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Desejo de Matar e as contradições do individualismo

Em 1974 estreou o filme Desejo de Matar estrelado por Charles Bronson, esta obra tem um impacto peculiar na cultura da gente. O eixo central fala de um homem comum que após ter sua casa invadida, sua esposa é assassinada e sua filha violentada. Paul Kersey, um arquiteto de ideias liberais com visão de mundo anti-armamentista, se transforma pouco a pouco em um vigilante das ruas. 

filme dá um pontapé numa massa de produções com enredos de valorização da cultura armamentista como ferramenta de proteção do cidadão comum. Apesar disso, não podemos reduzir o enredo deste filme específico a esta propaganda. Desejo de Matar está muito mais próximo de Um Dia de Fúria, filme onde um designer industrial explode seu stress com o modelo de sociedade e se vê emaranhado numa teia de problemas que se desencadeiam e piora quando este se arma, do que de filmes e franquias que se inspiram nesse modelo do homem comum armado resolvendo tudo.

Charles Bronson não é um herói, a única habilidade exímia de seu personagem é saber atirar, mas não é um atleta, não é um estrategista ou nada assim. Mas em que isso tudo nos importa? Simples, somos hoje em 2021 uma geração criada embebida na lógica das narrativas cinematográficas abertas por filmes como este. Uma corruptela do bom Desejo de Matar veio com sua franquia e com inúmeros filmes posteriores cujo personagem principal seguia o mesmo padrão: homem de meia idade armado resolvendo problemas que o Estado não foi capaz de resolver. Essa é a base de uma gama de filmes de Charles Bronson, Chuck Norris, Bruce Willis, Vin Diesel, etc.

Este, que é o eixo central do Desejo de Matar, também tem muito a nos dizer. O filme retrata como um homem comum com repulsa a armas, quando vê sua vida destruída pela incapacidade do Estado toma certas escolhas. O filme retrata de forma peculiar as possibilidades e contradições abertas por uma cultura armamentista e liberal podem gerar a busca pelo vigilantismo e punitivismo. Ver essa leitura nos ajuda a entender nosso dia a dia aqui também. Apesar de o Brasil não ter a mesma relação histórico-cultural que os Estados Unidos tem com o universo das armas de fogo, fomos moldados (inclusive por estes filmes) a normalizar a cultura das armas.

Um padrão em todos os filmes deste tipo, e também um certo padrão do mundo real, é que lidamos com um sistema de segurança ruim, falho, corrupto, — “esta cidade é assim”. Quando as pessoas comuns pensam em segurança o que desejam é proteção, e raramente encontram. O cotidiano de uma visão liberal da vida nos instiga e nos bomba com referências de que devemos fazer por nós mesmos. Nossa vida é um problema nosso apenas, temos que cuidar de nosso interesse individual, primeiro nos ajudemos para depois ajudar ao próximo, se batalhar consegue, somos bombardeados com modelos que centram no indivíduo a saída e no coletivo o problema. O que temos então? a chave certa para defender saídas não estatais para problemas de estado (como a segurança pública, por exemplo).

Este é o ponto que Desejo de Matar já nos apresentava. Qualquer pessoa comum que cresce em uma cultura que valoriza as soluções individuais pode perder sua fé nos sistemas institucionais e tentar uma solução por si. Os sistemas institucionais, por sua vez, limitados para resolver os problemas estruturais que geram a violência urbana, não conseguem dar cabo de resolver o problema da vigilância apresentada no filme sem utilizar de subterfúgios. A polícia não o prende para não criar um mártir e abrir o descontrole social, antes o incentiva a mudar de cidade. Nota-se também que, se em um primeiro ciclo de ações do vigilante, os criminosos atuam com armas brancas, já no fim, o vigilante é pego por criminosos que usam também armas de fogo.

O filme expõe um pouco do como funciona esse ciclo de violência urbana. Se num dado momento, a criminalidade parece reduzir porque o vigilantismo mudou a postura do banditismo, o fim do filme mostra que este ciclo permanecerá com uma qualificação do banditismo para reagir ao processo social. Quanto à proposta institucional para resolver o problema, o que se apresenta pelo filme é o famoso: jogar para debaixo do tapete o problema, incentivando o grande escritório onde o arquiteto trabalha a transferi-lo para outra cidade. O problema da violência não se resolve em momento nenhum, isso fica claro, assim como uma certa angústia ou crença do personagem principal.

No fim tanto a crença anti-armamentista que individualizada não impediu Paul Keyser de sofrer a violência que sofreu nem a possibilidade de punitivismo armamentista trouxe ao arquiteto a paz, ou a segurança ou a solução, o que parece ser seu vetor é apenas a descrença na capacidade de um sistema melhor. O que parece lhe dar um pouco de paz talvez seja o fato de ter se posto como essa cunha da contradição que obriga o sistema a rever seus caminhos. Os únicos momentos do filme onde o personagem comenta sobre seus motivos, em diálogo com o filho, deixa mais questões e dúvidas no ar do que motivações. É quase como uma escolha niilista enquanto cabe a sociedade dispor das teorias ou críticas sobre os fatos.

Entendermos isso é importante para entendermos como acontecem certos processos e pautas conservadoras que nos parecem contraditórias como por exemplo ser cristão e querer ter uma arma em casa ou o discurso de legítima defesa que alguns pregam. Este desejo equivocado se embasa nessa construção cultural de décadas de bombardeamento da cultura pop que aponta isso como solução somado ao problema material de não termos uma política de estado eficiente para lidar com a segurança pública. Este mesmo desejo acaba por relativizar e facilitar a criação de sistemas de poder paralelos, à medida que, no momento inicial, as lideranças locais destes são vistas como vigilantes de bairro a cumprir o papel que o Estado não consegue dar conta.

Desmistificar o armamentismo individual exigirá um esforço complexo que passa primeiramente pela garantia de um sistema policial e judiciário não corrompido e que tenha como diretriz a proteção ao cidadão. Segundo, precisamos recuperar o interesse coletivo em escala comunitária (rua a rua e bairro a bairro) para a solução de problemas e construção de propostas como aumentar o acesso a direitos básicos e redução da segregação social.

Para além disso, precisaremos de um processo de ressignificação desta parte da cultura pop que traça como bem sucedido e símbolo de sucesso o homem armado. O que pode até ser trabalhoso mas não tão difícil visto que essa propaganda tem como pano de fundo um recorte tipo homem de meia idade, que aparentemente não é o desejo de ser dos jovens. Mesmo jovens que hoje buscam se entender por uma identidade conservadora podem se colocar em contradição diante deste padrão. Lembramos dos tempos em que propagandas de cigarros retratavam sucesso, vida atlética, liberdade, refinamento cultural. Hoje, ainda se fuma, mas já não são massivos e associados a estes conceitos a quantidade de fumantes. Quem fica preso a este eterno retorno do passado como saída acaba por gerar espantalhos até que se transforme em um.

Conceitos de vida mudam porque somos seres com habilidades sociais, coletivas e mais importante de tudo reflexivas. São estas habilidades que nos permite buscar os melhores meios de ampliar nossa qualidade de vida, nosso tempo individual na terra, nossas produções coletivas e por aí vai. Para tal é preciso estarmos constantemente colocando nossas contradições sociais na mesa para propor caminhos melhores, mais coletivos e mais humanos.

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VISTA ALEGRE esse pequeno pedaço de subúrbio

 Se antes falamos do Imperador e o conceito de lugar, porque não falar hoje do meu ou um dos meus Lugares ? 0 pequeno bairro de Vista Alegre.

Rogério Batalha, compositor, poeta e morador de Vista Alegre cita: nosso bairro é uma pequena Bahia, Jorge Amado realmente teria muito a contar sobre este lugar. Esse bairro que se avizinha a Cordovil, Irajá, Brás de Pina e vila da Penha é quase um condado pouco lembrado ou citado pelos cronistas da cidade. Em geral quando citamos Vista Alegre, é comum receber comentários e referências que vão desde um bairro de São Gonçalo até algum lugar da Barra. Continuar a ler

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13 DE MAIO— DIA DE PRETO VELHO: Dos Subúrbios que os Subúrbios escondem.

13 de maio! Dia de Preto Velho. Adorei as Almas. 

Hoje o fio passará por este processo de imensa sabedoria que existe entre nós. É de se esperar que no país onde a história é contada pelos vencedores, tenhamos nos acostumado com o fim da escravidão sendo representado por um processo legal por parte da princesa com um fim todos felizes para sempre, dando um ar digno de contos e fábulas da Disney. 

Interessante porém, como o contraponto vem da sabedoria do povo, aquela que muitas das vezes é considerada como menor, por não ser uma sabedoria produzida nas égides da ciência iluminista ou dos clubes literários ou dos cafés onde poetas e compositores da burguesia se encontram. Foi na sabedoria do povo escravizado, no Candomblé, na Umbanda, nos terreiros e quintais que a homenagem se deu da melhor forma. Este dia onde a escravidão terminou mas o racismo permaneceu, celebramos a ancestralidade, os avós, avôs, pais, reinos, todos que foram desmantelados do direito básico a humanidade são lembrados hoje e nos dão as suas bênçãos.  Continuar a ler

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O LUGAR DO IMPERADOR: Adriano e o Complexo

As recentes declarações do Jogador Adriano nos faz pensar sobre um dos principais conceitos da arquitetura e da vida: O lugar.

Quando o jogador de milhões, no auge da sua carreira retorna ao Brasil e, principalmente, ao seu bairro, sua favela ou seu complexo como queiram chamar, o jogador vira alvo de uma campanha alvoroçada e constante. Não era raro ver as mídias associarem o retorno do jogador a uma decadência moral do tipo, está cercado de bandidos, associou-se ao tráfico, etc. Discurso este que caia no senso comum, Adriano era visto como aquele que teve todas as oportunidades e jogou fora.

A real é: o que o sistema realmente não tolerou foi a quebra do modelo de sucesso que ele vende. O retorno de um jogador, um artista um ídolo ao seu lugar de origem se torna perigoso a medida em que o discurso oficial precisa convencer que o seu lugar é \”errado\”. O que se espera de um jogador pobre que sai da favela ainda jovem e vai viver na Europa? Espera-se qualquer coisa, menos que ele retorne ao seu lugar pobre. Continuar a ler

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CIEPs o sonho de um Brasil possível

Em 08 de maio de 1985 era inaugurado na cidade o primeiro CIEP. Situado na Rua do Catete, um dos endereços políticos mais importantes do Brasil, o projeto arquitetônico-pedagógico, parceria de Brizola e Darcy, com traços de Niemeyer.

A arquitetura marcante de Niemeyer e o conceito de educação integral produzido por Darcy, que garantia a criança conhecimento, esporte, saúde e socialização, e garantia a comunidade um espaço de lazer e cultura, abriu a possibilidade real de fazermos um Brasil diferente. Como sonhava Brizola: “Dos CIEPs hão de sair aqueles homens e mulheres que irão fazer pelo povo brasileiro e pelo Brasil tudo aquilo que nós não conseguimos ou não tivemos coragem de fazer”. Continuar a ler

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Tragédia de um Rio que chuta a porta

 Alguns dias depois de escrever aqui a respeito do avanço desta nova estrutura material e cultural da violência organizada na cidade, uma tragédia nos aconteceu. 

Em uma operação de extrema violência que pode sim ser definida como chacina, 25 moradores do Rio de Janeiro morreram, outros ficaram feridos e muitos foram impedidos no seu direito de ir e vir. Fatos como balas no metrô, e vídeos de execução a queima roupa e com grau de violência só visto em crimes de guerra,  circulam pelas redes. 

A violência expõe uma das pautas cruciais desta cidade. Por um lado a milícia recorre a todas as forças para tomar territórios e avançar na conquista do poder paralelo da cidade, por outro o tráfico tenta manter estes espaços sob controle. Em um terceiro movimento, a polícia expõe sua violência como ferramenta principal de ação, direcionada a espetáculos voltados a prender e matar pobre.

A violência é base pedagógica da formação da maior parte do povo da nossa cidade. Naturalizamos a mesma. Quem mora em locais de violência, já está acostumado a diferenciar tiros de fogos.  Alguns somos capazes de detalhar o tipo de armamento, distância, e etc, apenas com o som do estampido. Esta é a vida de boa parte da população. Não é incomum que esse povo encontre nos concursos para polícia militar e civil uma saída de emprego e uma referência de presença do estado. Pois esta é a principal referência que o estado lhes dá. Em terras onde falta, água, asfalto, iluminação, saneamento, escola, posto de saúde, área de lazer, etc, eles estão presentes. Não adianta apelarmos para a legalidade em um país onde o direito é classista e pobres, com sorte veem seus problemas chegarem na primeira instância para seu apreciados, segunda instância e STF é uma quimera. 

A discussão sobre a violência não caminha, pois segue presa no senso comum por duas vertentes. Uma que envolve a solução pelo aumento da violência, solução essa que aprova chacinas, tiros na cabecinha e etc. Outra vertente, aponta as problemáticas estruturantes disso tudo, destaca os papéis do abuso de poder e da ruptura constitucional, entre outros, que mostra que solução real exige um trabalho de longo prazo. Ambas não conseguem responder por sua vez trazer uma solução real a curto e médio prazo.

Um dos grandes problemas é que estamos presos num ciclo trágico onde a população sente e deseja uma saída urgente. A violência exacerbada cola no povo que se vê vingado, e se torna um instrumento útil as forças de poder paralelo que disputam territórios onde o estado  falha.

Óbvio que ações como a chacina do Jacarezinho não resolverão o problema da violência no Estado do Rio, não desmobilização o crime organizado, não reduzirá assaltos ou tiro. Da mesma forma sabemos que não há saída simples para a situação em que nos encontramos. Se fosse prever o futuro, apesto que a sequencia dos atos será: ou o aumento da estrutura de defesa do comando de poder que controla o território, ou o ataque de outro poder que passaria a controlar o território. Em ambos os casos, o estado de vidência permaneceria como parte da realidade do território. O povo, seguirá exausto e descrente de tudo, comemorando fatos isolados como chacinas ou prisão de vereador miliciano assassino e etc, que são vistas como solução a curto prazo. 

Há um embate ético que atrapalha isso tudo. É preciso que parte de quem pensa uma saída concreta legal e legitimada por princípios de direito a vida perceba que o fascismo nesta escala se impõe porque é a escala onde boa parte do povo será cotidianamente violentada. As pessoas aliciadas para o tráfico ou milícia, as pessoas que buscam na violência seu ganha-pão (assaltando pedestre na rua), nunca serão vistas como oprimidas por aquelas pessoas que estão em condições sociais e econômicas parecidas e que por N motivos não entraram neste sistema.

Um processo de segurança pública precisaria de uma ação veemente a curto e médio  prazo de:

inibir roubos e furtos nos bairros,

sistema jurídico que resolva os problemas (falo de todas as cadeiras e não só do criminal),

desmontar o tráfico de armas a partir dos donos do poder e das fronteiras,

promover qualidade de educação e saúde ( que a médio e longo prazo dará os resultados mais significativas), 

Construir uma outra cultura onde 0 alcance de sucesso e prestígio (o famoso \”Subiu na vida\”)  não fique preso no sistema militar/paramilitar,

produzir ações de integração social entre os mais diferentes nichos da sociedade.

Bem, há uma lista enorme ele tarefas a serem feitas, estudadas e implementadas. Nenhuma será fácil, ainda mais na atual conjuntura onde quem nos governa tem na sua base de apoio grupamentos paramilitares que dominam grande parte do território, além de dominar parte do sistema econômico (quem acompanha o mercado de extrativismo de areia sabe ndo que estamos falando).

Enxergar o efeito nocivo que a exaustão e o abandono do Estado trouxe aos mais pobres é fundamental para recuperar minimamente a crença destes de que algo bom pode ser construído neste país. A saída pela terceirização do Estado aos poderes paralelos destas milícias que crescem será a pior escolha. E por que pessoas boas parecem comemorar a morte? infelizmente o resultado de séculos de políticas de controle social pela violência nos educou assim.

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Crônicas de um Rio que bate a porta

O longo processo de constituição da cidade do Rio sempre foi embebido em uma disputa que tange o controle da cidade por poderes paralelos armados. O que vemos na atualidade é uma nova fase disso se organizando. Estamos a um passo de nos consolidar Como um milíciocidade.

Importante ressaltarmos que: o que chamamos de paralelos me parece um certo equívoco, pois há interfaces claras entre os poderes que assumem o controle de determinados territórios e os poderes legalmente constituídos para cuidar dos mesmos.

Já é de longa data, pelo menos lá pelos idos dos anos 90, que a cidade do Rio viu organizar em seu território, uma nova forma deste poder. Filhos culturais das chamadas polícias mineiras, as milícias começaram a ocupar espaços notoriamente esquecidos pelo poder público, e seguiram por ele atuando como agentes em resposta a esta ausência do Estado. Isso ganhou vulto a medida em que alguns fatores aconteciam. Entre eles, a mudança organizativa dos grupos de tráfico que começavam a esvaziar o sentido de pertencimento do lugar por parte dos seus grupamentos, o desmonte dos poderes do jogo do bicho e a redução da capacidade de vereadores bico d’água responderem sozinhos a todos os anseios dos bairros onde faziam base. Claro muitas outras linhas podem sair daqui, mas destacamos essas no momento.

Os parâmetros destacados forma uma boa tríade de cultura que se comunicava rotineiramente com o povo de diversos bairros suburbanos, sempre preteridos em políticas públicas de qualidade quando comparados a outros lados da cidade.

Para os poderes legalmente constituídos, realmente o início do sistema miliciano poderia ser visto com bons olhos, visto serem grupos oriundos de pessoas que trabalhavam em departamentos do próprio estado, como polícia, bombeiros, etc. Grupos estes que há muito são arraigados com as lógicas estruturantes de poder deste país. O resultado deste enlace foi um processo oficioso de terceirização do controle territorial por parte do Estado para estes grupamentos.

Outro entrelaçamento importante está no crescimento em especial dos movimentos neopetencostais, principalmente os assembleianos. Aqui cabe entender com clareza sobre que recorte estamos falando. A potencia de uso do movimento neopetencostal está na capacidade de pulverização e de autonomia que cada parte (um templo, uma igreja, uma roda de pregação) tem sobre si.

Diferente de igrejas mais tradicionais, onde há uma certa organização padrão, como acontece nos batistas, metodistas, etc, assim como igrejas com certa centralidade como a católica. O movimento assembleiano permite que cada igreja de forma independente e autônoma fale e pregue por si tendo como base o milagre dos pentecostes e dons espirituais. É importantíssimo ressaltar este elemento, pois é justamente por esta capacidade de horizontalismo e descentralização que o movimento permite que nasça dentro de si as mais diversas linhas de crenças, linhas ideológicas, linhas de conexão social, etc. Há um fenômeno por sua vez que não pode ser descartado, o poder das rádios e tvs em um processo de disseminação de uma determinada cultura. Qualquer pessoa que assistir programas das mais diferentes épocas do pastor Malafaia por exemplo, notará como sua pregação forma uma cultura e modos de agir.


Se um Silas mais Jovem condenara práticas da chamada teologia da prosperidade, um Silas dos anos 90 e 2000 a colocariam no centro do discurso. Porém uma coisa era comum, o efeito de blocos dos iguais. Vemos em algumas pregações a construção clara do hábito de se afastar das pessoas que pensam e vivem diferente. Frases de efeito sobre amigos possivelmente gentios que não te acrescentam nada, familiares, festas do mundo, entre outros. Silas alimenta Um movimento religioso que organiza o povo em torno de iguais que repudiam os diferentes.

A capilaridade que as igrejas construíram no vazio cultural e cívico que deveria seu ocupado também por teatros, praças, parques, cinemas. A cultura cotidiana de vidência e falta de perspectiva. A crise econômica e crise de representação e 0 excesso de incertezas nos ajudam a explicar parte do busca desesperada de um grupo de identidade. São estes algumas elementos que somados a evolução das práticas de controle territorial da cidade nos coloca hoje a beira de transformar parte significativa do município em território onde o estado se torna impotente.

Os jovens sem perspectiva, o cotidiano de poder das milícias e uma cultura cristã que inverte a ordem dos testamentos. Se a bíblia nos leva do Senhor dos Exércitos Ao Cristo da Graça, parte da liturgia cotidiana faz o Cristo da Graça ser o Senhor dos Exércitos contra o mal maior. Aqui temos uma corruptela que permite naturalizar o nascimento de movimentos armados que operam em nome do Senhor, com suas bandeiras de Israel empunhadas demarcando seus territórios de controle, expulsam todos aqueles que entendem que são ímpios ou inimigos. Um sistema que cresce articulando as forças milicianas, forças do tráfico internacional de drogas e armas e as forças religiosas. 


Vale Lembrar que este tipo de movimento não é exclusivo do grupo religioso em questão, ele é um padrão de sociedade vendido. shoppings center e condomínios fechados por exemplo são a venda desse desejo para o povo. As esquerdas também não escapam desta armadilha, quando promovem discursos como: lado certo da história ou do tipo sair do grupo de família por conta do parente conservador segue o mesmo padrão proposto por Malafaia incentivando seus fiéis a se afastar dos parentes que ouvem “música do mundo\”.

O mundo hiper individualista não nos responde, somos seres coletivos. 0 mundo condominial responde parte o anseio da coletividade, mas não resolve plenamente a sociabilidade ao nos colocar nos guetos invisíveis e imaginários. Os guetos nos confortam, estamos com nossos iguais, nos alivia da dor da incerteza, mas são imaginários.


A bandeira monarquista ou a comunista na estrada do Quitungo não diferencia as condições materiais onde por exemplo ambos os seus donos precisarão andar longas distâncias para pegar um onibus ou comprar um pão e a noite farão no escuro pois a iluminação do bairro parece do tempo de D.Pedro. Assim como a bandeira de Israel não dará a Jovem que empunha uma arma em nome de Deus, o poder de um Rei Salomão, nem mudará o fato de que os grandes financiadores seguirão vivos em suas mansões enquanto ele e os seus morrem ainda jovens. 

A saída não é fácil, exigirá um trabalho coletivo de reconhecimento de demandas e anseios, de romper com a segregação social que as narrativas em bloco criam, romper com o cercadinho condominial, entre muitas coisas. Boa parte do povo só quer viver suas vidas, sair e voltar pra casa em paz. Essa galera está só cansada da aporrinhação que todos trazemos no excesso de debates, militâncias e embates e de viver sob a ameaça constante dessas estruturas de poder que os cerca. 

Se por um lado, um Estado que queira resolver este problema precisará assumir com coragem uma briga com inúmeras forças que estão no interior deste estado, das corporações  batalhões até a casa de vidro. Pelo lado da sociedade civil, entendo que não haverá trabalho de retomada social capaz de ser resolvido sem passar pela escala familiar, comunitária para aí então chegarmos na municipal e estadual. Assim como considero impossível uma saída que não passe pela ruptura dos cercados sociais e pela volta do contato com o diferente. Sair dos discursos maniqueístas é fundamental, são base para retomar os sequestro social em que estamos enfiados. Qualquer coisa fora disso seguirá alimentando as lógicas de grupos e guetos que vivem da violência e do terror ao diferente. 

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Viação Acari é apenas um elo da crise da Mobilidade Urbana

 

A cidade do Rio de Janeiro foi impactada ontem com a notícia do fechamento de mais uma empresa de ônibus. A Viação Acari pertencente ao consórcio Inter-Norte decretou falência, deixando a incógnita sobre o futuro de suas linhas e de seus trabalhadores.

A falência dos sistemas rodoviaristas na cidade refletem por sua vez o complexo emaranhado da política de mobilidade desta cidade, fruto de longa data. O texto por óbvio, não tem a pretensão de responder a tudo, mas de dar pinceladas em alguns elementos. Entre eles iniciamos dizendo que estamos em uma cidade complexa em termos de traçado urbano. Se por um lado parte pequena dela sempre recebeu melhoramentos ou projetos que permitiram um traçado planejado, uma parte imensa da cidade definiu seu sistema viário por colagens de loteamentos.

Cruzamento das ruas Dias da Cruz, Fábio da Luz  Souza Aguiar

Não é incomum, por exemplo, nós vermos ruas da cidade que sentimos que deveriam ser contínuas e não são. Assim também, é bem comum vermos bairros inteiros com traçados que parecem não ter certa racionalidade. Um exemplo disso pode ser notado comparando bairros vizinhos como Bento Ribeiro e Marechal Hermes como na ilustração abaixo.
Bairros de Marechal Hermes e Bento Ribeiro

É possível ver com clareza que em Marechal há um projeto inicial que visa uma linha vinda da estação criando quadras em vias ortogonais, com direito a praças pontuando a centralidade, e este raciocínio de ortogonalidade se espelha em boa parte do bairro, enquanto em Bento Ribeiro vemos ruas e quadras dispostas em formas mais livres, provavelmente resultado de diversos processos distintos de abertura de lotes e vias.

Esta cidade complexa não se pôs a planejar um sistema complexo que fosse capaz de responder as inúmeras peculiaridades que conformam o nosso tecido urbano de maneira a integrar toda a população dando-lhes o direito pleno de ir e vir com qualidade. Esta é uma das chaves estruturais do problema. Se num dado tempo, o sistema ferroviarista (bondes e trens) responderam bem e impulsionaram um já existente processo de ocupação suburbana da cidade, o lobby rodoviarista implementou a predominância deste sobre o poder dos trilhos, durante anos o resultado foi o desmonte dos bondes, o sucateamento dos trens e o pouquíssimo avanço do sistema metroviário.

Durante anos, os ônibus foram o principal meio de transporte da população carioca (em especial a suburbana). Apesar de não atuarem em massa como o trem, o ônibus permitia ligações de curta, média e longa distancia na cidade, além de dar mais capilaridade bairro a bairro. Quem não tem uma linha de estimação que dá voltas e mais voltas como um 940 por exemplo (que chega a passar duas vezes no mesmo ponto em uma mesma viagem)?

Porém os anos de hegemonia deste modal, embasados em articulação política e lobby de donos de empresas com políticos não favoreceu o próprio sistema, que se sucateou pelo comodismo. Quem nunca pegou um 910 sem parafusos, com o vidro imundo e com a companhia de baratas? Não é atoa que as vans e kombis, mesmo ilegais conseguem se manter atrativas e competitivas frente aos ônibus, mesmo com manutenção tão precária (ou mais) quanto os mesmos.

A mentalidade do período pré-olimpico carioca modificou alguns raciocínios, mas não a estrutura dos transportes. O BRT foi vendido como a grande novidade modal para os subúrbios e a reorganização da gestão das linhas em grandes consórcios de empresas se foi uma tentativa de melhorar a economia destas detentoras do controle do sistema de transportes rodoviários equivocou-se. A política de modais implementada a partir de 2015 gerou mais segregação, por criar mais baldeações entre ônibus, aumentando o tempo de viagem e o desconforto de muitos passageiros. O que ambos os movimentos não foram capazes de prever, é que a roda do tempo já estava passando e o ciclo vicioso que as empresas construíram estava no limiar de não responder mais às necessidades da cidade sem dar sinais de colapso.

Muitas linhas lucrativas para as empresas foram fatiadas com a reorganização dos serviços consorciados, tanto o BRT que eliminou inúmeras linhas de ônibus, quanto o fatiamento de linhas que faziam conexão direta norte-sul (que agora passariam a operar nos corredores norte-centro com um ônibus e centro-sul com outro) não trouxeram o lucro almejado a algumas empresas, além de dificultar o acesso da AP3 a AP2 (curiosamente a Viação Acari tem duas linhas que mantém esta conexão). Importante salientar que nesta mesma época, bairros como Cascadura, que atuavam como uma importante junção se viu esvaziado com o desmantelamento das inúmeras linhas em favorecimento da Transcarioca.

mapas dos donos da Viação Acari.

Quando vemos as rotas das linhas da Viação Acari, notamos como elas hoje estão pouco racionais, em muitos trechos da viagem as linhas seguem praticamente a mesma rota, em diversos casos são trechos facilmente atendidos por transporte ferroviário. Provavelmente o que temos hoje são rudimentos e vestígios de inúmeros recortes e reduções destas linhas na cidade.


A Viação Acari seguiu o mesmo ciclo vicioso de outras empresas que faliram no mercado. Não conseguindo manter padrão de horário, de qualidade dos transportes, tento linhas que praticamente competem entre si por trechos imensos da cidade, com CEOs e donos que gastam muito mais energia em negócios e lobbys com prefeituras e vereanças do que investindo na própria empresa. Empresas de ônibus urbanos na cidade do Rio operam muito mais em função da necessidade extrema do passageiro do que movimentando o interesse ou desejo deste passageiro, desta forma conseguem maximizar seu lucro oferecendo o mínimo necessário ao passageiro. Não dá para reclamar de uber ou van, ou quaisquer meios de transporte, se a empresa não for capaz de colocar suas rotas para funcionar com comodidade, segurança e pontualidade.

Assim, com um mix de problemas e diante de uma pandemia que modificou completamente a forma como vivenciamos a cidade, empresas como a Viação Acari tenderão a não conseguir sustentar seu funcionamento pelo acúmulo de má gestão e falta de planejamento no setor. Não há meio viável de investir em mobilidade urbana sem pensá-la dentro de um plano maior que foque no bem estar e qualidade de vida dos usuários. O problema do Rio de Janeiro é grave, com estrutura equivocada, que ao invés de fomentar integração urbana, compreender e atuar na real necessidade do cidadão, fomenta a segregação econômica e social do morador do Rio (e região metropolitana em geral) garantindo a margem de lucro na entrega do mínimo necessário para o trabalhador.

Como a chantagem que sustentava o serviço baseada na exploração do trabalho e no medo deste perder emprego por conta de atrasos que obrigavam o trabalhador a pegar qualquer transporte que o levasse pro emprego reduziu bruscamente com o aumento do home-office e do desemprego sistêmico, o sistema de ônibus viu reduzido sua maior fonte de coleta de passageiros. Junta essa redução, com a necessidade de mais manutenção na frota, que já é antiquada, e que parada não gera lucro, o que estava ruim piora.

Basta vermos o nome de um ou dois dos sócios da Viação Acari: Cassiano Antônio Pereira. — Sócio das empresas de ônibus do Grupo Rubamérica, Cassiano Antônio Pereira figura também como representante da Terceiro Tempo Assessoria e Marketing Esportivo, reconhecida oficialmente desde 2005 pela CBF como intermediária na negociação entre clubes e futebolistas. Outro: Valmir Fernandes do Amaral — Sócio em Viação Ponte Coberta, Expresso Nossa Senhora da Glória, Gardel Turismo, entre outros negócios.


Como acontece com a maior parte das falências deste tipo de serviço, quem perderá são os trabalhadores da empresa e a população mais pobre que de alguma forma dependia das linhas e hoje se vê na incógnita de saber se elas serão mantidas ou extintas. Seus donos certamente seguirão por aí, levando os recursos adquiridos nos anos de exploração dos serviços de transporte para outros locais e mantendo suas relações de negócios com os donos da cidade, nada diferente do que é uma família Barata.

Rotas das linhas da Viação Acari saindo dos Subúrbios em direção ao Centro.

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SALVE JORGE, SALVE O BRASIL, SALVE QUINTINO, SALVEM OS SUBÚRBIOS CARIOCAS!

 Dia 23 de abril de 2014, Quintino se veste de vermelho, fecha a rua, dança, solta fogos e canta.

O povo se reconhece no São Jorge por suas lutas diárias.
Esse é nosso Subúrbio Carioca no suor, na fé, na esperança, na cultura popular e na ancestralidade. Somos muitos formando o chão que a gente pisa e vive com o suor do trabalho estampado no rosto.
Neste Brasil, terra de todos os encontros, São Jorge encontra suas muitas faces: O Jovem, não mais tão jovem, que sente saudade de sua geral onde via Assis trazendo a Guanabara e que sincretismo belo seria a encruzilhada entre Assis e Zico em um só. Também é o jovem que sobrou na aeronáutica mas pega sua bike e sua mala e rasga Rio a dentro em suas entregas. A lojista que precisa enfrentar diariamente as armadilhas que o machismo estrutura na terra. O motorista de aplicativo que de tanto tomar nota baixa está sendo obrigado a fazer cansativas corridas que pouco dinheiro dá, mas se conseguir o suficiente pra comer um podrão no fim da noite está feliz. São Jorge é um moto-taxista na esquina da Clarimundo de Melo com a Saçu.
Jorge em seu cavalo é Maria no BRT, caminhando pelo vale do combate entre a incerteza da doença e a fé e esperança de que vai voltar da labuta e ver a filha se formar um dia. São muitos, como muitos são os Jorges do Brasil, na poesia, no ponto, no toque do tambor, na voz do pastor que não professa a fé mas ama seu irmão que professa, porque o Jesus que Jorge da Capadócia e o Pastor Jorge da Igreja Batista de São João de Meriti conhecia nos ensinou a importância do amor e da partilha. A fé não é algo que se julga, é algo que se admira, admirem-na!
São Jorge não é sobre crença, não é sobre fé, São Jorge é sobre Povo. Não preciso nem olhar para o invisível, pois a beleza está no visível mesmo, de um povo que se faz povo, de um deserto que vira dia de encontro. Este ano o encontro será no invisível, no virtual, mas isso não é problema pra quem caminha nos muitos mundos.
Nos subúrbios é assim, a gente nem sabe muito bem como ou porquê, mas estamos neste lugar onde o guerreiro e o ferreiro se confraternizam. A pobreza na nossa frente não intimida, ela é apenas nosso campo de batalha diário e armas de fogo não vão nos alcançar, mesmo que estejam passando lado a lado de nós.
Quem disse que a nossa bandeira nunca seria vermelha não conhece nada do Brasil, nunca pisou em Quintino num dia 23 de Abril, nunca viu Flamengo ser campeão brasileiro, são pessoas tristes que podem até passar uma vida sem entender a beleza de um bom feijão na panela, Deus tenha misericórdia delas um dia.
O corpo pode estar moído pelas batalhas, estar combalido pelo combate, mas não estará vencido, no dia ou na noite, mas os caminhos estão lá e os que nos odeiam não nos alcançarão. É esta fé que se faz o abrigo do Brasil profundo, dos que têm a fé aos que fazem a fezinha.
Aos que professam ou não a fé
SALVE JORGE,
SALVE O BRASIL,
SALVE QUINTINO,
SALVEM OS SUBÚRBIOS CARIOCAS!
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Reflexões sobre a autoprodução na construção do espaço no Brasil

Um debate que sempre ronda a vida profissional e política de um arquiteto ou engenheiro gira em torno do tema da autoconstrução ou autoprodução . Bom, primeiro, uma explicação simples sobre (que não explica tudo): no senso comum do ambiente profissional, a autoconstrução é toda construção que não contou com um profissional técnico capacitado, como um arquiteto, um engenheiro ou técnico. No senso comum da vida é a obra que você fez na sua casa contando com a ajuda de uma equipe de pedreiros, ou com a ajuda do vizinho que sabe virar a massa.

Também ecoa no senso comum profissional que este debate passe predominantemente pelo desconhecimento da população em relação ao papel profissional do arquiteto e engenheiro. Esta leitura leva a um sistema de tentar coibir processos como este por diversos meios, entre eles, dois são os instrumentos mais pensados. Buscar estas obras e cobrar que estejam com profissionais regulamentados (em geral isso é feito via órgãos institucionais como denúncias em autarquias de categoria profissional ou órgão municipal fiscalizador), e também é feito por uma constante proposta de divulgação e disseminação do papel de profissionais como arquitetos e engenheiros na sociedade. Entendo que todos os meios são importantes de considerar, porém entendo também que esse debate sobre autoconstrução não passa apenas por estes, como se a questão do construir fosse motivada apenas pelo desconhecimento das profissões técnicas envolvidas. 

Uma experiência que a vivência como arquiteto na indústria me trouxe foi que diante de um problema, não focar apenas no fato principal que aparece, mas em todo o encadeamento de detalhes e relações que permitiram que o fato acontecesse. Quando o foco passa a ser o desencadear das coisas na busca de propor melhorias e não a busca de um elemento causador (erro humano, ou fato, ou peça) nós conseguimos produzir soluções muito mais significativas para que a situação indesejada não aconteça mais. – essa é uma premissa importante de conceito de inovação. Esse tipo de olhar é o que por exemplo garantiu o salto significativo no avanço da biossegurança, na indústria aeronáutica, farmacêutica ou nuclear. 

Voltando ao exemplo da indústria. Se um acidente acontece podemos simplesmente prender ou culpabilizar o piloto ou o defeito em uma peça (na aviação) ou no caso da farmacêutica dizer: o tanque de pressão explodiu, mas não é o que acontece, o que ocorre são estudos detalhados que muitas vezes demoram anos e que geram documentos gigantes com uma série de desencadear de acontecimentos. A partir destes estudos se proporcionam documentos, novas normativas, estratégias de ação e novas tecnologias.

Qual o paralelo disso na nossa questão?  

Bem, a discussão da autoconstrução não vai se resolver ou se esgotar sem que a gente investigue a fundo o desencadeamento das condições que permitem isso. Segregação, desigualdade, baixo contato do profissional graduado com a massa da população, diferença de valor do solo e valor imobiliário que é brutal, entre muitos outros fatores que podemos trazer.

Podemos partir do tão conhecido dado que diz: 80% das pessoas que constroem, o fazem sem auxílio de um profissional. Junto com este dado apresentado vamos pensar sobre mais estes outros números:  Somos 197841 arquitetos no país (com quase 70% concentrados no eixo sudeste/sul), somos 211 milhões de brasileiros (dados de 2019). Só com estes dados já temos um detalhe importante: somos, grosso modo, um arquiteto para cada mil brasileiros (um pouco mais). Mais um dado importante para esta conta está no valor imobiliário. Hoje no Rio-capital temos imóveis na zona sul da cidade custando 21.000,00 reais o metro quadrado, enquanto na Zona Norte temos regiões com valor de 2.000 reais o metro quadrado. Quando colocamos na conta as áreas informais a discrepância dos valores por metro quadrado aumentam mais. Isso afeta diretamente muita coisa, como por exemplo o peso do valor de uma hora técnica em relação ao valor de um imóvel será sentido de forma diferente pelo proprietário de um imóvel no Leblon ou um imóvel na Pavuna.



Os dados mostram que a situação comum/padrão no país é a autoconstrução, nós somos a situação rara, qual nosso objetivo? modificar esse quadro e termos auxílio técnico atendendo de forma universal a todos os brasileiros.

Juntando tudo isso, entendo que um caminho possível passa por uma investigação ampla, minuciosa e permanente do que compõe a materialidade e a subjetividade por trás dos modos de construir e habitar o espaço no Brasil. Isso não é tarefa fácil, não será resolvida num braço só ou em poucos braços e poucos minutos, horas ou dias e muito menos sem interdisciplinaridade (interdisciplinaridade mesmo!). Muito dessa investigação já acontece por aí, pesquisas, ações autônomas, políticas interessantes são propostas.  A meu ver, a saída se dará neste caminhar constante e permanente em busca das melhorias. 

Pensar a questão da produção do espaço com amparo técnico em um país diversificado como o Brasil é tarefa complexa e exigirá de nós esforço de compreender as muitas especificidades locais, e a inter-relação entre as escalas do indivíduo, comunitárias, territoriais. Uma política estruturante para o país precisa considerar estes e outros fatores como fomento a interiorização do profissional técnico, ampliação da participação profissional na concepção e produção do espaço para a inclusão de outros saberes como os do antropólogo, do sociólogo, dos filósofos e dos poetas, no fundo, de toda a população. 


Descentralizar as políticas e garantir autonomia de quem se organiza nas bases dos territórios, sabendo distribuir as responsabilidades e limitando claramente as interfaces na construção política. O estatuto das cidades, por exemplo, foi um grande avanço na forma de produção do espaço nacional, esbarrou na pressão e lobby das construtoras cujo cálculo é simplista e limitado pela necessidade do lucro corrompendo tudo que vem do chão do povo. Ainda assim o estatuto das cidades é um importante ponto de partida para ser retomado e trabalhado novamente pelas bases da sociedade.

Traçar as saídas é a tarefa, e como qualquer política elaborada para funcionar no Brasil, não pode ser reducionista. Esta é a diferença por exemplo do sucesso do Sistema Único de Saúde mesmo com todo o esforço que parte da elite tem em desmontar e o fracasso da política de segurança, que no Brasil se baseia em incursões isoladas e prisões que em nada modificam a estrutura do sistema, ao contrário só corrompe mais. Prender um jovem com um baseado, ou inaugurar um conjunto de casas carimbo no meio do nada são um canto da sereia, pois viram notícia de jornal, dão mídia e holofote. Uma política bem pensada por sua vez não garante isso, pois em geral é um trabalho muito mais coletivo e num tempo ampliado até que comecemos a sentir o impacto. É uma pena que a cultura política do Brasil menospreze essa lógica e prefira correr atrás de soluções mágicas e simples, que da mesma forma da cloroquina, podem não servir para nada além de virar notícia de jornal.

Assim, a principal conclusão que vejo é: temos de aprofundar constantemente o debate, as experiências, os modelos, as testagens e os olhares. Não nos atermos a cair na vala comum que enxerga apenas dois lados da moeda no qual ou se romantiza ou se pune, pois diante da complexidade temos de experimentar todas as faces de investigação para chegarmos a melhor maneira de democratização do acesso técnico no Brasil



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