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Falta d’água no Rio: Urge colocar a Água como centro da Política global!

A equidade sanitária é um desafio urgente para a nossa região metropolitana. A cidade do Rio está há dois dias sem acesso à água. Locais de trabalho e lazer fechados para garantir o racionamento. E mal começamos o verão.

Fui criança em um bairro que não recebia água regularmente. Na época, eu naturalizava, ainda não tinha conhecimento técnico sobre o problema real. Assim como eu, muitos cariocas são assim e por isso tendem a normalizar a crise. Ter uma cisterna grande (para quem podia), ligar a bomba e garantir a caixa cheia fazia parte do cotidiano. Sabíamos que, dia sim, dia não, ficaríamos à míngua. É surreal pensar que uma cidade com tantos recursos hídricos como a nossa, optou por um modelo de abastecimento centralizado em uma única fonte.

Mais surreal ainda é saber que, ano após ano, esse recurso sempre chega primeiro às regiões mais nobres, independentemente da distância. Para quem não conhece o Rio, o Guandu está mais próximo de bairros como Santa Cruz, Campo Grande, Sepetiba, Bangu e Realengo, todos na Zona Oeste ou Norte da cidade. Bairros que estão, literalmente, ao lado e ficam dias e dias sem água.

Nos últimos anos, tornou-se comum ver a cidade inteira parar por alguns dias devido à falta de água. São muitos os problemas, mas o principal é a ausência de uma política nacional que trata o recurso hídrico como prioridade estratégica e direito humano básico. Não há vida na Terra sem água. Se continuarmos com essa matriz centralizadora, que depende exclusivamente do Rio Guandu, sem investir na requalificação de outros rios ou aquíferos do Estado, corremos o risco de matar nossa cidade de sede.

A equidade sanitária, neste ponto, é fundamental. Garantir o acesso ao tratamento de esgoto e água para toda a população periférica não apenas reduz a pressão no sistema, mas também gera dados para um melhor planejamento e melhoria das condições reais para a engenharia sanitária produzir soluções técnicas viáveis de melhoria do abastecimento da cidade como um todo. Além disso, é fundamental controlar e fiscalizar desperdícios industriais e empresariais. Por exemplo, as jazidas de extração de areia, grandes consumidoras de água, operam hoje em um sistema de mercado, digamos assim, misto (legal e ilegal) que precisa ser regulamentado, fiscalizado e com as jazidas ilegais veementemente combatidas.

Colocar água no centro da pauta política, junto com alimento, saúde e educação, é indispensável para a construção de uma cidade verdadeiramente sustentável. Penso que a saída passa por um arranjo que envolve os princípios políticos de equidade social, a pressão popular e um saber técnico que compreenda o papel ético e a função social da engenharia e arquitetura na solução de problemas como os que estão dados. Sem isso, não vislumbro futuro possível.

Como creio em um futuro belo, segue uma imagem de um Rio de Janeiro possível, o Rio de todos os Rios que a Portela nos presenteou em 2017.
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