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A pandemia e a cidade.

Em um mundo cada vez mais urbano e conectado, onde a conglomeração de pessoas se tornou um elemento comum de nossa sociabilidade, temos um desafio maior ainda diante de uma crise como a posta pelo coronavírus. Se em tempos pretéritos, o sanitarismo se constituiu como uma política de estado e de ação urbana que gerou inúmeras modificações concretas em diversas cidades, devemos refletir sobre o porquê de não mantermos hoje diversos programas de ações que engloba novamente a importância do sanitarismo como promotor de saúde para qualidade de vida, relacionado aos espaços que produzimos em nossas cidades.


Um grande equívoco que cometemos ao estudar os sanitaristas é observá-los apenas pelos impactos negativos e segregadores de suas ações urbanas. Esquecemos de averiguar os processos na totalidade dos fatos. As remoções compulsórias, campanhas de vacinação compulsórias, remodelação urbana além de seu efeito de segregação sócio-espacial teve o impacto, entre outros, de erradicação e tratamento de doenças que tanto afligiam o povo. Ao negligenciar parte do impacto técnico e científico das escolhas que dirigiam a política de sanear, nós urbanistas, nos colocamos fora desta pauta. Hoje pouco discutimos o papel do arquiteto junto ao sanitarista em um projeto de intervenção na cidade.. Nosso ofício nos permite ser um importante elemento articulador entre as soluções de controle epidêmico e de manutenção da vivência urbana das cidades.


Estamos em um estado que nos exige o cuidado coletivo, primeiro ponto é este: entender nossa tarefa cidadã dentro do sentido de um contingenciamento. Somos potenciais vetores de contaminação de nós mesmos. A dispersão do vetor associado ao espraiamento urbano não é mais uma resposta possível e viável dentro das metrópoles.

Hoje, caminhamos por logísticas melhores. Traçamos planos de contingenciamento sazonais e que sejam mais efetivos para a redução do efeito multidão;aglomeração.  Porém, somado a isso, devemos fortalecer as ações clínicas e assistenciais associadas ao território, de forma que as mesmas sejam garantidas espacialmente dentro de raios aceitáveis de cobertura, vale lembrar que, de nada adianta evitar aglomeração em transporte urbano e em grandes centros se não evitarmos a mesma aglomeração em locais mais frágeis como os postos de saúde e atendimento. Para tal, o primeiro cuidado do médico de família associado ao Agente de Controle de Endemias deve funcionar bem. Precisamos fortalecer nossa rede de pesquisadores de forma que possamos apresentar a sociedade um profundo conhecimento científico sobre o território, compreender as possíveis logísticas de deslocamento e de pouso de tratamento para casos mais graves, além de sistematizar o uso do espaço urbano de forma a evitar aglomerar mas não matar a sociabilidade e espírito de vivência dos citadinos.

A cidade como conhecemos e vivemos nos põe em risco, e isso também é parte da vivência, por isso, se não tivermos em mãos este planejamento de defesa, corremos o risco de nos salvaguardar de uma doença alimentando outras. Uma ode ao espaço e sociabilidade aconteceu na Itália e foi amplamente “viralizado”. Diante do caos tomado e da quarentena, cidadãos vão às suas varandas tocar canções, a varanda, que os distancia e protege se configurou em espaços de grande vitalidade quando se reforça o espírito comum diante da luta em que estão. A pandemia nos revelou mais uma vez o sentido ubuntu, o entendimento pleno de que só sou porque todos somos.


Nos pôr em risco não é culpa da cidade, é parte importante da constituição dela. De forma que, nosso trabalho não se trata construir espaços que matem as relações sociais ou segregam-na em troca de um desejo de segurança a qualquer custo. O que nos cabe é pensar, neste momento, que por um lapso de tempo precisamos nos impedir de ser vetores de nossa própria destruição. 

Um equilíbrio interessante pode estar em uma fala de LeGoff quando citou o espaço de São Francisco de Assis como um lugar de respiração: alternância entre cidade e solidão onde sua geografia de vida é uma rede de cidades e a solitária estrada entre elas pela qual se vagava. Este pode ser um modelo interessante para pensarmos ações dentro de um padrão de contingenciamento. Saindo do espaço e retomando a perna economia, também podemos fazer um pouco de analogia com o pauperismo de São Francisco, para quem o desapego e a partilha são elemento fundamental de estruturação social. Fortalecemos assim o que nos é comum em economia e o trabalho do arquiteto, o cuidado com o Eco (óikos – casa). Não a casa privada como pensamos atualmente, mas um sentido de casa onde casa e mundo são quase uma coisa só.


Assim, vamos respirar, parar fisicamente em nossa solidão que evita aglomerações mas fortalecer o “vagar” através das redes de conhecimento onde a velocidade de trocas pode nos proporcionar um melhor trabalho de busca da cura, esse é o material que nos acomoda hoje. Por o mundo em quarentena não significa propriamente um estado de exceção, mas um caminho de tratamento contra um inimigo que corre no vento contra nós. Esse é o olhar material que vejo sobre os fatos.

Porém um problema que se abre é o efeito da quebra da inércia. Talvez o maior temor de muitos sistemas diante de uma economia como a conhecemos é que, se sua roda para, muita coisa desanda. Neste sentido para tal precisamos reforçar o sentimento (ainda mantendo a analogia franciscana, o que não significa que devamos reduzir o mundo ao franciscanismo) precisamos pensar o pauperismo e seu desapego e sua partilha. Precisaremos que compromissos políticos emergenciais maiores sejam assumidos pelo poder público.Garantir um plano de sustentabilidade da vida cotidiana mediante a parada do mundo é fundamental. Um sistema de saúde universal fortalecido, boas ferramentas para que o sistema de previdência possa garantir que não tenhamos perdas de renda, o fortalecimento da seguridade social, com instrumentos que permitam uma igual inclusão de atendimento aos mais precarizados que hoje vivem de bicos e freelancer. E isso precisa ser solucionado rápido. Isenção e criação de subsídios governamentais para impedir que a população fique ao relento.

Talvez o Brasil tenha dado uma pequena sorte diante do COVID-19, estamos no verão. Temos um tempo curto, mas temos tempo de assumir e sistematizar com seriedade a gestão deste problema. Inúmeros eventos de grande porte de multidão e aglomeração já foram cancelados ou adiados, este é um caminho ponderado e necessário diante da realidade que nos vem à frente.

O processo de controle de aglomerações e movimento de pessoas por si só não terá eficiência se não houver um reforço forte do sistema de saúde no âmbito de diagnóstico e não houver um esforço do planejamento econômico e social para garantir o básico de sustentabilidade a sua população. Resumindo, precisamos ter uma política de bem estar social reforçada e que atue de forma emergencial, para garantir o mínimo de dignidade aos cidadãos diante do impacto econômico que um processo deste causa no país. Este é o dilema: como lidar por exemplo com a massa de trabalhadores que depende da continuidade diária de seu trabalho para garantir seu ganha pão? Citamos aqui motoristas de aplicativos, entregadores de alimentos, pedreiros, entre outros, que neste momento está fora de qualquer guarda-chuva de seguridade social. 

Infelizmente investimos muito pouco em controle de epidemias no mundo. Temos o monitoramento constante da OMS mas não possuímos um sistema global de saúde que consiga agregar com mais eficiência o cuidado e ações estratégicas a toda população. Falamos aqui do sentido amplo de saúde como um bem comum tendo como diretriz principal, o direito universal à saúde. Tal sistema universal nos permitiria fortalecer não só o atendimento populacional, o controle estratégico de endemias, mas também a logística e a rede de desenvolvimento de pesquisas de forma que consigamos acelerar os processos de descobertas e distribuição de medicamentos e tratamentos.

101 anos após a gripe espanhola, lembramos ao leitor que não devemos cometer os mesmos erros. A negação ou eufemismo sobre a realidade pode se tornar nosso maior inimigo diante do esforço coletivo mundial para conter o vírus. Tracemos pelo real, com planejamento, trabalho árduo, organizado em redes de forma coletiva, vamos garantindo o tempo hábil para que os campos da pesquisa científica mundial alcancem algum bom resultado em breve. Enquanto isso, vamos fazer nossa pausa, mas sem perder o ensinamento que os italianos nos passaram de forma viral nas redes, nada nos impede de cantar em nossas janelas e varandas.



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Pequena reflexão sobre os rumos de uma pandemia

     O anúncio da expansão territorial pandêmica alcançada pelo corona vírus pôs o mundo diante de muitas reflexões. Dentre elas, escolherei um caminho para o debate. Qual o limite de nossas fronteiras?
     A velocidade com a qual o vírus alcançou o mundo revela a importância de pensar e produzir o comum como um caminho de sobrevivência. A ciência se inter-relaciona na busca de tratamento e cura. Junta-se o resultado de um pesquisador de um lado do planeta com os dados de outro somado a artigo de um terceiro.
     O processo pandêmico derrubou estruturas econômicas e revelou o que muitas vezes esquecemos: como há fragilidades nestas conexões que organizam o mundo em seu delicado equilíbrio de desigualdades. O Vírus afetou o kernel deste universo e desvelou uma coisa óbvia: a compreensão do mundo a partir da simplificação das explicações econômicas e o olhar hegemônico da importância da mercadoria não trazem respostas a todos os nossos problemas. Basta uma doença não caber bem nas caixinhas pré-definidas do sistema para que as informações circulem truncadas, surjam teorias diversas e explicações desconexas.
        Isso se revela mais problemático ainda quando chega ao nível dos chefes de estado. Há por exemplo um equívoco tremendo quando um ministério no Brasil não fomenta a participação de nossos pesquisadores nos processos coletivos mundiais de desenvolvimento de tratamento do vírus. Equívoco similar ao Trump e seu discurso simplista de fechamento de fronteiras, nada muito diferente das tentativas do governo chinês de não deixar a informação circular a velocidade do vírus.
     Ao que tudo parece, o maior desafio de enfrentamento ao COVID-19 está em acompanharmos a velocidade viral, este novo paradigma de tempo e território. Este paradigma ao que parece está sendo melhor compreendido no universo da saúde mundial. Falamos de um ente que não atinge um grupo social definido, não faz recorte de classe e não reflete só nas minorias, sejam elas étnicas, religiosas ou de gênero. Sua velocidade e capilaridade social também nos impede de combater este ente por um olhar puramente classista de tratamento. Seria inviável propor tratamento e cura apenas para um determinado grupo, visto a capacidade fácil de transmissão.
      Desde o sinal de pandemia e mesmo antes, a comunidade científica se envolveu na disputa e demonstra ter as melhores ferramentas de ação para o combate. Um rápido correr pelos noticiários e somos capazes de ver que, enquanto Trump pede bloqueio do país a vôos estrangeiros e Bolsonaro faz piada, cientistas brasileiras mapeiam geneticamente o virus, cientistas chineses e cubanos trabalham em desenvolvimento de vacinas, cientistas catalães trabalham em parceria com grandes farmacêuticas. Todos atuando em rede com um foco.
       Não estamos descrevendo uma história militante anti-imperialista e nem o vírus é um ente do mesmo tipo. o que está posto ao que me parece é: diante de uma ameaça global, só conseguimos dar resposta eficaz em caráter global, onde o ato de compartilhar se torna o instrumento mais bem sucedido de resposta viral.
        Vale a pena entender como o mundo se porta cientifica e tecnicamente diante da crise instalada, acompanhar a necessidade de universalidade do sistema de saúde e vida como um direito comum e utilizarmos como exemplo. A velocidade viral não poderá ser vencida pelo tempo lento das burocracias, dos segredos de estado, sigilo industrial ou elaboração de patentes, não que isso esteja excluído, mas que sobrepujando isso traçou-se um projeto ético comum.
       São múltiplas as fronteiras que vamos quebrando se buscarmos outros caminhos de reflexão, sejam elas as territoriais, sejam as narrativas e simbólicas. Em um mundo que tanto descredibilizou a ciência e onde a representação pela representação, sem projeto comum se tornou um padrão político, a ciência segue nos apresentando bons rumos.
      Em países como o Brasil, as lutas serão maiores. A falta de planejamento político e interesse pela saúde universal nos imputa a iminente tragédia. Riscos como a falta de saneamento para grande parte de nossas cidades nos trará o maior dos desafios, salvaguardar o colapso do sistema de atendimento primário a população, que já sofre com muitos problemas. Não temos o direito a escolher qual doença trataremos ou não, portanto nenhum discurso de comparação entre doenças e suas letalidades não cabem em pauta. Importante entendermos fora da polarização que, o oposto do alarmismo não é a negação dos fatos.
    Neste momento, politizar o debate sobre o COVID-19 será romper as fronteiras da polarização em que as rasas representações se sustentam e construir um projeto comum, onde independente dos interesses privados que os envolvam alcance o objetivo focal de tirar o mundo do alerta de pandemia.


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455 Anos sem direito universal à cidade

Em um prazo muito curto de tempo o brasileiro tem se sentido honrado com a matéria das pesquisadoras que se dedicaram e mapearam o genoma deste novo vírus que tem representado um perigo mundial, e ontem mais um caso de chuvas na cidade que matou cidadãos, inviabilizou diversas moradias e bairros inteiros estão sofrendo com a cheia. Qual a relação podemos traçar entre os dois?

Pois, ao menos uma relação importantíssima há. Ambos os casos refletem diretamente, a meu ver, o bem sucedido entendimento cultural do direito a saúde universal, pensamento de direito universal este que não chegou no campo da arquitetura e engenharias.O que quero dizer com isso, mesmo o SUS tendo mil problemas, o povo entende que tem direito a médico, hospital, e outros de graça e a academia e os médicos, também entendem seu papel profissional diante do povo. O mesmo não acontece no campo profissional das arquiteturas e engenharias. 

Vivemos em cidades que se constituíram com base em algumas leis do capital: lobby automobilístico, loteamentos de grandes terrenos formando bairros e coisas do gênero construíram a maior parte de nossos espaços. Dias como os de hoje (1 de março de 2020) este erro de planejamento e projeto cobram caro, mas isso não pode ser desculpa para o erro perdurar por décadas, quase um século pelo menos. 

O problema é que esta lógica de conceber e tratar os espaços segue firme, optamos com a Copa das Copas e Olimpíada das Olimpíadas, fazer mais uma vez o mais do mesmo. Construímos com nossas arquiteturas e engenharias (algumas nem tão nossas assim) uma cidade desigual com implantação de embelezamentos por um lado e apagamentos por outro. Assim caminhamos com remoções e esquecimentos dos locais onde moram a maior parte da nossa população. População esta para quem sobra a autoconstrução como ferramenta de sobrevivência. Nosso olhar profissional é tão pouco universalista que muitos de nós ainda enxergamos a autoconstrução popular como parte do problema de exercício ilegal da profissão.

Mesmo a criação da Lei de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (conheça  a lei aqui) não tem o alcance pleno pois o povo a desconhece, tem baixa implementação nacionals, apesar de ser um instrumento excelente para iniciar este processo de universalização do direito a cidade. É triste perceber como a visão de mundo implementada sobre a profissão nos afeta. 

A milênios não há grandes inovações caras e de difícil implementação em projetos e planejamento de saneamento. Citamos por exemplo: cuidado com as águas, cuidado ambiental, construção de praças como pontos de lazer e encontros comunitários, arborização, entre outros que contribuam para a qualidade urbana e direito de vida digna nas cidades. O que nos falta é sim, a coragem de pensar as cidades de forma não segregada.

O tempo que nos vangloriamos de roda gigante ou BRT, ou algo do gênero, devemos gastar trazendo a cidade a escala que ela vive, do chão, do aperto de mão do xingamento e dos abraços, hoje enquanto muitos de nós que conseguem impor alguma voz dentro deste campo profissional estamos secos em nossas casas, inúmeros (inclusive profissionais amigos arquitetos e engenheiros) estão tirando água de suas casas, outros vendo a água entrar pela laje e viverão pelo menos semanas de mofo e cheiro ruim em casa. 

Uma chuva destas reflete para quem sofre dias sem dormir direito, trabalho duro salvando o que pode de móveis, salvando ao menos um cômodo da casa para aconchegar toda a família. São cidadãos que constróem a vida destas cidades e ficam a míngua, como fora no início do ano no Norte Fluminense, hoje foi na região metropolitana. 

Que o município do Rio de Janeiro, com toda sua complexidade, neste ano em que foi eleito Capital Mundial da Arquitetura, assuma a responsabilidade de ser exemplo da universalização do direito a construir. Isto não é um simples aplicar a lei d ATHIS, vai muito além, precisamos de um trabalho estruturante de modificação da ideia de pra quem construímos nossas cidades, esta luta é imensa mas tem que ser traçada. Precisamos de uma cidade que fomente do direito a arquitetos e engenheiros públicos que atendam a todos os cidadãos e não mais ao lobby de quem investe capital imobiliário nela apenas, até porque neste momento estes lobbystas da cidade estão secos e confortáveis. Os donos da roda gigante tem telhados e lajes impermeabilizadas, a maior parte da nossa população não!




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BIM e um olhar sobre o trabalho e o capital

Uma das grandes mudanças profissionais no campo dos empreendimentos construtivos (recorte da arquitetura) surge com a chegada do pensamento e dos instrumentos de BIM, que começam a emplacar no mercado profissional sobre o CAD. A princípio vamos comentar primeiramente sobre o que isso significa. A grosso modo podemos dizer que: o conceito CAD (computer aided design ou traduzindo desenho assistido por computador) é uma complexa prancheta de Desenho, com inúmeras ferramentas e scripts que facilitam em muito a automação de certos serviços.

O impacto do CAD no modo de trabalho em projeto fora impressionante, porém não muito discrepante da forma atual de se trabalhar por ser basicamente um avanço tecnológico sobre um pensamento de projetar onde leia-se o pensamento cartesiano de desenho. Nos dias de hoje, vivenciamos uma nova mudança para o modo de operar, o BIM (Building Information Model ou modelagem de informação da Construção) diferente do CAD, o que se modifica é a forma de operação sobre o projeto, pensando-o não mais a partir da representação cartesiana e sim da modelagem construída. Vale lembrar que em muitas áreas da engenharia pesada já se projetava utilizando ferramentas paramétricas de modelagem estilo BIM (guarde este registro).  Assim sendo, o que estamos falando aqui não são apenas softwares, mas de modos de produção do trabalho.

Estes modos de trabalho foram fortemente hegemonizados por uma grande corporação guarda-chuva de softwares do tipo, não precisamos escrever nomes aqui, pois os nomes vêm à cabeça na primeira leitura. Mas como ocorreu este monopólio? Um caminho muito simples. A épocas em que os hardwares dos computadores pessoais eram mais potentes e comuns que os grandes bancos e sistemas de nuvens, coube a corporação simplesmente ser proprietária de uma sigla de três letras, que poucas pessoas se dão conta: o famoso .DWG, esta sigla atua como uma chave de criptografia que permite a leitura com exclusividade para seus softwares, cuja pirataria era combatida porém não com tanto afinco a ponto de tornar-se o programa comum no cotidiano profissional, passo importante para garantir a hegemonia de um sistema proprietário. 

Os modelos CAD acabaram com as pranchetas dos escritórios, porém também se adequou relativamente bem a um sistema de trabalho flexibilizado e que permitisse com tranquilidade terceirizações, parcerias de pessoas jurídicas com pessoas jurídicas e outrem. No recorte do arquiteto, permitiu mais velocidade, em especial ao arquiteto de médio porte atuar. Enquanto por outro lado, os grandes projetos industriais seguiam caminhando e se estruturando em ferramentas mais robustas e diferenciadas, como as ferramentas AVEVA que também condiziam com um modelo de organização do trabalho que permitia e necessita desta robustez.  Não precisamos nem explanar mais o quanto o CAD fortaleceu o modus operandi do arquiteto alienado ao canteiro de obras.

O BIM emplaca na arquitetura e construção civil em um outro cenário. Se nos anos noventa, e inicio dos anos 2000 disputávamos o espaço da internet como território livre, onde a cópia de arquivos, o peer-to-peer, eram grandes instrumentos de disseminação de material e dados enquanto buscávamos defender os softwares livres ou não proprietários, na última década para cá, esta disputa selou. As grandes indústrias do meio imaterial como a fonográfica e a de softwares se reorganizaram e consolidaram um novo modelo de capital. Quase ninguém mais compartilha música via torrent, ouvimos via spotfy. Assim também os programas piratas começaram a decair, e substitui-se o modelo de instalação com chave própria (muitas vezes pirateada para facilitar a hegemonia) por um modelo de aluguel de serviço. É nesta conjuntura que o BIM chega ao mercado com seu produto mais pop entre os arquitetos brasileiros (para não citar nomes vou inventar um) o REVIDE.
Sigamos:
O “revide” surge como uma proposta inovadora para nós arquitetos, trocar a prancheta eletrônica pelo canteiro de obras simulado, algo que o sistema PDMS da AVEVA já fazia a bastante tempo na construção pesada industrial por exemplo (local onde a flexibilização do pequeno escritório com parceiros distantes não favorece o empreendimento). Além disso, chega apoiado e duas grandes bases:
1 – A corporação que o lança já está consolidada e hegemônica no mercado nacional,
2- As novas formas de estrutura informacional mundial facilitam o sistema proprietário como o revide adentrar o mercado.

O revide é vendido nos anos atuais como o cogumelo do sol era vendido nas décadas de 80 e 90, quase que a solução para todos os problemas modernos, e como se para muitos não existisse outra ferramenta hábil a realizar o tão sonhado projeto. Ainda estamos engatinhando na transição. Em parte, os antigos (me incluo) sofrendo para fazer a mudança de raciocínio de projetar por desenho para projetar por modelagem construtiva, (o que revela muito o resultado da impotência de anos dos profissionais afastados dos canteiros de obras). Por outro lado, os mais jovens que ainda não conseguem compreender a ferramenta como um elo do novo modo de produção do capital.

O sistema “revide” porém, obriga certa robustez, seja de hardware seja de equipe de trabalho profissional na compatibilização e projeto completo em si. No atual momento, o que está dado poderá criar uma ruptura grande no campo profissional. Onde, ou se organiza os trabalhadores de forma quase industrial em torno de um projeto, garantindo um grande centro de banco de dados de BIM e softwares potentes contratando os profissionais a trabalhar em equipe dedicada, ou teremos cada vez mais organizações de trabalho altamente precarizados com complicados problemas de projeto e construção.

Há possibilidades deste custo cair para o consumidos final? creio que sim, visto que um dos maiores bens de valor atuais são os dados e softwares paramétricos tem como foco o alimento de bancos de dados, estas grandes corporações podem facilmente abrir verdadeiros bancos de dados, com lógica econômica de bancos financeiros, troca de dados por crédito, depósito de dados em nuvem, você produzir dados e alimentar a empresa com dados (como as redes sociais já fazem). Talvez não haja muito interesse neste momento, mas quem sabe no porvir? 

A problemática, porém, não está na ferramenta, seria ludita pensar nisso. A questão está na atual conjuntura de construção do capital e sua interface com nosso meio profissional. Meio este cuja nova legislação por exemplo enfraquece o celetista em nome da pessoa jurídica (seja PJ, EIRELI, MEI, etc.) o que favorece o retorno da exploração dos mesmos a um centro de trabalho com a flexibilização completa dos direitos institucionalizando-se na narrativa da terceirização.

O que nos coloca no jogo das novas formas de exploração e nos capacita a lutar é compreender em que meio estamos pisando para saber onde e como e a que resistir. É sabermos que ferramentas são só ferramentas, para não cairmos no ufanismo da tecnologia pela tecnologia ou no ludismo de que a tecnologia está matando nossos empregos. Uma vez ouvi um comentário ótimo, piada de um grande camarada: “enquanto os americanos projetavam uma caneta onde a tinta poderia escrever até na órbita da terra, os Russos mandaram o astronauta levando um lápis”. A piada não é sobre adequação ou resiliência, é sobre inovação e entendimento de onde estamos.

O BIM chega a nós arquitetos em um momento de extrema fragilidade profissional no país e no mundo. Para nós em especial, onde poucos conhecem o canteiro, o cheiro de cimento e madeira cortada, lidar com a modelagem do que será construído será extenuante, para outros que habitam o canteiro e muitas vezes resolvem um detalhe de projeto riscando tijolo no chão talvez não apanhem tanto. O que precisamos estar preparados são para as possíveis formas de apropriação e exploração do nosso trabalho e nossa vida.

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Parasita e distopias de um mundo presente

Muitas são as entradas possíveis para debater sobre um filme da densidade do principal vencedor do Oscar. O que buscarei aqui são reflexões que transversam e flertam com o filme, e não necessariamente sobre o filme. O primeiro marco que sinto reside no universo distópico de Parasita.
A distopia está no tempo presente.
A temporalidade trazida retrata um mundo contemporâneo cercado de suas mazelas e disparidades sociais. Mundo este no qual a arquitetura atua como paisagem e personagem coadjuvante. Mas para não entregar o filme, não falemos das arquitetura do mesmo, porém de exemplos paralelos que nos interessam. A tríade: condomínio-via expressa-shopping center que se reflete no aeroporto de Koolhaas, aqueles espaços estéreis de múltiplos seres, mas que escondem em seus subterrâneos e corredores técnicos a vivencia do trabalhador que sustenta o funcionamento do espaço. A distopia de parasita está ali dada. 
A representação.
Ao abdicar de suas verdades em busca de viver a partir da representação, os pobres se posicionam em uma auto-alienação cujo premio são algumas migalhas de conforto. A representação porém não salva o pobre de sua condição real, não o insere na outra camada social. O pobre alcança no máximo uma familiaridade que é restrita aos serviçais mais próximos a casa-grande. 
A idolatria ao arquiteto, ou ao dono da casa grande não insere o ser real do pobre no círculo privilegiado, no máximo, o inserido é o personagem representado. Personagem este que diante da catástrofe entra em pausa para que a verdade da vida real assuma seu lugar em meio a todas as perdas. O dualismo que tensiona entre o personagem (representação) e o ser real tem sua ruptura em um desfecho de explosão visceral.
A consciência de classe.
A busca incessante que temos pela construção da consciência de classe também tem sua crítica marcada no filme, onde a diferença de classe se torna clara. Porém a diferença que leva ao desfecho não cria a visão de mundo através de um processo -digamos- civilizatório e cartesiano de construção desta consciência. A relação de classe é sentida na pele, expressada por instintos básicos dos sentidos humanos. Sentidos estes que se elevam diante da pressão envolta na desumanidade dada aos que levam a vida em um porão. O pobre é elogiado por conseguir se manter no seu lugar, no seu espaço, porém mesmo que conscientemente se mantenha, sua carne incomoda, vaza para o espaço que não lhe convém ocupar pois pertence ao hospedeiro.
O filme apresenta com força o que é a dificuldade exponencial do pobre em sobreviver diante da facilidade que eventos trágicos tem de tirar suas poucas posses. A barraca de brinquedo da criança que resiste diante do mesmo cataclismo que torna inúmeros moradores da cidade flagelados é um recorte belíssimo dessa narrativa. Ao pobre resta ser tático para se manter sobrevivendo enquanto a vida e liberdade pertence ao seu hospedeiro.
Parasita fala de classes, as lutas e diálogos porém são retratadas através das vísceras. O olhar sobre esta relação de classes e a obra me remete a uma frase de Bruno Latour “É preciso combater a ideia de que existe por aí um dicionário do qual todas as palavras dos atores possam ser traduzidas nos poucos verbetes do léxico social”. Não há um plano que dê certo.
A barraca, a casa, o porão, as ruas e escadas, o sol e a sombra, cada detalhe retrata a proximidade deste mundo distópico ante da nossa realidade. Uma distopia que passa diretamente sobre o urbano e a arquitetura e que me fazem questionar: como é o mundo de parasita nos corredores técnicos dos shopping centers, como é o mundo de parasita no universo dos moradores sem teto e flagelados que dormem em nossas esquinas, nos aeroportos e outros espaços similares. Se antes estes eram invisíveis simbolicamente e politicamente, as novas cidades estão tentando torná-los invisíveis também espacialmente, em uma vida de labor em entrepisos, corredores de acesso e similares. 
Uma coisa porém me assustou em termos de arquitetura. Diferente do Brasil, onde até pouquíssimo tempo toda residencia projetada possuía um caminho separado de entrada das empregadas (as mesmas que não devem ir a Disney). Em Parasita, os pobres podem acessar a casa grande pela entrada principal.
É possível que nossa distopia cotidiana brasileira esteja anos luz a frente na desumanidade, porém é possível que estejamos domesticados, tão domesticados quanto quem já assimilou com normalidade comprar água da Nestlé para beber ou espera em um porão sem sol o momento ideal de sair novamente pra vida. 

A questão é esta: como podemos nos reagregar em meio a novo tempoo presente?
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Águas que nos afetam

A região Sudeste do país está enfrentando neste verão mais uma derrota urbana com as enchentes. O problema é histórico, inicia-se em grande parte nos processos de implantação e estruturação de cidades que não pensaram de forma coerente seus cursos d’água. Metrópoles como as do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte ao optarem por um padrão urbanístico de favorecimento do automóvel invisibilizando seus rios criaram problemas de difícil solução.

O problema se torna pior a medida em que, tempo a tempo, pouca mudança neste pensamento se modifica. Escolhemos caminhar na contramão de milênios de história, onde a humanidade buscou e vivenciou seus cursos d’água como o bem mais precioso de suas organizações sociais e aglomerações em povoados e cidades. As águas tem valor sagrado, simbólico, afetivo, de saúde, valor paisagístico, contemplativo, podemos citar inúmeros valores que não cabem reduzidos a políticas econômicas simplistas e que nem todas as prosas e versos seriam capazes de definir tamanho afeto.

As águas que tanto nos faltam hoje na cidade do Rio de Janeiro, são as mesmas que nos afetam nas cheias, resultantes de falta de planejamento urbano cuidadoso com nossos recursos naturais. O Plano Nacional de Saneamento se tornou quase uma ilusão, uma tentativa que conseguiu pouquíssimo resultado em um universo onde as forças políticas permitem que a Nestlé tome posse das águas de São Lourenço. Enquanto as forças políticas em seus níveis estaduais e municipais pouco ou nada fazem para garantir o saneamento seja em seu tratamento de esgoto, a qualidade dos recursos hídricos, a proteção das matas ciliares, APAs e APARUs, entre outros, desastres como os ocorridos em Belo Horizonte e no Norte Fluminense do Estado do Rio de Janeiro se tornaram casos previsíveis, apenas esperando a próxima chuva para acontecer.

Precisamos retomar a relação da água com a vida, recuperar as margens dos rios e córregos, tratar nosso esgoto e cuidar de nossos resíduos pluviais. Não há mistério em lidar com isso no campo da arquitetura e engenharia, apenas estamos presos na falta de vontade política para admitir que nem tudo pode ser decidido pelas forças dos mercados ou pensado como moeda de troca em uma relação de consumo. O principal valor da água não está na sua troca, mas no seu uso e no seu direito comum a todos.  Enfrentamos hoje erros urbanos de um passado recente na história da humanidade, mas ao mesmo tempo mantemos e fazemos novos erros nos momentos presentes e assim deixamos um legado triste para os que aqui virão. 

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Em memória às vítimas do Holocausto e o mundo presente

Hoje comemoramos o dia internacional em memória das vítimas do Holocausto. Manter a memória viva é importante e fundamental, em especial no Brasil, onde vemos um advento de revisionismos históricos e falácias a respeito do tema. Mas neste dia gostaria de lembrar da importância da história como forma de estruturação do pensamento no mundo presente. 

O atual sistema social, político e econômico em que vivemos construiu novas formas de opressão humana associando os diversos elos que a envolvem (étnico, cultural, entre outros). O que em parte representou o território de Auschwitz e outros campos de concentração? Faço aqui um dos recortes dentro do todo que foi o horror deste sistema. Auschwitz e outros campos similares se relacionavam e estruturavam territorialmente uma lógica de produção econômica. Sob o discurso racista que embasou o Nazismo justificou-se a criação destes territórios de segregação. Sob a disseminação da construção simbólica racista e eugenia, algo que poderia ser exemplificado com frases atuais como “o índio está evoluindo e tornando-se um ser humano igual a nós”, tais espaços foram concebidos, garantiam mão de obra escrava e descartável ao sistema que alimentavam.

Auschwitz graças a deus não existe mais, resta a memória e a história que não deve ser desconstruída ou desacreditada, porém mil formas de territorializar e oprimir o povo se mantém firme e em diálogo com os sistemas econômicos. Campos de refugiados, Guantánamo, ou quaisquer presídios brasileiros que acumulam pessoas sem sequer o primeiro julgamento, todos apontam como arquiteturas destinadas a um nível extremo de opressão da humanidade.  Se o campo de Auschwitz e similares serviram a um sistema de desenvolvimento dentro de um projeto nacional racista, não podemos negar o quanto de campos e disputas territoriais atuais podem servir ao mesmo processo, porém dentro de uma conjuntura econômica diferente onde a violência gera e retroalimenta inúmeros mercados.

As guerras (tanto entre nações como intra-territórios) seguem padrões semelhantes, criam a terra arrasada e depois abrem o espaço para que o grande investimento entre nestas terras, este é o espólio que se sobrepõe aos direitos dos povos de habitar, pertencer, vivenciar e conceber seus lugares. A desterritorialização de povos se tornaram parte de um braço rentável para o capital, seja por exemplo os campos de refugiados de Gaza que hoje se transformaram em verdadeiras cidades, ou os campos de refugiados sírios situados na Jordânia. Cada qual se adequa a uma forma de exploração da opressão humana dos povos sem lugar que tiveram suas vidas e histórias dilaceradas.

As últimas infames falas de nossos líderes de governo Bolsonaro e seu secretário de cultura trouxe ao salão a necessidade de debatermos o Nazismo e Fascismo de forma séria, e isso trouxe as redes novamente o filme arquitetura da destruição. O centro do filme demonstra como o sistema capturou o simbólico e reconstruiu a estética ao se impor na população. Esta construção de pensamento se capilariza na sociedade e se torna parte do discurso cotidiano da mesma, isso se potencializa em um país como Brasil, que não conseguiu por exemplo romper suas ferramentas de segregação e seu racismo estrutural.

Assim que palavras como a de Bolsonaro, apontando claro discurso de eugenia com relação a indígenas, ou de Alvim parafraseando Goebbels, podem chocar a muitos de nós. Estas declarações, e mais, suas ações não necessariamente afetam os mercados ou o cotidiano a ponto da queda completa do sistema. Os índios que segundo Bolsonaro “não são gente evoluída” por sua vez não serão tópico de “uma arte heroica” mereceriam o direito ao território que tem ou este território poderia ser melhor utilizado com a exploração sustentável dos ecoplans do BIG?  Enquanto isso, Bjarke Ingels se justifica aos brasileiros:

“Não podemos esperar que todas as instâncias públicas estejam alinhadas com todos os aspectos de nosso pensamento, mas podemos garantir que possamos trazer a mudança que queremos ver no mundo através do trabalho que realizamos“, afirma Ingels na nota.\” 

A nota de defesa de BIG não traz nenhum estranhamento a quem observa os caminhos do mercado internacional da arquitetura de forma crítica. Seu projeto para o Brasil por sua vez não se importa com o genocídio indígena ou as queimadas na Amazônia. Assim, aponta um imenso anacronismo ao defender intervenções ecologicamente sustentáveis junto a um governo que defende abertamente o inverso. Obviamente muito mais suave que o nazismo não quero fazer tal comparação com o BIG, porém sua defesa aponta para argumentos semelhantes aos apresentados no tribunal de Nuremberg, com uma grande diferença: BIG é um escritório liberal que pode dizer não ao Bolsonaro, diferente dos soldados que apenas recebiam ordens.Remeter a memória das vítimas do Holocausto é se dedicar para que novas vítimas e novos Holocaustos não mais aconteçam.

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Crise, distopia, luta e um novo pacto social

O mais recente relatório da OIT (Organização Internacional do Trabalho) traz indicativos de que o número de pessoas desempregadas no mundo deve aumentar cerca de 2,5 milhões, apontando assim a manutenção da crise econômica global. O relatório aponta também que é significativo o número de pessoas que hoje já não conseguem manter uma vida a partir da esfera do trabalho.

Entre alguns fatores, recortamos como o mais marcante a estagnação no crescimento da economia global. As pautas propostas pelos programas e defensores de um sistema de austeridade não conseguem alcançar resultados efetivos de melhoria, antes disso operam em viés oposto, aumentando as redes de desigualdade social nos sistemas. As pautas progressistas voltadas a pleno emprego e outros fatores também alcançam pouca efetividade atualmente em um mundo cujo padrão econômico se tornou a financeirização , a precarização, informalidade e desemprego. 

Como exemplo, cito um recorte: dados recentes do DIEESE mostram que a política de trabalho intermitente (uma das principais ferramentas da flexibilização e precarização do sistema produtivo e pautas de salvação da austeridade) não alcançou os frutos que se imaginava. Representando 0,3% do estoque de vínculos formais no mercado de trabalho, sendo que a renda mensal destes, mal alcançou um salário mínimo. Fora publicado também em Janeiro deste ano (2020) pelo DIEESE o custo da cesta básica no Brasil. Verificou-se neste que um trabalhador remunerado com salário mínimo comprometeria no mes de dezembro de 2019 em média 48,27% do salário em cesta básica. Segundo IBGE, em 2019 cerca 41% da população estava ocupando as redes de informalidade do trabalho. Estes dados indicam a super precarização (informalidade e desemprego) como um padrão que pode se hegemonizar na sociedade brasileira. Um padrão não muito diferente de outros países como Venezuela, Chile, EUA, etc. 

Quando somamos a crise econômica com o fator climático (que já se torna impossível não ser posto em pauta) percebemos que o problema é muito mais sério e envolve os caminhos estruturais do planeta.

O colapso ambiental dá inúmeros sinais de irreversibilidade, afetando principalmente os países mais pobres e por sua vez menos estruturados. A crise que está posta pode levar a humanidade a enfrentar o maior dilema ético dos tempos recentes. Quando levado em consideração a estrutura geradora, e por sua vez a relação de custo benefício da produção, percebemos que o eixo é a desigualdade. As nações ou povos que mais sofrem com a crise econômica e ambiental, são na maioria das vezes, os que menos se beneficiam das estruturas geradoras das riquezas e dos efeitos nocivos ao planeta.

O grande xeque que pode ser nosso xeque-mate ou gol de morte súbita se dá no campo ideológico onde os poderes estabelecidos não conseguem mais responder aos anseios dos povos e os povos não conseguem mais se repactuar. Para reestruturar o pacto social emergencial, devemos trocar o foco das políticas da busca insensate do crescimento econômico para a busca pelo fim da desigualdade. Este provavelmente será o caminho para o reequilíbrio da humanidade em um planeta que já não suporta a constante produção de valores de troca e riquezas que se mantém concentradas em um seleto grupo de viventes. 

Não haverá formas de pactuação social que amenizem sem um impacto radical, em um planeta cada vez mais empobrecido e sem acesso aos mínimos recursos naturais que garantem o direito a sobrevivência. A pauta que busca o crescimento teme a parada da produção constante de riquezas pois a mesma geraria o colapso do sistema vigente, porém, a continuidade desta busca eterna por crescimento também está nos levando ao colapso.

Não precisamos de mais produtos, precisamos sim recuperar o valor de uso do que já produzimos, aplicar políticas de distribuição da renda hiper-concentrada entre os que não tem, pautar a construção de bens comuns a humanidade, em especial os que garantem a continuidade da vida, como os recursos hídricos, as florestas, a universalização do direito a cidade/campo e de renda, moradia, alimento, saúde, lazer, educação direito de ir e vir sem barreiras ou fronteiras.

As lutas serão grandes, o sistema atual mostra através de suas lideranças e estruturas de controle e poder que suas políticas podem se assumir tranquilamente malthusianas caso seja preciso. Em um mundo onde a massa de desempregados e marginalizados se torna crescente e afeta de outra forma a produção do crescimento do capital e onde o capital abraçou a vida como mercadoria. Esta vida também pode ser pesada pelo custo-benefício de existir ou não. O que cabe a esta vida é lutar.

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Ser radical: voltar-se para as raízes do problema

O Brasil parece estar nitidamente em um grande stress social. Com as relações cada vez mais esgarçadas, debates a flor da pele, vemos nossos códigos de crença desabar diante de nossos olhos.
O campo progressista perdeu a imensa oportunidade de construir um sistema educacional verdadeiramente emancipatório, talvez por não ter forças suficientes diante das inúmeras municipalidades onde houve a necessidade de manter campos de coligações para garantir governabilidade. O que implica materialmente é: são décadas e mais décadas de degradação do sistema educaional no país, seja público ou privado, o que venceu parece ser uma lógica de desvalorização do professor, da importância do conhecimento.
Porém isso reflete, em realidade, o conceito de vida no qual estamos inseridos.Quando observamos as inúmeras escolas deste país, o olhar para a sua arquitetura nos revela mais similaridade destas com um presídio (que se resume em depósito de gente e não em um espaço de ressocialização) do que com algo capaz de propiciar boas relações interpessoais. Assim também são as cidades onde se povoam o ideário de condomínios-shoppings e mega vias. As possibilidades do encontro com o outro, com o diferente são constantemente minados. Este outro que,quando não e familiar, se torna uma ameaça.
A perda da esperança, o medo da ameaça é um dos principais alimentos do espírito fascista que ronda nossa sociedade. Espírito esse que é muito bem utilizado por movimentos milicianos para impor seu poder em todas as esferas que alcancem, mas que também faz vítimas como todos os envolvidos no caso da escola em Suzano (incluo os jovens assassinos entre as vítimas sistêmicas).
Se o campo progressista perdeu a oportunidade da pauta, o campo da direita nem pauta tem: balbucia sobre corte de verbas, caça a professores com a falácia do escola sem partido, e ainda conseguem fazer pronúncias públicas a favor do lobby armamentista, mesmo diante de tamanha tragédia como a ocorrida na escola Raul Brasil.
Em meio ao fla-flu mitológico de slogans, twitters, lacrações, falar merda na internet, em que fomos enfiados enquanto sociedade, há um imenso vazio. Talvez já tenha passado da hora de sentarmos na reconstrução de uma política de repactuação popular, calçada a calçada, bairro a bairro com a universalização plena dos direitos, inclusive o direito de propor, pois estamos a passos muito rápidos para a barbárie e o fascismo que caminham no desespero por tapar o buraco do vazio existencial em que a sociedade se encontra.
O que vemos nesta sociedade em que estamos inseridos é: a última coisa que precisamos é de mais armas de fogo. Antes dela, precisamos de um forte sistema de saúde com acesso amplo a tratamento psicoterápico (incluindo fortes campanhas que demonstrem a importância social deste tipo de tratamento). Outro exemplo que considero necessidade: pensar em um sistema escolar socialmente referenciado, já desde sua arquitetura que não precisa ser tão enclausurada a sociedade, e cuja pedagogia permita e favoreça o uso da cidade como espaço de educação e o uso da escola como espaço de congregação social. Claro que nenhum caminho é simples, não tem como ser. Esta é a grandeza que estamos perdendo em meio a esquizofrenia política em que vivemos. Precisamos sair dos recortes que envolvem lacrações, escrever frase de efeito no twitter, lutas publicitárias ou demagógicas, arminhas com a mão, e trabalhar com a firme realidade de que precisamos sentar para construir novas possibilidades. Tendo muita clareza de que estamos em um mundo movido por afetos como medo, ódio e intolerância só tenderá a nos levar para o buraco mais profundo.
Ao campo progressista lembro: Ser radical na letra da palavra é voltar a raíz do problema, e para tal precisamos de aprofundamento. Somos maiores do que toda e qualquer força que está nos governando, e somos muito mais plurais que qualquer nicho em que estamos inseridos ou subdivididos. Já são longos anos que o recado popular eleitoral dado é o mesmo: ninguém nos representa. Em meio a descrença, cansaço, niilismo, são muitos os motivos que levam a massa de votos pertencer a alguma negação (inclusive nas ultimas eleições onde inúmeros votos de um lado foram apenas uma forma de dizer não ao outro). É neste espectro que precisaremos reinventar os espaços democráticos populares. Mas qual a resposta ideal? não sei dizer, nem sei se existe.
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Os caminhos do urbano brasileiro

Podemos considerar que um grande legado para o urbanismo, nas últimas décadas, foi a implementação do Estatuto das Cidades por lei  no 10.257, de 10 de Julho de 2001, assinado por Fernando Henrique Cardoso, [completando neste mês 17 anos] e a  criação, no governo Lula, do Ministério das Cidades em janeiro de 2003 e da Lei nº 11.888, de 24 de Dezembro de 2008 que garante o direito pleno a assistência técnica pública e gratuita para habitação social. Embora as políticas públicas previstas e defendidas por inúmeros movimentos de luta urbana tenha sido em um primeiro momento abraçadas pelo Ministério, eem um segundo momento foram paulatinamente sendo desconfiguradas no decorrer de anos de conciliação com os poderes instituídos para manutenção da governabilidade. Ainda assim, a lei que regula o uso da propriedade urbana para fins coletivos, consolidando o direito previsto em constituição pode ser considerado um importante passo, se visto como princípio de entendimento do território como um direito de todos.

Ainda que o tempo presente leve muitos de nós a acreditar e naturalizar o direito à propriedade pela lógica comercial (somos donos de nossos terrenos), nos cabe lembrar que esta lógica é recente no Brasil. Cabe lembrar que até o ano de 1822, o domínio sobre toda a propriedade e terras do Brasil pertencia ao Rei, e este distribuía conforme seu interesse o direito à posse. Com o advento da Lei de Terras, inicia-se um primeiro passo a lógica da propriedade como objeto passível de compra e venda, porém, a mesma não revoga ou reestrutura a distribuição das terras já implementadas nos tempos das sesmarias. Desta maneira, a lógica da propriedade se inicia de forma desigual: Quem já estava assentado pela posse concedida pelo Rei conseguiu regulamentar a posse como propriedade, e àqueles que não possuíam terras passariam então a ter o direito mediante compra. O caráter desigual que se representava pela lógica real apenas se transformou para uma lógica capital. Podemos considerar que se inicia ali um grande negócio que perdura até os dias de hoje, com a geração de riqueza através da especulação da terra.

Muitas modificações ocorreram desde então, mas poucas delas (ou talvez nenhuma) afetaram a raiz do problema: A resolução da distribuição desigual implementada pela coroa real que em um curto momento se transforma em riqueza adquirida para poucos afortunados.  

Nos dias contemporâneos passamos por um peculiar processo de produção de riqueza similar. Com a lógica dos megaempreendimentos geradores instantâneos de riqueza, seja pelo solo criado desde o aumento de gabaritos a procedimentos, seja por mudanças de grandes estruturas urbanas, como inserir vias expressas no subterrâneo para ganhar a superfície como terreno. Uma nova lógica também vem se consolidando, e seguindo as novas caras do capital: a terceirização do controle do território.

Podemos pensar em um neologismo: condominização da vida. Esta lógica que pode ser encontrada desde os processos de Operação Urbana Consorciada (como no caso do Porto Maravilha no Rio de Janeiro), passando por condomínios fechados como modelo de moradia associados a shopping centers como modelos de lazer, e chegando nas classes médias baixas através da lógica de fechamentos de ruas por cancelas ou de processos de favelização. Vale ressaltar que as cidades construídas segundo modelos de privatização do espaço público, estruturadas em formas condominiais se torna cara e inviável, mantém a segregação e o ciclo vicioso do encastelamento e do medo do urbano.

As novas formas de articulação do espaço urbano, por sua vez, continuam a manter o alinhamento do processo histórico da distribuição desigual do território.  As terras, cada vez mais escassas obrigam aos poderes que por ela se interessa a mobilizar subterfúgios. A especulação cria solo, avança para áreas de proteção ambiental, propõe aumentos de gabarito sem que estes passem por um estudo prévio e real do impacto ambiental, entre outros.

           O decorrer histórico nos faz perceber que talvez apenas através da mudança das lógicas de constituição e ocupação dos territórios poderemos iniciar um processo democrático sobre a terra (seja ela rural ou urbana). É preciso entendermos o território como um bem comum. Elementos como o fortalecimento dos planos diretores participativos, execução da garantia da função social do imóvel, entre outros se tornam primordiais em uma tentativa de construir esta democracia territorial que será tão gratificante a todos os cidadãos envolvidos, direta ou indiretamente. Neste sentido, é preciso avançar mais, tanto nos instrumentos quanto nas lutas pelo uso deles. O direito a cidade é um direito universal, que pode ser democratizado com o fortalecimento da compreensão do profissional de arquitetura e engenharia como um ente público e popular, assim como, com o fortalecimento das lutas por moradia e terra. 

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