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Memórias de Um Ano Novo no Quilombo da Fazenda

imagens da área de proteção ambiental

Texto organizado em quatro pequenos contos. Os contos expressam de forma lírica a experiencia pessoal de uma viagem de imersão comunitária no Quilombo da Fazenda. A viagem que se iniciou despretensiosa, trouxe a todos os que participaram um êxtase de transformação de vida. Dedico este texto também a todos que compartilharam esta mesma jornada. Seguem os contos:

Os Encantadores de Borboletas

A intuição é um sussurro, vento que antecede uma tempestade. Naquela semana entre Natal e Ano Novo, as almas tilintam, cada qual em busca de sua mudança particular. Na trilha onírica do rock n’ roll, abro meu Réveillon como quem não quer nada: não lanço expectativas, apenas rumo despretensiosamente ao bar, antes de partir para a viagem.

O bar de rock moderno é bacana: sem energias vacilantes, mas com o clássico tom de luz vermelho e preto, digno de um espírito errante. Um casal contagia. Ela, portando uma bela franja a la O’Riordan, era uma artista, um Jay DeFeo pintando sua arte nas peles. Ele, de portava no pescoço a face mística da lua, um alquimista da literatura. Havia uma energia beatnik, perdida desde as trilhas de 68, na visceralidade de Hendrix apaixonado por sua Strato.

Encantadores de borboletas, dançam com a vida, saboreiam a cerveja na efemeridade do instante. “Gostei de conversar contigo”, disse ele, genuinamente abraçando o mundo das alegrias, “Vou te dar um presente, quero que aceite”. Um pequeno cartão pousou na minha mão como pétala levada pela brisa. Nele, desenhado, uma borboleta azul, acompanhada da frase: “Seja a luz.” Por um instante, o trovão. O vento afasta o peso do universo. Naquele momento, senti o paladar do destino: vento e tempestade. Estava na encruzilhada de um tempo que gira e transforma. A metamorfose que Kafka amaria ter sido.

Eles dançavam, chamas ao sabor da brisa. No palco, Zé Ramalho, em ritmo rock. Nos sorrisos, a energia de tempestades e trovoadas; a alegria de estar ali.

Borboleta, senhora dos ventos, perdoai-me! Seguir o vento é difícil se você não conhece a dança das borboletas. Porque o vento dança em círculos: turbulências e brisas suaves. Não há linha reta, apenas giros, quedas voos e recomeços. Borboletas são tempestades em miniatura. Quem dança com borboletas “só quer girar, não quer cair.”

No tempo dos ventos, a viagem não teria volta. 2024 se vai, e 2025 nasce com os ecos de Kerouac: “Não havia para onde ir, a não ser para todos os lugares, então continue vagando sob as estrelas”.

Era o primeiro passo de uma jornada ainda sem nome. Mas essa já é outra história, embora seja a mesma.

autoria própria: casal que conheci no Rock n Roll.

O Abraço das Águas

O oceano toca o Brasil no abraço da floresta. Há uma textura que a cidade, em sua ânsia egoica, esqueceu de sentir. Num canto escondido da Mata Atlântica, o acolhimento se derrama em calmaria. Entre as árvores densas, a areia molhada surge como pele exposta, e suas águas rasas cochicham: aqui, não preciso ser revolto. Na superfície tranquila, há convite velado para profundidade. Mergulhamos onde o eterno se esconde.

No mar, o infinito se desenrola, leva consigo dores do corpo e murmúrios da alma. Ele guarda histórias de amantes, exílios, pescadores, caiçaras e quilombolas. Suas cores nos atravessam como o toque que desperta. De onde vinha a brisa? Ela envolvia a pele salgada enquanto saíamos das águas claras, abraçados pelo sol. O azul reluzente, reflexo do céu, carregava uma carta ao vento.

Adentramos as matas. Ela nos aguardava. Impulsiva, enérgica e forte. O sabor de sua água, tão doce quanto gelada. Energia indomada que assusta os incautos. Um deslize, e ela nos arrasta pelos veios da floresta, amante selvagem que não perdoa hesitação. Selvagem. Beijava a pele da floresta como quem deseja o laço do momento, pedindo perdão por sua fúria. Energia que desafia os que resistem.

Quanto pensávamos que o dia havia terminado, a Serra do Mar revelou seu véu úmido sobre nós. Tímida e introspectiva, a chuva logo floresceu. Levantou seu perfume de terra molhada, e sem escolha, nos envolveu por inteiro. Gota a gota, se fez corpo e presença, desaguando em nós até que não restasse nada além da exaustão e plenitude.Na gota que escorria por toda a pele, a reverência ao mistério, o azul de um voo que nos segue silencioso. Quem diria que a vida nos daria, em um único dia, três banhos de alma?

As águas que fluem pela floresta são floresta. Que beleza há no ócio sagrado, na integralidade entre o corpo e água. Em um mesmo dia, fomos oceano, cachoeira e tempestade. Os pés descalços sobre a areia e a mata, entre o sol e a sombra. Estamos vivos no fluir das águas. Somos água em seu fluxo incessante de calmaria e força, pulsante e rítmica. Nos fluxos que nos moldaram, a sensação persiste: o intenso instante em que o corpo se dissolve e o espírito se encontra inteiro.

Agora somos terra.

autoria própria: as águas

O Barro e o Tempo

Entre as trilhas da floresta, a terra nos banha em seu suor. Na umidade do chão, o tempo se faz barro, ventre que molda em nós a história de quem, com suor e fé, forjou sua liberdade. O passo do jongo, dança da vida, reverbera entre as árvores. Dos tambores, o som da resistência. Reza descalço no cruzeiro.

No barro, o calor das mãos e pés que o amassaram. Casas de pau a pique erguidas como testemunhas vivas, seus contornos trazem o aperto das mãos calejadas, o ritmo dos corpos que amam a terra. Entrelaçamos o bambu ao barro como o corpo ao universo. Tecemos a solidez com boniteza.

A terra é mãe, matriarca que acolhe quem ousa criar mundos novos. Macia e úmida, nos convida ao toque; seca e firme, pede força em cada pisada. Esculpe na carne, histórias de quem a percorre. Não há impérios que resistam ao seu sabor, nem sonhos que não floresçam de sua fertilidade. Raízes.

Nas margens, ergue-se o manguezal. Somos vida no limiar do submerso e do revelado. Você, mangue, tem cheiro de criação, sua lama, anagrama de alma, guarda o calor milenar da vida. O solo que amamenta, submerge nossos passos e os devolve renovados. Terra paciente, atravessa oceanos em silêncio, escrevendo sua história no mundo.

No fígado da mata densa habita o jatobá. Árvore monumental! Memorável e imponente, suas raízes seguram o mundo. De sua seiva vem o combustível, de sua força, o abrigo, de sua casca, a cura. Ele observa em silêncio, testemunha do caminhar humano e da dança da floresta. Suas raízes se fundem ao ocre da terra, enquanto sua copa dança com o vento azulado. É o aquilombamento vegetal, rede invisível que protege quem sabe amar a floresta.

O solo nos molda, tanto quanto o moldamos. O barro desliza pelos dedos, a lama gruda na pele, o pedrisco arranha, enquanto o vento azulado vagueia entre raízes e pés. Pererecas, aves e borboletas nos lembram: agora, somos terra. O tempo é areia, barro e raiz, são tempos. Memória não escrita que sustenta. Somos chamados a fincar raízes. Argila, poeira, ventre de criação. Caminhamos enquanto o jatobá nos observa, de sua copa acolhendo o céu azul.

autoria própria: terra, raízes, floresta

A Dança da Via-Láctea

Deitado na rede aprendi, em uma aula admirável, a escutar. Não é tão simples quanto nos parece. Não falo sobre narrativas, mas os lapsos, as dobras do inaudito, o silêncio denso cheio de signos. Papiros do miúdo da alma.

Caminhamos ao mar. Noite de Réveillon. O chão escuro sob os pés; o céu, vasto e vivo, nos alumiava. Eu, um citadino, reencontrei a Via-Láctea depois de décadas. “O céu é onde o tempo e o espaço se dissolvem”, dizia o piloto de guerra. Desinteressado por guerras, escutei o universo. Somos crianças livres desbravando o mundo.

No encontro do mar com o cosmos, o horizonte era indiscernível. Bioluminescência brindava meus passos, lampejos de canção muda. Poeira Cósmica. Planetas adornados. Um silêncio cheio. Respiro das almas brincantes. A brisa no rosto. A areia fria. O sussurrar das ondas. Nossos pés ouviram o calor do Cosmos com a Terra.

Quantas ondas pulamos? Sete ou oito? Nos importa mais a fé, a cada salto ela renasce. Corpo e poeira; Galáxia e alma. O universo transpira em uma gota d’água, nas mãos calejadas, o barro. O vento me guia, a água pulsa em minhas veias, a terra sustenta meus passos, e agora, o cosmos me transpassa, arrebatamento. Tudo pulsa. A brisa do céu estrelado sobre a pele sela o pacto com o azul profundo.

Corpo, areia, mar e céu: tudo explode em partículas que se dissolvem e se fundem. Supernovas morrem para gerar vida. O mangue amamenta. O vento desliza entre os fios do cabelo. A gravidade desaparece. Um arrepio na nuca, e o tempo se curva.

Daqui do alto o mundo é tão frágil. Belo e azul. A Terra gira, enamorando a bailarina que dança com o brilho das ondas e as bênçãos do Jatobá. Acariciados pela brisa, o horizonte é íntimo aos jovens que acendem seus cigarros. Deleite da existência, crianças livres.

Um segundo. Entropia.

Não há mais o tempo. Não há mais o espaço. O infinito nos consome, arrebatador. No horizonte de eventos, o ar nos falta. Explosão e paz, eco e silêncio. Suave e eterno, todos os corpos, agora são um só. Ali, entre as estrelas e o mar, somos crianças em um céu de Van Gogh.

O mar ondula. O céu acalenta. A Terra gira. E nós, poeira na vastidão do ser. Primeiro de Janeiro de 2025, a jornada finda, sou poeira.

autoria própria: o céu do réveillon

Agradecimentos Finais e Considerações

Agradeço especialmente à equipe do Bicho Biotrips (link aqui: https://www.obichobiotrips.eco.br/) , que organiza atividades de ecoturismo e turismo comunitário, por possibilitar esta imersão no Quilombo da Fazenda .

Sobre o Quilombo da Fazenda

A comunidade de remanescentes quilombolas do Quilombo da Fazenda resiste com muita luta na Serra do Mar , região de Ubatuba, marcada pela riqueza natural e pela proteção ambiental. Este quilombo, que enfrenta constantemente o poder destruidor da especulação imobiliária, desempenha um papel fundamental na preservação da floresta e na proteção de áreas naturais indispensáveis ​​para o equilíbrio ambiental.

O quilombo é um espaço vivo de resistência e cuidado, que pode ser visitado e apoiado por aqueles que se interessam por se envolver em sua causa, recomendo que o façam! Sua luta é o reflexo e parte da luta de tantos outros grupos sociais que enfrentam o massacre das disputas territoriais neste País. Cada visita, cada gesto de apoio militante, ajuda a fortalecer as redes de defesa e o aquilombamento.

Sem a proteção e cuidado destas familias com a sua terra, que assegura a existência deste espaço paradisíaco, seria impossível vivenciar experiências transformadoras como as que compartilhamos. Mesmo o mais cético dos seres humanos, ao se conectar com a natureza da maneira que o grupo de 23 pessoas vivenciou neste Réveillon, é tocado pelo encontro com o universo e sai profundamente transformado.

Existem tantos aprendizados possíveis quantos mundos para construir. Que essa jornada nos inspire a seguir firmes nas lutas pela preservação, pela justiça e por novos mundos possíveis. Fica o humilde texto acima como reflexão.

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