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Moise

É mais que notório e inegável que vivemos um país racista. O assassinato a sangue frio do jovem congolês que buscou no Brasil um caminho de esperança e como tantos periféricos caiu no ciclo de morar em uma favela dos subúrbios e trabalhar em um bairro da centralidade retrata a imensa fragilidade do que temos construído até aqui.

Simplesmente, independente das inúmeras tentativas, nenhuma política pensada neste país até hoje reduziu ou mitigou a guerra aos pobres e a guerra aos povos negros. Nenhuma organizou economicamente e socialmente o fim deste ciclo histórico do mundo que faz transbordar até hoje a mesma violência que assolou a diáspora dos povos africanos somada a violência que os segue assolando em dias contemporâneos.

O sistema miliciano que matou o jovem Moïse Kabagambe a sangue frio e com doses colossais de sociopatia, é da mesma lógica de controle social que hoje ocupa seu país em guerras étnicas sem fim. Mesmo que haja um abismo entre os tipos de conflitos, há pouca diferença no uso tático das forças do capital entre este modelo que gere (pelo poder da violência) os territórios no Brasil, dos modelos organizacionais de clãs que ainda hoje se disputam nos territórios africanos.

Há em ambos a face da violência material, exposta pela pobreza, pela desigualdade de oportunidades, pela fome, somados a violências simbólicas com a impregnação no imaginário de que o corpo negro é o outro, o não familiar (ainda que ocupe massivamente o território).

O estado de guerra traçado permanece porque movimenta poder e dinheiro. Você consegue especular sobre terrenos, vender armas, vender a salvação eterna e divina aos que não tem muita esperança, criar lugares nas cidades mais valorizados (por haver lugares menos valorizados), consegue consolidar garimpos de extração de minérios em territórios controlados por um clã, entre muitos outros exemplos de como explorar estas relações de controle sócio-espacial.

Nkrumah fora a sua época inteligente ao notar que no seu território específico era necessário romper com elementos do conceito étnico para resistir a este outro que se utilizada destas disputas para manutenção da colônia. Para K. Nkrumah não era central uma linguagem ou cultura unificada, mas sim a construção de uma unidade em torno de uma construção comunitária da vida, a saída não partiria necessariamente pelos iguais cristalizados em seus laços étnicos e identidades imutáveis. A proposta passaria a ser uma nova composição, uma identidade que parte do desejo de libertação e emancipação dos povos africanos.

Moïse, congolês, fugido das guerras e da fome, negro, trabalhador, morador de Brás de Pina, foi assassinado ao tentar receber seu salário. Moïse foi morto em um país que usa de toda força e conhecimento dos povos negros na mesma medida em que os chacina diariamente em operações policiais sem fundamentação, afinal, o carro da PM passa diferente em Costa Barros e na Barra da Tijuca. Esta mesma PM onde corpos negros também são treinados pra matar e morrer a esmo em uma mesma Costa Barros onde corpos brancos também podem ser lidos como corpos negros diante do bico de um fuzil que passa apontado pra fora da Patamo.

Este é um crime que não pode ser silenciado, não pode ser abafado e nem resumido em uma bandeira ou símbolo de ato, é um crime que precisará ser devidamente punido. Assim também, é um crime que acende o alerta vermelho para esta cidade em que estamos! O Estado miliciano não se refere apenas as forças do poder armado que se organizam, junta-se a isso a cultura que se constrói em torno do punitivismo e justiçamento e sob o qual vamos nos habituando. Não vamos sair desta miséria de situação se não traçarmos urgentemente lutas que busquem verdadeiramente o desejo e o trabalho em torno da emancipação e libertação do povo mais pobre como um todo.

Congo, um país cujo PIB é de 10 bilhões de dólares, aproximadamente uns 5% da fortuna de Elon Musk perdeu no Brasil um dos seus filhos.

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Sobre a complexidade dos Subúrbios segregados

Desde a mudança da organização administrativa da cidade do Rio que dividiu a cidade por Áreas de Planejamento e Regiões Administrativas e as legislações vigentes se deram rua a rua, o termo Subúrbio não cabe na lógica formal do planejamento e da administração pública. Ele porém segue pairando no ar como uma enunciação coletiva.

A cidade segregada se deu durante anos por conta de expropriação de tributos de determinadas zonas da cidade e de uma escolha clara de como se daria a distribuição espacial deste território. Assim, as administrações vigentes atuaram de modo a privilegiar um lado específico que seria destinado aos mais ricos e grande parte da classe média. Expropriação esta, que por sua vez nunca foi corrigida por nenhum governo.

Hoje, a melhor expressão de Subúrbios é muito menos territorial e muito mais sob modos de fazer do povo. A construção de laços dos mais diversos. Parte da sociedade organizada em torno desta enunciação busca um caminho de costura e reconstrução do que seria esta identidade. A identidade por sua vez nunca dará conta da complexidade e das dinâmicas populares que giram em torno do sentido de ser ou não ser suburbano no Rio de Janeiro.

Boa parte da pujança e do imaginário se constituiu por algumas políticas de Estado. Escolas públicas, habitação de interesse social, eventos cívicos, o Varguismo teve um papel importante nesta construção. Soma-se a isso a enorme resistência dos povos negros, sempre preteridos e vilipendiados na sociedade, são eles que constroem em seus terreiros, aquilombamentos e barracões o mundo do samba, do funk, da soul music, dos encontros na escassez e da fé. Os Subúrbios são um amálgama disso tudo e muito mais.

Se a relação da cidade formal com a favela é de medo e terror, onde o que separa a favela da cidade formal é que é aceitável pelo sistema o direito do Estado matar na favela e de tratar seus moradores como não cidadãos, nos bairros dos subúrbios que não são considerados favela é dado a invisibilidade e a captura pelo exotismo. Assim, passa ano e sai ano, e cada administração pública usa de uma lógica específica para tentar capturar o discurso e amarrar em torno de uma identidade passível de ser controlada.

As décadas de 70, 80 e 90 levaram os moradores de regiões ditas suburbanas a migrar para uma emergente Barra da Tijuca onde os modos de vida e cultura deste novo modelo de cidade eram vendidos diariamente. Quem viveu estes anos se lembrará de como era matéria dos principais programas de estilo de vida as idas de jogadores e artistas a churrascarias e restaurantes, como era legal o jogador de futebol faltar o treino pra bater um futvolei na praia e muitas outras referências. Enquanto isso, no território onde muitas destes nasceram e se iniciaram, o que vingava eram os bailes. Dentre eles, um modelo ganhou força e ajudou ainda mais a segregar a cidade, os Bailes de Corredor. Os Bailes de Corredor mudaram muito a forma como o adolescente curtia a festa e vivia a própria cidade, pois alimentava um bairrismo combativo. Em pouco tempo, jovens passaram a frequentar festas de outros bairros apenas no intento da disputa.

A beira disso, também nestes anos, explodem o modelo evangélico neo-petencostal Macedos e Malafaias como grandes expoentes, mas este modelo não pode ter essa leitura simplista. O neopetencostalismo opera muito menos por meio do texto escrito, de uma liturgia organizada e centralizada, e muito mais pela experiência pessoal de transcendência. A forma de fé cresce por sua simplicidade organizativa, basta uma liderança capaz de produzir contato com o transcendente e ali poderia se fazer um círculo de oração, um ponto ou até mesmo uma igreja.

Ao definir o adversário a partir de qualquer um que não professe a fé, o petencostes por sua vez acaba que promove um movimento silencioso e silenciador. O fiel não deve se misturar ao mundo, deve produzir a si mesmo e estar junto com os seus (a igreja) num laço de santidade. Para o neopetencostal, o outro tende a ser um desagregado que leva a vida influenciada pelo adversário. A situação piora diante de outras crenças, em especial as crenças de matriz africana, onde aí sim quem as professa é visto como um profeta do adversário. Este tipo de signo constrói boa parte do campo de fé suburbano hoje em dia, de fortalecimento social e caminhos de coletividade. Dali levantam-se muitas lideranças, e outras muitas ainda se aproveitam para usar deste sistema como palanque. Mas ainda assim é preciso nos aprofundarmos nas relações e nos sombreamentos, pois uma profetiza neopetencostal em um círculo de oração está muito mais próxima dos modos de viver de uma benzedeira ou mãe de santo do que de um Silas Malafaia da vida.

Ainda assim, é curiosa a relação de conflitos que apesar de parecer maniqueísta, muitas das vezes passa por um relativismo. Quantas não são as famílias suburbanas que tem sentado na mesa um filho que trabalha para a polícia (uma das possibilidades de emprego e saída pra vida do pobre) e um filho que vive de dinheiro da contravenção? Mas nossas formas de entender certos signos sempre serão outras.

Quando a gente é pobre pra valer a gente vem forjado na violência, no palavrão, no papo reto, e na ação visceral. Quem tem fome precisa ser visceral pra sobreviver, mas também é solidário. A gente aprende a lidar com os signos de forma diferente, a lidar com o senso de justiça de forma diferente, pq a vida violenta a gente.

A vida violenta quando todos parecem amigos, mas uma mudança simples no recorte de classe deixa claro quem está num ciclo abaixo da pobreza, violenta quando as coisas e lugares que frequentamos são preteridos ou esquecidos na história. É violento quando alguém tem medo do seu lugar, da sua rua, do seu lote. É assim que a gente é criado, isso traz signos pra gente lidar com a vida.

O projeto de poder dos que conseguem gerir o sistema (mega empresas, governos, ricos, investidores, etc) envolve a manutenção de um modelo inspirado em uma certa classe média modelo. Não há um traço político concreto que seja realmente popular e massificado, capaz de interpretar os signos e criar uma política de estado em torno deles. O trabalho feito é capturar tudo que pode, gerenciar as vozes e interlocutores dissonantes por meio de inúmeros sistemas de controle social (como a lei da vadiagem por exemplo).

É assim que por exemplo, não há nenhum projeto significativo de planejamento de recomposição da cidade formal que gere pólos de interesse pra classe média reocupar os subúrbios cariocas. Ao mesmo tempo, há interesse do poder imobiliário (entre outros) em movimentar parte de sua economia nestes territórios hoje bastante esvaziados reconfigurando-o como espaços do modelo padrão de consumo da classe média (a forma condominial apelidado de barra da tijucanização por exemplo).

Por outro viés, parte dos modos de fazer e cultura que tanto manteve o povo vivo em tempos de escassez e do esquecimento político é traduzido e adequado para ser digerido e palatável a parte da classe média que tensiona ou entende o peso da desigualdade. Porém tudo é escolha, exemplos: ao invés de por pra frente uma política de revitalização dos centros de bairro a partir de seus cinemas de rua, a política de cinema de rua escolhe um cinema de um bairro específico, revitaliza e considera este um pelo todo. Assim que tudo é feito, escolhem-se alguns bairros e trazem alguns melhoramentos estruturais coletivos nestes e fazem o um ser a representação do todo.

Não é simples trabalhar com o sentido dos Subúrbios no seu espectro mais complexo sem lermos sob a ótica de suas reais narrativas que são duras. A beleza dos subúrbios está nesse olhar total que passa inclusive pelo que nos parece assustador e gostaríamos de esconder, assim como o Clóvis que pode esconder por trás de sua máscara o mais engraçado ou o mais temido dos seus vizinhos.

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O RAPTO COGNITIVO DA ARQUITETURA AMEAÇA O GUSTAVO CAPANEMA

 A construção de sentido das cidades se dá por experiências materiais e cognitivas que caminham lado a lado conforme define-se o projeto e as disputas sociais inseridas nelas. Há muito que o projeto de bem público no Brasil não é prioritário, e desde sua formação que o projeto de cidade para o Rio é segregado. Por mais belo e simpático que eu seja do conceito de costura, de cerzimento, a resistência não dá conta de resolver o problema real da cidade.

Hoje nos deparamos com mais um possível crime ao patrimônio. Uma lista de inúmeros bens públicos da União (mais de dois mil) que o atual governo pretende simplesmente desfazer, leiloando ao mercado privado. O coração deste debate se debruçou sobre o edifício Gustavo Capanema. Joia da arquitetura moderna mundial, o prédio em si é uma das aulas mais puras do que representava as premissas do modernismo. 


Importa-nos dizer porém que ele não está só o que coabita naquela esplanada é um conjunto de poderes. O Capanema convive com seus vizinhos de poder entre outras edificações que compõem um determinado tempo, uma expressão de sociedade e de povo. Cada edificação a seu modo, com seus estilos, elementos e espaços guarda minutos, dias, anos de história. De nada adianta salvar o MEC e perder o Ministério do Trabalho ou da Fazenda por exemplo.


Este é o Rio de Janeiro, a cidade que desmontou sua colina de fundação, o Morro do Castelo, símbolo de um Brasil Colônia e um Brasil Império, e em seu lugar construiu a Esplanada dos Ministérios de um Brasil Novo. Este é o modelo de urbanismo desta cidade. Assim foi a abertura da Presidente Vargas, assim foi o Porto Maravilha, assim foram as remoções de favelas, algumas partes de PACs e por aí vai. A arquitetura carioca (talvez brasileira) é uma constante de demolir para construir, um eterno retorno mal interpretado, onde no fim o que importa é a terra, o lote. Sobre toda operação há uma bela narrativa para estampar o sucesso nas revistas especializadas: o retrofit, o reinventar, o reviver, -façamos o novo. 


Esta cultura está impregnada no modus operandi dos gestores públicos e de boa parte dos profissionais arquitetos que projetam e constroem esta cidade. Onde nós lemos história, memória e pertencimento, outrem leem uma relação de preço/m² de solo.  E nesta, somos educados e por tabela “educamos” a sociedade de que arquitetura é a tábula rasa (ironicamente pregada pelo modernismo) passar a régua, limpar o terreno e subir do zero. Nesta leva, o senso comum acha bonito um condomínio recém inaugurado cheio de falsas colunas gregas mas trata como velharia um casario art-decó. Este é o rapto cognitivo que vivemos no dia a dia de nossas vidas.  E se há algo que explica muito bem o processo é o poema de Marina Colassanti que colo aqui:


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.


A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.

E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.

E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma acender mais cedo a luz.

E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.


A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado.

A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.

A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.

A sair do trabalho porque já é noite.

A cochilar no ônibus porque está cansado.

A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.


A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.

E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.

E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.


A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.

A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.

A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.


A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.

E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.

E a fazer filas para pagar.

E a pagar mais do que as coisas valem.

E a saber que cada vez pagará mais.

E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.


A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.

A abrir as revistas e a ver anúncios.

A ligar a televisão e a ver comerciais.

A ir ao cinema e engolir publicidade.

A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.


A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.

À luz artificial de ligeiro tremor.

Ao choque que os olhos levam na luz natural.

Às bactérias da água potável.

À contaminação da água do mar.

À lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.


A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.

Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.

Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.

E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.


A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

É na singeleza do comum cotidiano que o rapto acontece, e é na segregação que ele tem seu melhor território de experimentação e expansão. O carioca se acostumou a ver seu paisagismo e seu patrimônio histórico se deteriorarem até o último suspiro, que pode vir por um incêndio, ou uma picareta demolidora. 


Nos acostumamos a ver bairros inteiros morrerem administrativamente e ver seus moradores sendo tratados como de segunda categoria, assim como sua cidade construída. Nos acostumamos a perder o direito aos espaços livres, o direito da memória. Nos acostumamos a ver patrimônios históricos serem demolidos por motivo torpe. E o pior, nos acostumamos a não nos importar tanto, quando estas operações são experimentadas nos territórios mais periféricos, como os subúrbios ou as favelas, ou as favelas dos subúrbios. 


Nos acostumamos a aceitar que certas práticas podem acontecer no lado invisibilizado da cidade. Um BRT que não passa mas cuja obra desmantelou o casario de Campinho e toda franja de casas e lojas de bairros inteiros, acabou com praças e parques. Os Cinemas de rua tombados que, com sorte viram igrejas, ou são destombados para virar só fachada de loja ou muro de condomínio (caso Cine Guaraci e Cine Olaria), parques e praças viram quintal pra vereador implementar qualquer equipamento de qualidade duvidosa. 


Quem não lembra também do Hospital do IASERJ sendo esvaziado às pressas pra ser demolido e virar só mais um terreno? pacientes morreram neste processo. Quem não lembra da Aldeia Marakanã ser ameaçada com armas sônicas em 2009? Enquanto isso, o próprio Maracanã, mesmo tombado, foi demolido! São tantos os patrimônios dilapidados em troca de qualquer valor.


Esta é a cara da nossa cidade, que já perdeu e muito o seu limite para o mundo paralelo. É nela que nos acostumamos a viver. Não é inocente também que o edifício do MEC se torne símbolo de ataque do governo, é ataque a um projeto de Brasil de Getúlio que um dia sonhou ser grande, que sonhou ver a educação como centro da mudança junto com Brizola ou ver a cultura como a potencializadora de um Brasil País de Todos com o Lula. Seu abandono é fruto de um uso que ruiu pelo interesse próprio do capital que não se importa com nada além do valor do solo e da capacidade de revenda. E pensar que se lá atrás tivéssemos encarado enquanto categoria de arquitetos em massa e sociedade a defesa firme dos casarios de Campinho, do parque Ary Barroso, dos Cinemas de Rua, da Fazenda Columbandê, Aldeia Marakanã, fossemos críticos a certos mega projetos, a certas operações urbanas em nossa formação e na formação dos nossos, hoje a história da cidade poderia ser diferente.


Há uma disputa de poder em torno deste projeto, mas nesta disputa a arquitetura segue um caminho fantástico de contradição e ambiguidade. Foram anos em que o olhar hegemônico da arquitetura tratou (e segue tratando) de apoiar os projetos dos inúmeros poderes vigentes sem fazer o devido filtro crítico. Ficamos felizes com um Museu de Arte do Rio construído no lugar de um hospital, felizes com qualquer projeto espetacular em aço e passamos pano no desaparecimento de vigas de aço corten de 40m de comprimento.


Ficamos felizes com os museus do amanhã às custas de inúmeros pobres que seguem sem acesso a lazer, cultura, habitação de qualidade ou sequer escritura de seus pequenos terrenos suburbanos que, segundo a proposta do novo plano diretor, poderão ser remembrados por construtoras para gerar maior interesse especulativo/econômico. 


Mas é isso, nos acostumamos, e enquanto nos acostumávamos e negligenciávamos, o rapto cognitivo aconteceu e o campo da arquitetura não viu. Não vimos, pois somos educados que arquitetura é peça de luxo, só a peça de luxo se torna importante, mas um dia até o rapto chega nela e isso nos acorda. Anos e anos desvalorizando a importância dos marcos arquitetônicos existentes de 80% do território desta cidade pesou.


Temos de abraçar o MEC, temos de lutar pelo MEC, mas salvar o MEC sozinho não salvará nada! O que precisamos mesmo é salvar a cidade desta métrica onde o valor de mercado do solo é a centralidade da discussão urbana enquanto o povo tenta com sorte sobreviver a esta loucura de cidade onde o estado foi terceirizado para as milícias e a vida foi mercantilizada.


A discussão do MEC é um reflexo e alegoria desta realidade: um bem público de valor incalculável que será precificado e leiloado para o mercado privado junto com outros 2mil bens.


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O RAPTO COGNITIVO DA ARQUITETURA E A AMEAÇA AO GUSTAVO CAPANEMA

A construção de sentido das cidades se dá por experiências materiais e cognitivas que caminham lado a lado conforme define-se o projeto e as disputas sociais inseridas nelas. Há muito que o projeto de bem público no Brasil não é prioritário, e desde sua formação que o projeto de cidade para o Rio é segregado. Por mais belo e simpático que eu seja do conceito de costura, de cerzimento, a resistência não dá conta de resolver o problema real da cidade.

Hoje nos deparamos com mais um possível crime ao patrimônio. Uma lista de inúmeros bens públicos da União (mais de dois mil) que o atual governo pretende simplesmente desfazer, leiloando ao mercado privado. O coração deste debate se debruçou sobre o edifício Gustavo Capanema. Joia da arquitetura moderna mundial, o prédio em si é uma das aulas mais puras do que representava as premissas do modernismo. Continuar a ler 
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PILHAGEM URBANA DO RIO

Começo o texto a partir de uma notícia recente. Saiu no diário do Rio matéria comentando sobre o agravamento imobiliário na Barra da Tijuca causado pela mudança da Vivo de sua sede neste bairro para o Porto Maravilha.  Esta matéria, apesar de focal, fala sobre um processo histórico da cidade do Rio, a disputa territorial pela centralidade comercial da cidade.

Os grandes pensamentos imobiliários e interventores que definem esta cidade, a muito tempo que tencionam esta disputa. Temos o Rio com um centro oficial, claramente delimitado e legitimado pelo processo histórico de formação deste país, e a proposta idealizada de construção de um centro novo. E em meio a isso, para o restante da cidade, o De Janeiro, fica o desleixo e esquecimento de tudo que não rebate diretamente nestes espaços. Continuar a ler

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“As nossas riquezas, as nossas carnes, as vidas, tudo. Vocês venderam tudo!”

É interessante este ponto de vista do sujeito indeterminado no lugar em que rotineiramente damos a notícia apontando o incêndio como sujeito. Pois bem, não poderíamos nunca imaginar que hoje, dia 29 de julho de 2021 estaríamos novamente debatendo o mesmo elemento e apontando o que denunciamos com a notícia: Incêndio atinge depósito da Cinemateca Nacional. 

Originalmente matadouro, o patrimônio se manteve e passou a abrigar a cinemateca brasileira após interessante projeto arquitetônico de Nelson Dupré. Este não é o primeiro incêndio que assola a cinemateca, que já viveu dias de dor em 2016. Este infelizmente é o retrato comum de um país que vê seus espaços de preservação da história sendo lançados ao relento. 

Uma das primeiras formas de destruição dos mesmos é a degradação simbólica. Vivemos uma Terra onde o desmonte cognitivo das nossas memórias é constante. Somos massacrados pelos mais diversos artifícios para tal, desde coisas como: estudar é chato, até o discurso de que o novo sempre é melhor, vivemos rodeados por um cotidiano que nos consome deixando-nos pouco tempo para buscar algo fora da cartilha. A vida passa a ser um dia a dia de embebedar-se com séries e novelas, consumir redes sociais, discutir notas sensacionalistas de jornais. 

A História é só o velho, e os velhos não têm lugar na agenda. Mesmo para a agenda mais progressista, os corpos militantes são os jovens, tudo é inovação. História, sociologia, filosofia são coisas efêmeras que não precisam estar na grade curricular do EAD  do MEC’ Escola feliz onde paga por um curso e o diploma vem de brinde. 

Quem precisa de cinemateca quando se tem a netflix? não duvidaria de ouvir esta frase por aí.

Praticantes tikkertokers se perdem em dancinhas virtuais enquanto o exército paramilitar domina todos os espaços reais em redor dos pobres. Quem vai bater de frente? Quem vai ler nas letras miúdas que nos permitem desmontar a memória, como uma criança dopada de rivotril.

Toda nossa História está sendo desmantelada, negligenciada, e pegando fogo. Os que choraram por Borba Gato e cobraram a cabeça dos que o incendiaram terão coragem de chorar pela Cinemateca e cobrar a cabeça dos que cortaram a verba do Cinema Nacional?  A luta pelos cinemas é uma luta insólita de resistência, seja a cinemateca que arde em chamas, sejam os Cinemas de Rua suburbanos se degradando e levando consigo a nossa história para a beira do esquecimento.

Esse é o país que o atual Estado nos deixou. Um país que nos empurrou pra fome e que se esforça para apagar nossa História e que forma uma elite de bosta que não está nem aí pra esse lugar. 

Perdemos muitas oportunidades nesta vida, dentre a maior delas tivemos anos de governos progressistas que não conseguiram produzir uma mudança cultural mínima neste país. Do fim da ditadura até hoje passaram-se ao menos uns 30 anos, tivemos tempo de construir uma sociedade com base forte, que entende a necessidade da cultura, da história, da educação de base. Paulo Freire passou longe das escolas, infelizmente habita ali na resistência, nas citações teóricas e nas tentativas táticas de alguns professores que ainda acreditam na possibilidade de futuro para as nossas crianças, mas nunca se tornou uma política de Estado. 

Mas é isso, nossa pedagogia é forjada pela violência, o vilipêndio e a fome, ficamos atomizados diante das chamas que corroem nossos cinemas e das maquitas que derrubam nossa arquitetura. 

Comemoramos medalhas que são verdadeiros feitos heróicos por parte de atletas que enfrentaram as mais terríveis dificuldades pois temos um país que já viveu a copa das copas e a olimpíada das olimpíadas e não conseguiu deixar um legado esportivo, mas jorra dinheiro da loteca federal para os caixas já gordos de dirigentes de determinados clubes de futebol. A gente aprendeu a resistir no meio de tudo isso e por dentro de tudo isso. Passamos anos caminhando pelas brechas que nos foram permitidas, mas o mundo não pode ser só isso e resistir apenas não está mais dando resultado.

Este país não pode ser mais refém dos netos e bisnetos das elites cafeeiras que agora são agro pois agro é pop. Que escolhem algumas quadras de cada cidade famosa deste país pra chamar de linda, de maravilhosa, de global city, enquanto 80% das cidades ficarão ao relento, controlada por tiro porrada e bomba. Ficando reféns dos militares às milícias, dos Borba Gatos, dos Deodoros, dos Costa e Silvas e dos Bolsonaros.

Somos todos nós que perdemos hoje neste Brasil 

“As nossas riquezas, as nossas carnes, as vidas, tudo. Vocês venderam tudo!”



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“AS NOSSAS RIQUEZAS, AS NOSSAS CARNES, AS VIDAS, TUDO. VOCÊS VENDERAM TUDO!”

É interessante este ponto de vista do sujeito indeterminado no lugar em que rotineiramente damos a notícia apontando o incêndio como sujeito. Pois bem, não poderíamos nunca imaginar que hoje, dia 29 de julho de 2021 estaríamos novamente debatendo o mesmo elemento e apontando o que denunciamos com a notícia: Incêndio atinge depósito da Cinemateca Nacional. 

Originalmente matadouro, o patrimônio se manteve e passou a abrigar a cinemateca brasileira após interessante projeto arquitetônico de Nelson Dupré. Este não é o primeiro incêndio que assola a cinemateca, que já viveu dias de dor em 2016. Este infelizmente é o retrato comum de um país que vê seus espaços de preservação da história sendo lançados ao relento.  Continuar a ler

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Breve Reflexão sobre Estética e o Desencontro entre Arquitetura e Sociedade

Um dos meus primeiros contatos com o campo da estética, ainda na faculdade de arquitetura, veio pelas disciplinas de estudo da forma e de expressão gráfica. Na minha formação, esses estudos quase sempre se apoiavam numa visão de mundo greco-romana, uma das matrizes das Belas Artes.

Mesmo quando o modernismo, que estruturou boa parte do início do meu percurso, proclamava ruptura com as Belas Artes, sua filosofia continuava orbitando o mesmo céu. A ideia de forma ideal, as proporções áureas, a promessa de uma harmonia estética ascética e hermética, como se servisse ao todo da sociedade. Essa base atravessou a escola e moldou projetos em que a pessoa raramente estava em primeiro plano, e a condição financeira, menos ainda. Enquanto isso, aqui fora, no chão do vivido, o mundo seguia construindo do seu jeito, com seus referenciais e seu campo real de possibilidades. Estudávamos lajes planas, quando para o povo o luxo era um telhado colonial, aquele sonho de capa de revista, tipo Casa Cláudia.

Mas, para não me perder, o desencaixe principal estava na própria base da formação. Pensávamos a vida por um viés de transcendência. Primeiro vem o projeto, emergindo como tentativa de semelhança com um mundo perfeito, no campo das ideias. O projeto segue seu rumo até que se dê a obra, sempre icônica, porque, nesse imaginário, a arquitetura não pode ser simulacro.

Só que a vida real não cabe nesse enquadramento. Ela acontece o tempo inteiro, processo atrás de processo. A arquitetura é acontecimento do espaço, concebido e vivido, e é aí que o sentido anterior não fecha. Quando retiramos a arquitetura desse campo transcendente e a trazemos para a experiência viva, o que se abre é justamente a discussão estética. Não existe mais uma boa e uma má arquitetura em si mesmas. Existem caminhos distintos por onde pensamos e operamos o espaço e o tempo da vida. A arquitetura segue o devir. Movimento permanente, criativo, transformador.

Essa diferença é decisiva quando queremos compreender como profissionais de arquitetura podem adentrar o universo da autoprodução do espaço construído. Na autoprodução, o essencial não é tanto o fim da obra, nem o resultado épico de um projeto. O que sustenta tudo é a possibilidade constante de adequação ao momento e ao modo de vida. Um filho que nasce é um quarto que se levanta. Um filho que casa é uma laje que vira novo lar.

É nesse encaixe que um pensar ético e estético da arquitetura pode encontrar talvez o caminho mais democrático de construção da espacialidade. Nós, humanidade, já organizávamos o espaço muito antes dos traços gregos, antes da sistematização das sequências de Fibonacci, antes de Imhotep. No início dessa virada, precisamos redesenhar a visão de mundo. Estar abertos a uma leitura transformadora da vida, onde a contradição e o movimento de ida e volta estejam diante de nós. Precisamos afrouxar o apego ao caminho moral do saber, a caça pela boa forma, pelo bom olhar, e nos permitir dialogar com os muitos olhares que montam e moldam a realidade. Fibonacci, afinal, é uma redução útil, não um altar. Ajuda a ler uma parte, mas não dá conta da complexidade quase infinita das formas da existência.

Se a nossa categoria conseguiu sistematizar o campo técnico-científico via universidades, a espécie humana organiza, por uma longa rede de oralidade, as trocas que operam na autoprodução. Gente que aprende desde pequeno com pais, avôs e bisavôs, que fizeram de tudo, de bibocas e palafitas a pontes, aterros, aberturas de túneis e até palacetes.

À medida que nos imbuímos dessa experiência e soltamos as amarras da busca icônica, começamos a entender. É explorando ao máximo a contradição e o diálogo entre o técnico-científico e o saber do lugar que podemos elevar, de fato, a qualidade espacial do mundo em que vivemos.

No fundo, a crise do saber técnico na arquitetura fala menos de perda e mais de urgência. Romper com certos modos atuais de fazer e de compreender o que é arquitetura, e recompor esse campo a partir dos processos reais de existência e dos valores que atravessam a sociedade de hoje.

 

 

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BREVE REFLEXÃO SOBRE A ESTÉTICA E O DESENCONTRO ENTRE ARQUITETURA E SOCIEDADE

Um de meus primeiros contatos no campo de estudo da estética, ainda na faculdade de arquitetura, envolveu disciplinas de estudo da forma e expressão gráfica. Em minha formação por sua vez, tais estudos sempre se embasaram em uma visão de mundo greco-romana (uma das visões mães da Belas Artes).

Embora o modernismo, pensamento que estruturou boa parte do início de minha formação, tenha proposto uma ruptura às Belas Artes, sua base filosófica ainda pairava no mesmo ambiente de estudo da forma ideal pela forma real, proporções áureas, uma certa harmonia estética que era ascética e hermética pro todo da sociedade. Esta base seguiu escola a dentro pensando projetos de arquitetura onde a pessoa não estava em um plano claro, e a condição financeira também não. Enquanto isso, o mundo aqui fora, no lugar vivido seguia construindo, a seu modo, com seus referenciais e suas condições de possibilidades. Estudávamos lajes planas enquanto pro povo o luxo era um belo telhado colonial das mansões da Casa Cláudia. Continuar a ler

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Monumentalidade e Patrimônio: O que o incêndio ao monumento de Borba Gato nos diz.

Não vou alongar muitos argumentos sobre a questão do monumento aqui. Mas vou tirar um texto específico do saber técnico-científico do campo da arquitetura pra comentar a respeito da questão de patrimônio, monumento, preservação.

Partindo do texto: os 9 Nove pontos sobre a monumentalidade escritos por José Luiz sert, Frenand Léger e SIefried Giedion.
Seu primeiro ponto traz:
\”Monumentos são marcos que o Homem criou como símbolos dos seus ideais, dos seus desejos, das suas ações. São concebidos para sobreviver ao período que lhes deu origem e constituem uma herança para as gerações futuras. Como tal formam um elo entre o passado e o futuro\”.
No seu terceiro ponto lembra:
\”Qualquer época do passado que tenha desenvolvido uma verdadeira vida cultural tinha o poder e a capacidade para criar estes símbolos\”.
Então, o que há e comum entre a comoção em torno do ato de incendiar a estátua de Borba Gato e o descaso com o patrimônio material das regiões periféricas deste país?
O simples recorte histórico de uma sociedade que ainda mantém os modelos elitistas de formação deste país como ícones de valor e ideais.
Lembro-me de uma cena marco do Filme Adeus Lenin, quando a estátua de Lenin é retirada e o jovem protagonista vivencia ali o clímax a demarcação simbólica do fim da Alemanha oriental. (vale ver o filme).
Mas saindo do cinema e vindo pra vida. Ao incendiar a estátua, o que parte da população diz é: não compactuamos mais com os ideais que sustentam de pé estes monumentos. Isso é como Moisés descendo do monte com os Dez Mandamentos e vendo o povo adorar o Bezerro de Ouro, ou como quando após a derrubada de Saddam Hussein suas imagens foram postas abaixo.
Defender a preservação de um monumento é defender o que este simboliza e demarca na história. É interessante notar como a literatura de Victor Hugo foi importante para a valorização da Catedral de Notre-Dame.
E este é o ponto, se cortarmos Brasil a dentro veremos inúmeros bens tombados, monumentos, arquiteturas referenciais pra um grupo social, uma região, um povo, literalmente abandonados e degradados ano a ano, como um incêndio homeopático.
Bens históricos de referencia dos povos africanos ou indígenas sofreram anos de perseguição oficial, e ainda hoje sofrem com perseguições das mais diversas. Quantos não são os casos dos terreiros dilacerados?
No Rio um caso marcante deste recorte elitista é o desmantelamento e esquecimento dos cinemas de rua suburbanos. Arquiteturas símbolo de um tempo histórico onde as regiões suburbanas expressavam uma pujança social e econômica, ainda que estes lugares sempre estejam aquém e segregados nos projetos de cidade.
Os cinemas de rua seguem a cartilha da destruição:
O abandono homeopático por parte do poder público como maneira de destruir o valor cultural e simbólico para a própria região. Bairros inteiros perdem o sentido de sua história, ficam reféns de nunca se sentirem realmente importantes.
O recado social é claro:
Borba Gato ainda é uma referência de um modelo ideal para os que choram pelo incêndio, enquanto para estas mesmas pessoas os Cinemas de Rua são só algo que atrapalha a especulação sobre o terreno no qual eles foram construídos.
Este é o tipo de recorte de valor que nos foi dado no país. Não é esta parte do Brasil queira apagar toda a sua história, ela apenas quer seguir mantendo a narrativa da pujança elitista e manter no esquecimento todos os periféricos, favelados, suburbanos, negros, indígenas e por aí vai.
Esse é o retrato de um país que uma parte de suas elites e governantes chora pelo monumento escravagista de Borba Gato, no mesmo dia em que celebramos as Mulheres Negras da América Latina e Caribenha.


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