Proponho uma leitura possível de Brasil que integre três conceitos interessantes para projetarmos novos tempos, na verdade dois conceitos e o meu ofício: bioeconomia, biossegurança e arquitetura. Embora esta construção exija uma base de pesquisa acadêmica sólida para um aprofundamento efetivo, pretendo humildemente oferecer uma abordagem que funcione como ponto de partida para reflexões e ações. Neste texto, tento conectar esses conceitos para pensarmos em um desenvolvimento sustentável capaz de unir a alta tecnologia e a industrialização necessária com a preservação ambiental e inclusão socioeconômica, em um país periférico e vulnerável como o Brasil.
O Brasil, com sua biodiversidade e populações vulneráveis ao lado de atividades industriais, precisa se apropriar dos conceitos de bioeconomia. Este é um ponto crítico, pois ainda não há um marco regulatório para a bioeconomia, e estamos lidando com um campo repleto de violentas disputas, que frequentemente vitimizam os povos mais vulneráveis, povos estes que deveriam ocupar o protagonismo das políticas nacionais de manejo sustentável. Assim, é crucial instrumentalizar juridicamente o país para que os conhecimentos locais sejam integrados aos processos industriais sem exploração cultural e econômica de povos vulneráveis, possibilitando colaboração para todos.
A bioeconomia surge como um modelo potencial para unir tecnologia, sustentabilidade e uso racional dos recursos biológicos, apontando para um desenvolvimento mais sustentável. Políticas públicas e linhas de crédito específicas podem fornecer suporte essencial a essas populações, promovendo estratégias de desenvolvimento que conectem alta tecnologia e economias locais sem comprometer a autonomia das comunidades.
No contexto brasileiro, setores industriais como o farmacêutico, o petrolífero e o alimentício poderiam atuar em sinergia com economias populares, valorizando saberes tradicionais de comunidades indígenas e ribeirinhas. Contudo, implementar essa visão encontra desafios práticos e requer soluções que viabilizem essa interação de forma justa.
Alcançar uma industrialização avançada e sustentável depende de alinhar o desenvolvimento tecnológico aos princípios da bioeconomia, inclusive para atrair investimentos. Comunidades indígenas e ribeirinhas podem oferecer conhecimentos valiosos às indústrias farmacêuticas e alimentícias, desde que seja garantido seu protagonismo e seguridade de direitos na gestão do patrimônio genético e dos saberes tradicionais, criando um ciclo de respeito às práticas culturais e ao território.
A pandemia de covid 19 nos ensinou sobre outro saber fundamental contemporâneo. A biossegurança envolve ações e métodos de contenção de riscos biológicos, como barreiras físicas e medidas operacionais para evitar a liberação de agentes prejudiciais ao ambiente e à saúde pública. Embora esse conceito seja aplicado sobretudo em indústrias e laboratórios estratégicos, ele pode se expandir para o urbanismo, ajudando a tratar das fronteiras entre o urbano e o rural, o construído e o natural. Há potencial para desenvolver uma mentalidade projetual que centralize a saúde pública e coletiva nas decisões de planejamento territorial e arquitetônico.
O Brasil possui um potencial estratégico em bioeconomia, mas esse potencial exige investimentos estruturais de grande escala. Por meio de um planejamento urbano bioeconômico, cidades brasileiras podem avançar no uso sustentável dos territórios, preservando biomas e gerando renda local, evitando a expansão urbana em áreas preservadas e espraiamento desenfreado. Espaços urbanos com jardins comunitários e agricultura urbana fortalecem a coesão social e a segurança alimentar, assim como o uso concomitante de parte do sistema industrial que permite a massificação da produção girar em favor de produções de escala menor. E o desenvolvimento arquitetônico sustentável pode promover inclusão e mitigar os efeitos massivos das mudanças climáticas.
A estruturação desse futuro bioeconômico requer políticas públicas consistentes. Incentivos, linhas de crédito e centros de pesquisa são fundamentais para conectar o conhecimento científico aos saberes tradicionais, racionalizar os riscos das ações nocivas à natureza por parte da industrialização e fomentar no seio da sociedade o valor agregado em torno de uma vida mais verde. Fortalecer a engenharia nacional para garantir a infraestrutura tão sonhada do país, as redes educacionais e as redes de solidariedade é vital dentro deste projeto.
Integrar biossegurança, bioeconomia e arquitetura representa uma transformação estrutural profunda. É um projeto de longo prazo que depende de políticas sólidas e da colaboração entre setores diversos, incluindo e relacionando comunidades e indústrias. Com sua biodiversidade e riqueza cultural, o Brasil possui uma vantagem única para desenvolver modelos que possam servir de referência global. Essa é uma oportunidade que exige planejamento, mas que pode fundamentar um futuro sustentável e inclusivo.
Construir um Brasil que valorize inovação, preservação ambiental e justiça social depende de abordagens colaborativas que promovam uma economia inclusiva e responsável. O valor da bioeconomia está em disputa no mundo, e é imprescindível que os povos mais vulneráveis estejam organizados e constituam força política para disputar os marcos regulatórios e implementar sistemas de segurança jurídica que defendam a biodiversidade. O papel do arquiteto, nesse contexto, pode ser o de apoiar a criação de valores e relações espaciais que defendam solos protegidos, nascentes, terras indígenas demarcadas, reflorestamento, soluções urbanas e tecnológicas de baixa poluição. Para que essa transição verde ocorra, o papel da arquitetura e do urbanismo pode ser crucial, pois traduz em materialidade espacial as demandas e fomento das práticas de bioeconomia.
