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Quem Vigia a Cidade? Os olhos verdes dos Totens de Segurança no Rio.

Esta semana, deparei-me com um novo elemento curioso na paisagem urbana. Pelo que observei, ele já está consolidado há algum tempo em certos pontos da cidade: totens espalhados por vias importantes de diversos bairros, construídos em material metálico, com uma luz verde que remete ao visual de “Matrix”, decorados com símbolos criptografados e a mensagem: “Esta rua é protegida pela Gabriel.”

Sem muito alarde, o Rio de Janeiro recebeu um novo tipo de controle social — desta vez, tecnológico e digno das literaturas de Orwell, Asimov, Neumeier e Miner, ou até mesmo das irmãs Wachowski. A tecnologia em si, assim como sua implementação na cidade, não é uma novidade. Ela me remete à transformação de um conceito comunitário estudado por Jane Jacobs, o dos “olhos da cidade”, em capital e negócio.

Não entrarei aqui no debate sobre a privatização total do controle da violência no Rio, tema que se manifesta em exemplos como o domínio de territórios por forças paramilitares diversas. O foco, neste caso, é o fim da urbanidade e a terceirização dos olhos das ruas. Modelos tradicionais de bairro, que sempre foram vendidos pela ideia de encontros, de relações diretas com o espaço público, com o diferente e o inesperado, perderam a disputa subjetiva. A “condominialização” da vida venceu, e isso nos diz muito sobre como a cidade pode ser completamente terceirizada.

A vida condominial transfere responsabilidades significativas do Estado para grupos privados. Vias públicas inteiras passam a ser monitoradas por sistemas variados: síndicos, associações de moradores, lideranças locais, empresas de segurança, entre outros. A vigilância por câmeras, que o próprio Estado já promoveu com iniciativas como o COR (Centro de Operações Rio), agora divide espaço com empresas como a Gabriel.

Um aspecto intrigante da câmera é sua estética própria, claramente bem estudada, que vai das cores às mensagens e aos símbolos, sua cor verde, seus signos criptografados no totem e até mesmo seu nome próprio masculino sendo tratado pelo gênero feminino. Esses elementos constroem uma “persona” e uma mensagem, como nos ensinaram os grandes pensadores da ficção científica e os grandes religiosos do mundo. À primeira vista, pode parecer o mesmo modelo de negócio do COR, mas o universo simbólico em torno da Gabriel aponta para outra direção. A câmera quer ser vista, decifrada e, acima de tudo, quer nos vigiar 24 horas por dia.

Ironicamente, num mundo onde o direito de ir e vir e a defesa da vida privada são tratados quase como mantras por aqueles que defendem esse modelo de segurança, essas empresas têm o poder de transformar nosso cotidiano em um verdadeiro “Big Brother”, usando a segurança como justificativa. Outra ironia: os mesmos defensores dessas câmeras nas ruas muitas vezes se opõem ao uso delas para monitorar operações policiais.

Curiosamente, a presença da Gabriel não parece ter tido um impacto significativo na redução da criminalidade ou na sensação de segurança entre a população, assim como o COR tampouco teve. No entanto, essas câmeras foram fundamentais para registrar casos de abuso de poder policial e racismo, como o que ocorreu com os jovens negros, filhos de diplomatas, em Ipanema.

O povo, em geral, parece indiferente à presença vigilante passiva desses totens — soldados eletrônicos privados que tudo veem — assim como são com relação às câmeras do COR. Quanto a nós, é preciso compreender um ponto crucial: nenhuma tecnologia aplicada está isenta das escolhas humanas. E é nisso que devemos nos concentrar ao lidar com as “Gabriels” e CORs da vida. Vale lembrar que, quando certas forças de poder na cidade quiseram executar Marielle Franco, algumas câmeras do COR simplesmente fecharam os seus olhos.

Este é o ponto, o problema não está nas tecnologias por si mesmas, mas sim na nossa relação com elas. Este talvez tenha sido uma das lições mais importantes que Asimov nos deixou. Portanto, fica o recado a todos esses olhos que nos vigiam: estou ligado no movimento.

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A Transformação Digital na Construção Civil: BIM, Digital Twins e IA

A indústria da construção civil segue ufanista com as plataformas BIM, embora muitos ainda confundam BIM com certas ferramentas proprietárias. No entanto, suspeito que essa lógica de pensamento esteja se tornando obsoleta, mesmo antes de atingir seu auge. O avanço tecnológico tem dessas peculiaridades; quem se lembra dos laserdiscs, precursores dos CDs?

O Papel das Ferramentas na Arquitetura e Engenharia Digital

Primeiramente, é crucial entender que a questão central não são as ferramentas em si, mas seus métodos de operação, interface com o usuário e propósito. O BIM continua sendo o melhor método para produção de dados e gerenciamento de documentação em projetos de arquitetura e engenharia. No entanto, ferramentas de inteligência artificial estão surgindo para potencializar decisões em projeto, manutenção preditiva, simulação e análise em tempo real. Quando integrados a sistemas de Machine Learning, esses dados ajudam a construir um arcabouço de soluções possíveis para problemas complexos.

Integração de Digital Twins e IA na Arquitetura e Engenharia

Na fase atual, a IA se tornou um complemento importante às ferramentas de projeto. A aplicação de Digital Twins, por exemplo, permite uma análise robusta de dados em tempo real, automação de decisões e otimização através de simulações. O que o Digital Twin faz é criar um “gêmeo virtual” de objetos, processos ou sistemas físicos, monitorando-os em tempo real e de forma detalhada. Isso permite a otimização de seu equivalente real, seja ele uma máquina, um mega edifício, uma indústria ou até mesmo uma cidade.

Sinergia entre BIM, Digital Twins e Machine Learning

A complementaridade entre BIM, Digital Twins e Machine Learning está transformando a arquitetura e engenharia ao automatizar processos de design, documentação e operação. O BIM já facilita a criação de modelos detalhados e a coordenação entre disciplinas. Com a integração de algoritmos de Machine Learning, será possível otimizar designs e reduzir erros de forma automática. Digital Twins, por sua vez, permitem monitoramento e simulação em tempo real, possibilitando manutenção preditiva e ajustes contínuos durante o ciclo de vida do projeto.

No futuro, essas tecnologias combinadas podem automatizar grande parte do processo de arquitetura e engenharia. Ferramentas de design generativo, integradas ao BIM, junto com a análise de dados históricos realizados por Machine Learning, permitirão que projetos sejam otimizados autonomamente. Os Digital Twins terão um papel crucial ao prever o desempenho dos ativos e permitir ajustes dinâmicos, resultando em construções mais eficientes e adaptáveis.

Até aqui,  falamos de algo que já está em curso na engenharia de ponta e nem consideramos o avanço tecnológico de ferramentas de design generativo que permitem a criação de múltiplas opções de design baseadas em critérios definidos pelo usuário. Nos permitindo explorar várias soluções de design rapidamente nas fases conceituais.

Sistematizando:

  • Concepção projectual: partindo do BIM e ferramentas de design generativo, auxiliado por Machinhe Learning, criamos automaticamente múltiplas opções de design, otimizadas para diversos critérios. Temos como papel, dentro disso, formular os critérios e diretrizes, aquilo que na língua do arquiteto chamamos de Partido e Programa, inserir os principais dados e selecionar, dentre as múltiplas opções entregues pelo design generativo, quais seriam as melhores soluções sugeridas.
  • Desenvolvimento e Simulação: O Digital Twins simulará continuamente o desempenho dos designs gerados em um ambiente virtual, permitindo ajustes em tempo real e a otimização antes da construção. Destes ajustes finos escolhemos o melhor projeto a ser construído.
  • Execução e Operação: A construção  será acompanhada e ajustada automaticamente com base no contínuo feedback do Digital Twins e nas previsões do Machine Learning. Durante a fase operacional, a manutenção e os ajustes de desempenho serão feitos de forma automatizada, gerando dados para otimização da obra e operação atual, tanto quanto para melhorias em novos projetos.

A partir desta sinergia, o ciclo de vida de um  projeto e obra pode ser  gerido de forma contínua, da sua concepção até o limite máximo de seu uso. Com o Digital Twins e ML ajustando o BIM conforme necessário para garantir que o ativo físico opere da maneira mais eficiente e durável possível.

O Compromisso Ético na Era da Automação

Nesse cenário de transformação, o compromisso central dos profissionais de arquitetura e engenharia deve ser a criação de diretrizes que assegurem a preservação da vida e do meio ambiente. Inspirando-se nos ensinamentos de Isaac Asimov, é fundamental estabelecer limites claros para o uso dos recursos naturais e desenvolver estratégias que não apenas minimizem os impactos negativos, mas que os transformem em benefícios ambientais. Com essas diretrizes, que garantem a proteção da humanidade e do planeta Terra enquanto entes vivos, os sistemas de automação poderão nos guiar para soluções inovadoras, potencializando compensações ambientais e estratégias globais que não apenas reduzam impactos negativos, mas quiçá também gerem impactos positivos.

Decisões estratégicas exigem um comportamento ético e político da profissão, além da competência técnica. É hora de caminhar em direção a um futuro mais digno e sustentável, onde a tecnologia seja uma aliada na construção de um mundo melhor.

imagem gerada pelo DALL-E tendo como input o comando: crie uma imagem artística de modelo de cidade com favelas toda formada com partes de lixo eletrônico.
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