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Espaços Insurgentes

Mineápolis-Brasil pequena cartografia de suas lutas urbanas.

Já algum tempo compreendi que não devemos pensar apenas em uma vida pós pandemia, mas na vida dentro da pandemia. Enquanto o campo da arquitetura e urbanismo faz estudos e prospecções, ensaios teóricos e demais produções, a relação crua da sociedade se expõe.

Se no início da pandemia observávamos para exemplos vindos de territórios de controle, debatíamos táticas de isolamento espacial, saúde coletiva entre outros, hoje temos um cenário distinto que se apresenta. Há algo em comum entre Minnesota, Paraisópolis, Amazonas e Rio de Janeiro neste momento, assim como há um fio que conecta . As redes de poder e controle revelam de forma crua como a morte é um instrumento de controle do sistema. George Floyd e João Pedro são vítimas de um projeto de cidades e territórios onde se banaliza quem vai morrer.

Sobre o Brasil, este projeto racista pode ser visto em inúmeros exemplos, mas trarei especificamente os fatos recentes. Qual o argumento justifica as recentes mortes de jovens em favelas durante processos de entrega de cestas básicas? Nada que vá além da demonstração de poder e controle.

O plano Brasil de enfrentamento ao COVID foi de combate aos seus cidadãos mais segregados historicamente. Sem planejamento de tratamento, sem a distribuição da renda básica universal e como vimos na reunião ministerial, com uma proposta de partilha do espólio-brasil entre os seus o país foi entregue a própria sorte na luta pela vida.

Diante de tal projeto, o povo ousou tentar sobreviver, fortalecendo a historicidade das redes nós por nós de ajuda mútua. Não é preciso olhar pra copo de leite do tal Capeton pra falar em simbolismos de fascismos, os assassinatos em meio a doações já demonstram isso. Assim como os caminhos que fazem com que as pessoas tenham de escolher entre morrer de fome ou Corona.

Voltemos os olhos para Mineápolis e seus ensinamentos. Pensando neste momento sobre o urbano e a arquitetura, uma vida bastou para que a cidade se pusesse em chamas. Isso é revelador sobre o que importa na cidade: o cidadão. O povo de Minneapolis, em um ato de justiça e revolta, remodela as espacialidades da mesma como um documento que rasga o sistema urbano racista e traz o território de volta aos seus. Vale lembrar que o povo norte-americano também enfrenta o COVID de forma estranha devido as escolhas de seu presidente. Ainda assim, Minnesota neste momento não recua da incessante luta pelo direito a vida.

Mineápolis é o ponto de partida de uma nova cartografia insurgente que revela a forma social com a qual se constituiu as Américas. Este imenso território que exterminou e escravizou seus povos originários, e outros inúmeros povos através de um modelo racista de constituição de suas nações. O sistema racista que organiza estes territórios passa por esta máquina de captura de saberes, vivencias e trabalho, e quando não consegue mais capturar elimina.

Neste mesmo ano de 2020, antes da doença chegar ao Brasil, a Escola de Samba Acadêmicos da Rocinha apresentava estes versos na passarela do samba:

“Chora Maria! Que a água do oceano sabe o gosto da lágrima que escorre em seu rosto. E os santos que aportam no cais da Bahia protegem quem já foi mercadoria”

Maria Conga Unidos da Rocinha 2020

Nossas cidades são estas escrituras de espacialidades que consideravam a maior parte de seus usuários como mercadorias e não como cidadãos. Esta é a construção social que funda nossa produção urbana.

Uma crítica progressista que surge em meio a isso: o Brasil precisa aprender com Mineápolis. Este a meu ver é um pouco do misto de nosso senso de emergência e justiça com um olhar ainda romantizado de que estamos presos em uma lógica de cidadão cordial. Na real, há uma diferença importante a destacar, as forças de controle do estado no caso do Brasil atuam de “maneira enérgica”, termo que elas usam para explicar a opinião pública como passam por cima dos direitos humanos conquistados a duras penas para efetivar atos de controle social.

Quem não se lembra das operações no Complexo do Alemão por volta de 2010, 2011 (épocas de governo Cabral) que unificou polícia militar, civil, exército e todas as mídias? Quem não se lembra do Massacre de El Dorado, ou das rebeliões prisionais no Norte do país? Quantos João ou George estavam nestes locais. Os espaços brasileiros tem este recorte, onde a questão da mobilidade urbana cruza com transportes que podem ser parados e revistados em dias de verão a caminho da praia. Dois jovens em uma moto e demarcações indígenas são escalas de uma mesma agenda espacial e territorial. Se a espaço preto e ameríndio não pode ser remodelado, ele é condenado e criminalizado seja por ações como quebrar um terreiro ou matar na favela: seja de fome de falta dágua ou de tiro.

Complexo do Alemão 2010

Não obstante, o que chamamos de cordialidade do cidadão brasileiro possivelmente é hoje mais fruto do excesso de força implementada pelo sistema de controle do que propriamente passividade do cidadão. Soma-se a isso o fato de que muitas vezes invisibilizamos ou não nos sentimos responsáveis (enquanto sociedade civil) por mortes que envolvem o recorte territorial e racial.

Em meio as recentes cartografias insurgentes vejo por exemplo nascer no Brasil dois movimentos, o primeiro: a imensa rede de redes de ajuda mútua que caminham ainda que sejam atravessadas por estes assassinatos. Segundo: alguns levantes insurgentes de manifestação de rua antifascistas, ainda que expondo-se aos riscos da doença.

Nossa encruzilhada atual parece estar neste processo. Por um lado, o governo nacional demonstra todo interesse em caminhar para a ruptura democrática através da força militar. Por outro lado, o território brasileiro paulatinamente tenta se auto-organizar através das redes formadas entre seus vulneráveis. Em uma agenda de lutas que é local e também global. Isso torna Mineápolis mais próximo de nós do que imaginamos.

Há nestas redes um caráter plural e difuso, mil facetas atuando, buscando suas entradas e seus caminhos. Muito destas redes sempre aconteceram, porém agora tem ganhado visibilidade, outros elos de redes começam a se formar nestes movimentos de emergência. Em maioria porém, todas parecem apresentar uma tendencia comum: não aceitar a ruptura dos marcos democráticos pela força. Esta tendencia comum pode ser a saída da atual situação do país? quero crer que sim.

O Haiti é aqui, Mineápolis é aqui, Maria Conga na Rocinha é aqui. O espaço é forma e conteúdo (já dizia Milton Santos). Quando a forma não comporta, não liberta ou emancipa o conteúdo, o conteúdo pode e deve modificar a forma. Assim que edificações são demolidas, caem, perdem o sentido de ser. Mineápolis em chamas é o conteúdo remodelando a forma.

Mineápolis 2020
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Um das saídas da pandemia passa pelo espaço

O Lockdown e o isolamento espacial são o grande tema do debate. Hoje podemos considerar como uma das mais importantes ferramentas para tentarmos impedir que a cepa que causa o COVID19 tenha mobilidade através de seus vetores que somos nós, reduzindo assim a pandemia.

É possível que vivamos muito tempo com este vírus circulando por ae, sem vacina ou profilaxia eficiente, estamos pensando em vida pós-pandemia porque prevemos um futuro pós-pandemico, mas esse futuro não é tão previsível quanto parece.
Neste sentido, cabe a quem trabalha com o espaço, lugar e território uma dura missão: cosntruir um plano de isolamento da cepa. Assim como foi com a MERS ou outras SARS que hoje se encontram retidas em alguns locais do planeta.
Infelizmente, movido por uma série de ajustes desajustados do governo federal do Brasil, caminhamos para ser um dos territórios do planeta que concentrará esta doença. Sim, esta é uma realidade que está diante de nós e que devemos enfrentar sabendo que pode ser algo de médio e longo prazo.
A notícia recente de que a FIOCRUZ tem conseguido aumentar significativamente a produção de testes pode ser um grande alento, pode nos permitir trabalhar dentro de um raciocínio de prevenção a partir dos testados como fez a Coreia do Sul. Nossa dificuldade porém está em confrontarmos esta realidade com o tamanho do território nacional e suas muitas relações discrepantes, desigualdade social, disputas, lutas urbanas e rurais, fronteiras e relações continentais e somar a isso a luta anti-científica do governo federal.
Podemos não conseguir encontrar a cura ou erradicar a COVID, mas podemos reduzir seu círculo de transmissibilidade a poucos espaços. Talvez concentrá-la em uma cidade, estado ou região, o que desafogaria o sistema global na luta contra a mesma. Por isso as políticas de isolamento espacial são tão importantes neste momento.

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Um pouco o que podemos construir para fugir de caminhos higienistas


O Brasil pós pandemia pode encontrar parte de sua saída econômica pela construção civil, isso é um padrão razoavelmente comum no país.

A construção civil brasileira é capaz de absorver uma diversidade de mãos de obra através de seus canteiros. E sobre isso me faz pensar ao menos em duas questões (que são meio corporativas e meio reformistas entendo, mas são questões a se pensar rs).

QUESTÃO 1 – OBRAS – 1 DE 1000 OU 1000 DE 1

Muitas experiencias mostram que movimentos como este geram mega obras, pois estas a gente consegue repactuar grandes empreiteiros, massa trabalhadora, movimenta vários nichos da economia e da gleba. É um modelo comum de construção de cidades e territórios diversos. Porém penso em outro protótipo, não é uma ideia nova e não é uma ideia que nasce do zero.

Por exemplo observei em um atelie da FAU-UFRJ com a professora Paula Albernaz e Diego Portas (creio que podem mostrar melhor) este raciocínio em que ao invés de investirmos 1000 em um único empreendimento, podemos pensar em mil empreendimentos de custo um.

Tal ação pode produzir coisas bem interessantes, mil canteiros espalhados, mil arquitetos diferentes atuando sobre estes canteiros em verbas que podem ser pulverizadas pela cidade girando os circuitos de economia local.

Este padrão pode funcionar bem para ATHIS, mas pode extrapolar este campo e capilarizar por todas as cidades. Um exemplo de sucesso em torno disso se dá com os coletivos de arborização de bairros como Vista Alegre + Verde ou o Plantar Paquetá

QUESTÃO 2 – RETOMADA DO ARQUITETO DE CANTEIRO e A ARQUITETURA POSSÍVEL

O fomento a obras de pequeno e médio porte também passam pelo fomento do trabalho do arquiteto atuante no canteiro, atuando em todas as fases da obra. Para a maioria das pessoas o projeto sem a obra construída é um problema, o brasileiro tem a cultura da construção e podemos fomentá-la e potencializá-la sendo parte destes processos.

Um exemplo interessante vem de outra instituição, a arquitetura da unisuam que conheci com os professores Gustavo Jucá Andrea Souza Cruz e Núbia Nemezio onde o incentivo vem do entendimento da intervenção no território de forma menos excludente e com um conjunto de projetos, soluções, estética e linguagem arquitetônicas que caibam em um mundo possível. A arquitetura não se prenda só no seu status de elemento de exclusividade. É totalmente diferente para um estudante projetar seu hotel em um hipotético endereço na Barra da Tijuca ou projetar seu hotel em um hipotético endereço dentro do Mandela (em Manguinhos).

Em ambas as situações (questão 1 e 2) poderíamos criar bancos solidários, linhas de fomento, editais, linhas de crédito e mil caminhos (que no Brasil parecem mais abertos a grandes empreiteiros) de forma a favorecer e fomentar os pequenos e médios empreiteiros e arquitetos construtores.

SOBRE GRANDES OBRAS.

É possível que tenhamos força política para pautar um dos principais buracos desvelados nesta crise, a questão sanitária. Para tal, os arquitetos precisam primeiro se ocupar de parte desta pauta, e entender como funcionará nosso encontro com os agentes de saúde coletiva e de sanitarismo

Creio ser difícil colocar o saneamento na proposta dos 1000 DE 1, pela condição estruturante e universal. Porém os arquitetos por sua vez poderiam se posicionar dentro de comissões e comités de bairro com a responsabilidade técnica de averiguar e auxiliar na consolidação das redes, seja por projeto, acompanhando obra, articulação política ou simplesmente denúncias.de forma que participemos tanto da construção coletiva dos planos até a execução dos mesmos, entendendo que pelo caráter estruturante estes tem que ser pensados enquanto um programa político mais amplo, porém necessário.

Para todas as propostas poderíamos criar um observatório dos bairros. instancias de gestão entre o poder público e a sociedade civil que mantivesse continuamente monitorado as relações comuns mais necessárias ao bem estar urbano como arborização, áreas livres, etc.

Em todos estes passos retomar a cultura da presença efetiva do arquiteto no canteiro de obras é um elemento fundamental, e com isso retomar o sentido de arquitetura ser obra construída.

O mais legal é que as experiencias que citei de leve aqui fui aprender com estes professores depois de burro velho e formado, em meio a dias de visita nas instituições, A gente sempre aprende algo e as universidades nunca param de produzir conhecimento.
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Redes de trabalho vivo dinamizam as lutas pela saúde coletiva nas cidades

#coronanasfavelas Maré Vive


É por certo que as cidades vão mudar. Muito provavelmente a vida pós pandemia nos trará novos hábitos. Isso é tão possível quanto todas as incertezas que isso significa. 


Há mudanças significativas acontecendo e que podem impactar em novo paradigma nas formas de trabalho. Se até pouco tempo atrás a lógica corporativa dominava as mentes no que se refere a trabalho: seja um profissional x ou y, hoje o que vemos são múltiplos fazeres em torno de uma luta comum. 

As disputas anteriores discursavam entre o profissional de certa categoria que representa um todo (ex: arquiteto que sozinho resolve todos os problemas da cidade), ou a flexibilidade e diluição (ex: arquiteto que vira motorista de uber). Creio que o que estamos vivendo está em outra via, onde o saber deste não está acima ou subjugado, mas sim integrado a diversos outros saberes. O trabalho coletivo, integrado e em sistema é o modelo que estamos experimentando neste momento. 

Não são os médicos enquanto categoria única, mas a sociedade como um todo que está unificando as pontas do sistema de saúde coletiva. Não está no hospital o tratamento contra o COVID-19, mas nas estratégias de usos e vivencias da cidade integrada às questões de sociabilidade e sanitarismo. Estas mesmas cidades também não estão sendo projetadas ou planejadas por urbanistas apenas, mas pela diversidade de ações de seus moradores. 

O sentido da categoria profissional como a mente de saber solucionadora por si só não tem mais a hegemonia. O que vemos operar é um conjunto de inteligencias coletivas, nas quais essas categorias inclusive fazem parte. Tanto os médicos que estão no front das UTIs aos Garis que estão no front de sanitização do espaço urbano, estamos todos reconstruindo nossas formas de atuar viver e se integrar. 
É notório que as cidades que apresentam os melhores resultados são as que tem operado de forma mais coletiva e integrada socialmente. Nova Zelândia por exemplo, agiu de forma sistêmica, com seu fechamento de aeroportos, testagem e isolamento de casos suspeitos e o forte isolamento social com base na conscientização da população que se sente parte da solução. Coreia do Sul focou na testagem em massa e rastreamento de assintomáticos, em inúmeros países (como é o caso do Brasil) optou-se pelo isolamento social na busca de conter os avanços da teia de disseminação virótica. Alemanha focou na rastreabilidade máxima dos casos, testagem em massa, isolamento e reforço financeiro no sistema econômico do país. China atuou com forte controle social para garantir o isolamento. 

No Brasil o trabalho se torna mais duro, mas pode ser um exemplo da ação em redes. A incapacidade da liderança central (seu presidente) centralizar as decisões é nossa melhor salvaguarda a tragédia completa. Além disso, temos um Sistema Integrado de Saúde que consegue pensar de forma nacional e local, associando uma série de elementos que vão da construção de hospitais de campanha até renda mínima aos mais vulneráveis. A saúde coletiva integra o micro e o macro, e todo cidadão se torna um agente público de saúde. Em Niterói, por exemplo temos desde políticas de testagem em massa até políticas de renda voltada para artistas independentes que se apresentam em redes sociais.

mapa solidário produzido por arquitetos cariocas.

O isolamento é praticamente o consenso do mundo. Ele fez nascer esta outra forma de vivenciarmos nossos lugares. Se como dizia Le Goff sobre a cidade dos tempos de São Francisco — a palavra urbana estava nas praças — hoje a palavra urbana parece estar nas redes.


Concomitante às estratégias mais estruturadas dos governos, o povo que está em isolamento também se organizou em torno de um circuito de redes. Conectados às pontas da saúde, vemos uma série de ações integradas e multidisciplinares que vão desde a conscientização, ajuda mútua, costuras, artes, denúncias, cartografias populares, monitoramento, entre outros. 

cartaz de grupos de apoio aos subúrbios do RJ
Podemos ver por exemplo:
  • redes de advogados,
  • redes de médicos,
  • redes de psicólogos,
  • redes de arquitetos e urbanistas,
  • redes de moradores de favelas, comunidades, vilas,
  • redes de ONGs e ativismos,
  • redes de artistas e artesãos,
  • redes de cozinheiros,
  • redes de compra e venda de comércios de bairro como forma de manter a economia popular ativa,
  • redes religiosas de ajuda mútua.

No recorte Rio de Janeiro, ainda podemos ver:

  • Escolas de Samba costurando EPIs e máscaras,
  • Brigadas populares de limpeza acontecendo no Santa Marta,
  • Brigadas populares de auxílio para levar água a quem não tem acesso a água,
  • Artistas independentes e famosos fazendo apresentações via internet criando espaços de sociabilidade,
  • lonas culturais e outros equipamentos de cultura funcionando como pontos de apoio e amparo social,
  • redes de pesquisadores trabalhando para produzir equipamentos de respiração mecânica de patente livre,
  • redes de urbanistas criando cartografias que permitem encontrar quem quer doar e quem precisa receber a doação, 
  • redes de franciscanos que promovem alimentação a população que não tem o que comer.

As redes tendem a surgir em tempos de emergência. São uma forma de organização social eficiente para estes momentos. Alinham por si mesmas, de maneira orgânica, a capacidade de agir com velocidade e gerencia colaborativa sobre diversos elos da pandemia. Atuam enquanto instrumentos de trabalho vivo direcionados a pauta comum, que hoje nos é universal: lutar pra sobreviver a pandemia.

Movimento Muda Beaga

É plausível crer que as narrativas corporativas do trabalho tradicional não conseguirão suplantar o trabalho coletivo, sistêmico e integrado (mesmo que seja trabalho realizado por redes de automação e algoritmos) e constituirão lá na frente outros campos da contradição  para se disputar. \”Trabalhe enquanto eles dormem, ou Trabalhem pois é só uma gripezinha\” são discursos de campos antigos que acabam por reduzir a vida a esta lógica corporativa do trabalho individual como forma de crescimento pessoal. Esta narrativa não terá efetividade neste momento para além de nos levar a tragédia.


O que estamos experimentando neste recorte, escala e momento é o trabalho cooperativo e internacionalizado. Nos movimentamos com base em informação e na dinâmica de trocas constantes onde autoria, patente, protagonismo estão em segundo plano. Assim, as redes caminham fortes rumo a se firmarem como paradigma. Sejam redes de dados e algoritmos para controle social com a consolidação de instrumentos de big data que propiciem quase uma automação de decisões sobre o urbano, sejam redes de diálogos em trabalhos, sejam redes de resistência e lutas anti-segregação, ou redes comunitárias de colaboração. Talvez estejamos caminhando para um ponto complexo onde a automação das decisões sobre a cidade se confrontem com a realidade dos muitos segregados dentro dela.


As novas lutas pelo trabalho talvez tenham que se deslocar do campo corporativo e caminhar para as lutas em defesa do trabalho vivo e mais amplo. Por exemplo, sindicatos lutando menos por uma visão de um grupo específico e mais pela visão do todo da produção e segregação. As pautas se tornarão cada vez menos a proteção a uma categoria e cada vez mais a proteção coletiva  dos sem trabalho, dos sem emprego e sem renda, cada vez mais a luta por novas formas de vida do que por empregos ou empregabilidades. 


Se esta forma de organização que começa a ganhar a produção das cidades em meio a crise sanitária se tornará um padrão, não temos como saber. Ainda é muito cedo para produzir algo assertivo a respeito da pós-pandemia, mas podemos dizer que um modelo de auto-organização produz resultados importantes de vivencias sociais e que estas devem ser consideradas em processos de emancipação das decisões políticas.

croqui sistematizando redes (autoria própria).

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Vamos garantir o isolamento em todas as cidades, pois ele funciona

Vamos garantir o isolamento em todas as cidades, pois ele funciona.
Primeiro, vale sacar o que é a curva exponencial:
(este exemplo não é a curva do brasil da foto)
Se a cada uma hora 1 elemento virar 2, teremos com dois elementos:
hora 1 = 2-4
hora 2 = 4-8
hora 3 = 8-16
hora 4 = 16-32 – 4 horas depois temos mais de 30.
hora 5 =32- 64
hora 6 =64-128
hora 7 =128-256 – + 3 horas depois temos mais de 250.
hora 8 =256-512
hora 9 =512-1024 – +2 horas depois passa dos 1000.
hora 10 =1024-2048
hora 11 =2048 – 4096
hora 12 =4096 – 8192
hora 13 =8192-16384 – +4 hs depois passa dos 15 mil.
hora 14 =16384- 32768
hora 15 =32768 – 65536
hora 16 =65536 – 131072 +3hs depois passa dos 100 mil.
hora 17 =131072 – 262144
hora 18 =262144 – 524288 +2hs depois passa dos 500mil.
hora 19 =524288 – 1048576 +1h depois passa dos 1 milhão.
hora 20 =1048576 – 2097152
hora 21 =2097152 – 4194304
hora 22 =4194304 – 8388608
hora 23 =8388608 – 16777216
hora 24 =16777216 – 33554432 +5h depois passa dos 30 milhões.
No fim de um dia 2 elementos virarão 33.554.432. trinta e três milhões quinhentos e cinquenta e quatro mil quatrocentos e trinta e dois elementos. Esse é um exemplo de como funciona o crescimento exponencial. É por isso que num dado momento onde você é um em um milhão os casos afetados são só números e em outro momento eles viram um vizinho, um conhecido, um familiar…
No gráfico abaixo estão os casos reais destas dobras no Brasil. É possível perceber com clareza como o intervalo entre a dobra da quantidade de infectados ficou mais espaçado, a partir principalmente do tempo de isolamento social. Se antes a dobra tinha começado a subir de dois em dois dias, a partir do isolamento começou a ocorrer entre quatro e cinco dias de diferença.
Esse espaçamento é o que está segurando o Brasil de virar um caos completo e é ele que precisamos garantir e ampliar.

Não é porque a curva aumentou que as políticas de isolamento devam ser amenizadas ou afrouxadas, e não é porque tá na cabeça do povo que a doença \”não pegou no Brasil\” que a gente deva afrouxar.
O Brasil já está com bastante casos. Já vemos nas cidades maiores os números virarem nomes de conhecidos e familiares. Quanto mais a gente segurar o isolamento maiores as garantias de passarmos pela crise com menos impactos dos mais diversos.
Enquanto o presidente está igual um vendedor de cruz da natividade vendendo sua cloroquina de nióbio, algumas cidades estão trazendo boas práticas como Niterói por exemplo. E este parágrafo não é pra fazer politicagem – Nesta hora devemos sinceramente cagar pra brigas entre dorianos, maianos, bolsominios e lulominions e centrar no que importa. Primeiro porque ninguém desses ou outros vai se capitalizar politicamente e de forma personalista com isso (seria crachá de oportunismo estampado na testa), e segundo porque esses caras cagaram no pau da saúde coletiva e saneamento esse tempo praticamente todo, e talvez a única diferença é que o presidente é nazi e sua posição, diferente da dos demais que são seres humanos, é de que as pessoas podem morrer em massa (como auschwitz e holodomor) em nome dos seus comparsas da necropolítica.
Retomando:
O isolamento é fundamental pois nos dá tempo para enfrentar a crise que a pandemia nos colocou. Ele garantirá maiores sucessos.
Esse tempo é precioso para, por exemplo:
– construção de hospitais de campanha.
– levantamento de quem pode ser relocado em quarentena para locais mais salubres com os quartos de hotéis
– comprar e produzir mais testes
– produzir mascaras de proteção
– ensinar a usar (colocar e retirar as máscaras) se não num adianta nada.
– ensinar a descartar as mesmas.
O discurso de afrouxar o isolamento em cidades médias é ruim. Primeiro porque em geral no Brasil, inúmeras destas cidades não tem hospital capaz de sustentar casos de covid (mesmo que poucos casos), segundo porque cria a falsa impressão de que podemos afrouxar todos as cidades, afinal o que é exatamente afrouxar um caso.
Bérgamo na Itália, tinha 120 mil habitantes, um número próximo de São Pedro da Aldeia no Rio de Janeiro e a cidade não conseguiu cremar seus mortos. É importante mostrar estes parâmetros, e mandar a real, sem teste em massa dificilmente isso será afrouxado.
Isso são só exemplos rápidos de um pouco do que precisamos neste momento. Para garantir passarmos com menos danos possíveis, precisamos de tempo e para ganhar tempo precisamos manter o isolamento como boa prática sanitária para não vermos o caos reinar no país.
Vale perceber que o isolamento físico não significa o isolamento social. Juntem-se em redes, formem elos, construam pontes de comunicação e solidariedade, nestas horas as vezes uma mensagem de bom dia para um morador de um local vulnerável já ajuda muito. Fortaleçam os laços horizontais da sociedade, unindo todas as pontas da saúde, da coletividade e da vida.
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7 de abril dia da Saúde – Cidades Segregadas: tivemos copa e não temos saneamento

Teleférico Morro da Providência – Rio de Janeiro RJ (hoje está parado).

Hoje, dia 7 de abril comemora-se o dia mundial da saúde. Enfrentamos neste dia nosso maior desafio em muitos séculos, o combate a um vírus super transmissível e que é fatal. Em meio a crise global, outra nacional nos assola. O distanciamento social que temos que manter mediante isolamento é transpassado pelo distanciamento econômico que a segregação urbana nos permitiu.


Se a cerca de um século atrás, a gripe espanhola nos afligiu de forma semelhante, criando laços e reformulando as pautas de construção de cidades, o Brasil pós-pandemia poderá sofrer pelo mesmo caminho. Porém, antes de chegarmos no Brasil pós-pandêmico temos que chegar no Brasil vivo hoje dentro da pandemia é resultante não apenas dos processos de inicio do século passado de segregação, mas das políticas contínuas desta segregação.

Podemos enquanto urbanistas arquitetos comemorar algumas vitórias recentes (não tão recente mais) como o Ministério das Cidades e o Estatuto das Cidades, ou a lei de Assistência Técnica de Habitação de Interesse Social, mas devemos pesar que cidades e que espaços são estes que foram produzidos a partir deste ponto.

O Brasil Olímpico e da Copa das Copas retrata modus operandi dos processos de projeto e implementação de urban design mundo a fora. Operam deixando pautas progressistas e democráticas entrincheiradas em certos espaços de respiro, certas quantidades de editais e coisas do gênero enquanto pautas hegemônicas do tradicional veio aberto seguem pelos sistemas de sempre. Se um MCMV Entidades nos obriga a um apuro e afinco gasto de energia com regras onde entidades tem que batalhar para conseguir um mínimo, um MCMV da Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, MRV Engenharia conseguiam e conseguem firmes e fortes contratos massivos para fazer barragens, rodovias, e MCMV em verdadeiras não cidades sem que pareçam obrigados a apresentar a sociedade os resultados concretos disso. A cara do Brasil faz parecer que é mais fácil conseguir dinheiro no BNDES do que empréstimo no cartão C&A.

Por exemplo, coube a Odebrecht, OAS e Delta a construção do teleférico no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro olímpico. Hoje o dia mundial da Saúde anunciou dois falecidos por covid-19 no Complexo, que tem seu teleférico parado e continua sem saneamento. O Alemão, que fica no Rio de Janeiro, cidade do Porto Maravilha, que assim como em Porto Madeiro em Buenos Aires ostenta um ícone arquitetônico como marco capital deste modelo de cidade.

MCMV em Mata do Cacau – ES.

Podemos e devemos citar outros casos recentes como o Cais Estelita Demolido e reprogramado pelo Consórcio Novo Recife, formado por Ara Empreendimentos, GL Empreendimentos, Moura Dubeux Eng. e Queiroz Galvão, ou também Belo Monte, talvez a maior obra deste setor político-construtivo envolvendo a robustez de grandes construtoras. 

Fazer cidades, no seu sentido material é um grande negócio e estruturante de país.

O Brasil vê na construção civil a capacidade de movimentar uma economia de massa graças a canteiros de obras onde a segregação social se mantém mas permite o mínimo de capital de giro na sociedade (pense no salário do servente, do serralheiro, do carpinteiro, etc) e de movimentar grandes estruturas econômicas que mantém constantemente ativas pelo lobby. Somado a isso constroem cidades a partir de plugs de tecnologias e produtos que caem de forma invertida no território. Fica a questão, foi o Complexo do Alemão que pediu um teleférico ou foi o teleférico que precisaria ser instalado em algum lugar para sair bonito na foto do Rio Olímpico? E o que sobra aos ativistas, se não as migalhas? 

São Migalhas como aplaudir o espaço identitário que restou ao Porto Maravilha de retratar o índio em grafite enquanto Belo Monte se transformou em um operativo financeiro de quem verdadeiramente construiu o Brasil. São migalhas como disputar os pouquíssimos editais de entidades que transformam-se em verdadeiras máquinas de captura de movimentos e de divisão entre pobres enquanto os mesmos morrem de fome. Aos pobres a migalha e a fome, e agora a doença. 

Parece bem propício ao Brasil pós-pandêmico operar economicamente o setor da construção civil com o discurso de uma nova forma de pensar as cidades, pois como já dito, a construção civil move massas da economia. Esta nova forma por sua vez, não poderá vir com os vícios das formas velhas, venham de que lado vierem, assim como o discurso participativo de construção de cidades não terão efetividade se vierem viciados em instrumentos já previamente capturados.

O enfrentamento da cidade segregada passará pelas encruzilhadas da sociedade como um todo, precisará considerar e consolidar as vozes mais diversas e não apenas as organizadas de que forma estejam. O primeiro passo para enfrentar a situação é admitir que construímos cidades segregadas, e que mesmo alguns poderes que se ventem como progressistas construíram cidades segregadas. A segregação espacial dos pobres é o paradigma de manutenção do sistema e destas formas de cidades.

A partir deste ponto, precisamos demolir da pauta o sistema lobista de construção de cidades, buscar melhores relações de usos de seus espaços, produzir educação de cidadania e integração de relações e redes de sociabilidade. O trabalho na escala orgânica da vizinhança é mais que narrativa, ele ocorre no dia a dia, cade a nós dar ouvidos a este trabalho, explodir para fora de nossas bolhas, partidárias, aparelhos e ações grupescas ou categorizantes e ouvir do outro cidadão comum.

Outro ponto, é importante emancipar o cidadão, seja pela saúde,  pelo conhecimento, pelo direito à cidade entre outros e deixemos que o cidadão construa seus caminhos, inclusive de organização da vida e de sua espacialidade. Primeiro precisamos universalizar e emancipar o saber e a saúde, para só depois começarmos a ver como as formas de organização e sociabilidade funcionam, Provavelmente nenhuma associação de moradores, grupo de minoria, coletivo cultural, partido político vai ter mais velocidade e capilaridade que o discurso de uma vizinha faladeira.

O Brasil de hoje é em muito a cara disso: Por um lado movimentos organizados aplaudem o grafite como resistência enquanto as Odebrechts da vida construíam Belo Monte e Portos Maravilhas de braços dados com quem quer que seja.Por outro lado o fascismo foi capturando a indignação dos mais pobres que não conseguiam lavar as mãos com teleférico e nem se alimentar com tinta de grafite. 

As maiores derrotas na concepção de cidades ficam estampadas em algumas pautas. Quando perguntamos que cidade queremos, ou quando levantamos bandeiras do tipo: A cidade é para as pessoas. Fora o pior de todos, as soluções mágicas tipo Rasputin: teleféricos e VLTs que saem da cartola. Estamos assumindo o quão distante ficamos desse debate e da construção emancipatória das cidades e o como ainda estamos presos na visão de mundo de que há um modelo ideal de cidade a ser alcançado. As cidades que traçamos estão sempre o campo do Amanhã, quase aptas a serem artefatos do Museu do Calatrava. Não estamos na caverna de Platão, estamos na cidade real e ela é segregada, abandonada e usurpada por inúmeras esferas de poder, muitas das vezes com nossa ajuda inocente ou não.

Onde está a saúde coletiva nestas cidades construídas? 
É exatamente isso, esquecemos.



Porto Madero – Buenos Aires – Grafite retrata luta identitária feminista e ponte da mulher (obra de Calatrava).
Porto Maravilha – Rio de Janeiro – Grafite retrata povos originários e minorias étnicas, no Porto encontra-se o Museu do Amanhã obra de Calatrava.

Novo Recife – Recife – Proposta para uso do espaço do Cais Estelita 

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Não se faz copa com hospitais

É isso que temos a dizer. Antes de mais nada é preciso que todos nós tenhamos a plena compreensão do que estamos vivendo. A história do mundo é rasgada de tempos em tempos por um movimento pandêmico.
Optei por não ler filósofos neste momento, não me senti a vontade (neste texto) em teorizar sobre um vírus (cuja formação é mais simples que uma molécula) produzindo nele isomorfismo ou múltiplas teorias sociológicas. Se tem algo que concordo com Lula nesta hora é sua frase: “primeiro vamos salvar as vidas depois a economia”, que aponta ser a principio a postura de Mandetta, e WW sobre essa situação. Preferi me ater de leve a dados duros, e ao campo que importa, a saúde coletiva e o urbanismo.
Talvez, desde a gripe espanhola não tenhamos vivido algo deste nível. Por sorte agora, temos mais sincronicidade de informações. Vivemos o fruto do desleixo, nos últimos 100 anos não construímos soluções para resolver a equidade social, ao contrário, utilizamos toda a pauta gerada nas pós-pandemias para emplacar modelos de segregação urbana.
Porém, se nestes anos não fizemos, em anos recentes também nada foi resolvido. Hoje estamos aplaudindo nomes espúrios da política pois vivemos um combate transversal, a luta entre a ciencia e o obscurantismo, entre os que compreenderam que tem que ouvir a voz da OMS, da FIOCRUZ, dos PESQUISADORES SEM BOLSA no lugar da insanidade de um energumeno que por azar do destino está na presidência. Porém falamos de gente hoje que até ontem estava batendo palmas com este presidente, e que até ontem estava pouco se lixando para resolver o problema de segregação. Se hoje há foco de alguns destes, é porque vírus não pensa, não escolhe por etnia, gênero, classe, o vírus voa e chega lá tanto em mim quanto nos que menos tem e até neles varre do morador de rua ao dono do Santander. Coitados dos que tentarem se capitalizar politicamente com isso, coitados dos que não enxergarem a necessidade humanitária que estamos vivendo.
Se há alguém que tem lutado com valor esta luta no Brasil é o SUS. Sempre escorraçado pela opinião pública (leia todas as mídias) e sempre sucateado por todos estes governos. 100 anos amigos, uns quase 500 que não temos saneamento direito, e nos últimos anos continuamos a míngua. Vivemos uma década de luxo, ao que parecia, tivemos Copa do Mundo, Olimpíadas mil investimentos eles diziam. Fizemos teleféricos e não levamos água e esgoto, hoje não temos nem teleférico e nem água e esgoto, hoje temos roda gigante, mas provavelmente é porque não se faz Roda gigante com hospitais.
Muitos tentam entender como os de hoje entraram onde entraram, mas a resposta está em todos os de trás. Em um dado momento não era simples de entender como aqueles que juraram fazer por nós, no Rio de Janeiro pelo menos, escolheram Copa do Mundo ao invés de hospitais. Assim como o teleférico, não temos mais aquele velho e belo Maracanã do povo e nem hospitais, só roda gigante.
No país onde roda gigante é prioridade, quem está fazendo a roda de verdade girar para enfrentar o COVID-19 é o SUS e toda a sua base de profissionais atuantes!
Ao menos fico feliz que tenhamos pesquisadores sem bolsa, médicos e enfermeiros com salários defasados, e inúmeros profissionais que antes de mais nada tem humanidade. Pois são eles que estão pautando os acertos que podem nos salvar. São eles que estão dando os instrumentos políticos para os políticos tradicionais tentarem resolver no desespero. O SUS é robusto para enfrentar a pandemia! isso é frase vinda do próprio governo, e tem verdade nesta frase. Verdade que o grande lobby da saúde privada não quer e nunca quis que fosse ouvida.
WW, Maias, Dórias, Mandettas e cia estão sendo coerentes em não se entregar ao obscurantismo tacanho do presidente, mas serão pequenos ao tentar capturar politicamente. O preço do sucateamento do SUS também passa pela conta deles e infelizmente (para nós) este preço está sendo cobrado agora e tudo indica que será alto.
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A cidade e a pandemia parte 3 – reflexões rápidas sobre o mundo do trabalho.

A pandemia talvez seja o primeiro grande enfrentamento deste novo tipo de trabalhador que se torna hegemônico na sociedade brasileira, em especial nas grandes cidades: O autônomo precário. Este trabalhador que vive do bico, do imediato, que não tem patrão nenhum e muitos patrões ao mesmo tempo e que empurra todo o sistema de trabalho para um modelo de negócio similar. O sonho do grande capital é ver todo trabalhador de carteira assinada “sendo seu próprio patrão”, assinando sua pessoa jurídica seja em que caráter for. 

Nada é mais parasita no mundo contemporâneo do que empresas como UBER, CABIFY e similares, onde você “é o patrão”, o dono do carro, quem assume todos os riscos para que a empresa gere lucros exorbitantes. Também nada é mais ilusório do que o trabalhador que é obrigado a usar um CNPJ seja de EIRELI, ME, MEI para se manter subempregado em algum sistema do capital. Não! não culpemos o trabalhador, que na maioria das vezes não tem escolha, ou se sentem bem fazendo algo (muitas vezes é um trabalho que gostam e tem que se virar). 

A defesa do precário parece bonita na teoria, mas é um tiro de misericórdia. Em nome das narrativas do Do it Yourself, faça sua agenda, seja você o dono do seu tempo, seu tempo e seu dinheiro se restringem, não duram para o fim de semana, para as férias, para a pausa da vida, e quiçá para uma crise de saúde do tamanho da que enfrentamos.

Cortando de forma transversal o mundo, o vírus colocou as estruturas capitalistas em um cheque, e diante do cheque obrigou o sistema a tentativas novas de organização com a ruptura do efeito de inércia. O momento pesou na mão e o governo escolheu seu lado, o mesmo lado que lhe pôs: um grupo do grande capital, defensor de estado mínimo, escola austríaca, anti-científico e religioso. No que tange a estrutura superior parece haver um racha, em especial de ordem científica. Se por um lado alguns de seus ministros trabalham firme no combate a crise de saúde que está dada, por outro lado parte se foca em tentar salvaguardar a economia para os que lhes interessam. 

Neste sentido, a escolha de Guedes varre a população para frente da pandemia. Na necessidade de salvar os seus, leia-se claramente — OS SEUS- e não a economia, Guedes propõe a chave para a maior derrota humanitária deste país. Isso não significa que antes era tudo perfeito, faz anos que as políticas de seguridade social do Brasil foram sendo achatadas, o Sistema de Saúde Pública que no papel é de ponta só sobrevive firme pelo esforço de muitos que trabalham em situação precária lá dentro, mas isso não deve ser motivo para amenizar Guedes, afinal a chave da economia está com ele. 

Nossa vida real, para longe dos teóricos e economistas austríacos ou de Harvard ou da FGV é assim, vivemos no dia a dia da escassez. Temos escassez de segurança social, de saúde pública de escola de qualidade e que pesado,…até de saneamento. Impressiona ainda termos problemas de saneamento visto que as tecnologias principais desta ciência existem desde antes de tempos babilônicos. Sim meus amigos, o povo de Nabucodonosor tinha mais rede de água e esgoto que os moradores de Santa Cruz.

Atualmente, um dos mais importantes campos de luta do trabalhador está no território. Hoje, diante da pandemia o território está na luta para viver. E na crise está dado a importância do cidadão. O povo tem que escolher: ou para e faz quarentena ou corre o risco de pegar uma doença sem cura e que mata. Diante de tal olhar, o mais prudente de qualquer governante seria delinear ações bruscas mas efetivas que: 

1- garantam o minimo de dignidade para cada cidadão sobreviver e enfrentar a pandemia.

2- garantam a estratégia de combate a doença efetiva, clara e universal. 

A questão dada é, como pensar isso diante do olhar obtuso de Paulo Guedes e seu chefe para quem estamos todos em histeria?

Não perceber que o capital do mundo parou para que a humanidade não morra é olhar mais raso que estes senhores poderiam ter. E neste momento optar por medidas de austeridade é assinar o atestado de genocídio do povo. Esta é a burrice e visão tacanha de quem não percebe que a economia do Brasil gira em torno da força massificada de seu povo precário. Pois o precário não abrange só o pobre (que as pessoas tem em mente estereotipadas), abrange também essa imensa gleba de brasileiros com formação superior, ou os chamado de classe média que vive de trabalhos sazonais, entre outros. 

Sem ações que possibilitem ao trabalhador o mínimo de segurança social e estabilidade, o risco Brasil será o risco de vitória da Pandemia. Pois: ou teremos um caminho de medo de ficar em casa e perder o emprego, ou um caminho de desespero dos que ficarão desabastecidos do sistema. Dar margem a esse risco é nefasto e burro, nefasto pois é assinar o atestado de aumento de violência e morte dos mais pobres. Burro pois inviabilizará a necessidade de cumprir a risca os protocolos de saúde que podem garantir a vida de todos. A pequenez do presidente e de seu ministro da economia fica clara a cada novo ato, palavra, discurso e resolução.

O mínimo que deveria ser feito neste momento é a aplicação da Renda Mínima Universal e somando a isso o fortalecimento de recursos para o Sistema Único de Saúde. Quanto mais recursos investirmos agora em tratamento via reforço da estrutura de redes hospitalares, e em Pesquisa e Desenvolvimento para que nossos cientistas consigam avançar nas colaborações internacionais que estão buscando arduamente a cura para a doença, mais rápido poderemos sair desta. 

Os que arrocharam, sucatearam transformaram a Saúde Pública em esquemas para vender OSs por aí agora vão sentir o tamanho do estrago que fizeram. Talvez não se criem politicamente mais, pena que pode ser as custas de perda de vida de inúmeros brasileiros que nada tem a ver com seus lobbys. 

Vamos pagar caro pelo sucateamento de anos de instituições públicas, pagar caro pelos séculos de falta de saneamento para imensa parte da população, e pagar caro pelas escolhas burras deste presidente e seu banqueiro. 

Mas é possível que este novo corpo de trabalhador, que se organiza por fronteiras diversas e que transversa a maioria das instituições (e por isso muitas das vezes as instituições não alcançam ou entendem como certos movimentos acontecem) experimente em muitíssimo breve um ciclo de greves selvagens, as primeiras após o decrepto e bizarro dia 15, o famoso dia do foda-se. 

Mas quem somos os que vamos pagar caro?
Sou Ninguém! Tu és Quem?
És tu — Ninguém — também?
Então nós somos um par!

A crise agora é humanitária, e a luta é para que todos tenhamos vida.

E na boa, uma resposta ao dia do foda-se, parafraseando o único presidente que respeito, vivido das e nas ruas e falecido no SUS:

QUER UMA PALAVRA DE CONSOLO?
FODA-SE O BOLSONARO! 

QUEM MANDA NESSA PORRA AGORA É O SUS!


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Pandemia e cidade parte 2 – pitacos para organização de territórios vulneráveis

Recentemente fora publicado um texto importantíssimo do infectologista Valcler Rangel chamado: E quando o coronavírus chegar às favelas? (leia aqui> https://projetocolabora.com.br/ods3/e-quando-o-coronavirus-chegar-nas-favelas/) lançado na revista colabora nos alertou para o imenso eixo de nosso problema em grandes cidades brasileiras e latinas. Como lidar com equidade social diante de uma pandemia onde o principal instrumento de proteção é evitar conglomerações porém onde a maior parte das moradias pobres são justamente conglomerações

Bem, pensando nisso comecei a estudar algo para dar alguns pitacos e talvez um tiro inicial de discussões, entenda, pitacos significam que não são caminhos prontos ou prefeitos, mas sim provocações para que iniciemos a construção de uma agenda de ações urbanísticas para tal.

Nosso maior problema em termos de Política Urbana nunca resolvido está no acesso de direito a cidade a moradores periféricos, em nosso caso mais proeminente os das favelas. São territórios cujos problemas de salubridade ocorrem com frequência e onde o poder público sempre teve baixo interesse em resolver. Hoje, estamos em uma crise emergencial que precisa de respostas emergenciais. Temo que as respostas que venham por parte dos poderes do estado sejam das piores, mantendo a lógica de aproximação e usurpação constante destes poderes que por exemplo não conseguiram em épocas de vacas gordas resolver a questão de saneamento nestes territórios.

É neste sentido que traço um pitaco-proposição de que precisamos reforçar o nós por nós para encontrar ferramentas que nos capacitem a minimamente proteger os nossos. Entre essas pontuo como necessário:

1- Fortalecer a organização popular pelas instâncias existentes nos territórios, colocando como pauta primordial a segurança de saúde diante da pandemia, isto é: buscar em todas as comissões, comitês, coletivos, associações de moradores, grupos organizados destes territórios elaborarem em rede a pauta comum de elucidação prevenção e articulação de ações conexas a garantia da salubridade. Ter uma espécie de comitê de contingenciamento ou rede que seja do lugar e que articule 24h a relação com os sistemas de controle de endemias do estado e a população do lugar.

2- Fortalecer o pensamento do espaço através do coletivo. O contingenciamento pode propor ações e medidas drásticas, muitas das vezes autoritárias. Diante disso é preciso fortalecer no território os elos em que apesar das mil divergências, estamos enfrentando um inimigo comum que afetará a todos que estão conglomerados.

3- Instalado isso, pode-se pensar com mais tranquilidade na reorganização popular dos mais vulneráveis de forma que por um período de contingenciamento consigamos estabelecer que estes estejam em locais mais seguros e com mais rápido acesso dos Agentes de Saúde Público. Para tal, é preciso um trabalho constante de fortalecimento dos Elos Comunitários, de forma que possamos negociar uma mega rede de ajuda mútua inter-familiar.
O que quero dizer com isso, se sua habitação é vulnerável, ou possui um morador com suspeita de ser vetor da doença por um lado e um que esteja dentro do fator de risco por outro, Podemos negociar (dentro destas instâncias populares) que no prazo de recolhimento, o morador que está mais enquadrado no fator de risco e por sua vez deva ser protegido, pode ser “adotado” por um vizinho cuja residência favoreça mais a salubridade do mesmo. O Comitê pode mapear moradores voluntários que se interessem em ceder espaços salubres para pessoas vulneráveis e ter um cadastro de uso.

4- Precisamos adotar medidas drásticas de mercado e estado, garantir o uso de espaços salubres próximos como local de reclusão, pensar por exemplo no uso de hotéis próximos que poderiam ceder quartos a troca de isenção de imposto e principalmente: cobrar a função social das inúmeras propriedades que estão fechadas ou vazias pela cidade. Cobrando também que se cumpra a função social do arquiteto e urbanista no direito de construção de espaços salubres e com garantia a todos.

Lembrando aos mercadólatras do não existe almoço grátis que: em momentos de crise como a instaurada, lucrar com o almoço também é assinar o atestado de genocídio do povo. O primeiro passo é romper com a cultura instaurada no cotidiano individualista de que o problema das condições sociais de uma pessoa é problema dela individual e não devemos nos meter. Não! O problema das condições sociais de uma pessoa é um problema da sociedade como um todo, isso é o que dá sentido ao termo cidadão. Como dito, o texto é só um chute inicial na bola para que possamos construir as redes de elaboração de um plano mais efetivo e que nos capacite enquanto profissionais a atuar conjuntamente nesta causa que diretamente nos aflige.
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