O programa de reindustrialização do Brasil esbarra em alguns empecilhos que podem ser lidos como imensos desafios. Entre eles cito alguns: a melhoria dos centros nacionais de pesquisa e desenvolvimento, bens e recursos, custos de transações internacionais como logística de transporte.
Se o Reuni e Prouni acertaram precisamente a garantia de acesso universitário às camadas mais populares, errou muito ao deixar entregue ao mercado boa parte do capital investido em educação. Uma fala troncha que o presidente lançou falando sobre ter advogado demais no país é um bom reflexo disso. Um programa com o teor do Prouni e reuni, sem uma política estruturante em um país onde a maior segurança financeira vem de concursos públicos somado a cultura do cotidiano que sempre viu como emprego seguro ser advogado, médico ou professor gerou isso. Mudar esse cenário é um imenso desafio que exigirá uma reforma da educação pela base.
Retomando, os maiores ativos que uma indústria globalizada tem está em suas propriedades (patentes, intelectuais, físicas, patrimoniais etc.), localização e internacionalização. Dito isso, não há saída, a incapacidade que o país tem de desenvolver um campo decente e atrativo para pesquisadores nos coloca extremamente vulneráveis nas disputas internacionais. Creio que este é um investimento crucial para o plano dar certo, garantir que o maior bem que podemos ter é formar profissionais qualificados que se sintam interessados em permanecer vivendo e trabalhando no Brasil.
A fala troncha do Lula tem uma sinceridade intrínseca que aponta pra necessidade de o país formar este corpo intelectual e técnico de qualidade. Infelizmente, isso não se dará pela boa vontade dos grandes mercadores do sistema de educação que insistem em enxugar custos com cursos EAD e desvalorização completa de professores e de centros de pesquisa.
Construir uma política no Mercosul que de prioridade a uma saída de logística para o oceano pacífico, criando alternativa concreta ao canal do Panamá (globalmente falando) e alternativa de massa para alcançar parte significativa da América Latina. Há alguns projetos de ferrovia bioceânica, todos bem difíceis de realizar, porém que não deveríamos abandonar. Ainda mais em um momento em que a logística marítima sofre com a crise global. As tensões do mar vermelho devido às guerras no oriente médio e a seca do canal do Panamá tem gerado altas no preço do frete, o que torna propício quaisquer tentativas de negociar globalmente alternativas.
Ambas as saídas pedem do governo pulso e recursos altos, não são caminhos simples, mas são caminhos que precisam ser iniciados. Um plano de industrialização não nasce da noite para o dia e nem se finda em dois ou quatro anos, precisa de tempo e continuidade. Muito necessário ver isso quando vivemos uma era onde quaisquer intervenções globais, de grande porte de extração e mudança ambiental, pode afetar negativamente a capacidade do planeta existir.
Talvez o maior desafio de todos seja justamente convencer os corpos políticos que pensam o Brasil sob a tábula rasa do arrasa quarteirões a cada quatro anos de que precisamos construir um projeto que dure para mais gerações. Sem isso, ficaremos restritos a liberar apenas recursos primários como moeda de troca interessante para a indústria global, nos mantendo como eternos fornecedores de commodities.
