artigo, Sem categoria

A greve dos entregadores aponta novos caminhos para as lutas trabalhistas em 2020

elaborado por Rodrigo Bertamé

Já tem algum tempo em que caminhamos pelos debates sobre como as formas de lutas sociais que permearam nossas gerações entre os anos 60 aos anos 80 não respondem bem aos anseios e as lutas emergentes que acontecem em 2020. No mundo tem sido comum demarcarmos o ciclo de crise de 2008 que culmina em manifestações globais anticapitalistas a partir desta data (tendo seu auge no Brasil em 2013) como uma virada significativa desta chave.

Antes de ampliar o debate me proponho a enfatizar uma parte da visão de mundo que comungo. Entendo que é parte do processo dialético de pensar as lutas compreender a construção materialista e a construção simbólica que complementam a realidade onde as mesmas estão inseridas. Não compreendo portanto que a concepção da sociedade seja apenas consequência das relações estruturais que a compõem, vejo mais como um complexo de relações onde inclusive o inesperado pode atuar e muitas das vezes atua.  Outro elemento importante que trago para referenciar é termos em mente o entrelaçamento de tempo e espaço e para este trarei um recorte de algo citado por Castoriadis, para quem o tempo pode ser visto como tempo de demarcação (o tempo medido e cronológico) e o tempo de singnificação. Um solstício por exemplo é tanto uma data em um calendário quanto um conjunto de símbolos, cultos, construções de uma determinada sociedade.

Tendo isso em mente retomemos.

Quero demarcar 3 grandes tempos de significação na história recente do Brasil, os anos 60, os anos 80/90 e a virada do milênio.

Os anos 60 vinham embebidos em lutas as mais diversas, o mundo caminhava polarizado após as grandes guerras, as revoluções soviéticas e maoístas traziam de terras distantes referências de lutas que se encamparam pela América Latina. A ditadura do proletariado, as lutas da internacional socialista dentre outras se tornariam rapidamente a pauta e inspiração de grande parte dos militantes mais progressistas da sociedade ao mesmo tempo em que ditaduras são implementadas para manter o poder já previamente constituído onde Geisel e Pinochet referenciavam a disputa da polarização.

O ano de 68 se torna paradigmático ao por na pauta a ruptura destas estruturas da polarização capitalismo-socialismo. O mundo novo que 68 apresentava não vinha pela saída das revoluções socialistas e também não aceitava a manutenção dos poderes constituídos como os que dominavam o Brasil. 68 trazia a liberdade individual como pauta e colocava no modelo que uma saída coletiva também poderia prever e considerar a singularidade, as massas não precisariam ser iguais pois todos somos diferentes. Entram no campo as lutas identitárias, as lutas pacifistas, a mudança por dentro, outras formas de ser de esquerda e de ser progressista.  No espaço brasileiro, há uma mudança também pelo viés da esquerda. Partidos e pensamentos mais vanguardistas que buscavam saídas pela luta armada, pelas revoluções proletárias e pautas similares começam a perder espaço no discurso hegemônico e a saída pelo mundo novo passa por um outro ciclo: a construção dos movimentos de bases nos tecidos sociais. entre eles podemos destacar, as ações progressistas nas igrejas, os movimentos de associações de moradores e os movimentos trabalhistas com uma nova proposta de lutas sindicais. O sindicalismo que se solidifica nos anos 80 é parte deste grande movimento de significações das lutas que vão abrir um tempo novo. Ali podemos dizer que finda o ciclo das ditaduras militares e se inicia um ciclo político constituído a partir deste novo tecido social que já espelha alguns pequenos resultados das lutas culturais de 68 enquanto se reforça a luta por um viés trabalhista que enfrenta a recessão econômica pós ditadura. Os anos áureos do sindicalismo como conhecemos, se consolida por esta época ainda embebido nas estruturas trabalhistas que vinham desde Getúlio Vargas operando.

Em 90 entramos em outro ciclo econômico: o avanço global dos sistemas informacionais, o modelo de telecomunicações que no Brasil é demarcado pela privatização do sistema, e com ela caminha a terceirização e formas de flexibilização do trabalho. A CLT continua a existir porém começa a se transformar em um rudimento, podemos dizer que por esta data conseguimos enxergar que a CLT terá prazo para ser extinta. Ainda assim, os modelos das lutas trabalhistas ainda postulam força a ponto de protagonizar no ano 2000 a presidência da nação. As mudanças estruturais que o universo das redes informacionais abriu esteve em disputa: sistemas de pirataria P2P, redes de comunicação com o mundo, redes de resistência, foram paulatinamente abalando sistemas já constituídos como a indústria fonográfica e a comunicação via rádio e TV.

Ao mesmo tempo, outras estruturas de controle se consolidaram. O mundo do algoritmo que explode em sistemas de captura de nossos gostos e afinidades e eleva a outra esfera o modelo de controle social nos impele a constituir novos instrumentos de luta. Em um recorte muito curto de tempo, a internet que caminhava por possibilidades libertárias se reduz ao cercado controlado de grandes corporações, muitas das vezes traduzidas na sigla GAFAM (Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft).

O sistema se torna extremamente fluido. O trabalhador, agora sem nenhuma legislação que garanta a sua proteção e sem um patrão de rosto definido é posto diante do desafio de buscar novas formas de organização. A greve geral proposta pelo movimento nacional de entregadores de aplicativos abre esta vertente e se torna paradigmática, quiçá um aprendizado para nossas lutas a dualidade patrão e empregado não tem a mesma conformação de antes. Já tem alguns anos que estamos falando de uberização da vida, onde reduzimos o modelo a precarização, como se a saída a partir do retorno ao tempo anterior ao Uber fosse possível.

A uberização da vida tenderá a nos levar a uberização das lutas, dizer isso exigirá de nós assumir o conceito para além da precarização que ele ocasiona. Precisamos entender a lógica dos processos, a dialética e as contradições que movimentam este sistema, e como funciona a engrenagem para que possamos construir uma saída dele.  Talvez os youtubers, kpop fans, influencers dos mais diversos tenham encontrado as táticas para que se opere as saídas, e talvez estas saídas dependem de formas de organização que já não dialogam tão bem com entidades organizadas de forma mais tradicional.

Entender como lutar no tempo, espaço e condições de possibilidades que se apresentam a nossa frente em 2020. O cyber espaço das décadas de 90 e início dos anos 2000 já não existem mais, tal qual o muro de Berlim, são novos muros que surgiram. Este espaço mudou e com ele mudaram as formas de lutar. A busca ao retorno impossível foi provavelmente um dos erros da Napster nos anos 2000 e um dos erros dos táxis nos anos 2010. As novas lutas precisarão caminhar pelas novas ferramentas e pelas novas espacialidades constituídas. 

De forma orgânica e individual muitos motoristas de aplicativos (não é o caso dos entregadores) usavam táticas de subversão. Aglomerar-se em um determinado local fazendo o sistema apontar outro lado como dinâmico pela escassez, usar sistemas pirada de georreferenciamento falso, e a própria rede de diálogo pelos grupos e whatsapp. 

Talvez a próxima etapa da organização passe por estruturas-rede, onde a centralidade do poder não estará na voz do falante, mas na capacidade das capturas dos dados produzidos na mesma onde as informações caminham pelos fluxos.

As lutas ocorrem no tempo e no espaço, e esta nova história e geografia que se traça está dado em um campo onde tempo e espaço se tornaram extremamente elásticos, podendo-se esticar e estar simultaneamente em muitos territórios e expressões. A uberização da vida é este mundo onde a exploração do trabalho se dá pelo acúmulo da credibilidade em uma marca X, onde o explorador são códigos de operação de um sistema e onde as formas de exploração e confiabilidade constroem a rede de credibilidade de forma global.

Há muito  em comum entre os Kpopers fans que esvaziaram um comício do Trump e os entregadores de aplicativos que vão parar no Brasil neste dia 1 de julho, ambos conseguiram encontrar um caminho, uma brecha através das redes, que potencializa nossa capacidade de organização e manifestação. Como organizar uma cyber-greve a partir dos trabalhadores precarizados? É o que os entregadores de aplicativos está produzindo. Com eles podemos aprender muito e eclodir manifestações que ocupem tanto os sólidos espaços geológicos e construídos da terra, quanto os espaços informacionais que nos exploram. Estamos no início destas lutas. 

 

 

Standard
artigo, Sem categoria

Os Subúrbios que os Subúrbios escondem – parte 1

Uma marca de poder sobre o recorte espacial suburbano está nos processos constantes de invisibilidade que o mesmo sofre e a luta constante de busca de identidade unificada que partem de seus invisíveis moradores. Porém estes processos também perpassam a relação interna do identitarismo suburbano.

Um trabalho bem interessante para debatermos sobre tal questão vem do Leandro Clímaco que estudou, pesquisou e publicou em 2017 a ascensão de um processo identitário de suburbano a partir de um movimento de imprensa constituído pela classe abastada suburbana entre 1900 e 1920. Sobre seu resultado farei um micro recorte para expandir uma problematização aqui: a imagem estereótipo de Subúrbio branco.

O trabalho de Climaco nos apresenta como os movimentos de pessoas mais nobres da sociedade carioca a época se utilizaram da mídia para, entre outras coisas construir a valorização de uma identidade suburbana. Esta porém escondia a diversidade da construção social, e entre elas considerava algumas bandeiras que até hoje nos são caras socialmente. Entre estas vou destacar a questão racial.

Em meios a uma sociedade que constituiria seu tecido a partir do tratamento do pobre e negro como “‘classes perigosas” (como cita Climaco) o grupo mais abastado que morava nestes territórios produziram uma imprensa que visava alertar para os riscos de não se investir em melhores condições para estes territórios cujo tecido social poderia entrar em colapso se abandonado fosse. Porém, mantinham a ambiguidade e o discurso das classes perigosas. Hoje este processo não é muito diferente das páginas de notícias de bairros que vivem basicamente de quatro pautas: compra-venda, achados e perdidos, cobrança de melhorias do poder público, denuncias dos perigos vindos das “classes perigosas”.

O desenho de unidade suburbana que Climaco expõe parece atravessar décadas e séculos deixando rastros e resquícios até nossos dias atuais. É comum vermos de forma massificada a imagem de suburbano sendo retratada de maneira jocosa: o personagem escandaloso, meio desajustado das normas sociais, sem etiqueta (mesmo que isso tudo sejam ferramentas de controle social). Vale lembrar que o padrão de Suburbs que escalaria a sociedade a partir da classe média americana fordista que se compõem pela família do comercial de margarina, Homem-Mulher-Filhos-Cachorro que terá uma casa um carro e eletrodomésticos.

Nossos subúrbios pro sua vez ficam no ambiguidade. Não são referenciados por estes padrões, mas também retratam e mantém no imaginário popular um recorte que esconde a maior parte de sua população: Os negros e pobres. Quando se assume pelo estereótipo que consiste na casinha neocolonial e na família portuguesa esconde de si mesmo o seu chão.

Foto Poder — Carlos Vergara

Nossa cultura, podemos citar por exemplo, a festa da Penha, o Samba, o Funk, o choro, a arte plástica, a literatura é permeada pelo protagonismo de nossa gente e nosso chão. Mas esta gente que entre 1900 e 1920 e até hoje será retratada como classe perigosa será embranquecida pelos processos de identitarismo ou será escondida por trás da branquitude S.A. que hegemoniza racialmente os espaços.

Manguinhos-Casas suburbanas fonte: CenaRios

Ainda hoje esse resquício de visão de mundo permanece no imaginário que molda a busca de uma identidade suburbana para muitos. Ficar preso neste processo é nefasto pois recorta as lutas que seriam as nossas. O embranquecimento do discurso suburbano alimenta brutalmente o racismo neste território. Não é incomum vermos relações de classe e renda nos bairros pobres da cidade e Região Metropolitana do Rio, onde inúmeros negros terão condições econômicas melhores que seus vizinhos brancos, ainda assim a pele deles refletirá a alcunha que demarca o Brasil — “A classe perigosa”.

Estas são muralhas territoriais que precisam ser rompidas. É praticamente impossível se pensar em lutas identitárias suburbanas sem traçar as contradições e os conflitos raciais que compõem este tecido social chamado Brasil. Classes Perigosas podem e devem ser lidas como: Aqueles que podem ameaçar diretamente um processo de controle e hegemonia destas tentativas de unidade identitária em torno de um projeto já estabelecido de poder, que no Brasil é classista e racista.

Meme retirado de: O Brasil que deu Certo

Recomendamos aqui o trabalho do Leandro Clímaco: Jornalismo como missão: Militância e Imprensa nos Subúrbios Cariocas: 1900–1920. link: <a class="cl di js jt ju jv" href="https://www.historia.uff.br/stricto/td/1952.pdf&quot; rel="noopener nofollow" style="-webkit-tap-highlight-color: transparent; background-image: url("data:image/svg+xml;utf8,\”); background-position: 0px calc(1em + 1px); background-repeat: repeat-x; background-size: 1px 1px; box-sizing: inherit; text-decoration-line: none;\” target=\”_blank\”>https://www.historia.uff.br/stricto/td/1952.pdf

Standard
artigo, pensamento, Sem categoria

Espaços Insurgentes

Mineápolis-Brasil pequena cartografia de suas lutas urbanas.

Já algum tempo compreendi que não devemos pensar apenas em uma vida pós pandemia, mas na vida dentro da pandemia. Enquanto o campo da arquitetura e urbanismo faz estudos e prospecções, ensaios teóricos e demais produções, a relação crua da sociedade se expõe.

Se no início da pandemia observávamos para exemplos vindos de territórios de controle, debatíamos táticas de isolamento espacial, saúde coletiva entre outros, hoje temos um cenário distinto que se apresenta. Há algo em comum entre Minnesota, Paraisópolis, Amazonas e Rio de Janeiro neste momento, assim como há um fio que conecta . As redes de poder e controle revelam de forma crua como a morte é um instrumento de controle do sistema. George Floyd e João Pedro são vítimas de um projeto de cidades e territórios onde se banaliza quem vai morrer.

Sobre o Brasil, este projeto racista pode ser visto em inúmeros exemplos, mas trarei especificamente os fatos recentes. Qual o argumento justifica as recentes mortes de jovens em favelas durante processos de entrega de cestas básicas? Nada que vá além da demonstração de poder e controle.

O plano Brasil de enfrentamento ao COVID foi de combate aos seus cidadãos mais segregados historicamente. Sem planejamento de tratamento, sem a distribuição da renda básica universal e como vimos na reunião ministerial, com uma proposta de partilha do espólio-brasil entre os seus o país foi entregue a própria sorte na luta pela vida.

Diante de tal projeto, o povo ousou tentar sobreviver, fortalecendo a historicidade das redes nós por nós de ajuda mútua. Não é preciso olhar pra copo de leite do tal Capeton pra falar em simbolismos de fascismos, os assassinatos em meio a doações já demonstram isso. Assim como os caminhos que fazem com que as pessoas tenham de escolher entre morrer de fome ou Corona.

Voltemos os olhos para Mineápolis e seus ensinamentos. Pensando neste momento sobre o urbano e a arquitetura, uma vida bastou para que a cidade se pusesse em chamas. Isso é revelador sobre o que importa na cidade: o cidadão. O povo de Minneapolis, em um ato de justiça e revolta, remodela as espacialidades da mesma como um documento que rasga o sistema urbano racista e traz o território de volta aos seus. Vale lembrar que o povo norte-americano também enfrenta o COVID de forma estranha devido as escolhas de seu presidente. Ainda assim, Minnesota neste momento não recua da incessante luta pelo direito a vida.

Mineápolis é o ponto de partida de uma nova cartografia insurgente que revela a forma social com a qual se constituiu as Américas. Este imenso território que exterminou e escravizou seus povos originários, e outros inúmeros povos através de um modelo racista de constituição de suas nações. O sistema racista que organiza estes territórios passa por esta máquina de captura de saberes, vivencias e trabalho, e quando não consegue mais capturar elimina.

Neste mesmo ano de 2020, antes da doença chegar ao Brasil, a Escola de Samba Acadêmicos da Rocinha apresentava estes versos na passarela do samba:

“Chora Maria! Que a água do oceano sabe o gosto da lágrima que escorre em seu rosto. E os santos que aportam no cais da Bahia protegem quem já foi mercadoria”

Maria Conga Unidos da Rocinha 2020

Nossas cidades são estas escrituras de espacialidades que consideravam a maior parte de seus usuários como mercadorias e não como cidadãos. Esta é a construção social que funda nossa produção urbana.

Uma crítica progressista que surge em meio a isso: o Brasil precisa aprender com Mineápolis. Este a meu ver é um pouco do misto de nosso senso de emergência e justiça com um olhar ainda romantizado de que estamos presos em uma lógica de cidadão cordial. Na real, há uma diferença importante a destacar, as forças de controle do estado no caso do Brasil atuam de “maneira enérgica”, termo que elas usam para explicar a opinião pública como passam por cima dos direitos humanos conquistados a duras penas para efetivar atos de controle social.

Quem não se lembra das operações no Complexo do Alemão por volta de 2010, 2011 (épocas de governo Cabral) que unificou polícia militar, civil, exército e todas as mídias? Quem não se lembra do Massacre de El Dorado, ou das rebeliões prisionais no Norte do país? Quantos João ou George estavam nestes locais. Os espaços brasileiros tem este recorte, onde a questão da mobilidade urbana cruza com transportes que podem ser parados e revistados em dias de verão a caminho da praia. Dois jovens em uma moto e demarcações indígenas são escalas de uma mesma agenda espacial e territorial. Se a espaço preto e ameríndio não pode ser remodelado, ele é condenado e criminalizado seja por ações como quebrar um terreiro ou matar na favela: seja de fome de falta dágua ou de tiro.

Complexo do Alemão 2010

Não obstante, o que chamamos de cordialidade do cidadão brasileiro possivelmente é hoje mais fruto do excesso de força implementada pelo sistema de controle do que propriamente passividade do cidadão. Soma-se a isso o fato de que muitas vezes invisibilizamos ou não nos sentimos responsáveis (enquanto sociedade civil) por mortes que envolvem o recorte territorial e racial.

Em meio as recentes cartografias insurgentes vejo por exemplo nascer no Brasil dois movimentos, o primeiro: a imensa rede de redes de ajuda mútua que caminham ainda que sejam atravessadas por estes assassinatos. Segundo: alguns levantes insurgentes de manifestação de rua antifascistas, ainda que expondo-se aos riscos da doença.

Nossa encruzilhada atual parece estar neste processo. Por um lado, o governo nacional demonstra todo interesse em caminhar para a ruptura democrática através da força militar. Por outro lado, o território brasileiro paulatinamente tenta se auto-organizar através das redes formadas entre seus vulneráveis. Em uma agenda de lutas que é local e também global. Isso torna Mineápolis mais próximo de nós do que imaginamos.

Há nestas redes um caráter plural e difuso, mil facetas atuando, buscando suas entradas e seus caminhos. Muito destas redes sempre aconteceram, porém agora tem ganhado visibilidade, outros elos de redes começam a se formar nestes movimentos de emergência. Em maioria porém, todas parecem apresentar uma tendencia comum: não aceitar a ruptura dos marcos democráticos pela força. Esta tendencia comum pode ser a saída da atual situação do país? quero crer que sim.

O Haiti é aqui, Mineápolis é aqui, Maria Conga na Rocinha é aqui. O espaço é forma e conteúdo (já dizia Milton Santos). Quando a forma não comporta, não liberta ou emancipa o conteúdo, o conteúdo pode e deve modificar a forma. Assim que edificações são demolidas, caem, perdem o sentido de ser. Mineápolis em chamas é o conteúdo remodelando a forma.

Mineápolis 2020
Standard
artigo, Sem categoria

Um das saídas da pandemia passa pelo espaço

O Lockdown e o isolamento espacial são o grande tema do debate. Hoje podemos considerar como uma das mais importantes ferramentas para tentarmos impedir que a cepa que causa o COVID19 tenha mobilidade através de seus vetores que somos nós, reduzindo assim a pandemia.

É possível que vivamos muito tempo com este vírus circulando por ae, sem vacina ou profilaxia eficiente, estamos pensando em vida pós-pandemia porque prevemos um futuro pós-pandemico, mas esse futuro não é tão previsível quanto parece.
Neste sentido, cabe a quem trabalha com o espaço, lugar e território uma dura missão: cosntruir um plano de isolamento da cepa. Assim como foi com a MERS ou outras SARS que hoje se encontram retidas em alguns locais do planeta.
Infelizmente, movido por uma série de ajustes desajustados do governo federal do Brasil, caminhamos para ser um dos territórios do planeta que concentrará esta doença. Sim, esta é uma realidade que está diante de nós e que devemos enfrentar sabendo que pode ser algo de médio e longo prazo.
A notícia recente de que a FIOCRUZ tem conseguido aumentar significativamente a produção de testes pode ser um grande alento, pode nos permitir trabalhar dentro de um raciocínio de prevenção a partir dos testados como fez a Coreia do Sul. Nossa dificuldade porém está em confrontarmos esta realidade com o tamanho do território nacional e suas muitas relações discrepantes, desigualdade social, disputas, lutas urbanas e rurais, fronteiras e relações continentais e somar a isso a luta anti-científica do governo federal.
Podemos não conseguir encontrar a cura ou erradicar a COVID, mas podemos reduzir seu círculo de transmissibilidade a poucos espaços. Talvez concentrá-la em uma cidade, estado ou região, o que desafogaria o sistema global na luta contra a mesma. Por isso as políticas de isolamento espacial são tão importantes neste momento.

Standard
artigo, Sem categoria

Um pouco o que podemos construir para fugir de caminhos higienistas


O Brasil pós pandemia pode encontrar parte de sua saída econômica pela construção civil, isso é um padrão razoavelmente comum no país.

A construção civil brasileira é capaz de absorver uma diversidade de mãos de obra através de seus canteiros. E sobre isso me faz pensar ao menos em duas questões (que são meio corporativas e meio reformistas entendo, mas são questões a se pensar rs).

QUESTÃO 1 – OBRAS – 1 DE 1000 OU 1000 DE 1

Muitas experiencias mostram que movimentos como este geram mega obras, pois estas a gente consegue repactuar grandes empreiteiros, massa trabalhadora, movimenta vários nichos da economia e da gleba. É um modelo comum de construção de cidades e territórios diversos. Porém penso em outro protótipo, não é uma ideia nova e não é uma ideia que nasce do zero.

Por exemplo observei em um atelie da FAU-UFRJ com a professora Paula Albernaz e Diego Portas (creio que podem mostrar melhor) este raciocínio em que ao invés de investirmos 1000 em um único empreendimento, podemos pensar em mil empreendimentos de custo um.

Tal ação pode produzir coisas bem interessantes, mil canteiros espalhados, mil arquitetos diferentes atuando sobre estes canteiros em verbas que podem ser pulverizadas pela cidade girando os circuitos de economia local.

Este padrão pode funcionar bem para ATHIS, mas pode extrapolar este campo e capilarizar por todas as cidades. Um exemplo de sucesso em torno disso se dá com os coletivos de arborização de bairros como Vista Alegre + Verde ou o Plantar Paquetá

QUESTÃO 2 – RETOMADA DO ARQUITETO DE CANTEIRO e A ARQUITETURA POSSÍVEL

O fomento a obras de pequeno e médio porte também passam pelo fomento do trabalho do arquiteto atuante no canteiro, atuando em todas as fases da obra. Para a maioria das pessoas o projeto sem a obra construída é um problema, o brasileiro tem a cultura da construção e podemos fomentá-la e potencializá-la sendo parte destes processos.

Um exemplo interessante vem de outra instituição, a arquitetura da unisuam que conheci com os professores Gustavo Jucá Andrea Souza Cruz e Núbia Nemezio onde o incentivo vem do entendimento da intervenção no território de forma menos excludente e com um conjunto de projetos, soluções, estética e linguagem arquitetônicas que caibam em um mundo possível. A arquitetura não se prenda só no seu status de elemento de exclusividade. É totalmente diferente para um estudante projetar seu hotel em um hipotético endereço na Barra da Tijuca ou projetar seu hotel em um hipotético endereço dentro do Mandela (em Manguinhos).

Em ambas as situações (questão 1 e 2) poderíamos criar bancos solidários, linhas de fomento, editais, linhas de crédito e mil caminhos (que no Brasil parecem mais abertos a grandes empreiteiros) de forma a favorecer e fomentar os pequenos e médios empreiteiros e arquitetos construtores.

SOBRE GRANDES OBRAS.

É possível que tenhamos força política para pautar um dos principais buracos desvelados nesta crise, a questão sanitária. Para tal, os arquitetos precisam primeiro se ocupar de parte desta pauta, e entender como funcionará nosso encontro com os agentes de saúde coletiva e de sanitarismo

Creio ser difícil colocar o saneamento na proposta dos 1000 DE 1, pela condição estruturante e universal. Porém os arquitetos por sua vez poderiam se posicionar dentro de comissões e comités de bairro com a responsabilidade técnica de averiguar e auxiliar na consolidação das redes, seja por projeto, acompanhando obra, articulação política ou simplesmente denúncias.de forma que participemos tanto da construção coletiva dos planos até a execução dos mesmos, entendendo que pelo caráter estruturante estes tem que ser pensados enquanto um programa político mais amplo, porém necessário.

Para todas as propostas poderíamos criar um observatório dos bairros. instancias de gestão entre o poder público e a sociedade civil que mantivesse continuamente monitorado as relações comuns mais necessárias ao bem estar urbano como arborização, áreas livres, etc.

Em todos estes passos retomar a cultura da presença efetiva do arquiteto no canteiro de obras é um elemento fundamental, e com isso retomar o sentido de arquitetura ser obra construída.

O mais legal é que as experiencias que citei de leve aqui fui aprender com estes professores depois de burro velho e formado, em meio a dias de visita nas instituições, A gente sempre aprende algo e as universidades nunca param de produzir conhecimento.
Standard
artigo, Sem categoria

Redes de trabalho vivo dinamizam as lutas pela saúde coletiva nas cidades

#coronanasfavelas Maré Vive


É por certo que as cidades vão mudar. Muito provavelmente a vida pós pandemia nos trará novos hábitos. Isso é tão possível quanto todas as incertezas que isso significa. 


Há mudanças significativas acontecendo e que podem impactar em novo paradigma nas formas de trabalho. Se até pouco tempo atrás a lógica corporativa dominava as mentes no que se refere a trabalho: seja um profissional x ou y, hoje o que vemos são múltiplos fazeres em torno de uma luta comum. 

As disputas anteriores discursavam entre o profissional de certa categoria que representa um todo (ex: arquiteto que sozinho resolve todos os problemas da cidade), ou a flexibilidade e diluição (ex: arquiteto que vira motorista de uber). Creio que o que estamos vivendo está em outra via, onde o saber deste não está acima ou subjugado, mas sim integrado a diversos outros saberes. O trabalho coletivo, integrado e em sistema é o modelo que estamos experimentando neste momento. 

Não são os médicos enquanto categoria única, mas a sociedade como um todo que está unificando as pontas do sistema de saúde coletiva. Não está no hospital o tratamento contra o COVID-19, mas nas estratégias de usos e vivencias da cidade integrada às questões de sociabilidade e sanitarismo. Estas mesmas cidades também não estão sendo projetadas ou planejadas por urbanistas apenas, mas pela diversidade de ações de seus moradores. 

O sentido da categoria profissional como a mente de saber solucionadora por si só não tem mais a hegemonia. O que vemos operar é um conjunto de inteligencias coletivas, nas quais essas categorias inclusive fazem parte. Tanto os médicos que estão no front das UTIs aos Garis que estão no front de sanitização do espaço urbano, estamos todos reconstruindo nossas formas de atuar viver e se integrar. 
É notório que as cidades que apresentam os melhores resultados são as que tem operado de forma mais coletiva e integrada socialmente. Nova Zelândia por exemplo, agiu de forma sistêmica, com seu fechamento de aeroportos, testagem e isolamento de casos suspeitos e o forte isolamento social com base na conscientização da população que se sente parte da solução. Coreia do Sul focou na testagem em massa e rastreamento de assintomáticos, em inúmeros países (como é o caso do Brasil) optou-se pelo isolamento social na busca de conter os avanços da teia de disseminação virótica. Alemanha focou na rastreabilidade máxima dos casos, testagem em massa, isolamento e reforço financeiro no sistema econômico do país. China atuou com forte controle social para garantir o isolamento. 

No Brasil o trabalho se torna mais duro, mas pode ser um exemplo da ação em redes. A incapacidade da liderança central (seu presidente) centralizar as decisões é nossa melhor salvaguarda a tragédia completa. Além disso, temos um Sistema Integrado de Saúde que consegue pensar de forma nacional e local, associando uma série de elementos que vão da construção de hospitais de campanha até renda mínima aos mais vulneráveis. A saúde coletiva integra o micro e o macro, e todo cidadão se torna um agente público de saúde. Em Niterói, por exemplo temos desde políticas de testagem em massa até políticas de renda voltada para artistas independentes que se apresentam em redes sociais.

mapa solidário produzido por arquitetos cariocas.

O isolamento é praticamente o consenso do mundo. Ele fez nascer esta outra forma de vivenciarmos nossos lugares. Se como dizia Le Goff sobre a cidade dos tempos de São Francisco — a palavra urbana estava nas praças — hoje a palavra urbana parece estar nas redes.


Concomitante às estratégias mais estruturadas dos governos, o povo que está em isolamento também se organizou em torno de um circuito de redes. Conectados às pontas da saúde, vemos uma série de ações integradas e multidisciplinares que vão desde a conscientização, ajuda mútua, costuras, artes, denúncias, cartografias populares, monitoramento, entre outros. 

cartaz de grupos de apoio aos subúrbios do RJ
Podemos ver por exemplo:
  • redes de advogados,
  • redes de médicos,
  • redes de psicólogos,
  • redes de arquitetos e urbanistas,
  • redes de moradores de favelas, comunidades, vilas,
  • redes de ONGs e ativismos,
  • redes de artistas e artesãos,
  • redes de cozinheiros,
  • redes de compra e venda de comércios de bairro como forma de manter a economia popular ativa,
  • redes religiosas de ajuda mútua.

No recorte Rio de Janeiro, ainda podemos ver:

  • Escolas de Samba costurando EPIs e máscaras,
  • Brigadas populares de limpeza acontecendo no Santa Marta,
  • Brigadas populares de auxílio para levar água a quem não tem acesso a água,
  • Artistas independentes e famosos fazendo apresentações via internet criando espaços de sociabilidade,
  • lonas culturais e outros equipamentos de cultura funcionando como pontos de apoio e amparo social,
  • redes de pesquisadores trabalhando para produzir equipamentos de respiração mecânica de patente livre,
  • redes de urbanistas criando cartografias que permitem encontrar quem quer doar e quem precisa receber a doação, 
  • redes de franciscanos que promovem alimentação a população que não tem o que comer.

As redes tendem a surgir em tempos de emergência. São uma forma de organização social eficiente para estes momentos. Alinham por si mesmas, de maneira orgânica, a capacidade de agir com velocidade e gerencia colaborativa sobre diversos elos da pandemia. Atuam enquanto instrumentos de trabalho vivo direcionados a pauta comum, que hoje nos é universal: lutar pra sobreviver a pandemia.

Movimento Muda Beaga

É plausível crer que as narrativas corporativas do trabalho tradicional não conseguirão suplantar o trabalho coletivo, sistêmico e integrado (mesmo que seja trabalho realizado por redes de automação e algoritmos) e constituirão lá na frente outros campos da contradição  para se disputar. \”Trabalhe enquanto eles dormem, ou Trabalhem pois é só uma gripezinha\” são discursos de campos antigos que acabam por reduzir a vida a esta lógica corporativa do trabalho individual como forma de crescimento pessoal. Esta narrativa não terá efetividade neste momento para além de nos levar a tragédia.


O que estamos experimentando neste recorte, escala e momento é o trabalho cooperativo e internacionalizado. Nos movimentamos com base em informação e na dinâmica de trocas constantes onde autoria, patente, protagonismo estão em segundo plano. Assim, as redes caminham fortes rumo a se firmarem como paradigma. Sejam redes de dados e algoritmos para controle social com a consolidação de instrumentos de big data que propiciem quase uma automação de decisões sobre o urbano, sejam redes de diálogos em trabalhos, sejam redes de resistência e lutas anti-segregação, ou redes comunitárias de colaboração. Talvez estejamos caminhando para um ponto complexo onde a automação das decisões sobre a cidade se confrontem com a realidade dos muitos segregados dentro dela.


As novas lutas pelo trabalho talvez tenham que se deslocar do campo corporativo e caminhar para as lutas em defesa do trabalho vivo e mais amplo. Por exemplo, sindicatos lutando menos por uma visão de um grupo específico e mais pela visão do todo da produção e segregação. As pautas se tornarão cada vez menos a proteção a uma categoria e cada vez mais a proteção coletiva  dos sem trabalho, dos sem emprego e sem renda, cada vez mais a luta por novas formas de vida do que por empregos ou empregabilidades. 


Se esta forma de organização que começa a ganhar a produção das cidades em meio a crise sanitária se tornará um padrão, não temos como saber. Ainda é muito cedo para produzir algo assertivo a respeito da pós-pandemia, mas podemos dizer que um modelo de auto-organização produz resultados importantes de vivencias sociais e que estas devem ser consideradas em processos de emancipação das decisões políticas.

croqui sistematizando redes (autoria própria).

Standard
artigo, Sem categoria

Vamos garantir o isolamento em todas as cidades, pois ele funciona

Vamos garantir o isolamento em todas as cidades, pois ele funciona.
Primeiro, vale sacar o que é a curva exponencial:
(este exemplo não é a curva do brasil da foto)
Se a cada uma hora 1 elemento virar 2, teremos com dois elementos:
hora 1 = 2-4
hora 2 = 4-8
hora 3 = 8-16
hora 4 = 16-32 – 4 horas depois temos mais de 30.
hora 5 =32- 64
hora 6 =64-128
hora 7 =128-256 – + 3 horas depois temos mais de 250.
hora 8 =256-512
hora 9 =512-1024 – +2 horas depois passa dos 1000.
hora 10 =1024-2048
hora 11 =2048 – 4096
hora 12 =4096 – 8192
hora 13 =8192-16384 – +4 hs depois passa dos 15 mil.
hora 14 =16384- 32768
hora 15 =32768 – 65536
hora 16 =65536 – 131072 +3hs depois passa dos 100 mil.
hora 17 =131072 – 262144
hora 18 =262144 – 524288 +2hs depois passa dos 500mil.
hora 19 =524288 – 1048576 +1h depois passa dos 1 milhão.
hora 20 =1048576 – 2097152
hora 21 =2097152 – 4194304
hora 22 =4194304 – 8388608
hora 23 =8388608 – 16777216
hora 24 =16777216 – 33554432 +5h depois passa dos 30 milhões.
No fim de um dia 2 elementos virarão 33.554.432. trinta e três milhões quinhentos e cinquenta e quatro mil quatrocentos e trinta e dois elementos. Esse é um exemplo de como funciona o crescimento exponencial. É por isso que num dado momento onde você é um em um milhão os casos afetados são só números e em outro momento eles viram um vizinho, um conhecido, um familiar…
No gráfico abaixo estão os casos reais destas dobras no Brasil. É possível perceber com clareza como o intervalo entre a dobra da quantidade de infectados ficou mais espaçado, a partir principalmente do tempo de isolamento social. Se antes a dobra tinha começado a subir de dois em dois dias, a partir do isolamento começou a ocorrer entre quatro e cinco dias de diferença.
Esse espaçamento é o que está segurando o Brasil de virar um caos completo e é ele que precisamos garantir e ampliar.

Não é porque a curva aumentou que as políticas de isolamento devam ser amenizadas ou afrouxadas, e não é porque tá na cabeça do povo que a doença \”não pegou no Brasil\” que a gente deva afrouxar.
O Brasil já está com bastante casos. Já vemos nas cidades maiores os números virarem nomes de conhecidos e familiares. Quanto mais a gente segurar o isolamento maiores as garantias de passarmos pela crise com menos impactos dos mais diversos.
Enquanto o presidente está igual um vendedor de cruz da natividade vendendo sua cloroquina de nióbio, algumas cidades estão trazendo boas práticas como Niterói por exemplo. E este parágrafo não é pra fazer politicagem – Nesta hora devemos sinceramente cagar pra brigas entre dorianos, maianos, bolsominios e lulominions e centrar no que importa. Primeiro porque ninguém desses ou outros vai se capitalizar politicamente e de forma personalista com isso (seria crachá de oportunismo estampado na testa), e segundo porque esses caras cagaram no pau da saúde coletiva e saneamento esse tempo praticamente todo, e talvez a única diferença é que o presidente é nazi e sua posição, diferente da dos demais que são seres humanos, é de que as pessoas podem morrer em massa (como auschwitz e holodomor) em nome dos seus comparsas da necropolítica.
Retomando:
O isolamento é fundamental pois nos dá tempo para enfrentar a crise que a pandemia nos colocou. Ele garantirá maiores sucessos.
Esse tempo é precioso para, por exemplo:
– construção de hospitais de campanha.
– levantamento de quem pode ser relocado em quarentena para locais mais salubres com os quartos de hotéis
– comprar e produzir mais testes
– produzir mascaras de proteção
– ensinar a usar (colocar e retirar as máscaras) se não num adianta nada.
– ensinar a descartar as mesmas.
O discurso de afrouxar o isolamento em cidades médias é ruim. Primeiro porque em geral no Brasil, inúmeras destas cidades não tem hospital capaz de sustentar casos de covid (mesmo que poucos casos), segundo porque cria a falsa impressão de que podemos afrouxar todos as cidades, afinal o que é exatamente afrouxar um caso.
Bérgamo na Itália, tinha 120 mil habitantes, um número próximo de São Pedro da Aldeia no Rio de Janeiro e a cidade não conseguiu cremar seus mortos. É importante mostrar estes parâmetros, e mandar a real, sem teste em massa dificilmente isso será afrouxado.
Isso são só exemplos rápidos de um pouco do que precisamos neste momento. Para garantir passarmos com menos danos possíveis, precisamos de tempo e para ganhar tempo precisamos manter o isolamento como boa prática sanitária para não vermos o caos reinar no país.
Vale perceber que o isolamento físico não significa o isolamento social. Juntem-se em redes, formem elos, construam pontes de comunicação e solidariedade, nestas horas as vezes uma mensagem de bom dia para um morador de um local vulnerável já ajuda muito. Fortaleçam os laços horizontais da sociedade, unindo todas as pontas da saúde, da coletividade e da vida.
Standard
artigo, Sem categoria

7 de abril dia da Saúde – Cidades Segregadas: tivemos copa e não temos saneamento

Teleférico Morro da Providência – Rio de Janeiro RJ (hoje está parado).

Hoje, dia 7 de abril comemora-se o dia mundial da saúde. Enfrentamos neste dia nosso maior desafio em muitos séculos, o combate a um vírus super transmissível e que é fatal. Em meio a crise global, outra nacional nos assola. O distanciamento social que temos que manter mediante isolamento é transpassado pelo distanciamento econômico que a segregação urbana nos permitiu.


Se a cerca de um século atrás, a gripe espanhola nos afligiu de forma semelhante, criando laços e reformulando as pautas de construção de cidades, o Brasil pós-pandemia poderá sofrer pelo mesmo caminho. Porém, antes de chegarmos no Brasil pós-pandêmico temos que chegar no Brasil vivo hoje dentro da pandemia é resultante não apenas dos processos de inicio do século passado de segregação, mas das políticas contínuas desta segregação.

Podemos enquanto urbanistas arquitetos comemorar algumas vitórias recentes (não tão recente mais) como o Ministério das Cidades e o Estatuto das Cidades, ou a lei de Assistência Técnica de Habitação de Interesse Social, mas devemos pesar que cidades e que espaços são estes que foram produzidos a partir deste ponto.

O Brasil Olímpico e da Copa das Copas retrata modus operandi dos processos de projeto e implementação de urban design mundo a fora. Operam deixando pautas progressistas e democráticas entrincheiradas em certos espaços de respiro, certas quantidades de editais e coisas do gênero enquanto pautas hegemônicas do tradicional veio aberto seguem pelos sistemas de sempre. Se um MCMV Entidades nos obriga a um apuro e afinco gasto de energia com regras onde entidades tem que batalhar para conseguir um mínimo, um MCMV da Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, MRV Engenharia conseguiam e conseguem firmes e fortes contratos massivos para fazer barragens, rodovias, e MCMV em verdadeiras não cidades sem que pareçam obrigados a apresentar a sociedade os resultados concretos disso. A cara do Brasil faz parecer que é mais fácil conseguir dinheiro no BNDES do que empréstimo no cartão C&A.

Por exemplo, coube a Odebrecht, OAS e Delta a construção do teleférico no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro olímpico. Hoje o dia mundial da Saúde anunciou dois falecidos por covid-19 no Complexo, que tem seu teleférico parado e continua sem saneamento. O Alemão, que fica no Rio de Janeiro, cidade do Porto Maravilha, que assim como em Porto Madeiro em Buenos Aires ostenta um ícone arquitetônico como marco capital deste modelo de cidade.

MCMV em Mata do Cacau – ES.

Podemos e devemos citar outros casos recentes como o Cais Estelita Demolido e reprogramado pelo Consórcio Novo Recife, formado por Ara Empreendimentos, GL Empreendimentos, Moura Dubeux Eng. e Queiroz Galvão, ou também Belo Monte, talvez a maior obra deste setor político-construtivo envolvendo a robustez de grandes construtoras. 

Fazer cidades, no seu sentido material é um grande negócio e estruturante de país.

O Brasil vê na construção civil a capacidade de movimentar uma economia de massa graças a canteiros de obras onde a segregação social se mantém mas permite o mínimo de capital de giro na sociedade (pense no salário do servente, do serralheiro, do carpinteiro, etc) e de movimentar grandes estruturas econômicas que mantém constantemente ativas pelo lobby. Somado a isso constroem cidades a partir de plugs de tecnologias e produtos que caem de forma invertida no território. Fica a questão, foi o Complexo do Alemão que pediu um teleférico ou foi o teleférico que precisaria ser instalado em algum lugar para sair bonito na foto do Rio Olímpico? E o que sobra aos ativistas, se não as migalhas? 

São Migalhas como aplaudir o espaço identitário que restou ao Porto Maravilha de retratar o índio em grafite enquanto Belo Monte se transformou em um operativo financeiro de quem verdadeiramente construiu o Brasil. São migalhas como disputar os pouquíssimos editais de entidades que transformam-se em verdadeiras máquinas de captura de movimentos e de divisão entre pobres enquanto os mesmos morrem de fome. Aos pobres a migalha e a fome, e agora a doença. 

Parece bem propício ao Brasil pós-pandêmico operar economicamente o setor da construção civil com o discurso de uma nova forma de pensar as cidades, pois como já dito, a construção civil move massas da economia. Esta nova forma por sua vez, não poderá vir com os vícios das formas velhas, venham de que lado vierem, assim como o discurso participativo de construção de cidades não terão efetividade se vierem viciados em instrumentos já previamente capturados.

O enfrentamento da cidade segregada passará pelas encruzilhadas da sociedade como um todo, precisará considerar e consolidar as vozes mais diversas e não apenas as organizadas de que forma estejam. O primeiro passo para enfrentar a situação é admitir que construímos cidades segregadas, e que mesmo alguns poderes que se ventem como progressistas construíram cidades segregadas. A segregação espacial dos pobres é o paradigma de manutenção do sistema e destas formas de cidades.

A partir deste ponto, precisamos demolir da pauta o sistema lobista de construção de cidades, buscar melhores relações de usos de seus espaços, produzir educação de cidadania e integração de relações e redes de sociabilidade. O trabalho na escala orgânica da vizinhança é mais que narrativa, ele ocorre no dia a dia, cade a nós dar ouvidos a este trabalho, explodir para fora de nossas bolhas, partidárias, aparelhos e ações grupescas ou categorizantes e ouvir do outro cidadão comum.

Outro ponto, é importante emancipar o cidadão, seja pela saúde,  pelo conhecimento, pelo direito à cidade entre outros e deixemos que o cidadão construa seus caminhos, inclusive de organização da vida e de sua espacialidade. Primeiro precisamos universalizar e emancipar o saber e a saúde, para só depois começarmos a ver como as formas de organização e sociabilidade funcionam, Provavelmente nenhuma associação de moradores, grupo de minoria, coletivo cultural, partido político vai ter mais velocidade e capilaridade que o discurso de uma vizinha faladeira.

O Brasil de hoje é em muito a cara disso: Por um lado movimentos organizados aplaudem o grafite como resistência enquanto as Odebrechts da vida construíam Belo Monte e Portos Maravilhas de braços dados com quem quer que seja.Por outro lado o fascismo foi capturando a indignação dos mais pobres que não conseguiam lavar as mãos com teleférico e nem se alimentar com tinta de grafite. 

As maiores derrotas na concepção de cidades ficam estampadas em algumas pautas. Quando perguntamos que cidade queremos, ou quando levantamos bandeiras do tipo: A cidade é para as pessoas. Fora o pior de todos, as soluções mágicas tipo Rasputin: teleféricos e VLTs que saem da cartola. Estamos assumindo o quão distante ficamos desse debate e da construção emancipatória das cidades e o como ainda estamos presos na visão de mundo de que há um modelo ideal de cidade a ser alcançado. As cidades que traçamos estão sempre o campo do Amanhã, quase aptas a serem artefatos do Museu do Calatrava. Não estamos na caverna de Platão, estamos na cidade real e ela é segregada, abandonada e usurpada por inúmeras esferas de poder, muitas das vezes com nossa ajuda inocente ou não.

Onde está a saúde coletiva nestas cidades construídas? 
É exatamente isso, esquecemos.



Porto Madero – Buenos Aires – Grafite retrata luta identitária feminista e ponte da mulher (obra de Calatrava).
Porto Maravilha – Rio de Janeiro – Grafite retrata povos originários e minorias étnicas, no Porto encontra-se o Museu do Amanhã obra de Calatrava.

Novo Recife – Recife – Proposta para uso do espaço do Cais Estelita 

Standard
artigo, Sem categoria

Não se faz copa com hospitais

É isso que temos a dizer. Antes de mais nada é preciso que todos nós tenhamos a plena compreensão do que estamos vivendo. A história do mundo é rasgada de tempos em tempos por um movimento pandêmico.
Optei por não ler filósofos neste momento, não me senti a vontade (neste texto) em teorizar sobre um vírus (cuja formação é mais simples que uma molécula) produzindo nele isomorfismo ou múltiplas teorias sociológicas. Se tem algo que concordo com Lula nesta hora é sua frase: “primeiro vamos salvar as vidas depois a economia”, que aponta ser a principio a postura de Mandetta, e WW sobre essa situação. Preferi me ater de leve a dados duros, e ao campo que importa, a saúde coletiva e o urbanismo.
Talvez, desde a gripe espanhola não tenhamos vivido algo deste nível. Por sorte agora, temos mais sincronicidade de informações. Vivemos o fruto do desleixo, nos últimos 100 anos não construímos soluções para resolver a equidade social, ao contrário, utilizamos toda a pauta gerada nas pós-pandemias para emplacar modelos de segregação urbana.
Porém, se nestes anos não fizemos, em anos recentes também nada foi resolvido. Hoje estamos aplaudindo nomes espúrios da política pois vivemos um combate transversal, a luta entre a ciencia e o obscurantismo, entre os que compreenderam que tem que ouvir a voz da OMS, da FIOCRUZ, dos PESQUISADORES SEM BOLSA no lugar da insanidade de um energumeno que por azar do destino está na presidência. Porém falamos de gente hoje que até ontem estava batendo palmas com este presidente, e que até ontem estava pouco se lixando para resolver o problema de segregação. Se hoje há foco de alguns destes, é porque vírus não pensa, não escolhe por etnia, gênero, classe, o vírus voa e chega lá tanto em mim quanto nos que menos tem e até neles varre do morador de rua ao dono do Santander. Coitados dos que tentarem se capitalizar politicamente com isso, coitados dos que não enxergarem a necessidade humanitária que estamos vivendo.
Se há alguém que tem lutado com valor esta luta no Brasil é o SUS. Sempre escorraçado pela opinião pública (leia todas as mídias) e sempre sucateado por todos estes governos. 100 anos amigos, uns quase 500 que não temos saneamento direito, e nos últimos anos continuamos a míngua. Vivemos uma década de luxo, ao que parecia, tivemos Copa do Mundo, Olimpíadas mil investimentos eles diziam. Fizemos teleféricos e não levamos água e esgoto, hoje não temos nem teleférico e nem água e esgoto, hoje temos roda gigante, mas provavelmente é porque não se faz Roda gigante com hospitais.
Muitos tentam entender como os de hoje entraram onde entraram, mas a resposta está em todos os de trás. Em um dado momento não era simples de entender como aqueles que juraram fazer por nós, no Rio de Janeiro pelo menos, escolheram Copa do Mundo ao invés de hospitais. Assim como o teleférico, não temos mais aquele velho e belo Maracanã do povo e nem hospitais, só roda gigante.
No país onde roda gigante é prioridade, quem está fazendo a roda de verdade girar para enfrentar o COVID-19 é o SUS e toda a sua base de profissionais atuantes!
Ao menos fico feliz que tenhamos pesquisadores sem bolsa, médicos e enfermeiros com salários defasados, e inúmeros profissionais que antes de mais nada tem humanidade. Pois são eles que estão pautando os acertos que podem nos salvar. São eles que estão dando os instrumentos políticos para os políticos tradicionais tentarem resolver no desespero. O SUS é robusto para enfrentar a pandemia! isso é frase vinda do próprio governo, e tem verdade nesta frase. Verdade que o grande lobby da saúde privada não quer e nunca quis que fosse ouvida.
WW, Maias, Dórias, Mandettas e cia estão sendo coerentes em não se entregar ao obscurantismo tacanho do presidente, mas serão pequenos ao tentar capturar politicamente. O preço do sucateamento do SUS também passa pela conta deles e infelizmente (para nós) este preço está sendo cobrado agora e tudo indica que será alto.
Standard