Muitos filmes do Subúrbio em Transe são marcantes para mim, porém hoje falarei de um que como tantos é especial para a compreensão de diversos conceitos de vida, espaço, lugar, etc. 856 A CASA DO POETA.
Falo hoje como uma homenagem póstuma a partida do poeta J. Cardias, que cedeu e abriu sua casa ao Subúrbio em Transe para realização de tal obra. O eixo do filme está na remoção da casa do poeta para a passagem do BRT, durante as obras olímpicas. O poeta e sua casa eram um elo comum, ali onde o Taco se tornou a memória, reminiscência de um lugar que não volta mais.
J. Cardias foi uma dessas almas brilhantes e anônimas dos Subúrbios, alguém que fazia de sua vida e seu quintal a sua poesia, sua passagem por esta terra esteve imbricada neste lugar, um terreno e uma casa no bairro de Vila Kosmos. Casa esta que na disputa econômica da passagem do BRT, perdeu para o imenso shopping. O que J. Cardias nos permitiu, foi conhecer uma outra esfera das remoções dos mais pobres, este modelo de operação urbana que sempre volta com uma maquiagem de progresso. O poeta nos mostrou a remoção de um lar, de um lugar, o apagamento em vida de histórias, memórias e referências.
O poeta hoje partiu, assim como um dia foi extirpado de sua vida o seu lugar. Porém nos deixa a história de sua vida como exemplo, nos deixa suas poesias como presente e nos deixa sua resistência como legado. Esse é nosso país, onde aos mais pobres só resta luta pela sobrevivência. Todos que passamos pela pobreza, em um determinado grau enfrentamos as mais deveras frustrações que a desigualdade nos traz e tentamos seguir em frente. Dessas contradições de dor, frustração e necessidade de seguir vivendo que tiramos o suspiro de expressar, sem saber se nossas músicas serão ouvidas por mais pessoas além de nossos amigos, se nossa poesia será lida e entoada em todas as escolas de formação, sem se importar se nossa pintura vai ser exposta em um museu de grande notoriedade. Seguimos vivendo e produzindo, mesmo que quase anônimos porque esta produção está aí pra afastar o peso da desgraça que a desigualdade nos coloca.
Ao poeta, e porque não vizinho (afinal são bairros coligados) fica nossa admiração e aos familiares fica nossa condolência.
Aos amigos, simplesmente recomendo que assistam ao filme 856- A Casa do Poeta. Todos que já passaram por uma perda violenta de seu lar vão se reconhecer e aos que nunca passaram vão sentir.
Obrigado por esse filme. Cardias foi um amigo que desapareceu. Não só de mim, mas de dezenas de outros amigos, todos poetas, que sentiram muito a sua ausência. Explico melhor: nos anos 70- 80-90, em plena Geração Mimeóografo, Cardias era dos mais atuantes e queridos poetas do país. Era o tempo das cartas, um tempo mais generoso, amigável, de trocas de poesia e fraternidade. Seus livros estavam em minha biblioteca, suas cartas, ainda as tenho comigo. De repente, o silêncio. As cartas não vinham mais, os livros sumiram, os telefones se calaram. Todos os poetas amigos, de então, tentaram contato e , como resposta, o vazio. Cardias desaparecera. As especulações sobre sua possível morte pipocavam. Agora, sabemos sobre sua morte real, física, e, com ela, os motivos verdadeiros de seu afastamento. Nada mais importa. Ficarão os livros, as cartas, o seu sorriso gentil, tímido e caloroso. Agora, corpo e casa são unos, inseparáveis; quem sabe, sementes de novas jabuticabeiras. Afinal, poeta sempre apronta das suas. Descanse em paz, amigo.
Um grande amigo, muito triste a demolição de sua casa e a sua partida.
Belo texto, Rodrigo.