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7 de abril dia da Saúde – Cidades Segregadas: tivemos copa e não temos saneamento

Teleférico Morro da Providência – Rio de Janeiro RJ (hoje está parado).

Hoje, dia 7 de abril comemora-se o dia mundial da saúde. Enfrentamos neste dia nosso maior desafio em muitos séculos, o combate a um vírus super transmissível e que é fatal. Em meio a crise global, outra nacional nos assola. O distanciamento social que temos que manter mediante isolamento é transpassado pelo distanciamento econômico que a segregação urbana nos permitiu.


Se a cerca de um século atrás, a gripe espanhola nos afligiu de forma semelhante, criando laços e reformulando as pautas de construção de cidades, o Brasil pós-pandemia poderá sofrer pelo mesmo caminho. Porém, antes de chegarmos no Brasil pós-pandêmico temos que chegar no Brasil vivo hoje dentro da pandemia é resultante não apenas dos processos de inicio do século passado de segregação, mas das políticas contínuas desta segregação.

Podemos enquanto urbanistas arquitetos comemorar algumas vitórias recentes (não tão recente mais) como o Ministério das Cidades e o Estatuto das Cidades, ou a lei de Assistência Técnica de Habitação de Interesse Social, mas devemos pesar que cidades e que espaços são estes que foram produzidos a partir deste ponto.

O Brasil Olímpico e da Copa das Copas retrata modus operandi dos processos de projeto e implementação de urban design mundo a fora. Operam deixando pautas progressistas e democráticas entrincheiradas em certos espaços de respiro, certas quantidades de editais e coisas do gênero enquanto pautas hegemônicas do tradicional veio aberto seguem pelos sistemas de sempre. Se um MCMV Entidades nos obriga a um apuro e afinco gasto de energia com regras onde entidades tem que batalhar para conseguir um mínimo, um MCMV da Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, MRV Engenharia conseguiam e conseguem firmes e fortes contratos massivos para fazer barragens, rodovias, e MCMV em verdadeiras não cidades sem que pareçam obrigados a apresentar a sociedade os resultados concretos disso. A cara do Brasil faz parecer que é mais fácil conseguir dinheiro no BNDES do que empréstimo no cartão C&A.

Por exemplo, coube a Odebrecht, OAS e Delta a construção do teleférico no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro olímpico. Hoje o dia mundial da Saúde anunciou dois falecidos por covid-19 no Complexo, que tem seu teleférico parado e continua sem saneamento. O Alemão, que fica no Rio de Janeiro, cidade do Porto Maravilha, que assim como em Porto Madeiro em Buenos Aires ostenta um ícone arquitetônico como marco capital deste modelo de cidade.

MCMV em Mata do Cacau – ES.

Podemos e devemos citar outros casos recentes como o Cais Estelita Demolido e reprogramado pelo Consórcio Novo Recife, formado por Ara Empreendimentos, GL Empreendimentos, Moura Dubeux Eng. e Queiroz Galvão, ou também Belo Monte, talvez a maior obra deste setor político-construtivo envolvendo a robustez de grandes construtoras. 

Fazer cidades, no seu sentido material é um grande negócio e estruturante de país.

O Brasil vê na construção civil a capacidade de movimentar uma economia de massa graças a canteiros de obras onde a segregação social se mantém mas permite o mínimo de capital de giro na sociedade (pense no salário do servente, do serralheiro, do carpinteiro, etc) e de movimentar grandes estruturas econômicas que mantém constantemente ativas pelo lobby. Somado a isso constroem cidades a partir de plugs de tecnologias e produtos que caem de forma invertida no território. Fica a questão, foi o Complexo do Alemão que pediu um teleférico ou foi o teleférico que precisaria ser instalado em algum lugar para sair bonito na foto do Rio Olímpico? E o que sobra aos ativistas, se não as migalhas? 

São Migalhas como aplaudir o espaço identitário que restou ao Porto Maravilha de retratar o índio em grafite enquanto Belo Monte se transformou em um operativo financeiro de quem verdadeiramente construiu o Brasil. São migalhas como disputar os pouquíssimos editais de entidades que transformam-se em verdadeiras máquinas de captura de movimentos e de divisão entre pobres enquanto os mesmos morrem de fome. Aos pobres a migalha e a fome, e agora a doença. 

Parece bem propício ao Brasil pós-pandêmico operar economicamente o setor da construção civil com o discurso de uma nova forma de pensar as cidades, pois como já dito, a construção civil move massas da economia. Esta nova forma por sua vez, não poderá vir com os vícios das formas velhas, venham de que lado vierem, assim como o discurso participativo de construção de cidades não terão efetividade se vierem viciados em instrumentos já previamente capturados.

O enfrentamento da cidade segregada passará pelas encruzilhadas da sociedade como um todo, precisará considerar e consolidar as vozes mais diversas e não apenas as organizadas de que forma estejam. O primeiro passo para enfrentar a situação é admitir que construímos cidades segregadas, e que mesmo alguns poderes que se ventem como progressistas construíram cidades segregadas. A segregação espacial dos pobres é o paradigma de manutenção do sistema e destas formas de cidades.

A partir deste ponto, precisamos demolir da pauta o sistema lobista de construção de cidades, buscar melhores relações de usos de seus espaços, produzir educação de cidadania e integração de relações e redes de sociabilidade. O trabalho na escala orgânica da vizinhança é mais que narrativa, ele ocorre no dia a dia, cade a nós dar ouvidos a este trabalho, explodir para fora de nossas bolhas, partidárias, aparelhos e ações grupescas ou categorizantes e ouvir do outro cidadão comum.

Outro ponto, é importante emancipar o cidadão, seja pela saúde,  pelo conhecimento, pelo direito à cidade entre outros e deixemos que o cidadão construa seus caminhos, inclusive de organização da vida e de sua espacialidade. Primeiro precisamos universalizar e emancipar o saber e a saúde, para só depois começarmos a ver como as formas de organização e sociabilidade funcionam, Provavelmente nenhuma associação de moradores, grupo de minoria, coletivo cultural, partido político vai ter mais velocidade e capilaridade que o discurso de uma vizinha faladeira.

O Brasil de hoje é em muito a cara disso: Por um lado movimentos organizados aplaudem o grafite como resistência enquanto as Odebrechts da vida construíam Belo Monte e Portos Maravilhas de braços dados com quem quer que seja.Por outro lado o fascismo foi capturando a indignação dos mais pobres que não conseguiam lavar as mãos com teleférico e nem se alimentar com tinta de grafite. 

As maiores derrotas na concepção de cidades ficam estampadas em algumas pautas. Quando perguntamos que cidade queremos, ou quando levantamos bandeiras do tipo: A cidade é para as pessoas. Fora o pior de todos, as soluções mágicas tipo Rasputin: teleféricos e VLTs que saem da cartola. Estamos assumindo o quão distante ficamos desse debate e da construção emancipatória das cidades e o como ainda estamos presos na visão de mundo de que há um modelo ideal de cidade a ser alcançado. As cidades que traçamos estão sempre o campo do Amanhã, quase aptas a serem artefatos do Museu do Calatrava. Não estamos na caverna de Platão, estamos na cidade real e ela é segregada, abandonada e usurpada por inúmeras esferas de poder, muitas das vezes com nossa ajuda inocente ou não.

Onde está a saúde coletiva nestas cidades construídas? 
É exatamente isso, esquecemos.



Porto Madero – Buenos Aires – Grafite retrata luta identitária feminista e ponte da mulher (obra de Calatrava).
Porto Maravilha – Rio de Janeiro – Grafite retrata povos originários e minorias étnicas, no Porto encontra-se o Museu do Amanhã obra de Calatrava.

Novo Recife – Recife – Proposta para uso do espaço do Cais Estelita 

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Não se faz copa com hospitais

É isso que temos a dizer. Antes de mais nada é preciso que todos nós tenhamos a plena compreensão do que estamos vivendo. A história do mundo é rasgada de tempos em tempos por um movimento pandêmico.
Optei por não ler filósofos neste momento, não me senti a vontade (neste texto) em teorizar sobre um vírus (cuja formação é mais simples que uma molécula) produzindo nele isomorfismo ou múltiplas teorias sociológicas. Se tem algo que concordo com Lula nesta hora é sua frase: “primeiro vamos salvar as vidas depois a economia”, que aponta ser a principio a postura de Mandetta, e WW sobre essa situação. Preferi me ater de leve a dados duros, e ao campo que importa, a saúde coletiva e o urbanismo.
Talvez, desde a gripe espanhola não tenhamos vivido algo deste nível. Por sorte agora, temos mais sincronicidade de informações. Vivemos o fruto do desleixo, nos últimos 100 anos não construímos soluções para resolver a equidade social, ao contrário, utilizamos toda a pauta gerada nas pós-pandemias para emplacar modelos de segregação urbana.
Porém, se nestes anos não fizemos, em anos recentes também nada foi resolvido. Hoje estamos aplaudindo nomes espúrios da política pois vivemos um combate transversal, a luta entre a ciencia e o obscurantismo, entre os que compreenderam que tem que ouvir a voz da OMS, da FIOCRUZ, dos PESQUISADORES SEM BOLSA no lugar da insanidade de um energumeno que por azar do destino está na presidência. Porém falamos de gente hoje que até ontem estava batendo palmas com este presidente, e que até ontem estava pouco se lixando para resolver o problema de segregação. Se hoje há foco de alguns destes, é porque vírus não pensa, não escolhe por etnia, gênero, classe, o vírus voa e chega lá tanto em mim quanto nos que menos tem e até neles varre do morador de rua ao dono do Santander. Coitados dos que tentarem se capitalizar politicamente com isso, coitados dos que não enxergarem a necessidade humanitária que estamos vivendo.
Se há alguém que tem lutado com valor esta luta no Brasil é o SUS. Sempre escorraçado pela opinião pública (leia todas as mídias) e sempre sucateado por todos estes governos. 100 anos amigos, uns quase 500 que não temos saneamento direito, e nos últimos anos continuamos a míngua. Vivemos uma década de luxo, ao que parecia, tivemos Copa do Mundo, Olimpíadas mil investimentos eles diziam. Fizemos teleféricos e não levamos água e esgoto, hoje não temos nem teleférico e nem água e esgoto, hoje temos roda gigante, mas provavelmente é porque não se faz Roda gigante com hospitais.
Muitos tentam entender como os de hoje entraram onde entraram, mas a resposta está em todos os de trás. Em um dado momento não era simples de entender como aqueles que juraram fazer por nós, no Rio de Janeiro pelo menos, escolheram Copa do Mundo ao invés de hospitais. Assim como o teleférico, não temos mais aquele velho e belo Maracanã do povo e nem hospitais, só roda gigante.
No país onde roda gigante é prioridade, quem está fazendo a roda de verdade girar para enfrentar o COVID-19 é o SUS e toda a sua base de profissionais atuantes!
Ao menos fico feliz que tenhamos pesquisadores sem bolsa, médicos e enfermeiros com salários defasados, e inúmeros profissionais que antes de mais nada tem humanidade. Pois são eles que estão pautando os acertos que podem nos salvar. São eles que estão dando os instrumentos políticos para os políticos tradicionais tentarem resolver no desespero. O SUS é robusto para enfrentar a pandemia! isso é frase vinda do próprio governo, e tem verdade nesta frase. Verdade que o grande lobby da saúde privada não quer e nunca quis que fosse ouvida.
WW, Maias, Dórias, Mandettas e cia estão sendo coerentes em não se entregar ao obscurantismo tacanho do presidente, mas serão pequenos ao tentar capturar politicamente. O preço do sucateamento do SUS também passa pela conta deles e infelizmente (para nós) este preço está sendo cobrado agora e tudo indica que será alto.
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A cidade e a pandemia parte 3 – reflexões rápidas sobre o mundo do trabalho.

A pandemia talvez seja o primeiro grande enfrentamento deste novo tipo de trabalhador que se torna hegemônico na sociedade brasileira, em especial nas grandes cidades: O autônomo precário. Este trabalhador que vive do bico, do imediato, que não tem patrão nenhum e muitos patrões ao mesmo tempo e que empurra todo o sistema de trabalho para um modelo de negócio similar. O sonho do grande capital é ver todo trabalhador de carteira assinada “sendo seu próprio patrão”, assinando sua pessoa jurídica seja em que caráter for. 

Nada é mais parasita no mundo contemporâneo do que empresas como UBER, CABIFY e similares, onde você “é o patrão”, o dono do carro, quem assume todos os riscos para que a empresa gere lucros exorbitantes. Também nada é mais ilusório do que o trabalhador que é obrigado a usar um CNPJ seja de EIRELI, ME, MEI para se manter subempregado em algum sistema do capital. Não! não culpemos o trabalhador, que na maioria das vezes não tem escolha, ou se sentem bem fazendo algo (muitas vezes é um trabalho que gostam e tem que se virar). 

A defesa do precário parece bonita na teoria, mas é um tiro de misericórdia. Em nome das narrativas do Do it Yourself, faça sua agenda, seja você o dono do seu tempo, seu tempo e seu dinheiro se restringem, não duram para o fim de semana, para as férias, para a pausa da vida, e quiçá para uma crise de saúde do tamanho da que enfrentamos.

Cortando de forma transversal o mundo, o vírus colocou as estruturas capitalistas em um cheque, e diante do cheque obrigou o sistema a tentativas novas de organização com a ruptura do efeito de inércia. O momento pesou na mão e o governo escolheu seu lado, o mesmo lado que lhe pôs: um grupo do grande capital, defensor de estado mínimo, escola austríaca, anti-científico e religioso. No que tange a estrutura superior parece haver um racha, em especial de ordem científica. Se por um lado alguns de seus ministros trabalham firme no combate a crise de saúde que está dada, por outro lado parte se foca em tentar salvaguardar a economia para os que lhes interessam. 

Neste sentido, a escolha de Guedes varre a população para frente da pandemia. Na necessidade de salvar os seus, leia-se claramente — OS SEUS- e não a economia, Guedes propõe a chave para a maior derrota humanitária deste país. Isso não significa que antes era tudo perfeito, faz anos que as políticas de seguridade social do Brasil foram sendo achatadas, o Sistema de Saúde Pública que no papel é de ponta só sobrevive firme pelo esforço de muitos que trabalham em situação precária lá dentro, mas isso não deve ser motivo para amenizar Guedes, afinal a chave da economia está com ele. 

Nossa vida real, para longe dos teóricos e economistas austríacos ou de Harvard ou da FGV é assim, vivemos no dia a dia da escassez. Temos escassez de segurança social, de saúde pública de escola de qualidade e que pesado,…até de saneamento. Impressiona ainda termos problemas de saneamento visto que as tecnologias principais desta ciência existem desde antes de tempos babilônicos. Sim meus amigos, o povo de Nabucodonosor tinha mais rede de água e esgoto que os moradores de Santa Cruz.

Atualmente, um dos mais importantes campos de luta do trabalhador está no território. Hoje, diante da pandemia o território está na luta para viver. E na crise está dado a importância do cidadão. O povo tem que escolher: ou para e faz quarentena ou corre o risco de pegar uma doença sem cura e que mata. Diante de tal olhar, o mais prudente de qualquer governante seria delinear ações bruscas mas efetivas que: 

1- garantam o minimo de dignidade para cada cidadão sobreviver e enfrentar a pandemia.

2- garantam a estratégia de combate a doença efetiva, clara e universal. 

A questão dada é, como pensar isso diante do olhar obtuso de Paulo Guedes e seu chefe para quem estamos todos em histeria?

Não perceber que o capital do mundo parou para que a humanidade não morra é olhar mais raso que estes senhores poderiam ter. E neste momento optar por medidas de austeridade é assinar o atestado de genocídio do povo. Esta é a burrice e visão tacanha de quem não percebe que a economia do Brasil gira em torno da força massificada de seu povo precário. Pois o precário não abrange só o pobre (que as pessoas tem em mente estereotipadas), abrange também essa imensa gleba de brasileiros com formação superior, ou os chamado de classe média que vive de trabalhos sazonais, entre outros. 

Sem ações que possibilitem ao trabalhador o mínimo de segurança social e estabilidade, o risco Brasil será o risco de vitória da Pandemia. Pois: ou teremos um caminho de medo de ficar em casa e perder o emprego, ou um caminho de desespero dos que ficarão desabastecidos do sistema. Dar margem a esse risco é nefasto e burro, nefasto pois é assinar o atestado de aumento de violência e morte dos mais pobres. Burro pois inviabilizará a necessidade de cumprir a risca os protocolos de saúde que podem garantir a vida de todos. A pequenez do presidente e de seu ministro da economia fica clara a cada novo ato, palavra, discurso e resolução.

O mínimo que deveria ser feito neste momento é a aplicação da Renda Mínima Universal e somando a isso o fortalecimento de recursos para o Sistema Único de Saúde. Quanto mais recursos investirmos agora em tratamento via reforço da estrutura de redes hospitalares, e em Pesquisa e Desenvolvimento para que nossos cientistas consigam avançar nas colaborações internacionais que estão buscando arduamente a cura para a doença, mais rápido poderemos sair desta. 

Os que arrocharam, sucatearam transformaram a Saúde Pública em esquemas para vender OSs por aí agora vão sentir o tamanho do estrago que fizeram. Talvez não se criem politicamente mais, pena que pode ser as custas de perda de vida de inúmeros brasileiros que nada tem a ver com seus lobbys. 

Vamos pagar caro pelo sucateamento de anos de instituições públicas, pagar caro pelos séculos de falta de saneamento para imensa parte da população, e pagar caro pelas escolhas burras deste presidente e seu banqueiro. 

Mas é possível que este novo corpo de trabalhador, que se organiza por fronteiras diversas e que transversa a maioria das instituições (e por isso muitas das vezes as instituições não alcançam ou entendem como certos movimentos acontecem) experimente em muitíssimo breve um ciclo de greves selvagens, as primeiras após o decrepto e bizarro dia 15, o famoso dia do foda-se. 

Mas quem somos os que vamos pagar caro?
Sou Ninguém! Tu és Quem?
És tu — Ninguém — também?
Então nós somos um par!

A crise agora é humanitária, e a luta é para que todos tenhamos vida.

E na boa, uma resposta ao dia do foda-se, parafraseando o único presidente que respeito, vivido das e nas ruas e falecido no SUS:

QUER UMA PALAVRA DE CONSOLO?
FODA-SE O BOLSONARO! 

QUEM MANDA NESSA PORRA AGORA É O SUS!


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Pandemia e cidade parte 2 – pitacos para organização de territórios vulneráveis

Recentemente fora publicado um texto importantíssimo do infectologista Valcler Rangel chamado: E quando o coronavírus chegar às favelas? (leia aqui> https://projetocolabora.com.br/ods3/e-quando-o-coronavirus-chegar-nas-favelas/) lançado na revista colabora nos alertou para o imenso eixo de nosso problema em grandes cidades brasileiras e latinas. Como lidar com equidade social diante de uma pandemia onde o principal instrumento de proteção é evitar conglomerações porém onde a maior parte das moradias pobres são justamente conglomerações

Bem, pensando nisso comecei a estudar algo para dar alguns pitacos e talvez um tiro inicial de discussões, entenda, pitacos significam que não são caminhos prontos ou prefeitos, mas sim provocações para que iniciemos a construção de uma agenda de ações urbanísticas para tal.

Nosso maior problema em termos de Política Urbana nunca resolvido está no acesso de direito a cidade a moradores periféricos, em nosso caso mais proeminente os das favelas. São territórios cujos problemas de salubridade ocorrem com frequência e onde o poder público sempre teve baixo interesse em resolver. Hoje, estamos em uma crise emergencial que precisa de respostas emergenciais. Temo que as respostas que venham por parte dos poderes do estado sejam das piores, mantendo a lógica de aproximação e usurpação constante destes poderes que por exemplo não conseguiram em épocas de vacas gordas resolver a questão de saneamento nestes territórios.

É neste sentido que traço um pitaco-proposição de que precisamos reforçar o nós por nós para encontrar ferramentas que nos capacitem a minimamente proteger os nossos. Entre essas pontuo como necessário:

1- Fortalecer a organização popular pelas instâncias existentes nos territórios, colocando como pauta primordial a segurança de saúde diante da pandemia, isto é: buscar em todas as comissões, comitês, coletivos, associações de moradores, grupos organizados destes territórios elaborarem em rede a pauta comum de elucidação prevenção e articulação de ações conexas a garantia da salubridade. Ter uma espécie de comitê de contingenciamento ou rede que seja do lugar e que articule 24h a relação com os sistemas de controle de endemias do estado e a população do lugar.

2- Fortalecer o pensamento do espaço através do coletivo. O contingenciamento pode propor ações e medidas drásticas, muitas das vezes autoritárias. Diante disso é preciso fortalecer no território os elos em que apesar das mil divergências, estamos enfrentando um inimigo comum que afetará a todos que estão conglomerados.

3- Instalado isso, pode-se pensar com mais tranquilidade na reorganização popular dos mais vulneráveis de forma que por um período de contingenciamento consigamos estabelecer que estes estejam em locais mais seguros e com mais rápido acesso dos Agentes de Saúde Público. Para tal, é preciso um trabalho constante de fortalecimento dos Elos Comunitários, de forma que possamos negociar uma mega rede de ajuda mútua inter-familiar.
O que quero dizer com isso, se sua habitação é vulnerável, ou possui um morador com suspeita de ser vetor da doença por um lado e um que esteja dentro do fator de risco por outro, Podemos negociar (dentro destas instâncias populares) que no prazo de recolhimento, o morador que está mais enquadrado no fator de risco e por sua vez deva ser protegido, pode ser “adotado” por um vizinho cuja residência favoreça mais a salubridade do mesmo. O Comitê pode mapear moradores voluntários que se interessem em ceder espaços salubres para pessoas vulneráveis e ter um cadastro de uso.

4- Precisamos adotar medidas drásticas de mercado e estado, garantir o uso de espaços salubres próximos como local de reclusão, pensar por exemplo no uso de hotéis próximos que poderiam ceder quartos a troca de isenção de imposto e principalmente: cobrar a função social das inúmeras propriedades que estão fechadas ou vazias pela cidade. Cobrando também que se cumpra a função social do arquiteto e urbanista no direito de construção de espaços salubres e com garantia a todos.

Lembrando aos mercadólatras do não existe almoço grátis que: em momentos de crise como a instaurada, lucrar com o almoço também é assinar o atestado de genocídio do povo. O primeiro passo é romper com a cultura instaurada no cotidiano individualista de que o problema das condições sociais de uma pessoa é problema dela individual e não devemos nos meter. Não! O problema das condições sociais de uma pessoa é um problema da sociedade como um todo, isso é o que dá sentido ao termo cidadão. Como dito, o texto é só um chute inicial na bola para que possamos construir as redes de elaboração de um plano mais efetivo e que nos capacite enquanto profissionais a atuar conjuntamente nesta causa que diretamente nos aflige.
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A pandemia e a cidade.

Em um mundo cada vez mais urbano e conectado, onde a conglomeração de pessoas se tornou um elemento comum de nossa sociabilidade, temos um desafio maior ainda diante de uma crise como a posta pelo coronavírus. Se em tempos pretéritos, o sanitarismo se constituiu como uma política de estado e de ação urbana que gerou inúmeras modificações concretas em diversas cidades, devemos refletir sobre o porquê de não mantermos hoje diversos programas de ações que engloba novamente a importância do sanitarismo como promotor de saúde para qualidade de vida, relacionado aos espaços que produzimos em nossas cidades.


Um grande equívoco que cometemos ao estudar os sanitaristas é observá-los apenas pelos impactos negativos e segregadores de suas ações urbanas. Esquecemos de averiguar os processos na totalidade dos fatos. As remoções compulsórias, campanhas de vacinação compulsórias, remodelação urbana além de seu efeito de segregação sócio-espacial teve o impacto, entre outros, de erradicação e tratamento de doenças que tanto afligiam o povo. Ao negligenciar parte do impacto técnico e científico das escolhas que dirigiam a política de sanear, nós urbanistas, nos colocamos fora desta pauta. Hoje pouco discutimos o papel do arquiteto junto ao sanitarista em um projeto de intervenção na cidade.. Nosso ofício nos permite ser um importante elemento articulador entre as soluções de controle epidêmico e de manutenção da vivência urbana das cidades.


Estamos em um estado que nos exige o cuidado coletivo, primeiro ponto é este: entender nossa tarefa cidadã dentro do sentido de um contingenciamento. Somos potenciais vetores de contaminação de nós mesmos. A dispersão do vetor associado ao espraiamento urbano não é mais uma resposta possível e viável dentro das metrópoles.

Hoje, caminhamos por logísticas melhores. Traçamos planos de contingenciamento sazonais e que sejam mais efetivos para a redução do efeito multidão;aglomeração.  Porém, somado a isso, devemos fortalecer as ações clínicas e assistenciais associadas ao território, de forma que as mesmas sejam garantidas espacialmente dentro de raios aceitáveis de cobertura, vale lembrar que, de nada adianta evitar aglomeração em transporte urbano e em grandes centros se não evitarmos a mesma aglomeração em locais mais frágeis como os postos de saúde e atendimento. Para tal, o primeiro cuidado do médico de família associado ao Agente de Controle de Endemias deve funcionar bem. Precisamos fortalecer nossa rede de pesquisadores de forma que possamos apresentar a sociedade um profundo conhecimento científico sobre o território, compreender as possíveis logísticas de deslocamento e de pouso de tratamento para casos mais graves, além de sistematizar o uso do espaço urbano de forma a evitar aglomerar mas não matar a sociabilidade e espírito de vivência dos citadinos.

A cidade como conhecemos e vivemos nos põe em risco, e isso também é parte da vivência, por isso, se não tivermos em mãos este planejamento de defesa, corremos o risco de nos salvaguardar de uma doença alimentando outras. Uma ode ao espaço e sociabilidade aconteceu na Itália e foi amplamente “viralizado”. Diante do caos tomado e da quarentena, cidadãos vão às suas varandas tocar canções, a varanda, que os distancia e protege se configurou em espaços de grande vitalidade quando se reforça o espírito comum diante da luta em que estão. A pandemia nos revelou mais uma vez o sentido ubuntu, o entendimento pleno de que só sou porque todos somos.


Nos pôr em risco não é culpa da cidade, é parte importante da constituição dela. De forma que, nosso trabalho não se trata construir espaços que matem as relações sociais ou segregam-na em troca de um desejo de segurança a qualquer custo. O que nos cabe é pensar, neste momento, que por um lapso de tempo precisamos nos impedir de ser vetores de nossa própria destruição. 

Um equilíbrio interessante pode estar em uma fala de LeGoff quando citou o espaço de São Francisco de Assis como um lugar de respiração: alternância entre cidade e solidão onde sua geografia de vida é uma rede de cidades e a solitária estrada entre elas pela qual se vagava. Este pode ser um modelo interessante para pensarmos ações dentro de um padrão de contingenciamento. Saindo do espaço e retomando a perna economia, também podemos fazer um pouco de analogia com o pauperismo de São Francisco, para quem o desapego e a partilha são elemento fundamental de estruturação social. Fortalecemos assim o que nos é comum em economia e o trabalho do arquiteto, o cuidado com o Eco (óikos – casa). Não a casa privada como pensamos atualmente, mas um sentido de casa onde casa e mundo são quase uma coisa só.


Assim, vamos respirar, parar fisicamente em nossa solidão que evita aglomerações mas fortalecer o “vagar” através das redes de conhecimento onde a velocidade de trocas pode nos proporcionar um melhor trabalho de busca da cura, esse é o material que nos acomoda hoje. Por o mundo em quarentena não significa propriamente um estado de exceção, mas um caminho de tratamento contra um inimigo que corre no vento contra nós. Esse é o olhar material que vejo sobre os fatos.

Porém um problema que se abre é o efeito da quebra da inércia. Talvez o maior temor de muitos sistemas diante de uma economia como a conhecemos é que, se sua roda para, muita coisa desanda. Neste sentido para tal precisamos reforçar o sentimento (ainda mantendo a analogia franciscana, o que não significa que devamos reduzir o mundo ao franciscanismo) precisamos pensar o pauperismo e seu desapego e sua partilha. Precisaremos que compromissos políticos emergenciais maiores sejam assumidos pelo poder público.Garantir um plano de sustentabilidade da vida cotidiana mediante a parada do mundo é fundamental. Um sistema de saúde universal fortalecido, boas ferramentas para que o sistema de previdência possa garantir que não tenhamos perdas de renda, o fortalecimento da seguridade social, com instrumentos que permitam uma igual inclusão de atendimento aos mais precarizados que hoje vivem de bicos e freelancer. E isso precisa ser solucionado rápido. Isenção e criação de subsídios governamentais para impedir que a população fique ao relento.

Talvez o Brasil tenha dado uma pequena sorte diante do COVID-19, estamos no verão. Temos um tempo curto, mas temos tempo de assumir e sistematizar com seriedade a gestão deste problema. Inúmeros eventos de grande porte de multidão e aglomeração já foram cancelados ou adiados, este é um caminho ponderado e necessário diante da realidade que nos vem à frente.

O processo de controle de aglomerações e movimento de pessoas por si só não terá eficiência se não houver um reforço forte do sistema de saúde no âmbito de diagnóstico e não houver um esforço do planejamento econômico e social para garantir o básico de sustentabilidade a sua população. Resumindo, precisamos ter uma política de bem estar social reforçada e que atue de forma emergencial, para garantir o mínimo de dignidade aos cidadãos diante do impacto econômico que um processo deste causa no país. Este é o dilema: como lidar por exemplo com a massa de trabalhadores que depende da continuidade diária de seu trabalho para garantir seu ganha pão? Citamos aqui motoristas de aplicativos, entregadores de alimentos, pedreiros, entre outros, que neste momento está fora de qualquer guarda-chuva de seguridade social. 

Infelizmente investimos muito pouco em controle de epidemias no mundo. Temos o monitoramento constante da OMS mas não possuímos um sistema global de saúde que consiga agregar com mais eficiência o cuidado e ações estratégicas a toda população. Falamos aqui do sentido amplo de saúde como um bem comum tendo como diretriz principal, o direito universal à saúde. Tal sistema universal nos permitiria fortalecer não só o atendimento populacional, o controle estratégico de endemias, mas também a logística e a rede de desenvolvimento de pesquisas de forma que consigamos acelerar os processos de descobertas e distribuição de medicamentos e tratamentos.

101 anos após a gripe espanhola, lembramos ao leitor que não devemos cometer os mesmos erros. A negação ou eufemismo sobre a realidade pode se tornar nosso maior inimigo diante do esforço coletivo mundial para conter o vírus. Tracemos pelo real, com planejamento, trabalho árduo, organizado em redes de forma coletiva, vamos garantindo o tempo hábil para que os campos da pesquisa científica mundial alcancem algum bom resultado em breve. Enquanto isso, vamos fazer nossa pausa, mas sem perder o ensinamento que os italianos nos passaram de forma viral nas redes, nada nos impede de cantar em nossas janelas e varandas.



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Pequena reflexão sobre os rumos de uma pandemia

     O anúncio da expansão territorial pandêmica alcançada pelo corona vírus pôs o mundo diante de muitas reflexões. Dentre elas, escolherei um caminho para o debate. Qual o limite de nossas fronteiras?
     A velocidade com a qual o vírus alcançou o mundo revela a importância de pensar e produzir o comum como um caminho de sobrevivência. A ciência se inter-relaciona na busca de tratamento e cura. Junta-se o resultado de um pesquisador de um lado do planeta com os dados de outro somado a artigo de um terceiro.
     O processo pandêmico derrubou estruturas econômicas e revelou o que muitas vezes esquecemos: como há fragilidades nestas conexões que organizam o mundo em seu delicado equilíbrio de desigualdades. O Vírus afetou o kernel deste universo e desvelou uma coisa óbvia: a compreensão do mundo a partir da simplificação das explicações econômicas e o olhar hegemônico da importância da mercadoria não trazem respostas a todos os nossos problemas. Basta uma doença não caber bem nas caixinhas pré-definidas do sistema para que as informações circulem truncadas, surjam teorias diversas e explicações desconexas.
        Isso se revela mais problemático ainda quando chega ao nível dos chefes de estado. Há por exemplo um equívoco tremendo quando um ministério no Brasil não fomenta a participação de nossos pesquisadores nos processos coletivos mundiais de desenvolvimento de tratamento do vírus. Equívoco similar ao Trump e seu discurso simplista de fechamento de fronteiras, nada muito diferente das tentativas do governo chinês de não deixar a informação circular a velocidade do vírus.
     Ao que tudo parece, o maior desafio de enfrentamento ao COVID-19 está em acompanharmos a velocidade viral, este novo paradigma de tempo e território. Este paradigma ao que parece está sendo melhor compreendido no universo da saúde mundial. Falamos de um ente que não atinge um grupo social definido, não faz recorte de classe e não reflete só nas minorias, sejam elas étnicas, religiosas ou de gênero. Sua velocidade e capilaridade social também nos impede de combater este ente por um olhar puramente classista de tratamento. Seria inviável propor tratamento e cura apenas para um determinado grupo, visto a capacidade fácil de transmissão.
      Desde o sinal de pandemia e mesmo antes, a comunidade científica se envolveu na disputa e demonstra ter as melhores ferramentas de ação para o combate. Um rápido correr pelos noticiários e somos capazes de ver que, enquanto Trump pede bloqueio do país a vôos estrangeiros e Bolsonaro faz piada, cientistas brasileiras mapeiam geneticamente o virus, cientistas chineses e cubanos trabalham em desenvolvimento de vacinas, cientistas catalães trabalham em parceria com grandes farmacêuticas. Todos atuando em rede com um foco.
       Não estamos descrevendo uma história militante anti-imperialista e nem o vírus é um ente do mesmo tipo. o que está posto ao que me parece é: diante de uma ameaça global, só conseguimos dar resposta eficaz em caráter global, onde o ato de compartilhar se torna o instrumento mais bem sucedido de resposta viral.
        Vale a pena entender como o mundo se porta cientifica e tecnicamente diante da crise instalada, acompanhar a necessidade de universalidade do sistema de saúde e vida como um direito comum e utilizarmos como exemplo. A velocidade viral não poderá ser vencida pelo tempo lento das burocracias, dos segredos de estado, sigilo industrial ou elaboração de patentes, não que isso esteja excluído, mas que sobrepujando isso traçou-se um projeto ético comum.
       São múltiplas as fronteiras que vamos quebrando se buscarmos outros caminhos de reflexão, sejam elas as territoriais, sejam as narrativas e simbólicas. Em um mundo que tanto descredibilizou a ciência e onde a representação pela representação, sem projeto comum se tornou um padrão político, a ciência segue nos apresentando bons rumos.
      Em países como o Brasil, as lutas serão maiores. A falta de planejamento político e interesse pela saúde universal nos imputa a iminente tragédia. Riscos como a falta de saneamento para grande parte de nossas cidades nos trará o maior dos desafios, salvaguardar o colapso do sistema de atendimento primário a população, que já sofre com muitos problemas. Não temos o direito a escolher qual doença trataremos ou não, portanto nenhum discurso de comparação entre doenças e suas letalidades não cabem em pauta. Importante entendermos fora da polarização que, o oposto do alarmismo não é a negação dos fatos.
    Neste momento, politizar o debate sobre o COVID-19 será romper as fronteiras da polarização em que as rasas representações se sustentam e construir um projeto comum, onde independente dos interesses privados que os envolvam alcance o objetivo focal de tirar o mundo do alerta de pandemia.


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455 Anos sem direito universal à cidade

Em um prazo muito curto de tempo o brasileiro tem se sentido honrado com a matéria das pesquisadoras que se dedicaram e mapearam o genoma deste novo vírus que tem representado um perigo mundial, e ontem mais um caso de chuvas na cidade que matou cidadãos, inviabilizou diversas moradias e bairros inteiros estão sofrendo com a cheia. Qual a relação podemos traçar entre os dois?

Pois, ao menos uma relação importantíssima há. Ambos os casos refletem diretamente, a meu ver, o bem sucedido entendimento cultural do direito a saúde universal, pensamento de direito universal este que não chegou no campo da arquitetura e engenharias.O que quero dizer com isso, mesmo o SUS tendo mil problemas, o povo entende que tem direito a médico, hospital, e outros de graça e a academia e os médicos, também entendem seu papel profissional diante do povo. O mesmo não acontece no campo profissional das arquiteturas e engenharias. 

Vivemos em cidades que se constituíram com base em algumas leis do capital: lobby automobilístico, loteamentos de grandes terrenos formando bairros e coisas do gênero construíram a maior parte de nossos espaços. Dias como os de hoje (1 de março de 2020) este erro de planejamento e projeto cobram caro, mas isso não pode ser desculpa para o erro perdurar por décadas, quase um século pelo menos. 

O problema é que esta lógica de conceber e tratar os espaços segue firme, optamos com a Copa das Copas e Olimpíada das Olimpíadas, fazer mais uma vez o mais do mesmo. Construímos com nossas arquiteturas e engenharias (algumas nem tão nossas assim) uma cidade desigual com implantação de embelezamentos por um lado e apagamentos por outro. Assim caminhamos com remoções e esquecimentos dos locais onde moram a maior parte da nossa população. População esta para quem sobra a autoconstrução como ferramenta de sobrevivência. Nosso olhar profissional é tão pouco universalista que muitos de nós ainda enxergamos a autoconstrução popular como parte do problema de exercício ilegal da profissão.

Mesmo a criação da Lei de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (conheça  a lei aqui) não tem o alcance pleno pois o povo a desconhece, tem baixa implementação nacionals, apesar de ser um instrumento excelente para iniciar este processo de universalização do direito a cidade. É triste perceber como a visão de mundo implementada sobre a profissão nos afeta. 

A milênios não há grandes inovações caras e de difícil implementação em projetos e planejamento de saneamento. Citamos por exemplo: cuidado com as águas, cuidado ambiental, construção de praças como pontos de lazer e encontros comunitários, arborização, entre outros que contribuam para a qualidade urbana e direito de vida digna nas cidades. O que nos falta é sim, a coragem de pensar as cidades de forma não segregada.

O tempo que nos vangloriamos de roda gigante ou BRT, ou algo do gênero, devemos gastar trazendo a cidade a escala que ela vive, do chão, do aperto de mão do xingamento e dos abraços, hoje enquanto muitos de nós que conseguem impor alguma voz dentro deste campo profissional estamos secos em nossas casas, inúmeros (inclusive profissionais amigos arquitetos e engenheiros) estão tirando água de suas casas, outros vendo a água entrar pela laje e viverão pelo menos semanas de mofo e cheiro ruim em casa. 

Uma chuva destas reflete para quem sofre dias sem dormir direito, trabalho duro salvando o que pode de móveis, salvando ao menos um cômodo da casa para aconchegar toda a família. São cidadãos que constróem a vida destas cidades e ficam a míngua, como fora no início do ano no Norte Fluminense, hoje foi na região metropolitana. 

Que o município do Rio de Janeiro, com toda sua complexidade, neste ano em que foi eleito Capital Mundial da Arquitetura, assuma a responsabilidade de ser exemplo da universalização do direito a construir. Isto não é um simples aplicar a lei d ATHIS, vai muito além, precisamos de um trabalho estruturante de modificação da ideia de pra quem construímos nossas cidades, esta luta é imensa mas tem que ser traçada. Precisamos de uma cidade que fomente do direito a arquitetos e engenheiros públicos que atendam a todos os cidadãos e não mais ao lobby de quem investe capital imobiliário nela apenas, até porque neste momento estes lobbystas da cidade estão secos e confortáveis. Os donos da roda gigante tem telhados e lajes impermeabilizadas, a maior parte da nossa população não!




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BIM e um olhar sobre o trabalho e o capital

Uma das grandes mudanças profissionais no campo dos empreendimentos construtivos (recorte da arquitetura) surge com a chegada do pensamento e dos instrumentos de BIM, que começam a emplacar no mercado profissional sobre o CAD. A princípio vamos comentar primeiramente sobre o que isso significa. A grosso modo podemos dizer que: o conceito CAD (computer aided design ou traduzindo desenho assistido por computador) é uma complexa prancheta de Desenho, com inúmeras ferramentas e scripts que facilitam em muito a automação de certos serviços.

O impacto do CAD no modo de trabalho em projeto fora impressionante, porém não muito discrepante da forma atual de se trabalhar por ser basicamente um avanço tecnológico sobre um pensamento de projetar onde leia-se o pensamento cartesiano de desenho. Nos dias de hoje, vivenciamos uma nova mudança para o modo de operar, o BIM (Building Information Model ou modelagem de informação da Construção) diferente do CAD, o que se modifica é a forma de operação sobre o projeto, pensando-o não mais a partir da representação cartesiana e sim da modelagem construída. Vale lembrar que em muitas áreas da engenharia pesada já se projetava utilizando ferramentas paramétricas de modelagem estilo BIM (guarde este registro).  Assim sendo, o que estamos falando aqui não são apenas softwares, mas de modos de produção do trabalho.

Estes modos de trabalho foram fortemente hegemonizados por uma grande corporação guarda-chuva de softwares do tipo, não precisamos escrever nomes aqui, pois os nomes vêm à cabeça na primeira leitura. Mas como ocorreu este monopólio? Um caminho muito simples. A épocas em que os hardwares dos computadores pessoais eram mais potentes e comuns que os grandes bancos e sistemas de nuvens, coube a corporação simplesmente ser proprietária de uma sigla de três letras, que poucas pessoas se dão conta: o famoso .DWG, esta sigla atua como uma chave de criptografia que permite a leitura com exclusividade para seus softwares, cuja pirataria era combatida porém não com tanto afinco a ponto de tornar-se o programa comum no cotidiano profissional, passo importante para garantir a hegemonia de um sistema proprietário. 

Os modelos CAD acabaram com as pranchetas dos escritórios, porém também se adequou relativamente bem a um sistema de trabalho flexibilizado e que permitisse com tranquilidade terceirizações, parcerias de pessoas jurídicas com pessoas jurídicas e outrem. No recorte do arquiteto, permitiu mais velocidade, em especial ao arquiteto de médio porte atuar. Enquanto por outro lado, os grandes projetos industriais seguiam caminhando e se estruturando em ferramentas mais robustas e diferenciadas, como as ferramentas AVEVA que também condiziam com um modelo de organização do trabalho que permitia e necessita desta robustez.  Não precisamos nem explanar mais o quanto o CAD fortaleceu o modus operandi do arquiteto alienado ao canteiro de obras.

O BIM emplaca na arquitetura e construção civil em um outro cenário. Se nos anos noventa, e inicio dos anos 2000 disputávamos o espaço da internet como território livre, onde a cópia de arquivos, o peer-to-peer, eram grandes instrumentos de disseminação de material e dados enquanto buscávamos defender os softwares livres ou não proprietários, na última década para cá, esta disputa selou. As grandes indústrias do meio imaterial como a fonográfica e a de softwares se reorganizaram e consolidaram um novo modelo de capital. Quase ninguém mais compartilha música via torrent, ouvimos via spotfy. Assim também os programas piratas começaram a decair, e substitui-se o modelo de instalação com chave própria (muitas vezes pirateada para facilitar a hegemonia) por um modelo de aluguel de serviço. É nesta conjuntura que o BIM chega ao mercado com seu produto mais pop entre os arquitetos brasileiros (para não citar nomes vou inventar um) o REVIDE.
Sigamos:
O “revide” surge como uma proposta inovadora para nós arquitetos, trocar a prancheta eletrônica pelo canteiro de obras simulado, algo que o sistema PDMS da AVEVA já fazia a bastante tempo na construção pesada industrial por exemplo (local onde a flexibilização do pequeno escritório com parceiros distantes não favorece o empreendimento). Além disso, chega apoiado e duas grandes bases:
1 – A corporação que o lança já está consolidada e hegemônica no mercado nacional,
2- As novas formas de estrutura informacional mundial facilitam o sistema proprietário como o revide adentrar o mercado.

O revide é vendido nos anos atuais como o cogumelo do sol era vendido nas décadas de 80 e 90, quase que a solução para todos os problemas modernos, e como se para muitos não existisse outra ferramenta hábil a realizar o tão sonhado projeto. Ainda estamos engatinhando na transição. Em parte, os antigos (me incluo) sofrendo para fazer a mudança de raciocínio de projetar por desenho para projetar por modelagem construtiva, (o que revela muito o resultado da impotência de anos dos profissionais afastados dos canteiros de obras). Por outro lado, os mais jovens que ainda não conseguem compreender a ferramenta como um elo do novo modo de produção do capital.

O sistema “revide” porém, obriga certa robustez, seja de hardware seja de equipe de trabalho profissional na compatibilização e projeto completo em si. No atual momento, o que está dado poderá criar uma ruptura grande no campo profissional. Onde, ou se organiza os trabalhadores de forma quase industrial em torno de um projeto, garantindo um grande centro de banco de dados de BIM e softwares potentes contratando os profissionais a trabalhar em equipe dedicada, ou teremos cada vez mais organizações de trabalho altamente precarizados com complicados problemas de projeto e construção.

Há possibilidades deste custo cair para o consumidos final? creio que sim, visto que um dos maiores bens de valor atuais são os dados e softwares paramétricos tem como foco o alimento de bancos de dados, estas grandes corporações podem facilmente abrir verdadeiros bancos de dados, com lógica econômica de bancos financeiros, troca de dados por crédito, depósito de dados em nuvem, você produzir dados e alimentar a empresa com dados (como as redes sociais já fazem). Talvez não haja muito interesse neste momento, mas quem sabe no porvir? 

A problemática, porém, não está na ferramenta, seria ludita pensar nisso. A questão está na atual conjuntura de construção do capital e sua interface com nosso meio profissional. Meio este cuja nova legislação por exemplo enfraquece o celetista em nome da pessoa jurídica (seja PJ, EIRELI, MEI, etc.) o que favorece o retorno da exploração dos mesmos a um centro de trabalho com a flexibilização completa dos direitos institucionalizando-se na narrativa da terceirização.

O que nos coloca no jogo das novas formas de exploração e nos capacita a lutar é compreender em que meio estamos pisando para saber onde e como e a que resistir. É sabermos que ferramentas são só ferramentas, para não cairmos no ufanismo da tecnologia pela tecnologia ou no ludismo de que a tecnologia está matando nossos empregos. Uma vez ouvi um comentário ótimo, piada de um grande camarada: “enquanto os americanos projetavam uma caneta onde a tinta poderia escrever até na órbita da terra, os Russos mandaram o astronauta levando um lápis”. A piada não é sobre adequação ou resiliência, é sobre inovação e entendimento de onde estamos.

O BIM chega a nós arquitetos em um momento de extrema fragilidade profissional no país e no mundo. Para nós em especial, onde poucos conhecem o canteiro, o cheiro de cimento e madeira cortada, lidar com a modelagem do que será construído será extenuante, para outros que habitam o canteiro e muitas vezes resolvem um detalhe de projeto riscando tijolo no chão talvez não apanhem tanto. O que precisamos estar preparados são para as possíveis formas de apropriação e exploração do nosso trabalho e nossa vida.

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Parasita e distopias de um mundo presente

Muitas são as entradas possíveis para debater sobre um filme da densidade do principal vencedor do Oscar. O que buscarei aqui são reflexões que transversam e flertam com o filme, e não necessariamente sobre o filme. O primeiro marco que sinto reside no universo distópico de Parasita.
A distopia está no tempo presente.
A temporalidade trazida retrata um mundo contemporâneo cercado de suas mazelas e disparidades sociais. Mundo este no qual a arquitetura atua como paisagem e personagem coadjuvante. Mas para não entregar o filme, não falemos das arquitetura do mesmo, porém de exemplos paralelos que nos interessam. A tríade: condomínio-via expressa-shopping center que se reflete no aeroporto de Koolhaas, aqueles espaços estéreis de múltiplos seres, mas que escondem em seus subterrâneos e corredores técnicos a vivencia do trabalhador que sustenta o funcionamento do espaço. A distopia de parasita está ali dada. 
A representação.
Ao abdicar de suas verdades em busca de viver a partir da representação, os pobres se posicionam em uma auto-alienação cujo premio são algumas migalhas de conforto. A representação porém não salva o pobre de sua condição real, não o insere na outra camada social. O pobre alcança no máximo uma familiaridade que é restrita aos serviçais mais próximos a casa-grande. 
A idolatria ao arquiteto, ou ao dono da casa grande não insere o ser real do pobre no círculo privilegiado, no máximo, o inserido é o personagem representado. Personagem este que diante da catástrofe entra em pausa para que a verdade da vida real assuma seu lugar em meio a todas as perdas. O dualismo que tensiona entre o personagem (representação) e o ser real tem sua ruptura em um desfecho de explosão visceral.
A consciência de classe.
A busca incessante que temos pela construção da consciência de classe também tem sua crítica marcada no filme, onde a diferença de classe se torna clara. Porém a diferença que leva ao desfecho não cria a visão de mundo através de um processo -digamos- civilizatório e cartesiano de construção desta consciência. A relação de classe é sentida na pele, expressada por instintos básicos dos sentidos humanos. Sentidos estes que se elevam diante da pressão envolta na desumanidade dada aos que levam a vida em um porão. O pobre é elogiado por conseguir se manter no seu lugar, no seu espaço, porém mesmo que conscientemente se mantenha, sua carne incomoda, vaza para o espaço que não lhe convém ocupar pois pertence ao hospedeiro.
O filme apresenta com força o que é a dificuldade exponencial do pobre em sobreviver diante da facilidade que eventos trágicos tem de tirar suas poucas posses. A barraca de brinquedo da criança que resiste diante do mesmo cataclismo que torna inúmeros moradores da cidade flagelados é um recorte belíssimo dessa narrativa. Ao pobre resta ser tático para se manter sobrevivendo enquanto a vida e liberdade pertence ao seu hospedeiro.
Parasita fala de classes, as lutas e diálogos porém são retratadas através das vísceras. O olhar sobre esta relação de classes e a obra me remete a uma frase de Bruno Latour “É preciso combater a ideia de que existe por aí um dicionário do qual todas as palavras dos atores possam ser traduzidas nos poucos verbetes do léxico social”. Não há um plano que dê certo.
A barraca, a casa, o porão, as ruas e escadas, o sol e a sombra, cada detalhe retrata a proximidade deste mundo distópico ante da nossa realidade. Uma distopia que passa diretamente sobre o urbano e a arquitetura e que me fazem questionar: como é o mundo de parasita nos corredores técnicos dos shopping centers, como é o mundo de parasita no universo dos moradores sem teto e flagelados que dormem em nossas esquinas, nos aeroportos e outros espaços similares. Se antes estes eram invisíveis simbolicamente e politicamente, as novas cidades estão tentando torná-los invisíveis também espacialmente, em uma vida de labor em entrepisos, corredores de acesso e similares. 
Uma coisa porém me assustou em termos de arquitetura. Diferente do Brasil, onde até pouquíssimo tempo toda residencia projetada possuía um caminho separado de entrada das empregadas (as mesmas que não devem ir a Disney). Em Parasita, os pobres podem acessar a casa grande pela entrada principal.
É possível que nossa distopia cotidiana brasileira esteja anos luz a frente na desumanidade, porém é possível que estejamos domesticados, tão domesticados quanto quem já assimilou com normalidade comprar água da Nestlé para beber ou espera em um porão sem sol o momento ideal de sair novamente pra vida. 

A questão é esta: como podemos nos reagregar em meio a novo tempoo presente?
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