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Fundamentalismo Contemporâneo e sua Ascensão nas Margens da Exclusão Social

O Fundamentalismo contemporâneo cresce na desigualdade. A grande insegurança social, econômica e, por que não, existencial, que o coletivo humano vivencia atualmente, torna-se um terreno fértil para que esse tipo de pensamento brote. Crescido a isso, temos uma hegemonia de redes de comunicação interpessoal, estruturadas de forma a reforçar esse tipo de pensamento. Exemplificando: muitas pessoas, inseguras de si, buscam respostas absolutas em discursos fechados nas redes sociais, encontram nestas seus pares e ficam alimentando comunidades que repelem o contraditório. Se tornam assim um campo fértil para o dogmatismo e polarização social.

Primeiro, o que considero fundamentalismo quando escrevo aqui: Quaisquer formas de pensar e se organizar socialmente que tenham: rigidez ideológica, busca por uma liderança ou estruturas hierárquicas que reforcem obediência e controle, ausência de diálogo entre as diferenças, gerando intolerância e exclusão e resistência a transformações sociais, culturais e políticas e reforço ideológico com base em dualismo maniqueísta (sempre haverá um mal a combater). Tendo dito isso, percebemos que a leitura não se prende a uma visão religiosa, como o senso comum está acostumado e muito se ampara para tratar o fundamentalismo como algo a parte do seu dia a dia. Quando pensamos, por exemplo, em certos grupos online que se reúnem para definir regras de comportamento e valores morais, percebemos como a força e o controle se sobrepõem à diversidade e ao diálogo, resultando em hostilidade contra qualquer perspectiva que divirja da norma estabelecida pelo grupo.

Regiões historicamente marcadas pela desigualdade, marginalização e falta de infraestrutura tendem a ser mais vulneráveis ​​ao surgimento de pensamentos fundamentalistas. Nas comunidades periféricas, onde a exclusão social é evidente, imagine um jovem que cresceu em um bairro periférico onde o Estado pouco aparece e os direitos básicos são precários. Ao ser privado de acesso digno aos direitos materiais e subjetivos, necessários para o bem-estar, ele busca construir algum sentido de comunidade e segurança.  Diante da perda cultural, abraça portos seguros que lhe são apresentados. E aqui a religião acaba por ter um papel importante. Ao prover um senso de futuro seguro e de paz, desde que seguidos um secto de dogmas, provém a resposta simbólica.  Além disso, cria um elo comunitário entre os fiéis, oferecendo alto material e simbólico ao mesmo tempo.

Em um mundo extremamente mutável e com um futuro imponderado e instável, a necessidade de controle se torna quase um acontecimento natural. Assim, apegar-se a crenças fixas e absolutistas, recusar o dissenso e a contradição como parte da experiência humana na Terra e buscar certezas simplistas servem como defesa psicológica. Um exemplo disso é a tendência que muitos têm de se refugiar em doutrinas, grupos e seitas que oferecem respostas definitivas para suas angústias. Constitui-se no indivíduo o medo da mudança como uma forma de manter sua identidade estável em meio ao caos.

Quando isso se expõe ao coletivo, ele se torna a defesa diante da ameaça aos valores tradicionais e à identidade coletiva. Em um mundo de niilismo e sofrimento extremo, é compreensível que as pessoas queiram preservar os pequenos momentos de paz e amor que sentem em suas comunidades, como uma reunião de vizinhos que compartilham da mesma opinião e rejeitam “ameaças” externas. O elo com nossos iguais. Esse elo é reforçado, por sua vez, dentro de um discurso ideológico (maquinado verticalmente ou organicamente em redes complexas) que prega a homogeneidade do grupo, criando uma visão de “nós contra eles”. Essa visão reforça tanto laços internos quanto hostilidade aos diferentes. Eu sou pois o outro não é. É uma lógica que permite até pequenas interações do dia a dia, como a evidência defensiva de um grupo que se fecha contra críticas externas ou de famílias que se dividem em posições políticas opostas, cada uma vendo a outra como inimiga.

O grande problema deste “eu contra o outro” é que ele alimenta um clima de conflito que, além de reduzir o poder dos laços comunitários, pode extrapolar os limites do diálogo e entrar no circuito da indústria de guerra. Afinal, a lógica dos movimentos fundamentalistas é um ótimo campo de prospecção para manter e expandir seu mercado. Esse tipo de geopolítica do fundamentalismo constrói uma identidade coletiva. A lógica dos movimentos fundamentalistas torna-se um terreno fértil para a manutenção e expansão do mercado armamentista, com as empresas do setor lucrando com a venda de armas que “protegem a identidade ameaçada” desses grupos.

A indústria de guerra e o fundamentalismo muitas vezes se retroalimentam. Assim, a indústria armamentista se aproveita desses cenários para a venda de armamentos, reforçando a narrativa de que o aumento de arsenais é essencial para proteger o Estado ou uma identidade ameaçada. Influenciam políticos e lideranças influentes para promover políticas de militarização, aumentando os orçamentos de defesa, e direcionando-os principalmente para a venda de equipamentos bélicos em larga escala, ignorando as possibilidades de diplomacia, diálogo e estratégia de inteligência. Afinal, a indústria lucra com a manutenção controlada dos conflitos, ocorrendo em escalas diversas desde a construção de porta-aviões e bombas atômicas ao comércio de fuzis que circulam legal e ilegalmente.

Este tipo de geografia global na sociedade contemporânea, nos ajuda a compreender como as periferias globais se tornam reféns passivas ou voluntárias ou até mesmo crentes nestas guerras ideológicas. O fundamentalismo pode nascer em quaisquer frentes que tenham material suficiente para tal: seja ele no conflito Israel Palestina, seja no evangelismo do complexo de Israel sejam nas inúmeras guerras africanas. Também pode ser encontrado em territorialidades como as grandes polarizações políticas cujo debate e construção diplomática se perde para um populismo apaixonado desenfreado que desmonta famílias em festas de natal. O fundamentalismo contemporâneo seca a esperança, sufoca o diferente, mata o outro e usa da miséria e do desespero de muitos para retroalimentar seus podres poderes.

O grande paradoxo está no fato de que: quanto mais íntimos nos tornamos do outro, percebemos que somos muito mais diferentes do que iguais e este é o ponto onde somos humanos demasiado humanos. É exatamente essa diferença que faz os humanos criarem os pontos disruptivos que movimentam a cultura e a vida como um todo. E isso por si já demonstra que, o senso de comunidade gerado em torno dos pensamentos fundamentalistas não é tão comunitário assim, pois não coloca como principal a partilha e solidariedade acima de tudo. Em vez disso, a identidade é construída a partir da existência de um “outro” a ser combatido, e não de um amor fraterno amplo, capaz de, como São Francisco de Assis, abraçar a mãe Terra e todos os seres que nela habitam.

Deixo esse texto como uma humilde reflexão sem muita pesquisa. Deixo-o e sigo no campo que mais me agrada caminhar nos territórios. O campo da contradição, do imponderado e do casuístico. Gosto deste lugar onde o bem e o mal não precisa disputar uma verdade fixa, mas se encontra na caminhada da vida, no jogo e no baile entre os dois. As armas sempre vão encontrar as mãos de um iludido que se acha esperto e as balas sempre vão encontrar o corpo de um pobre que nada tinha a ver com o conflito.

imagem original de Viviane Costa: autora do livro: Traficantes evangélicos: Quem são e a quem servem os novos bandidos de Deus (livro que ainda preciso ler) – link na Amazon Aqui
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