Não vou alongar muitos argumentos sobre a questão do monumento aqui. Mas vou tirar um texto específico do saber técnico-científico do campo da arquitetura pra comentar a respeito da questão de patrimônio, monumento, preservação.
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13 DE MAIO— DIA DE PRETO VELHO: Dos Subúrbios que os Subúrbios escondem.
13 de maio! Dia de Preto Velho. Adorei as Almas.
Hoje o fio passará por este processo de imensa sabedoria que existe entre nós. É de se esperar que no país onde a história é contada pelos vencedores, tenhamos nos acostumado com o fim da escravidão sendo representado por um processo legal por parte da princesa com um fim todos felizes para sempre, dando um ar digno de contos e fábulas da Disney.
Interessante porém, como o contraponto vem da sabedoria do povo, aquela que muitas das vezes é considerada como menor, por não ser uma sabedoria produzida nas égides da ciência iluminista ou dos clubes literários ou dos cafés onde poetas e compositores da burguesia se encontram. Foi na sabedoria do povo escravizado, no Candomblé, na Umbanda, nos terreiros e quintais que a homenagem se deu da melhor forma. Este dia onde a escravidão terminou mas o racismo permaneceu, celebramos a ancestralidade, os avós, avôs, pais, reinos, todos que foram desmantelados do direito básico a humanidade são lembrados hoje e nos dão as suas bênçãos. Continuar a ler
O LUGAR DO IMPERADOR: Adriano e o Complexo
As recentes declarações do Jogador Adriano nos faz pensar sobre um dos principais conceitos da arquitetura e da vida: O lugar.
Quando o jogador de milhões, no auge da sua carreira retorna ao Brasil e, principalmente, ao seu bairro, sua favela ou seu complexo como queiram chamar, o jogador vira alvo de uma campanha alvoroçada e constante. Não era raro ver as mídias associarem o retorno do jogador a uma decadência moral do tipo, está cercado de bandidos, associou-se ao tráfico, etc. Discurso este que caia no senso comum, Adriano era visto como aquele que teve todas as oportunidades e jogou fora.
A real é: o que o sistema realmente não tolerou foi a quebra do modelo de sucesso que ele vende. O retorno de um jogador, um artista um ídolo ao seu lugar de origem se torna perigoso a medida em que o discurso oficial precisa convencer que o seu lugar é \”errado\”. O que se espera de um jogador pobre que sai da favela ainda jovem e vai viver na Europa? Espera-se qualquer coisa, menos que ele retorne ao seu lugar pobre. Continuar a ler
Porque eu leio Koolhaas
Bom, primeiramente, esta é a parte um de um texto com este título, em breve produziremos outro para aprofundar a questão propriamente dita. A resposta ao que seria esta pergunta é simples de responder. Basicamente é importante ler Koolhaas, não por ele ser um arquiteto pensador de cidade, mas sim por ele ser um arquiteto que desenha, define e projeta arquiteturas de grande impacto nas metrópoles.
O problema maior consiste porém no fato de que Koolhaas, embora não seja mais o arquiteto hype das escolas, ainda faz parte do nicho que hegemoniza conceitualmente a profissão. O arquiteto salvador, dono das verdades e das soluções, capaz de revitalizar toda a vida humana com um risco, um pensamento, um diagrama ou um powerpoint, mudam-se detalhes, elementos, concepções estéticas, mas pouco se muda a produção de ícones a construção de símbolos exclusivos a ser seguidos. Mesmo quando há mudanças de referencial, como vimos este ano com a premiação de Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal, o sistema imbuído de construir segue o mesmo. Também pouco falamos do principal, como estes profissionais consolidam-se no mercado.
Sobre a Koolhaas, o que me importa na leitura é menos seu entendimento de cidade e mais a forma como sua narrativa se relaciona diretamente com o seu papel no modo de produção urbana e arquitetônica do grande capital. Mas para nós o que interessa é o espaço imenso com o qual Koolhaas não se articula diretamente, e cuja produção é sombreada pela autoconstrução, pela construção simples, pelas estruturas diferenciadas, pela precarização profissional. Assim, a grosso modo, um texto de Koolhaas é praticamente um receituário do tipo de espaço projetado e concebido que este tipo de arquiteto quer e o koolhaanismo não reflete um movimento, no máximo um sistema publicitário de si.
Uma expressão pop de Koolhaas “Arquitetura é uma perigosa mistura de onipresença e impotência”, que já podemos comparar em sucesso ao paradoxo do abismo de Zaratustra, é uma ótima demonstração de como este arquiteto constrói sua narrativa por uma justificativa. Sua frase conceitual de arquitetura o coloca no limite de todas as possibilidades possíveis de serem feitas, além de lidar com o teto de total impotência diante da liberdade. Koolhaas não vai questionar o capital pois é impotente, porém ao construir seu edifício, tudo lhe é possível e o céu é o limite.
A profissão está em contradição, à medida em que houve uma expansão e democratização das universidades no Brasil, massificou-se o número de arquitetos. Assim, se a alguns anos tínhamos uma profissão com um certo controle social e econômico da entrada de novos nomes no campo de trabalho, hoje esta entrada está sem controle claro. A discrepância é que, esta massa de arquitetos não se encaixa no modelo hegemônicos da arquitetura ícone que produzem os Koolhaas da vida. Estes arquitetos seguem muitos deles periféricos, pobres e apartados da dinâmica do ofício.
A crise piora à medida que os modelos de empregabilidade derretem. Hoje o padrão é o desemprego e a luta pela sobrevivência. Você pode ser arquiteto ter um projeto hoje e ter que fazer viagens como uber amanhã para fazer o ganha pão. Cada dia mais, o novo mundo do trabalho gera novas relações também de título. Como se entender um arquiteto se seu trabalho é dissipado entre outras tarefas?
O mundo profissional costuma estudar os ícones por parâmetros diversos, crítica ao design, olhar estético, conceito, programa, paradigma. O buraco mais embaixo, porém, está na discrepância que há entre um CCTV (de Koolhaas) ter um custo de U$S 735 milhões de dólares em 2012, enquanto a massa trabalhadora enfrenta um mercado onde se encontram projetos prontos na internet por 30 reais. Esta é a realidade de imensa parte dos profissionais de arquitetura hoje (e não só de arquitetura), cujo sustento é totalmente inviabilizado por um processo material que não considera a profissão como algo de massa, como política de estado, mas apenas seu recorte de item de luxo.
Em épocas de pandemia e crise econômica, esta discrepância fica ainda mais acintosa e acirrada. Mesmo que o mercado se aqueça, possivelmente o capital já terá mudado a chave da precarização para outros pólos. A massa de profissionais tenderá a seguir aumentando à medida que novas universidades abrem cursos, e o sistema exclusivista chegará em um ponto de supersaturação.
Urge retomarmos o conceito de produção para todos. Ver a qualidade técnica e construtiva da caneta BIC ou de um copo Nadir Figueiredo, dois feitos do design e pensar, porque não podemos retomar este princípio em arquitetura? Não significa fazer arquiteturas de carimbo ou algo do tipo, mas sim tentar traçar um princípio: o trabalho que eu faço é embebido no desejo de exclusividade ou no interesse dos povos? Nisso os laureados Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal me parecem mais interessantes que Koolhaas, não tão onipresentes porém potentes. Não que eu considere louvar ícones algo interessante, apenas acho interessante tecer críticas e reflexões.

Imagem extraída de : https://klaustoon.files.wordpress.com/2014/07/clog-rem-its-not-easy-being-kool.jpg
Entre o espaço e o tempo fiquei me perguntando: qual o lugar do tempo?
No corre da vida fiquei tentando vislumbrar isso. Fui dar uma busca no campo da física, por ali, o nosso sentido de espaço já diz pouco, ao que parece no universo as relações que na Terra são coerentes não o são no espaço.
Por ali entendi um pouco mais sobre o conceito de tempo também como um conceito de transformação. Acho que nos acostumamos demais a pensar o tempo a partir do relógio, desmontar isso foi importante. Comecei a remontar e certas coisas passaram a fazer mais sentido. Quando os textos bíblicos (do tempo do bronze) diziam de homens de 400 anos, onde no máximo fariam sentido homens de 30, ou sei lá jornadas de 40 anos que poderiam ser feitas em dias. Se a gente para pra pensar o sentido de tempo daquela época, o paradigma girava em torno dos solstícios e a eternidade. Porque gastar energia construindo Stonehenge, ou as pirâmides de Guizé? provavelmente não caiba nos dias de hoje.
O mundo moderno e seu relógio e sua fábrica nos colocou na jornada diária, que também é pura convenção, se a gente sai do planeta Terra a jornada diária (uma volta da terra em torno de si mesma) perde totalmente o sentido. Aí voltei pra física e sua dobra no espaço-tempo que nem sei se cabe entendermos com certeza, mas pra viver na Terra basta pensar que o tempo não está dado como pensamos dentro de uma representação do relógio.
Numa entrevista com o professor Mauricio Javier (posso por o link aqui) ao questioná-lo sobre surgiram temas muito bons. Ressalto que o professor é colombiano, embebido na visão de mundo dos povos originários da América Latina. Cito dois momentos:
Momento um: quando ele diz que aprendeu com um membro de um povo originário sobre o tempo: o indígena lhe disse que pra eles só existe o presente e que o futuro é o passado que está a frente.
Momento dois: quando ele passou outro lapso de experiência de vida que achei interessantíssimo compartilhar.
Em meio ao extremo cansaço em que passava numa virada de noite fazendo um projeto, ele dormiu na prancheta. Diz ele que foi um cochilo de meia hora, porém nesse cochilo ele teve um sonho lúcido que durou OITO horas. Neste sonho ele projetou, fez todos os desenhos necessários tudo certinho. Quando acordou (óbvio que não tinha o projeto pois teria ficado no sonho) e após ele ter ido a classe no dia seguinte, conversou com os amigos e contou o sonho, e os amigos entraram na onda de desenhar o projeto que ele tinha feito durante o sonho.
Em 1998 Ryutaro Nakamura trazia a nós uma leitura futurista, em seu anime (que pra minha geração seria chamado de desenho japonês, mas o tempo já mudou isso) Serial Experiments Lain uma percepção importante no espaço-tempo. Quando uma espécie de rede mundial de internet está inserida no cotidiano, a separação entre o virtual e o real se torna cada vez mais difícil e complexa de lidar.
Quem precisa de um corpo quando se pode ter todos os dados do mundo? Porém ter todos os dados do mundo ou a onisciência não fazem de você um Deus se não tiver ninguém que o reverencie por isso. “Eu nunca vi você, como você diz que me conhece? [A resposta]: isso foi sempre um fluxo de informações e toma sempre novos rumos”. Estas são algumas das questões lançadas nesta obra cujo protagonista é um ente dúbio entre ser uma criança e ser uma inteligência artificial programada pela rede. O autor deixa de forma clara e instigante na abertura da trama que esta se passa no presente e neste instante. A cidade é a cidade do nosso tempo com seus postes de iluminação e cabos, e o complexo emaranhado de dados da rede mundial de internet também o é.
Saindo da arte ficcional e retomando alguns acadêmicos, David Bohm traz uma alegoria interessante ao apresentar que a semente por si pouco pouco contribui para a substancia material de uma árvore, que em última instancia vem da terra do ar da água, entre outros, cabendo a semente o elemento da informação que dirige este crescimento, o DNA. O Crescimento da planta retrata um sistema de transformação contínua das substâncias materiais do espaço onde ela está inserida (a nós esta é a parte que importa refletir para o momento). Transformação é uma boa palavra pra tentarmos encontrar uma alegoria para o tempo.
Paul Virilio foi certeiro quando trouxe para o espaço físico (do nosso planeta) o paradigma do tempo e quando aponta a nossa dificuldade no cotidiano de entender o tempo contínuo. Em nosso cotidiano o tempo só faz sentido, só é vivido se for tempo interrompido (segundo ele) e é nesse momento que a gente enxerga o acontecimento. Um relógio são micro interrupções sequenciais, podemos pensar. Dentro deste prisma que entendemos porque não somos capazes de perceber que estamos mais velhos num recorte de horas ou minutos, mas percebemos nitidamente quando, já adultos, olhamos uma foto nossa de criança. Também dentro deste prisma que se torna muito difícil perceber o tempo instantâneo no qual caminham os fluxos de dados da internet por exemplo.
Paul Virilio insere o tempo no espaço construído, considera ele que além da matéria, o espaço implica a “profusão de efeitos especiais que afetam a consciência do tempo e das distâncias”. Em alguma mesa perto estava Cacciari compreendendo que os edifícios se tornaram acontecimentos, assim como a terra, água, ar, sol, semente se tornou um jequitibá.
E o espaço? Se o espaço é um recorte limitado em uma duas ou três dimensões, medido em alguma ordem de valor – chutemos o metro como exemplo.
Alguém lhe pergunta: Você vai na aula hoje? fica lá no outro prédio.
E você prontamente responde: Vou sim, chego em 15 minutos. (cadê o metro?)
E quando a aula é virtual e a sala que estava lá agora está no seu telefone, no seu bolso e o tempo entre a informação sair de lá chegar no satélite e retornar ao seu telefone é tão instantâneo que o espaço virtual fica parecendo um buraco negro?
Esta talvez seja a grande crise, a próxima jornada ou a jornada presente não está mais sendo dada por um dia (uma volta em torno do sol), mas pela instantaneidade das redes de comunicação. E este tempo já não é tão simples e confortável do corpo captar como antes.
Espaços Insurgentes
Mineápolis-Brasil pequena cartografia de suas lutas urbanas.
Já algum tempo compreendi que não devemos pensar apenas em uma vida pós pandemia, mas na vida dentro da pandemia. Enquanto o campo da arquitetura e urbanismo faz estudos e prospecções, ensaios teóricos e demais produções, a relação crua da sociedade se expõe.
Se no início da pandemia observávamos para exemplos vindos de territórios de controle, debatíamos táticas de isolamento espacial, saúde coletiva entre outros, hoje temos um cenário distinto que se apresenta. Há algo em comum entre Minnesota, Paraisópolis, Amazonas e Rio de Janeiro neste momento, assim como há um fio que conecta . As redes de poder e controle revelam de forma crua como a morte é um instrumento de controle do sistema. George Floyd e João Pedro são vítimas de um projeto de cidades e territórios onde se banaliza quem vai morrer.
Sobre o Brasil, este projeto racista pode ser visto em inúmeros exemplos, mas trarei especificamente os fatos recentes. Qual o argumento justifica as recentes mortes de jovens em favelas durante processos de entrega de cestas básicas? Nada que vá além da demonstração de poder e controle.
O plano Brasil de enfrentamento ao COVID foi de combate aos seus cidadãos mais segregados historicamente. Sem planejamento de tratamento, sem a distribuição da renda básica universal e como vimos na reunião ministerial, com uma proposta de partilha do espólio-brasil entre os seus o país foi entregue a própria sorte na luta pela vida.
Diante de tal projeto, o povo ousou tentar sobreviver, fortalecendo a historicidade das redes nós por nós de ajuda mútua. Não é preciso olhar pra copo de leite do tal Capeton pra falar em simbolismos de fascismos, os assassinatos em meio a doações já demonstram isso. Assim como os caminhos que fazem com que as pessoas tenham de escolher entre morrer de fome ou Corona.
Voltemos os olhos para Mineápolis e seus ensinamentos. Pensando neste momento sobre o urbano e a arquitetura, uma vida bastou para que a cidade se pusesse em chamas. Isso é revelador sobre o que importa na cidade: o cidadão. O povo de Minneapolis, em um ato de justiça e revolta, remodela as espacialidades da mesma como um documento que rasga o sistema urbano racista e traz o território de volta aos seus. Vale lembrar que o povo norte-americano também enfrenta o COVID de forma estranha devido as escolhas de seu presidente. Ainda assim, Minnesota neste momento não recua da incessante luta pelo direito a vida.
Mineápolis é o ponto de partida de uma nova cartografia insurgente que revela a forma social com a qual se constituiu as Américas. Este imenso território que exterminou e escravizou seus povos originários, e outros inúmeros povos através de um modelo racista de constituição de suas nações. O sistema racista que organiza estes territórios passa por esta máquina de captura de saberes, vivencias e trabalho, e quando não consegue mais capturar elimina.
Neste mesmo ano de 2020, antes da doença chegar ao Brasil, a Escola de Samba Acadêmicos da Rocinha apresentava estes versos na passarela do samba:
“Chora Maria! Que a água do oceano sabe o gosto da lágrima que escorre em seu rosto. E os santos que aportam no cais da Bahia protegem quem já foi mercadoria”

Nossas cidades são estas escrituras de espacialidades que consideravam a maior parte de seus usuários como mercadorias e não como cidadãos. Esta é a construção social que funda nossa produção urbana.
Uma crítica progressista que surge em meio a isso: o Brasil precisa aprender com Mineápolis. Este a meu ver é um pouco do misto de nosso senso de emergência e justiça com um olhar ainda romantizado de que estamos presos em uma lógica de cidadão cordial. Na real, há uma diferença importante a destacar, as forças de controle do estado no caso do Brasil atuam de “maneira enérgica”, termo que elas usam para explicar a opinião pública como passam por cima dos direitos humanos conquistados a duras penas para efetivar atos de controle social.
Quem não se lembra das operações no Complexo do Alemão por volta de 2010, 2011 (épocas de governo Cabral) que unificou polícia militar, civil, exército e todas as mídias? Quem não se lembra do Massacre de El Dorado, ou das rebeliões prisionais no Norte do país? Quantos João ou George estavam nestes locais. Os espaços brasileiros tem este recorte, onde a questão da mobilidade urbana cruza com transportes que podem ser parados e revistados em dias de verão a caminho da praia. Dois jovens em uma moto e demarcações indígenas são escalas de uma mesma agenda espacial e territorial. Se a espaço preto e ameríndio não pode ser remodelado, ele é condenado e criminalizado seja por ações como quebrar um terreiro ou matar na favela: seja de fome de falta dágua ou de tiro.

Não obstante, o que chamamos de cordialidade do cidadão brasileiro possivelmente é hoje mais fruto do excesso de força implementada pelo sistema de controle do que propriamente passividade do cidadão. Soma-se a isso o fato de que muitas vezes invisibilizamos ou não nos sentimos responsáveis (enquanto sociedade civil) por mortes que envolvem o recorte territorial e racial.
Em meio as recentes cartografias insurgentes vejo por exemplo nascer no Brasil dois movimentos, o primeiro: a imensa rede de redes de ajuda mútua que caminham ainda que sejam atravessadas por estes assassinatos. Segundo: alguns levantes insurgentes de manifestação de rua antifascistas, ainda que expondo-se aos riscos da doença.
Nossa encruzilhada atual parece estar neste processo. Por um lado, o governo nacional demonstra todo interesse em caminhar para a ruptura democrática através da força militar. Por outro lado, o território brasileiro paulatinamente tenta se auto-organizar através das redes formadas entre seus vulneráveis. Em uma agenda de lutas que é local e também global. Isso torna Mineápolis mais próximo de nós do que imaginamos.
Há nestas redes um caráter plural e difuso, mil facetas atuando, buscando suas entradas e seus caminhos. Muito destas redes sempre aconteceram, porém agora tem ganhado visibilidade, outros elos de redes começam a se formar nestes movimentos de emergência. Em maioria porém, todas parecem apresentar uma tendencia comum: não aceitar a ruptura dos marcos democráticos pela força. Esta tendencia comum pode ser a saída da atual situação do país? quero crer que sim.
O Haiti é aqui, Mineápolis é aqui, Maria Conga na Rocinha é aqui. O espaço é forma e conteúdo (já dizia Milton Santos). Quando a forma não comporta, não liberta ou emancipa o conteúdo, o conteúdo pode e deve modificar a forma. Assim que edificações são demolidas, caem, perdem o sentido de ser. Mineápolis em chamas é o conteúdo remodelando a forma.

455 Anos sem direito universal à cidade
Vivemos em cidades que se constituíram com base em algumas leis do capital: lobby automobilístico, loteamentos de grandes terrenos formando bairros e coisas do gênero construíram a maior parte de nossos espaços. Dias como os de hoje (1 de março de 2020) este erro de planejamento e projeto cobram caro, mas isso não pode ser desculpa para o erro perdurar por décadas, quase um século pelo menos.







