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PILHAGEM URBANA DO RIO

Começo o texto a partir de uma notícia recente. Saiu no diário do Rio matéria comentando sobre o agravamento imobiliário na Barra da Tijuca causado pela mudança da Vivo de sua sede neste bairro para o Porto Maravilha.  Esta matéria, apesar de focal, fala sobre um processo histórico da cidade do Rio, a disputa territorial pela centralidade comercial da cidade.

Os grandes pensamentos imobiliários e interventores que definem esta cidade, a muito tempo que tencionam esta disputa. Temos o Rio com um centro oficial, claramente delimitado e legitimado pelo processo histórico de formação deste país, e a proposta idealizada de construção de um centro novo. E em meio a isso, para o restante da cidade, o De Janeiro, fica o desleixo e esquecimento de tudo que não rebate diretamente nestes espaços. Continuar a ler

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“As nossas riquezas, as nossas carnes, as vidas, tudo. Vocês venderam tudo!”

É interessante este ponto de vista do sujeito indeterminado no lugar em que rotineiramente damos a notícia apontando o incêndio como sujeito. Pois bem, não poderíamos nunca imaginar que hoje, dia 29 de julho de 2021 estaríamos novamente debatendo o mesmo elemento e apontando o que denunciamos com a notícia: Incêndio atinge depósito da Cinemateca Nacional. 

Originalmente matadouro, o patrimônio se manteve e passou a abrigar a cinemateca brasileira após interessante projeto arquitetônico de Nelson Dupré. Este não é o primeiro incêndio que assola a cinemateca, que já viveu dias de dor em 2016. Este infelizmente é o retrato comum de um país que vê seus espaços de preservação da história sendo lançados ao relento. 

Uma das primeiras formas de destruição dos mesmos é a degradação simbólica. Vivemos uma Terra onde o desmonte cognitivo das nossas memórias é constante. Somos massacrados pelos mais diversos artifícios para tal, desde coisas como: estudar é chato, até o discurso de que o novo sempre é melhor, vivemos rodeados por um cotidiano que nos consome deixando-nos pouco tempo para buscar algo fora da cartilha. A vida passa a ser um dia a dia de embebedar-se com séries e novelas, consumir redes sociais, discutir notas sensacionalistas de jornais. 

A História é só o velho, e os velhos não têm lugar na agenda. Mesmo para a agenda mais progressista, os corpos militantes são os jovens, tudo é inovação. História, sociologia, filosofia são coisas efêmeras que não precisam estar na grade curricular do EAD  do MEC’ Escola feliz onde paga por um curso e o diploma vem de brinde. 

Quem precisa de cinemateca quando se tem a netflix? não duvidaria de ouvir esta frase por aí.

Praticantes tikkertokers se perdem em dancinhas virtuais enquanto o exército paramilitar domina todos os espaços reais em redor dos pobres. Quem vai bater de frente? Quem vai ler nas letras miúdas que nos permitem desmontar a memória, como uma criança dopada de rivotril.

Toda nossa História está sendo desmantelada, negligenciada, e pegando fogo. Os que choraram por Borba Gato e cobraram a cabeça dos que o incendiaram terão coragem de chorar pela Cinemateca e cobrar a cabeça dos que cortaram a verba do Cinema Nacional?  A luta pelos cinemas é uma luta insólita de resistência, seja a cinemateca que arde em chamas, sejam os Cinemas de Rua suburbanos se degradando e levando consigo a nossa história para a beira do esquecimento.

Esse é o país que o atual Estado nos deixou. Um país que nos empurrou pra fome e que se esforça para apagar nossa História e que forma uma elite de bosta que não está nem aí pra esse lugar. 

Perdemos muitas oportunidades nesta vida, dentre a maior delas tivemos anos de governos progressistas que não conseguiram produzir uma mudança cultural mínima neste país. Do fim da ditadura até hoje passaram-se ao menos uns 30 anos, tivemos tempo de construir uma sociedade com base forte, que entende a necessidade da cultura, da história, da educação de base. Paulo Freire passou longe das escolas, infelizmente habita ali na resistência, nas citações teóricas e nas tentativas táticas de alguns professores que ainda acreditam na possibilidade de futuro para as nossas crianças, mas nunca se tornou uma política de Estado. 

Mas é isso, nossa pedagogia é forjada pela violência, o vilipêndio e a fome, ficamos atomizados diante das chamas que corroem nossos cinemas e das maquitas que derrubam nossa arquitetura. 

Comemoramos medalhas que são verdadeiros feitos heróicos por parte de atletas que enfrentaram as mais terríveis dificuldades pois temos um país que já viveu a copa das copas e a olimpíada das olimpíadas e não conseguiu deixar um legado esportivo, mas jorra dinheiro da loteca federal para os caixas já gordos de dirigentes de determinados clubes de futebol. A gente aprendeu a resistir no meio de tudo isso e por dentro de tudo isso. Passamos anos caminhando pelas brechas que nos foram permitidas, mas o mundo não pode ser só isso e resistir apenas não está mais dando resultado.

Este país não pode ser mais refém dos netos e bisnetos das elites cafeeiras que agora são agro pois agro é pop. Que escolhem algumas quadras de cada cidade famosa deste país pra chamar de linda, de maravilhosa, de global city, enquanto 80% das cidades ficarão ao relento, controlada por tiro porrada e bomba. Ficando reféns dos militares às milícias, dos Borba Gatos, dos Deodoros, dos Costa e Silvas e dos Bolsonaros.

Somos todos nós que perdemos hoje neste Brasil 

“As nossas riquezas, as nossas carnes, as vidas, tudo. Vocês venderam tudo!”



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“AS NOSSAS RIQUEZAS, AS NOSSAS CARNES, AS VIDAS, TUDO. VOCÊS VENDERAM TUDO!”

É interessante este ponto de vista do sujeito indeterminado no lugar em que rotineiramente damos a notícia apontando o incêndio como sujeito. Pois bem, não poderíamos nunca imaginar que hoje, dia 29 de julho de 2021 estaríamos novamente debatendo o mesmo elemento e apontando o que denunciamos com a notícia: Incêndio atinge depósito da Cinemateca Nacional. 

Originalmente matadouro, o patrimônio se manteve e passou a abrigar a cinemateca brasileira após interessante projeto arquitetônico de Nelson Dupré. Este não é o primeiro incêndio que assola a cinemateca, que já viveu dias de dor em 2016. Este infelizmente é o retrato comum de um país que vê seus espaços de preservação da história sendo lançados ao relento.  Continuar a ler

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Breve Reflexão sobre Estética e o Desencontro entre Arquitetura e Sociedade

Um dos meus primeiros contatos com o campo da estética, ainda na faculdade de arquitetura, veio pelas disciplinas de estudo da forma e de expressão gráfica. Na minha formação, esses estudos quase sempre se apoiavam numa visão de mundo greco-romana, uma das matrizes das Belas Artes.

Mesmo quando o modernismo, que estruturou boa parte do início do meu percurso, proclamava ruptura com as Belas Artes, sua filosofia continuava orbitando o mesmo céu. A ideia de forma ideal, as proporções áureas, a promessa de uma harmonia estética ascética e hermética, como se servisse ao todo da sociedade. Essa base atravessou a escola e moldou projetos em que a pessoa raramente estava em primeiro plano, e a condição financeira, menos ainda. Enquanto isso, aqui fora, no chão do vivido, o mundo seguia construindo do seu jeito, com seus referenciais e seu campo real de possibilidades. Estudávamos lajes planas, quando para o povo o luxo era um telhado colonial, aquele sonho de capa de revista, tipo Casa Cláudia.

Mas, para não me perder, o desencaixe principal estava na própria base da formação. Pensávamos a vida por um viés de transcendência. Primeiro vem o projeto, emergindo como tentativa de semelhança com um mundo perfeito, no campo das ideias. O projeto segue seu rumo até que se dê a obra, sempre icônica, porque, nesse imaginário, a arquitetura não pode ser simulacro.

Só que a vida real não cabe nesse enquadramento. Ela acontece o tempo inteiro, processo atrás de processo. A arquitetura é acontecimento do espaço, concebido e vivido, e é aí que o sentido anterior não fecha. Quando retiramos a arquitetura desse campo transcendente e a trazemos para a experiência viva, o que se abre é justamente a discussão estética. Não existe mais uma boa e uma má arquitetura em si mesmas. Existem caminhos distintos por onde pensamos e operamos o espaço e o tempo da vida. A arquitetura segue o devir. Movimento permanente, criativo, transformador.

Essa diferença é decisiva quando queremos compreender como profissionais de arquitetura podem adentrar o universo da autoprodução do espaço construído. Na autoprodução, o essencial não é tanto o fim da obra, nem o resultado épico de um projeto. O que sustenta tudo é a possibilidade constante de adequação ao momento e ao modo de vida. Um filho que nasce é um quarto que se levanta. Um filho que casa é uma laje que vira novo lar.

É nesse encaixe que um pensar ético e estético da arquitetura pode encontrar talvez o caminho mais democrático de construção da espacialidade. Nós, humanidade, já organizávamos o espaço muito antes dos traços gregos, antes da sistematização das sequências de Fibonacci, antes de Imhotep. No início dessa virada, precisamos redesenhar a visão de mundo. Estar abertos a uma leitura transformadora da vida, onde a contradição e o movimento de ida e volta estejam diante de nós. Precisamos afrouxar o apego ao caminho moral do saber, a caça pela boa forma, pelo bom olhar, e nos permitir dialogar com os muitos olhares que montam e moldam a realidade. Fibonacci, afinal, é uma redução útil, não um altar. Ajuda a ler uma parte, mas não dá conta da complexidade quase infinita das formas da existência.

Se a nossa categoria conseguiu sistematizar o campo técnico-científico via universidades, a espécie humana organiza, por uma longa rede de oralidade, as trocas que operam na autoprodução. Gente que aprende desde pequeno com pais, avôs e bisavôs, que fizeram de tudo, de bibocas e palafitas a pontes, aterros, aberturas de túneis e até palacetes.

À medida que nos imbuímos dessa experiência e soltamos as amarras da busca icônica, começamos a entender. É explorando ao máximo a contradição e o diálogo entre o técnico-científico e o saber do lugar que podemos elevar, de fato, a qualidade espacial do mundo em que vivemos.

No fundo, a crise do saber técnico na arquitetura fala menos de perda e mais de urgência. Romper com certos modos atuais de fazer e de compreender o que é arquitetura, e recompor esse campo a partir dos processos reais de existência e dos valores que atravessam a sociedade de hoje.

 

 

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BREVE REFLEXÃO SOBRE A ESTÉTICA E O DESENCONTRO ENTRE ARQUITETURA E SOCIEDADE

Um de meus primeiros contatos no campo de estudo da estética, ainda na faculdade de arquitetura, envolveu disciplinas de estudo da forma e expressão gráfica. Em minha formação por sua vez, tais estudos sempre se embasaram em uma visão de mundo greco-romana (uma das visões mães da Belas Artes).

Embora o modernismo, pensamento que estruturou boa parte do início de minha formação, tenha proposto uma ruptura às Belas Artes, sua base filosófica ainda pairava no mesmo ambiente de estudo da forma ideal pela forma real, proporções áureas, uma certa harmonia estética que era ascética e hermética pro todo da sociedade. Esta base seguiu escola a dentro pensando projetos de arquitetura onde a pessoa não estava em um plano claro, e a condição financeira também não. Enquanto isso, o mundo aqui fora, no lugar vivido seguia construindo, a seu modo, com seus referenciais e suas condições de possibilidades. Estudávamos lajes planas enquanto pro povo o luxo era um belo telhado colonial das mansões da Casa Cláudia. Continuar a ler

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Monumentalidade e Patrimônio: O que o incêndio ao monumento de Borba Gato nos diz.

Não vou alongar muitos argumentos sobre a questão do monumento aqui. Mas vou tirar um texto específico do saber técnico-científico do campo da arquitetura pra comentar a respeito da questão de patrimônio, monumento, preservação.

Partindo do texto: os 9 Nove pontos sobre a monumentalidade escritos por José Luiz sert, Frenand Léger e SIefried Giedion.
Seu primeiro ponto traz:
\”Monumentos são marcos que o Homem criou como símbolos dos seus ideais, dos seus desejos, das suas ações. São concebidos para sobreviver ao período que lhes deu origem e constituem uma herança para as gerações futuras. Como tal formam um elo entre o passado e o futuro\”.
No seu terceiro ponto lembra:
\”Qualquer época do passado que tenha desenvolvido uma verdadeira vida cultural tinha o poder e a capacidade para criar estes símbolos\”.
Então, o que há e comum entre a comoção em torno do ato de incendiar a estátua de Borba Gato e o descaso com o patrimônio material das regiões periféricas deste país?
O simples recorte histórico de uma sociedade que ainda mantém os modelos elitistas de formação deste país como ícones de valor e ideais.
Lembro-me de uma cena marco do Filme Adeus Lenin, quando a estátua de Lenin é retirada e o jovem protagonista vivencia ali o clímax a demarcação simbólica do fim da Alemanha oriental. (vale ver o filme).
Mas saindo do cinema e vindo pra vida. Ao incendiar a estátua, o que parte da população diz é: não compactuamos mais com os ideais que sustentam de pé estes monumentos. Isso é como Moisés descendo do monte com os Dez Mandamentos e vendo o povo adorar o Bezerro de Ouro, ou como quando após a derrubada de Saddam Hussein suas imagens foram postas abaixo.
Defender a preservação de um monumento é defender o que este simboliza e demarca na história. É interessante notar como a literatura de Victor Hugo foi importante para a valorização da Catedral de Notre-Dame.
E este é o ponto, se cortarmos Brasil a dentro veremos inúmeros bens tombados, monumentos, arquiteturas referenciais pra um grupo social, uma região, um povo, literalmente abandonados e degradados ano a ano, como um incêndio homeopático.
Bens históricos de referencia dos povos africanos ou indígenas sofreram anos de perseguição oficial, e ainda hoje sofrem com perseguições das mais diversas. Quantos não são os casos dos terreiros dilacerados?
No Rio um caso marcante deste recorte elitista é o desmantelamento e esquecimento dos cinemas de rua suburbanos. Arquiteturas símbolo de um tempo histórico onde as regiões suburbanas expressavam uma pujança social e econômica, ainda que estes lugares sempre estejam aquém e segregados nos projetos de cidade.
Os cinemas de rua seguem a cartilha da destruição:
O abandono homeopático por parte do poder público como maneira de destruir o valor cultural e simbólico para a própria região. Bairros inteiros perdem o sentido de sua história, ficam reféns de nunca se sentirem realmente importantes.
O recado social é claro:
Borba Gato ainda é uma referência de um modelo ideal para os que choram pelo incêndio, enquanto para estas mesmas pessoas os Cinemas de Rua são só algo que atrapalha a especulação sobre o terreno no qual eles foram construídos.
Este é o tipo de recorte de valor que nos foi dado no país. Não é esta parte do Brasil queira apagar toda a sua história, ela apenas quer seguir mantendo a narrativa da pujança elitista e manter no esquecimento todos os periféricos, favelados, suburbanos, negros, indígenas e por aí vai.
Esse é o retrato de um país que uma parte de suas elites e governantes chora pelo monumento escravagista de Borba Gato, no mesmo dia em que celebramos as Mulheres Negras da América Latina e Caribenha.


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Desejo de Matar e as contradições do individualismo

Em 1974 estreou o filme Desejo de Matar estrelado por Charles Bronson, esta obra tem um impacto peculiar na cultura da gente. O eixo central fala de um homem comum que após ter sua casa invadida, sua esposa é assassinada e sua filha violentada. Paul Kersey, um arquiteto de ideias liberais com visão de mundo anti-armamentista, se transforma pouco a pouco em um vigilante das ruas. 

filme dá um pontapé numa massa de produções com enredos de valorização da cultura armamentista como ferramenta de proteção do cidadão comum. Apesar disso, não podemos reduzir o enredo deste filme específico a esta propaganda. Desejo de Matar está muito mais próximo de Um Dia de Fúria, filme onde um designer industrial explode seu stress com o modelo de sociedade e se vê emaranhado numa teia de problemas que se desencadeiam e piora quando este se arma, do que de filmes e franquias que se inspiram nesse modelo do homem comum armado resolvendo tudo.

Charles Bronson não é um herói, a única habilidade exímia de seu personagem é saber atirar, mas não é um atleta, não é um estrategista ou nada assim. Mas em que isso tudo nos importa? Simples, somos hoje em 2021 uma geração criada embebida na lógica das narrativas cinematográficas abertas por filmes como este. Uma corruptela do bom Desejo de Matar veio com sua franquia e com inúmeros filmes posteriores cujo personagem principal seguia o mesmo padrão: homem de meia idade armado resolvendo problemas que o Estado não foi capaz de resolver. Essa é a base de uma gama de filmes de Charles Bronson, Chuck Norris, Bruce Willis, Vin Diesel, etc.

Este, que é o eixo central do Desejo de Matar, também tem muito a nos dizer. O filme retrata como um homem comum com repulsa a armas, quando vê sua vida destruída pela incapacidade do Estado toma certas escolhas. O filme retrata de forma peculiar as possibilidades e contradições abertas por uma cultura armamentista e liberal podem gerar a busca pelo vigilantismo e punitivismo. Ver essa leitura nos ajuda a entender nosso dia a dia aqui também. Apesar de o Brasil não ter a mesma relação histórico-cultural que os Estados Unidos tem com o universo das armas de fogo, fomos moldados (inclusive por estes filmes) a normalizar a cultura das armas.

Um padrão em todos os filmes deste tipo, e também um certo padrão do mundo real, é que lidamos com um sistema de segurança ruim, falho, corrupto, — “esta cidade é assim”. Quando as pessoas comuns pensam em segurança o que desejam é proteção, e raramente encontram. O cotidiano de uma visão liberal da vida nos instiga e nos bomba com referências de que devemos fazer por nós mesmos. Nossa vida é um problema nosso apenas, temos que cuidar de nosso interesse individual, primeiro nos ajudemos para depois ajudar ao próximo, se batalhar consegue, somos bombardeados com modelos que centram no indivíduo a saída e no coletivo o problema. O que temos então? a chave certa para defender saídas não estatais para problemas de estado (como a segurança pública, por exemplo).

Este é o ponto que Desejo de Matar já nos apresentava. Qualquer pessoa comum que cresce em uma cultura que valoriza as soluções individuais pode perder sua fé nos sistemas institucionais e tentar uma solução por si. Os sistemas institucionais, por sua vez, limitados para resolver os problemas estruturais que geram a violência urbana, não conseguem dar cabo de resolver o problema da vigilância apresentada no filme sem utilizar de subterfúgios. A polícia não o prende para não criar um mártir e abrir o descontrole social, antes o incentiva a mudar de cidade. Nota-se também que, se em um primeiro ciclo de ações do vigilante, os criminosos atuam com armas brancas, já no fim, o vigilante é pego por criminosos que usam também armas de fogo.

O filme expõe um pouco do como funciona esse ciclo de violência urbana. Se num dado momento, a criminalidade parece reduzir porque o vigilantismo mudou a postura do banditismo, o fim do filme mostra que este ciclo permanecerá com uma qualificação do banditismo para reagir ao processo social. Quanto à proposta institucional para resolver o problema, o que se apresenta pelo filme é o famoso: jogar para debaixo do tapete o problema, incentivando o grande escritório onde o arquiteto trabalha a transferi-lo para outra cidade. O problema da violência não se resolve em momento nenhum, isso fica claro, assim como uma certa angústia ou crença do personagem principal.

No fim tanto a crença anti-armamentista que individualizada não impediu Paul Keyser de sofrer a violência que sofreu nem a possibilidade de punitivismo armamentista trouxe ao arquiteto a paz, ou a segurança ou a solução, o que parece ser seu vetor é apenas a descrença na capacidade de um sistema melhor. O que parece lhe dar um pouco de paz talvez seja o fato de ter se posto como essa cunha da contradição que obriga o sistema a rever seus caminhos. Os únicos momentos do filme onde o personagem comenta sobre seus motivos, em diálogo com o filho, deixa mais questões e dúvidas no ar do que motivações. É quase como uma escolha niilista enquanto cabe a sociedade dispor das teorias ou críticas sobre os fatos.

Entendermos isso é importante para entendermos como acontecem certos processos e pautas conservadoras que nos parecem contraditórias como por exemplo ser cristão e querer ter uma arma em casa ou o discurso de legítima defesa que alguns pregam. Este desejo equivocado se embasa nessa construção cultural de décadas de bombardeamento da cultura pop que aponta isso como solução somado ao problema material de não termos uma política de estado eficiente para lidar com a segurança pública. Este mesmo desejo acaba por relativizar e facilitar a criação de sistemas de poder paralelos, à medida que, no momento inicial, as lideranças locais destes são vistas como vigilantes de bairro a cumprir o papel que o Estado não consegue dar conta.

Desmistificar o armamentismo individual exigirá um esforço complexo que passa primeiramente pela garantia de um sistema policial e judiciário não corrompido e que tenha como diretriz a proteção ao cidadão. Segundo, precisamos recuperar o interesse coletivo em escala comunitária (rua a rua e bairro a bairro) para a solução de problemas e construção de propostas como aumentar o acesso a direitos básicos e redução da segregação social.

Para além disso, precisaremos de um processo de ressignificação desta parte da cultura pop que traça como bem sucedido e símbolo de sucesso o homem armado. O que pode até ser trabalhoso mas não tão difícil visto que essa propaganda tem como pano de fundo um recorte tipo homem de meia idade, que aparentemente não é o desejo de ser dos jovens. Mesmo jovens que hoje buscam se entender por uma identidade conservadora podem se colocar em contradição diante deste padrão. Lembramos dos tempos em que propagandas de cigarros retratavam sucesso, vida atlética, liberdade, refinamento cultural. Hoje, ainda se fuma, mas já não são massivos e associados a estes conceitos a quantidade de fumantes. Quem fica preso a este eterno retorno do passado como saída acaba por gerar espantalhos até que se transforme em um.

Conceitos de vida mudam porque somos seres com habilidades sociais, coletivas e mais importante de tudo reflexivas. São estas habilidades que nos permite buscar os melhores meios de ampliar nossa qualidade de vida, nosso tempo individual na terra, nossas produções coletivas e por aí vai. Para tal é preciso estarmos constantemente colocando nossas contradições sociais na mesa para propor caminhos melhores, mais coletivos e mais humanos.

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DESEJO DE MATAR E AS CONTRADIÇÕES DO INDIVIDUALISMO

Em 1974 estreou o filme Desejo de Matar estrelado por Charles Bronson, esta obra tem um impacto peculiar na cultura da gente. O eixo central fala de um homem comum que após ter sua casa invadida, sua esposa é assassinada e sua filha violentada. Paul Kersey, um arquiteto de ideias liberais com visão de mundo anti-armamentista, se transforma pouco a pouco em um vigilante das ruas. 

filme dá um pontapé numa massa de produções com enredos de valorização da cultura armamentista como ferramenta de proteção do cidadão comum. Apesar disso, não podemos reduzir o enredo deste filme específico a esta propaganda. Desejo de Matar está muito mais próximo de Um Dia de Fúria, filme onde um designer industrial explode seu stress com o modelo de sociedade e se vê emaranhado numa teia de problemas que se desencadeiam e piora quando este se arma, do que de filmes e franquias que se inspiram nesse modelo do homem comum armado resolvendo tudo. Continuar a ler

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VISTA ALEGRE esse pequeno pedaço de subúrbio

 Se antes falamos do Imperador e o conceito de lugar, porque não falar hoje do meu ou um dos meus Lugares ? 0 pequeno bairro de Vista Alegre.

Rogério Batalha, compositor, poeta e morador de Vista Alegre cita: nosso bairro é uma pequena Bahia, Jorge Amado realmente teria muito a contar sobre este lugar. Esse bairro que se avizinha a Cordovil, Irajá, Brás de Pina e vila da Penha é quase um condado pouco lembrado ou citado pelos cronistas da cidade. Em geral quando citamos Vista Alegre, é comum receber comentários e referências que vão desde um bairro de São Gonçalo até algum lugar da Barra. Continuar a ler

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13 DE MAIO— DIA DE PRETO VELHO: Dos Subúrbios que os Subúrbios escondem.

13 de maio! Dia de Preto Velho. Adorei as Almas. 

Hoje o fio passará por este processo de imensa sabedoria que existe entre nós. É de se esperar que no país onde a história é contada pelos vencedores, tenhamos nos acostumado com o fim da escravidão sendo representado por um processo legal por parte da princesa com um fim todos felizes para sempre, dando um ar digno de contos e fábulas da Disney. 

Interessante porém, como o contraponto vem da sabedoria do povo, aquela que muitas das vezes é considerada como menor, por não ser uma sabedoria produzida nas égides da ciência iluminista ou dos clubes literários ou dos cafés onde poetas e compositores da burguesia se encontram. Foi na sabedoria do povo escravizado, no Candomblé, na Umbanda, nos terreiros e quintais que a homenagem se deu da melhor forma. Este dia onde a escravidão terminou mas o racismo permaneceu, celebramos a ancestralidade, os avós, avôs, pais, reinos, todos que foram desmantelados do direito básico a humanidade são lembrados hoje e nos dão as suas bênçãos.  Continuar a ler

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