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Sobre a complexidade dos Subúrbios segregados

Desde a mudança da organização administrativa da cidade do Rio que dividiu a cidade por Áreas de Planejamento e Regiões Administrativas e as legislações vigentes se deram rua a rua, o termo Subúrbio não cabe na lógica formal do planejamento e da administração pública. Ele porém segue pairando no ar como uma enunciação coletiva.

A cidade segregada se deu durante anos por conta de expropriação de tributos de determinadas zonas da cidade e de uma escolha clara de como se daria a distribuição espacial deste território. Assim, as administrações vigentes atuaram de modo a privilegiar um lado específico que seria destinado aos mais ricos e grande parte da classe média. Expropriação esta, que por sua vez nunca foi corrigida por nenhum governo.

Hoje, a melhor expressão de Subúrbios é muito menos territorial e muito mais sob modos de fazer do povo. A construção de laços dos mais diversos. Parte da sociedade organizada em torno desta enunciação busca um caminho de costura e reconstrução do que seria esta identidade. A identidade por sua vez nunca dará conta da complexidade e das dinâmicas populares que giram em torno do sentido de ser ou não ser suburbano no Rio de Janeiro.

Boa parte da pujança e do imaginário se constituiu por algumas políticas de Estado. Escolas públicas, habitação de interesse social, eventos cívicos, o Varguismo teve um papel importante nesta construção. Soma-se a isso a enorme resistência dos povos negros, sempre preteridos e vilipendiados na sociedade, são eles que constroem em seus terreiros, aquilombamentos e barracões o mundo do samba, do funk, da soul music, dos encontros na escassez e da fé. Os Subúrbios são um amálgama disso tudo e muito mais.

Se a relação da cidade formal com a favela é de medo e terror, onde o que separa a favela da cidade formal é que é aceitável pelo sistema o direito do Estado matar na favela e de tratar seus moradores como não cidadãos, nos bairros dos subúrbios que não são considerados favela é dado a invisibilidade e a captura pelo exotismo. Assim, passa ano e sai ano, e cada administração pública usa de uma lógica específica para tentar capturar o discurso e amarrar em torno de uma identidade passível de ser controlada.

As décadas de 70, 80 e 90 levaram os moradores de regiões ditas suburbanas a migrar para uma emergente Barra da Tijuca onde os modos de vida e cultura deste novo modelo de cidade eram vendidos diariamente. Quem viveu estes anos se lembrará de como era matéria dos principais programas de estilo de vida as idas de jogadores e artistas a churrascarias e restaurantes, como era legal o jogador de futebol faltar o treino pra bater um futvolei na praia e muitas outras referências. Enquanto isso, no território onde muitas destes nasceram e se iniciaram, o que vingava eram os bailes. Dentre eles, um modelo ganhou força e ajudou ainda mais a segregar a cidade, os Bailes de Corredor. Os Bailes de Corredor mudaram muito a forma como o adolescente curtia a festa e vivia a própria cidade, pois alimentava um bairrismo combativo. Em pouco tempo, jovens passaram a frequentar festas de outros bairros apenas no intento da disputa.

A beira disso, também nestes anos, explodem o modelo evangélico neo-petencostal Macedos e Malafaias como grandes expoentes, mas este modelo não pode ter essa leitura simplista. O neopetencostalismo opera muito menos por meio do texto escrito, de uma liturgia organizada e centralizada, e muito mais pela experiência pessoal de transcendência. A forma de fé cresce por sua simplicidade organizativa, basta uma liderança capaz de produzir contato com o transcendente e ali poderia se fazer um círculo de oração, um ponto ou até mesmo uma igreja.

Ao definir o adversário a partir de qualquer um que não professe a fé, o petencostes por sua vez acaba que promove um movimento silencioso e silenciador. O fiel não deve se misturar ao mundo, deve produzir a si mesmo e estar junto com os seus (a igreja) num laço de santidade. Para o neopetencostal, o outro tende a ser um desagregado que leva a vida influenciada pelo adversário. A situação piora diante de outras crenças, em especial as crenças de matriz africana, onde aí sim quem as professa é visto como um profeta do adversário. Este tipo de signo constrói boa parte do campo de fé suburbano hoje em dia, de fortalecimento social e caminhos de coletividade. Dali levantam-se muitas lideranças, e outras muitas ainda se aproveitam para usar deste sistema como palanque. Mas ainda assim é preciso nos aprofundarmos nas relações e nos sombreamentos, pois uma profetiza neopetencostal em um círculo de oração está muito mais próxima dos modos de viver de uma benzedeira ou mãe de santo do que de um Silas Malafaia da vida.

Ainda assim, é curiosa a relação de conflitos que apesar de parecer maniqueísta, muitas das vezes passa por um relativismo. Quantas não são as famílias suburbanas que tem sentado na mesa um filho que trabalha para a polícia (uma das possibilidades de emprego e saída pra vida do pobre) e um filho que vive de dinheiro da contravenção? Mas nossas formas de entender certos signos sempre serão outras.

Quando a gente é pobre pra valer a gente vem forjado na violência, no palavrão, no papo reto, e na ação visceral. Quem tem fome precisa ser visceral pra sobreviver, mas também é solidário. A gente aprende a lidar com os signos de forma diferente, a lidar com o senso de justiça de forma diferente, pq a vida violenta a gente.

A vida violenta quando todos parecem amigos, mas uma mudança simples no recorte de classe deixa claro quem está num ciclo abaixo da pobreza, violenta quando as coisas e lugares que frequentamos são preteridos ou esquecidos na história. É violento quando alguém tem medo do seu lugar, da sua rua, do seu lote. É assim que a gente é criado, isso traz signos pra gente lidar com a vida.

O projeto de poder dos que conseguem gerir o sistema (mega empresas, governos, ricos, investidores, etc) envolve a manutenção de um modelo inspirado em uma certa classe média modelo. Não há um traço político concreto que seja realmente popular e massificado, capaz de interpretar os signos e criar uma política de estado em torno deles. O trabalho feito é capturar tudo que pode, gerenciar as vozes e interlocutores dissonantes por meio de inúmeros sistemas de controle social (como a lei da vadiagem por exemplo).

É assim que por exemplo, não há nenhum projeto significativo de planejamento de recomposição da cidade formal que gere pólos de interesse pra classe média reocupar os subúrbios cariocas. Ao mesmo tempo, há interesse do poder imobiliário (entre outros) em movimentar parte de sua economia nestes territórios hoje bastante esvaziados reconfigurando-o como espaços do modelo padrão de consumo da classe média (a forma condominial apelidado de barra da tijucanização por exemplo).

Por outro viés, parte dos modos de fazer e cultura que tanto manteve o povo vivo em tempos de escassez e do esquecimento político é traduzido e adequado para ser digerido e palatável a parte da classe média que tensiona ou entende o peso da desigualdade. Porém tudo é escolha, exemplos: ao invés de por pra frente uma política de revitalização dos centros de bairro a partir de seus cinemas de rua, a política de cinema de rua escolhe um cinema de um bairro específico, revitaliza e considera este um pelo todo. Assim que tudo é feito, escolhem-se alguns bairros e trazem alguns melhoramentos estruturais coletivos nestes e fazem o um ser a representação do todo.

Não é simples trabalhar com o sentido dos Subúrbios no seu espectro mais complexo sem lermos sob a ótica de suas reais narrativas que são duras. A beleza dos subúrbios está nesse olhar total que passa inclusive pelo que nos parece assustador e gostaríamos de esconder, assim como o Clóvis que pode esconder por trás de sua máscara o mais engraçado ou o mais temido dos seus vizinhos.

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Já não basta sermos Latinos, já não nos bastam as identidades

É muito curioso pensar como as palavras tem um certo poder. Em nome de uma resistência ao imperialismo antiamericano, buscamos por muito tempo a construção de uma identidade latina. Esta identidade, que como qualquer outra se forja pela aglutinação e trabalho sobre alguns elementos comuns, resplandeceu na tentativa de consolidar uma força continental capaz de enfrentar o domínio dos EUA (país economicamente mais poderoso).

De certo porém, este postulado cria problemas e limitações. Entre elas, um problema notável é que a busca de uma identidade latina como resistência a uma identidade anglo-saxônica acaba por repetir a dicotomia do processo de expansão imperialista que vigorava desde as grandes navegações do mercantilismo até o processo industrial (dos primórdios ao mundo contemporâneo). Isto é, em nome de uma liberdade dos povos, acabamos por traçar uma disputa territorial ainda construída sobre signos de uma relação império-colônia, mantendo firmes todas as suas contradições.

Somos capazes hoje de determinar quantos povos compõem todas as relações sociais, econômicas e culturais do novo continente? Esta é uma pergunta importante de refletir. Há similaridades nos processos de apagamento histórico dos diversos povos que habitavam as terras antes das explorações, assim como dos povos que foram forçados a estar nestas terras como mão de obra escravizada, histórias que resistiram em meandros e relações moleculares, dentro das redes possíveis de serem traçadas. Redes estas que inclusive precisam considerar a construção hegemônica na sua formação cultural.

Com base nisto, entendo que meras disputas de resistência ou recortes que buscam negar o traço hegemônico como parte da concepção de visão de mundo, se tornarão tão enviesadas quanto aquelas que não tentam compreender as construções que estão nos interstícios ou subterrâneos das formações de saberes. De certa forma, uma leitura do Imperialismo que se mantém hoje, sem a leitura crítica das mudanças materiais do mundo, também reflete muito mais uma tentativa de manter uma identidade do que foi concebido com resistência progressista do que uma realidade a se enfrentar. Não precisamos mais entender o que é o Imperialismo, apenas seguir repetindo os mantras estabelecidos em décadas para aglutinar os nossos em torno da resistência.

Debater por exemplo, se o Halloween ser comemorado no Brasil é lícito ou se isso representa uma forma de aculturação e colonização, é deixar de lado que tal festa já é expressada de forma sincrética no México por exemplo e em outros inúmeros países do globo. Sem considerar que são parte de uma mesma visão de mundo que nos leva a celebrar o dia 2 de novembro como data de relembrar os nossos ancestrais. O que nos é mais interessante? Simplesmente negar a festividade ou buscarmos um aprofundamento da experiência, da história e da formação da mesma?

Outra referência interessante pra reflexão. Enquanto líderes globais discutem mais uma vez a urgência da crise climática, tentando encontrar caminhos quase impossíveis de saída, vale lembrarmos da experiência de Evo Morales com a Lei da Terra, que possibilita uma nova proposta de visão de mundo. A mesma só é possível de ser concebida se lermos dentro de uma costura capaz de interpretar o melhor dos encontros entre a origem indígena de Evo, um filho dos povos originários deste território continental, com a cultura latino-europeia que desenha o contrato social constitucional de nossos países.

Nós, enquanto humanidade, temos no história de nossa existência o desejo de conexão com a terra. Conexão esta que num dado momento abandonamos e cuja cultura do homem como um ente separado da terra vingou. Esta cultura precisa ser religada em todas as esferas possíveis. Pensar o Planeta como um ente completo, do qual somos parte, e projetar uma rede de partilha vai exigir muitas viradas de chave. A dificuldade maior será: como conciliar isso em um mundo onde a Terra é propriedade privada e peça fundamental para a manutenção do sistema de produção de riquezas? Vale lembrar que estas mesmas perguntas já foram feitas durante a pressão pela ruptura dos modelos escravagistas, onde homens, eram vistos exatamente assim: como propriedades privadas (objetos) e peça fundamental para a manutenção do sistema de produção de riquezas.

Neste mundo global, onde cada vez mais as discrepâncias entre as concentrações de renda e a miséria dos povos se dá. Os modelos de governo se encontram limitados e ineficazes diante das formas de organização supra territoriais, precisaremos construir e recuperar ferramentas que explodam estas relações, compreendendo que uma política isolada não resolverá. O atual contexto da crise global inclusive nos pede uma virada de chave mais radical (indo a raiz dos problemas) e de coragem de mudança do sistema em que estamos inseridos. A busca por uma identidade comum nos falha por também representar uma fronteira que enviesa as relações de exploração.

Com base nisso, sabemos que não é fácil uma mudança de paradigma. Ainda hoje vemos que não é tão simples a abolição completa do racismo e da escravidão na sociedade. Da mesma forma, assim como os mais pobres ainda são lidos como seres passíveis de todo tipo de exploração, não será simples a humanidade abolir o sentido de que o Planeta é só um objeto passível de exploração e aceitá-la como um organismo vivo completo do qual fazemos parte. Podemos e devemos iniciar religando esta ética que se mantém nos povos mais originários e mais tradicionais do planeta, independente dos continentes que habitam. Em nossa visão de mundo paradigmaticamente ocidental, economia e ecologia tem um mesmo radical, óikos, nossa casa que também é nosso Planeta. Hoje, objetificamos a Terra, exploramos seus recursos e sequer somos capazes de utilizar isso para fins de manter viva a nossa espécie. Explora-se tudo que a mão alcança, para benefício de meia dúzia. Basta ver como países que movem parte significativa da economia pelo agronegócio são também bolsões de populações que passam pela fome.

Precisamos recuperar o olhar integral da humanidade pela Planeta. Isso não será simples ou harmônico, pois mexe diretamente com quem garante suas riquezas, poderes e seu bem-estar às custas da exploração de todos (sejam animais, vegetais ou minerais) os entes que formam este ser, mas precisaremos enfrentar. Precisamos aprender a retomar as conexões mais profundas dos que celebram suas colheitas, ou o equilíbrio, a ancestralidade e as mais diversas formas de contemplação da vida. Talvez um dos nossos erros hoje, é acreditarmos que esta saída será tranquila, pacífica, por ações individuais, não será, vai exigir enfrentamento, como qualquer luta de libertação humanitária sempre exigiu. Precisamos abolir o planeta do processo de escravidão em que ele foi colocado.

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Entre o 7 de setembro e o 2 de outubro – este título não te atrai, não dá IBOPE e não da like

No dia 02 e outubro último fechou-se o ciclo de atos pós sete de setembro. Desta vez puxado por forças, movimentos e partidos organizados da esquerda. Apesar de terem sido atos com expressão (não maiores que o ciclo de atos pré dia 07 de setembro), não escaparam dos ciclos organizados da militância. Pelo lado do governo atual, uma continuidade do Bolsonarismo foi fomentar suas redes ampliadas de telegram. Após fechamento deste ciclo, seguimos na incógnita. Aparentemente, todas as forças militantes (pró e anti-governo) não tem conseguido mobilizar mais gente que suas bases de afinidade.

Em um dos grupos, com aproximadamente mais de 900mil seguidores, o governo segue sua técnica de comunicação com suas bases, a respeito das ações que tem implementado. Chamadas como: Veto a aquisição de bens de consumo de luxo por parte da administração pública, e reformas de aeroportos e outros sistemas de infraestrutura são alguns dos exemplos de informações divulgados.

A vida cotidiana por sua vez, começa a voltar ao normal por meio de decreto. No Rio, o carnaval já ativa boa parte da sociedade que se mobiliza em torno dele, bairros de subúrbios seguem a vida como se a pandemia não existisse, cuidados sanitários são só um crachá protocolar, muitas das vezes tratado como teatro. Os tempos atípicos que a pandemia abriu estão em refluxo. A massa do povo, que não atua politicamente de forma militante, parece ter ficado anestesiada diante de tudo, ou simplesmente não está nem aí.

As militâncias mostram suas forças, suas lideranças demonstram a capacidade de agitação de suas bases, mas nada disso transborda para aqueles que neste momento estão passando fome e que estão contando moeda pra comprar itens básicos de sobrevivência, o que impera no povo é a descrença. E a partir da descrença, o foco do povo passa a ser em cuidar de si e dos seus, viver e sobreviver no dia a dia, da maneira que dá.

Assim, a vida vai voltando a uma certa normalidade forçada, um grau aceitável de ação da doença, com cidades abrindo e retomando suas festividades e seus movimentos de aglomeração. A crise econômica exorbitante aumenta o senso de desanimo e apatia social, onde as pequenas alegrias para os cidadãos encontram-se nos momentos de lazer, mesmo que estes envolvam riscos sanitários.

2022 poderá seguir nesta incógnita e sem solução. Não conseguimos promover até o momento um projeto de Brasil real para esta pós pandemia, capaz de aglutinar as massas populares, não temos resposta ainda em escala nacional para tal crise. O projeto Bolsonarista está dado e em franca expansão, mesmo que o excesso de sectarismo o enfraqueça: segue movimentando a economia em torno de uma pequena elite e deixando o povo entregue a miséria e a fome, mas amplia os canais de seguidores.

As notícias sobre offshores, ou os movimentos de interesse dos grandes senhores do agronegócio, construtoras, bancos, empresas aéreas e afins evidenciam que nem todos estão afundando. O que o Brasil vive é o aprofundamento da crise para geração de lucros em uma hiperconcentração dos privilégios e da renda.

A dificuldade de implementar tal caminho de construção está justamente na necessidade marqueteira de ganhar as redes. Por este desespero, foca-se na fofoca, no efêmero, no barraco, pois são os melhores caminhos para angariar mais likes, views e compartilhamentos.

Em meio a isso, as forças de oposição e alternativa eleitoral ao bolsonarismo insistem em campanhas estéreis de propostas e repletas de bobagens. Disputas de tamanho de pênis (enquanto o povo come osso, quando tem o que comer), misoginias, palavrões, santificações, trocas de ofensas e ataques gratuitos, campanhas nas redes sociais que buscam o engajamento pelo sensacionalismo barato que as mobiliza no melhor estilo barracos de BBB, enquanto caminham na busca incessante pelos acordos e conciliação com os mesmos velhos poderes que nunca saíram de cena.

Precisamos de proposta real de fomento aos inúmeros setores produtivos em suas múltiplas escalas, precisamos de um caminho que não deixe nossos produtos básicos de consumo e necessários a vida, se tornarem refém do espírito das bolsas de valores. Ficamos a mercê do estrago que a má gestão da crise sanitária nos colocou e seguimos em um país com índices altos de corrupção, privilégios para poucos e mandos e desmandos por parte de alguns. Além de uma estrutura cujos sistemas são altamente alienados dos problemas cotidianos do povo.

As possibilidades de saída, a meu ver, passarão por um viés distinto destas disputas de poder que são concentradas em exposição de personagens e no caminho eleitoral. Todas as candidaturas ainda estão frágeis neste processo de 2022, provavelmente nenhuma delas responderá bem às massas. As bases mais conservadoras seguirão a fluidez do percurso e se forem incapazes de construir uma candidatura a direita para além do Bolsonaro, abraçarão o elemento ou permanecerão lavando as mãos.

Resumindo: Ao focar as investidas primordialmente no pleito eleitoral de 2022, quaisquer forças minimamente progressistas estão reduzindo a própria potência de suas construções políticas e correndo o grande risco de uma derrocada do bloco anti-bolsonarista, mesmo diante de um bolsonarismo que também se esforça para perder. E o Futuro? Um 2023 em diante fraco (vença quem vencer). Qualquer um que governar com as alianças do poder constituído se verá diante de poucas saídas políticas, sofrerá uma forte pressão de domínio por parte da direita que ainda rege a agenda de controle deste país e praticamente nenhuma ação de conciliação de classes. Quaisquer dos nomes eleitos tenderão a compactuar com o aprofundamento da agenda de austeridade para garantir o mínimo de governabilidade e a turbulência desta direita que também não consegue mais emplacar um candidatável e irá tolerar um dos personagens.

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7 DE SETEMBRO DE UM BRASIL EM QUESTÃO

Findados os atos e manifestações populares pró e anti Bolsonaro vai um balanço. Foram três movimentos bem demarcados, uma manifestação de 7 de setembro de apoio ao presidente, no mesmo dia o tradicional grito dos excluídos puxados pelos movimentos socials e partidos da esquerda tradicional, este ano em protesto ao presidente, e hoje dia 12 um ato pró-impeachment do Bolsonaro puxado pelo MBL e partidos de centro, de direita e de esquerda.

Primeiro em termos de massa, é notório que o apoio ao presidente ainda vigora no povo, com um ato mais plural, o Bolsonaro mostrou que ainda tem força e apoio popular em sua sustentação. Ainda que não tenha sido forte o suficiente para assumir o golpe em curso, o foi pra garantir uma rearticulação no poder. Quanto ao grito dos excluídos, mostrou alguma massa, mas não extrapolou o recorte dos movimentos, Um pouco se deu por parte dos próprios movimentos e partidos não terem apoiado a ida massiva às ruas por medo de um pretenso conflito. O ato puxado pelo MBL e partidos de centro, de direita e de esquerda também se mostraram esvaziados no dia 12 de setembro.

Parte do esvaziamento se deu pela carta de armistício entre o presidente e os demais poderes, parte pelo próprio esmagamento da militância tradicional em esvaziar, e parte pelo esvaziamento próprio da construção. No fim, o balanço principal que pode ser feito parece apontar um ganho político para o Bolsonaro e o bolsonarismo, que consegue se afastar das cordas e repactuar com o congresso e com o STF. Ainda que isso desagrade em um primeiro momento a sua base eleitoral, sabemos que estas manobras de controle de base não são tão difíceis de fazer, haja vista os anos em que a pauta de reforma agrária e urbana não saíram do papel e isso não ocasionou nenhuma ruptura significativa a imagem dos governos de esquerda.

Uma frase dita pelo economista Edmar Bacha, em entrevista a Folha, aponta para uma questão importante para a elite: “Bolsonaro é uma ameaça a democracia e Lula uma ameaça a economia” (entrevista completa aqui, vale a pena ler). Com estes poucos indícios e mais alguns conseguiremos desenhar um dos perigos em que estamos.

Diferente do postado por Jessé no Brasil de fato (faço aqui um recorte):

“O anti-intelectualismo também está em casa na baixa classe média. Isso é importante quando queremos saber a quem Bolsonaro fala quando ataca, por exemplo, as universidades e o conhecimento. A relação da baixa classe média com o conhecimento é ambivalente: ela inveja e odeia o conhecimento que não possui, daí o ódio aos intelectuais, à universidade, à sociologia ou à filosofia”. na íntegra em: https://www.brasildefato.com.br/2019/05/08/artigo-or-o-que-significa-bolsonaro-no-poder-por-jesse-souza

A leitura mais simplista e que chega a ser tacanha que enviesa qualquer solução é a repetição de que a base social que gira em torno do Bolsonarismo é uma determinada classe média que odeia o conhecimento e as universidades. Nem entrarei no mérito de que a veracidade desta frase e deste conceito é uma antítese para aqueles que pregam que o PROUNI e o REUNI democratizaram o ensino superior. Não é este o mérito da questão, mas sim que, não há uma base simplista em torno do Bolsonarismo, ele abraça os mais diversos tipos de apoiadores e aglutina em torno de suas pautas, nas muitas matizes que elas podem ter. A quem é da militância pode não enxergar, mas para quem é de fora, tal arauto da defesa da intelectualidade pura que condena os que não tem acesso ao conhecimento, nos coloca como um bando de arrogantes metidos a iluminados que temos a verdade em nossas mãos.

Durante a guerra traçada entre Bolsonaro e o STF, qual foi o principal movimento do establishment formado pela esquerda pelo centro e pela direita? fortalecer a institucionalidade do STF como símbolo da justiça. Sim, ele o é, mas é necessário entender para quem. Quem de nós tem acesso real ao STF? Quem de nós se reconhece em algum membro do STF? É sobre esse prisma que precisamos entender o que está acontecendo e a partir disso seremos capazes de compreender melhor porque parte significativa do povo se mantém alinhada ao Bolsonarismo.

Infelizmente a questão Brasil segue perigosa. Somos um país que não conseguiu democratizar qualitativamente suas redes de educação e cultura, e mantém parte gigante da sua população como trabalhadores passíveis de serem negociados barato. Temos hoje quase 600mil mortos por covid e milhões desempregados que ficam ao relento e entregues a própria sorte em um país sem estrutura.

Vivemos um país em forte depressão, cuja principal base econômica foi se voltar para commodities e onde há uma disputa fraticida entre uma austeridade e neoliberalismo de caráter mais internacional contra um protecionismo e nacional-desenvolvimentismo fraco. Ambas as saídas da disputa econômica corriqueira aqui tem fortes limitações. Em quaisquer situações, seguiremos sendo um país empobrecido e desigual, pois não dá pra traçar uma estratégia de solução concreta que se implemente em poucos anos e que seja capaz de resolver o Brasil no sistema global, garantir estabilidade e qualidade de vida ao povo, preservar o seu patrimônio natural e construído, sua cultura, seus biomas, entre outros sem melhorar exponencialmente nosso sistema educacional e de seguridade social.

A baixa qualidade e capilaridade do sistema educacional, e os baixíssimos incentivos em desenvolvimento em pesquisa e tecnologia atrapalham qualquer processo de industrialização de um país, um dos motores de desenvolvimento econômico dele. E esta foi nossa escolha política, fragilizar a educação pública em especial os centros de pesquisa, não considerá-los como estratégico para o projeto de nação. O salário médio de um técnico da indústria é, segundo site portal da indústria da CNI, por volta de R$2400 reais, valor extremamente aproximado a uma bolsa de pesquisador científico em fase de doutoramento, sendo que a média nacional da renda per capta é de R$ 1438,60 reais.

Outro elemento que precisa entrar na conta. O brasileiro, em quantidade razoável, mesmo que não clame pela ruptura democrática, não se importa se a mesma acontecer. Isso é muitas das vezes tratado pela esquerda com o viés que o Jessé trouxe, esse olhar que retrata o povo como alienado ou inculto que não compreende o significado disso. O que vale entender é que a alienação se alimenta pelo distanciamento das instituições, o povo em geral sabe o quão complexas e descoladas dele são estas relações institucionais na sua escala cotidiana. Sabe o que é esperar e morrer antes da cirurgia de risco ter data, sabe o que é ver um julgamento de um filho nunca sair da gaveta do juiz, sabe o que é ser achincalhado por PM que pede o do café, e sabe que STF é algo tão distante de si que habitam quase outro planeta.

Este é um dos problemas, o Bolsonarismo justifica sua incompetência e suas decisões políticas de desmonte social com base em uma máxima: – “estou tentando fazer mas eles não deixam” e isso cola. Sob esta máxima ele congrega o alinhamento de diversos brasileiros que seguem cansados e indignados e que enxergam a terra arrasada do Brasil pós-copa e o niilismo do caos político. Este ponto é crucial: porque defender um sistema institucional que te exclui? Por que defender um modelo de sistema onde a casta política e econômica gira a serviço de pagar o preço dos lobbystas que patrocinam as campanhas e demais? Por que manter o status quó do sistema social em um país onde a linha de heranças mantém os donos do poder por séculos a frente das decisões importantes da nação? O povo mesmo quase nunca foi convidado a participar do Brasil. Voar de avião e comprar geladeira inclusive não se encaixa em participar das decisões do Brasil, mas sim quem é dono, investidor ou lobista de empresas aéreas (só pra citar um exemplo), cadeia da economia que por exemplo não está desamparada pelo Bolsonaro, o que reforça a frase de Edmar Bacha: Bolsonaro não é uma ameaça a economia, na visão das elites brasileiras.

Talvez justamente por isso, todos que fazem contas eleitorais fiquem desesperados em ciclos de histeria militante. Ninguém é uma unanimidade, ninguém está derretido e 2022 ainda segue como uma incógnita. A polarização seguirá girando em torno de dois nomes a princípio. Ambos não interessam ao grande capital, mas o capital acabará sendo obrigado a tolerar um dos dois e 2023 não acalmará a crise. Então, com quem o capital ficaria? com o que ameaça a democracia mas cumpre a agenda econômica, ou com quem ameaça a agenda econômica mas cumprirá com a democracia? (nas palavras do economista, uma das vozes do BNDES).

Para o capital internacional nossa democracia representativa ou qualquer outra é um detalhe desde que a agenda econômica consiga avançar no sentido de seus interesses. Para nossas elites o caminho é o mesmo e somado a isso, a manutenção dos privilégios, para o povo fica a sobra da sobra e o risco de um futuro extremamente perigoso. A quem vive nos subúrbios e periferias, a ruptura democrática a muito que já aconteceu e estamos entregues ao relento e este povo segue sentindo que não tem mais nada a perder. Para a maioria, todos os nomes dados são iguais na sua falta de compromisso com os mais pobres e na busca de primeiro responder ao anseio das elites econômicas para depois tentar pactuar o que foi decidido lá em cima com o povo.

Qualquer alternativa ao bolsonarismo e ao partido militar precisará passar por uma ação que seja disruptiva ao processo em curso e legitimada pelo povo, não apenas o povo organizado militante, é imprescindível que avance pelo povo que se organiza por outras esferas de sociabilidade como o banco da praça, a conversa de bar, a fila do pão e do banco. Este povo que na fala de Jessé odiaria os intelectuais, mas que na real caga pra existência destes e de suas bolhas de iguais que habitam colóquios, congressos, vernissages, lançamentos de editais de fomento, e por aí vai.

Este é outro problema, a indignação popular que é capturada pelo bolsonarismo não deveria se legitimar por ele, visto tudo que ele representa, mas ela o legitima. Tem um dever nosso que consiste em trazer para a ordem do dia os motivos da indignação e sermos capazes de dar resposta efetiva a eles e não simplesmente ficarmos atônitos diante dos fatos políticos e movimentações de cúpula, acordos, cartas, aproximações. Frase que ouvi de um uber:

“o cara é muito maluco, mas muita gente desses aí que reclamam do cara podem ficar sem trabalhar, se eu parar num tem comida”.

O protecionismo do neo-desenvolvimentismo brasileiro, assim como o rentismo ou o fomento do capital internacional por si só não transferem riqueza ou qualidade de vida para a população. Precisamos repensar urgente nossas ações neste Brasil que está em jogo, onde a maioria absoluta de nós virou refém dos devaneios presidenciais e das forças políticas e econômicas que não nos tem na pauta central.

As eleições, se houverem, precisam ser muito bem traçadas para que o país retorne a um momento mínimo de calmaria, porém mais importante que as eleições são as ruas. Ali sim, onde o dia a dia do povo acontece que é preciso continuarmos as ações e o aprendizado da lida. O problema não é apenas 2022, mas sim 2023 em diante, e mais importante ainda, está em resolver a inserção dos mais pobres no centro das lutas globais enquanto protagonistas.

O impacto que importa não está apenas nas disputas dos personagens que vão gerir o país ou em quais grupos econômicos e de elite eles representam ou querem representar, mas sim na construção de uma saída concreta dos ciclos de pobreza e má distribuição de renda global, considerando a escala nacional que nos cabe. Neste sentido, qualquer manifestação em defesa da democracia precisa estar alinhada com a defesa dos pobres, precisa por em questão e em debate os limites do modelo atual.

Cabe a esquerda e aos setores progressistas se despirem dos cálculos eleitorais e das conversas de bastidores e retomar a busca de uma democracia de movimento. Precisamos nos capacitar a construir políticas desde a microescala até verdadeiras políticas de estado que fujam desta encruzilhada. Precisamos trabalhar na defesa das instituições constituídas, mas sem o olhar acrítico que acaba por romantizá-las e não por questões fundamentais sobre elas em pauta. E sinceramente, um Brasil grande ou o milagre do crescimento nem é o eixo da questão, o que precisamos mesmo é de um Brasil mais igualitário e melhor distribuído social e economicamente.

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Águas que nos afetam

A região Sudeste do país está enfrentando neste verão mais uma derrota urbana com as enchentes. O problema é histórico, inicia-se em grande parte nos processos de implantação e estruturação de cidades que não pensaram de forma coerente seus cursos d’água. Metrópoles como as do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte ao optarem por um padrão urbanístico de favorecimento do automóvel invisibilizando seus rios criaram problemas de difícil solução.

O problema se torna pior a medida em que, tempo a tempo, pouca mudança neste pensamento se modifica. Escolhemos caminhar na contramão de milênios de história, onde a humanidade buscou e vivenciou seus cursos d’água como o bem mais precioso de suas organizações sociais e aglomerações em povoados e cidades. As águas tem valor sagrado, simbólico, afetivo, de saúde, valor paisagístico, contemplativo, podemos citar inúmeros valores que não cabem reduzidos a políticas econômicas simplistas e que nem todas as prosas e versos seriam capazes de definir tamanho afeto.

As águas que tanto nos faltam hoje na cidade do Rio de Janeiro, são as mesmas que nos afetam nas cheias, resultantes de falta de planejamento urbano cuidadoso com nossos recursos naturais. O Plano Nacional de Saneamento se tornou quase uma ilusão, uma tentativa que conseguiu pouquíssimo resultado em um universo onde as forças políticas permitem que a Nestlé tome posse das águas de São Lourenço. Enquanto as forças políticas em seus níveis estaduais e municipais pouco ou nada fazem para garantir o saneamento seja em seu tratamento de esgoto, a qualidade dos recursos hídricos, a proteção das matas ciliares, APAs e APARUs, entre outros, desastres como os ocorridos em Belo Horizonte e no Norte Fluminense do Estado do Rio de Janeiro se tornaram casos previsíveis, apenas esperando a próxima chuva para acontecer.

Precisamos retomar a relação da água com a vida, recuperar as margens dos rios e córregos, tratar nosso esgoto e cuidar de nossos resíduos pluviais. Não há mistério em lidar com isso no campo da arquitetura e engenharia, apenas estamos presos na falta de vontade política para admitir que nem tudo pode ser decidido pelas forças dos mercados ou pensado como moeda de troca em uma relação de consumo. O principal valor da água não está na sua troca, mas no seu uso e no seu direito comum a todos.  Enfrentamos hoje erros urbanos de um passado recente na história da humanidade, mas ao mesmo tempo mantemos e fazemos novos erros nos momentos presentes e assim deixamos um legado triste para os que aqui virão. 

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Em memória às vítimas do Holocausto e o mundo presente

Hoje comemoramos o dia internacional em memória das vítimas do Holocausto. Manter a memória viva é importante e fundamental, em especial no Brasil, onde vemos um advento de revisionismos históricos e falácias a respeito do tema. Mas neste dia gostaria de lembrar da importância da história como forma de estruturação do pensamento no mundo presente. 

O atual sistema social, político e econômico em que vivemos construiu novas formas de opressão humana associando os diversos elos que a envolvem (étnico, cultural, entre outros). O que em parte representou o território de Auschwitz e outros campos de concentração? Faço aqui um dos recortes dentro do todo que foi o horror deste sistema. Auschwitz e outros campos similares se relacionavam e estruturavam territorialmente uma lógica de produção econômica. Sob o discurso racista que embasou o Nazismo justificou-se a criação destes territórios de segregação. Sob a disseminação da construção simbólica racista e eugenia, algo que poderia ser exemplificado com frases atuais como “o índio está evoluindo e tornando-se um ser humano igual a nós”, tais espaços foram concebidos, garantiam mão de obra escrava e descartável ao sistema que alimentavam.

Auschwitz graças a deus não existe mais, resta a memória e a história que não deve ser desconstruída ou desacreditada, porém mil formas de territorializar e oprimir o povo se mantém firme e em diálogo com os sistemas econômicos. Campos de refugiados, Guantánamo, ou quaisquer presídios brasileiros que acumulam pessoas sem sequer o primeiro julgamento, todos apontam como arquiteturas destinadas a um nível extremo de opressão da humanidade.  Se o campo de Auschwitz e similares serviram a um sistema de desenvolvimento dentro de um projeto nacional racista, não podemos negar o quanto de campos e disputas territoriais atuais podem servir ao mesmo processo, porém dentro de uma conjuntura econômica diferente onde a violência gera e retroalimenta inúmeros mercados.

As guerras (tanto entre nações como intra-territórios) seguem padrões semelhantes, criam a terra arrasada e depois abrem o espaço para que o grande investimento entre nestas terras, este é o espólio que se sobrepõe aos direitos dos povos de habitar, pertencer, vivenciar e conceber seus lugares. A desterritorialização de povos se tornaram parte de um braço rentável para o capital, seja por exemplo os campos de refugiados de Gaza que hoje se transformaram em verdadeiras cidades, ou os campos de refugiados sírios situados na Jordânia. Cada qual se adequa a uma forma de exploração da opressão humana dos povos sem lugar que tiveram suas vidas e histórias dilaceradas.

As últimas infames falas de nossos líderes de governo Bolsonaro e seu secretário de cultura trouxe ao salão a necessidade de debatermos o Nazismo e Fascismo de forma séria, e isso trouxe as redes novamente o filme arquitetura da destruição. O centro do filme demonstra como o sistema capturou o simbólico e reconstruiu a estética ao se impor na população. Esta construção de pensamento se capilariza na sociedade e se torna parte do discurso cotidiano da mesma, isso se potencializa em um país como Brasil, que não conseguiu por exemplo romper suas ferramentas de segregação e seu racismo estrutural.

Assim que palavras como a de Bolsonaro, apontando claro discurso de eugenia com relação a indígenas, ou de Alvim parafraseando Goebbels, podem chocar a muitos de nós. Estas declarações, e mais, suas ações não necessariamente afetam os mercados ou o cotidiano a ponto da queda completa do sistema. Os índios que segundo Bolsonaro “não são gente evoluída” por sua vez não serão tópico de “uma arte heroica” mereceriam o direito ao território que tem ou este território poderia ser melhor utilizado com a exploração sustentável dos ecoplans do BIG?  Enquanto isso, Bjarke Ingels se justifica aos brasileiros:

“Não podemos esperar que todas as instâncias públicas estejam alinhadas com todos os aspectos de nosso pensamento, mas podemos garantir que possamos trazer a mudança que queremos ver no mundo através do trabalho que realizamos“, afirma Ingels na nota.\” 

A nota de defesa de BIG não traz nenhum estranhamento a quem observa os caminhos do mercado internacional da arquitetura de forma crítica. Seu projeto para o Brasil por sua vez não se importa com o genocídio indígena ou as queimadas na Amazônia. Assim, aponta um imenso anacronismo ao defender intervenções ecologicamente sustentáveis junto a um governo que defende abertamente o inverso. Obviamente muito mais suave que o nazismo não quero fazer tal comparação com o BIG, porém sua defesa aponta para argumentos semelhantes aos apresentados no tribunal de Nuremberg, com uma grande diferença: BIG é um escritório liberal que pode dizer não ao Bolsonaro, diferente dos soldados que apenas recebiam ordens.Remeter a memória das vítimas do Holocausto é se dedicar para que novas vítimas e novos Holocaustos não mais aconteçam.

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Crise, distopia, luta e um novo pacto social

O mais recente relatório da OIT (Organização Internacional do Trabalho) traz indicativos de que o número de pessoas desempregadas no mundo deve aumentar cerca de 2,5 milhões, apontando assim a manutenção da crise econômica global. O relatório aponta também que é significativo o número de pessoas que hoje já não conseguem manter uma vida a partir da esfera do trabalho.

Entre alguns fatores, recortamos como o mais marcante a estagnação no crescimento da economia global. As pautas propostas pelos programas e defensores de um sistema de austeridade não conseguem alcançar resultados efetivos de melhoria, antes disso operam em viés oposto, aumentando as redes de desigualdade social nos sistemas. As pautas progressistas voltadas a pleno emprego e outros fatores também alcançam pouca efetividade atualmente em um mundo cujo padrão econômico se tornou a financeirização , a precarização, informalidade e desemprego. 

Como exemplo, cito um recorte: dados recentes do DIEESE mostram que a política de trabalho intermitente (uma das principais ferramentas da flexibilização e precarização do sistema produtivo e pautas de salvação da austeridade) não alcançou os frutos que se imaginava. Representando 0,3% do estoque de vínculos formais no mercado de trabalho, sendo que a renda mensal destes, mal alcançou um salário mínimo. Fora publicado também em Janeiro deste ano (2020) pelo DIEESE o custo da cesta básica no Brasil. Verificou-se neste que um trabalhador remunerado com salário mínimo comprometeria no mes de dezembro de 2019 em média 48,27% do salário em cesta básica. Segundo IBGE, em 2019 cerca 41% da população estava ocupando as redes de informalidade do trabalho. Estes dados indicam a super precarização (informalidade e desemprego) como um padrão que pode se hegemonizar na sociedade brasileira. Um padrão não muito diferente de outros países como Venezuela, Chile, EUA, etc. 

Quando somamos a crise econômica com o fator climático (que já se torna impossível não ser posto em pauta) percebemos que o problema é muito mais sério e envolve os caminhos estruturais do planeta.

O colapso ambiental dá inúmeros sinais de irreversibilidade, afetando principalmente os países mais pobres e por sua vez menos estruturados. A crise que está posta pode levar a humanidade a enfrentar o maior dilema ético dos tempos recentes. Quando levado em consideração a estrutura geradora, e por sua vez a relação de custo benefício da produção, percebemos que o eixo é a desigualdade. As nações ou povos que mais sofrem com a crise econômica e ambiental, são na maioria das vezes, os que menos se beneficiam das estruturas geradoras das riquezas e dos efeitos nocivos ao planeta.

O grande xeque que pode ser nosso xeque-mate ou gol de morte súbita se dá no campo ideológico onde os poderes estabelecidos não conseguem mais responder aos anseios dos povos e os povos não conseguem mais se repactuar. Para reestruturar o pacto social emergencial, devemos trocar o foco das políticas da busca insensate do crescimento econômico para a busca pelo fim da desigualdade. Este provavelmente será o caminho para o reequilíbrio da humanidade em um planeta que já não suporta a constante produção de valores de troca e riquezas que se mantém concentradas em um seleto grupo de viventes. 

Não haverá formas de pactuação social que amenizem sem um impacto radical, em um planeta cada vez mais empobrecido e sem acesso aos mínimos recursos naturais que garantem o direito a sobrevivência. A pauta que busca o crescimento teme a parada da produção constante de riquezas pois a mesma geraria o colapso do sistema vigente, porém, a continuidade desta busca eterna por crescimento também está nos levando ao colapso.

Não precisamos de mais produtos, precisamos sim recuperar o valor de uso do que já produzimos, aplicar políticas de distribuição da renda hiper-concentrada entre os que não tem, pautar a construção de bens comuns a humanidade, em especial os que garantem a continuidade da vida, como os recursos hídricos, as florestas, a universalização do direito a cidade/campo e de renda, moradia, alimento, saúde, lazer, educação direito de ir e vir sem barreiras ou fronteiras.

As lutas serão grandes, o sistema atual mostra através de suas lideranças e estruturas de controle e poder que suas políticas podem se assumir tranquilamente malthusianas caso seja preciso. Em um mundo onde a massa de desempregados e marginalizados se torna crescente e afeta de outra forma a produção do crescimento do capital e onde o capital abraçou a vida como mercadoria. Esta vida também pode ser pesada pelo custo-benefício de existir ou não. O que cabe a esta vida é lutar.

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Ser radical: voltar-se para as raízes do problema

O Brasil parece estar nitidamente em um grande stress social. Com as relações cada vez mais esgarçadas, debates a flor da pele, vemos nossos códigos de crença desabar diante de nossos olhos.
O campo progressista perdeu a imensa oportunidade de construir um sistema educacional verdadeiramente emancipatório, talvez por não ter forças suficientes diante das inúmeras municipalidades onde houve a necessidade de manter campos de coligações para garantir governabilidade. O que implica materialmente é: são décadas e mais décadas de degradação do sistema educaional no país, seja público ou privado, o que venceu parece ser uma lógica de desvalorização do professor, da importância do conhecimento.
Porém isso reflete, em realidade, o conceito de vida no qual estamos inseridos.Quando observamos as inúmeras escolas deste país, o olhar para a sua arquitetura nos revela mais similaridade destas com um presídio (que se resume em depósito de gente e não em um espaço de ressocialização) do que com algo capaz de propiciar boas relações interpessoais. Assim também são as cidades onde se povoam o ideário de condomínios-shoppings e mega vias. As possibilidades do encontro com o outro, com o diferente são constantemente minados. Este outro que,quando não e familiar, se torna uma ameaça.
A perda da esperança, o medo da ameaça é um dos principais alimentos do espírito fascista que ronda nossa sociedade. Espírito esse que é muito bem utilizado por movimentos milicianos para impor seu poder em todas as esferas que alcancem, mas que também faz vítimas como todos os envolvidos no caso da escola em Suzano (incluo os jovens assassinos entre as vítimas sistêmicas).
Se o campo progressista perdeu a oportunidade da pauta, o campo da direita nem pauta tem: balbucia sobre corte de verbas, caça a professores com a falácia do escola sem partido, e ainda conseguem fazer pronúncias públicas a favor do lobby armamentista, mesmo diante de tamanha tragédia como a ocorrida na escola Raul Brasil.
Em meio ao fla-flu mitológico de slogans, twitters, lacrações, falar merda na internet, em que fomos enfiados enquanto sociedade, há um imenso vazio. Talvez já tenha passado da hora de sentarmos na reconstrução de uma política de repactuação popular, calçada a calçada, bairro a bairro com a universalização plena dos direitos, inclusive o direito de propor, pois estamos a passos muito rápidos para a barbárie e o fascismo que caminham no desespero por tapar o buraco do vazio existencial em que a sociedade se encontra.
O que vemos nesta sociedade em que estamos inseridos é: a última coisa que precisamos é de mais armas de fogo. Antes dela, precisamos de um forte sistema de saúde com acesso amplo a tratamento psicoterápico (incluindo fortes campanhas que demonstrem a importância social deste tipo de tratamento). Outro exemplo que considero necessidade: pensar em um sistema escolar socialmente referenciado, já desde sua arquitetura que não precisa ser tão enclausurada a sociedade, e cuja pedagogia permita e favoreça o uso da cidade como espaço de educação e o uso da escola como espaço de congregação social. Claro que nenhum caminho é simples, não tem como ser. Esta é a grandeza que estamos perdendo em meio a esquizofrenia política em que vivemos. Precisamos sair dos recortes que envolvem lacrações, escrever frase de efeito no twitter, lutas publicitárias ou demagógicas, arminhas com a mão, e trabalhar com a firme realidade de que precisamos sentar para construir novas possibilidades. Tendo muita clareza de que estamos em um mundo movido por afetos como medo, ódio e intolerância só tenderá a nos levar para o buraco mais profundo.
Ao campo progressista lembro: Ser radical na letra da palavra é voltar a raíz do problema, e para tal precisamos de aprofundamento. Somos maiores do que toda e qualquer força que está nos governando, e somos muito mais plurais que qualquer nicho em que estamos inseridos ou subdivididos. Já são longos anos que o recado popular eleitoral dado é o mesmo: ninguém nos representa. Em meio a descrença, cansaço, niilismo, são muitos os motivos que levam a massa de votos pertencer a alguma negação (inclusive nas ultimas eleições onde inúmeros votos de um lado foram apenas uma forma de dizer não ao outro). É neste espectro que precisaremos reinventar os espaços democráticos populares. Mas qual a resposta ideal? não sei dizer, nem sei se existe.
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Os caminhos do urbano brasileiro

Podemos considerar que um grande legado para o urbanismo, nas últimas décadas, foi a implementação do Estatuto das Cidades por lei  no 10.257, de 10 de Julho de 2001, assinado por Fernando Henrique Cardoso, [completando neste mês 17 anos] e a  criação, no governo Lula, do Ministério das Cidades em janeiro de 2003 e da Lei nº 11.888, de 24 de Dezembro de 2008 que garante o direito pleno a assistência técnica pública e gratuita para habitação social. Embora as políticas públicas previstas e defendidas por inúmeros movimentos de luta urbana tenha sido em um primeiro momento abraçadas pelo Ministério, eem um segundo momento foram paulatinamente sendo desconfiguradas no decorrer de anos de conciliação com os poderes instituídos para manutenção da governabilidade. Ainda assim, a lei que regula o uso da propriedade urbana para fins coletivos, consolidando o direito previsto em constituição pode ser considerado um importante passo, se visto como princípio de entendimento do território como um direito de todos.

Ainda que o tempo presente leve muitos de nós a acreditar e naturalizar o direito à propriedade pela lógica comercial (somos donos de nossos terrenos), nos cabe lembrar que esta lógica é recente no Brasil. Cabe lembrar que até o ano de 1822, o domínio sobre toda a propriedade e terras do Brasil pertencia ao Rei, e este distribuía conforme seu interesse o direito à posse. Com o advento da Lei de Terras, inicia-se um primeiro passo a lógica da propriedade como objeto passível de compra e venda, porém, a mesma não revoga ou reestrutura a distribuição das terras já implementadas nos tempos das sesmarias. Desta maneira, a lógica da propriedade se inicia de forma desigual: Quem já estava assentado pela posse concedida pelo Rei conseguiu regulamentar a posse como propriedade, e àqueles que não possuíam terras passariam então a ter o direito mediante compra. O caráter desigual que se representava pela lógica real apenas se transformou para uma lógica capital. Podemos considerar que se inicia ali um grande negócio que perdura até os dias de hoje, com a geração de riqueza através da especulação da terra.

Muitas modificações ocorreram desde então, mas poucas delas (ou talvez nenhuma) afetaram a raiz do problema: A resolução da distribuição desigual implementada pela coroa real que em um curto momento se transforma em riqueza adquirida para poucos afortunados.  

Nos dias contemporâneos passamos por um peculiar processo de produção de riqueza similar. Com a lógica dos megaempreendimentos geradores instantâneos de riqueza, seja pelo solo criado desde o aumento de gabaritos a procedimentos, seja por mudanças de grandes estruturas urbanas, como inserir vias expressas no subterrâneo para ganhar a superfície como terreno. Uma nova lógica também vem se consolidando, e seguindo as novas caras do capital: a terceirização do controle do território.

Podemos pensar em um neologismo: condominização da vida. Esta lógica que pode ser encontrada desde os processos de Operação Urbana Consorciada (como no caso do Porto Maravilha no Rio de Janeiro), passando por condomínios fechados como modelo de moradia associados a shopping centers como modelos de lazer, e chegando nas classes médias baixas através da lógica de fechamentos de ruas por cancelas ou de processos de favelização. Vale ressaltar que as cidades construídas segundo modelos de privatização do espaço público, estruturadas em formas condominiais se torna cara e inviável, mantém a segregação e o ciclo vicioso do encastelamento e do medo do urbano.

As novas formas de articulação do espaço urbano, por sua vez, continuam a manter o alinhamento do processo histórico da distribuição desigual do território.  As terras, cada vez mais escassas obrigam aos poderes que por ela se interessa a mobilizar subterfúgios. A especulação cria solo, avança para áreas de proteção ambiental, propõe aumentos de gabarito sem que estes passem por um estudo prévio e real do impacto ambiental, entre outros.

           O decorrer histórico nos faz perceber que talvez apenas através da mudança das lógicas de constituição e ocupação dos territórios poderemos iniciar um processo democrático sobre a terra (seja ela rural ou urbana). É preciso entendermos o território como um bem comum. Elementos como o fortalecimento dos planos diretores participativos, execução da garantia da função social do imóvel, entre outros se tornam primordiais em uma tentativa de construir esta democracia territorial que será tão gratificante a todos os cidadãos envolvidos, direta ou indiretamente. Neste sentido, é preciso avançar mais, tanto nos instrumentos quanto nas lutas pelo uso deles. O direito a cidade é um direito universal, que pode ser democratizado com o fortalecimento da compreensão do profissional de arquitetura e engenharia como um ente público e popular, assim como, com o fortalecimento das lutas por moradia e terra. 

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A cidade contemporânea escapa de nossas mãos

        O urbano contemporâneo, resultante histórico de um grande processo de industrialização e constantes mudanças nas forças de mercado, parece ter consolidado uma lógica própria de avanços de seu tecido. Como bem observou Lefebvre, podemos dizer que a cidade se transforma em uma não cidade. Falamos  aqui de um tecido urbano que cresce em função deste novo modo de produção que se abre com o processo industrial.

        A hegemonia de um tipo de espaço que se desenvolve a partir da instalação fabril busca em primeiro lugar estar próxima das fontes de recursos naturais de sua produção e em segundo lugar [necessitam de] (ter) um caminho ágil de escoamento de sua produção. Falamos aqui de um tipo urbano que começa a privilegiar a velocidade e o movimento em detrimento do encontro  cotidiano e das pausas. 

          Ferrovias, grandes rodovias, portos, aeroportos são a menina dos olhos na relação entre os arquitetos e urbanistas e engenheiros e as estruturas de poder. Curiosamente, o mundo periférico, em uma tentativa de alcançar tardiamente este processo de desenvolvimento do capital, muitas das vezes optam por construir suas cidades favorecendo esta logística, na esperança de que as redes do capital se instalem em seus territórios. 

      O capital produtivo que se desterritorializa na sua produção, busca territórios de extração de sua matéria prima, aquíferos como no caso da América Latina, Petróleo como no caso do chamado Oriente Médio, metais e pedras de mineração como no caso da África Oeste.  

        Quando os avanços e a inovação dos modos de produção eclodem no modo toyotista, a logística se fortalece ainda mais como conceito fundamental para o funcionamento do sistema. Não precisamos mais de um centro, mas produzimos em redes que se conectam pelas teias formadas por este processo inicial.

        O extrativismo que formou a riqueza de alguns dos reinos e nações de poder subjugara material e simbolicamente povos conquistados (colonizados). É material o interesse da escravidão de povos do continente africanos que tinham perícia na extração de minérios e lida com a ferragem para levá-los a américa latina (lembramos que o Ogum de hoje é ferreiro e forjador), é simbólico a construção do racismo ao apagar a potência material destes que eram trazidos a força e decretá-los como um ser humano de menor estirpe diante da branquitude europeia. Lembremos que todos os processos de escravidão que existiram antes deste momento compreendiam o subjugo entre povos sem a distinção do fenótipo.

          A construção simbólica da sociedade urbana também ampara questões como o exótico, destinado a todos aqueles que não representavam o padrão (neste momento europeu, em um momento futuro inclui-se o Norte Americano). É este subjugo histórico e cultural que leva a indústria do miojo a adentrar em países africanos como um alimento elitizado e que leva os mesmos a trocar de seus pratos o arroz por este.

        O sistema atual de produção de riqueza alcança nos dias de hoje um novo patamar através do modelo de financeirização, cujos fluxos se tornam infinitamente mais velozes que os anteriores. De certa forma todos estes modos de produção coexistem no globo e se entrelaçam. Uma das consequências é o enfraquecimento de um território vivido e público, a vida adentra em espaços controlados, como sugere Koolhaas em um de seus famosos ensaios. Esse novo tipo de espaço nos isola de inúmeros bens comuns como o sol, os mananciais, o tempo de contemplação e dos espaços construídos que permitem as fugas e encontros do acaso e do imponderável. Também é este tipo de espaço que invisibiliza a gama de cidadãos que fazem eles funcionarem. Projetamos corredores técnicos por onde passam os trabalhadores da limpeza, pavimentos técnicos por onde passam os trabalhadores da manutenção ou elevadores de serviço.

        Para que o novo modo de produção funcione e se mantenha ele cria um novo tipo de periférico, lançando a própria sorte aqueles que não estão incluídos. Assim que uma classe média Síria se transforma em um não cidadão alojado em algum acampamento provisório na Jordânia ou um venezuelano em um acampamento em Roraima. O capital que se espalha pelo globo com o toyotismo e que hoje transforma em puro fluxo diante da financeirização, territorializa os periféricos que viviam em espaços de grande matéria prima para sua produção. O imigrante se transmuta no outro, aquele que não queremos nas nossas cidades, capitais da beleza, das normas e da cultura.
        
        O exótico é cool quando o outro permanece no próprio território, independente das mazelas que o poder que hegemoniza o globo cause neste território. Quando o outro, no desespero de sobreviver a estas mazelas, tenta fugir para os territórios que se sustentam pelas mazelas criadas ele se torna um problema: O imigrante.

       Qual a solução que se apresenta? Estrategicamente a construção de territórios de exceção, verdadeiros campos de acumulação de pessoas, o imigrante, o exótico, o outro se torna o refugiado. Uma rápida percepção do crescimento do campo de Za’atari já demonstra esta nova cidade que escapa as nossas mãos, uma singular forma de exploração do corpo humano na era da financeirização. Há uma tênue linha de paralelos entre a Senzala, os Gulags, os Campos Hitleristas, Guantanamo e Za’atari, a linha onde o outro é subjugado para que os poderes hegemônicos se mantenham hegemônicos.

         Porém, há também novas formas de resistência tática que nascem junto a este processo: praça Tahrir, Occupy, no brasil temos as ruas em 2013, em 2018 o repúdio ao assassinato de Marielle, a greve dos caminhoneiros que parou o país, entre muitas outras manifestações. São explosões táticas que surgem como um contra-poder e que em pouco tempo são massacradas pelos poderes hegemônicos. Estes por sua vez, se tornam cada vez mais totalitários na busca de sua manutenção. Nos importa ponderar que o palco destas lutas em muitos casos é o urbano, apesar de termos lutas nos territórios em seus matizes.

Campo de Za\’atari – fonte: época – 04/05/2016 –
por:Teresa Pedrosa –
 https://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/05/vidas-intermitentes-como-vivem-os-refugiados-sirios-no-maior-campo-do-oriente-medio.html



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