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Precisamos amar e ser temidos!

A disputa pelo simbólico não vai construir sozinha a saída da crise nacional.

Ontem caminhando na rua tive o prazer de conhecer uma música gospel cuja letra dizia:

“Não toque nos profetas do senhor
E nem fale mal do seu ministério
Pois quem toca nos ungidos do senhor
Pode acabar no cemitério”

Por um lado, as forças à esquerda se encastelaram e se auto fagocitar nos mesmos espaços de militância que quase não tem representação e vivem sendo disputadas a ferro e fogo por burocratas. Por outro, as forças mais conservadoras avançaram bruscamente por anos e anos em estruturas capilares de comunicação e contato popular (rádios, TVs, jornais, centros cívicos e de sociabilidade, etc).

Na disputa simbólica nacional, a hegemonia sempre esteve com os lados mais conservadores. A visão que o povo tem de comunismo por exemplo foi bem definida nas escolas militares da ditadura e disseminada pelos mais diversos meios de comunicação de massa. Esta mesma visão muitas vezes pauta inclusive os movimentos de esquerda (liberais e comunistas) que assumem para si um conjunto de signos identitários comunistas estereotipados pelas forças conservadoras, e assumem de forma acrítica quaisquer narrativas.

As forças mais conservadoras avançaram bruscamente por anos e anos em estruturas capilares de comunicação e contato popular (rádios, TVs, jornais, centros cívicos e de sociabilidade etc.). Por um lado, as forças à esquerda se encastelaram e se auto fagocitam nos mesmos espaços de militância que quase não tem mais representação embora vivam sendo disputadas a ferro e fogo por burocratas.

Lembremos, o Brasil é um país sem um projeto nacional de educação de base e que nunca construiu uma lógica de pensamento livre e crítico a partir das massas populares. Somos um dos países da América Latina que menos lê e que menos entende de sua própria história.

Armas no Brasil não estão conectadas a um desejo de direito civil como nos EUA, a guerras internacionais ou a morte, elas se conectam com o senso comum pelo sentido de proteção e defesa individual e familiar. Seja a proteção que se crê pela institucionalidade das forças militares, seja no sentido de defesa pessoal ou até mesmo conquista de status e poder. O militarismo (em todas as suas vertentes, inclusive a paramilitar) é uma das principais portas de seguridade social e ascensão dos mais pobres.

Por estas brechas, o conservadorismo construiu sua narrativa em meio a degradação de todos os sistemas públicos existentes. Hospitais não funcionam, educação precarizada, previdência social derretida, mas o militarismo segue firme e forte. Nossa base material frágil garante aos grupamentos armados este tipo de poder.  É preciso uma compreensão extra! As discussões antiviolência não funcionam tão bem no Brasil contemporâneo, por ser um país onde parte gigante do seu povo relativiza a violência. Esta já nos é familiar.

A eleição do Bolsonaro foi um banho de água fria em quem acreditava que o povo poderia escolher livros ao invés de armas. Como fazer tal escolha em um país onde o prazer da leitura é escasso e vemos fuzis em cada esquina? Por mais que pareça insano, percebemos que boa parte dos brasileiros não se importa com o aumento do armamentismo. Precisamos entender que tal discurso é dizer que devemos escolher entre aquilo que a maioria nunca teve um acesso decente com algo que lhes é tão familiar que já não temem.

O Deus cristão é também o Deus da espada, que levará ao cemitério quem tocar no ungido dele. Esta narrativa ganha espaço no povo que vive a materialidade de um país onde a violência se tornou naturalizada no dia a dia. Não será fugindo da realidade que vamos fazer renascer o Brasil, precisamos sim elevar nossa discussão de projeto de nação para além disso. Vocês têm armas? Ok, nós não teremos medo de encarar vocês de peito aberto e na mão! Vamos com a cara e a coragem reconstruir tudo que der para reconstruir do chão deste povo.

Ano a ano a esquerda taxou tudo e todos que eram sua oposição como fascistas, ao mesmo tempo em que governava lado a lado com o ovo da serpente (Crivelas e IURDs, Pastor Everaldo, os muitos acordos e composições com a escória política nas cidades de interior). Fazemos campanha estereotipada de fascismo neste país onde sequer estudamos a fundo o que foi o momento histórico e o levante das forças fascio. Soma-se a isso o fato de que o Brasil é um país onde os micros fascismos habitam emaranhados na sociedade.

Se ilude quem acredita que as eleições vão resolver o país, que simplesmente recuperar o controle do governo vai resolver. Se ilude também quem crê que o maniqueísmo sobre o armamentismo vai angariar votos. Esta eleição está fadada ao risco da incredulidade, perdeu-se o bonde da história quando a indignação popular que começava a crescer nas ruas diante do desarranjo na lida com a pandemia foi silenciado em nome de um: Tiraremos Bolsonaro nas urnas. Agora as urnas chegaram e as ruas estão vazias. Vivemos o volume morto da despolitização e da confusão entre fazer marketing e fazer política.

Entendam de uma vez: o grosso do povo brasileiro não gosta de políticos frágeis, o povo espera alguém que tenha peito e coragem de enfrentar. Este marketing o Bolsonaro faz, por mais que ele seja um covarde e um incapaz de gerir qualquer coisa (como bem se mostrou seu mandato) se vende como o ex-militar capacitado de acabar com a corrupção do centrão. Porém sua demagogia caiu por terra, a corrupção está aí e nada foi construído neste país além dela.

Aqui cabe aquele chavão máximo de Maquiavel: ser amado ou ser temido? E a resposta que acredito para tal: Sejamos amados por quem tiver a fim de nos amar, estes que venham conosco, mas acima de tudo sejamos temidos pelo bolsonarismo!

O bolsonarismo e o conservadorismo tolera em parte os indivíduos que compõem as minorias, mas temem a capacidade destas se organizarem. Não importa se gostamos ou não do Lula, do PT, do PSDB, de quem quer que seja, o que nos importa é: Ninguém mais vai poder se sentir corajoso de meter o bico do fuzil apontado para quaisquer de nós que sejam, porque a organização a partir de agora tem que ser temida. O medo que a classe média começa a sentir nesta eleição já é vivido por qualquer um que milita e faz campanha nos subúrbios, baixadas, periferias deste país a muito tempo.

A discussão não é mais a identidade, a representação ou o levante do protagonismo por dentro do sistema. A pauta principal é resolver as arestas materiais que trazem mais sofrimento, dificuldade de emprego e renda, dificuldade de se manter estudando, discrepâncias salariais, entre outros.

O povo tem fome, não tem mais tempo de ter medo, então fica o recado aos que militam, mas nunca passaram fome: não tenhamos medo! Nada gera mais pânico ao bolsonarismo (em todas as suas faces) do que um povo que encara esta escória miliciana. O bolsonarismo já está pronto para ir as ruas questionar as urnas, e as massas de esquerda farão o que? Seguirão encasteladas em seus aparelhos na esperança e fiança de um judiciário que só tem legitimidade para meia dúzia da classe média e da elite?

O que o Brasil precisa mesmo é aposentar estes modelos de disputa e se debruçar na construção social do seu projeto de país inserido no mundo. Precisamos redesenhar o nosso campo produtivo, fomentar um projeto factível de reestruturação da infraestrutura material: indústrias, logísticas, manejo ambiental, habitação de massa repensada pelo direito a morar e não pela financeirização, criar mecanismos de combate à fome e miséria e remontar a educação de base para que me 12 anos tenhamos uma nova geração forte e capaz de produzir uma sociedade muito melhor.

Segue sendo nossa maior vergonha termos um sistema educacional onde: aos mais pobres é destinado a degradação do sistema de educação pública, a classe média em geral seguirá as escolas privadas de ensino também frágil, mas com lógica de clube e festa para se manterem atraentes para os estudantes e meia dúzia de escolas de ponta onde serão formados os filhos da elite desta nação. Tentamos debater democracia sem sequer sairmos completamente da visão de mundo aristocrática. Uma educação emancipadora e revolucionária seria aquela capaz de dar ao povo as ferramentas de construção e sistematização de saberes científicos e de gerar crítica concreta.

Este Brasil só é possível de construir a partir da ampla organização popular, algo que perdure para além das disputas dadas. Muitos ungidos do Senhor estão neste momento passando fome e sofrendo das mesmas violências cotidianas que os LGBTQ+ ou os povos originários, enquanto o Bolsonaro e seus asseclas comem picanha a R$1799,00 mil e setecentos e noventa e nove reais o quilo, nada diferente do que Cabral estava consumindo na cadeia.

Não nos iludamos! Não há saída possível sem passarmos pela retomada das ruas, independente do que as ruas construam, e por um trabalho árduo que caminhe para além dos processos eleitorais, isso é o que impõe o medo e o respeito diante dos poderes dados. O povo em sua incógnita de descrença que segue tentando encontrar os caminhos para a melhora material de suas vidas não é mais um alienado ou um agente passivo ao que está dado.

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Reflexão sobre o processo de refração dos coletivos e identidades

É possível pensarmos que as formas de organização coletivas que se tornaram um modelo padrão nas últimas décadas esteja chegando em um momento de refração.

Já é notável que, de alguns anos para cá este modelo foi perdendo sua autonomia como forma de resistência e sendo capturado pelo sistema do capital, seja pela ferramenta de fomentos financeiros, seja pela atração do trabalho para dentro do modelo de mercado, os coletivos foram ganhando cada vez mais um tom de pequenas e micro-empresas (mesmo sem ser). Esta queda, que acabou por criar relações de competição entre grupos, e afastamento de muitos que buscavam nestes uma linha de fuga, ajudou a desmobilizar possíveis redes com capilaridade e capacidade de produzir outras formas de vivência, de distribuição de força de trabalho, de fazer política.

Além deste, a organização em coletivos que se encontra capturada pelo sistema de poder, acaba por viver em si mesma, presa na necessidade da própria sobrevivência, como quaisquer brasileiros que não tem capital ou herança. Mas a questão dada é: o que fazer diante disso?

Se não se consegue mais retirar os coletivos e similares do sistema, pois os mesmos precisam dos parcos recursos fornecidos pelo sistema, e ao mesmo tempo não podemos mais contestar este sistema pelo risco de ser isolado do acesso aos parcos recursos, fica a questão: Como retomar caminhos de mobilização para além deste?

Da mesma forma caminha a questão das lutas identitárias. Não é nas pautas que caminha o problema, mas na forma como muitos grupos acabaram caindo no controle deste mesmo capital, que por necessidade de recursos pra sobreviver, caíram no fluxo tradicional e não conseguem mais ter força para traçar um contrafluxo ou uma saída alternativa ao mesmo.

Cada vez mais entendo que devamos disputar a sociedade orgânica, aquela que não está organizada mas é capaz de construir sua sobrevivência apesar da escassez. Esta sociedade não precisa se entender por uma identidade necessariamente, mas muitas das vezes por uma enunciação coletiva. Num dado momento vizinhos que se odeiam podem construir um laço tático de saída de um confronto maior. Vizinhos que nunca se falam não precisam deixar um ao outro passar fome, essa é a questão.

Entendo que esta disputa também não se dará por círculos de coletivos organizados, mas por entendermos o modelo de funcionamento social dos mais pobres ao mesmo tempo em que estruturamos uma saída social e econômica de massa, um projeto amplo de emancipação nacional.

Hoje as alas mais progressistas seguem perdidas em si mesmas, transformou-se o Ser de Esquerda em uma identidade que representa tudo aquilo que é bom. Uma leitura essencialista que nem o Marx em sua fase filosófica (como um dos filósofos da suspeita) ou os existencialistas e percursores das teorias em torno das minorias e identidades pensariam. Possivelmente um Marx em 2022 estaria escrevendo altas críticas a este bloco e se dedicando a ler os principais pensadores sociais e econômicos dos mais diversos campos e lidas.

Precisamos antes de mais nada aceitar quem somos: um país complexo, com pouco estudo, cuja base política se funda a partir das forças militares e oligárquicas, de bases religiosas fortes e cujo progressismo e conservadorismo disputam intensamente uma classe média. Boa parte da nossa esquerda nunca leu Marx a fundo e boa parte da nossa direita também nunca leu seus autores de fundação e citação a fundo. O que temos em maior força parece sempre ser o senso comum. Enquanto isso os mais pobres lutam por sua sobrevivência e buscam o acalanto nas mais diversas formas de expressão e espaços que sobram (sejam igrejas, botequins, rodas de vizinho, etc).

Pensar este tipo de projeto no Brasil é um enfrentamento difícil e delicado, visto nossa política ser tradicionalmente um campo de projetos de curta distância e tábulas rasas sobre projetos passados. O Brasil, enquanto país das dimensões e complexidades que tem, não pode se dar ao luxo de viver rateado por meia dúzia de famílias e eminencias pardas do poder cuja linhagem pode ser traçada desde sua origem.

É por esta complexidade que precisamos pesar nosso caminho. Que projeto de Brasil queremos e precisamos? Não bastará dizer aos céus: Somos a Esquerda, somos o lado certo da história! Todos aqueles que no Rio de Janeiro por exemplo viram as remoções para as obras olímpicas e da copa das copas, todos que viram sua casa cair com a pichação SMH tocada pelo maior partido de esquerda do país a época, não considerarão este o lado bom da história. O teleférico parado do Alemão é uma obra dessa esquerda que está sempre no lado bom da história, e quem está fora da bolha sabe que boa parte da recessão do país vem daí.

O Brasil quer uma saída disso e nisso, é preciso entender que muitos dos que votaram em Bolsonaro em 2018 sabiam o que era o Bolsonaro e aceitaram o risco social. Foi uma escolha também do povo, este mesmo povo que só se ferra na história e que várias vezes é taxado por memes como culpado. Não foi culpa, foi desespero, desespero de inúmeras pessoas que aceitavam qualquer coisa por alguma mudança. A burrice desta esquerda que ama desesperadamente os espaços de poder é que, no auge de sua arrogância segue sendo a melhor das opções sem sequer sentar com este povo para traçar um caminho comum e popular, segue apregoada entre os seus na busca do caminho certo da história sem construir uma alternativa a si mesma que não seja o retorno ao passado.

Porém diante disso fica a pergunta de Nietsche: “Você viveria sua vida mais uma vez e outra, e assim eternamente?” ao qual, a maioria dos brasileiros, cansados e exaustos do peso da vida, do peso da pobreza e das dores nas articulações dificilmente responderiam um sim. Como seremos capazes de construir um país que nunca foi construído? com acesso a educação de base universal e de qualidade a todos os brasileiros, quando veremos um arranjo político capaz de produzir um planejamento viável de se executar para os próximos 10 ou 20 anos? sob quais ferramentas seremos capazes de reconstruir o Estado a ponto de dar os direitos básicos da existência da vida aos mais pobres?

Da mesma forma, quando vamos ser capazes de aprender com os mais pobres que as lutas da vida não cabem nas caixinhas pré-formuladas que tanto travaram os coletivos e muitos grupamentos que tentam lutar por um mundo melhor?

Cada vez mais creio que os novos caminhos passarão por isso: Um projeto nacional viável, somado a capacidade de compreender e estarmos junto nas redes mais orgânicas da sociedade. Só por aí seremos capazes de combater o niilismo político em que estamos e o cansaço na busca da construção de novos valores éticos que sejam capazes de repactuar nossa sociedade. Não é simples, e não há saída concreta seja pelo retorno ao passado onírico ou expectativa de um futuro que nunca vem. A saída estará na capacidade de trazermos resposta coerente para resolver este presente material em que estamos assentados.

criança de bicicleta em via expressa do BRT
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Sobre a complexidade dos Subúrbios segregados

Desde a mudança da organização administrativa da cidade do Rio que dividiu a cidade por Áreas de Planejamento e Regiões Administrativas e as legislações vigentes se deram rua a rua, o termo Subúrbio não cabe na lógica formal do planejamento e da administração pública. Ele porém segue pairando no ar como uma enunciação coletiva.

A cidade segregada se deu durante anos por conta de expropriação de tributos de determinadas zonas da cidade e de uma escolha clara de como se daria a distribuição espacial deste território. Assim, as administrações vigentes atuaram de modo a privilegiar um lado específico que seria destinado aos mais ricos e grande parte da classe média. Expropriação esta, que por sua vez nunca foi corrigida por nenhum governo.

Hoje, a melhor expressão de Subúrbios é muito menos territorial e muito mais sob modos de fazer do povo. A construção de laços dos mais diversos. Parte da sociedade organizada em torno desta enunciação busca um caminho de costura e reconstrução do que seria esta identidade. A identidade por sua vez nunca dará conta da complexidade e das dinâmicas populares que giram em torno do sentido de ser ou não ser suburbano no Rio de Janeiro.

Boa parte da pujança e do imaginário se constituiu por algumas políticas de Estado. Escolas públicas, habitação de interesse social, eventos cívicos, o Varguismo teve um papel importante nesta construção. Soma-se a isso a enorme resistência dos povos negros, sempre preteridos e vilipendiados na sociedade, são eles que constroem em seus terreiros, aquilombamentos e barracões o mundo do samba, do funk, da soul music, dos encontros na escassez e da fé. Os Subúrbios são um amálgama disso tudo e muito mais.

Se a relação da cidade formal com a favela é de medo e terror, onde o que separa a favela da cidade formal é que é aceitável pelo sistema o direito do Estado matar na favela e de tratar seus moradores como não cidadãos, nos bairros dos subúrbios que não são considerados favela é dado a invisibilidade e a captura pelo exotismo. Assim, passa ano e sai ano, e cada administração pública usa de uma lógica específica para tentar capturar o discurso e amarrar em torno de uma identidade passível de ser controlada.

As décadas de 70, 80 e 90 levaram os moradores de regiões ditas suburbanas a migrar para uma emergente Barra da Tijuca onde os modos de vida e cultura deste novo modelo de cidade eram vendidos diariamente. Quem viveu estes anos se lembrará de como era matéria dos principais programas de estilo de vida as idas de jogadores e artistas a churrascarias e restaurantes, como era legal o jogador de futebol faltar o treino pra bater um futvolei na praia e muitas outras referências. Enquanto isso, no território onde muitas destes nasceram e se iniciaram, o que vingava eram os bailes. Dentre eles, um modelo ganhou força e ajudou ainda mais a segregar a cidade, os Bailes de Corredor. Os Bailes de Corredor mudaram muito a forma como o adolescente curtia a festa e vivia a própria cidade, pois alimentava um bairrismo combativo. Em pouco tempo, jovens passaram a frequentar festas de outros bairros apenas no intento da disputa.

A beira disso, também nestes anos, explodem o modelo evangélico neo-petencostal Macedos e Malafaias como grandes expoentes, mas este modelo não pode ter essa leitura simplista. O neopetencostalismo opera muito menos por meio do texto escrito, de uma liturgia organizada e centralizada, e muito mais pela experiência pessoal de transcendência. A forma de fé cresce por sua simplicidade organizativa, basta uma liderança capaz de produzir contato com o transcendente e ali poderia se fazer um círculo de oração, um ponto ou até mesmo uma igreja.

Ao definir o adversário a partir de qualquer um que não professe a fé, o petencostes por sua vez acaba que promove um movimento silencioso e silenciador. O fiel não deve se misturar ao mundo, deve produzir a si mesmo e estar junto com os seus (a igreja) num laço de santidade. Para o neopetencostal, o outro tende a ser um desagregado que leva a vida influenciada pelo adversário. A situação piora diante de outras crenças, em especial as crenças de matriz africana, onde aí sim quem as professa é visto como um profeta do adversário. Este tipo de signo constrói boa parte do campo de fé suburbano hoje em dia, de fortalecimento social e caminhos de coletividade. Dali levantam-se muitas lideranças, e outras muitas ainda se aproveitam para usar deste sistema como palanque. Mas ainda assim é preciso nos aprofundarmos nas relações e nos sombreamentos, pois uma profetiza neopetencostal em um círculo de oração está muito mais próxima dos modos de viver de uma benzedeira ou mãe de santo do que de um Silas Malafaia da vida.

Ainda assim, é curiosa a relação de conflitos que apesar de parecer maniqueísta, muitas das vezes passa por um relativismo. Quantas não são as famílias suburbanas que tem sentado na mesa um filho que trabalha para a polícia (uma das possibilidades de emprego e saída pra vida do pobre) e um filho que vive de dinheiro da contravenção? Mas nossas formas de entender certos signos sempre serão outras.

Quando a gente é pobre pra valer a gente vem forjado na violência, no palavrão, no papo reto, e na ação visceral. Quem tem fome precisa ser visceral pra sobreviver, mas também é solidário. A gente aprende a lidar com os signos de forma diferente, a lidar com o senso de justiça de forma diferente, pq a vida violenta a gente.

A vida violenta quando todos parecem amigos, mas uma mudança simples no recorte de classe deixa claro quem está num ciclo abaixo da pobreza, violenta quando as coisas e lugares que frequentamos são preteridos ou esquecidos na história. É violento quando alguém tem medo do seu lugar, da sua rua, do seu lote. É assim que a gente é criado, isso traz signos pra gente lidar com a vida.

O projeto de poder dos que conseguem gerir o sistema (mega empresas, governos, ricos, investidores, etc) envolve a manutenção de um modelo inspirado em uma certa classe média modelo. Não há um traço político concreto que seja realmente popular e massificado, capaz de interpretar os signos e criar uma política de estado em torno deles. O trabalho feito é capturar tudo que pode, gerenciar as vozes e interlocutores dissonantes por meio de inúmeros sistemas de controle social (como a lei da vadiagem por exemplo).

É assim que por exemplo, não há nenhum projeto significativo de planejamento de recomposição da cidade formal que gere pólos de interesse pra classe média reocupar os subúrbios cariocas. Ao mesmo tempo, há interesse do poder imobiliário (entre outros) em movimentar parte de sua economia nestes territórios hoje bastante esvaziados reconfigurando-o como espaços do modelo padrão de consumo da classe média (a forma condominial apelidado de barra da tijucanização por exemplo).

Por outro viés, parte dos modos de fazer e cultura que tanto manteve o povo vivo em tempos de escassez e do esquecimento político é traduzido e adequado para ser digerido e palatável a parte da classe média que tensiona ou entende o peso da desigualdade. Porém tudo é escolha, exemplos: ao invés de por pra frente uma política de revitalização dos centros de bairro a partir de seus cinemas de rua, a política de cinema de rua escolhe um cinema de um bairro específico, revitaliza e considera este um pelo todo. Assim que tudo é feito, escolhem-se alguns bairros e trazem alguns melhoramentos estruturais coletivos nestes e fazem o um ser a representação do todo.

Não é simples trabalhar com o sentido dos Subúrbios no seu espectro mais complexo sem lermos sob a ótica de suas reais narrativas que são duras. A beleza dos subúrbios está nesse olhar total que passa inclusive pelo que nos parece assustador e gostaríamos de esconder, assim como o Clóvis que pode esconder por trás de sua máscara o mais engraçado ou o mais temido dos seus vizinhos.

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Casas de vó e um design do cotidiano

O campo da arquitetura de interiores e design de interiores possui uma dinâmica acentuada no que diz respeito a tendências, modas, novidades tecnológicas entre outros. Em geral, seus postulados acabam por definir o que é elegante e o que está cafona, o que é belo e o que é feio em um determinado recorte de tempo e espaço. O que chega para as massas consumidoras, vindo de revistas e magazines especializados, blogs, propagandas e até programas de TV cujo eixo central é a reforma de uma casa ou compartimento, reflete este universo sob o qual gira o campo de trabalho de reforma de interiores, e por sua vez alimenta a rede social de desejos.

Quem não quer ter a casa bonita e aconchegante? Precisamos porém, lembrar que, a beleza tem história, e seus signos são construídos no tempo. Para tanto, é necessário desconstruirmos o sentido de beleza condicionada ao exclusivo, a itens de difícil acesso que por sua vez, acabam sendo um instrumento de poder.

Um exemplo: As tão desejadas casinhas brancas de Mykonos tem sua estética determinada pela mesma técnica de pintura que hoje em dia marca uma enormidade de casas mais populares do Brasil, a caiação. Aquele mesmo azul e branco que remete uma memória de rua de avó, de vizinho pintando calçada ou tronco de árvore (não faça isso).

Quintal de vó – por: Rafael Jardim – link: https://flic.kr/p/BNUfU

Aconchego é um termo que se associa a acolhimento, a afeto. É possível termos cantos de afeto e ao mesmo tempo belos? Entendo que sim, se formos capazes de desnaturalizar a noção de belo relacionado a elementos externos ao afeto, ao acolhimento. É por este prisma que gostaria de apresentar as casas suburbanas como uma possibilidade real de beleza, a beleza de uma decoração construída historicamente pelas condições de possibilidades e pelos afetos inseridos no habitar.

Entre as inúmeras coisas que casas de subúrbios e populares nos ensinam, uma delas é que cada peça de decoração pode ser escolhida e concebida por fatores dos mais distintos que vão desde a utilidade até o humor. Dos populares filtros de barro, hoje considerado um dos mais eficientes e ecológicos filtros, até as fotos de família na estante ou parede, cada detalhe reflete um pouco de história ou causo da vida dos que habitam aquele lugar. A harmonia da casa está na organicidade da relação objeto, espaço e tempo, muito mais do que no arranjo de formas, paletas de cores, estilos, materiais.

Você pode ter um aparador mais modernoso comprado em uma loja especializada em móveis com design, e por em cima as fotos de formatura do filho em uma moldura adquirida na Praça 2. Talvez isso não pareça caber nos cânones de quem escreve o “bom design de interiores” mas isso cabe na história de sua família que teve naquele filho o primeiro membro de gerações a ter um curso superior. Filho este cuja avó poderia ter sido uma escravizada que seguiu sobrevivendo semianalfabeta. A foto é uma conquista e o aparador uma mesa expositiva. Não tem quadro de milhões do Romero Britto ou Mondrian que faria mais sentido apoiado naquele aparador do que aquela foto.

Da mesma forma, esta possibilidade não cabe numa estética pastiche ou forçada. O item aparece lá sem imposição regrada, pois a regra não é o item, mas a capacidade deste acolher, simbolizar, representar um valor que seja para os que ali estão. Um pé de amendoeira que cresceu contigo, um pedaço de memória solidificado num ferro velho, uma ferramenta que pertenceu ao seu avô, ainda que hoje já não pareça ser eficiente, a mesa comprada a duras custas naquela loja de móveis do bairro que praticamente nem existe mais. Tem história no quadro decorativo de autoria anônima vendida na loja de conveniências, uma história que não saberemos de uma ou algumas mãos que produziram a peça, talvez em linha industrial, talvez manufaturada, tem a história de trabalhadores comuns que vivem seu cotidiano e que nunca saberão que sua costura ou sua pintura estarão expostos em uma parede em Olaria.

Outra questão importante de posicionarmos é o humor. Por que não falar de peças de decoração que se propõem interessantes pelo lúdico e diversão? uma luminária feita com algum pedaço inusitado de automóvel, abridor em forma de pênis ou cadeira que servirá para fazer uma pegadinha com algum parente no dia do churrasco. Itens que se enquadram nesta busca parecem um conjunto de inutilidades. Estes itens por sua vez buscam uma relação de sociabilidade própria, com base na diversão, no fazer graça com o próximo, muitos destes itens tem vida efêmera, outros permanecerão sempre a postos para gerar o riso de uma visita de primeira viagem.

As casas tem destas coisas, um misto de casa com oficina, onde a mesa de estudos da criança é uma mesa velha de botequim que fica armada na varanda e que seus avós bebem a tarde contando causos à sombra da mangueira. Onde o pote de sorvete ou a lata de tinta servem como apoio para o labor do plantio das mudas que logo virarão belas árvores no quintal, onde pelo menos um dos quartos quase nunca fica arrumado e nada parece combinar com nada, mas no dia a dia tudo parece ter um sentido.

Assim como há uma espacialidade e arquitetura do cotidiano, podemos dizer que há um design do cotidiano já consolidado cujos elementos merecem e devem ser valorizados. Saber observar os itens, enxergar seu sentido histórico para aquele ambiente, e saber compor com ele muitas das vezes nos permitirá criar resultados tão belos quanto quaisquer desenhos de interiores produzidos usando peças de marcas tradicionais do ramo.

Casas de vó são casas repletas de afetos e reminiscências que habitam num cantinho especial em nossa mente, muitas das lembranças sequer refletem o que era a casa real, e muito do que amamos em nossas lembranças podem representar a peça mais efêmera que existia. Peças que talvez, no desejo de nossas avós, elas sonhavam em trocar todo dia por uma da moda mas não conseguiam porque não tinham dinheiro.

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DOS SUBÚRBIOS ROMANTIZADOS ONDE VIVEM OS BONS SELVAGENS

No Rio de Janeiro segregado e desigual, o suburbano é aquele que, através de um olhar tático sobre a vida tenta resistir as intempéries das escolhas políticas extremamente desiguais que comportam esta cidade. Se outrora os Subúrbios foram um intermeio entre o urbano e o rural, hoje podemos refletir sobre o mesmo termo ser um intermeio entre o a parte aceita da cidade e a favela.

Algo importante a dizer, quando falamos em favela, em subúrbio, em urbis, o que está em pauta não é a morfologia, a distância periferia-centro ou outros. O eixo principal é a forma de organizar e distribuir socialmente o povo e os recursos do território. Neste sentido podemos traçar por exemplo que: Favela, é o território onde o Estado considera legitimo matar, com anuência da opinião pública. Independente de seu traçado urbano é um território excluído dos mais básicos direitos civis como acesso a moradia, saneamento, transporte, direito, lazer, cultura.

Quando se fala em Subúrbios, o que temos é uma fusão das condições da parte aceita da cidade com a parte que a cidade não quer. Falamos sobre territórios de grande ambiguidade e discrepâncias intraurbanas. Uma distribuição de bairros de classe média a bairros mais pobres, alguns pequenos núcleos melhor estruturados comercialmente e imensos vazios urbanos negligenciados. A violência explícita que incide sobre as Favelas, não incide de mesma forma sobre os lugares que se denominam Subúrbios. Nestes a violência social se organiza de forma mais implícita, em geral pelo descaso. Ambos porém, enfrentam o viés da precariedade socioeconômica da vida como elo comum. São muitos aprofundamentos que já foram trazidos em alguns textos aqui e que continuaremos a trazer em mais textos logo a frente.

O recorte que queremos trazer neste momento consiste nos riscos da romantização. Entre as inúmeras formas de resistência social, a busca de um Subúrbio Ideal é uma delas. Esta busca não consiste apenas na reminiscência saudosista do uso da rua, das pipas, das cadeiras de quintal, ela também incide na própria construção de um sentido de identidade. Tentamos encontrar um sentido único e definido de Subúrbio, seja pela auto concepção na busca de um sentido unificado cultural que o defina, seja na busca de um perfil suburbano tipo, um padrão de referência que dê distinção ao personagem. A questão é: como unificar em torno de um sentido toda a complexidade de relações, muitas das vezes hiper contraditórias? Como traçar uma identidade suburbana que trate como iguais por exemplo os moradores da Tijuca, do Méier e do Cesarão?

As tentativas de identidade acabam por abarcar um certo nicho ou grupamento cultural com o qual consegue traçar uma linha que guie a narrativa e manter invisíveis um oceano de multiplicidades e de outras narrativas reais que coexistem com estes. O samba por exemplo, por toda sua capacidade de se capilarizar nos espaços dos territórios suburbanos apesar do status quo do projeto de nação vigente, consegue fazer um bom papel nesta costura. Porém o samba tem seu reconhecimento neste papel hoje, depois de décadas de perseguição policial e criminalização. Como pensar as casinhas coloniais, arquitetura referência de uma política de Estado que buscou nas inspirações neocoloniais (remetendo às cortes portuguesas) os signos de sua estética, pertencem ao mesmo corpo de símbolos identitários que o samba duramente perseguido por ser negro?

Um dos meios mais simples de tentar unificar consiste no não aprofundamento das questões, mantendo-as na superfície sem explorar ou dar voz aos contradições. Algo muito bem trabalhado por exemplo pelo marketing, onde até o slogan mais vazio de significado como por exemplo “coca cola é isso aí” vira uma máquina de sucesso.

Os riscos desse processo é que: sem aprofundamento, temos muita dificuldade de romper com a estrutura de segregação que conforma o território, além do imenso risco de criação e manutenção de estereótipos. E este é um ponto crucial. Para seguirmos em frente precisamos lembrar que, quem tem o poder de comando do território é quem define as políticas sobre ele.

Embora o Rio viva grandes avanços, em especial através da cultura onde os intelectuais orgânicos brotam dos subúrbios, favelas e baixadas de geração em geração, estes esbarram nos limites de quem detém o poder. E são estes donos do poder que tem a capacidade de captar as narrativas e escrever de forma mais massificada conforme lhes interessa. E é assim que por exemplo um problema do subúrbio ou favela que a elite não quer resolver se transforma em exemplos individuais de superação, ainda que o protagonista do exemplo só esteja tentando manter sua família minimamente viva.

O poder, como um ente representante da civilização, consegue por um braço manter o território sob controle e por outro braço criam a narrativa romantizada em torno dessa má qualidade. Não precisa, portanto, dar cabo de resolver as questões estruturais que garantam qualidade de vida a todos os munícipes. Ainda mais nefasto, conseguem transformar esta romantização da pobreza em mercadoria ou evento. Nesta manutenção da segregação, os suburbanos ou favelados são constantemente tratados (até pelos mais progressistas) como o Bom Selvagem de Rousseau. Talvez como um meio inconsciente de se eximir da responsabilidade de dar a este cidadão o direito a experimentar dos mesmos valores e hábitos que são destinados às partes mais burguesas da cidade pela estrutura material.

Uma frase do filósofo Wallace Lopez que sempre me diverte ao ouvir em suas palestras: “A Regina Casé gosta da favela, mas não mora na favela”. É importante termos esta consciência política e social. Romantizamos que o morador da Zona Sul não consegue apreciar o futebol suburbano, o nosso botequim o nosso futebol de domingo.

O importante, porém, é entendermos que qualquer morador dos territórios abastados pode dirigir seus automóveis até o futebol ou pegar as duas conduções necessárias para ir de uma Gávea a Olaria por exemplo, mas nem todo morador de Olaria que joga o futebol terá o dinheiro pra ir a um teatro na Gávea. Fora que, muitos moradores suburbanos sequer terão o direito de pisar numa praia sem serem taxados como marginais. Direito a cidade é também sobre isso, e não há romantismo que faça isso ser costurado com facilidade.

Assim a cidade do Rio de Janeiro segue se construindo pelos mesmos donos da bola (e do campo) embora muitas vezes mude a cor da embalagem. Cabe a nós buscar a fundo compreender como este mecanismo de controle se dá.

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O SUBURBANO VAI À PRAIA

Um tipo corriqueiro de notícia acontece em todas as proximidades de verão: a disputa da cidade pelo direito de uso e frequência da praia. Quando observamos no decorrer do tempo, percebemos que este movimento não constitui fatos puramente locais ou um casos isolados. O que se constrói mesmo é um organização simbólica da praia como um direito de todos os cidadãos. O Rio conhecido como cidade balneário, apesar de ter assassinado suas duas baías, define o controle social, todos os cidadãos podem utilizar da praia mediante uma certa forma de se ser e se portar, mas o principal é que ao invés da praia ser entendida como pertencente a todos os cidadãos ela é entendida como pertencente aos moradores do bairro.

O texto abaixo foi um fragmento da dissertação defendida: Rizomas Suburbanos: possíveis ressignificações do topônimo Subúrbio Carioca através dos afetos de 2015, mais precisamente nas páginas 67 a 69. Segue o fragmento na íntegra:


Quando falamos de Subúrbios Cariocas e disputas territoriais, percebemos que a ida à praia representa notório conflito na cidade. Fazemos uma ressalva de que problematizar e se aprofundar nas questões associadas ao uso e apropriação da praia exigiria outra pesquisa. O que demonstramos aqui é como as subjetividades podem ser traçadas a pela imprensa e que discursos são ditos com isso, ou ficam marcados através disso. Neste ponto, levantamos algumas notícias de jornais datadas entre os anos de 1969 e 1991 que nos remete a estes conflitos.

Algumas notícias de jornais:

Ida à praia nos Subúrbios é uma excursão e uma aventura.
A maioria dos suburbanos passa a semana de olho no boletim meteorológico,
planejando nos mínimos detalhes um banho de mar e uma praia no fim de
semana, junto com a mulher e os filhos. (…) Sete ou oito horas da manhã, eis
o suburbano desembarcado com mulher, filhos e mochila na praia de Ramos,
onde a condução para a volta é mais fácil ou nas outras na ilha do governador
após enfrentar uma fila maior nos terminais de coletivos (…). Atravessar a
praia de volta foi a mesma coisa da chegada(…)Na Avenida Brasil a confusão
era total. Motoristas de taxi brigando com seus colegas das Kombi(…). As filas
de ônibus intermináveis (…) Novos protestos, mais empurrões e recomeça a
luta por um lugar no coletivo(…)finalmente chega em casa(…)ele, com o corpo
ainda pegajoso da água suja do mar, as costas ardendo das queimaduras do
sol, resolve tomar uma cerveja no boteco da esquina e contar aos amigos as
suas extraordinárias aventuras na praia (O GLOBO 06 de janeiro de 1969).

Zona Norte terá em janeiro novos caminhos para a Barra – Na
primeira quinzena de janeiro estará bastante facilitado o acesso as praias da
Barra da Tijuca, principalmente para os moradores da Zona Norte e dos
Subúrbios(…) (O GLOBO, 11 de dezembro de 1972).

Depois da praia, na Barra, a difícil volta aos Subúrbios – (…) equipados
com pedaços de pau e até mesmo uma barra de ferro, inspetores e motoristas
realizavam a difícil tarefa de empurrar o maior número de banhistas para
dentro dos ônibus (…). As empresas só sabem reclamar, mas não colocam
mais ônibus para o subúrbio. O que acontece é isso aí: os banhistas ficam
irritados e terminam tumultuando o embarque e a viagem. Na entrada, perto
da descida do viaduto que liga a Barra ao túnel do Joá, mais de uma centena
de passageiros se aglomerava no ponto de parada, mas poucos conseguiam
embarcar(…) (O GLOBO 17 de novembro de 1975).

Praia da Urca: um sufoco em todo fim de semana: – Para moradores,
verdadeiro transtorno: Alguns moradores da Urca estão revoltados com o que
eles consideram uma verdadeira invasão suburbana que toma conta do bairro
durante os fins de semana. (…) Iasmim se queixa dos problemas causados
pelos suburbanos. – Eles fazem parte de um outro nível de pessoas com as
quais não queremos conviver (…). Os moradores da Urca são tradicionais e
não gostam de se misturar. Não sou contra os suburbanos, mas acho que
deveria haver um espaço delimitado para eles. (…) O número de suburbanos
é enorme e o clima muda completamente. A praia fica cheia de uma gente
esquisita, que deixa uma sujeira incrível. (…) a maioria dos moradores se sente
“roubada” no seu espaço (O GLOBO 03 de fevereiro de 1987).

A viagem dos surfistas do subúrbio – Moram perto da praia, mas estão
há uma hora e meia das areias da Zona Sul. Perto do mar e longe das ondas,
eles são os surfistas do subúrbio, que de ônibus ou de carona viajam mais de
20 quilômetros para chegar à Barra da Tijuca e esquecerem da poluída e calma
praia de Ramos. (…) (O GLOBO 17 de fevereiro de 1991).


Quando lemos os relatos das idas e vindas, não importando a data, aparecem questões similares que envolvem problemas de mobilidade urbana e estranhamentos sociais. O primeiro relato de ida à praia que encontramos cita as praias suburbanas balneáveis de Ramos e da Ilha do Governador (que na notícia de 1991 já se apresentam poluídas). Segundo as reportagens, a ida à praia é ao mesmo tempo “excursão”, “viagem” e “uma aventura suburbana” para os que vem dos Subúrbios, e uma “invasão suburbana” para os que são da Zona Sul. Isso não quer dizer que há um antagonismo direto, haja vista que uma notícia se refere à ida às praias suburbanas e outra à ida às praias da Zona Sul, sem contar no distanciamento temporal que as separa.


É interessante notar que o personagem principal – “o suburbano” – em todas as notícias é visto de um ponto de vista externo, reforçando a experiência do exótico. Aqui, o suburbano se assemelha muito ao estereótipo estampado na charge de 1916. O suburbano é este anônimo que leva a família para ficar o dia inteiro na praia, sofre para conseguir condução, mas que embora chegue em casa com “o corpo ainda pegajoso”, decide parar no botequim para contar suas desventuras.


As notícias de 1972 e 1975 se correlacionam tanto no tempo como no espaço, se por um lado, em 1972, era apresentado com vislumbre a abertura da Barra da Tijuca à Zona Norte e Subúrbios, a notícia de 1975 contradiz o resultado proposto ao demonstrar que os mesmos problemas de acesso da praia aos Subúrbios, relacionados à mobilidade urbana, ainda persistiam.


A questão da falta de estrutura urbana para suportar tal movimento já tradicional nos verões da cidade é sutilmente disfarçada nos jornais como um problema do usuário, no caso o suburbano. Com isso, subvertem-se as propostas populares, de forma que a falta de transporte para atender a demanda não seja vista como um problema para a parte “não suburbana” do conflito, mas sim como uma solução plausível.


Assim, cortar transporte público se tornaria um meio de garantir a “delimitação de um espaço próprio para eles”, que na condição de “gente esquisita”, são parte de “outro nível de pessoas” com as quais “não se quer viver”, e que estes, apesar de morarem “perto da praia” (Ramos e Ilha do Governador), precisam andar “uma hora e meia para atingir as areias da Zona Sul”.


Entendemos que há um peso pejorativo na questão do suburbano quando este tenta se deslocar do território. Ainda que a praia seja um espaço público direito de todo cidadão, o suburbano é tratado pela imprensa como aquele que não deveria estar lá. Isso se reflete em diversas desconfianças urbanas, onde projetos como o Piscinão de Ramos ou o Parque Madureira são interpretados como um meio de afastar o suburbano da praia e imobilizá-lo em seu território. Citamos aqui uma notícia49 recente sobre a inauguração da praia do Parque Madureira:

(…) se a natureza não facilitou a vida dos moradores da Zona Norte — e a ida à orla pode ficar mais complicada com a diminuição das linhas de ônibus para a Zona Sul —, a solução deve surgir como um presente do Dia das Crianças (O GLOBO, 16 de setembro de 2015).

Elucidamos que há um potencial processo de captura das significações da praia. Ao observarmos os dados da extensão de praias na cidade, temos que as praias que vão da Glória até Grumari possuem 39,53km, enquanto as praias municipais referentes à Zona Norte, Baía de Sepetiba e Ilha de Paquetá somariam 44,82km de extensão, conforme dados levantados no IPP. Podemos constatar, portanto, que seria um mito relacionar os Subúrbios Cariocas a lugares sem praia, assim como sem privilégios naturais.


Importante notar também como esta subjetividade colabora com a estratégia de uso não balneável das duas baías da cidade do Rio, Baía de Sepetiba e Baía de Guanabara.


O Rio de Janeiro tem o privilégio raro de ser uma cidade banhada por duas baías, cujas políticas historicamente as negaram. Ambas foram utilizadas como fundo, porta de serviço da cidade, hoje seguem poluídas, mesmo após Rio 92, Rio +20, Rio Olímpico, Rio Capital Mundial da Arquitetura. Assim, segue o descaso e a marca da segregação urbana na qual nos inserimos.

Praia de Sepetiba 1970 – arquivo nacional extraída de : https://saibahistoria.blogspot.com/2018/06/o-rio-comeca-em-sepetiba.html

imagem destaque, fonte: https://www.facebook.com/Coreto-de-Sepetiba-Rj-668294449888034

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BREVE REFLEXÃO SOBRE A ESTÉTICA E O DESENCONTRO ENTRE ARQUITETURA E SOCIEDADE

Um de meus primeiros contatos no campo de estudo da estética, ainda na faculdade de arquitetura, envolveu disciplinas de estudo da forma e expressão gráfica. Em minha formação por sua vez, tais estudos sempre se embasaram em uma visão de mundo greco-romana (uma das visões mães da Belas Artes).

Embora o modernismo, pensamento que estruturou boa parte do início de minha formação, tenha proposto uma ruptura às Belas Artes, sua base filosófica ainda pairava no mesmo ambiente de estudo da forma ideal pela forma real, proporções áureas, uma certa harmonia estética que era ascética e hermética pro todo da sociedade. Esta base seguiu escola a dentro pensando projetos de arquitetura onde a pessoa não estava em um plano claro, e a condição financeira também não. Enquanto isso, o mundo aqui fora, no lugar vivido seguia construindo, a seu modo, com seus referenciais e suas condições de possibilidades. Estudávamos lajes planas enquanto pro povo o luxo era um belo telhado colonial das mansões da Casa Cláudia. Continuar a ler

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Breve Reflexão sobre Estética e o Desencontro entre Arquitetura e Sociedade

Um dos meus primeiros contatos com o campo da estética, ainda na faculdade de arquitetura, veio pelas disciplinas de estudo da forma e de expressão gráfica. Na minha formação, esses estudos quase sempre se apoiavam numa visão de mundo greco-romana, uma das matrizes das Belas Artes.

Mesmo quando o modernismo, que estruturou boa parte do início do meu percurso, proclamava ruptura com as Belas Artes, sua filosofia continuava orbitando o mesmo céu. A ideia de forma ideal, as proporções áureas, a promessa de uma harmonia estética ascética e hermética, como se servisse ao todo da sociedade. Essa base atravessou a escola e moldou projetos em que a pessoa raramente estava em primeiro plano, e a condição financeira, menos ainda. Enquanto isso, aqui fora, no chão do vivido, o mundo seguia construindo do seu jeito, com seus referenciais e seu campo real de possibilidades. Estudávamos lajes planas, quando para o povo o luxo era um telhado colonial, aquele sonho de capa de revista, tipo Casa Cláudia.

Mas, para não me perder, o desencaixe principal estava na própria base da formação. Pensávamos a vida por um viés de transcendência. Primeiro vem o projeto, emergindo como tentativa de semelhança com um mundo perfeito, no campo das ideias. O projeto segue seu rumo até que se dê a obra, sempre icônica, porque, nesse imaginário, a arquitetura não pode ser simulacro.

Só que a vida real não cabe nesse enquadramento. Ela acontece o tempo inteiro, processo atrás de processo. A arquitetura é acontecimento do espaço, concebido e vivido, e é aí que o sentido anterior não fecha. Quando retiramos a arquitetura desse campo transcendente e a trazemos para a experiência viva, o que se abre é justamente a discussão estética. Não existe mais uma boa e uma má arquitetura em si mesmas. Existem caminhos distintos por onde pensamos e operamos o espaço e o tempo da vida. A arquitetura segue o devir. Movimento permanente, criativo, transformador.

Essa diferença é decisiva quando queremos compreender como profissionais de arquitetura podem adentrar o universo da autoprodução do espaço construído. Na autoprodução, o essencial não é tanto o fim da obra, nem o resultado épico de um projeto. O que sustenta tudo é a possibilidade constante de adequação ao momento e ao modo de vida. Um filho que nasce é um quarto que se levanta. Um filho que casa é uma laje que vira novo lar.

É nesse encaixe que um pensar ético e estético da arquitetura pode encontrar talvez o caminho mais democrático de construção da espacialidade. Nós, humanidade, já organizávamos o espaço muito antes dos traços gregos, antes da sistematização das sequências de Fibonacci, antes de Imhotep. No início dessa virada, precisamos redesenhar a visão de mundo. Estar abertos a uma leitura transformadora da vida, onde a contradição e o movimento de ida e volta estejam diante de nós. Precisamos afrouxar o apego ao caminho moral do saber, a caça pela boa forma, pelo bom olhar, e nos permitir dialogar com os muitos olhares que montam e moldam a realidade. Fibonacci, afinal, é uma redução útil, não um altar. Ajuda a ler uma parte, mas não dá conta da complexidade quase infinita das formas da existência.

Se a nossa categoria conseguiu sistematizar o campo técnico-científico via universidades, a espécie humana organiza, por uma longa rede de oralidade, as trocas que operam na autoprodução. Gente que aprende desde pequeno com pais, avôs e bisavôs, que fizeram de tudo, de bibocas e palafitas a pontes, aterros, aberturas de túneis e até palacetes.

À medida que nos imbuímos dessa experiência e soltamos as amarras da busca icônica, começamos a entender. É explorando ao máximo a contradição e o diálogo entre o técnico-científico e o saber do lugar que podemos elevar, de fato, a qualidade espacial do mundo em que vivemos.

No fundo, a crise do saber técnico na arquitetura fala menos de perda e mais de urgência. Romper com certos modos atuais de fazer e de compreender o que é arquitetura, e recompor esse campo a partir dos processos reais de existência e dos valores que atravessam a sociedade de hoje.

 

 

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MONUMENTALIDADE DE PATRIMÔNIO: o que o incêndio ao monumento de Borba Gato nos diz.

Não vou alongar muitos argumentos sobre a questão do monumento aqui. Mas vou tirar um texto específico do saber técnico-científico do campo da arquitetura pra comentar a respeito da questão de patrimônio, monumento, preservação.

Partindo do texto: os 9 Nove pontos sobre a monumentalidade escritos por José Luiz sert, Frenand Léger e SIefried Giedion.
Seu primeiro ponto traz:
\”Monumentos são marcos que o Homem criou como símbolos dos seus ideais, dos seus desejos, das suas ações. São concebidos para sobreviver ao período que lhes deu origem e constituem uma herança para as gerações futuras. Como tal formam um elo entre o passado e o futuro\”.
No seu terceiro ponto lembra:

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Monumentalidade e Patrimônio: O que o incêndio ao monumento de Borba Gato nos diz.

Não vou alongar muitos argumentos sobre a questão do monumento aqui. Mas vou tirar um texto específico do saber técnico-científico do campo da arquitetura pra comentar a respeito da questão de patrimônio, monumento, preservação.

Partindo do texto: os 9 Nove pontos sobre a monumentalidade escritos por José Luiz sert, Frenand Léger e SIefried Giedion.
Seu primeiro ponto traz:
\”Monumentos são marcos que o Homem criou como símbolos dos seus ideais, dos seus desejos, das suas ações. São concebidos para sobreviver ao período que lhes deu origem e constituem uma herança para as gerações futuras. Como tal formam um elo entre o passado e o futuro\”.
No seu terceiro ponto lembra:
\”Qualquer época do passado que tenha desenvolvido uma verdadeira vida cultural tinha o poder e a capacidade para criar estes símbolos\”.
Então, o que há e comum entre a comoção em torno do ato de incendiar a estátua de Borba Gato e o descaso com o patrimônio material das regiões periféricas deste país?
O simples recorte histórico de uma sociedade que ainda mantém os modelos elitistas de formação deste país como ícones de valor e ideais.
Lembro-me de uma cena marco do Filme Adeus Lenin, quando a estátua de Lenin é retirada e o jovem protagonista vivencia ali o clímax a demarcação simbólica do fim da Alemanha oriental. (vale ver o filme).
Mas saindo do cinema e vindo pra vida. Ao incendiar a estátua, o que parte da população diz é: não compactuamos mais com os ideais que sustentam de pé estes monumentos. Isso é como Moisés descendo do monte com os Dez Mandamentos e vendo o povo adorar o Bezerro de Ouro, ou como quando após a derrubada de Saddam Hussein suas imagens foram postas abaixo.
Defender a preservação de um monumento é defender o que este simboliza e demarca na história. É interessante notar como a literatura de Victor Hugo foi importante para a valorização da Catedral de Notre-Dame.
E este é o ponto, se cortarmos Brasil a dentro veremos inúmeros bens tombados, monumentos, arquiteturas referenciais pra um grupo social, uma região, um povo, literalmente abandonados e degradados ano a ano, como um incêndio homeopático.
Bens históricos de referencia dos povos africanos ou indígenas sofreram anos de perseguição oficial, e ainda hoje sofrem com perseguições das mais diversas. Quantos não são os casos dos terreiros dilacerados?
No Rio um caso marcante deste recorte elitista é o desmantelamento e esquecimento dos cinemas de rua suburbanos. Arquiteturas símbolo de um tempo histórico onde as regiões suburbanas expressavam uma pujança social e econômica, ainda que estes lugares sempre estejam aquém e segregados nos projetos de cidade.
Os cinemas de rua seguem a cartilha da destruição:
O abandono homeopático por parte do poder público como maneira de destruir o valor cultural e simbólico para a própria região. Bairros inteiros perdem o sentido de sua história, ficam reféns de nunca se sentirem realmente importantes.
O recado social é claro:
Borba Gato ainda é uma referência de um modelo ideal para os que choram pelo incêndio, enquanto para estas mesmas pessoas os Cinemas de Rua são só algo que atrapalha a especulação sobre o terreno no qual eles foram construídos.
Este é o tipo de recorte de valor que nos foi dado no país. Não é esta parte do Brasil queira apagar toda a sua história, ela apenas quer seguir mantendo a narrativa da pujança elitista e manter no esquecimento todos os periféricos, favelados, suburbanos, negros, indígenas e por aí vai.
Esse é o retrato de um país que uma parte de suas elites e governantes chora pelo monumento escravagista de Borba Gato, no mesmo dia em que celebramos as Mulheres Negras da América Latina e Caribenha.


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