artigo, cultura, filosofia de vida, Inteligencia Artificial, pensamento, política

Algoritmos Sociais: Quem Escreve as Regras que nos Guiam?

Dando sequência ao texto anterior, sigo explorando temas que não inseri naquele, mas que refleti a partir da literatura de Asimov (somado às outras coisas que li na vida).

Podemos definir algoritmo como uma sequência finita de instruções claras, quando seguidas, levam à solução de um problema ou ao alcance de uma meta. A partir dessa ideia, gostaria de explorar o conceito para além de sua conotação técnica e matemática. Pensando no algoritmo como um paradigma global, podemos agenciá-lo como um processo estruturado, onde as condições iniciais geram resultados previsíveis a partir de alguns passos lógicos.

Podemos, então, falar em “algoritmos sociais”?

Esse é o ponto central deste texto. Vale lembrar que este é um texto reflexivo, e não uma pesquisa científica formal. Com isso, dou-me a liberdade de explorar ideias originais, sem a necessidade de rigor científico, ainda que seja uma tentativa de produzir conhecimento, e dou-me também o direito de estar equivocado. Voltemos, então, às elucubrações.

Uma “organização algorítmica” da vida implicaria na existência de regras e padrões que regem o comportamento coletivo e individual em uma sociedade. Pensando assim,  convenções sociais, normas culturais e até sistemas econômicos podem ser vistos como algoritmos sociais, pois seguem preceitos que moldam as interações humanas.

As redes sociais são um exemplo contemporâneo de como os algoritmos impactam a sociedade. Eles filtram, priorizam e promovem informações, influenciando comportamentos e opiniões. Surge, então, uma crise: estamos sendo controlados pelas corporações que detêm os algoritmos?

Expandindo essa reflexão, podemos dizer que qualquer contexto social com processos estruturados de interação ou decisão opera dentro de “algoritmos sociais”. Eles podem ser explícitos, como regras de conduta, ou implícitos, como preconceitos culturais que orientam decisões.

Legislações, por exemplo, podem ser vistas como uma forma de algoritmo social, pois estabelecem regras formais que orientam as ações das pessoas. Assim como um algoritmo processa informações de maneira determinística, as leis processam entradas legais e produzem saídas específicas, como sanções ou recompensas. O novo aqui não está apenas em controlar o ambiente, mas nos corpos e nas disputas que se dão dentro desse ambiente.

No caso dos algoritmos digitais, seu impacto é evidente na circulação da informação, influenciando decisões políticas e de consumo. Eles intensificam a desterritorialização e criam rupturas nos contratos sociais e democráticos.

Diante disso, surge a questão da neutralidade desses sistemas. Assim como os algoritmos digitais carregam intenções e vieses, as leis são escritas por pessoas com poder político e econômico, refletindo interesses e desigualdades. A velha máxima prevalece: quem controla a escrita, detém o poder.

Mas, se não sabemos quais regras nos guiam, como saber para onde estamos sendo levados? Aqui surge um equívoco comum: assumir uma regra: o controlador é inimigo e negar o sistema por completo. Fechar o mundo iniciado por Alan Turing é impossível, uma luta quixotesca. A disputa concreta creio que está no direito à escrita, no poder de sermos os autores de nossas próprias leis.

Assim, o discurso das redes abertas precisa ser retomado. Devemos trilhar dois caminhos: a curto prazo, compreender os algoritmos que nos cercam; a médio prazo, garantir o direito de escrever nossos próprios algoritmos.

No conto Andando em Círculos, de Asimov, o personagem principal, diante de um movimento robótico que parecia um bug, precisa fazer uma operação inteligente. Ele para, lembra das três leis da robótica, investiga o fato estranho e a partir do debruçar intelectual encontra uma saída original para si. O conto não mostra que, ainda que um algoritmo tenha sido produzido pra dar um resultado enviesado, ele possui linhas de fuga diante da investigação profunda e original.

O filme Bill e Ted é outro que explora de maneira divertida o poder do algoritmo. Bastou uma regra resumida em uma frase adolescente, e o futuro encontraria a paz mundial: “Sejam excelentes uns com os outros”.

A disputa urbana de uma smart city passa por aí, disputarmos o sistema lógico de gerenciamento automatizado da cidade, sem negá-lo como algo útil. O que precisamos é fazer parte de quem governa a produção das regras, ou ao menos ter as regras escritas de forma aberta para que possamos investigar os processos.

Estudar os algoritmos, tanto em seu sentido técnico quanto social, nos ajuda a entender como sistemas de regras influenciam a dinâmica social, muitas vezes de maneira invisível ou intencionalmente projetada. Também nos aprimoramos para construir os novos sistemas de interação política e social que virão a estruturar o mundo. O grande barato é vermos que algoritmo não é algo novo, hermético e complexo. O que não faz torna-lo um vilão, é que estamos excluídos do direito de comunicação, que por sua vez dificulta um direito de ação.

Desenho autoria própria só para alegorizar o texto.
Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, brasil, filosofia de vida, política, Saúde

Queimadas, a Terra do Fogo e o fim do Futuro

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Brasil registrou mais de 90 mil focos de incêndio apenas na Amazônia em 2023, um aumento alarmante em comparação aos anos anteriores. No Cerrado, os números também são preocupantes: cerca de 60 mil focos no mesmo período. Esses números expõem uma crise ambiental alimentada de maneira significativa pelo modelo atual de agronegócio, que favorece a expansão da fronteira agrícola em detrimento de florestas e matas nativas. Expansão está, muitas vezes, feita à base de arranjos políticos somados ao fato de que temos uma elite com sistemas cognitivos encurtados, pessoas que não conseguem compreender o mundo de maneira sistêmica e se satisfazem com o fetiche do luxo.

O agronegócio é o motor econômico brasileiro, impulsiona o PIB e muda a cara de cidades pequenas e médias Brasil afora. Mas o modelo em voga, ao manter a ênfase em monoculturas e pecuária extensiva, fomenta o desmatamento e as queimadas. A prática de “limpar” áreas com fogo para plantio ou pastagem ainda é recorrente e se agrava pela falta de fiscalização eficaz. Além disso, a flexibilização das leis ambientais e o enquadramento dos órgãos de fiscalização, como o IBAMA, permite que essas práticas predatórias avancem sem punições adequadas.

Para além dos danos ambientais, o que já é inaceitável para um País com os biomas estratégico para o Planeta como o nosso, essa relação direta afeta a saúde pública devido a emissão de substâncias poluentes, contribuindo para a mudança climática e prejudicando o comércio internacional, que se propõe cada vez mais sustentável.

Isto é, não precisamos sequer apelar à consciência dos fomentadores do agro, a própria economia mostra que o caminho que percorrem terá um desfecho péssimo. A competitividade do Brasil no mercado global se põe em risco, pois cada vez mais consumidores e investidores bloqueiam negócios com quem tem práticas como as que o Brasil mantém. Dentro desta conjuntura internacional, logo nosso modelo que produz: poluição, aquecimento global e alimentação ultra processada se tornará antiquado e indesejado deixando como resquício a imensa sobrecarga no sistema de saúde pública devido às inúmeras doenças que ele acarreta. 

É inviável reverter esse cenário sem um esforço nacional que vá além de medidas paliativas e emergenciais. Algumas sugestões:

  1. Revisão do Código Florestal : É crucial revisar e fortalecer o Código Florestal, garantindo que as áreas de preservação permanente e de reserva legal sejam efetivamente protegidas, inclusive ampliando estas demarcações para que recuperemos terras perdidas. Isso implica em maior rigor na fiscalização e na aplicação de multas para quem desmata ilegalmente.
  2. Incentivo à Agricultura Sustentável : Redirecionar políticas de subsídio e crédito para práticas agrícolas sustentáveis, como sistemas agroflorestais e integração laboral-pecuária-floresta (ILPF). Esse modelo promove a recuperação do solo e reduz a necessidade de abertura de novas áreas para a agricultura.
  3. Tecnologia e Inovação no Combate a Incêndios : Investir em tecnologias de monitoramento e combate a incêndios, incluindo satélites, drones e inteligência artificial, que permitem a detecção precoce e a resposta rápida aos focos de incêndio. Além disso, o treinamento e a capacitação das brigadas de combate ao fogo são essenciais.
  4. Valorização da Floresta em Pé : Criar mecanismos de valorização econômica da floresta em pé, como o pagamento por serviços ambientais e o mercado de créditos de carbono. Isso gera um incentivo econômico para o produtor preservar a vegetação nativa do que expandir a agricultura predatória.
  5. Educação Ambiental : Promover e ampliar programas de educação ambiental nas comunidades rurais e urbanas, conscientizando sobre os impactos das queimadas e a importância da preservação dos recursos naturais. A formação de uma consciência coletiva é essencial para mudar comportamentos a longo prazo. É preciso que o meio ambiente esteja de forma clara na grade curricular. 
  6. Saúde preventiva : Promover o monitoramento integral e sistêmico das relações entre doenças e o ramo de atividade econômica do agronegócio. Aumento de doenças causadas por problemas respiratórios, calor e doenças causadas pelos produtos lançados no mercado para consumo da população.

As queimadas são um desafio estrutural que envolve o futuro do nosso desenvolvimento econômico e social. Na atual esfera da emergência, somos obrigados a reavaliar o modelo e adotar políticas que assegurem um equilíbrio entre a produção agrícola, posse de terras e a preservação ambiental. Como já anunciavam os zapatistas, “nada é impossível para quem não tem nada a perder”; e estamos, agora, na iminência de perder tudo: nossa terra, nossa água, nosso ar. O Brasil está em uma encruzilhada, onde resistir já não é mais uma escolha, mas uma necessidade urgente. Só assim será possível garantir um futuro sustentável para as próximas gerações. Na verdade, só assim será possível garantir algum futuro — um onde a fumaça que cobre os céus sejam só uma triste memória e não o nosso destino.

Standard