Arquitetura e Urbanismo, artigo, filosofia de vida, literatura, pensamento

Notre-Dame: o tempo, a revolução e o modismo

Pensamentos da leitura de Notre Dame de Paris.

Victor Hugo, em Notre Dame de Paris, apresenta uma reflexão original ao identificar três lesões que marcam a arquitetura: o tempo, a revolução e o modismo, ironicamente considerando a última a mais agressiva. Em sua visão, a arquitetura medieval não é apenas um vestígio do passado, mas um símbolo vivo da identidade cultural. Ele denuncia a efemeridade dos modismos arquitetônicos e critica a destruição do patrimônio histórico em nome da modernização.

Notre Dame é lida por nós como resistência da história francesa, um monumento de continuidade. O autor preserva a memória da catedral e levanta uma reflexão sobre o impacto da ação humana no curso da história e na formação das sociedades futuras. Ele nos convida a perceber o tempo de maneira cíclica, onde a narrativa do romance, embora situada no século XV, carrega a marca da Revolução de 1830. A cidade de Paris, aos olhos de Victor Hugo, é um organismo vivo e em constante transformação.

A catedral não é apenas um cenário, mas um personagem ativo na história. A Paris de Victor Hugo se veste de memória e transitoriedade, construída a partir da vivência das pessoas que a habitaram. O autor descreve Notre Dame com uma devoção quase mística:

Victor Hugo vê na arquitetura gótica uma expressão da arte coletiva do povo, diz ele:

Diferente do renascimento e do neoclassicismo, o gótico surge em sua obra como uma manifestação periférica, uma estética de resistência contra os estilos elitistas e dominantes do seu tempo. O gótico, segundo o autor, propõe uma transição contínua, onde o passado é constantemente ressignificado pelas transformações humanas e a arquitetura é a escritura social desta história, diz ele:

A relação de Victor Hugo com Notre-Dame é profundamente afetiva e simbólica. Ele a vê como um marco da identidade francesa, um testemunho do gênio coletivo e da história de seu povo. Sua defesa contra os demolidores é também uma luta perene e atemporal contra o esquecimento e a padronização impostas pela modernidade. Ele parece lamentar que a cidade medieval possuísse uma unidade estética singular, enquanto a modernização fragmenta Paris em estilos desconectados. Esse olhar sobre o patrimônio também carrega uma crítica à política de apagamento que permite a destruição de edifícios históricos sob o pretexto do progresso.

Assim, em Notre Dame de Paris, Victor Hugo não descreve a arquitetura apenas como um traço físico da cidade, mas como um reflexo das transformações sociais e culturais. O desaparecimento de elementos arquitetônicos, como a escadaria que foi demolida ou ornamentos destruídos durante revoluções, simboliza essa luta entre o passado e o presente. Ele faz referência ao impacto de mudanças tecnológicas, como a substituição do arco pleno pelo arco ogival, introduzido a partir das Cruzadas.

Além de símbolo arquitetônico, Notre-Dame é um espelho da exclusão social. Os personagens principais expressam essa marginalização. Quasímodo, o sineiro corcunda e surdo, cresce na solidão das pedras góticas e encontra na catedral seu único refúgio. Esmeralda, cigana, carrega em si a beleza e o exotismo que fascinam e amedrontam a sociedade, tornando-se vítima do preconceito e da intolerância. Claude Frollo, o arquidiácono, representa a degradação moral e o fanatismo religioso. Gringoire, o poeta errante, oscila entre a intelectualidade e a miséria, sem nunca pertencer a lugar algum.

A catedral, imponente, abriga e condena. Para Quasímodo, Notre-Dame é um útero de pedra, um lar e uma prisão, um monumento de sombra e silêncio. Esmeralda busca refúgio, mas descobre que nem mesmo as paredes sagradas podem salvá-la da violência do mundo exterior. A praça pública, por sua vez, encarna a brutalidade da multidão. É ali que Quasímodo é açoitado e ridicularizado, que Esmeralda é condenada e que a justiça se manifesta como espetáculo sangrento.

A cidade medieval de Paris, com suas ruas tortuosas e becos marginais, é um labirinto onde aqueles que não se encaixam são condenados à sombra. A arquitetura e a sociedade se entrelaçam: Notre-Dame, a catedral-santuário corrompida, a praça-palco de julgamentos, e a cidade-organismo que exclui os párias sociais.

Hoje, Notre-Dame é reverenciada mundialmente, um amor que Victor Hugo ajudou a ensinar capítulo por capítulo. Ao ressaltar a beleza de um mundo esquecido e marginalizado, ele nos convida a olhar Paris através dos olhos dos corcundas, ciganos e miseráveis, que, à sua maneira, também são belos. 

Notre-Dame: Um Dispositivo Para a Arquitetura

A leitura de Notre-Dame de Paris nos oferece uma boa lente crítica para enxergar a arquitetura como um espaço de disputa política e social. Victor Hugo denuncia a destruição da memória coletiva em nome do progresso imposto por elites dominantes, algo que ressoa fortemente com a luta contra a gentrificação e a especulação imobiliária nas periferias urbanas. 

A defesa do gótico como expressão de uma arte popular e coletiva sugere um modelo alternativo ao academicismo e às imposições estéticas da elite, abrindo caminho para uma arquitetura enraizada nas necessidades reais do povo, que seja capaz de enxergar a beleza na “feiúra”. Ao reivindicar a preservação de Notre-Dame como um ato de resistência e nos apresentar uma vida urbana a partir do povo marginalizado, podemos traçar um paralelo de vida e conceber no urbanismo popular, uma forma de contestação, buscando construir cidades mais inclusivas que respeitem a história e vivência dos seus habitantes. Como construir cidades que abracem nossos Quasimodos e Esmeraldas? Esse é um desafio.

Para o arquiteto periférico, a obra de Victor Hugo pode ser uma referência para pensar projetos que desafiem a lógica excludente do urbanismo burguês, promovendo espaços de pertencimento e dignidade para aqueles que historicamente são deixados à margem. A catedral gótica, com sua resistência ao tempo e à destruição, é um símbolo de luta: da mesma forma que Victor Hugo lutou pela preservação do patrimônio histórico, os arquitetos podem lutar pelo direito à cidade, no seu aspecto físico e subjetivo, lutar pelo direito à beleza, garantindo que a memória e o pertencimento comunitário dos territórios populares não sejam apagadas pelo avanço da especulação e das políticas de segregação urbana.

Esse texto não seria possível sem duas leituras fundamentais: a própria obra de Victor Hugo, leitura que ainda segue em curso e pode produzir mais texto em breve, e uma tese interessante intitulado “O tempo que devora: história e revolução em Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo” de autoria de Jefferson Cano (que pode ser lido aqui).

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A praça de Grève, reflexões urbanas com Victor Hugo


Pensamentos da leitura de Notre Dame de Paris.

Victor Hugo tem um papel imprescindível no debate sobre memória e espaço. Em Notre Dame de Paris, o autor realiza uma verdadeira ode ao caráter gótico da cidade, utilizando a narrativa para revelar as camadas de história presentes em seus espaços urbanos. Recentemente, durante uma viagem de ônibus rumo ao trabalho, me deparei com o capítulo “Praça de Grève” e fiquei tentado a refletir sobre como o urbanismo dialoga com a preservação dos vestígios históricos e a memória coletiva.

Parte 1: A Praça como Símbolo do Espaço Urbano Histórico


No capítulo, Victor Hugo vai além da mera descrição de um espaço público. Ele apresenta a Praça de Grève (atual Place de l’Hôtel de Ville), situada às margens do Rio Sena, como um cenário carregado de simbolismo e nostalgia. Historicamente palco de execuções e eventos marcantes, a praça surge como um verdadeiro repositório de histórias e emoções. Ao transitar entre o passado e o presente, o autor nos convida a enxergar cada elemento físico da cidade como parte de uma narrativa viva, na qual os conflitos sociais e as transformações históricas se entrelaçam.


A dualidade presente na narrativa, a sobreposição de um espaço marcado tanto por momentos de horror e violência quanto por mobilizações sociais, reforça a ideia de que praças e outros espaços urbanos são pontos de convergência para a transformação social.victor Hugo, ao descrever esses ambientes, enfatiza a necessidade de preservá-los e revitalizá-los, pois são verdadeiros símbolos da cultura e e da memória de uma cidade.


Parte 2: O Legado na Valorização do Patrimônio e do Gótico


A beleza da obra de Victor Hugo reside na sua contribuição para a conscientização sobre a preservação do patrimônio histórico. Em Notre Dame de Paris, Hugo celebra a arquitetura gótica como elemento central da identidade cultural de Paris. Ao descrever a catedral e seus arredores, o autor destaca a grandiosidade e a complexidade desse legado arquitetônico, transformando-o em personagem dentro da narrativa.


A estética gótica, com suas altas arcadas, vitrais coloridos e imponentes contrafortes, é apresentada como um verdadeiro repositório de memória e experiências coletivas. Essa valorização não só encantou gerações, mas também inspirou movimentos de restauração e conservação, como o realizado por Eugène Viollet-le-Duc na reabilitação de Notre Dame.


Hugo utiliza o cenário urbano para enfatizar a importância de preservar a história e os espaços que a abrigam. Ao resgatar elementos que definem a identidade de Paris – desde monumentos imponentes até praças repletas de eventos históricos – o autor propõe uma reflexão profunda sobre o valor intrínseco do patrimônio. Para o urbanismo contemporâneo, essa abordagem ressalta que cada espaço preservado contribui para a construção da memória coletiva e da identidade cultural de uma cidade.


A influência de Notre Dame de Paris ultrapassa os limites da literatura, impactando políticas de preservação e o olhar crítico sobre a arquitetura histórica. Victor Hugo não apenas enriqueceu a narrativa literária, mas também transformou a forma como entendemos e valorizamos os espaços urbanos, pavimentando o caminho para uma abordagem que integra análise crítica, preservação e valorização cultural.


Considerações Finais

Victor Hugo nos oferece uma visão multifacetada do espaço, apresentando-o como um elemento vivo e repleto de significados. Sua narrativa não só enriquece a literatura, mas também dialoga de forma profunda com os princípios do urbanismo e da preservação do patrimônio. Ao valorizar o gótico e cuidar da memória, Victor Hugo estabeleceu um precedente que continua a influenciar tanto as políticas urbanas quanto a percepção cultural dos espaços históricos. Ele revelou que a memória está em constante disputa, mostrando que cuidar do passado é essencial para a construção de um futuro que respeite a vida coletiva das cidades.


Como blog gosta de lista, segue uma pequena lista:


1 Amplie seu repertório cultural: Estude literatura, música e história para enriquecer sua visão e inspirar projetos com referências profundas e diversas.


2 Busque a interdisciplinaridade: Integre conceitos de diferentes áreas do conhecimento, assim como Victor Hugo uniu a arte literária à história e à cultura, para criar obras com significado e originalidade.


3 Valorize as narrativas históricas: Entenda que a história e a cultura, presentes em livros e músicas, oferecem lições valiosas para a construção de espaços que dialoguem com o passado e o presente.


4 Inspire-se em outras artes: Assim como a estética gótica foi resgatada por Victor Hugo, encontre na música, na literatura e em outras manifestações artísticas elementos que possam transformar e enriquecer seus projetos.


5 Crie pontes entre disciplinas: Use o conhecimento adquirido em diferentes frentes para desenvolver soluções inovadoras e contextualizadas, contribuindo para a preservação e valorização do patrimônio cultural urbano.

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