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Entre Alphavilles e Airbnbs: o que sobra para o planejamento urbano?

Ainda conseguimos falar de planejamento em um mundo de não-cidades? A cidade sempre foi o palco dos encontros. Criamos templos, ágoras, praças, passeios, cafés, incluo até os shoppings; formas concretas de organizar nossas demandas e afetos segundo os modelos sociais e econômicos de cada tempo. Mas na era da hiperinformação, a cidade perde essa função básica: reunir. Um clique no Teams dobra espaço-tempo e aproxima Dubai de São Paulo. O que parecia impossível ontem já virou banalidade hoje.

E nessa ausência de cidade, o capital encontrou a chave para um novo ordenamento. Os condomínios: autossuficientes, murados, higienizados por crédito, financiamento e controle digital. Até o porteiro já não precisa mais habitar o mesmo chão do morador: um algoritmo o substitui em uma central distante. O condomínio esvazia a função pública da cidade, como se o planejamento urbano não passasse agora de uma ficção burocrática. Planejar pra quê? Para gerar solo criado que logo será engolido e convertido em mais condomínio.

Essa é a lógica que se espalha pelo Brasil. Entre 2009 e 2015, foram R$ 788 bilhões em habitação financiada pelo FGTS, orçamento público ou capital privado, sem contrapartida equivalente em mobilidade, saneamento ou espaço público, como mostra Maricato. Um padrão se repete: enclaves isolados, que reforçam a segregação socioespacial e restringem o acesso comum. Milton Santos já advertia: o território, apropriado seletivamente pelo capital, torna-se um mecanismo de exclusão.

Os estudos de caso não deixam dúvidas. Em Sorocaba, comparações entre bairros convencionais e condomínios fechados revelam disparidades evidentes no acesso a áreas verdes e lazer. Em tantos municípios, a expansão se dá sobre vazios urbanos, sem qualquer integração com planos diretores ou a malha urbana tradicional das cidades. O projeto de cidade pode ficar até bonito no papel dos planos diretores, mas na prática ficam à margem da engrenagem financeira imobiliária que vende na planta, vende na obra, vende depois de pronto.

O entorno? Não importa. O bairro? Irrelevante. A autossuficiência condominial resolve. O que faltar, complementamos com um shopping. O quintal com galinha e horta virou memória quase esquecida. O alimento, que o pobre produzia em casa de quintal, pequenas roças e granjas, virou ativo do agronegócio, rodando nas engrenagens do sistema financeiro, lado a lado com o sistema imobiliário.

Planejamento urbano, então, passa a ser outra coisa. Não mais apenas a técnica de organizar ruas e bairros, mas um campo de disputa e resistência. Disputa contra a apropriação mercantil que privatiza o espaço urbano e ambiental resistência contra a uso técnico para justificar a exploração. Porque essa hegemonia do capital é excludente? a maioria da população não cabe nela, ainda que queira, não tem crédito, não tem renda e muitos que tem, não conseguem pagar anos a fio. Além disso, a maioria das cidades brasileiras é de médio ou pequeno porte, não há demanda real para esta prática. Condominializar não resolve, metropolizar não resolve, verticalizar não resolve.

Contemporaneamente temos dois macro padrões se espraiando muito rápido. Imóveis verticais feitos para uso de sistemas de moradia intermitente tipo airbnb, e a alphavillização das cidades médias e pequenas. Em comum, ambos têm uma lógica genérica preparada para implementar-se em qualquer vazio urbano e uma lógica econômica que os permite funcionar desconectados da real demanda de habitação das sociedades. Aqui, reside o maior problema da relação entre o modelo, a cidade e o plano diretor.

O risco deste modelo de operar o espaço é criarmos imóveis para poucos e esquecer que a vida acontece fora dos muros. A cidade continua, com ou sem eles. E o planejamento, se ainda tem sentido, é o de devolver a cidade ao comum: reconectar, democratizar, criar frestas contra a homogeneização genérica. Mas como recuperar a importância e força do Planejamento Urbano e Territorial,? É preciso assumirmos que uma sociedade complexa também exigirá de nós, um olhar mais sofisticado e complexo na lida política, científica e técnica da produção deste instrumento.

Parque Alphaville em Campinas; imagem extraída de: https://neofeed.com.br/negocios/alphaville-do-patria-anuncia-aumento-de-capital-de-ate-r-12-bilhao/

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