O partido arquitetônico é um instrumento essencial na prática da arquitetura, praticamente o núcleo que orienta o desenvolvimento de um projeto. Mais do que uma solução formal, o partido é um posicionamento diante do processo criativo, desde a concepção até a materialização da obra.
Quando pensamos no partido como uma expressão de visão de mundo e uma reflexão da relação entre o ser humano, o espaço e o tempo, elevamos a arquitetura a um elemento de construção de significado. O partido confere unidade à obra arquitetônica, permitindo que ela seja tratada como uma obra de construção e arte, com narrativa, conjunto estético e significação. O partido, podemos assumir, é uma tomada de posição do arquiteto em relação à sociedade; é decisão e desejo, mas sem deixar de lado o rigor técnico.
Se enxergamos a arquitetura como um campo de batalha, repleto de contradições e disputas sociais e econômicas, o partido opera como um mecanismo que pode revelar ou ocultar estes conflitos. Ele atua ideologicamente, reforçando pontos de vista, posições estéticas e políticas. O partido é uma arma criativa: capaz de ser disruptivo, defensivo, fomentar a agregação, mas também a segregação.
A importância do partido arquitetônico reside em sua capacidade de sintetizar e expressar visões de mundo, integrando aspectos estéticos, funcionais, simbólicos e críticos e materializar o espaço destas relações, ele cria uma dimensão. Ele é o ponto de inicio que orienta a criação arquitetônica e o resultado de um profundo engajamento com as questões culturais, sociais e políticas de seu tempo.
Tomemos como exemplos o trabalho de Rem Koolhaas no edifício CCTV em Pequim, onde ele explora monumentalidade, dinâmica de perspectivas, complexidade, transparência e interconexão. Tendo estes conceitos, Koolhaas traz para a arquitetura os valores que a corporação estatal quer transmitir à sociedade, e como o faz? tendo como partido um edifício monumental que ao invés de se verticalizar como torre, dobra ao alto revelando-se como um elo, utiliza-se da transparencia do vidro para revelar o interno para o externo, etc.
Já os Yanomami, ao construírem seu xabono, expressam valores fundamentais de sua cultura, como o imenso comunitarismo, a conexão corpo-natureza, e o conceito de tempo e regeneração. A arquitetura fluida e central é um marco de como sua cosmovisão constrói suas espacialidades. Criam assim uma grande espaço comum. No centro da área fica a praça da comunidade e circunscrevendo-a, se levanta uma construção contínua feita de troncos de árvores e folhas de palmeiras, coberta por um vasto telhado inclinado de uma água onde a parte ampliada olhar para a grande praça central. Esse local é o espaço doméstico, onde acontecem as interações sociais e rituais.

CCTV de Rem Koolhas e Xabono Yanomami
O partido de uma casa por exemplo pode refletir questões como afetividade, conforto e contemplação. Já o partido de uma corporação pode expressar tanto os valores da empresa quanto o esforço em garantir maior conforto e segurança aos trabalhadores. Tudo depende da disputa que o arquiteto deseja travar na sociedade. Assim, podemos entender que o partido não é apenas um desejo criativo individual do arquiteto, mas o resultado de uma construção social.
Aqui vem a questão: seria possível tratarmos de um desejo individual como uma espécie de elemento isolado ideal?
Tafuri por exemplo defendia que as cidades, as metrópoles são um meio de produção, uma linha de montagem onde a arquitetura é um objeto superestrutural, isto é, ela é a projeção estética e espacial deste meio de produção. Esta interconexão por si só já é o suficiente (neste momento) para compreendermos que não há como construir um pensamento isolado e aplicá-lo. Ainda que Niemeyer, um arquiteto assumidamente comunista e a maior referência da categoria na profissão nos traga experiencias estéticas interessantes em seus principais projetos de cunho estatal, sua plástica mobilizava hegemonia do concreto armado, deixando em segundo plano uma série de outros sistemas construtivos (dos tradicionais aos mais contemporâneos).Alimentava assim o interesse do mesmo sistema econômico vigente no país.
No entanto, muitos arquitetos têm deixado o partido arquitetônico em segundo plano, focando mais energia na busca do conceito para suas obras. Embora ambos desempenhem papéis importantes e complementares no processo criativo, essa substituição pode representar um risco tanto criativo quanto profissional por conta do resultado final. Afinal, é a bom trato do partido arquitetônico que vai garantir a boa legibilidade do conceito pensado pelo arquiteto.
É no aprofundamento sobre o partido arquitetônico que o profissional traça a estratégia geral da organização espacial e material da obra. É ao se debruçar sobre o partido que o arquiteto consegue concretizar a intenção abstrata do conceito em uma forma prática e tangível, e não o inverso. Portanto, dedique-se a explorar e desenvolver o partido arquitetônico com profundidade.
referencias para leituras e aprofundamentos:
O partido Arquitetônico e A Cidade
Teoria e Prática do Partido Arquitetônico
Cidades amazônicas: como é viver tão próximo da maior floresta tropical do planeta
Arquitetura Indigena Brasileira: da Descobera aos Dias Atuais
