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Monumentalidade e Patrimônio: O que o incêndio ao monumento de Borba Gato nos diz.

Não vou alongar muitos argumentos sobre a questão do monumento aqui. Mas vou tirar um texto específico do saber técnico-científico do campo da arquitetura pra comentar a respeito da questão de patrimônio, monumento, preservação.

Partindo do texto: os 9 Nove pontos sobre a monumentalidade escritos por José Luiz sert, Frenand Léger e SIefried Giedion.
Seu primeiro ponto traz:
\”Monumentos são marcos que o Homem criou como símbolos dos seus ideais, dos seus desejos, das suas ações. São concebidos para sobreviver ao período que lhes deu origem e constituem uma herança para as gerações futuras. Como tal formam um elo entre o passado e o futuro\”.
No seu terceiro ponto lembra:
\”Qualquer época do passado que tenha desenvolvido uma verdadeira vida cultural tinha o poder e a capacidade para criar estes símbolos\”.
Então, o que há e comum entre a comoção em torno do ato de incendiar a estátua de Borba Gato e o descaso com o patrimônio material das regiões periféricas deste país?
O simples recorte histórico de uma sociedade que ainda mantém os modelos elitistas de formação deste país como ícones de valor e ideais.
Lembro-me de uma cena marco do Filme Adeus Lenin, quando a estátua de Lenin é retirada e o jovem protagonista vivencia ali o clímax a demarcação simbólica do fim da Alemanha oriental. (vale ver o filme).
Mas saindo do cinema e vindo pra vida. Ao incendiar a estátua, o que parte da população diz é: não compactuamos mais com os ideais que sustentam de pé estes monumentos. Isso é como Moisés descendo do monte com os Dez Mandamentos e vendo o povo adorar o Bezerro de Ouro, ou como quando após a derrubada de Saddam Hussein suas imagens foram postas abaixo.
Defender a preservação de um monumento é defender o que este simboliza e demarca na história. É interessante notar como a literatura de Victor Hugo foi importante para a valorização da Catedral de Notre-Dame.
E este é o ponto, se cortarmos Brasil a dentro veremos inúmeros bens tombados, monumentos, arquiteturas referenciais pra um grupo social, uma região, um povo, literalmente abandonados e degradados ano a ano, como um incêndio homeopático.
Bens históricos de referencia dos povos africanos ou indígenas sofreram anos de perseguição oficial, e ainda hoje sofrem com perseguições das mais diversas. Quantos não são os casos dos terreiros dilacerados?
No Rio um caso marcante deste recorte elitista é o desmantelamento e esquecimento dos cinemas de rua suburbanos. Arquiteturas símbolo de um tempo histórico onde as regiões suburbanas expressavam uma pujança social e econômica, ainda que estes lugares sempre estejam aquém e segregados nos projetos de cidade.
Os cinemas de rua seguem a cartilha da destruição:
O abandono homeopático por parte do poder público como maneira de destruir o valor cultural e simbólico para a própria região. Bairros inteiros perdem o sentido de sua história, ficam reféns de nunca se sentirem realmente importantes.
O recado social é claro:
Borba Gato ainda é uma referência de um modelo ideal para os que choram pelo incêndio, enquanto para estas mesmas pessoas os Cinemas de Rua são só algo que atrapalha a especulação sobre o terreno no qual eles foram construídos.
Este é o tipo de recorte de valor que nos foi dado no país. Não é esta parte do Brasil queira apagar toda a sua história, ela apenas quer seguir mantendo a narrativa da pujança elitista e manter no esquecimento todos os periféricos, favelados, suburbanos, negros, indígenas e por aí vai.
Esse é o retrato de um país que uma parte de suas elites e governantes chora pelo monumento escravagista de Borba Gato, no mesmo dia em que celebramos as Mulheres Negras da América Latina e Caribenha.


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13 DE MAIO— DIA DE PRETO VELHO: Dos Subúrbios que os Subúrbios escondem.

13 de maio! Dia de Preto Velho. Adorei as Almas. 

Hoje o fio passará por este processo de imensa sabedoria que existe entre nós. É de se esperar que no país onde a história é contada pelos vencedores, tenhamos nos acostumado com o fim da escravidão sendo representado por um processo legal por parte da princesa com um fim todos felizes para sempre, dando um ar digno de contos e fábulas da Disney. 

Interessante porém, como o contraponto vem da sabedoria do povo, aquela que muitas das vezes é considerada como menor, por não ser uma sabedoria produzida nas égides da ciência iluminista ou dos clubes literários ou dos cafés onde poetas e compositores da burguesia se encontram. Foi na sabedoria do povo escravizado, no Candomblé, na Umbanda, nos terreiros e quintais que a homenagem se deu da melhor forma. Este dia onde a escravidão terminou mas o racismo permaneceu, celebramos a ancestralidade, os avós, avôs, pais, reinos, todos que foram desmantelados do direito básico a humanidade são lembrados hoje e nos dão as suas bênçãos.  Continuar a ler

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O LUGAR DO IMPERADOR: Adriano e o Complexo

As recentes declarações do Jogador Adriano nos faz pensar sobre um dos principais conceitos da arquitetura e da vida: O lugar.

Quando o jogador de milhões, no auge da sua carreira retorna ao Brasil e, principalmente, ao seu bairro, sua favela ou seu complexo como queiram chamar, o jogador vira alvo de uma campanha alvoroçada e constante. Não era raro ver as mídias associarem o retorno do jogador a uma decadência moral do tipo, está cercado de bandidos, associou-se ao tráfico, etc. Discurso este que caia no senso comum, Adriano era visto como aquele que teve todas as oportunidades e jogou fora.

A real é: o que o sistema realmente não tolerou foi a quebra do modelo de sucesso que ele vende. O retorno de um jogador, um artista um ídolo ao seu lugar de origem se torna perigoso a medida em que o discurso oficial precisa convencer que o seu lugar é \”errado\”. O que se espera de um jogador pobre que sai da favela ainda jovem e vai viver na Europa? Espera-se qualquer coisa, menos que ele retorne ao seu lugar pobre. Continuar a ler

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Porque eu leio Koolhaas

Bom, primeiramente, esta é a parte um de um texto com este título, em breve produziremos outro para aprofundar a questão propriamente dita. A resposta ao que seria esta pergunta é simples de responder. Basicamente é importante ler Koolhaas, não por ele ser um arquiteto pensador de cidade, mas sim por ele ser um arquiteto que desenha, define e projeta arquiteturas de grande impacto nas metrópoles. 

O problema maior consiste porém no fato de que Koolhaas, embora não seja mais o arquiteto hype das escolas, ainda faz parte do nicho que hegemoniza conceitualmente a profissão. O arquiteto salvador, dono das verdades e das soluções, capaz de revitalizar toda a vida humana com um risco, um pensamento, um diagrama ou um powerpoint, mudam-se detalhes, elementos, concepções estéticas, mas pouco se muda a produção de ícones a construção de símbolos exclusivos a ser seguidos. Mesmo quando há mudanças de referencial, como vimos este ano com a premiação de Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal, o sistema imbuído de construir segue o mesmo. Também pouco falamos do principal, como estes profissionais consolidam-se no mercado.

Sobre a Koolhaas, o que me importa na leitura é menos seu entendimento de cidade e mais a forma como sua narrativa se relaciona diretamente com o seu papel no modo de produção urbana e arquitetônica do grande capital. Mas para nós o que interessa é o espaço imenso com o qual Koolhaas não se articula diretamente, e cuja produção é sombreada pela autoconstrução, pela construção simples, pelas estruturas diferenciadas, pela precarização profissional. Assim, a grosso modo, um texto de Koolhaas é praticamente um receituário do tipo de espaço projetado e concebido que este tipo de arquiteto quer e o koolhaanismo não reflete um movimento, no máximo um sistema publicitário de si.


Uma expressão pop de Koolhaas “Arquitetura é uma perigosa mistura de onipresença e impotência”, que já podemos comparar em sucesso ao paradoxo do abismo de Zaratustra, é uma ótima demonstração de como este arquiteto constrói sua narrativa por uma justificativa. Sua frase conceitual de arquitetura o coloca no limite de todas as possibilidades possíveis de serem feitas, além de lidar com o teto de total impotência diante da liberdade. Koolhaas não vai questionar o capital pois é impotente, porém ao construir seu edifício, tudo lhe é possível e o céu é o limite.


A profissão está em contradição, à medida em que houve uma expansão e democratização das universidades no Brasil, massificou-se o número de arquitetos. Assim, se a alguns anos tínhamos uma profissão com um certo controle social e econômico da entrada de novos nomes no campo de trabalho, hoje esta entrada está sem controle claro. A discrepância é que, esta massa de arquitetos não se encaixa no modelo hegemônicos da arquitetura ícone que produzem os Koolhaas da vida. Estes arquitetos seguem muitos deles periféricos, pobres e apartados da dinâmica do ofício.


A crise piora à medida que os modelos de empregabilidade derretem. Hoje o padrão é o desemprego e a luta pela sobrevivência. Você pode ser arquiteto ter um projeto hoje e ter que fazer viagens como uber amanhã para fazer o ganha pão. Cada dia mais, o novo mundo do trabalho gera novas relações também de título. Como se entender um arquiteto se seu trabalho é dissipado entre outras tarefas?


O mundo profissional costuma estudar os ícones por parâmetros diversos, crítica ao design, olhar estético, conceito, programa, paradigma. O buraco mais embaixo, porém, está na discrepância que há entre um CCTV (de Koolhaas) ter um custo de U$S 735 milhões de dólares em 2012, enquanto a massa trabalhadora enfrenta um mercado onde se encontram projetos prontos na internet por 30 reais. Esta é a realidade de imensa parte dos profissionais de arquitetura hoje (e não só de arquitetura), cujo sustento é totalmente inviabilizado por um processo material que não considera a profissão como algo de massa, como política de estado, mas apenas seu recorte de item de luxo.


Em épocas de pandemia e crise econômica, esta discrepância fica ainda mais acintosa e acirrada. Mesmo que o mercado se aqueça, possivelmente o capital já terá mudado a chave da precarização para outros pólos. A massa de profissionais tenderá a seguir aumentando à medida que novas universidades abrem cursos, e o sistema exclusivista chegará em um ponto de supersaturação.


Urge retomarmos o conceito de produção para todos. Ver a qualidade técnica e construtiva da caneta BIC ou de um copo Nadir Figueiredo, dois feitos do design e pensar, porque não podemos retomar este princípio em arquitetura? Não significa fazer arquiteturas de carimbo ou algo do tipo, mas sim tentar traçar um princípio: o trabalho que eu faço é embebido no desejo de exclusividade ou no interesse dos povos? Nisso os laureados Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal me parecem mais interessantes que Koolhaas, não tão onipresentes porém potentes. Não que eu considere louvar ícones algo interessante, apenas acho interessante tecer críticas e reflexões.


Imagem extraída de : https://klaustoon.files.wordpress.com/2014/07/clog-rem-its-not-easy-being-kool.jpg

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Entre o espaço e o tempo fiquei me perguntando: qual o lugar do tempo?

No corre da vida fiquei tentando vislumbrar isso. Fui dar uma busca no campo da física, por ali, o nosso sentido de espaço já diz pouco, ao que parece no universo as relações que na Terra são coerentes não o são no espaço.

Por ali entendi um pouco mais sobre o conceito de tempo também como um conceito de transformação. Acho que nos acostumamos demais a pensar o tempo a partir do relógio, desmontar isso foi importante. Comecei a remontar e certas coisas passaram a fazer mais sentido. Quando os textos bíblicos (do tempo do bronze) diziam de homens de 400 anos, onde no máximo fariam sentido homens de 30, ou sei lá jornadas de 40 anos que poderiam ser feitas em dias. Se a gente para pra pensar o sentido de tempo daquela época, o paradigma girava em torno dos solstícios e a eternidade. Porque gastar energia construindo Stonehenge, ou as pirâmides de Guizé? provavelmente não caiba nos dias de hoje.

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O mundo moderno e seu relógio e sua fábrica nos colocou na jornada diária, que também é pura convenção, se a gente sai do planeta Terra a jornada diária (uma volta da terra em torno de si mesma) perde totalmente o sentido. Aí voltei pra física e sua dobra no espaço-tempo que nem sei se cabe entendermos com certeza, mas pra viver na Terra basta pensar que o tempo não está dado como pensamos dentro de uma representação do relógio.

Numa entrevista com o professor Mauricio Javier (posso por o link aqui) ao questioná-lo sobre surgiram temas muito bons. Ressalto que o professor é colombiano, embebido na visão de mundo dos povos originários da América Latina. Cito dois momentos:

Momento um: quando ele diz que aprendeu com um membro de um povo originário sobre o tempo: o indígena lhe disse que pra eles só existe o presente e que o futuro é o passado que está a frente.

Momento dois: quando ele passou outro lapso de experiência de vida que achei interessantíssimo compartilhar.

Em meio ao extremo cansaço em que passava numa virada de noite fazendo um projeto, ele dormiu na prancheta. Diz ele que foi um cochilo de meia hora, porém nesse cochilo ele teve um sonho lúcido que durou OITO horas. Neste sonho ele projetou, fez todos os desenhos necessários tudo certinho. Quando acordou (óbvio que não tinha o projeto pois teria ficado no sonho) e após ele ter ido a classe no dia seguinte, conversou com os amigos e contou o sonho, e os amigos entraram na onda de desenhar o projeto que ele tinha feito durante o sonho.

Em 1998 Ryutaro Nakamura trazia a nós uma leitura futurista, em seu anime (que pra minha geração seria chamado de desenho japonês, mas o tempo já mudou isso) Serial Experiments Lain uma percepção importante no espaço-tempo. Quando uma espécie de rede mundial de internet está inserida no cotidiano, a separação entre o virtual e o real se torna cada vez mais difícil e complexa de lidar.

Quem precisa de um corpo quando se pode ter todos os dados do mundo? Porém ter todos os dados do mundo ou a onisciência não fazem de você um Deus se não tiver ninguém que o reverencie por isso. “Eu nunca vi você, como você diz que me conhece? [A resposta]: isso foi sempre um fluxo de informações e toma sempre novos rumos”. Estas são algumas das questões lançadas nesta obra cujo protagonista é um ente dúbio entre ser uma criança e ser uma inteligência artificial programada pela rede. O autor deixa de forma clara e instigante na abertura da trama que esta se passa no presente e neste instante. A cidade é a cidade do nosso tempo com seus postes de iluminação e cabos, e o complexo emaranhado de dados da rede mundial de internet também o é.

Saindo da arte ficcional e retomando alguns acadêmicos, David Bohm traz uma alegoria interessante ao apresentar que a semente por si pouco pouco contribui para a substancia material de uma árvore, que em última instancia vem da terra do ar da água, entre outros, cabendo a semente o elemento da informação que dirige este crescimento, o DNA. O Crescimento da planta retrata um sistema de transformação contínua das substâncias materiais do espaço onde ela está inserida (a nós esta é a parte que importa refletir para o momento). Transformação é uma boa palavra pra tentarmos encontrar uma alegoria para o tempo.  

Paul Virilio foi certeiro quando trouxe para o espaço físico (do nosso planeta) o paradigma do tempo e quando aponta a nossa dificuldade no cotidiano de entender o tempo contínuo. Em nosso cotidiano o tempo só faz sentido, só é vivido se for tempo interrompido (segundo ele) e é nesse momento que a gente enxerga o acontecimento. Um relógio são micro interrupções sequenciais, podemos pensar. Dentro deste prisma que entendemos porque não somos capazes de perceber que estamos mais velhos num recorte de horas ou minutos, mas percebemos nitidamente quando, já adultos, olhamos uma foto nossa de criança. Também dentro deste prisma que se torna muito difícil perceber o tempo instantâneo no qual caminham os fluxos de dados da internet por exemplo.  

Paul Virilio insere o tempo no espaço construído, considera ele que além da matéria, o espaço implica a “profusão de efeitos especiais  que afetam a consciência do tempo e das distâncias”. Em alguma mesa perto estava Cacciari compreendendo que os edifícios se tornaram acontecimentos, assim como a terra, água, ar, sol, semente se tornou um jequitibá.

E o espaço? Se o espaço é um recorte limitado em uma duas ou três dimensões, medido em alguma ordem de valor – chutemos o metro como exemplo.

Alguém lhe pergunta: Você vai na aula hoje? fica lá no outro prédio.

E você prontamente responde: Vou sim, chego em 15 minutos. (cadê o metro?)

E quando a aula é virtual e a sala que estava lá agora está no seu telefone, no seu bolso e o tempo entre a informação sair de lá chegar no satélite e retornar ao seu telefone é tão instantâneo que o espaço virtual fica parecendo um buraco negro?

Esta talvez seja a grande crise, a próxima jornada ou a jornada presente não está mais sendo dada por um dia (uma volta em torno do sol), mas pela instantaneidade das redes de comunicação. E este tempo já não é tão simples e confortável do corpo captar como antes.

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Espaços Insurgentes

Mineápolis-Brasil pequena cartografia de suas lutas urbanas.

Já algum tempo compreendi que não devemos pensar apenas em uma vida pós pandemia, mas na vida dentro da pandemia. Enquanto o campo da arquitetura e urbanismo faz estudos e prospecções, ensaios teóricos e demais produções, a relação crua da sociedade se expõe.

Se no início da pandemia observávamos para exemplos vindos de territórios de controle, debatíamos táticas de isolamento espacial, saúde coletiva entre outros, hoje temos um cenário distinto que se apresenta. Há algo em comum entre Minnesota, Paraisópolis, Amazonas e Rio de Janeiro neste momento, assim como há um fio que conecta . As redes de poder e controle revelam de forma crua como a morte é um instrumento de controle do sistema. George Floyd e João Pedro são vítimas de um projeto de cidades e territórios onde se banaliza quem vai morrer.

Sobre o Brasil, este projeto racista pode ser visto em inúmeros exemplos, mas trarei especificamente os fatos recentes. Qual o argumento justifica as recentes mortes de jovens em favelas durante processos de entrega de cestas básicas? Nada que vá além da demonstração de poder e controle.

O plano Brasil de enfrentamento ao COVID foi de combate aos seus cidadãos mais segregados historicamente. Sem planejamento de tratamento, sem a distribuição da renda básica universal e como vimos na reunião ministerial, com uma proposta de partilha do espólio-brasil entre os seus o país foi entregue a própria sorte na luta pela vida.

Diante de tal projeto, o povo ousou tentar sobreviver, fortalecendo a historicidade das redes nós por nós de ajuda mútua. Não é preciso olhar pra copo de leite do tal Capeton pra falar em simbolismos de fascismos, os assassinatos em meio a doações já demonstram isso. Assim como os caminhos que fazem com que as pessoas tenham de escolher entre morrer de fome ou Corona.

Voltemos os olhos para Mineápolis e seus ensinamentos. Pensando neste momento sobre o urbano e a arquitetura, uma vida bastou para que a cidade se pusesse em chamas. Isso é revelador sobre o que importa na cidade: o cidadão. O povo de Minneapolis, em um ato de justiça e revolta, remodela as espacialidades da mesma como um documento que rasga o sistema urbano racista e traz o território de volta aos seus. Vale lembrar que o povo norte-americano também enfrenta o COVID de forma estranha devido as escolhas de seu presidente. Ainda assim, Minnesota neste momento não recua da incessante luta pelo direito a vida.

Mineápolis é o ponto de partida de uma nova cartografia insurgente que revela a forma social com a qual se constituiu as Américas. Este imenso território que exterminou e escravizou seus povos originários, e outros inúmeros povos através de um modelo racista de constituição de suas nações. O sistema racista que organiza estes territórios passa por esta máquina de captura de saberes, vivencias e trabalho, e quando não consegue mais capturar elimina.

Neste mesmo ano de 2020, antes da doença chegar ao Brasil, a Escola de Samba Acadêmicos da Rocinha apresentava estes versos na passarela do samba:

“Chora Maria! Que a água do oceano sabe o gosto da lágrima que escorre em seu rosto. E os santos que aportam no cais da Bahia protegem quem já foi mercadoria”

Maria Conga Unidos da Rocinha 2020

Nossas cidades são estas escrituras de espacialidades que consideravam a maior parte de seus usuários como mercadorias e não como cidadãos. Esta é a construção social que funda nossa produção urbana.

Uma crítica progressista que surge em meio a isso: o Brasil precisa aprender com Mineápolis. Este a meu ver é um pouco do misto de nosso senso de emergência e justiça com um olhar ainda romantizado de que estamos presos em uma lógica de cidadão cordial. Na real, há uma diferença importante a destacar, as forças de controle do estado no caso do Brasil atuam de “maneira enérgica”, termo que elas usam para explicar a opinião pública como passam por cima dos direitos humanos conquistados a duras penas para efetivar atos de controle social.

Quem não se lembra das operações no Complexo do Alemão por volta de 2010, 2011 (épocas de governo Cabral) que unificou polícia militar, civil, exército e todas as mídias? Quem não se lembra do Massacre de El Dorado, ou das rebeliões prisionais no Norte do país? Quantos João ou George estavam nestes locais. Os espaços brasileiros tem este recorte, onde a questão da mobilidade urbana cruza com transportes que podem ser parados e revistados em dias de verão a caminho da praia. Dois jovens em uma moto e demarcações indígenas são escalas de uma mesma agenda espacial e territorial. Se a espaço preto e ameríndio não pode ser remodelado, ele é condenado e criminalizado seja por ações como quebrar um terreiro ou matar na favela: seja de fome de falta dágua ou de tiro.

Complexo do Alemão 2010

Não obstante, o que chamamos de cordialidade do cidadão brasileiro possivelmente é hoje mais fruto do excesso de força implementada pelo sistema de controle do que propriamente passividade do cidadão. Soma-se a isso o fato de que muitas vezes invisibilizamos ou não nos sentimos responsáveis (enquanto sociedade civil) por mortes que envolvem o recorte territorial e racial.

Em meio as recentes cartografias insurgentes vejo por exemplo nascer no Brasil dois movimentos, o primeiro: a imensa rede de redes de ajuda mútua que caminham ainda que sejam atravessadas por estes assassinatos. Segundo: alguns levantes insurgentes de manifestação de rua antifascistas, ainda que expondo-se aos riscos da doença.

Nossa encruzilhada atual parece estar neste processo. Por um lado, o governo nacional demonstra todo interesse em caminhar para a ruptura democrática através da força militar. Por outro lado, o território brasileiro paulatinamente tenta se auto-organizar através das redes formadas entre seus vulneráveis. Em uma agenda de lutas que é local e também global. Isso torna Mineápolis mais próximo de nós do que imaginamos.

Há nestas redes um caráter plural e difuso, mil facetas atuando, buscando suas entradas e seus caminhos. Muito destas redes sempre aconteceram, porém agora tem ganhado visibilidade, outros elos de redes começam a se formar nestes movimentos de emergência. Em maioria porém, todas parecem apresentar uma tendencia comum: não aceitar a ruptura dos marcos democráticos pela força. Esta tendencia comum pode ser a saída da atual situação do país? quero crer que sim.

O Haiti é aqui, Mineápolis é aqui, Maria Conga na Rocinha é aqui. O espaço é forma e conteúdo (já dizia Milton Santos). Quando a forma não comporta, não liberta ou emancipa o conteúdo, o conteúdo pode e deve modificar a forma. Assim que edificações são demolidas, caem, perdem o sentido de ser. Mineápolis em chamas é o conteúdo remodelando a forma.

Mineápolis 2020
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455 Anos sem direito universal à cidade

Em um prazo muito curto de tempo o brasileiro tem se sentido honrado com a matéria das pesquisadoras que se dedicaram e mapearam o genoma deste novo vírus que tem representado um perigo mundial, e ontem mais um caso de chuvas na cidade que matou cidadãos, inviabilizou diversas moradias e bairros inteiros estão sofrendo com a cheia. Qual a relação podemos traçar entre os dois?

Pois, ao menos uma relação importantíssima há. Ambos os casos refletem diretamente, a meu ver, o bem sucedido entendimento cultural do direito a saúde universal, pensamento de direito universal este que não chegou no campo da arquitetura e engenharias.O que quero dizer com isso, mesmo o SUS tendo mil problemas, o povo entende que tem direito a médico, hospital, e outros de graça e a academia e os médicos, também entendem seu papel profissional diante do povo. O mesmo não acontece no campo profissional das arquiteturas e engenharias. 

Vivemos em cidades que se constituíram com base em algumas leis do capital: lobby automobilístico, loteamentos de grandes terrenos formando bairros e coisas do gênero construíram a maior parte de nossos espaços. Dias como os de hoje (1 de março de 2020) este erro de planejamento e projeto cobram caro, mas isso não pode ser desculpa para o erro perdurar por décadas, quase um século pelo menos. 

O problema é que esta lógica de conceber e tratar os espaços segue firme, optamos com a Copa das Copas e Olimpíada das Olimpíadas, fazer mais uma vez o mais do mesmo. Construímos com nossas arquiteturas e engenharias (algumas nem tão nossas assim) uma cidade desigual com implantação de embelezamentos por um lado e apagamentos por outro. Assim caminhamos com remoções e esquecimentos dos locais onde moram a maior parte da nossa população. População esta para quem sobra a autoconstrução como ferramenta de sobrevivência. Nosso olhar profissional é tão pouco universalista que muitos de nós ainda enxergamos a autoconstrução popular como parte do problema de exercício ilegal da profissão.

Mesmo a criação da Lei de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (conheça  a lei aqui) não tem o alcance pleno pois o povo a desconhece, tem baixa implementação nacionals, apesar de ser um instrumento excelente para iniciar este processo de universalização do direito a cidade. É triste perceber como a visão de mundo implementada sobre a profissão nos afeta. 

A milênios não há grandes inovações caras e de difícil implementação em projetos e planejamento de saneamento. Citamos por exemplo: cuidado com as águas, cuidado ambiental, construção de praças como pontos de lazer e encontros comunitários, arborização, entre outros que contribuam para a qualidade urbana e direito de vida digna nas cidades. O que nos falta é sim, a coragem de pensar as cidades de forma não segregada.

O tempo que nos vangloriamos de roda gigante ou BRT, ou algo do gênero, devemos gastar trazendo a cidade a escala que ela vive, do chão, do aperto de mão do xingamento e dos abraços, hoje enquanto muitos de nós que conseguem impor alguma voz dentro deste campo profissional estamos secos em nossas casas, inúmeros (inclusive profissionais amigos arquitetos e engenheiros) estão tirando água de suas casas, outros vendo a água entrar pela laje e viverão pelo menos semanas de mofo e cheiro ruim em casa. 

Uma chuva destas reflete para quem sofre dias sem dormir direito, trabalho duro salvando o que pode de móveis, salvando ao menos um cômodo da casa para aconchegar toda a família. São cidadãos que constróem a vida destas cidades e ficam a míngua, como fora no início do ano no Norte Fluminense, hoje foi na região metropolitana. 

Que o município do Rio de Janeiro, com toda sua complexidade, neste ano em que foi eleito Capital Mundial da Arquitetura, assuma a responsabilidade de ser exemplo da universalização do direito a construir. Isto não é um simples aplicar a lei d ATHIS, vai muito além, precisamos de um trabalho estruturante de modificação da ideia de pra quem construímos nossas cidades, esta luta é imensa mas tem que ser traçada. Precisamos de uma cidade que fomente do direito a arquitetos e engenheiros públicos que atendam a todos os cidadãos e não mais ao lobby de quem investe capital imobiliário nela apenas, até porque neste momento estes lobbystas da cidade estão secos e confortáveis. Os donos da roda gigante tem telhados e lajes impermeabilizadas, a maior parte da nossa população não!




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BIM e um olhar sobre o trabalho e o capital

Uma das grandes mudanças profissionais no campo dos empreendimentos construtivos (recorte da arquitetura) surge com a chegada do pensamento e dos instrumentos de BIM, que começam a emplacar no mercado profissional sobre o CAD. A princípio vamos comentar primeiramente sobre o que isso significa. A grosso modo podemos dizer que: o conceito CAD (computer aided design ou traduzindo desenho assistido por computador) é uma complexa prancheta de Desenho, com inúmeras ferramentas e scripts que facilitam em muito a automação de certos serviços.

O impacto do CAD no modo de trabalho em projeto fora impressionante, porém não muito discrepante da forma atual de se trabalhar por ser basicamente um avanço tecnológico sobre um pensamento de projetar onde leia-se o pensamento cartesiano de desenho. Nos dias de hoje, vivenciamos uma nova mudança para o modo de operar, o BIM (Building Information Model ou modelagem de informação da Construção) diferente do CAD, o que se modifica é a forma de operação sobre o projeto, pensando-o não mais a partir da representação cartesiana e sim da modelagem construída. Vale lembrar que em muitas áreas da engenharia pesada já se projetava utilizando ferramentas paramétricas de modelagem estilo BIM (guarde este registro).  Assim sendo, o que estamos falando aqui não são apenas softwares, mas de modos de produção do trabalho.

Estes modos de trabalho foram fortemente hegemonizados por uma grande corporação guarda-chuva de softwares do tipo, não precisamos escrever nomes aqui, pois os nomes vêm à cabeça na primeira leitura. Mas como ocorreu este monopólio? Um caminho muito simples. A épocas em que os hardwares dos computadores pessoais eram mais potentes e comuns que os grandes bancos e sistemas de nuvens, coube a corporação simplesmente ser proprietária de uma sigla de três letras, que poucas pessoas se dão conta: o famoso .DWG, esta sigla atua como uma chave de criptografia que permite a leitura com exclusividade para seus softwares, cuja pirataria era combatida porém não com tanto afinco a ponto de tornar-se o programa comum no cotidiano profissional, passo importante para garantir a hegemonia de um sistema proprietário. 

Os modelos CAD acabaram com as pranchetas dos escritórios, porém também se adequou relativamente bem a um sistema de trabalho flexibilizado e que permitisse com tranquilidade terceirizações, parcerias de pessoas jurídicas com pessoas jurídicas e outrem. No recorte do arquiteto, permitiu mais velocidade, em especial ao arquiteto de médio porte atuar. Enquanto por outro lado, os grandes projetos industriais seguiam caminhando e se estruturando em ferramentas mais robustas e diferenciadas, como as ferramentas AVEVA que também condiziam com um modelo de organização do trabalho que permitia e necessita desta robustez.  Não precisamos nem explanar mais o quanto o CAD fortaleceu o modus operandi do arquiteto alienado ao canteiro de obras.

O BIM emplaca na arquitetura e construção civil em um outro cenário. Se nos anos noventa, e inicio dos anos 2000 disputávamos o espaço da internet como território livre, onde a cópia de arquivos, o peer-to-peer, eram grandes instrumentos de disseminação de material e dados enquanto buscávamos defender os softwares livres ou não proprietários, na última década para cá, esta disputa selou. As grandes indústrias do meio imaterial como a fonográfica e a de softwares se reorganizaram e consolidaram um novo modelo de capital. Quase ninguém mais compartilha música via torrent, ouvimos via spotfy. Assim também os programas piratas começaram a decair, e substitui-se o modelo de instalação com chave própria (muitas vezes pirateada para facilitar a hegemonia) por um modelo de aluguel de serviço. É nesta conjuntura que o BIM chega ao mercado com seu produto mais pop entre os arquitetos brasileiros (para não citar nomes vou inventar um) o REVIDE.
Sigamos:
O “revide” surge como uma proposta inovadora para nós arquitetos, trocar a prancheta eletrônica pelo canteiro de obras simulado, algo que o sistema PDMS da AVEVA já fazia a bastante tempo na construção pesada industrial por exemplo (local onde a flexibilização do pequeno escritório com parceiros distantes não favorece o empreendimento). Além disso, chega apoiado e duas grandes bases:
1 – A corporação que o lança já está consolidada e hegemônica no mercado nacional,
2- As novas formas de estrutura informacional mundial facilitam o sistema proprietário como o revide adentrar o mercado.

O revide é vendido nos anos atuais como o cogumelo do sol era vendido nas décadas de 80 e 90, quase que a solução para todos os problemas modernos, e como se para muitos não existisse outra ferramenta hábil a realizar o tão sonhado projeto. Ainda estamos engatinhando na transição. Em parte, os antigos (me incluo) sofrendo para fazer a mudança de raciocínio de projetar por desenho para projetar por modelagem construtiva, (o que revela muito o resultado da impotência de anos dos profissionais afastados dos canteiros de obras). Por outro lado, os mais jovens que ainda não conseguem compreender a ferramenta como um elo do novo modo de produção do capital.

O sistema “revide” porém, obriga certa robustez, seja de hardware seja de equipe de trabalho profissional na compatibilização e projeto completo em si. No atual momento, o que está dado poderá criar uma ruptura grande no campo profissional. Onde, ou se organiza os trabalhadores de forma quase industrial em torno de um projeto, garantindo um grande centro de banco de dados de BIM e softwares potentes contratando os profissionais a trabalhar em equipe dedicada, ou teremos cada vez mais organizações de trabalho altamente precarizados com complicados problemas de projeto e construção.

Há possibilidades deste custo cair para o consumidos final? creio que sim, visto que um dos maiores bens de valor atuais são os dados e softwares paramétricos tem como foco o alimento de bancos de dados, estas grandes corporações podem facilmente abrir verdadeiros bancos de dados, com lógica econômica de bancos financeiros, troca de dados por crédito, depósito de dados em nuvem, você produzir dados e alimentar a empresa com dados (como as redes sociais já fazem). Talvez não haja muito interesse neste momento, mas quem sabe no porvir? 

A problemática, porém, não está na ferramenta, seria ludita pensar nisso. A questão está na atual conjuntura de construção do capital e sua interface com nosso meio profissional. Meio este cuja nova legislação por exemplo enfraquece o celetista em nome da pessoa jurídica (seja PJ, EIRELI, MEI, etc.) o que favorece o retorno da exploração dos mesmos a um centro de trabalho com a flexibilização completa dos direitos institucionalizando-se na narrativa da terceirização.

O que nos coloca no jogo das novas formas de exploração e nos capacita a lutar é compreender em que meio estamos pisando para saber onde e como e a que resistir. É sabermos que ferramentas são só ferramentas, para não cairmos no ufanismo da tecnologia pela tecnologia ou no ludismo de que a tecnologia está matando nossos empregos. Uma vez ouvi um comentário ótimo, piada de um grande camarada: “enquanto os americanos projetavam uma caneta onde a tinta poderia escrever até na órbita da terra, os Russos mandaram o astronauta levando um lápis”. A piada não é sobre adequação ou resiliência, é sobre inovação e entendimento de onde estamos.

O BIM chega a nós arquitetos em um momento de extrema fragilidade profissional no país e no mundo. Para nós em especial, onde poucos conhecem o canteiro, o cheiro de cimento e madeira cortada, lidar com a modelagem do que será construído será extenuante, para outros que habitam o canteiro e muitas vezes resolvem um detalhe de projeto riscando tijolo no chão talvez não apanhem tanto. O que precisamos estar preparados são para as possíveis formas de apropriação e exploração do nosso trabalho e nossa vida.

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Parasita e distopias de um mundo presente

Muitas são as entradas possíveis para debater sobre um filme da densidade do principal vencedor do Oscar. O que buscarei aqui são reflexões que transversam e flertam com o filme, e não necessariamente sobre o filme. O primeiro marco que sinto reside no universo distópico de Parasita.
A distopia está no tempo presente.
A temporalidade trazida retrata um mundo contemporâneo cercado de suas mazelas e disparidades sociais. Mundo este no qual a arquitetura atua como paisagem e personagem coadjuvante. Mas para não entregar o filme, não falemos das arquitetura do mesmo, porém de exemplos paralelos que nos interessam. A tríade: condomínio-via expressa-shopping center que se reflete no aeroporto de Koolhaas, aqueles espaços estéreis de múltiplos seres, mas que escondem em seus subterrâneos e corredores técnicos a vivencia do trabalhador que sustenta o funcionamento do espaço. A distopia de parasita está ali dada. 
A representação.
Ao abdicar de suas verdades em busca de viver a partir da representação, os pobres se posicionam em uma auto-alienação cujo premio são algumas migalhas de conforto. A representação porém não salva o pobre de sua condição real, não o insere na outra camada social. O pobre alcança no máximo uma familiaridade que é restrita aos serviçais mais próximos a casa-grande. 
A idolatria ao arquiteto, ou ao dono da casa grande não insere o ser real do pobre no círculo privilegiado, no máximo, o inserido é o personagem representado. Personagem este que diante da catástrofe entra em pausa para que a verdade da vida real assuma seu lugar em meio a todas as perdas. O dualismo que tensiona entre o personagem (representação) e o ser real tem sua ruptura em um desfecho de explosão visceral.
A consciência de classe.
A busca incessante que temos pela construção da consciência de classe também tem sua crítica marcada no filme, onde a diferença de classe se torna clara. Porém a diferença que leva ao desfecho não cria a visão de mundo através de um processo -digamos- civilizatório e cartesiano de construção desta consciência. A relação de classe é sentida na pele, expressada por instintos básicos dos sentidos humanos. Sentidos estes que se elevam diante da pressão envolta na desumanidade dada aos que levam a vida em um porão. O pobre é elogiado por conseguir se manter no seu lugar, no seu espaço, porém mesmo que conscientemente se mantenha, sua carne incomoda, vaza para o espaço que não lhe convém ocupar pois pertence ao hospedeiro.
O filme apresenta com força o que é a dificuldade exponencial do pobre em sobreviver diante da facilidade que eventos trágicos tem de tirar suas poucas posses. A barraca de brinquedo da criança que resiste diante do mesmo cataclismo que torna inúmeros moradores da cidade flagelados é um recorte belíssimo dessa narrativa. Ao pobre resta ser tático para se manter sobrevivendo enquanto a vida e liberdade pertence ao seu hospedeiro.
Parasita fala de classes, as lutas e diálogos porém são retratadas através das vísceras. O olhar sobre esta relação de classes e a obra me remete a uma frase de Bruno Latour “É preciso combater a ideia de que existe por aí um dicionário do qual todas as palavras dos atores possam ser traduzidas nos poucos verbetes do léxico social”. Não há um plano que dê certo.
A barraca, a casa, o porão, as ruas e escadas, o sol e a sombra, cada detalhe retrata a proximidade deste mundo distópico ante da nossa realidade. Uma distopia que passa diretamente sobre o urbano e a arquitetura e que me fazem questionar: como é o mundo de parasita nos corredores técnicos dos shopping centers, como é o mundo de parasita no universo dos moradores sem teto e flagelados que dormem em nossas esquinas, nos aeroportos e outros espaços similares. Se antes estes eram invisíveis simbolicamente e politicamente, as novas cidades estão tentando torná-los invisíveis também espacialmente, em uma vida de labor em entrepisos, corredores de acesso e similares. 
Uma coisa porém me assustou em termos de arquitetura. Diferente do Brasil, onde até pouquíssimo tempo toda residencia projetada possuía um caminho separado de entrada das empregadas (as mesmas que não devem ir a Disney). Em Parasita, os pobres podem acessar a casa grande pela entrada principal.
É possível que nossa distopia cotidiana brasileira esteja anos luz a frente na desumanidade, porém é possível que estejamos domesticados, tão domesticados quanto quem já assimilou com normalidade comprar água da Nestlé para beber ou espera em um porão sem sol o momento ideal de sair novamente pra vida. 

A questão é esta: como podemos nos reagregar em meio a novo tempoo presente?
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Crise, distopia, luta e um novo pacto social

O mais recente relatório da OIT (Organização Internacional do Trabalho) traz indicativos de que o número de pessoas desempregadas no mundo deve aumentar cerca de 2,5 milhões, apontando assim a manutenção da crise econômica global. O relatório aponta também que é significativo o número de pessoas que hoje já não conseguem manter uma vida a partir da esfera do trabalho.

Entre alguns fatores, recortamos como o mais marcante a estagnação no crescimento da economia global. As pautas propostas pelos programas e defensores de um sistema de austeridade não conseguem alcançar resultados efetivos de melhoria, antes disso operam em viés oposto, aumentando as redes de desigualdade social nos sistemas. As pautas progressistas voltadas a pleno emprego e outros fatores também alcançam pouca efetividade atualmente em um mundo cujo padrão econômico se tornou a financeirização , a precarização, informalidade e desemprego. 

Como exemplo, cito um recorte: dados recentes do DIEESE mostram que a política de trabalho intermitente (uma das principais ferramentas da flexibilização e precarização do sistema produtivo e pautas de salvação da austeridade) não alcançou os frutos que se imaginava. Representando 0,3% do estoque de vínculos formais no mercado de trabalho, sendo que a renda mensal destes, mal alcançou um salário mínimo. Fora publicado também em Janeiro deste ano (2020) pelo DIEESE o custo da cesta básica no Brasil. Verificou-se neste que um trabalhador remunerado com salário mínimo comprometeria no mes de dezembro de 2019 em média 48,27% do salário em cesta básica. Segundo IBGE, em 2019 cerca 41% da população estava ocupando as redes de informalidade do trabalho. Estes dados indicam a super precarização (informalidade e desemprego) como um padrão que pode se hegemonizar na sociedade brasileira. Um padrão não muito diferente de outros países como Venezuela, Chile, EUA, etc. 

Quando somamos a crise econômica com o fator climático (que já se torna impossível não ser posto em pauta) percebemos que o problema é muito mais sério e envolve os caminhos estruturais do planeta.

O colapso ambiental dá inúmeros sinais de irreversibilidade, afetando principalmente os países mais pobres e por sua vez menos estruturados. A crise que está posta pode levar a humanidade a enfrentar o maior dilema ético dos tempos recentes. Quando levado em consideração a estrutura geradora, e por sua vez a relação de custo benefício da produção, percebemos que o eixo é a desigualdade. As nações ou povos que mais sofrem com a crise econômica e ambiental, são na maioria das vezes, os que menos se beneficiam das estruturas geradoras das riquezas e dos efeitos nocivos ao planeta.

O grande xeque que pode ser nosso xeque-mate ou gol de morte súbita se dá no campo ideológico onde os poderes estabelecidos não conseguem mais responder aos anseios dos povos e os povos não conseguem mais se repactuar. Para reestruturar o pacto social emergencial, devemos trocar o foco das políticas da busca insensate do crescimento econômico para a busca pelo fim da desigualdade. Este provavelmente será o caminho para o reequilíbrio da humanidade em um planeta que já não suporta a constante produção de valores de troca e riquezas que se mantém concentradas em um seleto grupo de viventes. 

Não haverá formas de pactuação social que amenizem sem um impacto radical, em um planeta cada vez mais empobrecido e sem acesso aos mínimos recursos naturais que garantem o direito a sobrevivência. A pauta que busca o crescimento teme a parada da produção constante de riquezas pois a mesma geraria o colapso do sistema vigente, porém, a continuidade desta busca eterna por crescimento também está nos levando ao colapso.

Não precisamos de mais produtos, precisamos sim recuperar o valor de uso do que já produzimos, aplicar políticas de distribuição da renda hiper-concentrada entre os que não tem, pautar a construção de bens comuns a humanidade, em especial os que garantem a continuidade da vida, como os recursos hídricos, as florestas, a universalização do direito a cidade/campo e de renda, moradia, alimento, saúde, lazer, educação direito de ir e vir sem barreiras ou fronteiras.

As lutas serão grandes, o sistema atual mostra através de suas lideranças e estruturas de controle e poder que suas políticas podem se assumir tranquilamente malthusianas caso seja preciso. Em um mundo onde a massa de desempregados e marginalizados se torna crescente e afeta de outra forma a produção do crescimento do capital e onde o capital abraçou a vida como mercadoria. Esta vida também pode ser pesada pelo custo-benefício de existir ou não. O que cabe a esta vida é lutar.

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