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Leopoldina sitiada: Cidade Maravilhosa Despedaçada

O Rio de Janeiro é uma cidade que constantemente desafia a nossa capacidade de se chocar. A mais recente dessas provocações veio na forma de um vídeo: um cidadão baleado na cabeça, sentado dentro de um ônibus na Avenida Brasil, em um dia marcado por intensos tiroteios que sitiaram cinco bairros inteiros. Em respeito à dignidade da vítima e de todos nós, me recuso a compartilhar essas imagens.

Cinco estações ferroviárias foram fechadas: Penha Circular, Brás de Pina, Cordovil, Parada de Lucas e Vigário Geral. Além disso, 35 linhas de ônibus tiveram suas rotas fortemente alteradas ou suprimidas. Com isso, a conexão entre a Zona Oeste, a Zona Norte, a Baixada Fluminense e o Centro da cidade ficou seriamente comprometida, sob a constante ameaça de violência.

O bairro de Brás de Pina, parte da Vila Guanabara, conhecida como a “princesinha da Leopoldina”, tem uma história marcada por sua pujança econômica. Seus casarios neocoloniais e o traçado urbano que, visto de cima, lembra uma colmeia, fazem parte de uma área que também abriga uma comunidade que resistiu às remoções da era Lacerda e foi palco da primeira urbanização de favelas da cidade. Porém, hoje, esse território luta para sobreviver à expansão de um poder paralelo que se alimenta do fundamentalismo.

Há uma incompreensão generalizada sobre o que realmente compõe o chamado Complexo de Israel. Muitos reduzem sua presença apenas às áreas de favelas, mas o fenômeno se estende também às áreas formais dos bairros, controlando grandes glebas e impactando toda a região. Desde 2009, venho afirmando: se o fundamentalismo se enraizasse no Brasil, seria a partir do neopentecostalismo. O que vemos no comando do “Exército de Israel” é a materialização desse presságio. Bairros inteiros estão sob seu domínio, com tecnologia bélica de ponta, oferecendo uma gama de serviços básicos e impondo regras próprias sobre o território. O grande dilema é que, ao contrário de uma ocupação meramente estratégica e material, o Complexo de Israel opera em uma espécie de guerra santa, como se parte da Zona da Leopoldina tivesse se tornado uma representação de uma “Israel divina” sob a qual todos temos de nos submeter.

O mais impressionante é o aparente desinteresse do poder público em assumir a responsabilidade que lhe cabe: retomar o controle territorial. Essa ação deveria superar qualquer divergência ideológica, pois a realidade é simples e direta: onde o Estado não exerce seu poder de governança, outros poderes assumirão esse papel. Nesse território, fica nítido que o Estado perdeu o controle.

Não adianta aqueles que influenciam e organizam economicamente esta cidade tratarem este problema como um mal menor. O aparato publicitário que favorece as políticas de cidade criativa, hub cultural, cidade global e turística não se ampara quando imagens como as do dia de hoje se tornam um padrão da cara da cidade. É preciso que estas forças econômicas compreendam que um problema de Brás de Pina, da Cidade Alta, de Cordovil, de Lucas é um problema da cidade, tal qual o é o problema do Leblon, de Ipanema, Catete. Não há campanha de Cidade Maravilhosa que resista a tragédia humana que está sendo o dia de hoje para esta região.

A Terra de Pixinguinha, está gritando socorro, sequestrada e sitiada pela loucura da barbárie de um projeto de Brasil que deu errado. Povo sem acesso a escola, transporte, segurança, saúde, espera a pausa das balas, um momento imponderável, para arriscar-se nas ruas em busca de sua luta diária por sobrevivência, sem saber se no fim do dia chegará em casa. Sabemos que a saída não é simples e precisará de uma ação sistêmica, trazendo para as decisões vários atores sociais. assistência social, segurança pública, poderes econômicos, entre outros precisarão operar em uma modelagem de estado que recuperem o território e o desejo de vida dos citadinos transformar novamente o espaço que hoje é do medo, em um lugar desejado pelos seus.

A gramática da guerra santa, da intolerância religiosa e do controle divino sobre o território apagam quaisquer possibilidade de reconstrução popular. Aos que moram nestes bairros tem restado o medo diário e a nostalgia de dias melhores que já foram vividos, dias que Dolores Duran aprendeu a tocar piano na aprazível princesinha da Leopoldina.

foto de autoria própria: Avenida Arapogi e suas águas.
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