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Contradições, Delírios e Utopias. A Política Precisa Escutar as Margens

“Sou negra, lésbica, toco na noite e não vou votar no candidato de vocês. Quero que me expliquem o porquê.” Uma jovem abruptamente pegou um panfleto das nossas mãos e lançou esta frase. Lembro-me até hoje da campanha eleitoral. Distribuíamos panfletos para uma eleição onde Marcelo Freixo (candidato pelo PSOL) disputava a prefeitura contra Crivella (representante da Igreja Universal), no pólo gastronômico de Vista Alegre.

Parece estonteante, à primeira vista. A militância, embebida em suas certezas e métodos, não está habituada a lidar com contradições tão explícitas. No lugar de argumentos automáticos, optamos por simplesmente sentar e ouvir. “Me explique você o porquê”, dissemos.

A jovem, negra, lésbica e música da noite, frequentava ativamente uma igreja batista onde encontrou acolhimento e pertencimento. Para ela, a fé, diferente do que muitos imaginam, nunca foi fonte de intolerância ou desrespeito. Pelo contrário, foi ali que encontrou segurança e aceitação. Quem conhece o cristianismo evangélico sabe de suas múltiplas expressões, das mais acolhedoras às mais excludentes e intolerantes.

Escutar a jovem, genuinamente e sem julgamentos, foi nosso maior ato revolucionário naquele momento.

Ao final, ela compreendeu que Crivella, representante de um modelo institucional da Universal, não representava os valores da Igreja Batista que a acolhia. Nós, por outro lado,compreendemos que há mais profundidade diante das relações singulares do que supõe os cânones vermelhos.

Identidades e Fluxos: contradições no caminho das militâncias

Essa contradição não é um caso isolado. Nas periferias, onde as múltiplas crises da vida se entrelaçam, identidades rígidas não sustentam a complexidade da existência. Recentemente, li um texto de blog do Emilio Bazan Sanchez (link aqui) que questionava: Estamos limitando o potencial humano ao dividir a vida em caixas organizadas? Ele sugeria que uma visão mais fluida das identidades pode abrir possibilidades de crescimento individual e social.

Pensadores já vislumbravam essa fluidez. Beauvoir, ao dizer “não se nasce mulher, torna-se”, indicava a mutabilidade de quem somos e a forma como as definições são construídas socialmente. Deleuze, numa alegoria que gosto, agenciava um cavalo de carroça ao boi de carga, distanciando-o do cavalo de corrida. O que importa para a turma de 68, é o processo contínuo, o devir e não um estado fixo, essência divina, casta.

Contudo, no mundo real, essa fluidez encontra resistência. O ser humano busca conforto nas caixinhas organizativas. Políticas públicas, por exemplo, precisam categorizar e padronizar para alcançar resultados concretos. Estruturamos nossa vida social a partir destes limites. Porém, ao cristalizar identidades, excluímos uma enormidade de pessoas que não se enquadram na escritura de significados da identidade. Na vida real, transitamos simultaneamente por diversos papeis: colegas, pais, amigos, vizinhos, trabalhadores, para cada papel há um jeito de perceber e vivenciar nossa identidade. Somos fluxos, redes em constante mutação. Como acolher as contradições sem perder o sentido de coletividade? Como agenciar as singularidades em identidades e complexidades ao mesmo tempo?

Para superar as crises do nosso tempo, precisamos encarar as contradições de frente, quiçá mergulhar nelas. Como integrar os desencaixados de nossos “sonhos tão mesquinhos” de revolução? Afinal, é utópico pensar em justiça para as minorias enquanto não conseguimos escutar sequer as demandas de uma jovem negra, lésbica e evangélica.

A militância de esquerda, historicamente centrada em organizações, categorias e bandeiras, precisa reconhecer que antigas estratégias já não dialogam com a complexidade contemporânea. Urge construir ações que acolham contradições e singularidades. Isso exige escuta ativa, valorização da pluralidade, integração com o divergente e, acima de tudo, ações práticas.

Reconhecer que expressões culturais, mesmo aparentemente contrárias às nossas crenças, têm valor social intrínseco e podem ser pontos de conexão entre os explorados. Devemos permitir que os povos periféricos articulem suas demandas sem o paternalismo de quem dita as pautas, inclusive as nossas pautas. É essencial construir alianças verdadeiras, abertas e ampliadas, mesmo que não caibam em categorias pré-definidas.

Ressignificar o Acolhimento: um novo caminho para a revolução

O reacionarismo sabe usar o conceito de “pátria” como uma quimera de unidade popular, vendendo um passado irreal como futuro paraíso perdido. A esquerda, muitas vezes, cai na mesma armadilha, trocando apenas a cor da moeda. Ressignificar o acolhimento, a meu ver, é nosso desafio. Não se trata de apenas reagir ao conservadorismo, mas de inspirar esperança concreta, conectando sonhos coletivos às condições reais de quem vive às margens. Criar um novo desejo não é simples, eu sei, mas precisamos dar o primeiro risco no papel.

Um devaneio: um jovem ambientalista evangélico que mora em uma casa ribeirinha. Ele está mais próximo da realidade sofrida dos povos originários do que de uma liderança rica de uma mercoigreja. Sua identidade coletiva, para a esquerda, pode ser a de um ribeirinho. Mas, para ele, talvez seja mais importante ser um profeta de Deus em sua rua. Ignorar essa contradição e esse jovem é cair num dualismo que nos isola.

Entre Martin Luther King e Silas Malafaia, há um abismo ético. Há uma contradição histórica entre Abdias do Nascimento e o Integralismo. São nesses espaços tensionados que a complexidade humana se revela, e desde algum tempo, são nestes espaços de tensões que prefiro caminhar politicamente. Entendo que a militância precisa agir nessas margens, navegando as crises lendo as letras miúdas que ninguém quer ler.

Como ensinou Zaratustra: “Por variados caminhos e de várias maneiras cheguei à minha verdade.” O futuro exige que atravessemos as identidades como fluxos, redes e elos. Não importa tanto quem somos, mas quem podemos ser com as ferramentas que temos disponíveis.

Navegar bem na crise não é apenas sobreviver. É criar, acolher e construir um lugar mais humano, onde as contradições se tornem pontes. Esse lugar não estará pré-definido em nossas bandeiras nem será o resultado de sonhos fixos em um passado quimérico. Creio que este lugar será construído por um mosaico de vidas que ousaram não temer o outro, o diferente, o divergente, o desajustado. Vidas pobres, e pensem, ainda assim não é simples compreender a pobreza, afinal temos muitas gradações e escalas de pobres, cada qual com um universo girando em suas singularidades enquanto são explorados pelas máquinas de moer corpos. Porém, se não fazemos parte dos 1% que controlam o mundo, somos todos parte de uma ralé que precisa encontrar novas formas de sonhar e novos mundos para construir dentro deste mesmo mundo.

Foto: Solen Mourlon/MSF – original: https://www.msf.org.br/noticias/por-que-a-crise-climatica-e-tambem-uma-crise-humanitaria-e-de-saude/

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