Arquitetura e Urbanismo, artigo, cultura, filosofia de vida, pensamento, política

Pequena Contribuição Sobre o Campo Teórico na Arquitetura

Ler é uma arte, dizem que arquitetos não gostam de ler, tenho pena dos profissionais que acreditam nessa máxima. Ler é uma tarefa árdua que muitas vezes exige que nos prendamos dramaticamente em um parágrafo, tentando desvendar seus significados ocultos. Um exemplo disso é quando Manfredo Tafuri lança o seguinte parágrafo em “Projeto e Utopia”:

“Quando Laugier, em 1753, enuncia as suas teorias sobre o desenho das cidades, abrindo oficialmente a investigação dupla. Por um lado, a redução da própria cidade a fenômeno natural, por outro a de superar qualquer ideia apriorística do ordenamento urbano, através da extensão ao tecido citadino de dimensões formais ligadas à estética do pitoresco” (Tafuri, 1985, p. 13).

Tafuri nos mostra que Laugier propôs analisarmos a cidade como um fenômeno natural, um organismo vivo. Segundo Laugier, devemos abandonar a ideia de um planejamento urbano rígido, adotando uma abordagem flexível e adaptável ao movimento orgânico da cidade, buscando uma estética pitoresca.

Contudo, Tafuri se posiciona como crítico dessa visão. Ele argumenta que enxergar a cidade dessa maneira é uma simplificação excessiva, pois ignora as complexidades das forças políticas, econômicas e sociais que moldam o espaço.

A busca pelo pitoresco pode criar uma ilusão de naturalidade, uma beleza idílica que esconde problemas mais profundos, resultando em um urbanismo superficial. O próprio recorte de valor da paisagem é definido por estas relações complexas, qual paisagem aparece no recorte de observação dos pintores? Atualmente poderíamos nos perguntar: quais paisagens são cenário de novela e filmes dos mais diversos e o que elas representam nas cenas? Não há inocência por trás destas escolhas, mas sim disputa de valor sobre o território e o espaço construído. E nisso, o campo teórico e crítico é fundamental para a produção prática.

Construir instrumental teórico para a ação prática.

Agora vejamos um pouco sobre alguns pontos que tornam o ato de estudar Tafuri relevantes para a nossa profissão, assumir uma visão histórica, crítica, engajada e entendendo a complexidade da intervenção. Primeiro separemos aqui um pouco de instrumental teórico do qual podemos nos servir:

  • Abordagem Histórica: Evitar projetos que não levem em conta o contexto histórico específico, fugindo de soluções universalizadas.
  • Intervenções Críticas e Realistas: Enfrentar diretamente as contradições e desafios sociais do ambiente urbano.
  • Engajamento Social e Político: As intervenções devem ser socialmente engajadas, refletindo as necessidades e condições das comunidades.
  • Assumir a Complexidade: Reconhecer e abraçar a complexidade inerente à prática arquitetônica, evitando simplificações excessivas. Abraçar a interdisciplinaridade necessária para resolver problemas difíceis.
  • Autocrítica: Cada projeto ou obra deve gerar um processo de reflexão autocrítica, permitindo o aprimoramento contínuo dos métodos e práticas.

Podemos pensar a partir destes instrumentais para criar o arcabouço sobre o qual construiremos nossa produção intelectual e criativa, buscando soluções práticas para os problemas que enfrentaremos em campo. Somado a estes, separamos aqui alguns pontos para refletir, que nos ajudam a caminhar nesta complexidade aberta pela teoria de Tafuri:

  1. A Arquitetura como Reflexo das Contradições Sociais
    Um tema muito pertinente na cidade do Rio, e no Brasil como um todo. É irônico pois muitos de nós defendemos que a desigualdade urbana e espacial é reflexo direto da ausência do trabalho do arquiteto na produção destes espaços. Se partirmos de uma abordagem crítica podemos compreender que a contradição espacial é diretamente conectada com a contradição socioeconômica. Assim podemos assumir como o resultado de um projeto, uma cidade onde você tem bairros de alta renda com arquitetura de alto padrão e bem cuidados, contrastando com áreas periféricas onde a infraestrutura é precária.
  1. A Ideologia na Arquitetura
    A arquitetura é uma construção simbólica coletiva que expressa ideologias. Igrejas, relógios centrais e shopping centers reforçam sinais atrelados às formas vigentes de poder.

    Por exemplo, um shopping exprime sofisticação, controle social e o mundo privado sobrepondo-se ao público. Ele atua como referência de prazer e status, uma ode ao consumo. Podemos projetar sua forma para isolá-lo do contexto em que se insere, com grandes paredes nas fachadas, destacando apenas o interior, sempre bem trabalhado com materiais de qualidade, aromatizado, climatizado e mobiliado para que se perca a noção do tempo e do lugar. Isso contrasta claramente com a lógica tradicional do comércio de rua, feiras livres e camelos.
  1. O Papel da Arquitetura na Criação de Imagens de Poder
    A arquitetura é uma ferramenta poderosa de representação subjetiva. Ao longo da história, temos numerosos exemplos que expressam isso: túmulos reais, catedrais, castelos e mansões. A imponência de projetos como a Torre de TV de Berlim, Burj Khalifa, Empire State Building, CCTV em Pequim e Brasília no Brasil exemplifica esse poder.

    A arquitetura pode projetar e consolidar o poder de corporações ou instituições. Suas principais expressões sensíveis transmitem ao usuário a mensagem ideológica e os princípios dessas formas de poder: pujança, luxo, alteridade, solidez, riqueza e status.

    Ao mesmo tempo, a arquitetura pode empoderar os invisibilizados, ao legitimar seu território, seu lugar, suas expressões sensíveis em obra construída. Assumindo um caráter de belo e de interessante a estes invisíveis.
  1. Crítica ao Funcionalismo
    Tafuri busca um equilíbrio entre o funcional e o formal. Ele entende que uma arquitetura funcional ultrapassa aspectos da experiência humana sensível. Embora pareça extremamente prático, essa arquitetura ainda exprime um conceito. Ruas que focam apenas no ponto de partida e chegada perdem a sensibilidade do percurso, mesmo cumprindo sua função como passagem.

    Um exemplo interessante é a Estação Central do Brasil. Uma estação de trem, reflexo de uma ideologia de conexão e desenvolvimento nacional, possui uma arquitetura de qualidade espacial e formal. Em contraste, uma estação de metrô representa apenas uma passagem com qualidade ordinária e comum, oferecendo baixo conforto estético e espacial. Essa diferença especial ilustra bem como a arquitetura pode operar.
  2. A Arquitetura como Simbolismo do Contemporâneo
    A crise do hiper individualismo é evidente na arquitetura contemporânea. Construções contemporâneas, com o uso extensivo de aço, vidro e áreas de lazer controladas, frequentemente se tornam símbolos de alienação para seus moradores, que muitas vezes não conhecem sequer seus vizinhos. Isso contrasta com arquiteturas tradicionais, como os povos originários, que promovem um senso de comunidade e conexão humano-humano e humano-natureza, ou com ruas de bairro tradicionais onde moradores se conversam a gerações.

Esses exemplos ajudam a vivenciar como as ideias de Tafuri sobre arquitetura e urbanismo se manifestam nas construções e situações do dia a dia. Estudar Teorias e Críticas da arquitetura é crucial para nossa profissão. A leitura de Tafuri revela conexões essenciais que nos mostram que cada projeto e cada obra são reflexos diretos do nosso pensamento, moldados por uma teia intricada de nossas relações e condições de possibilidades.

Um dos maiores desafios do arquiteto é criar uma linha de pensamento e desenvolver ferramentas teóricas que fundamentem nossas ações. Consolidar essa teoria é uma jornada constante e desafiadora, mas quem se dedica a isso tem a oportunidade de alcançar um salto qualitativo na prática profissional.

Minha sugestão é que se armem com todas as ferramentas que a vida oferece, buscar a cultura como quem busca o cultivo de uma arte. Mergulharmos na literatura, na ciência, na filosofia, na música e nas conversas descontraídas de botequim. Mantenhamos uma abordagem histórica, coerência crítica e realista, e nos engajemos socialmente. O mundo é vasto e complexo. Cultivemos o hábito de se instrumentalizar com o melhor que o mundo tem a oferecer, e estejamos preparados para transformar o mundo ao nosso redor com paixão.

Este texto, propositalmente foi grande e não terá imagens. Leiam! Quem se sentir a vontade, comente. O debate é importante.

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