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O Tempo Entre os Mundos


O tempo é um elemento estruturante da vida humana e da forma como organizamos a existência. Entre cronômetros e algoritmos, a sociedade moderna se desenvolveu sob a primazia de um tempo linear, homogêneo e quantitativo, uma abstração herdada do Iluminismo e potencializada pela Revolução Industrial. Entretanto, este modelo não esgota a compreensão sobre o tempo e suas possibilidades. Ao redor do mundo, epistemologias indígenas, cosmologias africanas e saberes populares oferecem alternativas à temporalidade hegemônica, propondo formas de viver que entrelaçam passado, presente e futuro de maneira mais orgânica e integrada.


O conceito de aceleração social, demonstra como a modernidade tardia impõe ritmos insustentáveis de trabalho e consumo, fragmentam a experiência da vida e comprometem a profundidade das relações humanas. Boaventura de Sousa Santos nos traz as epistemologias do Sul, aponta a necessidade de resgatar e articular saberes ancestrais que operam em temporalidades alternativas, não subordinadas à lógica produtivista.
Diferentes sociedades tradicionais estruturam o tempo de maneira não-linear.

Povos originários das Américas, como os Krenak, veem o tempo como um fluxo cíclico onde a relação entre humanos, natureza e cosmos não está sujeita à ditadura da urgência. Tradições iorubá remetem a flexibilidade do tempo,onde passados não estão encerrados e futuros são constantemente atualizados pelas ações no presente. Esses sistemas desafiam o tempo ocidental e apontam para modos de existir que valorizam a continuidade e a coexistência na Terra.


Para construir um futuro que equilibre os saberes tradicionais com a produção contemporânea da vida, precisaremos repensar os modelos de desenvolvimento. O paradigma da “desaceleração” tem ganhado força em movimentos como o decrescimento econômico, que propõe uma relação mais harmônica com os recursos naturais e com os ritmos da vida. Práticas como a agroecologia, organizadas nos calendários naturais dos povos campesinos, a arquitetura vernacular, que respeita os ciclos materiais dos territórios, são boas formas de viver, respeitam e dialogam com as diferentes temporalidades


A degustação do tempo não é um exercício romântico de retorno ao passado, mas sim um esforço de articulação entre as possibilidades que os avanços técnicos proporcionam e a sabedoria acumulada que por milênios nos capacitam. O futuro pode ser um espaço onde o tempo não seja um senhor impiedoso, cronos que tudo devora, mas um aliado na construção de um mundo mais habitável e justo.
Tomo um café com sabor de café, leio um livro, escrevo cartas a mão. Redesenho meu passeio pela teia do tempo dentro do cotidiano. Saboreio a fumaça que sai do copo e o desgaste do grafite no risco.

Lembro-me de Gana, onde o tempo do dia se iniciava com o bater da massa do Banku. Um som que ecoava por todo o país e dava um ritmo, o som do alimento de uma nação. O trabalho vivo de produção do próprio alimento dava o ritmo, o tom, demarcação do tempo.

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A praça de Grève, reflexões urbanas com Victor Hugo


Pensamentos da leitura de Notre Dame de Paris.

Victor Hugo tem um papel imprescindível no debate sobre memória e espaço. Em Notre Dame de Paris, o autor realiza uma verdadeira ode ao caráter gótico da cidade, utilizando a narrativa para revelar as camadas de história presentes em seus espaços urbanos. Recentemente, durante uma viagem de ônibus rumo ao trabalho, me deparei com o capítulo “Praça de Grève” e fiquei tentado a refletir sobre como o urbanismo dialoga com a preservação dos vestígios históricos e a memória coletiva.

Parte 1: A Praça como Símbolo do Espaço Urbano Histórico


No capítulo, Victor Hugo vai além da mera descrição de um espaço público. Ele apresenta a Praça de Grève (atual Place de l’Hôtel de Ville), situada às margens do Rio Sena, como um cenário carregado de simbolismo e nostalgia. Historicamente palco de execuções e eventos marcantes, a praça surge como um verdadeiro repositório de histórias e emoções. Ao transitar entre o passado e o presente, o autor nos convida a enxergar cada elemento físico da cidade como parte de uma narrativa viva, na qual os conflitos sociais e as transformações históricas se entrelaçam.


A dualidade presente na narrativa, a sobreposição de um espaço marcado tanto por momentos de horror e violência quanto por mobilizações sociais, reforça a ideia de que praças e outros espaços urbanos são pontos de convergência para a transformação social.victor Hugo, ao descrever esses ambientes, enfatiza a necessidade de preservá-los e revitalizá-los, pois são verdadeiros símbolos da cultura e e da memória de uma cidade.


Parte 2: O Legado na Valorização do Patrimônio e do Gótico


A beleza da obra de Victor Hugo reside na sua contribuição para a conscientização sobre a preservação do patrimônio histórico. Em Notre Dame de Paris, Hugo celebra a arquitetura gótica como elemento central da identidade cultural de Paris. Ao descrever a catedral e seus arredores, o autor destaca a grandiosidade e a complexidade desse legado arquitetônico, transformando-o em personagem dentro da narrativa.


A estética gótica, com suas altas arcadas, vitrais coloridos e imponentes contrafortes, é apresentada como um verdadeiro repositório de memória e experiências coletivas. Essa valorização não só encantou gerações, mas também inspirou movimentos de restauração e conservação, como o realizado por Eugène Viollet-le-Duc na reabilitação de Notre Dame.


Hugo utiliza o cenário urbano para enfatizar a importância de preservar a história e os espaços que a abrigam. Ao resgatar elementos que definem a identidade de Paris – desde monumentos imponentes até praças repletas de eventos históricos – o autor propõe uma reflexão profunda sobre o valor intrínseco do patrimônio. Para o urbanismo contemporâneo, essa abordagem ressalta que cada espaço preservado contribui para a construção da memória coletiva e da identidade cultural de uma cidade.


A influência de Notre Dame de Paris ultrapassa os limites da literatura, impactando políticas de preservação e o olhar crítico sobre a arquitetura histórica. Victor Hugo não apenas enriqueceu a narrativa literária, mas também transformou a forma como entendemos e valorizamos os espaços urbanos, pavimentando o caminho para uma abordagem que integra análise crítica, preservação e valorização cultural.


Considerações Finais

Victor Hugo nos oferece uma visão multifacetada do espaço, apresentando-o como um elemento vivo e repleto de significados. Sua narrativa não só enriquece a literatura, mas também dialoga de forma profunda com os princípios do urbanismo e da preservação do patrimônio. Ao valorizar o gótico e cuidar da memória, Victor Hugo estabeleceu um precedente que continua a influenciar tanto as políticas urbanas quanto a percepção cultural dos espaços históricos. Ele revelou que a memória está em constante disputa, mostrando que cuidar do passado é essencial para a construção de um futuro que respeite a vida coletiva das cidades.


Como blog gosta de lista, segue uma pequena lista:


1 Amplie seu repertório cultural: Estude literatura, música e história para enriquecer sua visão e inspirar projetos com referências profundas e diversas.


2 Busque a interdisciplinaridade: Integre conceitos de diferentes áreas do conhecimento, assim como Victor Hugo uniu a arte literária à história e à cultura, para criar obras com significado e originalidade.


3 Valorize as narrativas históricas: Entenda que a história e a cultura, presentes em livros e músicas, oferecem lições valiosas para a construção de espaços que dialoguem com o passado e o presente.


4 Inspire-se em outras artes: Assim como a estética gótica foi resgatada por Victor Hugo, encontre na música, na literatura e em outras manifestações artísticas elementos que possam transformar e enriquecer seus projetos.


5 Crie pontes entre disciplinas: Use o conhecimento adquirido em diferentes frentes para desenvolver soluções inovadoras e contextualizadas, contribuindo para a preservação e valorização do patrimônio cultural urbano.

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