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O SUBURBANO VAI À PRAIA

Um tipo corriqueiro de notícia acontece em todas as proximidades de verão: a disputa da cidade pelo direito de uso e frequência da praia. Quando observamos no decorrer do tempo, percebemos que este movimento não constitui fatos puramente locais ou um casos isolados. O que se constrói mesmo é um organização simbólica da praia como um direito de todos os cidadãos. O Rio conhecido como cidade balneário, apesar de ter assassinado suas duas baías, define o controle social, todos os cidadãos podem utilizar da praia mediante uma certa forma de se ser e se portar, mas o principal é que ao invés da praia ser entendida como pertencente a todos os cidadãos ela é entendida como pertencente aos moradores do bairro.

O texto abaixo foi um fragmento da dissertação defendida: Rizomas Suburbanos: possíveis ressignificações do topônimo Subúrbio Carioca através dos afetos de 2015, mais precisamente nas páginas 67 a 69. Segue o fragmento na íntegra:


Quando falamos de Subúrbios Cariocas e disputas territoriais, percebemos que a ida à praia representa notório conflito na cidade. Fazemos uma ressalva de que problematizar e se aprofundar nas questões associadas ao uso e apropriação da praia exigiria outra pesquisa. O que demonstramos aqui é como as subjetividades podem ser traçadas a pela imprensa e que discursos são ditos com isso, ou ficam marcados através disso. Neste ponto, levantamos algumas notícias de jornais datadas entre os anos de 1969 e 1991 que nos remete a estes conflitos.

Algumas notícias de jornais:

Ida à praia nos Subúrbios é uma excursão e uma aventura.
A maioria dos suburbanos passa a semana de olho no boletim meteorológico,
planejando nos mínimos detalhes um banho de mar e uma praia no fim de
semana, junto com a mulher e os filhos. (…) Sete ou oito horas da manhã, eis
o suburbano desembarcado com mulher, filhos e mochila na praia de Ramos,
onde a condução para a volta é mais fácil ou nas outras na ilha do governador
após enfrentar uma fila maior nos terminais de coletivos (…). Atravessar a
praia de volta foi a mesma coisa da chegada(…)Na Avenida Brasil a confusão
era total. Motoristas de taxi brigando com seus colegas das Kombi(…). As filas
de ônibus intermináveis (…) Novos protestos, mais empurrões e recomeça a
luta por um lugar no coletivo(…)finalmente chega em casa(…)ele, com o corpo
ainda pegajoso da água suja do mar, as costas ardendo das queimaduras do
sol, resolve tomar uma cerveja no boteco da esquina e contar aos amigos as
suas extraordinárias aventuras na praia (O GLOBO 06 de janeiro de 1969).

Zona Norte terá em janeiro novos caminhos para a Barra – Na
primeira quinzena de janeiro estará bastante facilitado o acesso as praias da
Barra da Tijuca, principalmente para os moradores da Zona Norte e dos
Subúrbios(…) (O GLOBO, 11 de dezembro de 1972).

Depois da praia, na Barra, a difícil volta aos Subúrbios – (…) equipados
com pedaços de pau e até mesmo uma barra de ferro, inspetores e motoristas
realizavam a difícil tarefa de empurrar o maior número de banhistas para
dentro dos ônibus (…). As empresas só sabem reclamar, mas não colocam
mais ônibus para o subúrbio. O que acontece é isso aí: os banhistas ficam
irritados e terminam tumultuando o embarque e a viagem. Na entrada, perto
da descida do viaduto que liga a Barra ao túnel do Joá, mais de uma centena
de passageiros se aglomerava no ponto de parada, mas poucos conseguiam
embarcar(…) (O GLOBO 17 de novembro de 1975).

Praia da Urca: um sufoco em todo fim de semana: – Para moradores,
verdadeiro transtorno: Alguns moradores da Urca estão revoltados com o que
eles consideram uma verdadeira invasão suburbana que toma conta do bairro
durante os fins de semana. (…) Iasmim se queixa dos problemas causados
pelos suburbanos. – Eles fazem parte de um outro nível de pessoas com as
quais não queremos conviver (…). Os moradores da Urca são tradicionais e
não gostam de se misturar. Não sou contra os suburbanos, mas acho que
deveria haver um espaço delimitado para eles. (…) O número de suburbanos
é enorme e o clima muda completamente. A praia fica cheia de uma gente
esquisita, que deixa uma sujeira incrível. (…) a maioria dos moradores se sente
“roubada” no seu espaço (O GLOBO 03 de fevereiro de 1987).

A viagem dos surfistas do subúrbio – Moram perto da praia, mas estão
há uma hora e meia das areias da Zona Sul. Perto do mar e longe das ondas,
eles são os surfistas do subúrbio, que de ônibus ou de carona viajam mais de
20 quilômetros para chegar à Barra da Tijuca e esquecerem da poluída e calma
praia de Ramos. (…) (O GLOBO 17 de fevereiro de 1991).


Quando lemos os relatos das idas e vindas, não importando a data, aparecem questões similares que envolvem problemas de mobilidade urbana e estranhamentos sociais. O primeiro relato de ida à praia que encontramos cita as praias suburbanas balneáveis de Ramos e da Ilha do Governador (que na notícia de 1991 já se apresentam poluídas). Segundo as reportagens, a ida à praia é ao mesmo tempo “excursão”, “viagem” e “uma aventura suburbana” para os que vem dos Subúrbios, e uma “invasão suburbana” para os que são da Zona Sul. Isso não quer dizer que há um antagonismo direto, haja vista que uma notícia se refere à ida às praias suburbanas e outra à ida às praias da Zona Sul, sem contar no distanciamento temporal que as separa.


É interessante notar que o personagem principal – “o suburbano” – em todas as notícias é visto de um ponto de vista externo, reforçando a experiência do exótico. Aqui, o suburbano se assemelha muito ao estereótipo estampado na charge de 1916. O suburbano é este anônimo que leva a família para ficar o dia inteiro na praia, sofre para conseguir condução, mas que embora chegue em casa com “o corpo ainda pegajoso”, decide parar no botequim para contar suas desventuras.


As notícias de 1972 e 1975 se correlacionam tanto no tempo como no espaço, se por um lado, em 1972, era apresentado com vislumbre a abertura da Barra da Tijuca à Zona Norte e Subúrbios, a notícia de 1975 contradiz o resultado proposto ao demonstrar que os mesmos problemas de acesso da praia aos Subúrbios, relacionados à mobilidade urbana, ainda persistiam.


A questão da falta de estrutura urbana para suportar tal movimento já tradicional nos verões da cidade é sutilmente disfarçada nos jornais como um problema do usuário, no caso o suburbano. Com isso, subvertem-se as propostas populares, de forma que a falta de transporte para atender a demanda não seja vista como um problema para a parte “não suburbana” do conflito, mas sim como uma solução plausível.


Assim, cortar transporte público se tornaria um meio de garantir a “delimitação de um espaço próprio para eles”, que na condição de “gente esquisita”, são parte de “outro nível de pessoas” com as quais “não se quer viver”, e que estes, apesar de morarem “perto da praia” (Ramos e Ilha do Governador), precisam andar “uma hora e meia para atingir as areias da Zona Sul”.


Entendemos que há um peso pejorativo na questão do suburbano quando este tenta se deslocar do território. Ainda que a praia seja um espaço público direito de todo cidadão, o suburbano é tratado pela imprensa como aquele que não deveria estar lá. Isso se reflete em diversas desconfianças urbanas, onde projetos como o Piscinão de Ramos ou o Parque Madureira são interpretados como um meio de afastar o suburbano da praia e imobilizá-lo em seu território. Citamos aqui uma notícia49 recente sobre a inauguração da praia do Parque Madureira:

(…) se a natureza não facilitou a vida dos moradores da Zona Norte — e a ida à orla pode ficar mais complicada com a diminuição das linhas de ônibus para a Zona Sul —, a solução deve surgir como um presente do Dia das Crianças (O GLOBO, 16 de setembro de 2015).

Elucidamos que há um potencial processo de captura das significações da praia. Ao observarmos os dados da extensão de praias na cidade, temos que as praias que vão da Glória até Grumari possuem 39,53km, enquanto as praias municipais referentes à Zona Norte, Baía de Sepetiba e Ilha de Paquetá somariam 44,82km de extensão, conforme dados levantados no IPP. Podemos constatar, portanto, que seria um mito relacionar os Subúrbios Cariocas a lugares sem praia, assim como sem privilégios naturais.


Importante notar também como esta subjetividade colabora com a estratégia de uso não balneável das duas baías da cidade do Rio, Baía de Sepetiba e Baía de Guanabara.


O Rio de Janeiro tem o privilégio raro de ser uma cidade banhada por duas baías, cujas políticas historicamente as negaram. Ambas foram utilizadas como fundo, porta de serviço da cidade, hoje seguem poluídas, mesmo após Rio 92, Rio +20, Rio Olímpico, Rio Capital Mundial da Arquitetura. Assim, segue o descaso e a marca da segregação urbana na qual nos inserimos.

Praia de Sepetiba 1970 – arquivo nacional extraída de : https://saibahistoria.blogspot.com/2018/06/o-rio-comeca-em-sepetiba.html

imagem destaque, fonte: https://www.facebook.com/Coreto-de-Sepetiba-Rj-668294449888034

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AVENIDA BRASIL E CENTRO NO ALVO

O Rio de Janeiro tem vivido uma ebulição de movimentações especulativas que estão sendo lançadas separamente, mas que precisam ser lidas conjuntamente para melhor compreensão nossa. É notório que os atuais movimentos da prefeitura só terão resultado perceptível em um prazo longo de tempo. A prazo curto o principal movimento parece ser o realinhamento dos instrumentos da cidade para favorecer o setor imobiliário e de construção civil.

Citamos aqui apenas algumas propostas que nos permite pensar o que está sendo e o que será desta cidade daqui pra frente. Antes de mais nada, importante recortar que as condições de possibilidades desta escrita tem como base o que é publicado em jornais, magazines, círculos de debates entre outros.

Entre alguns movimentos:

  • Forte proposta de reaproximação do capital imobiliário no Centro da Cidade,
  • Aumento de potencial e interesse imobiliário para os bairros da Zona Norte próximos ao Centro e para os bairros da Zona Sul,
  • Venda de próprios públicos para a iniciativa privada, através de leilões,
  • Flexibilização de legislação e de parâmetros urbanísticos e de fiscalização,
  • Flexibilização de legislação de bens tombados e preservados.

Antes de adentrarmos, um elemento importante quando falamos das pressões da especulação, está na direção e sentido pra onde a cidade investe. O Rio de Janeiro pode ser lido (simplificadamente) por dois mega vetores de expansão, do seu centro caminhando para as praias oceânicas é definido o lugar da burguesia, das elites, das classes médias mais abastadas e do seu centro pro interior das baías (Guanabara e Sepetiba) é destinado aos moradores mais pobres, às indústrias e etc. Este desenho, que se iniciou ainda em tempos monárquicos, moldou o que Zuenir veio a chamar de cidade partida, e o que entendemos por cidade segregada.

Porém num dado momento, esta cidade que sempre teve seu Centro no seu recanto histórico de fundação, recebe com a proposta modernista de um levar sua centralidade para a Barra da Tijuca. Aqui, uma fronteira de disputas se abre e explica certos movimentos políticos contemporâneos. Pro carioca por exemplo, já é costumeiro ver o entra e sai de governos e ver que um ou outro território é a bola da vez dos grandes investimentos: Barra da Tijuca ou Região do Centro da Cidade.

Nos importa também colocar outra questão para o debate: A maioria das movimentos especulativos imobiliários não são feitos para atender as demandas materiais e diretas da cidade. Antes disso, eles se comportam como um dos atores que moldam os desejos que impulsionam esta demanda. Quem não conhece uma história de um parente que tinha terreno na Barra e vendeu pra comprar uma casa na baixada porque a Barra só tinha mato?

É importante a gente não naturalizar este tipo de funcionamento do movimento imobiliário, vai nos ajudar a encaixar muitas peças. Entre elas algumas perguntas a serem feitas:

  • Faz sentido para uma cidade que não tem grande demanda de ocupação investir em maior verticalização e ocupação?
  • Faz sentido o direcionamento habitacional ser prioritariamente para classe média em uma cidade onde o maior problema habitacional está na falta de política para os mais pobres?
  • Nosso real problema é a falta de pessoas ou a hiperconcentração dos recursos das terras?

Projetos como o Reviver Centro ou a Zona Franca Urbana da Avenida Brasil, quando juntados com a venda de próprios públicos, entre outros já citados, dão a iniciativa privada a liberdade de moldar a espacialidade da cidade sem que haja necessidade de grandes diálogos com os demais setores sociais que compõem. Citemos aqui as palavras do secretário de habitação ao jornal CNN:

“A gente oferece uma área de zona franca e o setor privado pode definir o que pode ser feito. A ideia é que a gente tenha uma região muito livre, mas sem deixar de lado a preocupação com o patrimônio”, disse o secretário municipal de Planejamento Urbano, Washington Fajardo”. ref: CNN(clique aqui)

Este pensamento redefine os modos de praticar o trabalho em urbanismo. Através dele assume-se o modus operandi protagonista do sistema privado de organizar, planejar e projetar o espaço. As ferramentas e operações propostas pela prefeitura promovem um caráter de gestão onde a lógica da iniciativa privada passa a ter um canal preferencial na construção do pensamento da cidade. Vale entender que isso não é novidade, o urbanismo sempre esteve nesta lógica: grandes intervenções em geral são frutos de grandes investidores privados. Se há novidade, ela passa pela readequação do instrumento estatal ao novo modelo de negócios.

Talvez uma diferença importante a cogitar está no fato de que, já faz tempo que a participação popular nas decisões sobre seu território fora minada, a bola da vez dos modelos atuais parece ser a participação estatal. Muito significativo de se perceber esse movimento a cada nova medida implementada, seja nacionalmente pelas propostas da reforma administrativa, seja no município pela redução do peso dos órgãos de controle, planejamento e fiscalização da prefeitura. Assim, mesmo que o novo Centro vingue, ele seguirá referenciado numa lógica financeira e econômica da Barra-tijucanização da vida que vigora nos dias atuais.

Há um ponto que é crucial. Não há debate real sobre o público, mesmo os grupamentos mais fortes de resistência que tendem a esta busca esbarram no desencaixe e imobilidade com relação ao povo. E este desencaixe atua de maneira firme. Se hoje um governo passa o trator pensado quase sem resistência ou contraproposta de amplo amparo popular, em muito se deve ao descaso ou falta de interesse ano a ano dos grupos organizados em lidar com as questões da cidade de forma mais ampliada.

É curioso ver como por exemplo, setores mais progressistas desta cidade deixaram parte significativa do território mais pobre ao relento de políticas clientelistas que ocorriam praticamente invisíveis da opinião pública. E foi neste setor de controle clientelista que a base simbólica do modelo de cidade atual foi legitimado. Foram anos de venda do sonho Barra da Tijuca, quem não lembra das famosas crises entre os Emergentes da Barra (termo usado pra distinguir esta classe média em ascensão da tradicional classe média zona sul)? Assim o que temos hoje? Uma parte importante de resistência organizada, muitas das vezes de base também na classe média que não consegue se aprofundar nos códigos das populações mais pobres pra entender quais são suas reais demandas, anseios, símbolos.

Se o sonho americano é a casa em um suburb, o sonho carioca a partir dos anos 70 é morar no condomínio próximo ao mar oceânico, passear no shopping, curtir a tardinha no bar famoso. Nisso o Centro também perde simbolicamente, afinal, as águas do Porto Maravilha são as mesmas da Praia de Ramos.

A volta ao Centro não mobiliza tanto as massas mais pobres da cidade, o que é uma tragédia pois se há um vetor de crescimento e renascimento para o Centro seria justamente romper com a lógica das distinções sociais e trazer os mais pobres para ele, o que permitiria uma dinamização econômica da cidade pela cidade, pelos seus cidadãos.

Este desencaixe causado pelas disputas entre barra e zona sul, entre movimentos predominantemente de classe média organizados progressistas e retrógrados torna os debates ainda mais difusos, pois parte vulnerável da cidade fica a mercê de qualquer loucura. Para um lado da cidade qualquer proposta pode rolar (vide um BRT) e fica fora da agenda de discussão e de defesa pelos setores organizados. Este debate fica enfraquecido pela ausência de um movimento de massa, o que torna toda discussão muito mais complexa.

Outra coisa pesa nestes projetos também é a escala em que as coisas acontecem e isso é histórico. Para haver interesse do setor privado, é preciso haver possibilidade de lucro, e isso muitas das vezes se dá no aumento da escala. Porém, os exemplos mostram que este tipo de operação demora décadas pra se consolidar e nem sempre dão o resultado prometido. A abertura da Avenida Presidente Vargas por exemplo, que ocasionou a expulsão dos mais pobres para as áreas suburbanas reflete bem isso, até hoje a avenida não teve seus vazios urbanos plenamente preenchidos, não se contemplou como tal, o Porto Maravilha (este mais recente) também não. Sinais de uma cidade que não tem esta demanda toda que se deseja e em nome da qual leiloará próprios públicos e flexibilizará legislação.

A enunciar uma propaganda:

A Avenida Brasil vai voltar. Uma das propostas do novo Plano Diretor da cidade é criar a Zona Franca Urbanística (ZFU) da Avenida Brasil. Isso significa que, numa faixa de 500 metros pra cada lado da avenida, não haverá parâmetros urbanísticos fixos e os pedidos de licença pra construir nos terrenos serão analisados caso a caso.

O objetivo dessa liberdade é facilitar projetos imobiliários nas proximidades da avenida, tanto residenciais quanto comerciais, pra reverter o esvaziamento e a degradação urbana que já duram pelo menos três décadas.

O que a prefeitura do Rio faz é dizer a sua população que parâmetros urbanísticos atrapalham. Também assume que o protagonista das soluções urbanas é a iniciativa privada do setor imobiliário apenas. Este mesmo setor que no primeiro governo Paes, a época do Porto Maravilha e do MCMV direcionou seu olhar para as glebas baratas da Zona Oeste, e alguns pólos industriais da Zona Norte, criando condomínios em quaisquer cantos sem os devidos cuidados urbanos, paisagísticos e arquitetônicos. Já falei um pouco em outros textos, como o Pilhagem Urbana do Rio.

O que fazer?

Bom, o primeiro passo é iniciar o longo processo de reencontro com a sociedade. Não basta apenas resistir se não formos capazes de construir uma proposta diferente. Proposta essa que passe por todas as frentes de debates, desde processos administrativos mais abertos que fujam do viés purista estatal x privado até o pensamento técnico científico mesmo, discutido in loco com o morador da cidade. Precisamos parar de falar da favela sem incluir na roda de conversa por exemplo.

Precisamos também dar viabilidade técnica para que propostas de pequena e média escala sejam interessantes. Não há mais espaço cabível na atual crise global para que todo o sistema econômico da construção civil gire em torno de megaempreendimentos. Assim como também é antiquado no mundo acreditar que as soluções sairão da prancheta de um ou dois grupos determinados. Precisamos retomar os esforços deste confronto e colocar a contradição da sociedade na mesa de discussão e de construção das propostas.

É importante discutirmos o dinheiro. De onde vem, pra onde vai, quanto custa e como se consegue. É inaceitável ver uma placa de: Esta obra custou X milhões sem que seja clareado os caminhos que são traçados para que estes milhões apareçam na conta de quem quer que seja.

Para que isso ocorra é preciso retomarmos a discussão do espaço, da paisagem, do ambiente urbano na escala comunitária. Atuar junto a espaços de âmbito comunitário promovendo educação urbana e aprendendo também a respeitar e entender as formas de espacializar do povo. Não conseguiremos dar uma resposta concreta que se contraponha ao sonho carioca da barratijucanização sem compreender as bases materiais que hoje legitimam esse desejo por exemplo.

O campo da arquitetura e urbanismo precisa ter um esforço militante de sair de sua própria alienação junto a cidade. Não podemos reduzir as discussões sobre os grupos e territórios mais pobres do Rio: Favelas, Subúrbios e Baixada pelo romantismo ou invisibilidade. Pra um lado da cidade qualquer coisa serve. Precisamos romper com o Urbanismo colonizador que lá atrás definiu pra que lado a cidade rica habitaria e em que lado a cidade pobre habitaria. E para tal precisamos modificar os círculos em que discutimos, sair do entorno dos mesmos fóruns e dialogar mais com ourtos fóruns. O urbanista no Rio pouco se aproxima dos professores de geografia, pouco se aproxima das associações de moradores ou de um simples caminhar de lazer num parque da AP5. É preciso de nós, enfrentar as contradições com tranquilidade e diálogo, não reduzindo as discussões.

O traçado da cidade tem ligação direta com os atores que conseguem, num dado espaço de tempo ter poder pra trazer e implementar suas propostas. Aos pobres em geral cabe a sobra tática, sobreviver e levar a vida a base de gambiarras pra responder a ausência e aos erros das escolhas políticas. Se perguntar ao povo que Avenida Brasil o povo quer, o dia a dia dela já mostra a insatisfação. Porém bastou um dia da mesma fechada e vimos potência que estamos deixando pra trás.

Av. Brasil vira área de Lazer – O GLOBO – https://oglobo.globo.com/rio/avenida-brasil-interditada-transformada-em-area-de-lazer-12254913

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O RAPTO COGNITIVO DA ARQUITETURA E A AMEAÇA AO GUSTAVO CAPANEMA

A construção de sentido das cidades se dá por experiências materiais e cognitivas que caminham lado a lado conforme define-se o projeto e as disputas sociais inseridas nelas. Há muito que o projeto de bem público no Brasil não é prioritário, e desde sua formação que o projeto de cidade para o Rio é segregado. Por mais belo e simpático que eu seja do conceito de costura, de cerzimento, a resistência não dá conta de resolver o problema real da cidade.

Hoje nos deparamos com mais um possível crime ao patrimônio. Uma lista de inúmeros bens públicos da União (mais de dois mil) que o atual governo pretende simplesmente desfazer, leiloando ao mercado privado. O coração deste debate se debruçou sobre o edifício Gustavo Capanema. Joia da arquitetura moderna mundial, o prédio em si é uma das aulas mais puras do que representava as premissas do modernismo. Continuar a ler 
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O RAPTO COGNITIVO DA ARQUITETURA AMEAÇA O GUSTAVO CAPANEMA

 A construção de sentido das cidades se dá por experiências materiais e cognitivas que caminham lado a lado conforme define-se o projeto e as disputas sociais inseridas nelas. Há muito que o projeto de bem público no Brasil não é prioritário, e desde sua formação que o projeto de cidade para o Rio é segregado. Por mais belo e simpático que eu seja do conceito de costura, de cerzimento, a resistência não dá conta de resolver o problema real da cidade.

Hoje nos deparamos com mais um possível crime ao patrimônio. Uma lista de inúmeros bens públicos da União (mais de dois mil) que o atual governo pretende simplesmente desfazer, leiloando ao mercado privado. O coração deste debate se debruçou sobre o edifício Gustavo Capanema. Joia da arquitetura moderna mundial, o prédio em si é uma das aulas mais puras do que representava as premissas do modernismo. 


Importa-nos dizer porém que ele não está só o que coabita naquela esplanada é um conjunto de poderes. O Capanema convive com seus vizinhos de poder entre outras edificações que compõem um determinado tempo, uma expressão de sociedade e de povo. Cada edificação a seu modo, com seus estilos, elementos e espaços guarda minutos, dias, anos de história. De nada adianta salvar o MEC e perder o Ministério do Trabalho ou da Fazenda por exemplo.


Este é o Rio de Janeiro, a cidade que desmontou sua colina de fundação, o Morro do Castelo, símbolo de um Brasil Colônia e um Brasil Império, e em seu lugar construiu a Esplanada dos Ministérios de um Brasil Novo. Este é o modelo de urbanismo desta cidade. Assim foi a abertura da Presidente Vargas, assim foi o Porto Maravilha, assim foram as remoções de favelas, algumas partes de PACs e por aí vai. A arquitetura carioca (talvez brasileira) é uma constante de demolir para construir, um eterno retorno mal interpretado, onde no fim o que importa é a terra, o lote. Sobre toda operação há uma bela narrativa para estampar o sucesso nas revistas especializadas: o retrofit, o reinventar, o reviver, -façamos o novo. 


Esta cultura está impregnada no modus operandi dos gestores públicos e de boa parte dos profissionais arquitetos que projetam e constroem esta cidade. Onde nós lemos história, memória e pertencimento, outrem leem uma relação de preço/m² de solo.  E nesta, somos educados e por tabela “educamos” a sociedade de que arquitetura é a tábula rasa (ironicamente pregada pelo modernismo) passar a régua, limpar o terreno e subir do zero. Nesta leva, o senso comum acha bonito um condomínio recém inaugurado cheio de falsas colunas gregas mas trata como velharia um casario art-decó. Este é o rapto cognitivo que vivemos no dia a dia de nossas vidas.  E se há algo que explica muito bem o processo é o poema de Marina Colassanti que colo aqui:


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.


A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.

E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.

E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma acender mais cedo a luz.

E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.


A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado.

A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.

A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.

A sair do trabalho porque já é noite.

A cochilar no ônibus porque está cansado.

A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.


A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.

E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.

E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.


A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.

A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.

A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.


A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.

E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.

E a fazer filas para pagar.

E a pagar mais do que as coisas valem.

E a saber que cada vez pagará mais.

E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.


A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.

A abrir as revistas e a ver anúncios.

A ligar a televisão e a ver comerciais.

A ir ao cinema e engolir publicidade.

A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.


A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.

À luz artificial de ligeiro tremor.

Ao choque que os olhos levam na luz natural.

Às bactérias da água potável.

À contaminação da água do mar.

À lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.


A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.

Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.

Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.

E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.


A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

É na singeleza do comum cotidiano que o rapto acontece, e é na segregação que ele tem seu melhor território de experimentação e expansão. O carioca se acostumou a ver seu paisagismo e seu patrimônio histórico se deteriorarem até o último suspiro, que pode vir por um incêndio, ou uma picareta demolidora. 


Nos acostumamos a ver bairros inteiros morrerem administrativamente e ver seus moradores sendo tratados como de segunda categoria, assim como sua cidade construída. Nos acostumamos a perder o direito aos espaços livres, o direito da memória. Nos acostumamos a ver patrimônios históricos serem demolidos por motivo torpe. E o pior, nos acostumamos a não nos importar tanto, quando estas operações são experimentadas nos territórios mais periféricos, como os subúrbios ou as favelas, ou as favelas dos subúrbios. 


Nos acostumamos a aceitar que certas práticas podem acontecer no lado invisibilizado da cidade. Um BRT que não passa mas cuja obra desmantelou o casario de Campinho e toda franja de casas e lojas de bairros inteiros, acabou com praças e parques. Os Cinemas de rua tombados que, com sorte viram igrejas, ou são destombados para virar só fachada de loja ou muro de condomínio (caso Cine Guaraci e Cine Olaria), parques e praças viram quintal pra vereador implementar qualquer equipamento de qualidade duvidosa. 


Quem não lembra também do Hospital do IASERJ sendo esvaziado às pressas pra ser demolido e virar só mais um terreno? pacientes morreram neste processo. Quem não lembra da Aldeia Marakanã ser ameaçada com armas sônicas em 2009? Enquanto isso, o próprio Maracanã, mesmo tombado, foi demolido! São tantos os patrimônios dilapidados em troca de qualquer valor.


Esta é a cara da nossa cidade, que já perdeu e muito o seu limite para o mundo paralelo. É nela que nos acostumamos a viver. Não é inocente também que o edifício do MEC se torne símbolo de ataque do governo, é ataque a um projeto de Brasil de Getúlio que um dia sonhou ser grande, que sonhou ver a educação como centro da mudança junto com Brizola ou ver a cultura como a potencializadora de um Brasil País de Todos com o Lula. Seu abandono é fruto de um uso que ruiu pelo interesse próprio do capital que não se importa com nada além do valor do solo e da capacidade de revenda. E pensar que se lá atrás tivéssemos encarado enquanto categoria de arquitetos em massa e sociedade a defesa firme dos casarios de Campinho, do parque Ary Barroso, dos Cinemas de Rua, da Fazenda Columbandê, Aldeia Marakanã, fossemos críticos a certos mega projetos, a certas operações urbanas em nossa formação e na formação dos nossos, hoje a história da cidade poderia ser diferente.


Há uma disputa de poder em torno deste projeto, mas nesta disputa a arquitetura segue um caminho fantástico de contradição e ambiguidade. Foram anos em que o olhar hegemônico da arquitetura tratou (e segue tratando) de apoiar os projetos dos inúmeros poderes vigentes sem fazer o devido filtro crítico. Ficamos felizes com um Museu de Arte do Rio construído no lugar de um hospital, felizes com qualquer projeto espetacular em aço e passamos pano no desaparecimento de vigas de aço corten de 40m de comprimento.


Ficamos felizes com os museus do amanhã às custas de inúmeros pobres que seguem sem acesso a lazer, cultura, habitação de qualidade ou sequer escritura de seus pequenos terrenos suburbanos que, segundo a proposta do novo plano diretor, poderão ser remembrados por construtoras para gerar maior interesse especulativo/econômico. 


Mas é isso, nos acostumamos, e enquanto nos acostumávamos e negligenciávamos, o rapto cognitivo aconteceu e o campo da arquitetura não viu. Não vimos, pois somos educados que arquitetura é peça de luxo, só a peça de luxo se torna importante, mas um dia até o rapto chega nela e isso nos acorda. Anos e anos desvalorizando a importância dos marcos arquitetônicos existentes de 80% do território desta cidade pesou.


Temos de abraçar o MEC, temos de lutar pelo MEC, mas salvar o MEC sozinho não salvará nada! O que precisamos mesmo é salvar a cidade desta métrica onde o valor de mercado do solo é a centralidade da discussão urbana enquanto o povo tenta com sorte sobreviver a esta loucura de cidade onde o estado foi terceirizado para as milícias e a vida foi mercantilizada.


A discussão do MEC é um reflexo e alegoria desta realidade: um bem público de valor incalculável que será precificado e leiloado para o mercado privado junto com outros 2mil bens.


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PILHAGEM URBANA DO RIO

Começo o texto a partir de uma notícia recente. Saiu no diário do Rio matéria comentando sobre o agravamento imobiliário na Barra da Tijuca causado pela mudança da Vivo de sua sede neste bairro para o Porto Maravilha.  Esta matéria, apesar de focal, fala sobre um processo histórico da cidade do Rio, a disputa territorial pela centralidade comercial da cidade.

Os grandes pensamentos imobiliários e interventores que definem esta cidade, a muito tempo que tencionam esta disputa. Temos o Rio com um centro oficial, claramente delimitado e legitimado pelo processo histórico de formação deste país, e a proposta idealizada de construção de um centro novo. E em meio a isso, para o restante da cidade, o De Janeiro, fica o desleixo e esquecimento de tudo que não rebate diretamente nestes espaços. Continuar a ler

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“AS NOSSAS RIQUEZAS, AS NOSSAS CARNES, AS VIDAS, TUDO. VOCÊS VENDERAM TUDO!”

É interessante este ponto de vista do sujeito indeterminado no lugar em que rotineiramente damos a notícia apontando o incêndio como sujeito. Pois bem, não poderíamos nunca imaginar que hoje, dia 29 de julho de 2021 estaríamos novamente debatendo o mesmo elemento e apontando o que denunciamos com a notícia: Incêndio atinge depósito da Cinemateca Nacional. 

Originalmente matadouro, o patrimônio se manteve e passou a abrigar a cinemateca brasileira após interessante projeto arquitetônico de Nelson Dupré. Este não é o primeiro incêndio que assola a cinemateca, que já viveu dias de dor em 2016. Este infelizmente é o retrato comum de um país que vê seus espaços de preservação da história sendo lançados ao relento.  Continuar a ler

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“As nossas riquezas, as nossas carnes, as vidas, tudo. Vocês venderam tudo!”

É interessante este ponto de vista do sujeito indeterminado no lugar em que rotineiramente damos a notícia apontando o incêndio como sujeito. Pois bem, não poderíamos nunca imaginar que hoje, dia 29 de julho de 2021 estaríamos novamente debatendo o mesmo elemento e apontando o que denunciamos com a notícia: Incêndio atinge depósito da Cinemateca Nacional. 

Originalmente matadouro, o patrimônio se manteve e passou a abrigar a cinemateca brasileira após interessante projeto arquitetônico de Nelson Dupré. Este não é o primeiro incêndio que assola a cinemateca, que já viveu dias de dor em 2016. Este infelizmente é o retrato comum de um país que vê seus espaços de preservação da história sendo lançados ao relento. 

Uma das primeiras formas de destruição dos mesmos é a degradação simbólica. Vivemos uma Terra onde o desmonte cognitivo das nossas memórias é constante. Somos massacrados pelos mais diversos artifícios para tal, desde coisas como: estudar é chato, até o discurso de que o novo sempre é melhor, vivemos rodeados por um cotidiano que nos consome deixando-nos pouco tempo para buscar algo fora da cartilha. A vida passa a ser um dia a dia de embebedar-se com séries e novelas, consumir redes sociais, discutir notas sensacionalistas de jornais. 

A História é só o velho, e os velhos não têm lugar na agenda. Mesmo para a agenda mais progressista, os corpos militantes são os jovens, tudo é inovação. História, sociologia, filosofia são coisas efêmeras que não precisam estar na grade curricular do EAD  do MEC’ Escola feliz onde paga por um curso e o diploma vem de brinde. 

Quem precisa de cinemateca quando se tem a netflix? não duvidaria de ouvir esta frase por aí.

Praticantes tikkertokers se perdem em dancinhas virtuais enquanto o exército paramilitar domina todos os espaços reais em redor dos pobres. Quem vai bater de frente? Quem vai ler nas letras miúdas que nos permitem desmontar a memória, como uma criança dopada de rivotril.

Toda nossa História está sendo desmantelada, negligenciada, e pegando fogo. Os que choraram por Borba Gato e cobraram a cabeça dos que o incendiaram terão coragem de chorar pela Cinemateca e cobrar a cabeça dos que cortaram a verba do Cinema Nacional?  A luta pelos cinemas é uma luta insólita de resistência, seja a cinemateca que arde em chamas, sejam os Cinemas de Rua suburbanos se degradando e levando consigo a nossa história para a beira do esquecimento.

Esse é o país que o atual Estado nos deixou. Um país que nos empurrou pra fome e que se esforça para apagar nossa História e que forma uma elite de bosta que não está nem aí pra esse lugar. 

Perdemos muitas oportunidades nesta vida, dentre a maior delas tivemos anos de governos progressistas que não conseguiram produzir uma mudança cultural mínima neste país. Do fim da ditadura até hoje passaram-se ao menos uns 30 anos, tivemos tempo de construir uma sociedade com base forte, que entende a necessidade da cultura, da história, da educação de base. Paulo Freire passou longe das escolas, infelizmente habita ali na resistência, nas citações teóricas e nas tentativas táticas de alguns professores que ainda acreditam na possibilidade de futuro para as nossas crianças, mas nunca se tornou uma política de Estado. 

Mas é isso, nossa pedagogia é forjada pela violência, o vilipêndio e a fome, ficamos atomizados diante das chamas que corroem nossos cinemas e das maquitas que derrubam nossa arquitetura. 

Comemoramos medalhas que são verdadeiros feitos heróicos por parte de atletas que enfrentaram as mais terríveis dificuldades pois temos um país que já viveu a copa das copas e a olimpíada das olimpíadas e não conseguiu deixar um legado esportivo, mas jorra dinheiro da loteca federal para os caixas já gordos de dirigentes de determinados clubes de futebol. A gente aprendeu a resistir no meio de tudo isso e por dentro de tudo isso. Passamos anos caminhando pelas brechas que nos foram permitidas, mas o mundo não pode ser só isso e resistir apenas não está mais dando resultado.

Este país não pode ser mais refém dos netos e bisnetos das elites cafeeiras que agora são agro pois agro é pop. Que escolhem algumas quadras de cada cidade famosa deste país pra chamar de linda, de maravilhosa, de global city, enquanto 80% das cidades ficarão ao relento, controlada por tiro porrada e bomba. Ficando reféns dos militares às milícias, dos Borba Gatos, dos Deodoros, dos Costa e Silvas e dos Bolsonaros.

Somos todos nós que perdemos hoje neste Brasil 

“As nossas riquezas, as nossas carnes, as vidas, tudo. Vocês venderam tudo!”



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Águas que nos afetam

A região Sudeste do país está enfrentando neste verão mais uma derrota urbana com as enchentes. O problema é histórico, inicia-se em grande parte nos processos de implantação e estruturação de cidades que não pensaram de forma coerente seus cursos d’água. Metrópoles como as do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte ao optarem por um padrão urbanístico de favorecimento do automóvel invisibilizando seus rios criaram problemas de difícil solução.

O problema se torna pior a medida em que, tempo a tempo, pouca mudança neste pensamento se modifica. Escolhemos caminhar na contramão de milênios de história, onde a humanidade buscou e vivenciou seus cursos d’água como o bem mais precioso de suas organizações sociais e aglomerações em povoados e cidades. As águas tem valor sagrado, simbólico, afetivo, de saúde, valor paisagístico, contemplativo, podemos citar inúmeros valores que não cabem reduzidos a políticas econômicas simplistas e que nem todas as prosas e versos seriam capazes de definir tamanho afeto.

As águas que tanto nos faltam hoje na cidade do Rio de Janeiro, são as mesmas que nos afetam nas cheias, resultantes de falta de planejamento urbano cuidadoso com nossos recursos naturais. O Plano Nacional de Saneamento se tornou quase uma ilusão, uma tentativa que conseguiu pouquíssimo resultado em um universo onde as forças políticas permitem que a Nestlé tome posse das águas de São Lourenço. Enquanto as forças políticas em seus níveis estaduais e municipais pouco ou nada fazem para garantir o saneamento seja em seu tratamento de esgoto, a qualidade dos recursos hídricos, a proteção das matas ciliares, APAs e APARUs, entre outros, desastres como os ocorridos em Belo Horizonte e no Norte Fluminense do Estado do Rio de Janeiro se tornaram casos previsíveis, apenas esperando a próxima chuva para acontecer.

Precisamos retomar a relação da água com a vida, recuperar as margens dos rios e córregos, tratar nosso esgoto e cuidar de nossos resíduos pluviais. Não há mistério em lidar com isso no campo da arquitetura e engenharia, apenas estamos presos na falta de vontade política para admitir que nem tudo pode ser decidido pelas forças dos mercados ou pensado como moeda de troca em uma relação de consumo. O principal valor da água não está na sua troca, mas no seu uso e no seu direito comum a todos.  Enfrentamos hoje erros urbanos de um passado recente na história da humanidade, mas ao mesmo tempo mantemos e fazemos novos erros nos momentos presentes e assim deixamos um legado triste para os que aqui virão. 

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Os caminhos do urbano brasileiro

Podemos considerar que um grande legado para o urbanismo, nas últimas décadas, foi a implementação do Estatuto das Cidades por lei  no 10.257, de 10 de Julho de 2001, assinado por Fernando Henrique Cardoso, [completando neste mês 17 anos] e a  criação, no governo Lula, do Ministério das Cidades em janeiro de 2003 e da Lei nº 11.888, de 24 de Dezembro de 2008 que garante o direito pleno a assistência técnica pública e gratuita para habitação social. Embora as políticas públicas previstas e defendidas por inúmeros movimentos de luta urbana tenha sido em um primeiro momento abraçadas pelo Ministério, eem um segundo momento foram paulatinamente sendo desconfiguradas no decorrer de anos de conciliação com os poderes instituídos para manutenção da governabilidade. Ainda assim, a lei que regula o uso da propriedade urbana para fins coletivos, consolidando o direito previsto em constituição pode ser considerado um importante passo, se visto como princípio de entendimento do território como um direito de todos.

Ainda que o tempo presente leve muitos de nós a acreditar e naturalizar o direito à propriedade pela lógica comercial (somos donos de nossos terrenos), nos cabe lembrar que esta lógica é recente no Brasil. Cabe lembrar que até o ano de 1822, o domínio sobre toda a propriedade e terras do Brasil pertencia ao Rei, e este distribuía conforme seu interesse o direito à posse. Com o advento da Lei de Terras, inicia-se um primeiro passo a lógica da propriedade como objeto passível de compra e venda, porém, a mesma não revoga ou reestrutura a distribuição das terras já implementadas nos tempos das sesmarias. Desta maneira, a lógica da propriedade se inicia de forma desigual: Quem já estava assentado pela posse concedida pelo Rei conseguiu regulamentar a posse como propriedade, e àqueles que não possuíam terras passariam então a ter o direito mediante compra. O caráter desigual que se representava pela lógica real apenas se transformou para uma lógica capital. Podemos considerar que se inicia ali um grande negócio que perdura até os dias de hoje, com a geração de riqueza através da especulação da terra.

Muitas modificações ocorreram desde então, mas poucas delas (ou talvez nenhuma) afetaram a raiz do problema: A resolução da distribuição desigual implementada pela coroa real que em um curto momento se transforma em riqueza adquirida para poucos afortunados.  

Nos dias contemporâneos passamos por um peculiar processo de produção de riqueza similar. Com a lógica dos megaempreendimentos geradores instantâneos de riqueza, seja pelo solo criado desde o aumento de gabaritos a procedimentos, seja por mudanças de grandes estruturas urbanas, como inserir vias expressas no subterrâneo para ganhar a superfície como terreno. Uma nova lógica também vem se consolidando, e seguindo as novas caras do capital: a terceirização do controle do território.

Podemos pensar em um neologismo: condominização da vida. Esta lógica que pode ser encontrada desde os processos de Operação Urbana Consorciada (como no caso do Porto Maravilha no Rio de Janeiro), passando por condomínios fechados como modelo de moradia associados a shopping centers como modelos de lazer, e chegando nas classes médias baixas através da lógica de fechamentos de ruas por cancelas ou de processos de favelização. Vale ressaltar que as cidades construídas segundo modelos de privatização do espaço público, estruturadas em formas condominiais se torna cara e inviável, mantém a segregação e o ciclo vicioso do encastelamento e do medo do urbano.

As novas formas de articulação do espaço urbano, por sua vez, continuam a manter o alinhamento do processo histórico da distribuição desigual do território.  As terras, cada vez mais escassas obrigam aos poderes que por ela se interessa a mobilizar subterfúgios. A especulação cria solo, avança para áreas de proteção ambiental, propõe aumentos de gabarito sem que estes passem por um estudo prévio e real do impacto ambiental, entre outros.

           O decorrer histórico nos faz perceber que talvez apenas através da mudança das lógicas de constituição e ocupação dos territórios poderemos iniciar um processo democrático sobre a terra (seja ela rural ou urbana). É preciso entendermos o território como um bem comum. Elementos como o fortalecimento dos planos diretores participativos, execução da garantia da função social do imóvel, entre outros se tornam primordiais em uma tentativa de construir esta democracia territorial que será tão gratificante a todos os cidadãos envolvidos, direta ou indiretamente. Neste sentido, é preciso avançar mais, tanto nos instrumentos quanto nas lutas pelo uso deles. O direito a cidade é um direito universal, que pode ser democratizado com o fortalecimento da compreensão do profissional de arquitetura e engenharia como um ente público e popular, assim como, com o fortalecimento das lutas por moradia e terra. 

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A cidade contemporânea escapa de nossas mãos

        O urbano contemporâneo, resultante histórico de um grande processo de industrialização e constantes mudanças nas forças de mercado, parece ter consolidado uma lógica própria de avanços de seu tecido. Como bem observou Lefebvre, podemos dizer que a cidade se transforma em uma não cidade. Falamos  aqui de um tecido urbano que cresce em função deste novo modo de produção que se abre com o processo industrial.

        A hegemonia de um tipo de espaço que se desenvolve a partir da instalação fabril busca em primeiro lugar estar próxima das fontes de recursos naturais de sua produção e em segundo lugar [necessitam de] (ter) um caminho ágil de escoamento de sua produção. Falamos aqui de um tipo urbano que começa a privilegiar a velocidade e o movimento em detrimento do encontro  cotidiano e das pausas. 

          Ferrovias, grandes rodovias, portos, aeroportos são a menina dos olhos na relação entre os arquitetos e urbanistas e engenheiros e as estruturas de poder. Curiosamente, o mundo periférico, em uma tentativa de alcançar tardiamente este processo de desenvolvimento do capital, muitas das vezes optam por construir suas cidades favorecendo esta logística, na esperança de que as redes do capital se instalem em seus territórios. 

      O capital produtivo que se desterritorializa na sua produção, busca territórios de extração de sua matéria prima, aquíferos como no caso da América Latina, Petróleo como no caso do chamado Oriente Médio, metais e pedras de mineração como no caso da África Oeste.  

        Quando os avanços e a inovação dos modos de produção eclodem no modo toyotista, a logística se fortalece ainda mais como conceito fundamental para o funcionamento do sistema. Não precisamos mais de um centro, mas produzimos em redes que se conectam pelas teias formadas por este processo inicial.

        O extrativismo que formou a riqueza de alguns dos reinos e nações de poder subjugara material e simbolicamente povos conquistados (colonizados). É material o interesse da escravidão de povos do continente africanos que tinham perícia na extração de minérios e lida com a ferragem para levá-los a américa latina (lembramos que o Ogum de hoje é ferreiro e forjador), é simbólico a construção do racismo ao apagar a potência material destes que eram trazidos a força e decretá-los como um ser humano de menor estirpe diante da branquitude europeia. Lembremos que todos os processos de escravidão que existiram antes deste momento compreendiam o subjugo entre povos sem a distinção do fenótipo.

          A construção simbólica da sociedade urbana também ampara questões como o exótico, destinado a todos aqueles que não representavam o padrão (neste momento europeu, em um momento futuro inclui-se o Norte Americano). É este subjugo histórico e cultural que leva a indústria do miojo a adentrar em países africanos como um alimento elitizado e que leva os mesmos a trocar de seus pratos o arroz por este.

        O sistema atual de produção de riqueza alcança nos dias de hoje um novo patamar através do modelo de financeirização, cujos fluxos se tornam infinitamente mais velozes que os anteriores. De certa forma todos estes modos de produção coexistem no globo e se entrelaçam. Uma das consequências é o enfraquecimento de um território vivido e público, a vida adentra em espaços controlados, como sugere Koolhaas em um de seus famosos ensaios. Esse novo tipo de espaço nos isola de inúmeros bens comuns como o sol, os mananciais, o tempo de contemplação e dos espaços construídos que permitem as fugas e encontros do acaso e do imponderável. Também é este tipo de espaço que invisibiliza a gama de cidadãos que fazem eles funcionarem. Projetamos corredores técnicos por onde passam os trabalhadores da limpeza, pavimentos técnicos por onde passam os trabalhadores da manutenção ou elevadores de serviço.

        Para que o novo modo de produção funcione e se mantenha ele cria um novo tipo de periférico, lançando a própria sorte aqueles que não estão incluídos. Assim que uma classe média Síria se transforma em um não cidadão alojado em algum acampamento provisório na Jordânia ou um venezuelano em um acampamento em Roraima. O capital que se espalha pelo globo com o toyotismo e que hoje transforma em puro fluxo diante da financeirização, territorializa os periféricos que viviam em espaços de grande matéria prima para sua produção. O imigrante se transmuta no outro, aquele que não queremos nas nossas cidades, capitais da beleza, das normas e da cultura.
        
        O exótico é cool quando o outro permanece no próprio território, independente das mazelas que o poder que hegemoniza o globo cause neste território. Quando o outro, no desespero de sobreviver a estas mazelas, tenta fugir para os territórios que se sustentam pelas mazelas criadas ele se torna um problema: O imigrante.

       Qual a solução que se apresenta? Estrategicamente a construção de territórios de exceção, verdadeiros campos de acumulação de pessoas, o imigrante, o exótico, o outro se torna o refugiado. Uma rápida percepção do crescimento do campo de Za’atari já demonstra esta nova cidade que escapa as nossas mãos, uma singular forma de exploração do corpo humano na era da financeirização. Há uma tênue linha de paralelos entre a Senzala, os Gulags, os Campos Hitleristas, Guantanamo e Za’atari, a linha onde o outro é subjugado para que os poderes hegemônicos se mantenham hegemônicos.

         Porém, há também novas formas de resistência tática que nascem junto a este processo: praça Tahrir, Occupy, no brasil temos as ruas em 2013, em 2018 o repúdio ao assassinato de Marielle, a greve dos caminhoneiros que parou o país, entre muitas outras manifestações. São explosões táticas que surgem como um contra-poder e que em pouco tempo são massacradas pelos poderes hegemônicos. Estes por sua vez, se tornam cada vez mais totalitários na busca de sua manutenção. Nos importa ponderar que o palco destas lutas em muitos casos é o urbano, apesar de termos lutas nos territórios em seus matizes.

Campo de Za\’atari – fonte: época – 04/05/2016 –
por:Teresa Pedrosa –
 https://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/05/vidas-intermitentes-como-vivem-os-refugiados-sirios-no-maior-campo-do-oriente-medio.html



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