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Amar a praia: uma lição do meu pai

Meu pai amava a praia de Sepetiba, enquanto eu a considerava sem graça. Preferia jogar bola no Recôncavo, andar de bicicleta com meus amigos, catar fruta no pé na Arealva, pular o rio, e soltar pipa.

Mas um dia, compreendi o amor de meu pai. Me dizia: “Não anda olhando para o chão, moleque, cabeça erguida”. E foi assim que diante da Baía de Sepetiba, levantei a cabeça e a paisagem renasceu. Ver a restinga da Marambaia ao fundo, riscando o horizonte, o pôr do sol, o barulho da marola e das aves, o aroma da maresia, nem lembrei do barro entre a areia e a água.

Nossa segunda praia era o Recreio, na época dos areais, acampando. Recreio é mar arredio, destes que querem ser livres, ou a gente respeita ou ele nos engole. Algumas vezes íamos às praias da Ilha do Governador. Mais velho, já arquiteto, aprendi a amar a Praia das Pedrinhas, mar de pescador, graças ao meu pai que lá atrás disse: “Olha para o horizonte”.

Privatizar praia é o sonho de quem para o 474 numa manhã de domingo e manda os garotos do Jacaré descerem; delírio que diz: “Nossa praia”. Praia é um ser livre, um ente de renovação. Quantos de nós não pulamos as ondas de um ano novo e renovamos nosso pacto com a vida? Aprisionar o mar em políticas privatistas é negar seu sentido libertário. O mar não cabe no bem privado, mal cabe no bem público. O mar é fluxo da vida, berço do imprevisível. Praia, pedacinho de terra que toca a imensidão das correntes, captamos seus valores e significados, a potência para além dos corpos.

Em um mundo que dá claros sinais de que nossa escolha limitante de transformar tudo em recurso cria danos irreversíveis, a lei da praia é fruto de uma visão estreita e obsoleta. Não enxerga a grandiosidade do mar, lança um olhar míope e mesquinho, que aprisiona a praia em cifras, reduzindo-a a um mero balanço financeiro para alguns poucos privilegiados, alheios à complexidade de vida que permeia nosso país.

foto autoral: povo na praia do Flamengo, reveillon
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Aprendendo a Ler o Mundo

Ler e escrever sempre foram partes inseparáveis da minha vida, uma insanidade que me acompanha desde antes mesmo de saber andar. Era como se eu tivesse nascido fazendo isso, confesso que nem lembro como aprendi. No entanto, foi aos 14 anos, em uma aula na ETEJK, que a professora Angela Renata me ensinou a ler jornais.

Angela Renata nos mostrou que cada jornal abre uma janela distinta sobre o dia, informando seus leitores sobre o que considera importante e relevante. Ela nos incentivava a, pelo menos uma vez por semana, ler três tipos diferentes de jornais. Escolhi algumas segundas-feiras, dia que ela sugeriu, e me dedicava à leitura de O Globo, Jornal do Brasil, Jornal do Comércio e O Povo. Afinal, quem nasce nos subúrbios precisa, ao menos, de um “cospe-sangue”.

Esses jornais me abriram os olhos para a diversidade de representações do mundo que coexistem dentro do mesmo mundo. Percebi que cada segmento da população tinha acesso a diferentes tipos de assuntos, moldando sua inserção e ação na vida. Economia, negócios e política eram mais proeminentes para a elite da cidade, enquanto futebol, assaltos e notícias de delegacias eram mais comuns nos jornais consumidos pelos mais pobres. A capa de jornal, exposta nas bancas, era como um meme, gerando um efeito manada no cotidiano. Escrever uma boa manchete é uma arte. Lembro-me de duas capas d’O Povo que ficaram gravadas na minha memória: a primeira, “MATOU A MÃE POR UM GUARANÁ”; a segunda, uma foto centralizada numa página vazia, mostrando apenas uma cabeça sem corpo. O POVO com sua pedagogia da violência nos ensinava a ter medo da vida, enquanto o jornal do comércio ensinava onde o rico deveria investir sua renda.

Hoje, os jornais impressos praticamente desapareceram, mas o ciclo complexo das informações e os parâmetros das janelas que querem nos mostrar continuam firmes. Ler o mundo é estar aberto a todas as janelas às quais temos acesso. Dos jornais, explorei a filosofia, os livros técnico-científicos, as críticas, e ao mesmo tempo, a oralidade dos pontos de ônibus, conversas de calçadas, quintais e praças. Hoje, meu hiperfoco volta à literatura, e aconselho: comecemos pelos clássicos.

autoral: grafite e caneta sobre papel
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Da janela do ônibus

Pego o 350, do centro a irajá, no cair da noite, a viagem é mais vazia.

Das janelas do ônibus, a cidade passa como um filme em cores sépias, distorcido pelo embaçamento sujo dos vidros que balançam sem parar. Todo ônibus suburbano tem um ritmo percussivo de parafusos frouxos, vidros tremulando em ferro, portas rangendo. O ritmo é cortado por um grito: “Vai descer, piloto!”, substituindo o toque da campainha que não funciona. Do lado de fora, a vida passa. Benfica, Manguinhos, Bonsucesso, Olaria, Penha, Brás de Pina, Penha Circular, Vicente, Quitungo, Vila da Penha, a vida passa.

Garotos com suas caixas de som do tamanho de carrinhos de feira conversam, um senhor vende balas, bares abertos, igrejas cheias, jovens sem capacete em suas motos, corpos solitários, corpos conversativos, olhares perdidos. Se Wim Wenders fosse brasileiro, certamente Damiel e Cassiel experimentariam este pitoresco passeio.

Há uma angústia suave na viagem, cada passageiro singular com sua história, suas narrativas mentais, na expectativa ansiosa da chegada ao ponto onde vai descer. Cada rosto, uma história não contada, uma vida em suspense aos olhos de quem observa.

Quando sai da fábrica, o ônibus é apenas uma máquina, um símbolo da evolução capital, um marco de sucesso. Nas ruas, ganha nome, apelido.
Há um evento chamado 350 quando inúmeros corpos adentram ele para tentar chegar a seus destinos. Cada viagem é um teatro de vidas passando pelas janelas, cenas de um filme contínuo e inacabado, projetado nas paredes sujas do ônibus.

O bater das janelas no ritmo desordenado da vida urbana, a curva fechada e o banco solto são um lembrete da nossa fragilidade enquanto seres humanos. Seu centro de gravidade parece feito pra carregar batatas no lugar de gente, é esse o presente para o trabalhador, pros idosos, cada degrau é um Everest. A vida passa lá fora, mas dentro do 350 o tempo parece suspenso, ainda que estejamos em movimento.

Cada parada, um novo cenário, um novo ato. Chego ao destino final, não o do ônibus, mas o meu, avenida Brás de Pina, esquina com a São Félix. O 350 ainda tem mais um pequeno chão pra andar, nada que eu não faria andando.

autoral: passageiro no ônibus

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Sambas e milongas numa birosca da avenida Niévski

autoral: macunaíma e o homem do subterraneo conversando em um bar em Nievski

Em Buenos Aires, procurei uma milonga. Tentei encontrar um canto mais distante dos eixos turísticos possível e, assim, caí num “subúrbio” curioso. O som Era numa padaria (ou algo do tipo) onde, à noite, alguns músicos tocavam, quase como uma roda de amigos, uma JAM. Ali conheci muito da música argentina e ouvi uma hipótese genial.

Um músico virou-se e disse: “O samba e o tango são iguais.” Em espanto, esperei a continuidade, quando veio: “Ambos falamos das mi3rdas das nossas vidas, mas vocês fazem do jeito doido brasileiro, e nós com o Draaama argentino.”

Anos depois, lendo “Memórias do Subterrâneo” de Dostoiévski, lembrei-me dessa frase e uma loucura veio à mente. Numa birosca na Avenida Nievski, dessas que só têm um banheiro quebrado e vendem ovo rosa, sentam-se Macunaíma e um Anônimo saído do subterrâneo. Ao fundo um rádio toca Atahualpa Yupanqui, Nosso herói sem caráter diz: “Quem é você, compadre, que cara fechada é essa?”

“Sou um homem doente e desagradável. E você?” – responde o homem.

Com a inteligência perturbada, deu uma grande gargalhada. “Vim das terras quentes do Brasil, mas me conte, que diabos de doença é essa?”
Estranhando, o homem responde: “Não é uma doença do corpo, mas da alma. Não consegui chegar a nada. Quanto mais consciência eu tenho do belo e sublime, mais me afundo no lodo. Conheço-me a partir da degradação.”

Nosso herói sem caráter, pensativo: “Ai, que preguiça,” aconselha: “Olha, rapaz, lá na minha terra a gente cura disso com banho de rio e uma cachaça.”

autoral: milonga em Buenos Aires

“Mas isso não é uma fuga? Você não vê a miséria do mundo?” retruca o russo.

“Vejo sim, rapaiz, sou dela, mas prefiro rir e despreocupar. A vida tem surpresas, contradições.”

De fuga em fuga, Macunaíma roda o mundo em busca de aventuras. De fuga em fuga, o russo se aprofunda no subterrâneo, num desejo pungente de conhecer a si por sua própria degradação. O dia acaba, ambos desconfortáveis de estar ali. O homem volta para o subsolo, e Macunaíma vira constelação. “Não há nada melhor que a Avenida Nievski, pelo menos em Petersburgo.”

Em Buenos Aires, a milonga segue e realmente concordo: temos maneiras muito distintas de lidar com as nossas mi3rdas de vida.

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