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O Rio é menos Doce no G20

foto de  Fred Loureiro/ Secom ES – original de Brasil de Fato

O Brasil, nesta semana, tornou-se o palco de um dos mais importantes encontros democráticos globais. Ao mesmo tempo, uma série de eventos articula ativistas e entidades da sociedade civil em torno de temas cruciais: governança, justiça social, e uma resposta urgente para a crise ambiental que já ceifa vidas e compromete gerações. Mas é impossível ignorar o paradoxo gritante: enquanto discutimos políticas para um mundo mais justo e ambientalmente seguro, nosso próprio país fecha os olhos para os crimes cometidos por mineradoras que exploram impiedosamente nosso solo, nossos rios e as vidas de comunidades inteiras. 

A abertura do evento coincide, bizarramente, com o julgamento da SAMARCO – uma oportunidade perdida de fazer justiça a centenas de famílias e ao meio ambiente devastado pelo rompimento da barragem em Mariana. Um dos maiores crimes ambientais da nossa história recente expôs as entranhas de um sistema que protege o lucro ao custo do sacrifício de vidas pobres, deixando claro que o país que sedia o G20 não teve coragem de enfrentar o poder desproporcional do extrativismo de sua elite econômica. Milhares de toneladas de lama tóxica varreram o Rio Doce, soterrando sonhos e histórias, em um ato de violência impune contra a natureza, 19 pessoas, e as inúmeras famílias que dependiam do seu lugar para sobreviver. Em Mariana, o rompimento da barragem não só varreu vilas e comunidades, mas expôs, com uma violência gritante, a insensibilidade de um sistema que escolhe proteger o lucro ao custo de vidas. Esse crime ambiental expôs o preço de uma economia servil, que passa por cima dos mais pobres como se fossem descartáveis.

Essa tragédia não é isolada, é uma expressão clara do alinhamento político e classista que molda a realidade nacional. Um parêntese: É preciso que discutamos de maneira técnica e ética a responsabilidade que cabe. Nós, por exemplo, engenheiros, arquitetos, políticos e empresários têm responsabilidade diante de uma violência gerada por nosso erro. A ética profissional, longe de ser apenas individual, deve ser ancorada em uma perspectiva social, onde o “fiz porque fui mandado” deixa de ser uma desculpa para legitimar a destruição. Precisamos urgentemente de uma ética comprometida com o coletivo e com o meio ambiente, uma ética que não seja escrava do mercado. Fechando parênteses, retomemos o debate.

No Brasil, onde o abismo social é marcado pela desigualdade de voz, o G20, especialmente o G20 SOCIAL e o Urban 20, oferece uma chance ímpar de articular as lutas e reconstruir um espaço fragmentado. As discussões, as pautas e as deliberações desses fóruns não podem se limitar ao papel e anais a serem lembrados apenas no encontro seguinte: são um material precioso para reforçarmos a resistência contra os interesses que corroem nosso sistema planetário. Esses fóruns são espaços de luta, e não nos iludamos: sem uma luta efetiva contra o poder econômico e as elites corporativas que ditam as regras neste país, esses encontros se tornam espaços de catarse controlada, onde nossos gritos de justiça são abafados e o mercado continua dominando as decisões, deliberadas entre os donos do poder nos cafés da manhã dos hoteis, nos almoços e  jantares exclusivos. 

Enquanto a SAMARCO segue impune, operando, negociando com prefeituras, contaminando rios e terras, estendendo sua ganância sobre territórios vulneráveis. Outras mineradoras seguem o mesmo caminho, escoradas por uma lógica de mercado que coloca o lucro acima da vida. Esse é o retrato de um Brasil onde as grandes corporações controlam as políticas públicas, desdenhando da vida, da lei e da dignidade do povo. Temos que ser veementes em nossa posição, lutar e articular nossos interesses com força e clareza. Caso contrário, estaremos apenas domesticando nossas consciências, enquanto o poder faz seus acordos nos bastidores.

O G20 chega a um Rio de Janeiro que é vitrine dolorosa das contradições do Brasil. As delegações passam com velocidade pela periferia da cidade, das pistas do aeroporto para os hotéis. Neste Rio, barril de pólvora social, líderes globais tentam encontrar uma saída digna para um futuro que, a cada dia, se torna mais distópico.

É imperativo que transformemos esses fóruns em verdadeiros espaços de ação e resistência! Enquanto queimadas, inundações, fome, guerras e catástrofes climáticas se alastram, somos convocados a transformar os rumos da vida coletiva. A verdade é crua: o mundo mudou, e não há espaço para a inação. Não se trata apenas de uma escolha política, mas de uma necessidade de vida: ou disputamos a política global em todos os seus âmbitos, ou assistimos à destruição do que ainda resta de justo e humano em nossa sociedade.

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Do Trump ao Bolsonaro: Política de Medo e a Ascenção da Era da Inteligência Artificial

A política é um campo das paixões, cujos afetos se constroem, em grande parte, pela linguagem. Seria leviano da minha parte fazer conjecturas definitivas sobre o possível retorno de Trump ao poder. Não falaria em “renascimento”, pois nunca o considerei, digamos, “morto”. O grupo político global ao qual Trump pertence – e é referência – permanece organizado e atuante no sistema contemporâneo. Demonstrando total capacidade de se manter firme em uma rede global.

Embora as redes sociais (muitas vezes taxadas como vilãs) valorizem a polarização e a autorreferência numa busca insólita por reconhecimento individual, não creio que isso explique, por si só, o fracasso do progressismo. Até porque existem redes que não operam nessa lógica, como o Discord, Mastodon, Couchsurfing, Goodreads entre outras. Também considero um exagero atribuir o fenômeno do trumpismo a um conjunto de erros do lado progressista, como se estivéssemos falando de eleições de duas décadas atrás. Prefiro encarar a dura e possível verdade: a pauta de Trump encontra eco nos corações de pessoas muito diversas, em diferentes partes do mundo. Além disso, esses grupos encontraram e aperfeiçoaram as ferramentas de linguagem e comunicação para alcançar esse impacto.

Hoje, em meio a uma mistura de insegurança econômica, mudanças culturais e medo da perda de identidade nacional em um mundo cada vez mais globalizado, abre-se espaço para uma busca desesperada por soluções rápidas e simplistas. É como se quiséssemos frear a Terra para encontrar algum eixo onde possamos ancorá-la.

A retórica de líderes extremistas ou populistas explora o desajuste em relação ao projeto de poder vigente, vendendo esse porto seguro. O modelo de poder articulado em organizações de representação (partidos, instituições, movimentos sociais, raciais, de gênero etc.) parece esbarrar em uma limitação: seu funcionamento exige a criação de uma máscara standard de imagem, capaz de gerar dados para políticas públicas com algum alcance expressivo. Contudo, a padronização, em uma sociedade tão complexa como a nossa, torna-se inviável atualmente. As ações afirmativas, por exemplo, atingem um teto estrutural: jovens cotistas, formados, que não encontram empregos dignos e precisam se lançar no empreendedorismo de sobrevivência, acabam esbarrando nos mitos do “self-made man”, encontrando ali algum tipo de referência para suas vidas.

Diante de um progressismo que não garante a completude da segurança psicológica e encontra limitações, o trumpismo, putinismo assim como o bolsonarismo no Brasil, trazem uma receita fácil para tempos de medo. Sugerem um inimigo comum – mesmo que mal definido –, seguido de um desejo coletivo: unir a nação, sermos “um só povo”, buscar a “grandeza”. Esse desejo, porém, carece de consistência prática, e aí paramos, pois não há soluções, apenas a retórica e a guerra para manter o inimigo comum vivaz nos corações apaixonados por um líder caricato.

Sugiro aqui, o retorno à linguagem como tema. “Palavras têm poder”, já dizia o profeta… ou talvez tenha sido minha avó, durante a infância. Uma das grandes viradas de chave em 68 foi a percepção das mudanças sociais: onde estavam os desencaixados no mundo polarizado pela guerra fria? Os desajustados? Essa discussão, sei, já está batida, porém ainda não solucionada. Somada a ela reside minha nova preocupação: os avanços da inteligência artificial podem concentrar ainda mais o poder político e econômico nas mãos de um pequeno grupo de pessoas ou corporações que controlam os dados e a tecnologia.

O paradigma da IA traz uma transformação radical na forma de acumulação de poder e exploração do capital, em contraste com o modelo de produção industrial. Antes, o capital dependia diretamente da força de trabalho humano; agora, a IA reduz essa dependência ao automatizar tarefas e dispensar a intervenção humana em diversas etapas produtivas. Grandes corporações e governos acumulam esses recursos, monopolizando os meios de produção e elevando a concentração de riqueza a níveis jamais vistos.

Essa mudança aprofunda o controle social e psicológico, com algoritmos que monitoram e manipulam preferências, criando uma nova “mais-valia comportamental”. A IA explora desejos e comportamentos de consumo, ampliando o lucro de forma indireta ao influenciar escolhas e subjetividades. O mercado de trabalho também sofre um impacto estrutural: o desemprego cresce com a substituição de trabalhadores por automação, e os empregos restantes tendem a ser mais precarizados, sem os direitos e o poder de organização típicos da era industrial. E a sobrevivência, o empreendedorismo real, torna-se a fusão completa de vida-trabalho-consumo, onde o made-yourself é a auto exploração e objetificação de si mesmo. Resta a humanidade que vive da sua força de trabalho, se auto vender enquanto objeto, retroalimentando as grandes plataformas que geram lucro. Seu novo trabalho nesta indústria é ser o próprio produto final vendido por ela.

Resistir às práticas exploratórias torna-se cada vez mais difícil.

Com a dissociação entre valor e trabalho, o paradigma da IA rompe o ciclo de reprodução do capital como o entendemos. A acumulação de riqueza continua sem a necessidade de redistribuir valor por meio de salários, uma vez que o capital pode ser reproduzido por máquinas e algoritmos. O capital, assim, torna-se menos dependente do trabalho humano, o que amplia as desigualdades e centraliza ainda mais o poder sobre a vida social e política. A IA impõe um desequilíbrio profundo ao sistema capitalista, redefinindo as bases da exploração e o papel da força de trabalho na sociedade.

Estamos diante de uma luta algorítmica que passa pela linguagem. Não é sensato pensar que a interface da IA ou das redes sociais seja um mero processo de manipulação; acredito que o maior desafio é perceber que elas criam camadas de existência relacional. Interfaces, mundos dentro de mundos. São novos territórios que se sobrepõem e se aproveitam do fato de que o espaço virtual, diferente do real, é infinitamente expansível em dimensões possíveis.

Hoje, as redes sociais permitem que os desencontrados e descontentes encontrem seus pares para dialogar e se organizar. Um jovem imigrante palestino, por exemplo, que não se sente representado pelas políticas de guerra do partido democrata, pode buscar apoio online. Mesmo que esse partido financie a guerra de Israel, ele acaba escolhendo Trump – alguém que, ironicamente, poderia deportá-lo para o centro do conflito, sem frear as ações israelenses. No entanto, em um futuro próximo, a IA poderá ir além: ela será capaz de criar personas virtuais que simulam uma presença real nesses debates.

Conclusão

Diante de um mundo repleto de inseguranças de futuro, surge um processo extremamente concentrador. A evolução de uma mais-valia comportamental, que já era prenunciada pela turma de maio de 68, capturada pelas redes algorítmicas trazem à tona um controle constante e  sutil sobre a exploração da vida. Ampliando o controle psicológico por meio de tecnologias cada vez mais intrusivas.

A ameaça iminente é de um aumento das desigualdades estruturais e da concentração de poder nas mãos de corporações e elites políticas, tendo a IA como ocorrência desse processo. Ao redefinir as bases do trabalho e da acumulação, estamos testemunhando um desequilíbrio que pode alterar de forma irreversível a sociedade, reforçando uma natureza paradoxal do progresso tecnológico.

Precisamos retomar a linguagem como pauta e construir a premissa ética sobre a automatização do mundo e o controle algorítmico, enquanto os avanços estão acontecendo. Este novo controle da linguagem nos permitirá organizar minimamente um futuro de segurança no tecido social e econômico da Terra.

Nestas semanas onde o Rio prepara-se para receber o G20 cabe a nós ter este tipo de debate na pauta. A democratização do kernel, a abertura dos códigos e a disputa urgente do direito a esta nova linguagem.

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Policrise e desigualdade social: emergência de uma politica global complexa

Lendo o relatório “Global Economic Prospects – June 2024”. Ele revela os desafios econômicos globais e a crescente disparidade entre economias desenvolvidas e em desenvolvimento, destacando a necessidade urgente de uma abordagem coordenada e inclusiva para reduzir as desigualdades econômicas e sociais que se aprofundaram após a pandemia de COVID-19. O relatório aponta que o crescimento global projetado de 2,6% para 2024 demonstra um ritmo insuficiente para transformar significativamente as condições de vida em muitos países em desenvolvimento. Essa diferença acentua as dificuldades enfrentadas pelas economias pobres, que, apesar de abrigarem a maior parte da população mundial, encontram barreiras para atingir um desenvolvimento econômico sustentável, mantendo a desigualdade historicamente parametrizada.

A persistência das desigualdades é notável, com quase metade dos países em desenvolvimento sem perspectivas de reduzir a disparidade de renda em relação às economias avançadas até 2024. Essa situação reforça o constante ciclo de pobreza e dificulta investimentos em setores essenciais, como saúde, educação e infraestrutura, que são fundamentais para o desenvolvimento humano e a melhoria da qualidade de vida. Em meio a isso, é importante enfatizar o papel do investimento público como um motor de crescimento e inclusão econômica, especialmente em países pobres, onde a infraestrutura básica ainda é uma necessidade que precisa ser universalizada. No entanto, a eficácia desses investimentos esbarra na falta de uma gestão pública eficiente e transparente, algo comum nas economias mais vulneráveis, onde a má alocação de recursos, disputas ideológicas sem planejamento e a busca do poder pelo poder perpetuam o status de subdesenvolvimento.

Adicionalmente, vemos no mundo de hoje uma vulnerabilidade em redes de muitas entradas, desde pequenos estados e economias em conflito até povos que enfrentam desastres naturais cada vez mais frequentes, fruto das mudanças climáticas, além do surgimento de ciclos de pobreza e de crises endêmicas cada vez mais recorrentes.

O conceito de policrise surge como um destaque interessante, apontando que essas crises não devem mais ser lidas de forma isolada, mas, ao contrário, se entrelaçam, gerando efeitos multiplicadores que evidenciam e potencializam a vulnerabilidade dos sistemas globais. Esse entendimento sistêmico é essencial para lidar com crises que se reforçam mutuamente, como a pandemia, as guerras e as mudanças climáticas, que, ao interagirem, amplificam problemas como a inflação global, a insegurança alimentar e a instabilidade geopolítica.

Os mecanismos sistêmicos contemporâneos demonstram como uma crise pode desencadear outras em uma sequência que foge ao controle, criando ciclos de deterioração coletiva. Diante disso, as respostas tradicionais de política, focadas em problemas isolados e em uma visão especializada, são insuficientes para lidar com a profundidade e a complexidade das crises atuais.

Para piorar, cerca de 40% dos estados pobres estão sob elevado risco de crise de dívida, limitando suas capacidades de investir em áreas críticas. A situação desses países evidencia a necessidade de apoio internacional, tanto para garantir a estabilidade financeira quanto para fortalecer sua adaptação às mudanças enfrentadas pelo planeta. Nesse contexto, a cooperação internacional deveria assumir a responsabilidade de mitigar desigualdades, promover a transição para uma economia mais verde e digital e reforçar a segurança alimentar como um direito à dignidade humana e à vida. No entanto, as tensões geopolíticas e a fragmentação das políticas comerciais dificultam a implementação de uma agenda global colaborativa. Resumindo: diante de momentos de crise, uma parte gigante dos poderes globais age como: “se o peixe é pouco, meu pirão primeiro”. Um entendimento tolo que não percebe que o problema do outro também é um problema nosso.

Sugerimos a urgência de políticas de longo prazo que priorizem a inclusão social, a redução da pobreza e o desenvolvimento sustentável para alcançar um crescimento mais equitativo. Esse é um sonho de inúmeros intelectuais, políticos sérios e agentes diversos no planeta. Um diferencial diante disso é que as políticas precisam considerar a interconectividade das crises e buscar soluções integradas, abordando simultaneamente todas as vulnerabilidades dos sistemas globais. Isso significa, por exemplo, que a formulação de políticas climáticas, além de mitigar emissões, precisa ser capaz de enfrentar os impactos sociais e econômicos das mudanças climáticas. A insistência em soluções fragmentadas tende a perpetuar ciclos de crises mal resolvidas, levando à repetição de problemas em uma escala e intensidade cada vez maiores.

Quando pensamos nas políticas de redes complexas como uma possibilidade de resposta à crise, podemos considerar que essas políticas representam um caminho para lidar com os muitos problemas contemporâneos, propondo uma governança que considere as múltiplas camadas de desafios. Integrar diferentes frentes de ação e fomentar uma cooperação mais ampla entre nações pode ser uma chave para atenuar os impactos das crises e construir uma base de resposta global. Assim, a reflexão que surge é: como estruturar políticas de redes complexas que sejam efetivas em um cenário de incerteza e fragmentação global? A resposta a essa questão não parece simples, mas pode delinear o futuro das relações internacionais e do desenvolvimento econômico sustentável, buscando um equilíbrio entre progresso e inclusão social em um mundo cada vez mais interconectado.

Foto-montagem: Zeca Pagodinho discursando sobrea vida na ONU.
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Do Lamento da Ciência Solitária ao Êxtase do Abraço Coletivo

Tomo a liberdade de remixar um termo citado por Darcy Ribeiro em uma entrevista para refletir sobre a ciência e seu papel na sociedade. A ciência enfraquece quando se torna o território dos “cavalos de santo” da intelectualidade.

O campo acadêmico e científico é um dos pilares mais promissores da estrutura social contemporânea. Talvez o melhor investimento que a humanidade possa fazer esteja naqueles que se dedicam à experimentação, à pesquisa e ao desenvolvimento. Esses indivíduos arriscam-se no terreno das hipóteses, buscando inovações que transformam o mundo. Contudo, esse campo encontra-se hoje estruturado sob uma lógica de exploração e alienação, refletindo a organização de todo o sistema econômico. Se antes reverenciávamos a intelectualidade, como quem presta tributo a uma divindade, hoje nos deparamos com cientistas altamente precarizados, dedicando praticamente 24 horas por dia a seus projetos, enquanto enfrentam depressão, burnout e crises financeiras.

A realidade é dura: sem desmerecer outras profissões, eu, Rodrigo, com meu diploma de técnico em elétrica, consigo um emprego com um salário superior ao de uma bolsa de doutorado, e de forma relativamente confortável.

No entanto, não pretendo me aprofundar aqui na crise material, pois ela caminha ao lado de outra, ainda mais complexa e subjetiva. Um paradoxo emerge: a ciência e a produção de conhecimento são, por natureza, processos coletivos, contínuos e sem fronteiras. Contudo, o exercício científico, quando organizado como um sistema de produção formal, tornou-se altamente competitivo, individualista e solitário.

As publicações científicas, hoje, perecem ao valorizar mais o rigor da formatação, a citação de autores consagrados e a quantidade de títulos acadêmicos do que os resultados verdadeiramente inovadores e de impacto social relevante. Esses artigos são revisados por pares, em processos lentos e custosos, que muitas vezes limitam o acesso aos próprios resultados da pesquisa. A ciência se perdeu naquilo que criticava: tornou-se hermética, o território de poucos iluminados. A quantidade vale mais que a qualidade, e o furto de trabalhos, ideias e dados é uma constante, um verdadeiro campo minado. A ciência, que deveria ser um empreendimento coletivo, compartilhado entre aqueles que se dedicam ao seu avanço, foi reduzida a uma luta solitária por financiamento e reconhecimento. Nesse contexto, muitas vezes falta a abertura para o diálogo e a colaboração entre pares, assim como a coragem para assumir riscos e explorar caminhos menos convencionais.

autoria própria: Stephen Hawking e o Pequeno Príncipe conversando sobre o universo

Produzir conhecimento, por sua vez, é algo que fazemos continuamente. O maior desafio do indivíduo é ter a coragem de se lançar ao risco, diante de um sistema que aprisiona e formata a vida científica. Para além das universidades e dos centros de pesquisa, há saberes que nascem nas comunidades tradicionais, nas práticas cotidianas, nas trocas entre trabalhadores e em movimentos sociais que enfrentam desafios locais com soluções criativas. Esses conhecimentos têm suas próprias metodologias e princípios, muitas vezes transmitidos oralmente ou por práticas de convivência, como é o caso do conhecimento de povos indígenas sobre o manejo sustentável da terra ou das experiências comunitárias de cooperativas urbanas.

A estrutura científica contemporânea alcança resultados, mas, para isso, limita a existência da vida ao não se permitir costurar a trama dos muitos estímulos sensoriais que ritualizam a experiência humana na Terra. Falta à ciência o toque fino na vida e no outro, algo comum aos poetas, aos esotéricos, às culturas mais tradicionais.

O reconhecimento acadêmico desses saberes ainda é limitado. Muitas vezes, o que não se adequa aos rigorosos critérios de validação científica acaba sendo subvalorizado ou considerado anedótico, mesmo quando essas práticas trazem respostas concretas para problemas ambientais, sociais e econômicos. Rezadeiras, cartomantes, yogues tântricos, praticantes de tai chi, meditação e herbalistas são desconsiderados como parte da formação do saber.

É justamente nesse ponto que surge a necessidade urgente de reimaginar a ciência como um espaço de liberdade intelectual, onde o risco e a colaboração estejam no centro. Reimaginar a ciência significa, também, resgatar a noção de que o conhecimento científico não é um fim em si mesmo, mas um meio para melhorar a vida das pessoas, construir soluções coletivas e responder às crises que atravessamos enquanto sociedade global. Significa criar espaços em que cientistas possam trabalhar sem a sombra constante da precarização e da pressão por métricas de impacto. A experiência da pandemia de COVID-19 mostrou o valor de esforços colaborativos, como as coalizões internacionais para desenvolvimento de vacinas, demonstrando que, diante de grandes desafios, a união de esforços e a abertura de dados podem gerar avanços rápidos e transformadores.

É fundamental também repensar os critérios de avaliação científica, valorizando a qualidade do impacto social dos projetos e o compromisso com questões urgentes da população mundial fragilizada. Importa menos os santos da ciência, e muito mais os dispositivos que eles trazem e as formas como os utilizamos.

O próximo salto está aí, a meu ver: construir uma ciência aberta ao diálogo, ao risco e ao compartilhamento de saberes, onde a criatividade possa florescer. Com esses passos, talvez possamos resgatar a esperança de que a ciência, em sua diversidade, possa novamente ser um território de construção de um mundo mais justo para todos. Fazemos ciência nas conversas de bar, nas trocas cotidianas e na observação dos momentos simples de prazer e boas risadas.

No encontro entre o saber acadêmico e os conhecimentos que emergem dos povos, há um toque sutil, como um fluxo que pulsa entre a racionalidade e a intuição, tal como a respiração que conecta os corpos ao espírito. A ciência, ao abrir-se para esse toque, transcende seus recalques e mergulha num campo onde cada descoberta se torna um ato libertário de entrega, de diálogo com o desconhecido.

Ali, dissolve-se o ego sofrido do pesquisador isolado, dando lugar ao movimento coletivo, onde o risco é uma forma de êxtase e a colaboração entrelaça razão e sentimento. Assim, a ciência pode se transformar num espaço relacional, onde cada troca expande os limites da compreensão, ecoando um desejo profundo de alcançar e tocar, mesmo que de leve, a pulsação da vida real.

viva o SUS!!

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