
Muito se debate hoje sobre o uso da Inteligência Artificial nas múltiplas esferas da arte. Em geral, esses debates caminham por dois prismas: de um lado, um medo quase ludita, comum diante de qualquer avanço tecnológico; de outro uma leitura corporativista que busca adequar a IA às lógicas atuais de mercado.
Mas há aspectos que também merecem atenção nesse debate: até onde vai o direito que as donas das ferramentas têm de coletar dados continuamente e utilizá-los por meio de mecanismos de aprendizado automatizados para expandir suas memórias.
As IAs, no entanto, possuem uma limitação: elas por si só não constroem pensamento próprio. Falta-lhes a complexidade de elaboração conceitual criativa. Elas apenas reorganizam e articulam conteúdos já produzidos, formando um material documental a partir disso. A arte de pensar ainda é, e talvez continue sendo por um tempo, uma prerrogativa nossa. Mal comparando, é como se as IA fossem um Google muito melhorado(é uma simplificação grosseira).
O eixo de debate que gostaria de destacar, porém, é a autoria. Curiosamente, os discursos anti-IA, sejam eles corporativos, luditas ou críticos do ponto de vista classista, parecem ter em comum um incômodo com o que vou chamar de “furto de autoria” pelas IAs. Talvez possamos simplificar o debate: considerar que uma obra feita por IA é de autoria da própria IA, ainda que limitada; ou considerá-la plágio, já que utiliza inúmeras referências sem qualquer citação; ou então assumir uma coautoria entre o ser humano que insere os comandos e o sistema que gera os resultados.
Mas vale a pena recuar um pouco na história da arte. Quando foi que deixamos de compreender a arte como expressão coletiva, representação de um território, de um povo, e passamos a tratá-la como expressão individual, com direito exclusivo à autoria? este sistema é muito funcional, pois, ao inserir a autoria individual e dar o peso de propriedade para a obra, podemos inseri-la no sistema de mercado.
Vemos explodir uma série de IAs, ferramentas de tudo que é tipo, cada uma com uma função específica, úteis para atender um pedacinho específico do processo produtivo da arte. As IAs podem levar a indústria da arte a outro lugar. Ao automatizar inúmeros sistemas e, em alguns casos, ocupar o lugar do artista (leia-se, aquele que representa a face visível de um certo grupo empresarial). As ferramentas podem, sim, bagunçar um cenário. Porém, falamos aqui de um cenário que já é, por si só, bagunçado, superexplorado e ainda bastante aristocrático no seu modo de produção.
A verdade é essa, o mercado da arte hoje se sustenta sobre o sistema de autoria. Mas não falamos aqui do velho romantismo do artista genial isolado em seu ateliê. Autoria, nesse contexto, é um instrumento de valorização e comercialização.
Quantos seres humanos trabalharam com Michelangelo na Capela Sistina? Quantas pessoas são necessárias para que um show de arena da Anitta aconteça? Como já observava Marx, o trabalho humano é social por natureza. A criação artística, enquanto produto de trabalho, jamais é totalmente individual, ela é mediada por relações sociais, condições materiais e modos de produção. A noção de “gênio” isolado é um constructo moderno a serviço da mercantilização da arte, assim como a ideia de autoria é, muitas vezes, um dispositivo de propriedade que mascara as verdadeiras relações de produção.
A autoria, por si só, encobre um sistema produtivo que esmaga socialmente muitos, e poucos parecem perceber isso. Quem trabalha com arte, principalmente em uma escala independente, ainda acredita muito na quimera da visibilidade e mérito. E esta talvez seja a maior disputa. As IA são uma ferramenta com potencial capacidade de automatizar processos da indústria cultural, e parecem ser pensadas assim: como ferramentas para atender necessidades especificas de alguma indústria.
Nesse sentido, discutir autoria é também discutir propriedade privada e valor, e talvez o desconforto com a IA surja não porque ela “cria”, mas porque ela ameaça a lógica de escassez e fetichização que sustenta o mercado da arte contemporâneo. Um mercado que tornou-se tão subjetivo, que um dos maiores pesos no valor é a própria autoria, hoje ameaçada.
