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BREVE REFLEXÃO SOBRE A ESTÉTICA E O DESENCONTRO ENTRE ARQUITETURA E SOCIEDADE

Um de meus primeiros contatos no campo de estudo da estética, ainda na faculdade de arquitetura, envolveu disciplinas de estudo da forma e expressão gráfica. Em minha formação por sua vez, tais estudos sempre se embasaram em uma visão de mundo greco-romana (uma das visões mães da Belas Artes).

Embora o modernismo, pensamento que estruturou boa parte do início de minha formação, tenha proposto uma ruptura às Belas Artes, sua base filosófica ainda pairava no mesmo ambiente de estudo da forma ideal pela forma real, proporções áureas, uma certa harmonia estética que era ascética e hermética pro todo da sociedade. Esta base seguiu escola a dentro pensando projetos de arquitetura onde a pessoa não estava em um plano claro, e a condição financeira também não. Enquanto isso, o mundo aqui fora, no lugar vivido seguia construindo, a seu modo, com seus referenciais e suas condições de possibilidades. Estudávamos lajes planas enquanto pro povo o luxo era um belo telhado colonial das mansões da Casa Cláudia. Continuar a ler

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Monumentalidade e Patrimônio: O que o incêndio ao monumento de Borba Gato nos diz.

Não vou alongar muitos argumentos sobre a questão do monumento aqui. Mas vou tirar um texto específico do saber técnico-científico do campo da arquitetura pra comentar a respeito da questão de patrimônio, monumento, preservação.

Partindo do texto: os 9 Nove pontos sobre a monumentalidade escritos por José Luiz sert, Frenand Léger e SIefried Giedion.
Seu primeiro ponto traz:
\”Monumentos são marcos que o Homem criou como símbolos dos seus ideais, dos seus desejos, das suas ações. São concebidos para sobreviver ao período que lhes deu origem e constituem uma herança para as gerações futuras. Como tal formam um elo entre o passado e o futuro\”.
No seu terceiro ponto lembra:
\”Qualquer época do passado que tenha desenvolvido uma verdadeira vida cultural tinha o poder e a capacidade para criar estes símbolos\”.
Então, o que há e comum entre a comoção em torno do ato de incendiar a estátua de Borba Gato e o descaso com o patrimônio material das regiões periféricas deste país?
O simples recorte histórico de uma sociedade que ainda mantém os modelos elitistas de formação deste país como ícones de valor e ideais.
Lembro-me de uma cena marco do Filme Adeus Lenin, quando a estátua de Lenin é retirada e o jovem protagonista vivencia ali o clímax a demarcação simbólica do fim da Alemanha oriental. (vale ver o filme).
Mas saindo do cinema e vindo pra vida. Ao incendiar a estátua, o que parte da população diz é: não compactuamos mais com os ideais que sustentam de pé estes monumentos. Isso é como Moisés descendo do monte com os Dez Mandamentos e vendo o povo adorar o Bezerro de Ouro, ou como quando após a derrubada de Saddam Hussein suas imagens foram postas abaixo.
Defender a preservação de um monumento é defender o que este simboliza e demarca na história. É interessante notar como a literatura de Victor Hugo foi importante para a valorização da Catedral de Notre-Dame.
E este é o ponto, se cortarmos Brasil a dentro veremos inúmeros bens tombados, monumentos, arquiteturas referenciais pra um grupo social, uma região, um povo, literalmente abandonados e degradados ano a ano, como um incêndio homeopático.
Bens históricos de referencia dos povos africanos ou indígenas sofreram anos de perseguição oficial, e ainda hoje sofrem com perseguições das mais diversas. Quantos não são os casos dos terreiros dilacerados?
No Rio um caso marcante deste recorte elitista é o desmantelamento e esquecimento dos cinemas de rua suburbanos. Arquiteturas símbolo de um tempo histórico onde as regiões suburbanas expressavam uma pujança social e econômica, ainda que estes lugares sempre estejam aquém e segregados nos projetos de cidade.
Os cinemas de rua seguem a cartilha da destruição:
O abandono homeopático por parte do poder público como maneira de destruir o valor cultural e simbólico para a própria região. Bairros inteiros perdem o sentido de sua história, ficam reféns de nunca se sentirem realmente importantes.
O recado social é claro:
Borba Gato ainda é uma referência de um modelo ideal para os que choram pelo incêndio, enquanto para estas mesmas pessoas os Cinemas de Rua são só algo que atrapalha a especulação sobre o terreno no qual eles foram construídos.
Este é o tipo de recorte de valor que nos foi dado no país. Não é esta parte do Brasil queira apagar toda a sua história, ela apenas quer seguir mantendo a narrativa da pujança elitista e manter no esquecimento todos os periféricos, favelados, suburbanos, negros, indígenas e por aí vai.
Esse é o retrato de um país que uma parte de suas elites e governantes chora pelo monumento escravagista de Borba Gato, no mesmo dia em que celebramos as Mulheres Negras da América Latina e Caribenha.


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MONUMENTALIDADE DE PATRIMÔNIO: o que o incêndio ao monumento de Borba Gato nos diz.

Não vou alongar muitos argumentos sobre a questão do monumento aqui. Mas vou tirar um texto específico do saber técnico-científico do campo da arquitetura pra comentar a respeito da questão de patrimônio, monumento, preservação.

Partindo do texto: os 9 Nove pontos sobre a monumentalidade escritos por José Luiz sert, Frenand Léger e SIefried Giedion.
Seu primeiro ponto traz:
\”Monumentos são marcos que o Homem criou como símbolos dos seus ideais, dos seus desejos, das suas ações. São concebidos para sobreviver ao período que lhes deu origem e constituem uma herança para as gerações futuras. Como tal formam um elo entre o passado e o futuro\”.
No seu terceiro ponto lembra:

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Desejo de Matar e as contradições do individualismo

Em 1974 estreou o filme Desejo de Matar estrelado por Charles Bronson, esta obra tem um impacto peculiar na cultura da gente. O eixo central fala de um homem comum que após ter sua casa invadida, sua esposa é assassinada e sua filha violentada. Paul Kersey, um arquiteto de ideias liberais com visão de mundo anti-armamentista, se transforma pouco a pouco em um vigilante das ruas. 

filme dá um pontapé numa massa de produções com enredos de valorização da cultura armamentista como ferramenta de proteção do cidadão comum. Apesar disso, não podemos reduzir o enredo deste filme específico a esta propaganda. Desejo de Matar está muito mais próximo de Um Dia de Fúria, filme onde um designer industrial explode seu stress com o modelo de sociedade e se vê emaranhado numa teia de problemas que se desencadeiam e piora quando este se arma, do que de filmes e franquias que se inspiram nesse modelo do homem comum armado resolvendo tudo.

Charles Bronson não é um herói, a única habilidade exímia de seu personagem é saber atirar, mas não é um atleta, não é um estrategista ou nada assim. Mas em que isso tudo nos importa? Simples, somos hoje em 2021 uma geração criada embebida na lógica das narrativas cinematográficas abertas por filmes como este. Uma corruptela do bom Desejo de Matar veio com sua franquia e com inúmeros filmes posteriores cujo personagem principal seguia o mesmo padrão: homem de meia idade armado resolvendo problemas que o Estado não foi capaz de resolver. Essa é a base de uma gama de filmes de Charles Bronson, Chuck Norris, Bruce Willis, Vin Diesel, etc.

Este, que é o eixo central do Desejo de Matar, também tem muito a nos dizer. O filme retrata como um homem comum com repulsa a armas, quando vê sua vida destruída pela incapacidade do Estado toma certas escolhas. O filme retrata de forma peculiar as possibilidades e contradições abertas por uma cultura armamentista e liberal podem gerar a busca pelo vigilantismo e punitivismo. Ver essa leitura nos ajuda a entender nosso dia a dia aqui também. Apesar de o Brasil não ter a mesma relação histórico-cultural que os Estados Unidos tem com o universo das armas de fogo, fomos moldados (inclusive por estes filmes) a normalizar a cultura das armas.

Um padrão em todos os filmes deste tipo, e também um certo padrão do mundo real, é que lidamos com um sistema de segurança ruim, falho, corrupto, — “esta cidade é assim”. Quando as pessoas comuns pensam em segurança o que desejam é proteção, e raramente encontram. O cotidiano de uma visão liberal da vida nos instiga e nos bomba com referências de que devemos fazer por nós mesmos. Nossa vida é um problema nosso apenas, temos que cuidar de nosso interesse individual, primeiro nos ajudemos para depois ajudar ao próximo, se batalhar consegue, somos bombardeados com modelos que centram no indivíduo a saída e no coletivo o problema. O que temos então? a chave certa para defender saídas não estatais para problemas de estado (como a segurança pública, por exemplo).

Este é o ponto que Desejo de Matar já nos apresentava. Qualquer pessoa comum que cresce em uma cultura que valoriza as soluções individuais pode perder sua fé nos sistemas institucionais e tentar uma solução por si. Os sistemas institucionais, por sua vez, limitados para resolver os problemas estruturais que geram a violência urbana, não conseguem dar cabo de resolver o problema da vigilância apresentada no filme sem utilizar de subterfúgios. A polícia não o prende para não criar um mártir e abrir o descontrole social, antes o incentiva a mudar de cidade. Nota-se também que, se em um primeiro ciclo de ações do vigilante, os criminosos atuam com armas brancas, já no fim, o vigilante é pego por criminosos que usam também armas de fogo.

O filme expõe um pouco do como funciona esse ciclo de violência urbana. Se num dado momento, a criminalidade parece reduzir porque o vigilantismo mudou a postura do banditismo, o fim do filme mostra que este ciclo permanecerá com uma qualificação do banditismo para reagir ao processo social. Quanto à proposta institucional para resolver o problema, o que se apresenta pelo filme é o famoso: jogar para debaixo do tapete o problema, incentivando o grande escritório onde o arquiteto trabalha a transferi-lo para outra cidade. O problema da violência não se resolve em momento nenhum, isso fica claro, assim como uma certa angústia ou crença do personagem principal.

No fim tanto a crença anti-armamentista que individualizada não impediu Paul Keyser de sofrer a violência que sofreu nem a possibilidade de punitivismo armamentista trouxe ao arquiteto a paz, ou a segurança ou a solução, o que parece ser seu vetor é apenas a descrença na capacidade de um sistema melhor. O que parece lhe dar um pouco de paz talvez seja o fato de ter se posto como essa cunha da contradição que obriga o sistema a rever seus caminhos. Os únicos momentos do filme onde o personagem comenta sobre seus motivos, em diálogo com o filho, deixa mais questões e dúvidas no ar do que motivações. É quase como uma escolha niilista enquanto cabe a sociedade dispor das teorias ou críticas sobre os fatos.

Entendermos isso é importante para entendermos como acontecem certos processos e pautas conservadoras que nos parecem contraditórias como por exemplo ser cristão e querer ter uma arma em casa ou o discurso de legítima defesa que alguns pregam. Este desejo equivocado se embasa nessa construção cultural de décadas de bombardeamento da cultura pop que aponta isso como solução somado ao problema material de não termos uma política de estado eficiente para lidar com a segurança pública. Este mesmo desejo acaba por relativizar e facilitar a criação de sistemas de poder paralelos, à medida que, no momento inicial, as lideranças locais destes são vistas como vigilantes de bairro a cumprir o papel que o Estado não consegue dar conta.

Desmistificar o armamentismo individual exigirá um esforço complexo que passa primeiramente pela garantia de um sistema policial e judiciário não corrompido e que tenha como diretriz a proteção ao cidadão. Segundo, precisamos recuperar o interesse coletivo em escala comunitária (rua a rua e bairro a bairro) para a solução de problemas e construção de propostas como aumentar o acesso a direitos básicos e redução da segregação social.

Para além disso, precisaremos de um processo de ressignificação desta parte da cultura pop que traça como bem sucedido e símbolo de sucesso o homem armado. O que pode até ser trabalhoso mas não tão difícil visto que essa propaganda tem como pano de fundo um recorte tipo homem de meia idade, que aparentemente não é o desejo de ser dos jovens. Mesmo jovens que hoje buscam se entender por uma identidade conservadora podem se colocar em contradição diante deste padrão. Lembramos dos tempos em que propagandas de cigarros retratavam sucesso, vida atlética, liberdade, refinamento cultural. Hoje, ainda se fuma, mas já não são massivos e associados a estes conceitos a quantidade de fumantes. Quem fica preso a este eterno retorno do passado como saída acaba por gerar espantalhos até que se transforme em um.

Conceitos de vida mudam porque somos seres com habilidades sociais, coletivas e mais importante de tudo reflexivas. São estas habilidades que nos permite buscar os melhores meios de ampliar nossa qualidade de vida, nosso tempo individual na terra, nossas produções coletivas e por aí vai. Para tal é preciso estarmos constantemente colocando nossas contradições sociais na mesa para propor caminhos melhores, mais coletivos e mais humanos.

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DESEJO DE MATAR E AS CONTRADIÇÕES DO INDIVIDUALISMO

Em 1974 estreou o filme Desejo de Matar estrelado por Charles Bronson, esta obra tem um impacto peculiar na cultura da gente. O eixo central fala de um homem comum que após ter sua casa invadida, sua esposa é assassinada e sua filha violentada. Paul Kersey, um arquiteto de ideias liberais com visão de mundo anti-armamentista, se transforma pouco a pouco em um vigilante das ruas. 

filme dá um pontapé numa massa de produções com enredos de valorização da cultura armamentista como ferramenta de proteção do cidadão comum. Apesar disso, não podemos reduzir o enredo deste filme específico a esta propaganda. Desejo de Matar está muito mais próximo de Um Dia de Fúria, filme onde um designer industrial explode seu stress com o modelo de sociedade e se vê emaranhado numa teia de problemas que se desencadeiam e piora quando este se arma, do que de filmes e franquias que se inspiram nesse modelo do homem comum armado resolvendo tudo. Continuar a ler

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VISTA ALEGRE esse pequeno pedaço de subúrbio

 Se antes falamos do Imperador e o conceito de lugar, porque não falar hoje do meu ou um dos meus Lugares ? 0 pequeno bairro de Vista Alegre.

Rogério Batalha, compositor, poeta e morador de Vista Alegre cita: nosso bairro é uma pequena Bahia, Jorge Amado realmente teria muito a contar sobre este lugar. Esse bairro que se avizinha a Cordovil, Irajá, Brás de Pina e vila da Penha é quase um condado pouco lembrado ou citado pelos cronistas da cidade. Em geral quando citamos Vista Alegre, é comum receber comentários e referências que vão desde um bairro de São Gonçalo até algum lugar da Barra. Continuar a ler

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13 DE MAIO— DIA DE PRETO VELHO: Dos Subúrbios que os Subúrbios escondem.

13 de maio! Dia de Preto Velho. Adorei as Almas. 

Hoje o fio passará por este processo de imensa sabedoria que existe entre nós. É de se esperar que no país onde a história é contada pelos vencedores, tenhamos nos acostumado com o fim da escravidão sendo representado por um processo legal por parte da princesa com um fim todos felizes para sempre, dando um ar digno de contos e fábulas da Disney. 

Interessante porém, como o contraponto vem da sabedoria do povo, aquela que muitas das vezes é considerada como menor, por não ser uma sabedoria produzida nas égides da ciência iluminista ou dos clubes literários ou dos cafés onde poetas e compositores da burguesia se encontram. Foi na sabedoria do povo escravizado, no Candomblé, na Umbanda, nos terreiros e quintais que a homenagem se deu da melhor forma. Este dia onde a escravidão terminou mas o racismo permaneceu, celebramos a ancestralidade, os avós, avôs, pais, reinos, todos que foram desmantelados do direito básico a humanidade são lembrados hoje e nos dão as suas bênçãos.  Continuar a ler

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O LUGAR DO IMPERADOR: Adriano e o Complexo

As recentes declarações do Jogador Adriano nos faz pensar sobre um dos principais conceitos da arquitetura e da vida: O lugar.

Quando o jogador de milhões, no auge da sua carreira retorna ao Brasil e, principalmente, ao seu bairro, sua favela ou seu complexo como queiram chamar, o jogador vira alvo de uma campanha alvoroçada e constante. Não era raro ver as mídias associarem o retorno do jogador a uma decadência moral do tipo, está cercado de bandidos, associou-se ao tráfico, etc. Discurso este que caia no senso comum, Adriano era visto como aquele que teve todas as oportunidades e jogou fora.

A real é: o que o sistema realmente não tolerou foi a quebra do modelo de sucesso que ele vende. O retorno de um jogador, um artista um ídolo ao seu lugar de origem se torna perigoso a medida em que o discurso oficial precisa convencer que o seu lugar é \”errado\”. O que se espera de um jogador pobre que sai da favela ainda jovem e vai viver na Europa? Espera-se qualquer coisa, menos que ele retorne ao seu lugar pobre. Continuar a ler

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CIEPs o sonho de um Brasil possível

Em 08 de maio de 1985 era inaugurado na cidade o primeiro CIEP. Situado na Rua do Catete, um dos endereços políticos mais importantes do Brasil, o projeto arquitetônico-pedagógico, parceria de Brizola e Darcy, com traços de Niemeyer.

A arquitetura marcante de Niemeyer e o conceito de educação integral produzido por Darcy, que garantia a criança conhecimento, esporte, saúde e socialização, e garantia a comunidade um espaço de lazer e cultura, abriu a possibilidade real de fazermos um Brasil diferente. Como sonhava Brizola: “Dos CIEPs hão de sair aqueles homens e mulheres que irão fazer pelo povo brasileiro e pelo Brasil tudo aquilo que nós não conseguimos ou não tivemos coragem de fazer”. Continuar a ler

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Tragédia de um Rio que chuta a porta

 Alguns dias depois de escrever aqui a respeito do avanço desta nova estrutura material e cultural da violência organizada na cidade, uma tragédia nos aconteceu. 

Em uma operação de extrema violência que pode sim ser definida como chacina, 25 moradores do Rio de Janeiro morreram, outros ficaram feridos e muitos foram impedidos no seu direito de ir e vir. Fatos como balas no metrô, e vídeos de execução a queima roupa e com grau de violência só visto em crimes de guerra,  circulam pelas redes. 

A violência expõe uma das pautas cruciais desta cidade. Por um lado a milícia recorre a todas as forças para tomar territórios e avançar na conquista do poder paralelo da cidade, por outro o tráfico tenta manter estes espaços sob controle. Em um terceiro movimento, a polícia expõe sua violência como ferramenta principal de ação, direcionada a espetáculos voltados a prender e matar pobre.

A violência é base pedagógica da formação da maior parte do povo da nossa cidade. Naturalizamos a mesma. Quem mora em locais de violência, já está acostumado a diferenciar tiros de fogos.  Alguns somos capazes de detalhar o tipo de armamento, distância, e etc, apenas com o som do estampido. Esta é a vida de boa parte da população. Não é incomum que esse povo encontre nos concursos para polícia militar e civil uma saída de emprego e uma referência de presença do estado. Pois esta é a principal referência que o estado lhes dá. Em terras onde falta, água, asfalto, iluminação, saneamento, escola, posto de saúde, área de lazer, etc, eles estão presentes. Não adianta apelarmos para a legalidade em um país onde o direito é classista e pobres, com sorte veem seus problemas chegarem na primeira instância para seu apreciados, segunda instância e STF é uma quimera. 

A discussão sobre a violência não caminha, pois segue presa no senso comum por duas vertentes. Uma que envolve a solução pelo aumento da violência, solução essa que aprova chacinas, tiros na cabecinha e etc. Outra vertente, aponta as problemáticas estruturantes disso tudo, destaca os papéis do abuso de poder e da ruptura constitucional, entre outros, que mostra que solução real exige um trabalho de longo prazo. Ambas não conseguem responder por sua vez trazer uma solução real a curto e médio prazo.

Um dos grandes problemas é que estamos presos num ciclo trágico onde a população sente e deseja uma saída urgente. A violência exacerbada cola no povo que se vê vingado, e se torna um instrumento útil as forças de poder paralelo que disputam territórios onde o estado  falha.

Óbvio que ações como a chacina do Jacarezinho não resolverão o problema da violência no Estado do Rio, não desmobilização o crime organizado, não reduzirá assaltos ou tiro. Da mesma forma sabemos que não há saída simples para a situação em que nos encontramos. Se fosse prever o futuro, apesto que a sequencia dos atos será: ou o aumento da estrutura de defesa do comando de poder que controla o território, ou o ataque de outro poder que passaria a controlar o território. Em ambos os casos, o estado de vidência permaneceria como parte da realidade do território. O povo, seguirá exausto e descrente de tudo, comemorando fatos isolados como chacinas ou prisão de vereador miliciano assassino e etc, que são vistas como solução a curto prazo. 

Há um embate ético que atrapalha isso tudo. É preciso que parte de quem pensa uma saída concreta legal e legitimada por princípios de direito a vida perceba que o fascismo nesta escala se impõe porque é a escala onde boa parte do povo será cotidianamente violentada. As pessoas aliciadas para o tráfico ou milícia, as pessoas que buscam na violência seu ganha-pão (assaltando pedestre na rua), nunca serão vistas como oprimidas por aquelas pessoas que estão em condições sociais e econômicas parecidas e que por N motivos não entraram neste sistema.

Um processo de segurança pública precisaria de uma ação veemente a curto e médio  prazo de:

inibir roubos e furtos nos bairros,

sistema jurídico que resolva os problemas (falo de todas as cadeiras e não só do criminal),

desmontar o tráfico de armas a partir dos donos do poder e das fronteiras,

promover qualidade de educação e saúde ( que a médio e longo prazo dará os resultados mais significativas), 

Construir uma outra cultura onde 0 alcance de sucesso e prestígio (o famoso \”Subiu na vida\”)  não fique preso no sistema militar/paramilitar,

produzir ações de integração social entre os mais diferentes nichos da sociedade.

Bem, há uma lista enorme ele tarefas a serem feitas, estudadas e implementadas. Nenhuma será fácil, ainda mais na atual conjuntura onde quem nos governa tem na sua base de apoio grupamentos paramilitares que dominam grande parte do território, além de dominar parte do sistema econômico (quem acompanha o mercado de extrativismo de areia sabe ndo que estamos falando).

Enxergar o efeito nocivo que a exaustão e o abandono do Estado trouxe aos mais pobres é fundamental para recuperar minimamente a crença destes de que algo bom pode ser construído neste país. A saída pela terceirização do Estado aos poderes paralelos destas milícias que crescem será a pior escolha. E por que pessoas boas parecem comemorar a morte? infelizmente o resultado de séculos de políticas de controle social pela violência nos educou assim.

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