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SALVE JORGE, SALVE O BRASIL, SALVE QUINTINO, SALVEM OS SUBÚRBIOS CARIOCAS!

 Dia 23 de abril de 2014, Quintino se veste de vermelho, fecha a rua, dança, solta fogos e canta.

O povo se reconhece no São Jorge por suas lutas diárias.
Esse é nosso Subúrbio Carioca no suor, na fé, na esperança, na cultura popular e na ancestralidade. Somos muitos formando o chão que a gente pisa e vive com o suor do trabalho estampado no rosto.
Neste Brasil, terra de todos os encontros, São Jorge encontra suas muitas faces: O Jovem, não mais tão jovem, que sente saudade de sua geral onde via Assis trazendo a Guanabara e que sincretismo belo seria a encruzilhada entre Assis e Zico em um só. Também é o jovem que sobrou na aeronáutica mas pega sua bike e sua mala e rasga Rio a dentro em suas entregas. A lojista que precisa enfrentar diariamente as armadilhas que o machismo estrutura na terra. O motorista de aplicativo que de tanto tomar nota baixa está sendo obrigado a fazer cansativas corridas que pouco dinheiro dá, mas se conseguir o suficiente pra comer um podrão no fim da noite está feliz. São Jorge é um moto-taxista na esquina da Clarimundo de Melo com a Saçu.
Jorge em seu cavalo é Maria no BRT, caminhando pelo vale do combate entre a incerteza da doença e a fé e esperança de que vai voltar da labuta e ver a filha se formar um dia. São muitos, como muitos são os Jorges do Brasil, na poesia, no ponto, no toque do tambor, na voz do pastor que não professa a fé mas ama seu irmão que professa, porque o Jesus que Jorge da Capadócia e o Pastor Jorge da Igreja Batista de São João de Meriti conhecia nos ensinou a importância do amor e da partilha. A fé não é algo que se julga, é algo que se admira, admirem-na!
São Jorge não é sobre crença, não é sobre fé, São Jorge é sobre Povo. Não preciso nem olhar para o invisível, pois a beleza está no visível mesmo, de um povo que se faz povo, de um deserto que vira dia de encontro. Este ano o encontro será no invisível, no virtual, mas isso não é problema pra quem caminha nos muitos mundos.
Nos subúrbios é assim, a gente nem sabe muito bem como ou porquê, mas estamos neste lugar onde o guerreiro e o ferreiro se confraternizam. A pobreza na nossa frente não intimida, ela é apenas nosso campo de batalha diário e armas de fogo não vão nos alcançar, mesmo que estejam passando lado a lado de nós.
Quem disse que a nossa bandeira nunca seria vermelha não conhece nada do Brasil, nunca pisou em Quintino num dia 23 de Abril, nunca viu Flamengo ser campeão brasileiro, são pessoas tristes que podem até passar uma vida sem entender a beleza de um bom feijão na panela, Deus tenha misericórdia delas um dia.
O corpo pode estar moído pelas batalhas, estar combalido pelo combate, mas não estará vencido, no dia ou na noite, mas os caminhos estão lá e os que nos odeiam não nos alcançarão. É esta fé que se faz o abrigo do Brasil profundo, dos que têm a fé aos que fazem a fezinha.
Aos que professam ou não a fé
SALVE JORGE,
SALVE O BRASIL,
SALVE QUINTINO,
SALVEM OS SUBÚRBIOS CARIOCAS!
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Reflexões sobre a autoprodução na construção do espaço no Brasil

Um debate que sempre ronda a vida profissional e política de um arquiteto ou engenheiro gira em torno do tema da autoconstrução ou autoprodução . Bom, primeiro, uma explicação simples sobre (que não explica tudo): no senso comum do ambiente profissional, a autoconstrução é toda construção que não contou com um profissional técnico capacitado, como um arquiteto, um engenheiro ou técnico. No senso comum da vida é a obra que você fez na sua casa contando com a ajuda de uma equipe de pedreiros, ou com a ajuda do vizinho que sabe virar a massa.

Também ecoa no senso comum profissional que este debate passe predominantemente pelo desconhecimento da população em relação ao papel profissional do arquiteto e engenheiro. Esta leitura leva a um sistema de tentar coibir processos como este por diversos meios, entre eles, dois são os instrumentos mais pensados. Buscar estas obras e cobrar que estejam com profissionais regulamentados (em geral isso é feito via órgãos institucionais como denúncias em autarquias de categoria profissional ou órgão municipal fiscalizador), e também é feito por uma constante proposta de divulgação e disseminação do papel de profissionais como arquitetos e engenheiros na sociedade. Entendo que todos os meios são importantes de considerar, porém entendo também que esse debate sobre autoconstrução não passa apenas por estes, como se a questão do construir fosse motivada apenas pelo desconhecimento das profissões técnicas envolvidas. 

Uma experiência que a vivência como arquiteto na indústria me trouxe foi que diante de um problema, não focar apenas no fato principal que aparece, mas em todo o encadeamento de detalhes e relações que permitiram que o fato acontecesse. Quando o foco passa a ser o desencadear das coisas na busca de propor melhorias e não a busca de um elemento causador (erro humano, ou fato, ou peça) nós conseguimos produzir soluções muito mais significativas para que a situação indesejada não aconteça mais. – essa é uma premissa importante de conceito de inovação. Esse tipo de olhar é o que por exemplo garantiu o salto significativo no avanço da biossegurança, na indústria aeronáutica, farmacêutica ou nuclear. 

Voltando ao exemplo da indústria. Se um acidente acontece podemos simplesmente prender ou culpabilizar o piloto ou o defeito em uma peça (na aviação) ou no caso da farmacêutica dizer: o tanque de pressão explodiu, mas não é o que acontece, o que ocorre são estudos detalhados que muitas vezes demoram anos e que geram documentos gigantes com uma série de desencadear de acontecimentos. A partir destes estudos se proporcionam documentos, novas normativas, estratégias de ação e novas tecnologias.

Qual o paralelo disso na nossa questão?  

Bem, a discussão da autoconstrução não vai se resolver ou se esgotar sem que a gente investigue a fundo o desencadeamento das condições que permitem isso. Segregação, desigualdade, baixo contato do profissional graduado com a massa da população, diferença de valor do solo e valor imobiliário que é brutal, entre muitos outros fatores que podemos trazer.

Podemos partir do tão conhecido dado que diz: 80% das pessoas que constroem, o fazem sem auxílio de um profissional. Junto com este dado apresentado vamos pensar sobre mais estes outros números:  Somos 197841 arquitetos no país (com quase 70% concentrados no eixo sudeste/sul), somos 211 milhões de brasileiros (dados de 2019). Só com estes dados já temos um detalhe importante: somos, grosso modo, um arquiteto para cada mil brasileiros (um pouco mais). Mais um dado importante para esta conta está no valor imobiliário. Hoje no Rio-capital temos imóveis na zona sul da cidade custando 21.000,00 reais o metro quadrado, enquanto na Zona Norte temos regiões com valor de 2.000 reais o metro quadrado. Quando colocamos na conta as áreas informais a discrepância dos valores por metro quadrado aumentam mais. Isso afeta diretamente muita coisa, como por exemplo o peso do valor de uma hora técnica em relação ao valor de um imóvel será sentido de forma diferente pelo proprietário de um imóvel no Leblon ou um imóvel na Pavuna.



Os dados mostram que a situação comum/padrão no país é a autoconstrução, nós somos a situação rara, qual nosso objetivo? modificar esse quadro e termos auxílio técnico atendendo de forma universal a todos os brasileiros.

Juntando tudo isso, entendo que um caminho possível passa por uma investigação ampla, minuciosa e permanente do que compõe a materialidade e a subjetividade por trás dos modos de construir e habitar o espaço no Brasil. Isso não é tarefa fácil, não será resolvida num braço só ou em poucos braços e poucos minutos, horas ou dias e muito menos sem interdisciplinaridade (interdisciplinaridade mesmo!). Muito dessa investigação já acontece por aí, pesquisas, ações autônomas, políticas interessantes são propostas.  A meu ver, a saída se dará neste caminhar constante e permanente em busca das melhorias. 

Pensar a questão da produção do espaço com amparo técnico em um país diversificado como o Brasil é tarefa complexa e exigirá de nós esforço de compreender as muitas especificidades locais, e a inter-relação entre as escalas do indivíduo, comunitárias, territoriais. Uma política estruturante para o país precisa considerar estes e outros fatores como fomento a interiorização do profissional técnico, ampliação da participação profissional na concepção e produção do espaço para a inclusão de outros saberes como os do antropólogo, do sociólogo, dos filósofos e dos poetas, no fundo, de toda a população. 


Descentralizar as políticas e garantir autonomia de quem se organiza nas bases dos territórios, sabendo distribuir as responsabilidades e limitando claramente as interfaces na construção política. O estatuto das cidades, por exemplo, foi um grande avanço na forma de produção do espaço nacional, esbarrou na pressão e lobby das construtoras cujo cálculo é simplista e limitado pela necessidade do lucro corrompendo tudo que vem do chão do povo. Ainda assim o estatuto das cidades é um importante ponto de partida para ser retomado e trabalhado novamente pelas bases da sociedade.

Traçar as saídas é a tarefa, e como qualquer política elaborada para funcionar no Brasil, não pode ser reducionista. Esta é a diferença por exemplo do sucesso do Sistema Único de Saúde mesmo com todo o esforço que parte da elite tem em desmontar e o fracasso da política de segurança, que no Brasil se baseia em incursões isoladas e prisões que em nada modificam a estrutura do sistema, ao contrário só corrompe mais. Prender um jovem com um baseado, ou inaugurar um conjunto de casas carimbo no meio do nada são um canto da sereia, pois viram notícia de jornal, dão mídia e holofote. Uma política bem pensada por sua vez não garante isso, pois em geral é um trabalho muito mais coletivo e num tempo ampliado até que comecemos a sentir o impacto. É uma pena que a cultura política do Brasil menospreze essa lógica e prefira correr atrás de soluções mágicas e simples, que da mesma forma da cloroquina, podem não servir para nada além de virar notícia de jornal.

Assim, a principal conclusão que vejo é: temos de aprofundar constantemente o debate, as experiências, os modelos, as testagens e os olhares. Não nos atermos a cair na vala comum que enxerga apenas dois lados da moeda no qual ou se romantiza ou se pune, pois diante da complexidade temos de experimentar todas as faces de investigação para chegarmos a melhor maneira de democratização do acesso técnico no Brasil



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Dos Porões. Ditadura Nunca Mais!

 Um dos projetos mais nefastos de segregação espacial conecta alguns porões no Brasil. Dos porões dos navios negreiros, aos porões das sanzalas, aos porões da ditadura e atualmente aos porões da cidade, nossa terra segue segregada.

Nesta semana, o Brasil relembra um dos momentos mais obscuros de sua história. Momentos em que as máquinas de combate das forças militares derrubavam um presidente eleito que buscava construir caminhos de justiça social e reparação histórica. É importante ressaltar porém que estas máquinas de combate sempre estiveram aí.

Nossa história, tanto a recente como a mais antiga é um compêndio de ações militares para assegurar que as condições de segregação popular permaneçam, pois esta segregação move parte de nossa economia. O Brasil, que já fora um dos maiores receptores de pessoas escravizadas do mundo, mantém ainda na pele e no corpo negro o peso do açoite. O faz enquanto sua elite disputa o espólio do território, do poder e controle financeiro, da valoração da terra entre outros.

Mesmo quem pleiteia as linhas ideológicas liberais como meios de se constituir uma classe média, famílias dignas de comercial de margarina, não conseguem desmontar esta estrutura de gestão econômica que nos conforma e nos mata em seus porões. O golpe de 64 é uma das caras trágicas dessa história, o momento em que uma elite militar assume o controle e substitui a lógica política pela lógica de guerra, calando toda e qualquer voz da sociedade. Um ponto diferente do que vinha sido antes é que agora não são apenas o povo pobre e negro que viria a sofrer os porões, mas uma classe média que despontava com cultura, organização política e voz, e assim como Jango, o presidente derrubado do poder, acreditava em um Brasil diferente desde que mudada a estrutura do poder.

Hoje o presidente ganhou o direito de celebrar o golpe de 64, direito este que vem de seu entendimento revisionista, fruto da escola que o formou. Os porões sempre estiveram aí. Se na década de 80 conseguimos alcançar a redemocratização por resistência popular, organização, enfrentando 21 anos de violência física e psicológica, tortura, mortes, alguns nunca encontrados, esta redemocratização não selou os porões.

A máquina de perseguição segue, e abre um novo porão, a própria cidade, onde a segregação define que lugares são matáveis. O que é favela se não o território onde as forças do capital tem o direito de matar sem julgamento e onde o favelado tem que resistir e lutar pela vida? Este é o território segregado cujo pacto pós redemocratização não conseguiu extirpar a violência de estado.

A escola de 64 forjou inúmeros controles urbanos e sociais a base de ferro e fogo. Forjou os comandantes brasileiros do Haiti, forjou a polícia pacificadora, forjou os cavalos corredores, os carros da linguiça, a liga da justiça, forjou Bolsonaro, entre inúmeros outros.

O novo modelo de controle autoritário que começa a despontar passa pela legalização da terceirização do espaço urbano da pobreza pelo Estado. Começam a rolar uns balões de ensaio de favelas autônomas, onde o nós por nós é fagocitado pelo capital deixando de ser uma tática de resistência e sobrevivência e se tornando uma forma do sistema girar controle, dinheiro e lucros em cima das redes de solidariedade. Os poderes de Estado que sempre estiveram nas favelas não sairão, e os porões da ditadura que ocupam estes espaços de poder também permanecerão, possivelmente controlando este sistema.

Quando dizemos Ditadura Nunca Mais! este grito não é apenas um eco de lembrar que os anos de chumbo nunca mais se repitam. Este brado também traz em si o desejo e necessidade de desmontar por completo esta máquina de guerra aos pobres, que segue desde os porões dos navios negreiros ditando as regras de controle material e cognitivo da segregação do nosso País.

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Porque eu leio Koolhaas

Bom, primeiramente, esta é a parte um de um texto com este título, em breve produziremos outro para aprofundar a questão propriamente dita. A resposta ao que seria esta pergunta é simples de responder. Basicamente é importante ler Koolhaas, não por ele ser um arquiteto pensador de cidade, mas sim por ele ser um arquiteto que desenha, define e projeta arquiteturas de grande impacto nas metrópoles. 

O problema maior consiste porém no fato de que Koolhaas, embora não seja mais o arquiteto hype das escolas, ainda faz parte do nicho que hegemoniza conceitualmente a profissão. O arquiteto salvador, dono das verdades e das soluções, capaz de revitalizar toda a vida humana com um risco, um pensamento, um diagrama ou um powerpoint, mudam-se detalhes, elementos, concepções estéticas, mas pouco se muda a produção de ícones a construção de símbolos exclusivos a ser seguidos. Mesmo quando há mudanças de referencial, como vimos este ano com a premiação de Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal, o sistema imbuído de construir segue o mesmo. Também pouco falamos do principal, como estes profissionais consolidam-se no mercado.

Sobre a Koolhaas, o que me importa na leitura é menos seu entendimento de cidade e mais a forma como sua narrativa se relaciona diretamente com o seu papel no modo de produção urbana e arquitetônica do grande capital. Mas para nós o que interessa é o espaço imenso com o qual Koolhaas não se articula diretamente, e cuja produção é sombreada pela autoconstrução, pela construção simples, pelas estruturas diferenciadas, pela precarização profissional. Assim, a grosso modo, um texto de Koolhaas é praticamente um receituário do tipo de espaço projetado e concebido que este tipo de arquiteto quer e o koolhaanismo não reflete um movimento, no máximo um sistema publicitário de si.


Uma expressão pop de Koolhaas “Arquitetura é uma perigosa mistura de onipresença e impotência”, que já podemos comparar em sucesso ao paradoxo do abismo de Zaratustra, é uma ótima demonstração de como este arquiteto constrói sua narrativa por uma justificativa. Sua frase conceitual de arquitetura o coloca no limite de todas as possibilidades possíveis de serem feitas, além de lidar com o teto de total impotência diante da liberdade. Koolhaas não vai questionar o capital pois é impotente, porém ao construir seu edifício, tudo lhe é possível e o céu é o limite.


A profissão está em contradição, à medida em que houve uma expansão e democratização das universidades no Brasil, massificou-se o número de arquitetos. Assim, se a alguns anos tínhamos uma profissão com um certo controle social e econômico da entrada de novos nomes no campo de trabalho, hoje esta entrada está sem controle claro. A discrepância é que, esta massa de arquitetos não se encaixa no modelo hegemônicos da arquitetura ícone que produzem os Koolhaas da vida. Estes arquitetos seguem muitos deles periféricos, pobres e apartados da dinâmica do ofício.


A crise piora à medida que os modelos de empregabilidade derretem. Hoje o padrão é o desemprego e a luta pela sobrevivência. Você pode ser arquiteto ter um projeto hoje e ter que fazer viagens como uber amanhã para fazer o ganha pão. Cada dia mais, o novo mundo do trabalho gera novas relações também de título. Como se entender um arquiteto se seu trabalho é dissipado entre outras tarefas?


O mundo profissional costuma estudar os ícones por parâmetros diversos, crítica ao design, olhar estético, conceito, programa, paradigma. O buraco mais embaixo, porém, está na discrepância que há entre um CCTV (de Koolhaas) ter um custo de U$S 735 milhões de dólares em 2012, enquanto a massa trabalhadora enfrenta um mercado onde se encontram projetos prontos na internet por 30 reais. Esta é a realidade de imensa parte dos profissionais de arquitetura hoje (e não só de arquitetura), cujo sustento é totalmente inviabilizado por um processo material que não considera a profissão como algo de massa, como política de estado, mas apenas seu recorte de item de luxo.


Em épocas de pandemia e crise econômica, esta discrepância fica ainda mais acintosa e acirrada. Mesmo que o mercado se aqueça, possivelmente o capital já terá mudado a chave da precarização para outros pólos. A massa de profissionais tenderá a seguir aumentando à medida que novas universidades abrem cursos, e o sistema exclusivista chegará em um ponto de supersaturação.


Urge retomarmos o conceito de produção para todos. Ver a qualidade técnica e construtiva da caneta BIC ou de um copo Nadir Figueiredo, dois feitos do design e pensar, porque não podemos retomar este princípio em arquitetura? Não significa fazer arquiteturas de carimbo ou algo do tipo, mas sim tentar traçar um princípio: o trabalho que eu faço é embebido no desejo de exclusividade ou no interesse dos povos? Nisso os laureados Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal me parecem mais interessantes que Koolhaas, não tão onipresentes porém potentes. Não que eu considere louvar ícones algo interessante, apenas acho interessante tecer críticas e reflexões.


Imagem extraída de : https://klaustoon.files.wordpress.com/2014/07/clog-rem-its-not-easy-being-kool.jpg

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A saída tem que passar pelos pobres

Estamos diante dos piores momentos da pandemia. Em grande parte construído pelo desajuste e escolhas políticas erradas de Bolsonaro. Um ano de pandemia, perdemos muito tempo em disputas negacionistas e pouca ação concreta unificada. E sim, imensa parte disso tudo está na incapacidade do presidente atual se posicionar como se estivesse em uma guerra contra tudo contra todos, da ONU ao meu vizinho, qualquer um parece ser inimigo latente do Bolsonaro.

A saída bolsonarista, ao gritar a bravata de que a economia não pode parar, ao fechar possibilidades de seguridade social e ao tencionar que os mais pobres sigam trabalhando, aprofunda a crise da doença e perde o principal ativo para o país, seu povo que morre ou que sofre pelas perdas de familiares. Sua política lembra uma leitura contemporânea de eugenia, entrega a coletividade de braços abertos para a doença, e nós que tenhamos a sorte de não morrer.

Se o Lockdown era uma realidade necessária no início, hj se torna crucial. Porém há um embate material que devemos realmente considerar, o Lockdown não se resolverá por decreto ou lei, não sairá de cima para baixo sem campanhas de orientação e sem uma estrutura material de apoio.

Em meio a imensa crise humanitária, e sendo parte desta crise econômica, esta tem que estar na nossa pauta de solução também. 

Dizemos: temos de fechar bares e restaurantes! Mas não damos estrutura social para garantir aos mesmos a manutenção da vida de seus funcionários e donos.

Dizemos que não se deve abrir a escola antes da vacinação, mas não planejamos a inserção dos professores como prioritários para a vacinação. E não planejamos alternativas anticapitalistas de educação emancipadora capaz de contrapor os modelos “EAD” apresentados.

O país precisará construir um plano completo, não há dúvida, a pandemia irá perdurar por um bom tempo no Brasil. A crise econômica irá se expandir e isso depende de um projeto, que não será simples de agradar a todos como em tempos de vacas gordas. É imprescindível termos em mente, o Brasil de 2023 imerso na crise global e humanitária a construção das saídas precisam ser abertas o mais rápido possível ao debate popular para que sejamos capazes de construir para além do roteiro publicitário e midiático. 

As disputas de poder, de bastidores, conversas de eminencias pardas, não são tão prioritárias, o foco a meu ver é a materialidade de como produzir em meio ao caos a mudança que nos tire da queda livre em que estamos. 

Criar formas de amparo e sustentação dos pequenos e médios comerciantes via recursos públicos por exemplo pode ser um meio de girar a saída, assim como criar protocolos e orientações que facilitem o funcionamento destes (que podem atuar com entregas a domicílio por exemplo, entre outros). Por que não abrir linhas de crédito emergencial ou fomento para pequenos e médios negócios? 

Pra romper o aprofundamento da crise também precisaremos de novos pactos, como exemplo investir pesado no sistema de pesquisa e tecnologia. Investimento deste porte poderia nos inserir novamente no circuito de países que têm capital humano de qualidade para produção de saberes. 

Retomar investimento em softwares livres (uma luta que parecia perdida mas começa a dar sinais de querer voltar vide o caso do INRUPT), lutar por quebra de patentes em saúde e quaisquer itens imprescindíveis à vida humana na Terra. 

Tornar eficiente a gestão nacional de dados nacionais, repactuar a relação entre o sistema privado e o sistema público de saúde, é inaceitável passarmos o que estamos passando: leitos de UTI do sistema privado, por exemplo, não serem unificados ao do sistema público em meio a pandemia e diante de uma fila de doentes.

Se não tudo, ao menos a educação integral e a saúde deverão ser prioridade universal e pública, com olhar especial para os ciclos básicos e fundamentais do ensino e para a saúde preventiva. Esse é o investimento robusto que deixa um verdadeiro legado por séculos de gerações.

E o principal para o momento: Criar uma estrutura de seguridade social robusta capaz de implementar a renda mínima universal e uma aposentadoria que garanta dignidade. Lembrando que estes Programas, cujo conceito e necessidade de existir é considerado por pensadores de diversas vertentes políticas, dos progressistas até pensadores apreciados pela direita conservadora.

Assim, não bastará ao futuro, que o pacto seja com grandes empreiteiras criando uma massa de pleno emprego embasada na construção civil, ou com bancos em pró de crédito para criar uma massa consumidora. Por mais que este caminho possibilite massificar empregos e algum bem-estar social, não há saída que se sustente só por aí. Muito menos pactuar acordos de apoio e não violência com os poderes milicianos instaurados e que hoje dominam inúmeros territórios expulsando os sistemas do Estado de Direito deles e se constituindo como Estado paralelo.

Qualquer lugar que tenha recurso escasso, como o que esta crise do capital nos impõe, sabe que as escolhas políticas terão de ser muito bem ajustadas e acertadas e sabe que não dará para cobrir a todos. Resta a nós entender qual é a prioridade de cobertura. A meu ver, devemos pactuar com os mais pobres prioritariamente. Construir, não mais uma ascensão do bem estar baseada em consumo, mas sim baseada em capacidade de produção, saber técnico, conhecimento científico, entre outros. Os ricos irão chiar (não falo da classe média), mas é melhor que doa nestes um pouco para o bem de todos os que não tem fuga ou privilégio.

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texto aumentado a partir do postado originalmente em:

https://twitter.com/rodrigobertame/status/1368483615311601667

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Qual o valor da terra? algumas ponderações

Quando o Brasil era Império toda a propriedade era do Rei. No fim do império, como se definiu o sistema de propriedade e posses? Em que momento esse sistema ganhou valor monetário? Quem enriqueceu com isso?

Quem liberou as primeiras terras, e onde se iniciou a linha de heranças dos grandes donos do Brasil? Não dá pra discutir um projeto de habitação ou distribuição social com um mínimo de equidade sem tocar na ferida que não sara: o valor da terra (urbana e rural).

Uma nota de reflexão: Em um dado momento da história a família brasileira media sua riqueza pela quantidade de pessoas escravizadas da qual era proprietária. A terra era um detalhe que se inverte com fim da escravidão por um lado, e alguns anos depois a promulgação da lei 601 de 1850 sobre as terras devolutas do Império, que permitia a aquisição de terras via sistema de compra e venda.

Em um prazo curto de tempo, o valor se esvai do corpo negro escravizado. Corpo este que já havia perdido o valor enquanto ser humano a pelo menos 300 anos, agora perde qualquer forma de valor social. Em um dos processos materiais e subjetivos mais violentos e que dura até os dias de hoje, a riqueza sai do corpo negro para a terra.

retornando…

Uma das feridas que o país precisa tocar está aí, devemos levantar quem são os donos da terra. Entender como se tornaram donos. Depois entender porque o valor da terra-brasil é como é e o que isso reflete na distribuição espacial da população em geral. Para aí então, reformularmos a organização espacial do país.

Temos nas cidades (em especial cidades de caráter mais global) uma infinidade de imóveis vazios que permanecem fechados, valendo verdadeiras fortunas. No Rio por exemplo, temos bairros inteiros bem infra estruturados que foram esvaziados pelo processo de especulação imobiliária de outros bairros e por aí vai.

Precisamos responder o porque de bairros com infraestrutura similar tem discrepâncias de 50% ou mais no preço dos imóveis (também similares). Precisamos responder porque o Sarney é dono de territórios do tamanho de um país, e muitas outras respostas.

A gente não mora porque é cidadão do município tal, a gente mora porque (e se) tem dinheiro x que nos permita morar no lugar y. O abismo que separa os Jardins de Diadema ou o Leblon da Maré é imenso e repleto de lastro histórico mal resolvido. No caso do Rio, vale lembrar que a Maré está tão perto do centro da cidade quanto o Leblon.

A quem não é herdeiro, a renda mensal do salário se torna a base de cálculo do direito de morar, e quanto menos renda, mais dificuldade temos pra habitar.

Um apartamento tipo em Copacabana custa quase dois milhões, um similar na Vila da Penha custa 300mil, na Tijuca 600mil e uma laje na Indiana custa 30mil. Para que a maioria seja comprado é necessário passar por um filtro simples que envolve basicamente ter um capital inicial considerável e ser aprovado pelos credores (em geral bancos e sistemas financeiros que são os donos do imóvel até você quitar a dívida). Latifúndio não consigo imaginar como se compra.

Quem mora de aluguel ou quem mora na favela sabe que a dinâmica é totalmente diferente do que se vê nos anúncios e imóveis. Assim como há diferença entre os latifúndios da família ACM ou as agroindústrias frigorificas e as rocinhas embaixo das redes de transmissão da light na divisa entre a Vila da Penha e Vicente de Carvalho. Neste caso não sei nem vislumbrar a diferença pois nunca vi latifúndio sendo vendido na OLX.

Como resolver?

Sinceramente, não vejo disposição de diálogo entre as estratificações, sejam os donos do poder que brigam entre si em aparentemente dois tipos de projetos, um nacional desenvolvimentismo precário que só abraça meia dúzia de setor contra um entreguismo internacional em ambos a cadeia de capital, renda e bens de produção se caminham com grupos de pode gringos.

Também vejo pouco movimento em uma classe média (termo meramente ilustrativo) que segue mantendo pequenos privilégios, independente de ser direita ou esquerda, pois as duas acabam por manter a estrutura funcionando. Dos mais progressistas aos mais liberais, se contentam com o diálogo que traz migalhas, seja em forma de editais e outros meios que são afeitos aos que caminham em ciclos bem relacionados de poder (não falo só de governo).

De outro lado temos os mais pobres, despossuídos de propriedade, com renda vulnerável, onde a vida se torna o imediato, pois o futuro só Deus sabe e as vezes pode dar merda nesse futuro, acordar e descobrir que teve um parente baleado, entre outros. Não adianta muito o pobres subir na vida (ser um dos poucos que terá a sorte do dinheiro) ele vai seguir sendo pobre ou no mínimo exótico dentro da classe média, e seguirá invisível para os Sarneys, Eikes e Véios da Havan da vida.

O pobre é o sertanejo Manoel de Glauber rocha sacaneado pela cruz e pela espada, um Macunaíma subversivo que num tem que ser cordial com ninguém que não mereça, Jojo Todynho que incomoda quando faz sucesso cantando funk ou ganha a Fazenda.

Jojo ganha dinheiro e não é formada em nada! – diz o povo indignado, mesmo povo que nunca perguntou a profissão do filho de alguém que passa o dia todo jogando vôlei e surfando. Este filho de alguém sai na revista Caras quando era entrevistado pelo Amaury junior, justificava a vadiagem com a resposta clássica: \”Tenho uns projetos\”. Enquanto isso pode viver como herdeiro, muitas das vezes herança que começou em algum momento lá atrás quando nasceram os grandes donos das terras do Rei. São muitos os códigos que estratificam. Essa classe média é tão invisível para os Sarneys da vida, quanto o Cesarão é para esta classe. Quem mora no Cesarão, mora porque? como conseguiu construir, comprar, alugar, trabalha, estuda? Quem mora no Cesarão sai na revista caras (nem sei se a revista existe ainda)? O Cesarão existe no mapa? Porque ele não foi construído na Avenida Lúcio Costa? Quem mora no Cesarão é filho de quem? será que o bisavô conheceu o Rei?

Quem mora no Cesarão não pode se dar o luxo de ser parado pela polícia e responder a pergunta sobre o que faz da vida com a frase: Tenho uns projetos.

E pensar que o Cesarão foi fruto de uma política habitacional, cujo primeiro equívoco, a meu ver, foi tentar resolver o problema de moradia sem mexer na questão da terra.

foto retirada da página de facebook: Santa Paciencia


Cesarão- Santa Cruz-RJ
O Conjunto Otacílio Camará foi inaugurado em maio de 1981, feito para atender famílias de baixa renda(não foi remoção) ele atendeu diversas famílias de trabalhadores da Extinta TELERJ.
Foto- Pedra azul- BN
Data- Junho de 1981
Pesquisa- Guaraci Rosa



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Entre o espaço e o tempo fiquei me perguntando: qual o lugar do tempo?

No corre da vida fiquei tentando vislumbrar isso. Fui dar uma busca no campo da física, por ali, o nosso sentido de espaço já diz pouco, ao que parece no universo as relações que na Terra são coerentes não o são no espaço.

Por ali entendi um pouco mais sobre o conceito de tempo também como um conceito de transformação. Acho que nos acostumamos demais a pensar o tempo a partir do relógio, desmontar isso foi importante. Comecei a remontar e certas coisas passaram a fazer mais sentido. Quando os textos bíblicos (do tempo do bronze) diziam de homens de 400 anos, onde no máximo fariam sentido homens de 30, ou sei lá jornadas de 40 anos que poderiam ser feitas em dias. Se a gente para pra pensar o sentido de tempo daquela época, o paradigma girava em torno dos solstícios e a eternidade. Porque gastar energia construindo Stonehenge, ou as pirâmides de Guizé? provavelmente não caiba nos dias de hoje.

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O mundo moderno e seu relógio e sua fábrica nos colocou na jornada diária, que também é pura convenção, se a gente sai do planeta Terra a jornada diária (uma volta da terra em torno de si mesma) perde totalmente o sentido. Aí voltei pra física e sua dobra no espaço-tempo que nem sei se cabe entendermos com certeza, mas pra viver na Terra basta pensar que o tempo não está dado como pensamos dentro de uma representação do relógio.

Numa entrevista com o professor Mauricio Javier (posso por o link aqui) ao questioná-lo sobre surgiram temas muito bons. Ressalto que o professor é colombiano, embebido na visão de mundo dos povos originários da América Latina. Cito dois momentos:

Momento um: quando ele diz que aprendeu com um membro de um povo originário sobre o tempo: o indígena lhe disse que pra eles só existe o presente e que o futuro é o passado que está a frente.

Momento dois: quando ele passou outro lapso de experiência de vida que achei interessantíssimo compartilhar.

Em meio ao extremo cansaço em que passava numa virada de noite fazendo um projeto, ele dormiu na prancheta. Diz ele que foi um cochilo de meia hora, porém nesse cochilo ele teve um sonho lúcido que durou OITO horas. Neste sonho ele projetou, fez todos os desenhos necessários tudo certinho. Quando acordou (óbvio que não tinha o projeto pois teria ficado no sonho) e após ele ter ido a classe no dia seguinte, conversou com os amigos e contou o sonho, e os amigos entraram na onda de desenhar o projeto que ele tinha feito durante o sonho.

Em 1998 Ryutaro Nakamura trazia a nós uma leitura futurista, em seu anime (que pra minha geração seria chamado de desenho japonês, mas o tempo já mudou isso) Serial Experiments Lain uma percepção importante no espaço-tempo. Quando uma espécie de rede mundial de internet está inserida no cotidiano, a separação entre o virtual e o real se torna cada vez mais difícil e complexa de lidar.

Quem precisa de um corpo quando se pode ter todos os dados do mundo? Porém ter todos os dados do mundo ou a onisciência não fazem de você um Deus se não tiver ninguém que o reverencie por isso. “Eu nunca vi você, como você diz que me conhece? [A resposta]: isso foi sempre um fluxo de informações e toma sempre novos rumos”. Estas são algumas das questões lançadas nesta obra cujo protagonista é um ente dúbio entre ser uma criança e ser uma inteligência artificial programada pela rede. O autor deixa de forma clara e instigante na abertura da trama que esta se passa no presente e neste instante. A cidade é a cidade do nosso tempo com seus postes de iluminação e cabos, e o complexo emaranhado de dados da rede mundial de internet também o é.

Saindo da arte ficcional e retomando alguns acadêmicos, David Bohm traz uma alegoria interessante ao apresentar que a semente por si pouco pouco contribui para a substancia material de uma árvore, que em última instancia vem da terra do ar da água, entre outros, cabendo a semente o elemento da informação que dirige este crescimento, o DNA. O Crescimento da planta retrata um sistema de transformação contínua das substâncias materiais do espaço onde ela está inserida (a nós esta é a parte que importa refletir para o momento). Transformação é uma boa palavra pra tentarmos encontrar uma alegoria para o tempo.  

Paul Virilio foi certeiro quando trouxe para o espaço físico (do nosso planeta) o paradigma do tempo e quando aponta a nossa dificuldade no cotidiano de entender o tempo contínuo. Em nosso cotidiano o tempo só faz sentido, só é vivido se for tempo interrompido (segundo ele) e é nesse momento que a gente enxerga o acontecimento. Um relógio são micro interrupções sequenciais, podemos pensar. Dentro deste prisma que entendemos porque não somos capazes de perceber que estamos mais velhos num recorte de horas ou minutos, mas percebemos nitidamente quando, já adultos, olhamos uma foto nossa de criança. Também dentro deste prisma que se torna muito difícil perceber o tempo instantâneo no qual caminham os fluxos de dados da internet por exemplo.  

Paul Virilio insere o tempo no espaço construído, considera ele que além da matéria, o espaço implica a “profusão de efeitos especiais  que afetam a consciência do tempo e das distâncias”. Em alguma mesa perto estava Cacciari compreendendo que os edifícios se tornaram acontecimentos, assim como a terra, água, ar, sol, semente se tornou um jequitibá.

E o espaço? Se o espaço é um recorte limitado em uma duas ou três dimensões, medido em alguma ordem de valor – chutemos o metro como exemplo.

Alguém lhe pergunta: Você vai na aula hoje? fica lá no outro prédio.

E você prontamente responde: Vou sim, chego em 15 minutos. (cadê o metro?)

E quando a aula é virtual e a sala que estava lá agora está no seu telefone, no seu bolso e o tempo entre a informação sair de lá chegar no satélite e retornar ao seu telefone é tão instantâneo que o espaço virtual fica parecendo um buraco negro?

Esta talvez seja a grande crise, a próxima jornada ou a jornada presente não está mais sendo dada por um dia (uma volta em torno do sol), mas pela instantaneidade das redes de comunicação. E este tempo já não é tão simples e confortável do corpo captar como antes.

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Da uberização do sindicalismo ao cyber sindicalismo: provocações.

 Neste dia 31 de agosto saiu uma matéria no portal outras palavras intitulada  IBGE retrata esvaziamento dos sindicatos no Brasil . Ao apresentar os dados do PNAD a matéria demonstra a queda massiva, em especial ocorrida a partir de 2017, quando houve a grande mudança nas legislações trabalhistas.

Os dados apresentados podem, e devem ser vistos e lidos com a compreensão do tamanho do desmonte dos sistemas de proteção do trabalhador. Porém para um olhar mais rigoroso e aprofundado, precisamos acrescentar outros elementos à questão.  Para a melhor compreensão do que temos a nossa frente tentemos desmontar um vício: o olhar institucional perante o sindicalismo. Talvez esse seja o erro da matéria em questão, ela foca no campo institucional e não no sentido real das lutas que fazem o chão deste campo.

O sindicalismo que conhecemos hoje tem bases predominantes, e teve seus maiores avanços entre o intermédio final da ditadura militar e a reabertura democrática. Foi elemento importante na construção do Partido dos Trabalhadores, e de diversas outras lutas. Talvez seu apogeu de representação tenha sido a eleição de Lula, um sindicalista a presidência da república.

Este tipo de sindicalismo por sua vez se referenciava a um determinado escopo de lutas trabalhistas, a um determinado quadro de modelos de trabalho que foram vigentes durante aquelas décadas e que paulatinamente foram sendo desmontados mediante as inúmeras mudanças conjunturais enfrentadas mundo a fora. A automação fabril e a entrada em peso das telecomunicações, junto a grande urbanização do mundo trouxeram novos elementos para as frentes hegemônicas do campo do trabalho. as mudanças na organização global da indústria, a automação (que chegou na chamada indústria 4.0) entre outros fatores desmontou imensa parte da necessidade de mão de obra neste setor na maioria dos países. Não falo com isso que há um fim de postos de trabalho mas uma transformação do mundo do trabalho, que modifica a geografia deste mundo. 

Em tempos recentes, o campo do trabalho cruzou uma nova fronteira de ruptura. O que chamamos hoje de uberização, é resultado de um processo histórico contínuo de avanços tecnológicos que foram inseridos em nossa vida cotidiana. Um marco paradigmático das mudanças que vivemos se dá no lançamento do famoso algoritmo da Amazon, que modifica nossas buscas fazendo uma simples leitura de percepção da probabilidade de gostos e desejos. Se antes você comprava um livro de ciências, e os sistemas indicavam outro livro de ciências, agora, com base em dados fornecidos, a probabilidade de você comprar um livro de ciências x e se interessar por um de culinária y é muito maior. Estamos falando aqui de um sistema de aprendizado de máquina que foi inserido na massa do povo por volta de 2004, isso é temos pelo menos 16 anos de aprendizado sobre cada clique nosso. 

A chave do que discutimos e vivemos atualmente é a capacidade de se instituir sistemas de confiabilidade que geram elos assertivos (em escala cotidiana) entre desejos e demandas e não necessariamente entre oferta e demanda (claro que sem excluir a relação oferta e demanda da pauta). Este debate não é novo, as leituras marxistas sempre inseriram a questão, de Marx a Foucault, Benjamin, Bourdieu e muitos outros cada qual com suas leituras, tendem muito a acrescentar a este debate.

O boom do modelo de negócios que gira em torno de algoritmos e aprendizado de máquinas amplificou as novas relações, antes difíceis de serem lidas. Se por um lado um sistema fabril fordista você tinha um nome forte, um Patrão (Padrinho, Patrono) o pós-fordismo avança o modelo de exploração substituindo o Personalismo do Patrão por um corpo jurídico e pela financeirização do dono (as sociedades anonimas). Hoje, estas ainda residem porém sua face está cada dia mais invisível. A hiper-exploração dos entregadores de aplicativos é um exemplo deste modelo. Um motorista (esteja ele desempregado ou empregado) pode baixar um aplicativo de oferta de veículo e operar semelhante a um taxi, um entregador não precisa mais estar vinculado a uma empresa local. Sua força de trabalho é explorada por uma rede de aplicativos de entrega (das mais diversas), que atuam sem rostos e sem personagens, apenas hubs e algoritmos e tem confiabilidade nas massas para tal.

Tendemos a reduzir a uberização a uma precarização do trabalho formal, o que a meu ver é um equívoco. Talvez pudéssemos falar isso sobre a pejotização que atua como uma precarização do celetista. A uberização é um modelo diferente de exploração do trabalho e que precisa ser aprofundado como tal. O conceito de precarizado portanto é importante a medida em que nos auxilia na compreensão de como cidadão opera diante de um quadro de escassez, mas não resolve por si só os instrumentos e modelos sob os quais o trabalho acontece e é explorado em nossos tempos.

O novo rosto do trabalhador urbano está dado em um tipo de exploração onde o trabalho se torna um elemento difuso e complexo. Nem todo entregador ou motorista de aplicativos estará na mesma condição: uns o fazem para complementação de renda, outros fazem pra garantir a vida, o sustento, há quem faça sazonalmente simplesmente pra pagar o carro ou outro bem. São muitas as faces do explorado. Ao mesmo tempo, se torna mais complexa e sutil a relação do exército de reserva. Se em outrora esta base estava na longa fila de uma vaga de CLT, hoje se encontra com o aplicativo ligado a espera do bip da chamada, ou com o celular ligado a espera do telefonema para o “job” ou o “freela”. 

Se antes falávamos com certa tranquilidade em carreira, salários e planos de carreira, na década de noventa isso foi substituído por flexibilização e empregabilidade e hoje em dia nem mais palavras há que defina com certa clareza as múltiplas atividades que podem compor o dia de trabalho de um só cidadão. Também se antes os homens operavam as máquinas, hoje as máquinas (via aprendizado automático) operam os homens. Isso não significa que os homens não tenham como parar esta máquinas, a greve dos aplicativos mostrou que é possível resistir, a medida em que a luta se viralize por dentro das mesmas máquinas, uma greve P2P onde tanto o entregador parou quanto o consumidor se mobilizou no combate a exploração dos aplicativos A ou B.

Vale lembrar que com a pandemia todas estas lutas ganham outros contornos e tons que ainda não temos como prever com certeza, mas já podemos traçar algumas linhas a partir da hiper recessão e da percepção por parte do sistema de como a renda básica universal pode se tornar um elemento de equilíbrio para o mesmo.

Este é o eixo do debate. Retomando: se entendemos que um sindicato é uma associação de trabalhadores que tem como premissa defender seus interesses e direitos e defender sua cidadania, entenderemos que são os modelos de exploração do trabalhador que definirão os modelos de ação ou sentido de um sindicato. E neste sentido estamos no grande laço de hoje.

Um dos grandes problemas do sindicalismo vem deste anacronismo temporal. As lutas sindicais que operam na busca de um passado que já não retorna apontando-o como o futuro, não encontra liga social suficiente no presente para se manter. O grande erro ao seguir esta linha é que tentamos enquadrar o trabalho nas lutas sindicais cristalizadas e não as lutas sindicais ao novo mundo do trabalho. O que é muito passível quando perdemos o sentido do que significa um sindicato, nos aprisionando em seu caráter institucional, como a própria matéria do outras palavras o faz, sua análise é puramente institucional: perda de receita de uma instituição mediante a mudança conjuntural, funcionaria para clubes de bairro, associações da sociedade civil ou escolas de dança de maxixe.

Este reforço é o que precisa ser claro: as lutas sindicais não nascem antes do trabalho, mas em consequência dele e se reorganizam conforme o campo de exploração do trabalho se reorganiza. 

Precisamos de um Sindicalismo novo, que seja capaz de contemplar as novas formas de exploração, divisão e organização do trabalho na sociedade. Talvez ele nem venha a nascer de dentro do modelo de sindicalismo vigente, talvez ele nasça de outras relações, mas isso só o tempo dirá. A uberização do sindicalismo não significa seu fim, mas sua necessidade de transformação.

Podemos falar em sindicalismos selvagens, podemos falar lutas sindicais, intersindicais, cybersindicais, biosindicais e muitos outros neologismos para nos fazer pensar a respeito da amplitude do novo campo das lutas que chegam até nós no campo do trabalho. E em nenhum deles a questão classista se exclui, provavelmente se torna mais visceral, mais a flor da pele.

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Pobreza e Desigualdade – Reflexões para os tempos de Escassez

Em notícias recentes (IHU e OHNCHR) Philip Alston, relator especial sobre pobreza extrema e direitos humanos alerta sobre os riscos de aumento alarmante da desigualdade social diante da pandemia. O relator por sua vez considera que uma das maiores contribuições para tal deve-se a escolhas de políticas de Estado cuja ação prática se configura em priorizar os interesses econômicos dos mais ricos em detrimento dos mais pobres.

Alston alerta para duas questões que são muito caras a nós: a escolha política por práticas que caberiam em um processo de darwinismo social, em resumo, diante da maior crise econômica, climática, e agora sanitária/humanitária, o relator lança como crítica que houve falta de ambição para erradicar a pobreza e complacência das instituições internacionais para medir a redução da pobreza (como citam os textos).

Vale lembrar que, o avanço da pandemia e a brusca paragem na roda da fortuna do sistema por sua vez colocou o mundo em outro eixo. Por um lado, dentro do risco de, ao termos a ascensão de governos de extrema direita ao redor do globo, cuja pauta muitas das vezes envolve assumir o darwinismo social como saída. A escolha política desta linha ideológica para o enfrentamento da pobreza passa pela escolha de erradicar o pobre em defesa de uma economia monetária e rentista que o aliena tanto do seu fazer quanto da sua existência como parte dela.

O que o relator nos revela não é algo de novo. Faz décadas que o mundo relata suas grandes crises globais. Tanto a desigualdade social quanto a crise climática já estavam postas a tempos, assim como a crise econômica, que sempre corria disfarçada pelo simbólico do crescimento econômico-monetário. Infelizmente foram poucos os locais no mundo que estimaram combater de frente a desigualdade social, pauta esta que nos é muito cara. Construir sistemas de proteção social e de fortalecimento do fazer comunitário poderia ser a grande base estruturante para resolver inúmeros dos nossos problemas de vulnerabilidades.

Com base no indicie de multidimensional de pobreza apresentado em 2019 pelas Nações Unidas estima-se que 500 milhões de pessoas vivem na pobreza no mundo e cerca de 1.3 bilhão de pessoas vivem em condições multidimensionais de pobreza. Estas mesmas ainda se distribuem de forma desigual pelos globo, tendendo a um peso maior para países periféricos. Vale lembrar que próprio Banco Mundial em 2018 já apresentava dados de que metade da população do globo vivia em condições de pobreza e incapacidade de ter o básico para sobrevivência.

Os dados levantados comprovam a importância de se debater e construir saídas que busquem combater a pobreza de frente. Importa para tal, primeiramente assumir que a pobreza está intimamente conectada a desigualdade e não necessariamente conectada a acesso monetário ou de bens de consumo. Importa tecer esta crítica, e assumir que as pautas de mitigação da pobreza via políticas afirmativas dependem  necessariamente de um conjunto mais amplo de políticas públicas de sistemas da proteção social necessária que devemos consolidar, onde as políticas afirmativas se tornem complementares e também constituintes das soluções.

Ressalto que nenhuma mudança se viabilizará sem um processo contínuo de lutas e emancipação popular. A complacência das pautas que tanto atrasaram decisões fundamentais para mitigação da desigualdade e controle da crise climática se sustentam por uma rede de grandes poderes de elites globais das quais o pobre (maior parte da população) é incapaz de acessar e usufruir. Os ciclos de levantes diversos que vem se organizando pelo globo os mais recentes que se iniciam por volta de 2009, tem demonstrado o indício deste anseio e de que o caminho será as lutas.

A universalização da saúde, da segurança alimentar e da educação deveriam estar nas linhas de frente dos processos de redução de desigualdade. Construir sistemas mais equitativos por sua vez precisariam passar por uma lógica de pensar os recursos que os envolvem por uma outro modelo ético. O enfrentamento que está posto diante de nós é que talvez não seja possível mais pensar a mitigação da desigualdade sem a redistribuição das riquezas e sem a democratização dos sistemas de poder e principalmente, sem as lutas sociais que promovem as conquistas destas mudanças.

Retomando o fio, Alston destaca com preocupação de que as medidas tomadas e o momento de pandemia estejam agravando o processo de desigualdade e super concentrando o poder nas elites globais. Seu destaque é assertivo a meu ver, visto que se os sistemas de mitigação da desigualdade via distribuição das riquezas não foram implementados em tempos de hiperdesenvolvimento da lógica de construção das mesmas, que dirá em momentos como o que vivemos onde a pauta é o limiar da escassez dos recursos que garantem a vida humana na terra?

Uma das capturas do sistema vigente consiste em desmontar as estruturas que garantem as amplas participações das lutas sociais, quando não enfraquece-las a partir da cooptação de lideranças, aparelhamentos, e táticas similares.

Outro elemento que não podemos esquecer das vistas são os dados. Na teia de controle de dados e algoritmos, o homem é levado a se tornar produto a ser listado, cartografado e gerenciado por uma série de algoritmos que hegemonizam globalmente o que vemos não vemos, aceitamos, gostamos ou não gostamos. Se em determinado momento incidimos sobre a propriedade da terra e dela criamos grilhões de desigualdade, depois incidimos sobre a apropriação do trabalho alheio, hoje a desigualdade incide sobre a apropriação de dados.

Ao mesmo tempo em que o mundo global vende a imagem de que não há problema em compartilharmos nossos dados, gostos, curtidas, afinidades, gestos, lugares, sabores, ele opera em impedir que dados referentes a este mesmo mundo de poder e controle sejam compartilhados. Assim, o google tem direitos de fazer várias coisas com o fato de saber que gostamos de torta de maçã, mas não é crítico a prisão política de Julian Assange cujo crime teria sido a exposição via wikileaks de diversos enlaces escusos sobre corporações e governos.

Algumas pautas globais para nossa reflexão:
Ocupação das minorias nos espaços de poder

Uma pauta a principio acertada que pode dar alguma brecha de lutas. Porém o caminho não está na saída individual dentro de instancias coletivas já consolidadas nas máquinas dos poderes vigentes. Precisamos consolidar por meio das lutas (pois não virá de cima para baixo este reconhecimento) outras esferas de organização social na participação dos processos de tomada de decisão e gestão.

Neste caso, mais do que ocupar um cargo no poder constituído, a potencia está em instrumentalizar outros espaços de poder. As chamadas candidaturas participativas ou coletivas são uma tentativa deste processo, a construção de campanhas coletivas que assumem publicamente o candidato como o a voz representante de um corpo maior. Outras partes de instrumentos seriam as retomadas das esferas populares de decisão: associações de bairro, de categoria, de cultura, etc.

Porém ressalta-se que a burocratização excessiva deve ser controlada a medida em que ela inibe a real participação dinâmica da sociedade na produção de seu próprio fazer cidadão.

Taxação das grandes fortunas e heranças + renda básica universal

O duo taxação das grandes fortunas e heranças + renda básica universal podem proporcionar um campo da redistribuição monetária, alimentar o mercado de produção e consumo de bens e serviços, gerar melhor condição de democratização do conhecimento. A substituição do acúmulo travado pelo dinheiro circulando, pode capitalizar minimamente os mais pobres, garantindo um elemento de proteção social, pode melhorar a economia de varejo em escala global e por sua vez garantir o giro do capital, além de aumentar os recursos governamentais.

É um equívoco pensar e propagar o binômio monetário acima como entrave. A redistribuição de renda permitiria a injeção desta na economia e por sua consequência o retorno de recursos para os sistemas públicos, assim como o retorno de lucro para os donos dos bens de produção.

Junto a isso deve-se elaborar planos de recuperação econômica que priorizem os trabalhadores em risco, trabalhadores informais e desempregados. Criar mecanismos de proteção e crédito a micro, pequenas e médias empresas, negócios locais, familiares e similares.

Aumento de recursos públicos no poder público

Precisamos de uma ação radical em escala global com rebatimentos para as múltiplas escalas de territórios. É preciso assumir que Educação, Saúde, Seguridade Social, Habitação, lazer entre outros são direitos humanos inalienáveis. Pensamos assim uma economia cuja base de crescimento não seja o PIB. Precisamos elaborar uma nova base de valores para a construção da esfera pública, baseada na conservação máxima do meio ambiente, garantindo sua biodiversidade, reduzindo a propriedade privada de terras em troca da recuperação de biomas, atuando com os investimentos em setores estratégicos a vida como os já citados acima e promover a redução excessiva do consumo de supérfluos.

A visão multidimensional da pobreza passa por estes atributos. Devemos ter a compreensão de que são valores acima de qualquer questão, e que devem estar fora das lógicas de mercado e financeirização.  Precisamos construir instrumentos que redistribuam o poder de voz e ação sobre planos e projetos, traze-los de volta a sociedade civil. Conselhos de bairro e de rua podem organizar junto a corpos técnicos e políticos as melhores estratégias e encaminhamentos para seus territórios.

Produzir ações integradas que consiga operacionalizar de forma planificada nacionalmente (para economia de recursos e para garantir o olhar sobre o todo). Criando instancias autônomas, células de gestão local capazes de garantir do diagnóstico ao projeto, do projeto a concretização, da concretização a auto-avaliação e crítica pós execução.

Este é o melhor instrumento para produzirmos uma saída equitativa que consiga se confirmar estruturante socialmente e garanta minimamente economia de recursos em meio a escassez.

Redes de Confiabilidade

Precisamos retomar o fazer coletivo popular, reconfigurar em quem damos crédito. O estranho que deixa de ser estranho quando está sob a marca de um aplicativo.

Um dos grandes sucessos das corporações de controle e captura de dados está em sua capacidade de operar como um espaço. A empresa não é protagonista direta das ações, apenas espacializa e scaneia as ações que acontecem na suas plataformas. E nós utilizamos das mesmas devido ao grau de confiabilidade que temos nestas. Grau este construído por um sistema complexo de marketing em nível global e de confiança social a nível da rede de usuários. Não é necessariamente o app de automóveis particulares que nos faz confiar, mas o fato de conhecermos uma rede de amigos que ou utilizam e gostam ou trabalham para estes aplicativos.

Por este motivo notamos que a noção de disrupção digital quando entendida como processo de otimização por meios de tecnologias que garantam maior aderência a um público maior não garante a redução da desigualdade social. Isso a medida em que o protagonista de uso dos sistemas não é quem realmente tem o poder ou a voz.

A confiabilidade é um instrumento que precisamos recuperar para lidar com as lutas. Muito temos falado sobre o avanço do fakenews como instrumento de crescimento do conservadorismo, mas pouco falamos do outro lado da moeda: o sincericídio estampado nestes. Há uma angústia popular que busca e valoriza as posições sinceras, mesmo que das mais absurdas, isso parece gerar um efeito de confiança em meio a incertezas. Nas margens do sincericídio e da crise das representações, tem crescido as forças de extrema direita.

Retomar o rumo da confiança, mostrar a nudez das lutas, das limitações e das contradições que se estampam nelas. Ainda que crua, a história precisa retomar a si como é, comungar os erros e acertos e não arriscar-se ao enviesamento como saída. Um exemplo recente e fundamental ainda dado em apps: A luta dos entregadores de aplicativos trouxe o resultado deste complexo de confiabilidade. Conseguiram organizar um dia de luta em escala nacional e obtiveram como resultado adesão popular suficiente para derrubar significativamente a nota de diversos aplicativos de entrega.

As lutas são cada vez mais interseccionais, plurais e múltiplas

Os pobres são a força motriz do mundo. Estes são plurais em crenças, ideologias, filosofias, desigualdades. Não há mais escala no mundo que consiga compor os pobres em bandeiras que não reflitam todas as contradições nelas existentes e busquem o mínimo elo comum nas lutas.  As estruturas de representação se tornam abstrações para as angustias dos pobres a medida em que elas se transformam no encastelamento dos mesmos.

Diante de uma elite global que tenderá a se fechar ainda mais na desigualdade e somando ao programa de desmonte dos sistemas mais coletivos de participação e decisão popular que vem sendo implementados desde a hegemonia neoliberal (não que isso só ocorra nela).

Assim, temos de nos preparar para um mundo onde os caminhos da desigualdade tendem a se tornar mais extremos e a construção de lutas comuns mais dificultada pela fragmentação social. Desde meados dos anos 90 do séc. XX,  tendíamos a lutas com certo grau de aberturas e conveniências de convívio mútuo entre diversas forças, desde ONGs a agentes comunitários até alguns grandes financistas mundiais que tencionavam a necessidade de controle da abstração do sistema financeiro, os anos que seguirão pós 2020 podem nos colocar em condições mais radicais e pautas mais selvagens.

Governos mais reacionários, organizações da sociedade civil tradicionais limitadas pelos cristalizados processos de alienação, cooptação e distanciamento das camadas sociais. Novos levantes de organização social surgem sem um corpo central em lutas locais porém que tem veios demarcados com agendas globais. No mais, seremos capazes de construir uma agenda comum das lutas dos pobres em meio as múltiplas lutas que já traçamos atualmente?

No século XX em meio as ebulições das libertações do continente, Kwame Nkrumah discursava:

                    “Atualmente, existem cerca de 28 estados na África, excluindo a União da África do Sul, e esses países ainda não estão livres. Nada menos que nove desses estados têm uma população inferior a três milhão. Podemos acreditar seriamente que as potências coloniais fizeram com que esses países fossem independentes, estados viáveis?

                     O exemplo da América do Sul, que tem tanta riqueza, se não mais do que o norte América, e ainda permanece fraco e dependente de interesses externos, é aquele que todo africano faria bem em estudar. Os críticos da unidade africana frequentemente se referem às grandes diferenças de cultura, idioma e ideias em várias partes da África.

                 Isso é verdade, mas permanece o fato essencial de que somos todos africanos e temos um interesse comum na independência da África. As dificuldades apresentadas pelas questões de língua, cultura e diferentes sistemas políticos não são insuperáveis. Se a necessidade de união política é acordado por todos nós, então nasce a vontade de criá-lo; e onde há vontade há um caminho”.

Guardemos as devidas proporções de que as pautas e demandas e condições de possibilidades do mundo contemporâneo sejam distintas às da época de Nkrumah. Seu mais bem sucedido legado que perdura consiste na capacidade de consolidar em um território com múltiplos territórios que se sobrepõem (povos diversos, muitos deles adversários, reinos, chefes, diferentes religiosidades) o sentido de uma busca comum, e um senso de nação. Se não alcançou na dimensão continental como almejava o Pan-Africanismo, alcançou na dimensão nacional do país chamado Gana.

Hoje podemos traçar um Pan-Africanismo que não está nos limites das fronteiras do continente, mas se espalha a cada luta e hastag em que Vidas Negras Importam. Vidas Negras que são subjugadas e assassinadas pelo processo de racismo estrutural, cujo uma das causas e consequências está na pauta da manutenção da desigualdade e por sua vez da pobreza. É pelo comum da pobreza que o jovem branco das periferias por exemplo se encontrará nas lutas antirracistas entendendo-se a si mesmo como parte de quem sofre a opressão.

Vale citar que, no bojo da crítica ao estruturalismo e do pensamento filosófico que embasaria a maior parte das lutas das minorias, Deleuze (um dos críticos ao pensamento estruturalista e um dos pensadores das lutas pelas minorias) apresentava um bom exemplo do seu raciocínio sobre o conceito: “Um cavalo de lavoura possui diferentes afetos em relação a um boi. Mas por outro lado, esse mesmo cavalo de lavoura possui mais afetos em comum com um boi do que com um cavalo de corrida”.

Tentem esconder ou não, o Pobre estará no furacão de todas as lutas que os tempos de escassez trarão. Essa geografia da pobreza e da precarização nas lutas pela vida e pelo fim da desigualdade estarão na pauta, organizadas ou selvagens.

filas carro pipa india covidAumentam filas para pegar água de carro pipa na Índia.

santiago 2020Chile – Manifestações contra políticas de austeridade seguem em meio a pandemia.

RIO, ATO NEGRA LIVES MATTERAlém de enfrentar as crises da pandemia, moradores das favelas no Rio de Janeiro enfrentam o cotidiano de assassinatos e massacres por forças policiais.

 

Algumas referências interessantes:

https://brasil.elpais.com/internacional/2020-05-24/crise-impulsiona-a-retomada-dos-protestos-no-chile.html

https://www.istoedinheiro.com.br/coronavirus-o-problema-que-faltava-para-a-onda-de-calor-na-india/

https://extra.globo.com/noticias/rio/abismo-entre-ricos-pobres-se-reflete-nas-mortes-por-coronavirus-24407597.html

https://www.rfi.fr/br/fran%C3%A7a/20200321-fran%C3%A7a-confrontada-com-o-drama-dos-sem-tetos-expostos-ao-coronavirus

https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/com-numero-crescente-de-favelas-franca-falha-ao-buscar-solucoes-ekpxg9d232uwad5rnudgknsin/

https://g1.globo.com/google/amp/sp/sao-paulo/noticia/2020/07/10/moradores-do-morumbi-pedem-permissao-a-prefeitura-de-sp-para-construcao-de-muro-na-divisa-com-futuro-parque-paraisopolis.ghtml?__twitter_impression=true

https://www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=25815&LangID=E

http://www.ihu.unisinos.br/600784-a-onu-alerta-que-a-covid-19-acelerara-a-transferencia-do-poder-economico-e-politico-para-as-elites-ricas 

http://www.fafich.ufmg.br/luarnaut/Nkrumah-I%20Speak%20of%20Freedom.pdf – Nkrumah speaks of Freedom

http://hdr.undp.org/sites/default/files/mpi_2019_publication.pdf  – Global Multidimensional Poverty index 2019

http://hdr.undp.org/sites/default/files/hdr_2019_overview_-_pt.pdf  – relatório desenvolvimento humano 2019

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Novos ou velhos normais

O Brasil segue sua luta diante da maior crise sanitária e humanitária dos últimos tempos. Se por um lado as camadas da sociedade tenderam a buscar saídas pelo raciocínio nós por nós, por outro lado, o padrão implementado pelo governo busca a cada novo ato ratificar a negação da doença. Esta queda de braço porém começa a dar indícios de chegar no seu limite de estafa.

O projeto do governo demonstra pequenas vitórias, que para a população são grandes derrotas:

A desestabilização popular em relação a crença na doença e aos cuidados a se tomar,

A demora na liberação dos recursos da renda mínima emergencial e os inúmeros processos de falha de implementação,

A não integração dos leitos de hospitais privados no sistema de integração do SUS,

A falta de transparência na liberação dos dados de infectados e óbitos no país,

A tentativa de acabar com a pandemia por decreto.

São estas algumas das movimentações que permitiram ao governo federal investir em seu projeto que a grosso modo se resume em entregar o povo ao revés ou sorte diante da doença. Soma a isso o retorno ao chamado Novo Normal que no Brasil seguirá desvinculado com a redução da curva das doenças. De fato o que mobiliza a ideia de novo normal não é a redução do contágio, mas sim o fato de ter ou não vaga em UTI (como se o Normal fosse estar em UTI).

O Novo Normal tem criado situações das mais escabrosas diga-se de passagem. A ode ao carro por exemplo muito bem representada no sistema drive-thruu implementado por um Shopping Center de São Paulo, que nega completamente qualquer sentido lógico do campo da arquitetura ao instaurar que o Mall se torne carroçável. Em nome de um simbolismo estranho e panfletário o shopping propõe sua abertura extremamente antieconômica. Pense que qualquer mall de shopping não é feito para tráfego de automóveis, seus pisos cerâmicos, sua estrutura fechada com ventilação mecânica recebendo doses de CO2, e o próprio gasto que envolve rodar de automóvel dentro do espaço para fazer pequenas compras. O shopping reflete bem o conceito de quem busca este Novo Normal da economia e tenta inseri-lo nos velhos normais do capital (a hegemonia do carro é um fator simbólico interessante disso).

Não obstante, cito outras situações anacrônicas se seguem, como o retorno dos jogos do Campeonato Carioca, que vem sendo apelidado de Covidão. Vale lembrar que um dos poucos hospitais de campanha que foram construídos no Rio está ao lado do Maracanã. Em um mundo onde as olimpíadas foram adiadas, o Rio deliberadamente considerou importante o retorno sem público do seu já desprestigiado Campeonato Estadual. Enfadonhas partidas se realizam em um movimento protagonizado pelo clube de maior torcida da cidade. Uma triste mancha na história deste clube que no ano anterior conseguiu retomar a simpatia de imensa parte da população mediante suas conquistas nacionais e internacionais. A tragédia se amplifica a medida em que, a cada novo jogo, remetem-se minutos de silêncio em homenagem às vítimas do COVID e manifestações de apoio às lutas antirracistas. Nisso o campeonato segue como um novo normal sem política de mitigação da pandemia, no país onde o perfil da maior parte das vítimas do COVID são justamente as vidas negras pelas quais os jogadores se manifestam.

O novo patamar da história surge com a reabertura dos bares que apesar das regras de segurança existirem, parecem não ser cumpridas. Tragicamente, as aglomerações vistas no Leblon ( um dos endereços das elites brasileiras) são reflexo de um conceito de humanidade que pouco se percebe como parte de um todo. Este mesmo tipo de aglomeração não se restringe ao Leblon. inúmeros bairros que ficam invisíveis aos olhos midiáticos, por não ter a mesma elite nela talvez, passaram todos os dias do isolamento social como se nada tivesse ocorrendo, bares, festas e ruas lotadas não são tão raras para quem mora nos subúrbios por exemplo.

As lutas concretas por sua vez também parecem abaladas, ficamos presos em frentes, tentativas de traçar planos e projetos, sem que houvesse uma saída clara ali a frente. As pautas da construção política parecem ainda viver em função de um Novo Normal que é um Velho Normal, como se muitos de nós tentássemos enquadrar nas soluções das décadas de 90 e no início dos anos 2000 a 2018 os caminhos para um porvir.

Não porém só derrota nas lutas, vemos pequenas vitórias acontecendo a cada nova rede, encontros, saídas pelas múltiplas conexões, que vão de fãs de kpop a entregadores de aplicativos, mas que dependem de que os próprios muitos movimentos e redes se tornem mais orgânicos na sociedade. A saída a meu ver vai passar pela heterogeneidade deste modo antigo de se organizar as lutas misturado com as novas formas de lutas, em um campo onde as novas formas se tornam a cada dia hegemônicas. A saída a meu ver não passaria por escolher potencializar novos atores sociais, politizar youtubers, e nem apenas o famoso retorno às bases. A saída política passará por entender que estrutura é esta que permite estes espaços de luta e atravessarmos por estes espaços onde a lógica do influencer e a lógica da construção de base consiga delinear os campos de lutas.

Neste sentido vimos nascer:

Lideranças Insurgentes e orgânicas dos lugares atuando na construção de redes de solidariedade nós por nós,

Lutas antifascistas puxadas por torcidas organizadas de futebol,

Entregadores de aplicativos organizando greve nacional contra este sistema contemporâneo de exploração do trabalho,

Digital Influenceres assumindo papel de opinião engajada e ativista,

Fãs de Kpop articulando via redes o esvaziamento de comícios,

etc.

Constituir um Brasil não polarizado vai precisar compreender os muitos Brasis que o Brasil esconde. A brasilidade das disputas de vizinhança às lutas de classe. Os Brasis que sejam capazes de levar a discussão dos bares do Leblon para além do recorte: inocentes do Leblon x bom selvagens dos subúrbios por exemplo. Precisaremos romper com os limites e os espaços de brechas onde podemos pleitear o discurso crítico assimilar as novas ferramentas, ouvir os novos atores sociais para que tracemos novas saídas. O Novo Normal não vai ser o retorno aos Velhos Normais, e tudo que parece se construir assim está sendo rapidamente visto pela sociedade como pastiche.

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