Uma das mais belas críticas a arquitetura que já li se chama Nodre-Dame de Paris de Victor Hugo. No livro terceiro, quando expõe seu desencanto com os processos de mudança na arquitetura do Templo, ressalta quão nocivos são o tempo, as mudanças políticas coléricas, mas principalmente as modas estéticas decadentes.
“As modas fazem mais mal que as revoluções. Elas dissecaram o vivo, atacaram a medula óssea da arte, (…)” cita o autor. Victor Hugo nos traz nessa obra a importância do valor estético do gótico, do medievo e da vida periférica. Seus principais personagens: A arquitetura, a cigana, a pessoa com deficiência e o arquidiácono. No triângulo trágico da história temos duas pessoas que vivem a margem da sociedade e que passam por uma complexa relação de controle e manipulação do representante da institucionalidade (o livro é imensamente mais amplo que isso, leiam). A arquitetura é valorizada por ser incompleta (como o autor cita) por ser algo que representa uma transição de tempos. O tempo expresso nas rusgas, nas mudanças dos adornos e do altar, são denunciados como uma violência a obra e aos modos de vida da época.
No debate de patrimônio, a obra teve peso após o incêndio que afetou a catedral. Da literatura para a vida, o livro diz: Há algo de valor na arquitetura e na vida marginal, uma ética.
Os pobres, que dão vida e espírito ao lugar (catedral) Quasimodo, cuja falta de beleza e deficiência o torna um pária, traz o amor altruísta e o sacrifício de si, esmeralda, rejeitada por sua condição marginal no povo representa uma liberdade impossível dentro dos cânones sociais e frollo que vê sua moral abalada pelo desejo de possuir o que não tem é o representante do poder em seu eterno conflito. Frollo, o diácono arquiteto da catedral opera obcecado pelo ser-livre da cigana, uma liberdade que só é possível quando nossa existência acontece para além das fronteiras, uma liberdade marginal. É isso que conforma a arquitetura da catedral, entre o espaço construído e o vivído (ainda que vivido nos textos de Victor Hugo).
Com olhar sensível, Victor Hugo torna visível a potencia marginal, os conflitos sociais e o papel da arquitetura nesse entremeio. E nos ensina que preservar arquitetura não é só manter fachada, mas saber como contar a história da nossa existência a partir daquela obra construída.
