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Lavanderias

Teia

Certa vez, eu inocente, joguei no Google a pergunta: como ganhar dinheiro com arte? Uma indagação banal que me conduziu a algo que eu já imaginava mas não fazia ideia de que fosse tão real. A lavagem de dinheiro com arte, em escala global. Quem diria que um quadro de gosto duvidoso poderia valer tão caro?

Lembrei de um amigo num papo de café que me disse algo do tipo: o dinheiro contabilizado no mundo é só a ponta do iceberg. O que está abaixo é um mundo oculto, habitado por cifras inimagináveis.  No Brasil, suspeito que esse iceberg finca raízes em setores tipo o agronegócio, o entretenimento, as igrejas e a cultura. Nada mal para quem busca transformar o ilegítimo em capa da Forbes.

Vamos criar uma narrativa hipotética, uma alegoria. Começaria pelo agro. O agronegócio, pop, paixão nacional, lucrativo, conectado aos mercados globais, com uma imagem púdica, gerada por comerciais que exaltam o poder do campo. Primeiro, compraremos terras com dinheiro de origem, digamos, desconhecida. Dê preferência por regiões remotas, onde o conceito de fiscalização é tão frágil quanto o sinal do celular.

Essas propriedades, mais tarde, serão vendidas a preços inflacionados, gerando lucros que magicamente se tornam renda agrícola. Se perdermos um pouco no processo, não tem problema. Afinal, o importante é que o dinheiro outrora oculto ganhe uma nova roupagem rural. Claro, para os mais ousados, há sempre as opções tradicionais de possuir terras: grilagem, especulação imobiliária, violência e destruição ambiental. Transformar o verde em reais.

Com o dinheiro limpo em mãos, partimos agora para o entretenimento. Por que não organizar shows e festivais? Afinal, bilheterias inflacionadas e patrocínios superfaturados são um interessante passaporte para a legitimidade financeira. Além do que, eventos culturais elevam nossa imagem. Nada como patrocinar um festival de música e aparecer como mecenas nas páginas sociais da sua cidade. A fiscalização é tão subjetiva quanto o gosto musical. Não estamos apenas espalhando alegria?

Apogeu

Mas o ápice dessa jornada para mim, é o mercado de arte. Aqui, meus amigos, alcançamos o nirvana do prestígio. Afinal, se é pra lavar dinheiro, que façamos com elegância e classe.

Compramos quadros ou esculturas, algumas tão duvidosas quanto o gosto de novos-ricos, mas que agora carregam importantes discursos de curadores e marchands. Com algumas aquisições bem escolhidas, nos tornamos filantropos da cultura, intelectuais. Estamos em outra escala da sociedade dos dinheiros duvidosos.

Ninguém pergunta muito sobre o dinheiro que pagou a última obra conceitual. A questão mais importante é se ela combina com a sala de estar de alto padrão ou se vamos doá-la para a próxima exposição. A subjetividade desse mercado é seu clímax. Como questionar o valor de algo que se mede em inspirações? Marchands e casas de leilão cuidam de criar narrativas, enquanto seguimos anônimos nas transações. Em algumas vernissages, sairemos nas fotos e a proteção legal faz o resto.

E assim, entre uma obra de arte e outra, acumulamos prestígio. Somos capa de revistas, frequentadores de leilões badalados, convidados para festas exclusivas. Tornamo-nos o exemplo perfeito de como transformar o que era suspeito em algo digno de aplausos. Há quem prefira os bets, jogadores de futebol, clubes de samba-funk, sertanejo universitário. Gente cafona, tem dinheiro mas não tem estilo. Honestamente, podemos lavar dinheiro com elegância.

Essa conexão entre agro, entretenimento e arte é minha obra prima, uma rede de lavagem que tem a estética de uma vida perdida entre Picasso e Romero Britto.  Ao misturar esse dinheiro oculto com setores socialmente aceitos, fecho um ciclo que, embora mantenha as desigualdades e mine a confiança global nas instituições, me permite boas conversas numa manhã de terça feira no Café Max, bem longe do Brasil. Ao fim, o que sobra é uma ironia: Estou na capa da Forbes, na ilha de Caras, nas festas do Morro da Urca. O trabalhador da base, com seu salário mínimo, admira nossas fotos na Suíça, enquanto está em pé num 804 voltando pra casa.

A moral da história? Desde quando precisamos encontrar alguma moral em alguma história? Entre leilões, festivais, igrejas e vastas plantações, já não sei se é a arte que imita a vida ou o dinheiro lavado que imita a arte.

Quem quer dinheiro?

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