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Crônicas de um Rio que bate a porta

O longo processo de constituição da cidade do Rio sempre foi embebido em uma disputa que tange o controle da cidade por poderes paralelos armados. O que vemos na atualidade é uma nova fase disso se organizando. Estamos a um passo de nos consolidar Como um milíciocidade.

Importante ressaltarmos que: o que chamamos de paralelos me parece um certo equívoco, pois há interfaces claras entre os poderes que assumem o controle de determinados territórios e os poderes legalmente constituídos para cuidar dos mesmos.

Já é de longa data, pelo menos lá pelos idos dos anos 90, que a cidade do Rio viu organizar em seu território, uma nova forma deste poder. Filhos culturais das chamadas polícias mineiras, as milícias começaram a ocupar espaços notoriamente esquecidos pelo poder público, e seguiram por ele atuando como agentes em resposta a esta ausência do Estado. Isso ganhou vulto a medida em que alguns fatores aconteciam. Entre eles, a mudança organizativa dos grupos de tráfico que começavam a esvaziar o sentido de pertencimento do lugar por parte dos seus grupamentos, o desmonte dos poderes do jogo do bicho e a redução da capacidade de vereadores bico d’água responderem sozinhos a todos os anseios dos bairros onde faziam base. Claro muitas outras linhas podem sair daqui, mas destacamos essas no momento.

Os parâmetros destacados forma uma boa tríade de cultura que se comunicava rotineiramente com o povo de diversos bairros suburbanos, sempre preteridos em políticas públicas de qualidade quando comparados a outros lados da cidade.

Para os poderes legalmente constituídos, realmente o início do sistema miliciano poderia ser visto com bons olhos, visto serem grupos oriundos de pessoas que trabalhavam em departamentos do próprio estado, como polícia, bombeiros, etc. Grupos estes que há muito são arraigados com as lógicas estruturantes de poder deste país. O resultado deste enlace foi um processo oficioso de terceirização do controle territorial por parte do Estado para estes grupamentos.

Outro entrelaçamento importante está no crescimento em especial dos movimentos neopetencostais, principalmente os assembleianos. Aqui cabe entender com clareza sobre que recorte estamos falando. A potencia de uso do movimento neopetencostal está na capacidade de pulverização e de autonomia que cada parte (um templo, uma igreja, uma roda de pregação) tem sobre si.

Diferente de igrejas mais tradicionais, onde há uma certa organização padrão, como acontece nos batistas, metodistas, etc, assim como igrejas com certa centralidade como a católica. O movimento assembleiano permite que cada igreja de forma independente e autônoma fale e pregue por si tendo como base o milagre dos pentecostes e dons espirituais. É importantíssimo ressaltar este elemento, pois é justamente por esta capacidade de horizontalismo e descentralização que o movimento permite que nasça dentro de si as mais diversas linhas de crenças, linhas ideológicas, linhas de conexão social, etc. Há um fenômeno por sua vez que não pode ser descartado, o poder das rádios e tvs em um processo de disseminação de uma determinada cultura. Qualquer pessoa que assistir programas das mais diferentes épocas do pastor Malafaia por exemplo, notará como sua pregação forma uma cultura e modos de agir.


Se um Silas mais Jovem condenara práticas da chamada teologia da prosperidade, um Silas dos anos 90 e 2000 a colocariam no centro do discurso. Porém uma coisa era comum, o efeito de blocos dos iguais. Vemos em algumas pregações a construção clara do hábito de se afastar das pessoas que pensam e vivem diferente. Frases de efeito sobre amigos possivelmente gentios que não te acrescentam nada, familiares, festas do mundo, entre outros. Silas alimenta Um movimento religioso que organiza o povo em torno de iguais que repudiam os diferentes.

A capilaridade que as igrejas construíram no vazio cultural e cívico que deveria seu ocupado também por teatros, praças, parques, cinemas. A cultura cotidiana de vidência e falta de perspectiva. A crise econômica e crise de representação e 0 excesso de incertezas nos ajudam a explicar parte do busca desesperada de um grupo de identidade. São estes algumas elementos que somados a evolução das práticas de controle territorial da cidade nos coloca hoje a beira de transformar parte significativa do município em território onde o estado se torna impotente.

Os jovens sem perspectiva, o cotidiano de poder das milícias e uma cultura cristã que inverte a ordem dos testamentos. Se a bíblia nos leva do Senhor dos Exércitos Ao Cristo da Graça, parte da liturgia cotidiana faz o Cristo da Graça ser o Senhor dos Exércitos contra o mal maior. Aqui temos uma corruptela que permite naturalizar o nascimento de movimentos armados que operam em nome do Senhor, com suas bandeiras de Israel empunhadas demarcando seus territórios de controle, expulsam todos aqueles que entendem que são ímpios ou inimigos. Um sistema que cresce articulando as forças milicianas, forças do tráfico internacional de drogas e armas e as forças religiosas. 


Vale Lembrar que este tipo de movimento não é exclusivo do grupo religioso em questão, ele é um padrão de sociedade vendido. shoppings center e condomínios fechados por exemplo são a venda desse desejo para o povo. As esquerdas também não escapam desta armadilha, quando promovem discursos como: lado certo da história ou do tipo sair do grupo de família por conta do parente conservador segue o mesmo padrão proposto por Malafaia incentivando seus fiéis a se afastar dos parentes que ouvem “música do mundo\”.

O mundo hiper individualista não nos responde, somos seres coletivos. 0 mundo condominial responde parte o anseio da coletividade, mas não resolve plenamente a sociabilidade ao nos colocar nos guetos invisíveis e imaginários. Os guetos nos confortam, estamos com nossos iguais, nos alivia da dor da incerteza, mas são imaginários.


A bandeira monarquista ou a comunista na estrada do Quitungo não diferencia as condições materiais onde por exemplo ambos os seus donos precisarão andar longas distâncias para pegar um onibus ou comprar um pão e a noite farão no escuro pois a iluminação do bairro parece do tempo de D.Pedro. Assim como a bandeira de Israel não dará a Jovem que empunha uma arma em nome de Deus, o poder de um Rei Salomão, nem mudará o fato de que os grandes financiadores seguirão vivos em suas mansões enquanto ele e os seus morrem ainda jovens. 

A saída não é fácil, exigirá um trabalho coletivo de reconhecimento de demandas e anseios, de romper com a segregação social que as narrativas em bloco criam, romper com o cercadinho condominial, entre muitas coisas. Boa parte do povo só quer viver suas vidas, sair e voltar pra casa em paz. Essa galera está só cansada da aporrinhação que todos trazemos no excesso de debates, militâncias e embates e de viver sob a ameaça constante dessas estruturas de poder que os cerca. 

Se por um lado, um Estado que queira resolver este problema precisará assumir com coragem uma briga com inúmeras forças que estão no interior deste estado, das corporações  batalhões até a casa de vidro. Pelo lado da sociedade civil, entendo que não haverá trabalho de retomada social capaz de ser resolvido sem passar pela escala familiar, comunitária para aí então chegarmos na municipal e estadual. Assim como considero impossível uma saída que não passe pela ruptura dos cercados sociais e pela volta do contato com o diferente. Sair dos discursos maniqueístas é fundamental, são base para retomar os sequestro social em que estamos enfiados. Qualquer coisa fora disso seguirá alimentando as lógicas de grupos e guetos que vivem da violência e do terror ao diferente. 

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Viação Acari é apenas um elo da crise da Mobilidade Urbana

 

A cidade do Rio de Janeiro foi impactada ontem com a notícia do fechamento de mais uma empresa de ônibus. A Viação Acari pertencente ao consórcio Inter-Norte decretou falência, deixando a incógnita sobre o futuro de suas linhas e de seus trabalhadores.

A falência dos sistemas rodoviaristas na cidade refletem por sua vez o complexo emaranhado da política de mobilidade desta cidade, fruto de longa data. O texto por óbvio, não tem a pretensão de responder a tudo, mas de dar pinceladas em alguns elementos. Entre eles iniciamos dizendo que estamos em uma cidade complexa em termos de traçado urbano. Se por um lado parte pequena dela sempre recebeu melhoramentos ou projetos que permitiram um traçado planejado, uma parte imensa da cidade definiu seu sistema viário por colagens de loteamentos.

Cruzamento das ruas Dias da Cruz, Fábio da Luz  Souza Aguiar

Não é incomum, por exemplo, nós vermos ruas da cidade que sentimos que deveriam ser contínuas e não são. Assim também, é bem comum vermos bairros inteiros com traçados que parecem não ter certa racionalidade. Um exemplo disso pode ser notado comparando bairros vizinhos como Bento Ribeiro e Marechal Hermes como na ilustração abaixo.
Bairros de Marechal Hermes e Bento Ribeiro

É possível ver com clareza que em Marechal há um projeto inicial que visa uma linha vinda da estação criando quadras em vias ortogonais, com direito a praças pontuando a centralidade, e este raciocínio de ortogonalidade se espelha em boa parte do bairro, enquanto em Bento Ribeiro vemos ruas e quadras dispostas em formas mais livres, provavelmente resultado de diversos processos distintos de abertura de lotes e vias.

Esta cidade complexa não se pôs a planejar um sistema complexo que fosse capaz de responder as inúmeras peculiaridades que conformam o nosso tecido urbano de maneira a integrar toda a população dando-lhes o direito pleno de ir e vir com qualidade. Esta é uma das chaves estruturais do problema. Se num dado tempo, o sistema ferroviarista (bondes e trens) responderam bem e impulsionaram um já existente processo de ocupação suburbana da cidade, o lobby rodoviarista implementou a predominância deste sobre o poder dos trilhos, durante anos o resultado foi o desmonte dos bondes, o sucateamento dos trens e o pouquíssimo avanço do sistema metroviário.

Durante anos, os ônibus foram o principal meio de transporte da população carioca (em especial a suburbana). Apesar de não atuarem em massa como o trem, o ônibus permitia ligações de curta, média e longa distancia na cidade, além de dar mais capilaridade bairro a bairro. Quem não tem uma linha de estimação que dá voltas e mais voltas como um 940 por exemplo (que chega a passar duas vezes no mesmo ponto em uma mesma viagem)?

Porém os anos de hegemonia deste modal, embasados em articulação política e lobby de donos de empresas com políticos não favoreceu o próprio sistema, que se sucateou pelo comodismo. Quem nunca pegou um 910 sem parafusos, com o vidro imundo e com a companhia de baratas? Não é atoa que as vans e kombis, mesmo ilegais conseguem se manter atrativas e competitivas frente aos ônibus, mesmo com manutenção tão precária (ou mais) quanto os mesmos.

A mentalidade do período pré-olimpico carioca modificou alguns raciocínios, mas não a estrutura dos transportes. O BRT foi vendido como a grande novidade modal para os subúrbios e a reorganização da gestão das linhas em grandes consórcios de empresas se foi uma tentativa de melhorar a economia destas detentoras do controle do sistema de transportes rodoviários equivocou-se. A política de modais implementada a partir de 2015 gerou mais segregação, por criar mais baldeações entre ônibus, aumentando o tempo de viagem e o desconforto de muitos passageiros. O que ambos os movimentos não foram capazes de prever, é que a roda do tempo já estava passando e o ciclo vicioso que as empresas construíram estava no limiar de não responder mais às necessidades da cidade sem dar sinais de colapso.

Muitas linhas lucrativas para as empresas foram fatiadas com a reorganização dos serviços consorciados, tanto o BRT que eliminou inúmeras linhas de ônibus, quanto o fatiamento de linhas que faziam conexão direta norte-sul (que agora passariam a operar nos corredores norte-centro com um ônibus e centro-sul com outro) não trouxeram o lucro almejado a algumas empresas, além de dificultar o acesso da AP3 a AP2 (curiosamente a Viação Acari tem duas linhas que mantém esta conexão). Importante salientar que nesta mesma época, bairros como Cascadura, que atuavam como uma importante junção se viu esvaziado com o desmantelamento das inúmeras linhas em favorecimento da Transcarioca.

mapas dos donos da Viação Acari.

Quando vemos as rotas das linhas da Viação Acari, notamos como elas hoje estão pouco racionais, em muitos trechos da viagem as linhas seguem praticamente a mesma rota, em diversos casos são trechos facilmente atendidos por transporte ferroviário. Provavelmente o que temos hoje são rudimentos e vestígios de inúmeros recortes e reduções destas linhas na cidade.


A Viação Acari seguiu o mesmo ciclo vicioso de outras empresas que faliram no mercado. Não conseguindo manter padrão de horário, de qualidade dos transportes, tento linhas que praticamente competem entre si por trechos imensos da cidade, com CEOs e donos que gastam muito mais energia em negócios e lobbys com prefeituras e vereanças do que investindo na própria empresa. Empresas de ônibus urbanos na cidade do Rio operam muito mais em função da necessidade extrema do passageiro do que movimentando o interesse ou desejo deste passageiro, desta forma conseguem maximizar seu lucro oferecendo o mínimo necessário ao passageiro. Não dá para reclamar de uber ou van, ou quaisquer meios de transporte, se a empresa não for capaz de colocar suas rotas para funcionar com comodidade, segurança e pontualidade.

Assim, com um mix de problemas e diante de uma pandemia que modificou completamente a forma como vivenciamos a cidade, empresas como a Viação Acari tenderão a não conseguir sustentar seu funcionamento pelo acúmulo de má gestão e falta de planejamento no setor. Não há meio viável de investir em mobilidade urbana sem pensá-la dentro de um plano maior que foque no bem estar e qualidade de vida dos usuários. O problema do Rio de Janeiro é grave, com estrutura equivocada, que ao invés de fomentar integração urbana, compreender e atuar na real necessidade do cidadão, fomenta a segregação econômica e social do morador do Rio (e região metropolitana em geral) garantindo a margem de lucro na entrega do mínimo necessário para o trabalhador.

Como a chantagem que sustentava o serviço baseada na exploração do trabalho e no medo deste perder emprego por conta de atrasos que obrigavam o trabalhador a pegar qualquer transporte que o levasse pro emprego reduziu bruscamente com o aumento do home-office e do desemprego sistêmico, o sistema de ônibus viu reduzido sua maior fonte de coleta de passageiros. Junta essa redução, com a necessidade de mais manutenção na frota, que já é antiquada, e que parada não gera lucro, o que estava ruim piora.

Basta vermos o nome de um ou dois dos sócios da Viação Acari: Cassiano Antônio Pereira. — Sócio das empresas de ônibus do Grupo Rubamérica, Cassiano Antônio Pereira figura também como representante da Terceiro Tempo Assessoria e Marketing Esportivo, reconhecida oficialmente desde 2005 pela CBF como intermediária na negociação entre clubes e futebolistas. Outro: Valmir Fernandes do Amaral — Sócio em Viação Ponte Coberta, Expresso Nossa Senhora da Glória, Gardel Turismo, entre outros negócios.


Como acontece com a maior parte das falências deste tipo de serviço, quem perderá são os trabalhadores da empresa e a população mais pobre que de alguma forma dependia das linhas e hoje se vê na incógnita de saber se elas serão mantidas ou extintas. Seus donos certamente seguirão por aí, levando os recursos adquiridos nos anos de exploração dos serviços de transporte para outros locais e mantendo suas relações de negócios com os donos da cidade, nada diferente do que é uma família Barata.

Rotas das linhas da Viação Acari saindo dos Subúrbios em direção ao Centro.

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SALVE JORGE, SALVE O BRASIL, SALVE QUINTINO, SALVEM OS SUBÚRBIOS CARIOCAS!

 Dia 23 de abril de 2014, Quintino se veste de vermelho, fecha a rua, dança, solta fogos e canta.

O povo se reconhece no São Jorge por suas lutas diárias.
Esse é nosso Subúrbio Carioca no suor, na fé, na esperança, na cultura popular e na ancestralidade. Somos muitos formando o chão que a gente pisa e vive com o suor do trabalho estampado no rosto.
Neste Brasil, terra de todos os encontros, São Jorge encontra suas muitas faces: O Jovem, não mais tão jovem, que sente saudade de sua geral onde via Assis trazendo a Guanabara e que sincretismo belo seria a encruzilhada entre Assis e Zico em um só. Também é o jovem que sobrou na aeronáutica mas pega sua bike e sua mala e rasga Rio a dentro em suas entregas. A lojista que precisa enfrentar diariamente as armadilhas que o machismo estrutura na terra. O motorista de aplicativo que de tanto tomar nota baixa está sendo obrigado a fazer cansativas corridas que pouco dinheiro dá, mas se conseguir o suficiente pra comer um podrão no fim da noite está feliz. São Jorge é um moto-taxista na esquina da Clarimundo de Melo com a Saçu.
Jorge em seu cavalo é Maria no BRT, caminhando pelo vale do combate entre a incerteza da doença e a fé e esperança de que vai voltar da labuta e ver a filha se formar um dia. São muitos, como muitos são os Jorges do Brasil, na poesia, no ponto, no toque do tambor, na voz do pastor que não professa a fé mas ama seu irmão que professa, porque o Jesus que Jorge da Capadócia e o Pastor Jorge da Igreja Batista de São João de Meriti conhecia nos ensinou a importância do amor e da partilha. A fé não é algo que se julga, é algo que se admira, admirem-na!
São Jorge não é sobre crença, não é sobre fé, São Jorge é sobre Povo. Não preciso nem olhar para o invisível, pois a beleza está no visível mesmo, de um povo que se faz povo, de um deserto que vira dia de encontro. Este ano o encontro será no invisível, no virtual, mas isso não é problema pra quem caminha nos muitos mundos.
Nos subúrbios é assim, a gente nem sabe muito bem como ou porquê, mas estamos neste lugar onde o guerreiro e o ferreiro se confraternizam. A pobreza na nossa frente não intimida, ela é apenas nosso campo de batalha diário e armas de fogo não vão nos alcançar, mesmo que estejam passando lado a lado de nós.
Quem disse que a nossa bandeira nunca seria vermelha não conhece nada do Brasil, nunca pisou em Quintino num dia 23 de Abril, nunca viu Flamengo ser campeão brasileiro, são pessoas tristes que podem até passar uma vida sem entender a beleza de um bom feijão na panela, Deus tenha misericórdia delas um dia.
O corpo pode estar moído pelas batalhas, estar combalido pelo combate, mas não estará vencido, no dia ou na noite, mas os caminhos estão lá e os que nos odeiam não nos alcançarão. É esta fé que se faz o abrigo do Brasil profundo, dos que têm a fé aos que fazem a fezinha.
Aos que professam ou não a fé
SALVE JORGE,
SALVE O BRASIL,
SALVE QUINTINO,
SALVEM OS SUBÚRBIOS CARIOCAS!
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Reflexões sobre a autoprodução na construção do espaço no Brasil

Um debate que sempre ronda a vida profissional e política de um arquiteto ou engenheiro gira em torno do tema da autoconstrução ou autoprodução . Bom, primeiro, uma explicação simples sobre (que não explica tudo): no senso comum do ambiente profissional, a autoconstrução é toda construção que não contou com um profissional técnico capacitado, como um arquiteto, um engenheiro ou técnico. No senso comum da vida é a obra que você fez na sua casa contando com a ajuda de uma equipe de pedreiros, ou com a ajuda do vizinho que sabe virar a massa.

Também ecoa no senso comum profissional que este debate passe predominantemente pelo desconhecimento da população em relação ao papel profissional do arquiteto e engenheiro. Esta leitura leva a um sistema de tentar coibir processos como este por diversos meios, entre eles, dois são os instrumentos mais pensados. Buscar estas obras e cobrar que estejam com profissionais regulamentados (em geral isso é feito via órgãos institucionais como denúncias em autarquias de categoria profissional ou órgão municipal fiscalizador), e também é feito por uma constante proposta de divulgação e disseminação do papel de profissionais como arquitetos e engenheiros na sociedade. Entendo que todos os meios são importantes de considerar, porém entendo também que esse debate sobre autoconstrução não passa apenas por estes, como se a questão do construir fosse motivada apenas pelo desconhecimento das profissões técnicas envolvidas. 

Uma experiência que a vivência como arquiteto na indústria me trouxe foi que diante de um problema, não focar apenas no fato principal que aparece, mas em todo o encadeamento de detalhes e relações que permitiram que o fato acontecesse. Quando o foco passa a ser o desencadear das coisas na busca de propor melhorias e não a busca de um elemento causador (erro humano, ou fato, ou peça) nós conseguimos produzir soluções muito mais significativas para que a situação indesejada não aconteça mais. – essa é uma premissa importante de conceito de inovação. Esse tipo de olhar é o que por exemplo garantiu o salto significativo no avanço da biossegurança, na indústria aeronáutica, farmacêutica ou nuclear. 

Voltando ao exemplo da indústria. Se um acidente acontece podemos simplesmente prender ou culpabilizar o piloto ou o defeito em uma peça (na aviação) ou no caso da farmacêutica dizer: o tanque de pressão explodiu, mas não é o que acontece, o que ocorre são estudos detalhados que muitas vezes demoram anos e que geram documentos gigantes com uma série de desencadear de acontecimentos. A partir destes estudos se proporcionam documentos, novas normativas, estratégias de ação e novas tecnologias.

Qual o paralelo disso na nossa questão?  

Bem, a discussão da autoconstrução não vai se resolver ou se esgotar sem que a gente investigue a fundo o desencadeamento das condições que permitem isso. Segregação, desigualdade, baixo contato do profissional graduado com a massa da população, diferença de valor do solo e valor imobiliário que é brutal, entre muitos outros fatores que podemos trazer.

Podemos partir do tão conhecido dado que diz: 80% das pessoas que constroem, o fazem sem auxílio de um profissional. Junto com este dado apresentado vamos pensar sobre mais estes outros números:  Somos 197841 arquitetos no país (com quase 70% concentrados no eixo sudeste/sul), somos 211 milhões de brasileiros (dados de 2019). Só com estes dados já temos um detalhe importante: somos, grosso modo, um arquiteto para cada mil brasileiros (um pouco mais). Mais um dado importante para esta conta está no valor imobiliário. Hoje no Rio-capital temos imóveis na zona sul da cidade custando 21.000,00 reais o metro quadrado, enquanto na Zona Norte temos regiões com valor de 2.000 reais o metro quadrado. Quando colocamos na conta as áreas informais a discrepância dos valores por metro quadrado aumentam mais. Isso afeta diretamente muita coisa, como por exemplo o peso do valor de uma hora técnica em relação ao valor de um imóvel será sentido de forma diferente pelo proprietário de um imóvel no Leblon ou um imóvel na Pavuna.



Os dados mostram que a situação comum/padrão no país é a autoconstrução, nós somos a situação rara, qual nosso objetivo? modificar esse quadro e termos auxílio técnico atendendo de forma universal a todos os brasileiros.

Juntando tudo isso, entendo que um caminho possível passa por uma investigação ampla, minuciosa e permanente do que compõe a materialidade e a subjetividade por trás dos modos de construir e habitar o espaço no Brasil. Isso não é tarefa fácil, não será resolvida num braço só ou em poucos braços e poucos minutos, horas ou dias e muito menos sem interdisciplinaridade (interdisciplinaridade mesmo!). Muito dessa investigação já acontece por aí, pesquisas, ações autônomas, políticas interessantes são propostas.  A meu ver, a saída se dará neste caminhar constante e permanente em busca das melhorias. 

Pensar a questão da produção do espaço com amparo técnico em um país diversificado como o Brasil é tarefa complexa e exigirá de nós esforço de compreender as muitas especificidades locais, e a inter-relação entre as escalas do indivíduo, comunitárias, territoriais. Uma política estruturante para o país precisa considerar estes e outros fatores como fomento a interiorização do profissional técnico, ampliação da participação profissional na concepção e produção do espaço para a inclusão de outros saberes como os do antropólogo, do sociólogo, dos filósofos e dos poetas, no fundo, de toda a população. 


Descentralizar as políticas e garantir autonomia de quem se organiza nas bases dos territórios, sabendo distribuir as responsabilidades e limitando claramente as interfaces na construção política. O estatuto das cidades, por exemplo, foi um grande avanço na forma de produção do espaço nacional, esbarrou na pressão e lobby das construtoras cujo cálculo é simplista e limitado pela necessidade do lucro corrompendo tudo que vem do chão do povo. Ainda assim o estatuto das cidades é um importante ponto de partida para ser retomado e trabalhado novamente pelas bases da sociedade.

Traçar as saídas é a tarefa, e como qualquer política elaborada para funcionar no Brasil, não pode ser reducionista. Esta é a diferença por exemplo do sucesso do Sistema Único de Saúde mesmo com todo o esforço que parte da elite tem em desmontar e o fracasso da política de segurança, que no Brasil se baseia em incursões isoladas e prisões que em nada modificam a estrutura do sistema, ao contrário só corrompe mais. Prender um jovem com um baseado, ou inaugurar um conjunto de casas carimbo no meio do nada são um canto da sereia, pois viram notícia de jornal, dão mídia e holofote. Uma política bem pensada por sua vez não garante isso, pois em geral é um trabalho muito mais coletivo e num tempo ampliado até que comecemos a sentir o impacto. É uma pena que a cultura política do Brasil menospreze essa lógica e prefira correr atrás de soluções mágicas e simples, que da mesma forma da cloroquina, podem não servir para nada além de virar notícia de jornal.

Assim, a principal conclusão que vejo é: temos de aprofundar constantemente o debate, as experiências, os modelos, as testagens e os olhares. Não nos atermos a cair na vala comum que enxerga apenas dois lados da moeda no qual ou se romantiza ou se pune, pois diante da complexidade temos de experimentar todas as faces de investigação para chegarmos a melhor maneira de democratização do acesso técnico no Brasil



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Dos Porões. Ditadura Nunca Mais!

 Um dos projetos mais nefastos de segregação espacial conecta alguns porões no Brasil. Dos porões dos navios negreiros, aos porões das sanzalas, aos porões da ditadura e atualmente aos porões da cidade, nossa terra segue segregada.

Nesta semana, o Brasil relembra um dos momentos mais obscuros de sua história. Momentos em que as máquinas de combate das forças militares derrubavam um presidente eleito que buscava construir caminhos de justiça social e reparação histórica. É importante ressaltar porém que estas máquinas de combate sempre estiveram aí.

Nossa história, tanto a recente como a mais antiga é um compêndio de ações militares para assegurar que as condições de segregação popular permaneçam, pois esta segregação move parte de nossa economia. O Brasil, que já fora um dos maiores receptores de pessoas escravizadas do mundo, mantém ainda na pele e no corpo negro o peso do açoite. O faz enquanto sua elite disputa o espólio do território, do poder e controle financeiro, da valoração da terra entre outros.

Mesmo quem pleiteia as linhas ideológicas liberais como meios de se constituir uma classe média, famílias dignas de comercial de margarina, não conseguem desmontar esta estrutura de gestão econômica que nos conforma e nos mata em seus porões. O golpe de 64 é uma das caras trágicas dessa história, o momento em que uma elite militar assume o controle e substitui a lógica política pela lógica de guerra, calando toda e qualquer voz da sociedade. Um ponto diferente do que vinha sido antes é que agora não são apenas o povo pobre e negro que viria a sofrer os porões, mas uma classe média que despontava com cultura, organização política e voz, e assim como Jango, o presidente derrubado do poder, acreditava em um Brasil diferente desde que mudada a estrutura do poder.

Hoje o presidente ganhou o direito de celebrar o golpe de 64, direito este que vem de seu entendimento revisionista, fruto da escola que o formou. Os porões sempre estiveram aí. Se na década de 80 conseguimos alcançar a redemocratização por resistência popular, organização, enfrentando 21 anos de violência física e psicológica, tortura, mortes, alguns nunca encontrados, esta redemocratização não selou os porões.

A máquina de perseguição segue, e abre um novo porão, a própria cidade, onde a segregação define que lugares são matáveis. O que é favela se não o território onde as forças do capital tem o direito de matar sem julgamento e onde o favelado tem que resistir e lutar pela vida? Este é o território segregado cujo pacto pós redemocratização não conseguiu extirpar a violência de estado.

A escola de 64 forjou inúmeros controles urbanos e sociais a base de ferro e fogo. Forjou os comandantes brasileiros do Haiti, forjou a polícia pacificadora, forjou os cavalos corredores, os carros da linguiça, a liga da justiça, forjou Bolsonaro, entre inúmeros outros.

O novo modelo de controle autoritário que começa a despontar passa pela legalização da terceirização do espaço urbano da pobreza pelo Estado. Começam a rolar uns balões de ensaio de favelas autônomas, onde o nós por nós é fagocitado pelo capital deixando de ser uma tática de resistência e sobrevivência e se tornando uma forma do sistema girar controle, dinheiro e lucros em cima das redes de solidariedade. Os poderes de Estado que sempre estiveram nas favelas não sairão, e os porões da ditadura que ocupam estes espaços de poder também permanecerão, possivelmente controlando este sistema.

Quando dizemos Ditadura Nunca Mais! este grito não é apenas um eco de lembrar que os anos de chumbo nunca mais se repitam. Este brado também traz em si o desejo e necessidade de desmontar por completo esta máquina de guerra aos pobres, que segue desde os porões dos navios negreiros ditando as regras de controle material e cognitivo da segregação do nosso País.

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Porque eu leio Koolhaas

Bom, primeiramente, esta é a parte um de um texto com este título, em breve produziremos outro para aprofundar a questão propriamente dita. A resposta ao que seria esta pergunta é simples de responder. Basicamente é importante ler Koolhaas, não por ele ser um arquiteto pensador de cidade, mas sim por ele ser um arquiteto que desenha, define e projeta arquiteturas de grande impacto nas metrópoles. 

O problema maior consiste porém no fato de que Koolhaas, embora não seja mais o arquiteto hype das escolas, ainda faz parte do nicho que hegemoniza conceitualmente a profissão. O arquiteto salvador, dono das verdades e das soluções, capaz de revitalizar toda a vida humana com um risco, um pensamento, um diagrama ou um powerpoint, mudam-se detalhes, elementos, concepções estéticas, mas pouco se muda a produção de ícones a construção de símbolos exclusivos a ser seguidos. Mesmo quando há mudanças de referencial, como vimos este ano com a premiação de Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal, o sistema imbuído de construir segue o mesmo. Também pouco falamos do principal, como estes profissionais consolidam-se no mercado.

Sobre a Koolhaas, o que me importa na leitura é menos seu entendimento de cidade e mais a forma como sua narrativa se relaciona diretamente com o seu papel no modo de produção urbana e arquitetônica do grande capital. Mas para nós o que interessa é o espaço imenso com o qual Koolhaas não se articula diretamente, e cuja produção é sombreada pela autoconstrução, pela construção simples, pelas estruturas diferenciadas, pela precarização profissional. Assim, a grosso modo, um texto de Koolhaas é praticamente um receituário do tipo de espaço projetado e concebido que este tipo de arquiteto quer e o koolhaanismo não reflete um movimento, no máximo um sistema publicitário de si.


Uma expressão pop de Koolhaas “Arquitetura é uma perigosa mistura de onipresença e impotência”, que já podemos comparar em sucesso ao paradoxo do abismo de Zaratustra, é uma ótima demonstração de como este arquiteto constrói sua narrativa por uma justificativa. Sua frase conceitual de arquitetura o coloca no limite de todas as possibilidades possíveis de serem feitas, além de lidar com o teto de total impotência diante da liberdade. Koolhaas não vai questionar o capital pois é impotente, porém ao construir seu edifício, tudo lhe é possível e o céu é o limite.


A profissão está em contradição, à medida em que houve uma expansão e democratização das universidades no Brasil, massificou-se o número de arquitetos. Assim, se a alguns anos tínhamos uma profissão com um certo controle social e econômico da entrada de novos nomes no campo de trabalho, hoje esta entrada está sem controle claro. A discrepância é que, esta massa de arquitetos não se encaixa no modelo hegemônicos da arquitetura ícone que produzem os Koolhaas da vida. Estes arquitetos seguem muitos deles periféricos, pobres e apartados da dinâmica do ofício.


A crise piora à medida que os modelos de empregabilidade derretem. Hoje o padrão é o desemprego e a luta pela sobrevivência. Você pode ser arquiteto ter um projeto hoje e ter que fazer viagens como uber amanhã para fazer o ganha pão. Cada dia mais, o novo mundo do trabalho gera novas relações também de título. Como se entender um arquiteto se seu trabalho é dissipado entre outras tarefas?


O mundo profissional costuma estudar os ícones por parâmetros diversos, crítica ao design, olhar estético, conceito, programa, paradigma. O buraco mais embaixo, porém, está na discrepância que há entre um CCTV (de Koolhaas) ter um custo de U$S 735 milhões de dólares em 2012, enquanto a massa trabalhadora enfrenta um mercado onde se encontram projetos prontos na internet por 30 reais. Esta é a realidade de imensa parte dos profissionais de arquitetura hoje (e não só de arquitetura), cujo sustento é totalmente inviabilizado por um processo material que não considera a profissão como algo de massa, como política de estado, mas apenas seu recorte de item de luxo.


Em épocas de pandemia e crise econômica, esta discrepância fica ainda mais acintosa e acirrada. Mesmo que o mercado se aqueça, possivelmente o capital já terá mudado a chave da precarização para outros pólos. A massa de profissionais tenderá a seguir aumentando à medida que novas universidades abrem cursos, e o sistema exclusivista chegará em um ponto de supersaturação.


Urge retomarmos o conceito de produção para todos. Ver a qualidade técnica e construtiva da caneta BIC ou de um copo Nadir Figueiredo, dois feitos do design e pensar, porque não podemos retomar este princípio em arquitetura? Não significa fazer arquiteturas de carimbo ou algo do tipo, mas sim tentar traçar um princípio: o trabalho que eu faço é embebido no desejo de exclusividade ou no interesse dos povos? Nisso os laureados Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal me parecem mais interessantes que Koolhaas, não tão onipresentes porém potentes. Não que eu considere louvar ícones algo interessante, apenas acho interessante tecer críticas e reflexões.


Imagem extraída de : https://klaustoon.files.wordpress.com/2014/07/clog-rem-its-not-easy-being-kool.jpg

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A saída tem que passar pelos pobres

Estamos diante dos piores momentos da pandemia. Em grande parte construído pelo desajuste e escolhas políticas erradas de Bolsonaro. Um ano de pandemia, perdemos muito tempo em disputas negacionistas e pouca ação concreta unificada. E sim, imensa parte disso tudo está na incapacidade do presidente atual se posicionar como se estivesse em uma guerra contra tudo contra todos, da ONU ao meu vizinho, qualquer um parece ser inimigo latente do Bolsonaro.

A saída bolsonarista, ao gritar a bravata de que a economia não pode parar, ao fechar possibilidades de seguridade social e ao tencionar que os mais pobres sigam trabalhando, aprofunda a crise da doença e perde o principal ativo para o país, seu povo que morre ou que sofre pelas perdas de familiares. Sua política lembra uma leitura contemporânea de eugenia, entrega a coletividade de braços abertos para a doença, e nós que tenhamos a sorte de não morrer.

Se o Lockdown era uma realidade necessária no início, hj se torna crucial. Porém há um embate material que devemos realmente considerar, o Lockdown não se resolverá por decreto ou lei, não sairá de cima para baixo sem campanhas de orientação e sem uma estrutura material de apoio.

Em meio a imensa crise humanitária, e sendo parte desta crise econômica, esta tem que estar na nossa pauta de solução também. 

Dizemos: temos de fechar bares e restaurantes! Mas não damos estrutura social para garantir aos mesmos a manutenção da vida de seus funcionários e donos.

Dizemos que não se deve abrir a escola antes da vacinação, mas não planejamos a inserção dos professores como prioritários para a vacinação. E não planejamos alternativas anticapitalistas de educação emancipadora capaz de contrapor os modelos “EAD” apresentados.

O país precisará construir um plano completo, não há dúvida, a pandemia irá perdurar por um bom tempo no Brasil. A crise econômica irá se expandir e isso depende de um projeto, que não será simples de agradar a todos como em tempos de vacas gordas. É imprescindível termos em mente, o Brasil de 2023 imerso na crise global e humanitária a construção das saídas precisam ser abertas o mais rápido possível ao debate popular para que sejamos capazes de construir para além do roteiro publicitário e midiático. 

As disputas de poder, de bastidores, conversas de eminencias pardas, não são tão prioritárias, o foco a meu ver é a materialidade de como produzir em meio ao caos a mudança que nos tire da queda livre em que estamos. 

Criar formas de amparo e sustentação dos pequenos e médios comerciantes via recursos públicos por exemplo pode ser um meio de girar a saída, assim como criar protocolos e orientações que facilitem o funcionamento destes (que podem atuar com entregas a domicílio por exemplo, entre outros). Por que não abrir linhas de crédito emergencial ou fomento para pequenos e médios negócios? 

Pra romper o aprofundamento da crise também precisaremos de novos pactos, como exemplo investir pesado no sistema de pesquisa e tecnologia. Investimento deste porte poderia nos inserir novamente no circuito de países que têm capital humano de qualidade para produção de saberes. 

Retomar investimento em softwares livres (uma luta que parecia perdida mas começa a dar sinais de querer voltar vide o caso do INRUPT), lutar por quebra de patentes em saúde e quaisquer itens imprescindíveis à vida humana na Terra. 

Tornar eficiente a gestão nacional de dados nacionais, repactuar a relação entre o sistema privado e o sistema público de saúde, é inaceitável passarmos o que estamos passando: leitos de UTI do sistema privado, por exemplo, não serem unificados ao do sistema público em meio a pandemia e diante de uma fila de doentes.

Se não tudo, ao menos a educação integral e a saúde deverão ser prioridade universal e pública, com olhar especial para os ciclos básicos e fundamentais do ensino e para a saúde preventiva. Esse é o investimento robusto que deixa um verdadeiro legado por séculos de gerações.

E o principal para o momento: Criar uma estrutura de seguridade social robusta capaz de implementar a renda mínima universal e uma aposentadoria que garanta dignidade. Lembrando que estes Programas, cujo conceito e necessidade de existir é considerado por pensadores de diversas vertentes políticas, dos progressistas até pensadores apreciados pela direita conservadora.

Assim, não bastará ao futuro, que o pacto seja com grandes empreiteiras criando uma massa de pleno emprego embasada na construção civil, ou com bancos em pró de crédito para criar uma massa consumidora. Por mais que este caminho possibilite massificar empregos e algum bem-estar social, não há saída que se sustente só por aí. Muito menos pactuar acordos de apoio e não violência com os poderes milicianos instaurados e que hoje dominam inúmeros territórios expulsando os sistemas do Estado de Direito deles e se constituindo como Estado paralelo.

Qualquer lugar que tenha recurso escasso, como o que esta crise do capital nos impõe, sabe que as escolhas políticas terão de ser muito bem ajustadas e acertadas e sabe que não dará para cobrir a todos. Resta a nós entender qual é a prioridade de cobertura. A meu ver, devemos pactuar com os mais pobres prioritariamente. Construir, não mais uma ascensão do bem estar baseada em consumo, mas sim baseada em capacidade de produção, saber técnico, conhecimento científico, entre outros. Os ricos irão chiar (não falo da classe média), mas é melhor que doa nestes um pouco para o bem de todos os que não tem fuga ou privilégio.

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texto aumentado a partir do postado originalmente em:

https://twitter.com/rodrigobertame/status/1368483615311601667

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Qual o valor da terra? algumas ponderações

Quando o Brasil era Império toda a propriedade era do Rei. No fim do império, como se definiu o sistema de propriedade e posses? Em que momento esse sistema ganhou valor monetário? Quem enriqueceu com isso?

Quem liberou as primeiras terras, e onde se iniciou a linha de heranças dos grandes donos do Brasil? Não dá pra discutir um projeto de habitação ou distribuição social com um mínimo de equidade sem tocar na ferida que não sara: o valor da terra (urbana e rural).

Uma nota de reflexão: Em um dado momento da história a família brasileira media sua riqueza pela quantidade de pessoas escravizadas da qual era proprietária. A terra era um detalhe que se inverte com fim da escravidão por um lado, e alguns anos depois a promulgação da lei 601 de 1850 sobre as terras devolutas do Império, que permitia a aquisição de terras via sistema de compra e venda.

Em um prazo curto de tempo, o valor se esvai do corpo negro escravizado. Corpo este que já havia perdido o valor enquanto ser humano a pelo menos 300 anos, agora perde qualquer forma de valor social. Em um dos processos materiais e subjetivos mais violentos e que dura até os dias de hoje, a riqueza sai do corpo negro para a terra.

retornando…

Uma das feridas que o país precisa tocar está aí, devemos levantar quem são os donos da terra. Entender como se tornaram donos. Depois entender porque o valor da terra-brasil é como é e o que isso reflete na distribuição espacial da população em geral. Para aí então, reformularmos a organização espacial do país.

Temos nas cidades (em especial cidades de caráter mais global) uma infinidade de imóveis vazios que permanecem fechados, valendo verdadeiras fortunas. No Rio por exemplo, temos bairros inteiros bem infra estruturados que foram esvaziados pelo processo de especulação imobiliária de outros bairros e por aí vai.

Precisamos responder o porque de bairros com infraestrutura similar tem discrepâncias de 50% ou mais no preço dos imóveis (também similares). Precisamos responder porque o Sarney é dono de territórios do tamanho de um país, e muitas outras respostas.

A gente não mora porque é cidadão do município tal, a gente mora porque (e se) tem dinheiro x que nos permita morar no lugar y. O abismo que separa os Jardins de Diadema ou o Leblon da Maré é imenso e repleto de lastro histórico mal resolvido. No caso do Rio, vale lembrar que a Maré está tão perto do centro da cidade quanto o Leblon.

A quem não é herdeiro, a renda mensal do salário se torna a base de cálculo do direito de morar, e quanto menos renda, mais dificuldade temos pra habitar.

Um apartamento tipo em Copacabana custa quase dois milhões, um similar na Vila da Penha custa 300mil, na Tijuca 600mil e uma laje na Indiana custa 30mil. Para que a maioria seja comprado é necessário passar por um filtro simples que envolve basicamente ter um capital inicial considerável e ser aprovado pelos credores (em geral bancos e sistemas financeiros que são os donos do imóvel até você quitar a dívida). Latifúndio não consigo imaginar como se compra.

Quem mora de aluguel ou quem mora na favela sabe que a dinâmica é totalmente diferente do que se vê nos anúncios e imóveis. Assim como há diferença entre os latifúndios da família ACM ou as agroindústrias frigorificas e as rocinhas embaixo das redes de transmissão da light na divisa entre a Vila da Penha e Vicente de Carvalho. Neste caso não sei nem vislumbrar a diferença pois nunca vi latifúndio sendo vendido na OLX.

Como resolver?

Sinceramente, não vejo disposição de diálogo entre as estratificações, sejam os donos do poder que brigam entre si em aparentemente dois tipos de projetos, um nacional desenvolvimentismo precário que só abraça meia dúzia de setor contra um entreguismo internacional em ambos a cadeia de capital, renda e bens de produção se caminham com grupos de pode gringos.

Também vejo pouco movimento em uma classe média (termo meramente ilustrativo) que segue mantendo pequenos privilégios, independente de ser direita ou esquerda, pois as duas acabam por manter a estrutura funcionando. Dos mais progressistas aos mais liberais, se contentam com o diálogo que traz migalhas, seja em forma de editais e outros meios que são afeitos aos que caminham em ciclos bem relacionados de poder (não falo só de governo).

De outro lado temos os mais pobres, despossuídos de propriedade, com renda vulnerável, onde a vida se torna o imediato, pois o futuro só Deus sabe e as vezes pode dar merda nesse futuro, acordar e descobrir que teve um parente baleado, entre outros. Não adianta muito o pobres subir na vida (ser um dos poucos que terá a sorte do dinheiro) ele vai seguir sendo pobre ou no mínimo exótico dentro da classe média, e seguirá invisível para os Sarneys, Eikes e Véios da Havan da vida.

O pobre é o sertanejo Manoel de Glauber rocha sacaneado pela cruz e pela espada, um Macunaíma subversivo que num tem que ser cordial com ninguém que não mereça, Jojo Todynho que incomoda quando faz sucesso cantando funk ou ganha a Fazenda.

Jojo ganha dinheiro e não é formada em nada! – diz o povo indignado, mesmo povo que nunca perguntou a profissão do filho de alguém que passa o dia todo jogando vôlei e surfando. Este filho de alguém sai na revista Caras quando era entrevistado pelo Amaury junior, justificava a vadiagem com a resposta clássica: \”Tenho uns projetos\”. Enquanto isso pode viver como herdeiro, muitas das vezes herança que começou em algum momento lá atrás quando nasceram os grandes donos das terras do Rei. São muitos os códigos que estratificam. Essa classe média é tão invisível para os Sarneys da vida, quanto o Cesarão é para esta classe. Quem mora no Cesarão, mora porque? como conseguiu construir, comprar, alugar, trabalha, estuda? Quem mora no Cesarão sai na revista caras (nem sei se a revista existe ainda)? O Cesarão existe no mapa? Porque ele não foi construído na Avenida Lúcio Costa? Quem mora no Cesarão é filho de quem? será que o bisavô conheceu o Rei?

Quem mora no Cesarão não pode se dar o luxo de ser parado pela polícia e responder a pergunta sobre o que faz da vida com a frase: Tenho uns projetos.

E pensar que o Cesarão foi fruto de uma política habitacional, cujo primeiro equívoco, a meu ver, foi tentar resolver o problema de moradia sem mexer na questão da terra.

foto retirada da página de facebook: Santa Paciencia


Cesarão- Santa Cruz-RJ
O Conjunto Otacílio Camará foi inaugurado em maio de 1981, feito para atender famílias de baixa renda(não foi remoção) ele atendeu diversas famílias de trabalhadores da Extinta TELERJ.
Foto- Pedra azul- BN
Data- Junho de 1981
Pesquisa- Guaraci Rosa



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Entre o espaço e o tempo fiquei me perguntando: qual o lugar do tempo?

No corre da vida fiquei tentando vislumbrar isso. Fui dar uma busca no campo da física, por ali, o nosso sentido de espaço já diz pouco, ao que parece no universo as relações que na Terra são coerentes não o são no espaço.

Por ali entendi um pouco mais sobre o conceito de tempo também como um conceito de transformação. Acho que nos acostumamos demais a pensar o tempo a partir do relógio, desmontar isso foi importante. Comecei a remontar e certas coisas passaram a fazer mais sentido. Quando os textos bíblicos (do tempo do bronze) diziam de homens de 400 anos, onde no máximo fariam sentido homens de 30, ou sei lá jornadas de 40 anos que poderiam ser feitas em dias. Se a gente para pra pensar o sentido de tempo daquela época, o paradigma girava em torno dos solstícios e a eternidade. Porque gastar energia construindo Stonehenge, ou as pirâmides de Guizé? provavelmente não caiba nos dias de hoje.

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O mundo moderno e seu relógio e sua fábrica nos colocou na jornada diária, que também é pura convenção, se a gente sai do planeta Terra a jornada diária (uma volta da terra em torno de si mesma) perde totalmente o sentido. Aí voltei pra física e sua dobra no espaço-tempo que nem sei se cabe entendermos com certeza, mas pra viver na Terra basta pensar que o tempo não está dado como pensamos dentro de uma representação do relógio.

Numa entrevista com o professor Mauricio Javier (posso por o link aqui) ao questioná-lo sobre surgiram temas muito bons. Ressalto que o professor é colombiano, embebido na visão de mundo dos povos originários da América Latina. Cito dois momentos:

Momento um: quando ele diz que aprendeu com um membro de um povo originário sobre o tempo: o indígena lhe disse que pra eles só existe o presente e que o futuro é o passado que está a frente.

Momento dois: quando ele passou outro lapso de experiência de vida que achei interessantíssimo compartilhar.

Em meio ao extremo cansaço em que passava numa virada de noite fazendo um projeto, ele dormiu na prancheta. Diz ele que foi um cochilo de meia hora, porém nesse cochilo ele teve um sonho lúcido que durou OITO horas. Neste sonho ele projetou, fez todos os desenhos necessários tudo certinho. Quando acordou (óbvio que não tinha o projeto pois teria ficado no sonho) e após ele ter ido a classe no dia seguinte, conversou com os amigos e contou o sonho, e os amigos entraram na onda de desenhar o projeto que ele tinha feito durante o sonho.

Em 1998 Ryutaro Nakamura trazia a nós uma leitura futurista, em seu anime (que pra minha geração seria chamado de desenho japonês, mas o tempo já mudou isso) Serial Experiments Lain uma percepção importante no espaço-tempo. Quando uma espécie de rede mundial de internet está inserida no cotidiano, a separação entre o virtual e o real se torna cada vez mais difícil e complexa de lidar.

Quem precisa de um corpo quando se pode ter todos os dados do mundo? Porém ter todos os dados do mundo ou a onisciência não fazem de você um Deus se não tiver ninguém que o reverencie por isso. “Eu nunca vi você, como você diz que me conhece? [A resposta]: isso foi sempre um fluxo de informações e toma sempre novos rumos”. Estas são algumas das questões lançadas nesta obra cujo protagonista é um ente dúbio entre ser uma criança e ser uma inteligência artificial programada pela rede. O autor deixa de forma clara e instigante na abertura da trama que esta se passa no presente e neste instante. A cidade é a cidade do nosso tempo com seus postes de iluminação e cabos, e o complexo emaranhado de dados da rede mundial de internet também o é.

Saindo da arte ficcional e retomando alguns acadêmicos, David Bohm traz uma alegoria interessante ao apresentar que a semente por si pouco pouco contribui para a substancia material de uma árvore, que em última instancia vem da terra do ar da água, entre outros, cabendo a semente o elemento da informação que dirige este crescimento, o DNA. O Crescimento da planta retrata um sistema de transformação contínua das substâncias materiais do espaço onde ela está inserida (a nós esta é a parte que importa refletir para o momento). Transformação é uma boa palavra pra tentarmos encontrar uma alegoria para o tempo.  

Paul Virilio foi certeiro quando trouxe para o espaço físico (do nosso planeta) o paradigma do tempo e quando aponta a nossa dificuldade no cotidiano de entender o tempo contínuo. Em nosso cotidiano o tempo só faz sentido, só é vivido se for tempo interrompido (segundo ele) e é nesse momento que a gente enxerga o acontecimento. Um relógio são micro interrupções sequenciais, podemos pensar. Dentro deste prisma que entendemos porque não somos capazes de perceber que estamos mais velhos num recorte de horas ou minutos, mas percebemos nitidamente quando, já adultos, olhamos uma foto nossa de criança. Também dentro deste prisma que se torna muito difícil perceber o tempo instantâneo no qual caminham os fluxos de dados da internet por exemplo.  

Paul Virilio insere o tempo no espaço construído, considera ele que além da matéria, o espaço implica a “profusão de efeitos especiais  que afetam a consciência do tempo e das distâncias”. Em alguma mesa perto estava Cacciari compreendendo que os edifícios se tornaram acontecimentos, assim como a terra, água, ar, sol, semente se tornou um jequitibá.

E o espaço? Se o espaço é um recorte limitado em uma duas ou três dimensões, medido em alguma ordem de valor – chutemos o metro como exemplo.

Alguém lhe pergunta: Você vai na aula hoje? fica lá no outro prédio.

E você prontamente responde: Vou sim, chego em 15 minutos. (cadê o metro?)

E quando a aula é virtual e a sala que estava lá agora está no seu telefone, no seu bolso e o tempo entre a informação sair de lá chegar no satélite e retornar ao seu telefone é tão instantâneo que o espaço virtual fica parecendo um buraco negro?

Esta talvez seja a grande crise, a próxima jornada ou a jornada presente não está mais sendo dada por um dia (uma volta em torno do sol), mas pela instantaneidade das redes de comunicação. E este tempo já não é tão simples e confortável do corpo captar como antes.

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Da uberização do sindicalismo ao cyber sindicalismo: provocações.

 Neste dia 31 de agosto saiu uma matéria no portal outras palavras intitulada  IBGE retrata esvaziamento dos sindicatos no Brasil . Ao apresentar os dados do PNAD a matéria demonstra a queda massiva, em especial ocorrida a partir de 2017, quando houve a grande mudança nas legislações trabalhistas.

Os dados apresentados podem, e devem ser vistos e lidos com a compreensão do tamanho do desmonte dos sistemas de proteção do trabalhador. Porém para um olhar mais rigoroso e aprofundado, precisamos acrescentar outros elementos à questão.  Para a melhor compreensão do que temos a nossa frente tentemos desmontar um vício: o olhar institucional perante o sindicalismo. Talvez esse seja o erro da matéria em questão, ela foca no campo institucional e não no sentido real das lutas que fazem o chão deste campo.

O sindicalismo que conhecemos hoje tem bases predominantes, e teve seus maiores avanços entre o intermédio final da ditadura militar e a reabertura democrática. Foi elemento importante na construção do Partido dos Trabalhadores, e de diversas outras lutas. Talvez seu apogeu de representação tenha sido a eleição de Lula, um sindicalista a presidência da república.

Este tipo de sindicalismo por sua vez se referenciava a um determinado escopo de lutas trabalhistas, a um determinado quadro de modelos de trabalho que foram vigentes durante aquelas décadas e que paulatinamente foram sendo desmontados mediante as inúmeras mudanças conjunturais enfrentadas mundo a fora. A automação fabril e a entrada em peso das telecomunicações, junto a grande urbanização do mundo trouxeram novos elementos para as frentes hegemônicas do campo do trabalho. as mudanças na organização global da indústria, a automação (que chegou na chamada indústria 4.0) entre outros fatores desmontou imensa parte da necessidade de mão de obra neste setor na maioria dos países. Não falo com isso que há um fim de postos de trabalho mas uma transformação do mundo do trabalho, que modifica a geografia deste mundo. 

Em tempos recentes, o campo do trabalho cruzou uma nova fronteira de ruptura. O que chamamos hoje de uberização, é resultado de um processo histórico contínuo de avanços tecnológicos que foram inseridos em nossa vida cotidiana. Um marco paradigmático das mudanças que vivemos se dá no lançamento do famoso algoritmo da Amazon, que modifica nossas buscas fazendo uma simples leitura de percepção da probabilidade de gostos e desejos. Se antes você comprava um livro de ciências, e os sistemas indicavam outro livro de ciências, agora, com base em dados fornecidos, a probabilidade de você comprar um livro de ciências x e se interessar por um de culinária y é muito maior. Estamos falando aqui de um sistema de aprendizado de máquina que foi inserido na massa do povo por volta de 2004, isso é temos pelo menos 16 anos de aprendizado sobre cada clique nosso. 

A chave do que discutimos e vivemos atualmente é a capacidade de se instituir sistemas de confiabilidade que geram elos assertivos (em escala cotidiana) entre desejos e demandas e não necessariamente entre oferta e demanda (claro que sem excluir a relação oferta e demanda da pauta). Este debate não é novo, as leituras marxistas sempre inseriram a questão, de Marx a Foucault, Benjamin, Bourdieu e muitos outros cada qual com suas leituras, tendem muito a acrescentar a este debate.

O boom do modelo de negócios que gira em torno de algoritmos e aprendizado de máquinas amplificou as novas relações, antes difíceis de serem lidas. Se por um lado um sistema fabril fordista você tinha um nome forte, um Patrão (Padrinho, Patrono) o pós-fordismo avança o modelo de exploração substituindo o Personalismo do Patrão por um corpo jurídico e pela financeirização do dono (as sociedades anonimas). Hoje, estas ainda residem porém sua face está cada dia mais invisível. A hiper-exploração dos entregadores de aplicativos é um exemplo deste modelo. Um motorista (esteja ele desempregado ou empregado) pode baixar um aplicativo de oferta de veículo e operar semelhante a um taxi, um entregador não precisa mais estar vinculado a uma empresa local. Sua força de trabalho é explorada por uma rede de aplicativos de entrega (das mais diversas), que atuam sem rostos e sem personagens, apenas hubs e algoritmos e tem confiabilidade nas massas para tal.

Tendemos a reduzir a uberização a uma precarização do trabalho formal, o que a meu ver é um equívoco. Talvez pudéssemos falar isso sobre a pejotização que atua como uma precarização do celetista. A uberização é um modelo diferente de exploração do trabalho e que precisa ser aprofundado como tal. O conceito de precarizado portanto é importante a medida em que nos auxilia na compreensão de como cidadão opera diante de um quadro de escassez, mas não resolve por si só os instrumentos e modelos sob os quais o trabalho acontece e é explorado em nossos tempos.

O novo rosto do trabalhador urbano está dado em um tipo de exploração onde o trabalho se torna um elemento difuso e complexo. Nem todo entregador ou motorista de aplicativos estará na mesma condição: uns o fazem para complementação de renda, outros fazem pra garantir a vida, o sustento, há quem faça sazonalmente simplesmente pra pagar o carro ou outro bem. São muitas as faces do explorado. Ao mesmo tempo, se torna mais complexa e sutil a relação do exército de reserva. Se em outrora esta base estava na longa fila de uma vaga de CLT, hoje se encontra com o aplicativo ligado a espera do bip da chamada, ou com o celular ligado a espera do telefonema para o “job” ou o “freela”. 

Se antes falávamos com certa tranquilidade em carreira, salários e planos de carreira, na década de noventa isso foi substituído por flexibilização e empregabilidade e hoje em dia nem mais palavras há que defina com certa clareza as múltiplas atividades que podem compor o dia de trabalho de um só cidadão. Também se antes os homens operavam as máquinas, hoje as máquinas (via aprendizado automático) operam os homens. Isso não significa que os homens não tenham como parar esta máquinas, a greve dos aplicativos mostrou que é possível resistir, a medida em que a luta se viralize por dentro das mesmas máquinas, uma greve P2P onde tanto o entregador parou quanto o consumidor se mobilizou no combate a exploração dos aplicativos A ou B.

Vale lembrar que com a pandemia todas estas lutas ganham outros contornos e tons que ainda não temos como prever com certeza, mas já podemos traçar algumas linhas a partir da hiper recessão e da percepção por parte do sistema de como a renda básica universal pode se tornar um elemento de equilíbrio para o mesmo.

Este é o eixo do debate. Retomando: se entendemos que um sindicato é uma associação de trabalhadores que tem como premissa defender seus interesses e direitos e defender sua cidadania, entenderemos que são os modelos de exploração do trabalhador que definirão os modelos de ação ou sentido de um sindicato. E neste sentido estamos no grande laço de hoje.

Um dos grandes problemas do sindicalismo vem deste anacronismo temporal. As lutas sindicais que operam na busca de um passado que já não retorna apontando-o como o futuro, não encontra liga social suficiente no presente para se manter. O grande erro ao seguir esta linha é que tentamos enquadrar o trabalho nas lutas sindicais cristalizadas e não as lutas sindicais ao novo mundo do trabalho. O que é muito passível quando perdemos o sentido do que significa um sindicato, nos aprisionando em seu caráter institucional, como a própria matéria do outras palavras o faz, sua análise é puramente institucional: perda de receita de uma instituição mediante a mudança conjuntural, funcionaria para clubes de bairro, associações da sociedade civil ou escolas de dança de maxixe.

Este reforço é o que precisa ser claro: as lutas sindicais não nascem antes do trabalho, mas em consequência dele e se reorganizam conforme o campo de exploração do trabalho se reorganiza. 

Precisamos de um Sindicalismo novo, que seja capaz de contemplar as novas formas de exploração, divisão e organização do trabalho na sociedade. Talvez ele nem venha a nascer de dentro do modelo de sindicalismo vigente, talvez ele nasça de outras relações, mas isso só o tempo dirá. A uberização do sindicalismo não significa seu fim, mas sua necessidade de transformação.

Podemos falar em sindicalismos selvagens, podemos falar lutas sindicais, intersindicais, cybersindicais, biosindicais e muitos outros neologismos para nos fazer pensar a respeito da amplitude do novo campo das lutas que chegam até nós no campo do trabalho. E em nenhum deles a questão classista se exclui, provavelmente se torna mais visceral, mais a flor da pele.

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