A Palestina é a fronteira ética do nosso tempo, mas também um labirinto para o pensamento de esquerda. Um dos erros mais comuns da política são as simplificações: quando o inimigo do meu inimigo vira meu amigo, o povo cai no esquecimento da pauta. Em nome da causa palestina, parte da esquerda global aceita, com silêncio, o autoritarismo do regime iraniano, como se a teocracia fosse elemento aceitável de resistência ao imperialismo ocidental. Essa visão transforma geopolítica em desculpa conveniente para acalmar o campo que não precisa lidar com a complexidade, ainda que deixe povos reais solitários em sua luta por liberdade e justiça social.
A pauta é uma: libertação não deve ser seletiva. Não existe solidariedade consistente com Gaza se ela nos exige fechar os olhos para prisões, torturas, censura e assassinatos ocorridos no Irã. A mesma ética que denuncia genocídio, apartheid, ocupação e massacre, principalmente desde 7 de outubro de 2023, precisa reconhecer que a República Islâmica também governa por coerção, medo e captura da cultura e do cotidiano. O inimigo do meu inimigo não vira automaticamente aliado. Vira apenas outro poder que deve ser questionado.
Aqui nos cabe recusar o “campismo”, essa tentação de escolher um bloco, tratá-lo como único e absolver tudo o que ele faz. Nessa linha, comecemos por um princípio básico: apoio às revoltas populares contra a brutalidade teocrática, sem aceitar sequestro por intervenções externas. Evitando assim a fraude da falsa simetria. Por que chamar a repressão iraniana de ordem por acreditar que ela combate o imperialismo trumpista? A esquerda não pode trocar o povo pela geopolítica. Assim como não podemos negligenciar a dor iraniana como pretexto para guerra e mudança de regime a serviço de interesses alheios.
O gesto mais potente vem de baixo. Ele aparece quando feministas e trabalhadoras iranianas transformam “Jin, Jiyan, Azadî” (Mulher, Vida, Liberdade) numa linguagem de mundo, principalmente a partir do levante de 2022. Ou quando sindicatos e organizações independentes enfrentam a polícia moral da sharia ao mesmo tempo em que se posicionam contra a guerra e contra o genocídio em Gaza. Essa linguagem toca verdadeiramente a luta palestina. Enquanto o conservadorismo comenta na TV pedindo e naturalizando a volta da monarquia iraniana como elemento de transição política, caberia à esquerda uma construção radical de solidariedade real, transversal: a liberdade do corpo em Teerã e a liberdade do corpo em Gaza pertencem ao mesmo campo ético de liberdade.
Quando essa ponte se constrói, ela deixa explícito o que o regime tenta esconder: o Estado iraniano não é a Palestina, na verdade ele é muito mais próximo de um Sionismo de moeda inversa do que supõe nossa liturgia. Assim como a Palestina não precisa da tutela de uma teocracia. E esse talvez tenha sido o maior temor de muitos poderes que envolvem as disputas do Oriente Médio a época de Arafat: o Fatah não defendia uma teocracia a priori, mas um Estado palestino laico.
Sobre o sindicalismo independente iraniano: em declarações recentes (por exemplo, ao longo de 2025), organizações de trabalhadores condenam o genocídio em Gaza e pedem o fim do armamento a Israel, ao mesmo tempo em que rejeitam guerra contra o Irã e denunciam o próprio regime. Isso desmonta o discurso que reduz a região a “governos falando com governos”. Existe, no meio disso, povo falando com povo, costurando redes de luta, resistência e sobrevivência que caminha no underground. Essa política que nasce na rua e não nos palácios é a que nos cabe dialogar, ajudar a construir e visibilizar.
Na diáspora, muita gente confunde “ser contra Israel” com “ser a favor do regime que diz ser contra Israel”. A militância vira pombo correio que defende um Estado que persegue mulheres por um fio de cabelo e prende estudantes por uma frase. Do outro lado, a direita ocidental usa a denúncia dos abusos morais do regime para justificar bombas e sanções que esmagam os pobres. Enquanto a propaganda dos poderes destrói o direito do povo à vida, não construímos pauta nem coletividade concreta para criar uma contra-proposta com pautas concretas e contemporâneas a tudo.
Devemos olhar para a política na escala miúda e multifacetada: solidariedade autônoma, quando pessoas no Irã se reúnem “pela Palestina” fora dos roteiros oficiais. Organizar as lutas através da ética cotidiana: cuidado e proteção mútua. É nessa escala que a esquerda pode apoiar Gaza sem servir de biombo para a teocracia do Teerã, e enfrentar a Teocracia de Teerã sem servir de biombo para a “teocracia” de Washington.
Quando uma dissidente iraniana, perseguida e encarcerada, pede cessar-fogo e ajuda humanitária irrestrita para Gaza, ela mostra que a solidariedade pró-Palestina é radical justamente por não ser cúmplice de tirania teocrática. A voz não deve depender de passaporte estatal, divino ou monárquico estabelecido. O regime iraniano tenta capturar a causa palestina para limpar a própria ficha corrida, tentando vender como sionistas pró-EUA qualquer um que seja contra suas diretrizes. Deixa sem comunicação, mata por divergência religiosa, mata por diferenças de gênero, simplesmente mata. Ao invés de trazer o povo para si, isola-o enquanto aglutina as forças conservadoras ocidentais contra si.
É aqui que a crítica de esquerda precisa ser dura e clara: apoiar a Palestina não autoriza romantizar nenhum regime que reprime seus povos. A luta palestina é por autodeterminação e direito à vida. A luta iraniana, nas ruas e nas prisões, é pelo mesmo motivo. Quando a esquerda troca o povo pelo regime, ela se perde, sacrifica vidas concretas em nome de uma “necessidade histórica” e permite a naturalização de discursos conservadores como o retorno a uma monarquia em pleno século XXI. O futuro do Irã, demarcado pela força da guerra e por anos de repressão, é impossível de prever.
O caminho é complexo e passa por solidariedade popular organizada e fortalecer outra linha ética que não seja essa ética dos poderes constituídos (bem revelada nos Epstein files), com os pés no chão e a cabeça a frente. Cobrar cessar-fogo imediato e fim do massacre em Gaza, fim da ocupação e do apartheid, mas também dizer sem rodeio: não à guerra “sionista-americana” contra o Irã e não à teocracia iraniana. Não existe libertação a partir de mísseis, nem democracia entregue por troca de cadeiras.
A ação radical da esquerda, hoje, é tirar oxigênio político, narrativo e material dos poderes constituídos: pressionar por embargo de armas, boicote e desinvestimento do aparato de ocupação; construir, em sindicatos, movimentos de mulheres, movimentos culturais, universidades e territórios, redes de apoio direto a palestinos e às forças iranianas feministas e trabalhistas que enfrentam a repressão; financiar defesa jurídica, acolhimento, comunicação, tradução e cuidado mental ao povo que mais sofre com os danos da guerra, porque guerra atravessa o corpo e dura décadas.
Em vez de torcer por bombas como “atalho”, o retorno a monarquias caducas, ampliar as vozes das ruas, justamente aquelas que não tem espaço nas mídias ocidentais e que também estão silenciadas pelos poderes iranianos. Acolher e fortalecer as relações de vizinhança, greve, mutualismo, proteção mental. Sem propaganda, sem tutela, sem terceirizar a ética ou a solução para os grandes poderes globais, cujo principal foco não é o povo palestino ou iraniano.
Palestina livre. Irã livre. A esquerda precisa caber inteira nessa luta.
