O que faríamos diante do horizonte de eventos? Existe um limiar em cada travessia, um instante em que a fronteira entre o presente e o futuro se dissolve. Como habitar um espaço onde um mero fragmento de segundo pode significar o fim da história, enquanto simultaneamente a história se torna eterna? Há um término absoluto nesse horizonte ou seria o nascimento? E se aceitarmos que não há um verdadeiro início, o cenário se torna ainda mais perturbador.
Nesse canto onde a luz parece ausente, mas a eternidade se desdobra, algo profundo se mobiliza. Parece-nos incapaz, como se fossemos atingidos por um nocaute, testemunhando a vida passar diante dos nossos olhos. Décadas de existência se desenrolam em um piscar de olhos entre o golpe e a queda.
Sobre a morte, o luto é uma experiência alheia. Para nós, resta a singularidade, o instante em que estamos apenas com nós mesmos. Podemos criar mil analogias, mas talvez sejamos incapazes de capturar plenamente esse momento. O medo surge da falta de controle sobre os processos, muito mais do que do desfecho em si.
Acreditamos piamente que podemos controlar a vida, o cotidiano, os movimentos. Esquecemos que, além de nós, a existência é pura entropia. A incerteza, associada a uma variável aleatória, é o padrão mais comum, e para nós, o máximo que conseguimos é a suspeita de um possível resultado entre mil probabilidades. O universo é uma infinidade de mundos semelhantes ao nosso, dizia Giordano Bruno diante da Inquisição. O mais fascinante é que, mesmo que passem gerações sem um sinal claro disso, é possível que ele estivesse certo.
Ali, onde a arte se separa da ciência, a ciência da filosofia e todos esses domínios da religião, experimentamos a persuasão da luz e sombra barroca, o desejo de luz e ascensão aos céus das arquiteturas góticas, e o brilho de sermos seres capazes de amar e enfrentar os mais loucos mistérios. Alegra-me saber que, de tempos em tempos, alguém decide se desfazer e aceitar a entropia da vida, rompendo com a banalidade de si mesmo.
