha-céus e espaços públicos monumentais — que simbolizam ordem e poder. Porém, essas centralidades muitas vezes estão desconectadas das periferias, perpetuando a fragmentação espacial e social. Essa desconexão reflete uma lógica mais próxima da civitas romana, onde a organização urbana se expressa geograficamente através da segregação e da especialização das zonas (residencial, comercial, industrial), e politicamente da pólis, onde embora a liberdade e participação ativa cidadã fosse importante ela era destinada apenas aos homens livres.

Assim, como nas pólis – que promoviam uma integração orgânica entre diferentes funções urbanas, com uma ênfase na participação cívica e no uso comum do espaço público – as cidades globais contemporâneas tendem a refletir uma dinâmica onde apenas uma parte dos cidadãos, os “cidadãos globais”, usufruem dos benefícios do fluxo econômico e da participação nas redes globais de mercado. Esses indivíduos sabem navegar pelas redes globais atuando de maneira expansionista, enquanto outros, marginalizados dentro desse sistema, encontram-se fixados em suas realidades locais, com acesso limitado aos benefícios urbanos e a uma vida marcada pela precariedade e pela subserviência ao poder constituído de um Império.

Essa realidade cria uma tensão entre a ética globalizada dessas cidades e as necessidades locais dos seus mais vulneráveis, gerando alienação e fragmentação interna. Na cidade global, diferentes grupos sociais vivem realidades praticamente distintas, muitas das vezes invisíveis apesar da proximidade física. Assim como as Pólis e as Civitas enfrentaram desafios em relação à coesão social, as cidades globais contemporâneas também enfrentam o desafio de reconciliar a fragmentação humana e a desigualdade econômica com um ethos urbano mais inclusivo e sustentável.

Para que as cidades globais evoluam de maneira mais justa e sustentável, é necessário uma ética que combine a conectividade global com um compromisso local com a justiça social e a equidade, e isto não é simples visto que exige abnegação de privilégios por parte de quem os tem. Isso implica em novas formas de organização espacial, que priorizem a inclusão e a acessibilidade, e em políticas que reduzam a desigualdade e promovam uma economia que beneficie a todos, não apenas uma elite globalizada. No campo da arquitetura e do urbanismo, isso se traduz em modelos de planejamento que valorizem as relações comunitárias e a capacidade humana de proteção e auto sustento, reconhecendo a importância de um ethos reconciliador e inclusivo.

Agora que comentamos muito a respeito de pontos conceituais e teóricos a se pensar, vamos juntos refletir na caminhada, mas especificamente em instrumentos práticos para a construção de outra sociedade.

Instrumentos para a Construção de uma Ética cidadã Inclusiva

Listamos aqui alguns instrumentos práticos que integram a conectividade global com um compromisso local de justiça social e equidade.

É preciso que parte da riqueza produzida no mundo seja trabalhada de forma pública e comunitária. Pensando que o sistema financeiro pode, não apenas se retroalimentar, mas também pavimentar ciclos menores de campo produtivo, sendo assim, pensemos que:

  • Taxação Progressiva e Redistribuição de Renda: Implementar um sistema de tributação progressiva que cobre maiores impostos das grandes corporações e indivíduos de alta renda, direcionando esses recursos para financiar serviços públicos, habitação acessível, e programas sociais que beneficiem e mitiguem os problemas das comunidades marginalizadas.
  • Economia Solidária e Cooperativas Urbanas: Incentivar a criação de cooperativas de trabalhadores e empresas sociais que operem com um modelo de economia solidária, onde os lucros são redistribuídos entre os membros da comunidade e reinvestidos em projetos locais que gerem empregos e promovam o desenvolvimento sustentável.
  • Apoio a Pequenos Negócios e Iniciativas Locais: Criar programas de fomento, financiamento, acompanhamento e subsídios para pequenos negócios e iniciativas empreendedoras locais, prioritariamente em áreas desfavorecidas, permitindo que essas comunidades desenvolvam sua parte no ciclo da economia e reduzam a dependência de capitais globais que muitas vezes ignoram as necessidades locais.
  • Orçamento Participativo: Implementar práticas de orçamento participativo, onde os cidadãos tenham voz efetiva e ativa na alocação dos recursos públicos, garantindo que as prioridades da comunidade sejam atendidas e que as decisões políticas reflitam as reais necessidades locais.
  • Descentralização Administrativa: Promover a descentralização dos poderes governamentais, transferindo mais autonomia para as administrações locais, que estão mais próximas das comunidades e, portanto, mais capazes de entender e responder às suas necessidades específicas. Construir gestões comunitárias, com instrumentos de ação e dentro de limitações cabíveis.
  • Transparência e Responsabilidade: Fortalecer os mecanismos de transparência e responsabilidade nas esferas públicas, garantindo que as políticas e projetos urbanos sejam desenvolvidos e executados de maneira ética, equitativa e com o envolvimento direto da comunidade.
  • Habitação Acessível e Inclusiva: Desenvolver políticas de habitação que garantam moradias acessíveis e de qualidade para todos os estratos sociais, evitando a gentrificação e promovendo a mistura social em todos os bairros. Isso inclui a construção de moradias sociais integradas a áreas bem servidas por infraestrutura urbana (principalmente). Rediscutir o valor da terra e as condições fundiárias.
  • Educação e Capacitação Comunitária: Criar programas educacionais focados na capacitação, com ênfase em habilidades que promovam a participação ativa na economia urbana, além de fomentar uma educação cívica que incentive a participação política e o engajamento comunitário.
  • Saúde e Bem-Estar Comunitário: Expandir o acesso a serviços de saúde e programas de bem-estar comunitário, especialmente em áreas carentes, garantindo que todos os cidadãos tenham acesso universal a cuidados de saúde de qualidade e programas de apoio social.
  • Zoneamento Inclusiva e Uso Misto do Solo: Reformular as políticas de zoneamento para permitir o uso misto do solo, combinando habitação, comércio, lazer e serviços públicos em proximidade. Promovendo assim, maior integração social e reduzindo a necessidade de longos deslocamentos, que muitas vezes penalizam as populações mais pobres.
  • Espaços Públicos Acessíveis e Seguros: Investir na criação e manutenção de espaços públicos de qualidade que sejam acessíveis a todos os cidadãos, independentemente de sua condição social. Praças, parques, centros comunitários e áreas de lazer devem ser distribuídos de forma equitativa pela cidade, servindo como locais de encontro e interação social. Construir integração dos diferentes.
  • Infraestrutura Verde: Integrar a infraestrutura verde no planejamento urbano, incluindo corredores ecológicos, parques, telhados verdes e sistemas de coleta de águas pluviais. Fortalecer as massas florestais locais e reservas ambientais, incluindo a recuperação de rios degradados.
  • Mobilidade Urbana Sustentável: Desenvolver sistemas de transporte público eficientes, acessíveis e sustentáveis, priorizando o transporte coletivo, ciclovias e caminhos para pedestres. É possível pensar em transporte a custo zero, pois a economia ganharia com a mobilidade do trabalhador.

Instrumentos Globais para uma Produção Industrial Racional e Sustentável

A forma como essa evolução industrial e tecnológica ocorre precisa ser reavaliada para garantir a sustentabilidade global. Abaixo estão propostas de instrumentos práticos visam criar um sistema global de produção industrial mais racional e sustentável.

  • Organização Mundial para a Sustentabilidade Industrial (OMSI): Criar uma organização internacional, sob a égide da ONU, dedicada exclusivamente à regulamentação e supervisão da produção industrial global. A OMSI teria o poder de estabelecer normas ambientais obrigatórias para todos os países, monitorar o cumprimento dessas normas e impor sanções a nações ou empresas que violassem as diretrizes.
  • Acordos de Produção Sustentável: Estabelecer acordos internacionais que limitem a capacidade de produção industrial com base em critérios de sustentabilidade, como emissões de carbono, uso de recursos naturais, e impacto social. Esses acordos poderiam ser vinculados a metas globais de redução de emissões e conservação ambiental, com penalidades para países que não atingirem os objetivos. A relação do que é produzido e estocado com o que é consumido precisaria passar por constantes linhas de equilíbrio global, evitando uma massa de produtos parados em galpões, píeres, ou outros sistemas de depósito logístico.
  • Taxação Global de Recursos Naturais: Implementar uma taxa global sobre a extração de recursos naturais, incentivando as indústrias a usar materiais reciclados e a investir em tecnologias de desmaterialização. Pensar como imposto progressivo, aumentando à medida que os recursos se tornassem mais escassos, ou houvesse reincidências por parte das empresas. Os fundos arrecadados seriam destinados ao desenvolvimento de tecnologias sustentáveis e à mitigação dos danos ambientais globais.
  • Regulação Obrigatória da Economia Circular: Tornar a adoção de práticas de economia circular obrigatória para todas as indústrias globais, exigindo que as empresas desenvolvam produtos que possam ser facilmente reciclados, reutilizados ou compostados. Produtos que não cumprissem esses requisitos seriam proibidos de serem comercializados em mercados internacionais ou sobretaxados.
  • Incentivo ao Desenvolvimento de Materiais Sustentáveis: Criar um fundo global financiado por governos, fundações e grandes corporações para apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de materiais sustentáveis e biodegradáveis. Este fundo seria utilizado para acelerar a substituição de materiais poluentes e não renováveis por alternativas sustentáveis.
  • Regulação de Cadeias de Suprimento Localizadas: Incentivar e regular a descentralização das cadeias de suprimento, promovendo a produção local e regional em detrimento de longas cadeias globais de valor. Isso reduziria a pegada de carbono associada ao transporte de bens e criaria economias menos dependentes de fatores externos.
  • Criação de Hubs Industriais Locais Sustentáveis: Investir na criação de hubs industriais locais sustentáveis, que funcionam como polos de inovação e produção com impacto ambiental mínimo. Esses hubs utilizam energia renovável, reciclagem completa de resíduos, e estariam integrados a sistemas de transporte sustentável, servindo como modelos para a produção industrial global.
  • Política de Autossuficiência Regional: Implementar políticas globais que incentivem a autossuficiência regional em certos setores, como alimentos, têxteis e produtos básicos. Isso reduziria a dependência de importações e estimularia a economia local, enquanto diminuiria a pressão sobre os sistemas de produção globalizados.
  • Patentes Verdes Compartilhadas: Estabelecer um sistema de patentes verdes compartilhadas, onde tecnologias inovadoras e sustentáveis sejam de domínio público ou licenciadas sob termos favoráveis para uso global.
  • Incentivo Global para Automação Sustentável: Promover a automação nas indústrias globais com o objetivo de aumentar a eficiência energética e reduzir o desperdício de recursos.
  • Inteligência Artificial para Otimização da Cadeia de Suprimentos: Utilizar inteligência artificial para otimizar as cadeias de suprimento globais, reduzindo o desperdício e melhorando a eficiência no uso de recursos, através de estudos contínuos de dados e auditorias automatizadas, tornando mais eficiente os processos de controle e fiscalização.
  • Simbiose Industrial: Introduzir modelagem de negócios de simbiose industrial, permitindo que indústrias de diferentes nichos troquem insumos, compartilhem infraestrutura, vendam energia, resíduos e matéria prima umas às outras.
  • Educação para a Sustentabilidade Industrial: Introduzir currículos obrigatórios em escolas, programas de pós-graduação e graduação em universidades em todo o mundo focados em sustentabilidade industrial, economia circular e inovação verde. A educação deve ser vista como um instrumento chave para mudar a mentalidade das futuras gerações em relação à produção e consumo.
  • Campanhas Globais de Conscientização: Lançar campanhas globais de conscientização sobre o impacto da produção industrial e a importância de práticas sustentáveis. Essas campanhas seriam financiadas por um consórcio de governos e corporações e visariam informar e engajar o público em questões críticas de sustentabilidade.

Assim, destacamos a necessidade de repensar a urbanização global e os sistemas de produção industrial em um mundo interconectado que recupere o caráter econômico das cidades e não o puramente financeiro. Propusemos instrumentos práticos que visam alinhar o progresso tecnológico e urbano com uma ética mais inclusiva e sustentável. A adoção de políticas que promovam a equidade, a economia circular, a descentralização da produção e a inovação sustentável é essencial para mitigar os impactos negativos do desenvolvimento desenfreado e garantir um futuro em que o progresso beneficie a todos. Essas mudanças são urgentes para que haja um uso justo e racional das tecnologias e indústrias, respeitando tanto as necessidades humanas quanto os limites ambientais.

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Centro do Rio: Livros e Sebos

Caminhar pelo centro do Rio é uma experiência singular e envolvente. Talvez a maior vocação do centro resida em tentar se parecer com o que não é, em ocultar-se sob véus de dissimulação. O Rio é como aquela pessoa que, sentindo-se feia, recorre a inúmeros artifícios e adornos. Alguma vez foi diferente? Não cultivo esperanças quanto a isso. A Rio-Paris de João Barreto, o João do Rio, revelava-se muito aquém da aposta de Pereira Passos.

Andar no Rio é isso: fazemo-nos flainar por entre ruas cujo tempo fica marcado nos casarões de uma cidade que quer parecer rica e se revela pobre. Amava caminhar por entre essas ruas, e muito o fazia enquanto depositava currículos. Via as vestes alinhadas de quem parava na Confeitaria Colombo para tomar um expresso com bolo, a face burguesa de quem almoçava na Leiteria Mineira, ali na Rua da Ajuda, e a pressa do corre-corre daqueles que viviam de montar computadores e lotavam os corredores das galerias do Edifício Central.

Meu acalanto vinha do adentrar sebos dos mais diversos. Não ligava para livrarias renomadas, exceto a Leonardo Da Vinci. Nos sebos há uma outra aura: livros bons são livros usados, muitas vezes há uma comunicação à parte, rasuras, notas de rodapé feitas à mão, dedicatórias que expõem amores ou amizades de outros tempos. Tive um professor que dizia: “Estudante de arquitetura tem que ter lido dez mil livros antes de se formar!” No mestrado, dizia o mesmo: “Mestrando tem que ter lido dez mil livros.” Nunca entendi bem a conta, talvez só bastasse ler na graduação.

Os sebos são um pequeno tesouro da nossa biblioteca de Babel. Da Belle Époque de João do Rio à Belle Époque do Méier, o aroma dos livros usados aprofunda a vida carioca. Talvez minha pequena esperança no centro do Rio esteja em caminhar a esmo e adentrar esses pequenos espaços, amontoados de um jeito fenomenológico, que apenas o proprietário sabe como nos guiar até o que procuramos. Pode ter certeza: sempre vamos encontrar o que procuramos, isso quando não é o próprio livro que nos encontra, quando estamos perdidos ali, algo muito comum nesses espaços místicos chamados sebos.

autoral – caneta esferográfica sobre papel: gato nos livros
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Feijão arroz e agenda.

Sempre me questiono por que apresentações de métodos de organização de trabalho em equipe sempre parecem mais bonitos e eficientes em powerpoint do que quando aplicados na prática.

Um dos motivos que mais assimilo é que gastamos tempos enormes enamorando métodos, assistindo eventos e palestras motivacionais que visam divulgar esses métodos e pouco trabalhamos a singularidade das equipes de trabalho. Quantos de nós somos bons em algo e mal aproveitados por conta da tentativa de se encaixar um método de gestão de trabalho na equipe?

Penso que todos os métodos são interessantes, não precisamos de dogmas sobre isso, são simplesmente ferramentas de trabalho para nos ajudar a moldar melhores jeitos de operar. Nenhum método precisa ser um dogma empresarial.

O que precisamos é entender bem os potenciais da equipe que temos, encontrar os pontos fracos e fortes, operar com isso. Valorizar a equipe financeiramente, garantir bons planos de cargos e salários, bons tempos de lazer e incentivo a estudo. Criar um bom ambiente para o trabalhador é das mais antigas e melhores garantias de sucesso numa equipe, além de tornar qualquer vaga de emprego na sua empresa algo realmente interessante, o que vai te permitir sempre ter melhores trabalhadores.

Simplificando: de nada adiantará você ser super aplicado em mil métodos de organização e planejamento estratégico de trabalho, se não consegue garantir valor material concreto para os seus trabalhadores.

Dito isso vou adentrar em outro modelo de organização, agora profissional e financeira:

1 – Pense o plano de cargos e salários dos seus trabalhadores de maneira que o trabalhador mais chão de fábrica possa alcançar, por tempo de serviço ou incremento de aprendizado, um salário similar a um trabalhador com especialização universitária. Por que não, seu encarregado de obras com 30 anos de empresa ter um salário igual o de um engenheiro pleno?

2- Garanta ao estagiário o direito ao aprendizado, tenha como meta um sistema de formação. Isso é algo básico do ser humano, aprendemos e ensinamos o trabalho, assim garantimos o legado.

3- Dê créditos a quem traz inovação, mesmo que seja o seu agente de limpeza do ambiente, se ele criou algo que gerou valor para sua empresa, valorize ele ao invés de assumir isso como autoria da corporação onde você (o dono) é a principal estrela.

4- Os tempos imperiais já terminaram, não escravize ou trate ninguém como escravo. Exemplo: pião não é categoria de trabalho, seu funcionário tem nome e tem expertise, trate-o como o profissional que é e te garanto que os resultados serão bem melhores pra você.

Com o básico, uma boa agenda já te organizará mais que um monte de aulas de coaches.

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Alguns desafios do plano Nova industrialização Brasil

O programa de reindustrialização do Brasil esbarra em alguns empecilhos que podem ser lidos como imensos desafios. Entre eles cito alguns: a melhoria dos centros nacionais de pesquisa e desenvolvimento, bens e recursos, custos de transações internacionais como logística de transporte.

Se o Reuni e Prouni acertaram precisamente a garantia de acesso universitário às camadas mais populares, errou muito ao deixar entregue ao mercado boa parte do capital investido em educação. Uma fala troncha que o presidente lançou falando sobre ter advogado demais no país é um bom reflexo disso. Um programa com o teor do Prouni e reuni, sem uma política estruturante em um país onde a maior segurança financeira vem de concursos públicos somado a cultura do cotidiano que sempre viu como emprego seguro ser advogado, médico ou professor gerou isso. Mudar esse cenário é um imenso desafio que exigirá uma reforma da educação pela base.

Retomando, os maiores ativos que uma indústria globalizada tem está em suas propriedades (patentes, intelectuais, físicas, patrimoniais etc.), localização e internacionalização. Dito isso, não há saída, a incapacidade que o país tem de desenvolver um campo decente e atrativo para pesquisadores nos coloca extremamente vulneráveis nas disputas internacionais. Creio que este é um investimento crucial para o plano dar certo, garantir que o maior bem que podemos ter é formar profissionais qualificados que se sintam interessados em permanecer vivendo e trabalhando no Brasil.

A fala troncha do Lula tem uma sinceridade intrínseca que aponta pra necessidade de o país formar este corpo intelectual e técnico de qualidade. Infelizmente, isso não se dará pela boa vontade dos grandes mercadores do sistema de educação que insistem em enxugar custos com cursos EAD e desvalorização completa de professores e de centros de pesquisa.

Construir uma política no Mercosul que de prioridade a uma saída de logística para o oceano pacífico, criando alternativa concreta ao canal do Panamá (globalmente falando) e alternativa de massa para alcançar parte significativa da América Latina. Há alguns projetos de ferrovia bioceânica, todos bem difíceis de realizar, porém que não deveríamos abandonar. Ainda mais em um momento em que a logística marítima sofre com a crise global. As tensões do mar vermelho devido às guerras no oriente médio e a seca do canal do Panamá tem gerado altas no preço do frete, o que torna propício quaisquer tentativas de negociar globalmente alternativas.

Ambas as saídas pedem do governo pulso e recursos altos, não são caminhos simples, mas são caminhos que precisam ser iniciados. Um plano de industrialização não nasce da noite para o dia e nem se finda em dois ou quatro anos, precisa de tempo e continuidade. Muito necessário ver isso quando vivemos uma era onde quaisquer intervenções globais, de grande porte de extração e mudança ambiental, pode afetar negativamente a capacidade do planeta existir.

Talvez o maior desafio de todos seja justamente convencer os corpos políticos que pensam o Brasil sob a tábula rasa do arrasa quarteirões a cada quatro anos de que precisamos construir um projeto que dure para mais gerações. Sem isso, ficaremos restritos a liberar apenas recursos primários como moeda de troca interessante para a indústria global, nos mantendo como eternos fornecedores de commodities.

Mapa da ferrocarril santiago-mendonza
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Favela! Uma vitória em meio a muitas lutas.

Importante o IBGE reconhecer a palavra FAVELA, depois de séculos de uso cotidiano do termo. Embora tenhamos um retrato extremamente estereotipado quando ouvimos, pois existem milhares de formas e jeitos de se organizar naquilo que chamamos favela. Por exemplo, reconhecemos lugares como a Cidade de Deus, um bairro formal do Rio onde foram construídos conjuntos habitacionais, como favela.

O peso do termo é a luta pela sobrevivência, pela vida. Para parte da opinião pública, Favela é o lugar onde o Estado tem o direito de matar sem julgamento, é o lugar que não deveria existir, onde parte-se do pressuposto da culpa. A favela incomoda e está certa, ela veio para incomodar mesmo. Não tem como o pobre ter direito a terra nesse país sem incomodar.

De Canudos, o embrião que forja o termo favela, aos Yanomamis, o enfrentamento ultrapassa qualquer tipo de discurso representativo. No Rio de Janeiro, lugar onde o termo favela nasceu, a terra é um elemento central na pauta desde a providência até as máfias que distribuem o poder atual da cidade. A luta pela terra é a história de formação deste país.

O rateio do espaço urbano e do espaço rural entre as forças da elite deste país um crime a humanidade. Sem contar que muitas destas relações são dadas na base da violência, ocupação de áreas de proteção, loteamentos, demarcações de latifúndios. Tudo que estiver no caminho destes caras vai sofrer a violência, legalizada e ilegalizada, armada ou não. O poder ruma todo imbricado nessa gente, verdadeiros caciques que espalham tentáculos em redes de parentesco. Desde as capitanias hereditárias o Brasil é um imenso caso de família. Quem manda aqui são os herdeiros da grilagem, dos privilégios, das corrupções que aumentam suas estruturas de poder. Aos expropriados da própria carne, sobra o sacrifício de se manter em um território forjado na barbárie. Sem a reforma agrária e a reforma urbana, esse país nunca vai ser capaz de construir quaisquer estruturas democráticas diferentes das que estão dadas.

imagem: página Madureira ontem e Hoje, Morro da Serrinha
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Foi um Rio que passou em minha vida

Um dia vou ouvir esta música e talvez não esteja mais nesta terra. Desde tempos de Brasil colônia a Brasil Democracia vivemos num município que sente constante falta de água potável e que, nos anos seguintes (principalmente pós urbanos) é servido com trágicos processos de enchente. A conta não fecha: como podemos não ter água potável em uma cidade que sofre com as cheias de inúmeros rios de água doce?

Matamos duas Baías (Guanabara e Sepetiba) afundamos a pesca, afundamos a vida ribeirinha e balneária. Matamos os portos e a navegabilidade. As bacias do Sarapuí, Meriti, Pavuna, Acari, Irajá, Faria Timbó, Ramos, Carioca, entre outros, muitos cobertos, foram escondidos, outros abandonados. Cada cheia vem o jornal com matérias, povo joga lixo, ninguém liga, a culpa é do morador. Na real é maior que isso, a culpa é de uma cultura que desde os tempos de Cabral 1 não se importou tanto com isso e que impregnou em todos nós que Rio é valão.

Ok, podemos passar pano, o senso de preservação da natureza é recente. Recente para quem? Os originários desta terra, assim como os das terras africanas tinham uma relação divina e transcendente com os rios. Nós perdemos esse carinho em algum momento da história.

Quem já deixou um Bougainville abandonado sabe que a natureza não é moral, ela seguirá livre seu rumo. Se você não foi capaz de navegar com ela, ela pode te derrubar, sendo bonita e violenta ao mesmo tempo. A crise ambiental bate na porta, calor e chuva aqui, frio forte no ártico, temperaturas locais mais extremas e a natureza vai cobrar os erros humanos.

A maior parte do povo, aquele que vê as adutoras do Guandu passarem na porta da casa deles e levar água potável pra zonas abastadas da cidade enquanto eles ficam sem água, acordou alagado pelos rios que também poderiam abastecer suas casas se fossemos um país de projeto político sério.

Mas, sinceramente, cabe ao povo abraçar para si a solução. Se o povo que mais sofre não for capaz de abraçar o seu lugar, os seus rios e tirar ou cobrar na marra a solução para o problema, o futuro dele vai ser a morte, pela cheia ou pela seca. Aqueles que deveriam ter feito e só te visitam depois da tragédia não vão fazer muito além.

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Metrô Linha 2 e a crônica de uma estação ausente

Todo mundo que usa a Linha 2 do Metrô Rio sente uma distância diferente entre Triagem e Maria da Graça. Parece-nos uma viagem maior que entre outras estações.

Isso tem um motivo de ser: entre ambas as estações existe uma ausente, justamente a que atenderia a galera do Jacaré/jacarezinho e adjacências. Confesso que não sei precisar se em algum momento houve o pensamento de instalação e quais os motivos políticos e técnicos levaram a mesma a não rolar, a função principal deste texto não é investigar isso, mas colocar a pulga atrás da orelha.

Enquanto temos bairros na cidade que são servidos por mais de uma estação, chegando a três ou quatro como o é o caso da Tijuca que tem Uruguai, Saens Pena, S. Francisco Xavier e Afonso Pena, temos regiões e bairros que conseguem ver o bonde passar, mas não podem pegar.

Mas isso não é estranho para a vida dos moradores do Jacaré, afinal, todo verão eles sabem que pegar o 474 para chegar na praia não é garantia de uma viagem em paz. Boas-vindas do Rio, esta cidade hospitaleira que recebe o turista de braços abertos é o mesmo onde as forças policiais param um transporte público e decidem quem pode ou não seguir viajando dentro deste. Alegam-se mil motivos como arrastões, assaltos, baderna, todos eles crimes imaginados, visto que as ações policiais ocorrem antes mesmo dos ditos “suspeitos” chegaram à cena do tal crime. Talvez tenhamos desenvolvido algo novo no que tange a política, algo tipicamente carioca, uma espécie de serviço de segurança mediúnico capaz de prever com dose de certeza que quaisquer moradores de um bairro vão fazer algo que não deva ser feito.

Resumindo, o que o poder diz é que este lugar não tem direito a se mover para além de seus limites.

Deixo meu abraço de solidariedade a todos os moradores deste bairro que deveria ter uma estação de metrô e não tem, que deveria ter uma atenção do Estado e não tem, que deveria ter o direito de ir a praia e não pode. Se você tem medo do Jacaré, que bom! É pra temer mesmo do povo que sofre todo dia a violência legalizada do Rio. 

Desejo estar vivo para Ver a GE virar o Parque Jacarezinho e poder chegar lá de metrô descendo na Estação Jacaré.

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A fé que governa o tempo – feliz 2024

Na fé ancestral africana, Iroko é quem governa o tempo. O tempo, esse que corre fugidio das nossas mãos assim como para e finca raízes. No evangelho o tempo é o próprio Cristo nascido, morto e ressuscitado, o tempo no próprio corpo. O tempo que é vida em movimento.

O tempo que nos é surrupiado, o tempo que passa, o tempo que gira e nos faz parecer que sempre há uma chance a mais. Quem melhor fala de tempo nos textos bíblicos provavelmente foi Eclesiastes; Tudo fez formoso em seu tempo; também pôs o mundo no coração do homem (…) Já tenho entendido que não há coisa melhor para eles do que alegrar-se e fazer bem na sua vida (…) O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi. Futuro e passado dizem que olhar para a frente é olhar para os que já estavam.

Nas areias a beira mar, os corpos celebram na fé, lado a lado, o renovo da esperança e o mar a todas as vozes recebe. Pois, nos versos do compositor, “Na beira do mar, o bem, é o mar que carrega com a gente”.

Que neste dia de grande beleza e esperança, ecoe esse pequeno desejo: que a gente recupere o direito ao tempo que nos é roubado, e que vivamos e celebremos o tempo, ou melhor, os muitos tempos que conseguimos viver no tempo. Como o rio que nasce, cresce, se espalha, vira vapor, vira chuva, alimenta terras, desemboca na foz e se transmuta em parte de oceano e parte volta para a nascente. Que a vida seja esse grande ciclo complexo chamado tempo, do qual, nenhum de nós conseguirá assumir a totalidade, pois somos meros grãos de areia na imensidão do universo que a gente respeita e contempla sem precisar ter as rédeas do controle. “Não é sobre o mar que a lua é mais bela? O mar é instável. Como ele é a vida dos homens dos saveiros”.

Mesmo que a vida seja instável, como toda vida é, a gente vai navegando junto, lado a lado, ainda que por fora tudo pareça antagônico, lá no fundo a fé que nos move há de ser a mesma, e já que cito mil poetas, pq não parafrasear mais um e desejar a todos que recebam todas as cores desta vida e todos os sorrisos que puderem sorrir. Feliz 2024.

imagem: umbandistas e pentecostais na praia, ano novo 2024.

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Notre-Dame de Paris, literatura, arquitetura, vida

Uma das mais belas críticas a arquitetura que já li se chama Nodre-Dame de Paris de Victor Hugo. No livro terceiro, quando expõe seu desencanto com os processos de mudança na arquitetura do Templo, ressalta quão nocivos são o tempo, as mudanças políticas coléricas, mas principalmente as modas estéticas decadentes.

“As modas fazem mais mal que as revoluções. Elas dissecaram o vivo, atacaram a medula óssea da arte, (…)” cita o autor. Victor Hugo nos traz nessa obra a importância do valor estético do gótico, do medievo e da vida periférica. Seus principais personagens: A arquitetura, a cigana, a pessoa com deficiência e o arquidiácono. No triângulo trágico da história temos duas pessoas que vivem a margem da sociedade e que passam por uma complexa relação de controle e manipulação do representante da institucionalidade (o livro é imensamente mais amplo que isso, leiam). A arquitetura é valorizada por ser incompleta (como o autor cita) por ser algo que representa uma transição de tempos. O tempo expresso nas rusgas, nas mudanças dos adornos e do altar, são denunciados como uma violência a obra e aos modos de vida da época.

No debate de patrimônio, a obra teve peso após o incêndio que afetou a catedral. Da literatura para a vida, o livro diz: Há algo de valor na arquitetura e na vida marginal, uma ética.

Os pobres, que dão vida e espírito ao lugar (catedral) Quasimodo, cuja falta de beleza e deficiência o torna um pária, traz o amor altruísta e o sacrifício de si, esmeralda, rejeitada por sua condição marginal no povo representa uma liberdade impossível dentro dos cânones sociais e frollo que vê sua moral abalada pelo desejo de possuir o que não tem é o representante do poder em seu eterno conflito. Frollo, o diácono arquiteto da catedral opera obcecado pelo ser-livre da cigana, uma liberdade que só é possível quando nossa existência acontece para além das fronteiras, uma liberdade marginal. É isso que conforma a arquitetura da catedral, entre o espaço construído e o vivído (ainda que vivido nos textos de Victor Hugo).

Com olhar sensível, Victor Hugo torna visível a potencia marginal, os conflitos sociais e o papel da arquitetura nesse entremeio. E nos ensina que preservar arquitetura não é só manter fachada, mas saber como contar a história da nossa existência a partir daquela obra construída.

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Macunaíma, entre identidades e constelação.

Não sou um defensor da busca de identidades, mas sim dos agenciamentos.

Apesar de entender os caminhos pelos quais a busca de uma identidade é utilizada como instrumento de organização social e agregação, minha crítica ao tipo consiste em uma limitação que vejo acontecer por aí: a identidade, após ser definida com acúmulos de signos tende a se cristalizar num dado ponto no tempo.

Veja, boa parte das organizações humanas usou ou usa a identidade como ferramenta. Ao construir uma unidade nacional, a identidade é moldada pra se tentar criar um ser humano tipo representante daquela nação. Assim, por mais que a identidade garanta ao sujeito a estabilidade e contato com seu território (como diz Hall), ela entrava a solução em momentos de crise. Isto é, há momentos na história da vida em que a identidade precisa experimentar rupturas de seus campos seguros e lançar-se diante de um campo de forças e tensões para que algo diferente se faça.

Cristo era Judeu, e na qualidade de Judeu propõe novos parâmetros em uma terra dominada por Roma, a ruptura de Jesus com seus pontos estáveis e de solidez permitiu tanto ao judaísmo perpassar pelas ocupações Romanas, quanto ao monoteísmo cristão (e porque não também árabe) sobrepujar a visão de mundo representada pelo Panteão, este espaço que nada mais é do que uma biblioteca das muitas estruturas identitárias existentes no mundo naquela época.

O que me move são os agenciamentos, e o que quero dizer com isso? Trago aqui um Macunaíma subversivo ou subvertido. Mário de Andrade traz o personagem complexo, contraditório, numa história aberta porém que é muitas vezes traçado pelo senso comum como elemento de uma busca de identidade nacional, a busca da representação do povo brasileiro. Este traço que o senso comum reflete tem sua importância e foi necessário num dado momento histórico para o enfrentamento dos processos de apagamento social e embranquecimento deste país. Porém, Macunaíma se torna resistente e potente na medida em que revela ao Brasil que sua formação é africana, indígena, branca e repleta de muitas entradas e interfaces de luta pela vida.

Por este caminho que penso em Macunaíma. Macunaíma enquanto subversão, enquanto uma chave de agenciamentos. Macunaíma é a potência da constelação, cujo caráter se molda a luta que precisa ser travada pela vida. Um vir a ser Macunaíma é compreender que, dentro de um mesmo espectro de povo brasileiro teremos muitos devires a enfrentar, é compreender que mesmo tendo nascido numa família que não sofre as agruras do racismo você faz parte da galera que sofre com as perseguições da Polícia ao 474 (pois jovens negros da periferia não tem direito de ir a praia sem ser suspeitos de arrastão).

Devolver ao Brasil a sua cara é sermos capazes de retomar os agenciamentos, mesmo os mais contraditórios para avançarmos naquilo que é nosso sofrer comum, a ausência de direitos. E falamos aqui de direitos que só serão conquistados com enfrentamento e luta. Para lutarmos, sejamos Macunaíma em uma explosão de constelação, uma rede de agenciamentos cuja principal característica é sabermos onde estamos fluindo pelo território e sob que perspectivas.

Pois falamos de visões de mundo, de formas de entender e viver o tempo, o espaço e muitos outros caminhos e entradas possíveis. Este texto é parte de uma pesquisa apócrifa, em breve falaremos mais a respeito.

Rodrigo Bertame, rio de janeiro, 17 de setembro de 2023.

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