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Da uberização do sindicalismo ao cyber sindicalismo: provocações.

 Neste dia 31 de agosto saiu uma matéria no portal outras palavras intitulada  IBGE retrata esvaziamento dos sindicatos no Brasil . Ao apresentar os dados do PNAD a matéria demonstra a queda massiva, em especial ocorrida a partir de 2017, quando houve a grande mudança nas legislações trabalhistas.

Os dados apresentados podem, e devem ser vistos e lidos com a compreensão do tamanho do desmonte dos sistemas de proteção do trabalhador. Porém para um olhar mais rigoroso e aprofundado, precisamos acrescentar outros elementos à questão.  Para a melhor compreensão do que temos a nossa frente tentemos desmontar um vício: o olhar institucional perante o sindicalismo. Talvez esse seja o erro da matéria em questão, ela foca no campo institucional e não no sentido real das lutas que fazem o chão deste campo.

O sindicalismo que conhecemos hoje tem bases predominantes, e teve seus maiores avanços entre o intermédio final da ditadura militar e a reabertura democrática. Foi elemento importante na construção do Partido dos Trabalhadores, e de diversas outras lutas. Talvez seu apogeu de representação tenha sido a eleição de Lula, um sindicalista a presidência da república.

Este tipo de sindicalismo por sua vez se referenciava a um determinado escopo de lutas trabalhistas, a um determinado quadro de modelos de trabalho que foram vigentes durante aquelas décadas e que paulatinamente foram sendo desmontados mediante as inúmeras mudanças conjunturais enfrentadas mundo a fora. A automação fabril e a entrada em peso das telecomunicações, junto a grande urbanização do mundo trouxeram novos elementos para as frentes hegemônicas do campo do trabalho. as mudanças na organização global da indústria, a automação (que chegou na chamada indústria 4.0) entre outros fatores desmontou imensa parte da necessidade de mão de obra neste setor na maioria dos países. Não falo com isso que há um fim de postos de trabalho mas uma transformação do mundo do trabalho, que modifica a geografia deste mundo. 

Em tempos recentes, o campo do trabalho cruzou uma nova fronteira de ruptura. O que chamamos hoje de uberização, é resultado de um processo histórico contínuo de avanços tecnológicos que foram inseridos em nossa vida cotidiana. Um marco paradigmático das mudanças que vivemos se dá no lançamento do famoso algoritmo da Amazon, que modifica nossas buscas fazendo uma simples leitura de percepção da probabilidade de gostos e desejos. Se antes você comprava um livro de ciências, e os sistemas indicavam outro livro de ciências, agora, com base em dados fornecidos, a probabilidade de você comprar um livro de ciências x e se interessar por um de culinária y é muito maior. Estamos falando aqui de um sistema de aprendizado de máquina que foi inserido na massa do povo por volta de 2004, isso é temos pelo menos 16 anos de aprendizado sobre cada clique nosso. 

A chave do que discutimos e vivemos atualmente é a capacidade de se instituir sistemas de confiabilidade que geram elos assertivos (em escala cotidiana) entre desejos e demandas e não necessariamente entre oferta e demanda (claro que sem excluir a relação oferta e demanda da pauta). Este debate não é novo, as leituras marxistas sempre inseriram a questão, de Marx a Foucault, Benjamin, Bourdieu e muitos outros cada qual com suas leituras, tendem muito a acrescentar a este debate.

O boom do modelo de negócios que gira em torno de algoritmos e aprendizado de máquinas amplificou as novas relações, antes difíceis de serem lidas. Se por um lado um sistema fabril fordista você tinha um nome forte, um Patrão (Padrinho, Patrono) o pós-fordismo avança o modelo de exploração substituindo o Personalismo do Patrão por um corpo jurídico e pela financeirização do dono (as sociedades anonimas). Hoje, estas ainda residem porém sua face está cada dia mais invisível. A hiper-exploração dos entregadores de aplicativos é um exemplo deste modelo. Um motorista (esteja ele desempregado ou empregado) pode baixar um aplicativo de oferta de veículo e operar semelhante a um taxi, um entregador não precisa mais estar vinculado a uma empresa local. Sua força de trabalho é explorada por uma rede de aplicativos de entrega (das mais diversas), que atuam sem rostos e sem personagens, apenas hubs e algoritmos e tem confiabilidade nas massas para tal.

Tendemos a reduzir a uberização a uma precarização do trabalho formal, o que a meu ver é um equívoco. Talvez pudéssemos falar isso sobre a pejotização que atua como uma precarização do celetista. A uberização é um modelo diferente de exploração do trabalho e que precisa ser aprofundado como tal. O conceito de precarizado portanto é importante a medida em que nos auxilia na compreensão de como cidadão opera diante de um quadro de escassez, mas não resolve por si só os instrumentos e modelos sob os quais o trabalho acontece e é explorado em nossos tempos.

O novo rosto do trabalhador urbano está dado em um tipo de exploração onde o trabalho se torna um elemento difuso e complexo. Nem todo entregador ou motorista de aplicativos estará na mesma condição: uns o fazem para complementação de renda, outros fazem pra garantir a vida, o sustento, há quem faça sazonalmente simplesmente pra pagar o carro ou outro bem. São muitas as faces do explorado. Ao mesmo tempo, se torna mais complexa e sutil a relação do exército de reserva. Se em outrora esta base estava na longa fila de uma vaga de CLT, hoje se encontra com o aplicativo ligado a espera do bip da chamada, ou com o celular ligado a espera do telefonema para o “job” ou o “freela”. 

Se antes falávamos com certa tranquilidade em carreira, salários e planos de carreira, na década de noventa isso foi substituído por flexibilização e empregabilidade e hoje em dia nem mais palavras há que defina com certa clareza as múltiplas atividades que podem compor o dia de trabalho de um só cidadão. Também se antes os homens operavam as máquinas, hoje as máquinas (via aprendizado automático) operam os homens. Isso não significa que os homens não tenham como parar esta máquinas, a greve dos aplicativos mostrou que é possível resistir, a medida em que a luta se viralize por dentro das mesmas máquinas, uma greve P2P onde tanto o entregador parou quanto o consumidor se mobilizou no combate a exploração dos aplicativos A ou B.

Vale lembrar que com a pandemia todas estas lutas ganham outros contornos e tons que ainda não temos como prever com certeza, mas já podemos traçar algumas linhas a partir da hiper recessão e da percepção por parte do sistema de como a renda básica universal pode se tornar um elemento de equilíbrio para o mesmo.

Este é o eixo do debate. Retomando: se entendemos que um sindicato é uma associação de trabalhadores que tem como premissa defender seus interesses e direitos e defender sua cidadania, entenderemos que são os modelos de exploração do trabalhador que definirão os modelos de ação ou sentido de um sindicato. E neste sentido estamos no grande laço de hoje.

Um dos grandes problemas do sindicalismo vem deste anacronismo temporal. As lutas sindicais que operam na busca de um passado que já não retorna apontando-o como o futuro, não encontra liga social suficiente no presente para se manter. O grande erro ao seguir esta linha é que tentamos enquadrar o trabalho nas lutas sindicais cristalizadas e não as lutas sindicais ao novo mundo do trabalho. O que é muito passível quando perdemos o sentido do que significa um sindicato, nos aprisionando em seu caráter institucional, como a própria matéria do outras palavras o faz, sua análise é puramente institucional: perda de receita de uma instituição mediante a mudança conjuntural, funcionaria para clubes de bairro, associações da sociedade civil ou escolas de dança de maxixe.

Este reforço é o que precisa ser claro: as lutas sindicais não nascem antes do trabalho, mas em consequência dele e se reorganizam conforme o campo de exploração do trabalho se reorganiza. 

Precisamos de um Sindicalismo novo, que seja capaz de contemplar as novas formas de exploração, divisão e organização do trabalho na sociedade. Talvez ele nem venha a nascer de dentro do modelo de sindicalismo vigente, talvez ele nasça de outras relações, mas isso só o tempo dirá. A uberização do sindicalismo não significa seu fim, mas sua necessidade de transformação.

Podemos falar em sindicalismos selvagens, podemos falar lutas sindicais, intersindicais, cybersindicais, biosindicais e muitos outros neologismos para nos fazer pensar a respeito da amplitude do novo campo das lutas que chegam até nós no campo do trabalho. E em nenhum deles a questão classista se exclui, provavelmente se torna mais visceral, mais a flor da pele.

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Pobreza e Desigualdade – Reflexões para os tempos de Escassez

Em notícias recentes (IHU e OHNCHR) Philip Alston, relator especial sobre pobreza extrema e direitos humanos alerta sobre os riscos de aumento alarmante da desigualdade social diante da pandemia. O relator por sua vez considera que uma das maiores contribuições para tal deve-se a escolhas de políticas de Estado cuja ação prática se configura em priorizar os interesses econômicos dos mais ricos em detrimento dos mais pobres.

Alston alerta para duas questões que são muito caras a nós: a escolha política por práticas que caberiam em um processo de darwinismo social, em resumo, diante da maior crise econômica, climática, e agora sanitária/humanitária, o relator lança como crítica que houve falta de ambição para erradicar a pobreza e complacência das instituições internacionais para medir a redução da pobreza (como citam os textos).

Vale lembrar que, o avanço da pandemia e a brusca paragem na roda da fortuna do sistema por sua vez colocou o mundo em outro eixo. Por um lado, dentro do risco de, ao termos a ascensão de governos de extrema direita ao redor do globo, cuja pauta muitas das vezes envolve assumir o darwinismo social como saída. A escolha política desta linha ideológica para o enfrentamento da pobreza passa pela escolha de erradicar o pobre em defesa de uma economia monetária e rentista que o aliena tanto do seu fazer quanto da sua existência como parte dela.

O que o relator nos revela não é algo de novo. Faz décadas que o mundo relata suas grandes crises globais. Tanto a desigualdade social quanto a crise climática já estavam postas a tempos, assim como a crise econômica, que sempre corria disfarçada pelo simbólico do crescimento econômico-monetário. Infelizmente foram poucos os locais no mundo que estimaram combater de frente a desigualdade social, pauta esta que nos é muito cara. Construir sistemas de proteção social e de fortalecimento do fazer comunitário poderia ser a grande base estruturante para resolver inúmeros dos nossos problemas de vulnerabilidades.

Com base no indicie de multidimensional de pobreza apresentado em 2019 pelas Nações Unidas estima-se que 500 milhões de pessoas vivem na pobreza no mundo e cerca de 1.3 bilhão de pessoas vivem em condições multidimensionais de pobreza. Estas mesmas ainda se distribuem de forma desigual pelos globo, tendendo a um peso maior para países periféricos. Vale lembrar que próprio Banco Mundial em 2018 já apresentava dados de que metade da população do globo vivia em condições de pobreza e incapacidade de ter o básico para sobrevivência.

Os dados levantados comprovam a importância de se debater e construir saídas que busquem combater a pobreza de frente. Importa para tal, primeiramente assumir que a pobreza está intimamente conectada a desigualdade e não necessariamente conectada a acesso monetário ou de bens de consumo. Importa tecer esta crítica, e assumir que as pautas de mitigação da pobreza via políticas afirmativas dependem  necessariamente de um conjunto mais amplo de políticas públicas de sistemas da proteção social necessária que devemos consolidar, onde as políticas afirmativas se tornem complementares e também constituintes das soluções.

Ressalto que nenhuma mudança se viabilizará sem um processo contínuo de lutas e emancipação popular. A complacência das pautas que tanto atrasaram decisões fundamentais para mitigação da desigualdade e controle da crise climática se sustentam por uma rede de grandes poderes de elites globais das quais o pobre (maior parte da população) é incapaz de acessar e usufruir. Os ciclos de levantes diversos que vem se organizando pelo globo os mais recentes que se iniciam por volta de 2009, tem demonstrado o indício deste anseio e de que o caminho será as lutas.

A universalização da saúde, da segurança alimentar e da educação deveriam estar nas linhas de frente dos processos de redução de desigualdade. Construir sistemas mais equitativos por sua vez precisariam passar por uma lógica de pensar os recursos que os envolvem por uma outro modelo ético. O enfrentamento que está posto diante de nós é que talvez não seja possível mais pensar a mitigação da desigualdade sem a redistribuição das riquezas e sem a democratização dos sistemas de poder e principalmente, sem as lutas sociais que promovem as conquistas destas mudanças.

Retomando o fio, Alston destaca com preocupação de que as medidas tomadas e o momento de pandemia estejam agravando o processo de desigualdade e super concentrando o poder nas elites globais. Seu destaque é assertivo a meu ver, visto que se os sistemas de mitigação da desigualdade via distribuição das riquezas não foram implementados em tempos de hiperdesenvolvimento da lógica de construção das mesmas, que dirá em momentos como o que vivemos onde a pauta é o limiar da escassez dos recursos que garantem a vida humana na terra?

Uma das capturas do sistema vigente consiste em desmontar as estruturas que garantem as amplas participações das lutas sociais, quando não enfraquece-las a partir da cooptação de lideranças, aparelhamentos, e táticas similares.

Outro elemento que não podemos esquecer das vistas são os dados. Na teia de controle de dados e algoritmos, o homem é levado a se tornar produto a ser listado, cartografado e gerenciado por uma série de algoritmos que hegemonizam globalmente o que vemos não vemos, aceitamos, gostamos ou não gostamos. Se em determinado momento incidimos sobre a propriedade da terra e dela criamos grilhões de desigualdade, depois incidimos sobre a apropriação do trabalho alheio, hoje a desigualdade incide sobre a apropriação de dados.

Ao mesmo tempo em que o mundo global vende a imagem de que não há problema em compartilharmos nossos dados, gostos, curtidas, afinidades, gestos, lugares, sabores, ele opera em impedir que dados referentes a este mesmo mundo de poder e controle sejam compartilhados. Assim, o google tem direitos de fazer várias coisas com o fato de saber que gostamos de torta de maçã, mas não é crítico a prisão política de Julian Assange cujo crime teria sido a exposição via wikileaks de diversos enlaces escusos sobre corporações e governos.

Algumas pautas globais para nossa reflexão:
Ocupação das minorias nos espaços de poder

Uma pauta a principio acertada que pode dar alguma brecha de lutas. Porém o caminho não está na saída individual dentro de instancias coletivas já consolidadas nas máquinas dos poderes vigentes. Precisamos consolidar por meio das lutas (pois não virá de cima para baixo este reconhecimento) outras esferas de organização social na participação dos processos de tomada de decisão e gestão.

Neste caso, mais do que ocupar um cargo no poder constituído, a potencia está em instrumentalizar outros espaços de poder. As chamadas candidaturas participativas ou coletivas são uma tentativa deste processo, a construção de campanhas coletivas que assumem publicamente o candidato como o a voz representante de um corpo maior. Outras partes de instrumentos seriam as retomadas das esferas populares de decisão: associações de bairro, de categoria, de cultura, etc.

Porém ressalta-se que a burocratização excessiva deve ser controlada a medida em que ela inibe a real participação dinâmica da sociedade na produção de seu próprio fazer cidadão.

Taxação das grandes fortunas e heranças + renda básica universal

O duo taxação das grandes fortunas e heranças + renda básica universal podem proporcionar um campo da redistribuição monetária, alimentar o mercado de produção e consumo de bens e serviços, gerar melhor condição de democratização do conhecimento. A substituição do acúmulo travado pelo dinheiro circulando, pode capitalizar minimamente os mais pobres, garantindo um elemento de proteção social, pode melhorar a economia de varejo em escala global e por sua vez garantir o giro do capital, além de aumentar os recursos governamentais.

É um equívoco pensar e propagar o binômio monetário acima como entrave. A redistribuição de renda permitiria a injeção desta na economia e por sua consequência o retorno de recursos para os sistemas públicos, assim como o retorno de lucro para os donos dos bens de produção.

Junto a isso deve-se elaborar planos de recuperação econômica que priorizem os trabalhadores em risco, trabalhadores informais e desempregados. Criar mecanismos de proteção e crédito a micro, pequenas e médias empresas, negócios locais, familiares e similares.

Aumento de recursos públicos no poder público

Precisamos de uma ação radical em escala global com rebatimentos para as múltiplas escalas de territórios. É preciso assumir que Educação, Saúde, Seguridade Social, Habitação, lazer entre outros são direitos humanos inalienáveis. Pensamos assim uma economia cuja base de crescimento não seja o PIB. Precisamos elaborar uma nova base de valores para a construção da esfera pública, baseada na conservação máxima do meio ambiente, garantindo sua biodiversidade, reduzindo a propriedade privada de terras em troca da recuperação de biomas, atuando com os investimentos em setores estratégicos a vida como os já citados acima e promover a redução excessiva do consumo de supérfluos.

A visão multidimensional da pobreza passa por estes atributos. Devemos ter a compreensão de que são valores acima de qualquer questão, e que devem estar fora das lógicas de mercado e financeirização.  Precisamos construir instrumentos que redistribuam o poder de voz e ação sobre planos e projetos, traze-los de volta a sociedade civil. Conselhos de bairro e de rua podem organizar junto a corpos técnicos e políticos as melhores estratégias e encaminhamentos para seus territórios.

Produzir ações integradas que consiga operacionalizar de forma planificada nacionalmente (para economia de recursos e para garantir o olhar sobre o todo). Criando instancias autônomas, células de gestão local capazes de garantir do diagnóstico ao projeto, do projeto a concretização, da concretização a auto-avaliação e crítica pós execução.

Este é o melhor instrumento para produzirmos uma saída equitativa que consiga se confirmar estruturante socialmente e garanta minimamente economia de recursos em meio a escassez.

Redes de Confiabilidade

Precisamos retomar o fazer coletivo popular, reconfigurar em quem damos crédito. O estranho que deixa de ser estranho quando está sob a marca de um aplicativo.

Um dos grandes sucessos das corporações de controle e captura de dados está em sua capacidade de operar como um espaço. A empresa não é protagonista direta das ações, apenas espacializa e scaneia as ações que acontecem na suas plataformas. E nós utilizamos das mesmas devido ao grau de confiabilidade que temos nestas. Grau este construído por um sistema complexo de marketing em nível global e de confiança social a nível da rede de usuários. Não é necessariamente o app de automóveis particulares que nos faz confiar, mas o fato de conhecermos uma rede de amigos que ou utilizam e gostam ou trabalham para estes aplicativos.

Por este motivo notamos que a noção de disrupção digital quando entendida como processo de otimização por meios de tecnologias que garantam maior aderência a um público maior não garante a redução da desigualdade social. Isso a medida em que o protagonista de uso dos sistemas não é quem realmente tem o poder ou a voz.

A confiabilidade é um instrumento que precisamos recuperar para lidar com as lutas. Muito temos falado sobre o avanço do fakenews como instrumento de crescimento do conservadorismo, mas pouco falamos do outro lado da moeda: o sincericídio estampado nestes. Há uma angústia popular que busca e valoriza as posições sinceras, mesmo que das mais absurdas, isso parece gerar um efeito de confiança em meio a incertezas. Nas margens do sincericídio e da crise das representações, tem crescido as forças de extrema direita.

Retomar o rumo da confiança, mostrar a nudez das lutas, das limitações e das contradições que se estampam nelas. Ainda que crua, a história precisa retomar a si como é, comungar os erros e acertos e não arriscar-se ao enviesamento como saída. Um exemplo recente e fundamental ainda dado em apps: A luta dos entregadores de aplicativos trouxe o resultado deste complexo de confiabilidade. Conseguiram organizar um dia de luta em escala nacional e obtiveram como resultado adesão popular suficiente para derrubar significativamente a nota de diversos aplicativos de entrega.

As lutas são cada vez mais interseccionais, plurais e múltiplas

Os pobres são a força motriz do mundo. Estes são plurais em crenças, ideologias, filosofias, desigualdades. Não há mais escala no mundo que consiga compor os pobres em bandeiras que não reflitam todas as contradições nelas existentes e busquem o mínimo elo comum nas lutas.  As estruturas de representação se tornam abstrações para as angustias dos pobres a medida em que elas se transformam no encastelamento dos mesmos.

Diante de uma elite global que tenderá a se fechar ainda mais na desigualdade e somando ao programa de desmonte dos sistemas mais coletivos de participação e decisão popular que vem sendo implementados desde a hegemonia neoliberal (não que isso só ocorra nela).

Assim, temos de nos preparar para um mundo onde os caminhos da desigualdade tendem a se tornar mais extremos e a construção de lutas comuns mais dificultada pela fragmentação social. Desde meados dos anos 90 do séc. XX,  tendíamos a lutas com certo grau de aberturas e conveniências de convívio mútuo entre diversas forças, desde ONGs a agentes comunitários até alguns grandes financistas mundiais que tencionavam a necessidade de controle da abstração do sistema financeiro, os anos que seguirão pós 2020 podem nos colocar em condições mais radicais e pautas mais selvagens.

Governos mais reacionários, organizações da sociedade civil tradicionais limitadas pelos cristalizados processos de alienação, cooptação e distanciamento das camadas sociais. Novos levantes de organização social surgem sem um corpo central em lutas locais porém que tem veios demarcados com agendas globais. No mais, seremos capazes de construir uma agenda comum das lutas dos pobres em meio as múltiplas lutas que já traçamos atualmente?

No século XX em meio as ebulições das libertações do continente, Kwame Nkrumah discursava:

                    “Atualmente, existem cerca de 28 estados na África, excluindo a União da África do Sul, e esses países ainda não estão livres. Nada menos que nove desses estados têm uma população inferior a três milhão. Podemos acreditar seriamente que as potências coloniais fizeram com que esses países fossem independentes, estados viáveis?

                     O exemplo da América do Sul, que tem tanta riqueza, se não mais do que o norte América, e ainda permanece fraco e dependente de interesses externos, é aquele que todo africano faria bem em estudar. Os críticos da unidade africana frequentemente se referem às grandes diferenças de cultura, idioma e ideias em várias partes da África.

                 Isso é verdade, mas permanece o fato essencial de que somos todos africanos e temos um interesse comum na independência da África. As dificuldades apresentadas pelas questões de língua, cultura e diferentes sistemas políticos não são insuperáveis. Se a necessidade de união política é acordado por todos nós, então nasce a vontade de criá-lo; e onde há vontade há um caminho”.

Guardemos as devidas proporções de que as pautas e demandas e condições de possibilidades do mundo contemporâneo sejam distintas às da época de Nkrumah. Seu mais bem sucedido legado que perdura consiste na capacidade de consolidar em um território com múltiplos territórios que se sobrepõem (povos diversos, muitos deles adversários, reinos, chefes, diferentes religiosidades) o sentido de uma busca comum, e um senso de nação. Se não alcançou na dimensão continental como almejava o Pan-Africanismo, alcançou na dimensão nacional do país chamado Gana.

Hoje podemos traçar um Pan-Africanismo que não está nos limites das fronteiras do continente, mas se espalha a cada luta e hastag em que Vidas Negras Importam. Vidas Negras que são subjugadas e assassinadas pelo processo de racismo estrutural, cujo uma das causas e consequências está na pauta da manutenção da desigualdade e por sua vez da pobreza. É pelo comum da pobreza que o jovem branco das periferias por exemplo se encontrará nas lutas antirracistas entendendo-se a si mesmo como parte de quem sofre a opressão.

Vale citar que, no bojo da crítica ao estruturalismo e do pensamento filosófico que embasaria a maior parte das lutas das minorias, Deleuze (um dos críticos ao pensamento estruturalista e um dos pensadores das lutas pelas minorias) apresentava um bom exemplo do seu raciocínio sobre o conceito: “Um cavalo de lavoura possui diferentes afetos em relação a um boi. Mas por outro lado, esse mesmo cavalo de lavoura possui mais afetos em comum com um boi do que com um cavalo de corrida”.

Tentem esconder ou não, o Pobre estará no furacão de todas as lutas que os tempos de escassez trarão. Essa geografia da pobreza e da precarização nas lutas pela vida e pelo fim da desigualdade estarão na pauta, organizadas ou selvagens.

filas carro pipa india covidAumentam filas para pegar água de carro pipa na Índia.

santiago 2020Chile – Manifestações contra políticas de austeridade seguem em meio a pandemia.

RIO, ATO NEGRA LIVES MATTERAlém de enfrentar as crises da pandemia, moradores das favelas no Rio de Janeiro enfrentam o cotidiano de assassinatos e massacres por forças policiais.

 

Algumas referências interessantes:

https://brasil.elpais.com/internacional/2020-05-24/crise-impulsiona-a-retomada-dos-protestos-no-chile.html

https://www.istoedinheiro.com.br/coronavirus-o-problema-que-faltava-para-a-onda-de-calor-na-india/

https://extra.globo.com/noticias/rio/abismo-entre-ricos-pobres-se-reflete-nas-mortes-por-coronavirus-24407597.html

https://www.rfi.fr/br/fran%C3%A7a/20200321-fran%C3%A7a-confrontada-com-o-drama-dos-sem-tetos-expostos-ao-coronavirus

https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/com-numero-crescente-de-favelas-franca-falha-ao-buscar-solucoes-ekpxg9d232uwad5rnudgknsin/

https://g1.globo.com/google/amp/sp/sao-paulo/noticia/2020/07/10/moradores-do-morumbi-pedem-permissao-a-prefeitura-de-sp-para-construcao-de-muro-na-divisa-com-futuro-parque-paraisopolis.ghtml?__twitter_impression=true

https://www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=25815&LangID=E

http://www.ihu.unisinos.br/600784-a-onu-alerta-que-a-covid-19-acelerara-a-transferencia-do-poder-economico-e-politico-para-as-elites-ricas 

http://www.fafich.ufmg.br/luarnaut/Nkrumah-I%20Speak%20of%20Freedom.pdf – Nkrumah speaks of Freedom

http://hdr.undp.org/sites/default/files/mpi_2019_publication.pdf  – Global Multidimensional Poverty index 2019

http://hdr.undp.org/sites/default/files/hdr_2019_overview_-_pt.pdf  – relatório desenvolvimento humano 2019

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Novos ou velhos normais

O Brasil segue sua luta diante da maior crise sanitária e humanitária dos últimos tempos. Se por um lado as camadas da sociedade tenderam a buscar saídas pelo raciocínio nós por nós, por outro lado, o padrão implementado pelo governo busca a cada novo ato ratificar a negação da doença. Esta queda de braço porém começa a dar indícios de chegar no seu limite de estafa.

O projeto do governo demonstra pequenas vitórias, que para a população são grandes derrotas:

A desestabilização popular em relação a crença na doença e aos cuidados a se tomar,

A demora na liberação dos recursos da renda mínima emergencial e os inúmeros processos de falha de implementação,

A não integração dos leitos de hospitais privados no sistema de integração do SUS,

A falta de transparência na liberação dos dados de infectados e óbitos no país,

A tentativa de acabar com a pandemia por decreto.

São estas algumas das movimentações que permitiram ao governo federal investir em seu projeto que a grosso modo se resume em entregar o povo ao revés ou sorte diante da doença. Soma a isso o retorno ao chamado Novo Normal que no Brasil seguirá desvinculado com a redução da curva das doenças. De fato o que mobiliza a ideia de novo normal não é a redução do contágio, mas sim o fato de ter ou não vaga em UTI (como se o Normal fosse estar em UTI).

O Novo Normal tem criado situações das mais escabrosas diga-se de passagem. A ode ao carro por exemplo muito bem representada no sistema drive-thruu implementado por um Shopping Center de São Paulo, que nega completamente qualquer sentido lógico do campo da arquitetura ao instaurar que o Mall se torne carroçável. Em nome de um simbolismo estranho e panfletário o shopping propõe sua abertura extremamente antieconômica. Pense que qualquer mall de shopping não é feito para tráfego de automóveis, seus pisos cerâmicos, sua estrutura fechada com ventilação mecânica recebendo doses de CO2, e o próprio gasto que envolve rodar de automóvel dentro do espaço para fazer pequenas compras. O shopping reflete bem o conceito de quem busca este Novo Normal da economia e tenta inseri-lo nos velhos normais do capital (a hegemonia do carro é um fator simbólico interessante disso).

Não obstante, cito outras situações anacrônicas se seguem, como o retorno dos jogos do Campeonato Carioca, que vem sendo apelidado de Covidão. Vale lembrar que um dos poucos hospitais de campanha que foram construídos no Rio está ao lado do Maracanã. Em um mundo onde as olimpíadas foram adiadas, o Rio deliberadamente considerou importante o retorno sem público do seu já desprestigiado Campeonato Estadual. Enfadonhas partidas se realizam em um movimento protagonizado pelo clube de maior torcida da cidade. Uma triste mancha na história deste clube que no ano anterior conseguiu retomar a simpatia de imensa parte da população mediante suas conquistas nacionais e internacionais. A tragédia se amplifica a medida em que, a cada novo jogo, remetem-se minutos de silêncio em homenagem às vítimas do COVID e manifestações de apoio às lutas antirracistas. Nisso o campeonato segue como um novo normal sem política de mitigação da pandemia, no país onde o perfil da maior parte das vítimas do COVID são justamente as vidas negras pelas quais os jogadores se manifestam.

O novo patamar da história surge com a reabertura dos bares que apesar das regras de segurança existirem, parecem não ser cumpridas. Tragicamente, as aglomerações vistas no Leblon ( um dos endereços das elites brasileiras) são reflexo de um conceito de humanidade que pouco se percebe como parte de um todo. Este mesmo tipo de aglomeração não se restringe ao Leblon. inúmeros bairros que ficam invisíveis aos olhos midiáticos, por não ter a mesma elite nela talvez, passaram todos os dias do isolamento social como se nada tivesse ocorrendo, bares, festas e ruas lotadas não são tão raras para quem mora nos subúrbios por exemplo.

As lutas concretas por sua vez também parecem abaladas, ficamos presos em frentes, tentativas de traçar planos e projetos, sem que houvesse uma saída clara ali a frente. As pautas da construção política parecem ainda viver em função de um Novo Normal que é um Velho Normal, como se muitos de nós tentássemos enquadrar nas soluções das décadas de 90 e no início dos anos 2000 a 2018 os caminhos para um porvir.

Não porém só derrota nas lutas, vemos pequenas vitórias acontecendo a cada nova rede, encontros, saídas pelas múltiplas conexões, que vão de fãs de kpop a entregadores de aplicativos, mas que dependem de que os próprios muitos movimentos e redes se tornem mais orgânicos na sociedade. A saída a meu ver vai passar pela heterogeneidade deste modo antigo de se organizar as lutas misturado com as novas formas de lutas, em um campo onde as novas formas se tornam a cada dia hegemônicas. A saída a meu ver não passaria por escolher potencializar novos atores sociais, politizar youtubers, e nem apenas o famoso retorno às bases. A saída política passará por entender que estrutura é esta que permite estes espaços de luta e atravessarmos por estes espaços onde a lógica do influencer e a lógica da construção de base consiga delinear os campos de lutas.

Neste sentido vimos nascer:

Lideranças Insurgentes e orgânicas dos lugares atuando na construção de redes de solidariedade nós por nós,

Lutas antifascistas puxadas por torcidas organizadas de futebol,

Entregadores de aplicativos organizando greve nacional contra este sistema contemporâneo de exploração do trabalho,

Digital Influenceres assumindo papel de opinião engajada e ativista,

Fãs de Kpop articulando via redes o esvaziamento de comícios,

etc.

Constituir um Brasil não polarizado vai precisar compreender os muitos Brasis que o Brasil esconde. A brasilidade das disputas de vizinhança às lutas de classe. Os Brasis que sejam capazes de levar a discussão dos bares do Leblon para além do recorte: inocentes do Leblon x bom selvagens dos subúrbios por exemplo. Precisaremos romper com os limites e os espaços de brechas onde podemos pleitear o discurso crítico assimilar as novas ferramentas, ouvir os novos atores sociais para que tracemos novas saídas. O Novo Normal não vai ser o retorno aos Velhos Normais, e tudo que parece se construir assim está sendo rapidamente visto pela sociedade como pastiche.

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A greve dos entregadores aponta novos caminhos para as lutas trabalhistas em 2020

elaborado por Rodrigo Bertamé

Já tem algum tempo em que caminhamos pelos debates sobre como as formas de lutas sociais que permearam nossas gerações entre os anos 60 aos anos 80 não respondem bem aos anseios e as lutas emergentes que acontecem em 2020. No mundo tem sido comum demarcarmos o ciclo de crise de 2008 que culmina em manifestações globais anticapitalistas a partir desta data (tendo seu auge no Brasil em 2013) como uma virada significativa desta chave.

Antes de ampliar o debate me proponho a enfatizar uma parte da visão de mundo que comungo. Entendo que é parte do processo dialético de pensar as lutas compreender a construção materialista e a construção simbólica que complementam a realidade onde as mesmas estão inseridas. Não compreendo portanto que a concepção da sociedade seja apenas consequência das relações estruturais que a compõem, vejo mais como um complexo de relações onde inclusive o inesperado pode atuar e muitas das vezes atua.  Outro elemento importante que trago para referenciar é termos em mente o entrelaçamento de tempo e espaço e para este trarei um recorte de algo citado por Castoriadis, para quem o tempo pode ser visto como tempo de demarcação (o tempo medido e cronológico) e o tempo de singnificação. Um solstício por exemplo é tanto uma data em um calendário quanto um conjunto de símbolos, cultos, construções de uma determinada sociedade.

Tendo isso em mente retomemos.

Quero demarcar 3 grandes tempos de significação na história recente do Brasil, os anos 60, os anos 80/90 e a virada do milênio.

Os anos 60 vinham embebidos em lutas as mais diversas, o mundo caminhava polarizado após as grandes guerras, as revoluções soviéticas e maoístas traziam de terras distantes referências de lutas que se encamparam pela América Latina. A ditadura do proletariado, as lutas da internacional socialista dentre outras se tornariam rapidamente a pauta e inspiração de grande parte dos militantes mais progressistas da sociedade ao mesmo tempo em que ditaduras são implementadas para manter o poder já previamente constituído onde Geisel e Pinochet referenciavam a disputa da polarização.

O ano de 68 se torna paradigmático ao por na pauta a ruptura destas estruturas da polarização capitalismo-socialismo. O mundo novo que 68 apresentava não vinha pela saída das revoluções socialistas e também não aceitava a manutenção dos poderes constituídos como os que dominavam o Brasil. 68 trazia a liberdade individual como pauta e colocava no modelo que uma saída coletiva também poderia prever e considerar a singularidade, as massas não precisariam ser iguais pois todos somos diferentes. Entram no campo as lutas identitárias, as lutas pacifistas, a mudança por dentro, outras formas de ser de esquerda e de ser progressista.  No espaço brasileiro, há uma mudança também pelo viés da esquerda. Partidos e pensamentos mais vanguardistas que buscavam saídas pela luta armada, pelas revoluções proletárias e pautas similares começam a perder espaço no discurso hegemônico e a saída pelo mundo novo passa por um outro ciclo: a construção dos movimentos de bases nos tecidos sociais. entre eles podemos destacar, as ações progressistas nas igrejas, os movimentos de associações de moradores e os movimentos trabalhistas com uma nova proposta de lutas sindicais. O sindicalismo que se solidifica nos anos 80 é parte deste grande movimento de significações das lutas que vão abrir um tempo novo. Ali podemos dizer que finda o ciclo das ditaduras militares e se inicia um ciclo político constituído a partir deste novo tecido social que já espelha alguns pequenos resultados das lutas culturais de 68 enquanto se reforça a luta por um viés trabalhista que enfrenta a recessão econômica pós ditadura. Os anos áureos do sindicalismo como conhecemos, se consolida por esta época ainda embebido nas estruturas trabalhistas que vinham desde Getúlio Vargas operando.

Em 90 entramos em outro ciclo econômico: o avanço global dos sistemas informacionais, o modelo de telecomunicações que no Brasil é demarcado pela privatização do sistema, e com ela caminha a terceirização e formas de flexibilização do trabalho. A CLT continua a existir porém começa a se transformar em um rudimento, podemos dizer que por esta data conseguimos enxergar que a CLT terá prazo para ser extinta. Ainda assim, os modelos das lutas trabalhistas ainda postulam força a ponto de protagonizar no ano 2000 a presidência da nação. As mudanças estruturais que o universo das redes informacionais abriu esteve em disputa: sistemas de pirataria P2P, redes de comunicação com o mundo, redes de resistência, foram paulatinamente abalando sistemas já constituídos como a indústria fonográfica e a comunicação via rádio e TV.

Ao mesmo tempo, outras estruturas de controle se consolidaram. O mundo do algoritmo que explode em sistemas de captura de nossos gostos e afinidades e eleva a outra esfera o modelo de controle social nos impele a constituir novos instrumentos de luta. Em um recorte muito curto de tempo, a internet que caminhava por possibilidades libertárias se reduz ao cercado controlado de grandes corporações, muitas das vezes traduzidas na sigla GAFAM (Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft).

O sistema se torna extremamente fluido. O trabalhador, agora sem nenhuma legislação que garanta a sua proteção e sem um patrão de rosto definido é posto diante do desafio de buscar novas formas de organização. A greve geral proposta pelo movimento nacional de entregadores de aplicativos abre esta vertente e se torna paradigmática, quiçá um aprendizado para nossas lutas a dualidade patrão e empregado não tem a mesma conformação de antes. Já tem alguns anos que estamos falando de uberização da vida, onde reduzimos o modelo a precarização, como se a saída a partir do retorno ao tempo anterior ao Uber fosse possível.

A uberização da vida tenderá a nos levar a uberização das lutas, dizer isso exigirá de nós assumir o conceito para além da precarização que ele ocasiona. Precisamos entender a lógica dos processos, a dialética e as contradições que movimentam este sistema, e como funciona a engrenagem para que possamos construir uma saída dele.  Talvez os youtubers, kpop fans, influencers dos mais diversos tenham encontrado as táticas para que se opere as saídas, e talvez estas saídas dependem de formas de organização que já não dialogam tão bem com entidades organizadas de forma mais tradicional.

Entender como lutar no tempo, espaço e condições de possibilidades que se apresentam a nossa frente em 2020. O cyber espaço das décadas de 90 e início dos anos 2000 já não existem mais, tal qual o muro de Berlim, são novos muros que surgiram. Este espaço mudou e com ele mudaram as formas de lutar. A busca ao retorno impossível foi provavelmente um dos erros da Napster nos anos 2000 e um dos erros dos táxis nos anos 2010. As novas lutas precisarão caminhar pelas novas ferramentas e pelas novas espacialidades constituídas. 

De forma orgânica e individual muitos motoristas de aplicativos (não é o caso dos entregadores) usavam táticas de subversão. Aglomerar-se em um determinado local fazendo o sistema apontar outro lado como dinâmico pela escassez, usar sistemas pirada de georreferenciamento falso, e a própria rede de diálogo pelos grupos e whatsapp. 

Talvez a próxima etapa da organização passe por estruturas-rede, onde a centralidade do poder não estará na voz do falante, mas na capacidade das capturas dos dados produzidos na mesma onde as informações caminham pelos fluxos.

As lutas ocorrem no tempo e no espaço, e esta nova história e geografia que se traça está dado em um campo onde tempo e espaço se tornaram extremamente elásticos, podendo-se esticar e estar simultaneamente em muitos territórios e expressões. A uberização da vida é este mundo onde a exploração do trabalho se dá pelo acúmulo da credibilidade em uma marca X, onde o explorador são códigos de operação de um sistema e onde as formas de exploração e confiabilidade constroem a rede de credibilidade de forma global.

Há muito  em comum entre os Kpopers fans que esvaziaram um comício do Trump e os entregadores de aplicativos que vão parar no Brasil neste dia 1 de julho, ambos conseguiram encontrar um caminho, uma brecha através das redes, que potencializa nossa capacidade de organização e manifestação. Como organizar uma cyber-greve a partir dos trabalhadores precarizados? É o que os entregadores de aplicativos está produzindo. Com eles podemos aprender muito e eclodir manifestações que ocupem tanto os sólidos espaços geológicos e construídos da terra, quanto os espaços informacionais que nos exploram. Estamos no início destas lutas. 

 

 

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Os Subúrbios que os Subúrbios escondem – parte 1

Uma marca de poder sobre o recorte espacial suburbano está nos processos constantes de invisibilidade que o mesmo sofre e a luta constante de busca de identidade unificada que partem de seus invisíveis moradores. Porém estes processos também perpassam a relação interna do identitarismo suburbano.

Um trabalho bem interessante para debatermos sobre tal questão vem do Leandro Clímaco que estudou, pesquisou e publicou em 2017 a ascensão de um processo identitário de suburbano a partir de um movimento de imprensa constituído pela classe abastada suburbana entre 1900 e 1920. Sobre seu resultado farei um micro recorte para expandir uma problematização aqui: a imagem estereótipo de Subúrbio branco.

O trabalho de Climaco nos apresenta como os movimentos de pessoas mais nobres da sociedade carioca a época se utilizaram da mídia para, entre outras coisas construir a valorização de uma identidade suburbana. Esta porém escondia a diversidade da construção social, e entre elas considerava algumas bandeiras que até hoje nos são caras socialmente. Entre estas vou destacar a questão racial.

Em meios a uma sociedade que constituiria seu tecido a partir do tratamento do pobre e negro como “‘classes perigosas” (como cita Climaco) o grupo mais abastado que morava nestes territórios produziram uma imprensa que visava alertar para os riscos de não se investir em melhores condições para estes territórios cujo tecido social poderia entrar em colapso se abandonado fosse. Porém, mantinham a ambiguidade e o discurso das classes perigosas. Hoje este processo não é muito diferente das páginas de notícias de bairros que vivem basicamente de quatro pautas: compra-venda, achados e perdidos, cobrança de melhorias do poder público, denuncias dos perigos vindos das “classes perigosas”.

O desenho de unidade suburbana que Climaco expõe parece atravessar décadas e séculos deixando rastros e resquícios até nossos dias atuais. É comum vermos de forma massificada a imagem de suburbano sendo retratada de maneira jocosa: o personagem escandaloso, meio desajustado das normas sociais, sem etiqueta (mesmo que isso tudo sejam ferramentas de controle social). Vale lembrar que o padrão de Suburbs que escalaria a sociedade a partir da classe média americana fordista que se compõem pela família do comercial de margarina, Homem-Mulher-Filhos-Cachorro que terá uma casa um carro e eletrodomésticos.

Nossos subúrbios pro sua vez ficam no ambiguidade. Não são referenciados por estes padrões, mas também retratam e mantém no imaginário popular um recorte que esconde a maior parte de sua população: Os negros e pobres. Quando se assume pelo estereótipo que consiste na casinha neocolonial e na família portuguesa esconde de si mesmo o seu chão.

Foto Poder — Carlos Vergara

Nossa cultura, podemos citar por exemplo, a festa da Penha, o Samba, o Funk, o choro, a arte plástica, a literatura é permeada pelo protagonismo de nossa gente e nosso chão. Mas esta gente que entre 1900 e 1920 e até hoje será retratada como classe perigosa será embranquecida pelos processos de identitarismo ou será escondida por trás da branquitude S.A. que hegemoniza racialmente os espaços.

Manguinhos-Casas suburbanas fonte: CenaRios

Ainda hoje esse resquício de visão de mundo permanece no imaginário que molda a busca de uma identidade suburbana para muitos. Ficar preso neste processo é nefasto pois recorta as lutas que seriam as nossas. O embranquecimento do discurso suburbano alimenta brutalmente o racismo neste território. Não é incomum vermos relações de classe e renda nos bairros pobres da cidade e Região Metropolitana do Rio, onde inúmeros negros terão condições econômicas melhores que seus vizinhos brancos, ainda assim a pele deles refletirá a alcunha que demarca o Brasil — “A classe perigosa”.

Estas são muralhas territoriais que precisam ser rompidas. É praticamente impossível se pensar em lutas identitárias suburbanas sem traçar as contradições e os conflitos raciais que compõem este tecido social chamado Brasil. Classes Perigosas podem e devem ser lidas como: Aqueles que podem ameaçar diretamente um processo de controle e hegemonia destas tentativas de unidade identitária em torno de um projeto já estabelecido de poder, que no Brasil é classista e racista.

Meme retirado de: O Brasil que deu Certo

Recomendamos aqui o trabalho do Leandro Clímaco: Jornalismo como missão: Militância e Imprensa nos Subúrbios Cariocas: 1900–1920. link: <a class="cl di js jt ju jv" href="https://www.historia.uff.br/stricto/td/1952.pdf&quot; rel="noopener nofollow" style="-webkit-tap-highlight-color: transparent; background-image: url("data:image/svg+xml;utf8,\”); background-position: 0px calc(1em + 1px); background-repeat: repeat-x; background-size: 1px 1px; box-sizing: inherit; text-decoration-line: none;\” target=\”_blank\”>https://www.historia.uff.br/stricto/td/1952.pdf

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Espaços Insurgentes

Mineápolis-Brasil pequena cartografia de suas lutas urbanas.

Já algum tempo compreendi que não devemos pensar apenas em uma vida pós pandemia, mas na vida dentro da pandemia. Enquanto o campo da arquitetura e urbanismo faz estudos e prospecções, ensaios teóricos e demais produções, a relação crua da sociedade se expõe.

Se no início da pandemia observávamos para exemplos vindos de territórios de controle, debatíamos táticas de isolamento espacial, saúde coletiva entre outros, hoje temos um cenário distinto que se apresenta. Há algo em comum entre Minnesota, Paraisópolis, Amazonas e Rio de Janeiro neste momento, assim como há um fio que conecta . As redes de poder e controle revelam de forma crua como a morte é um instrumento de controle do sistema. George Floyd e João Pedro são vítimas de um projeto de cidades e territórios onde se banaliza quem vai morrer.

Sobre o Brasil, este projeto racista pode ser visto em inúmeros exemplos, mas trarei especificamente os fatos recentes. Qual o argumento justifica as recentes mortes de jovens em favelas durante processos de entrega de cestas básicas? Nada que vá além da demonstração de poder e controle.

O plano Brasil de enfrentamento ao COVID foi de combate aos seus cidadãos mais segregados historicamente. Sem planejamento de tratamento, sem a distribuição da renda básica universal e como vimos na reunião ministerial, com uma proposta de partilha do espólio-brasil entre os seus o país foi entregue a própria sorte na luta pela vida.

Diante de tal projeto, o povo ousou tentar sobreviver, fortalecendo a historicidade das redes nós por nós de ajuda mútua. Não é preciso olhar pra copo de leite do tal Capeton pra falar em simbolismos de fascismos, os assassinatos em meio a doações já demonstram isso. Assim como os caminhos que fazem com que as pessoas tenham de escolher entre morrer de fome ou Corona.

Voltemos os olhos para Mineápolis e seus ensinamentos. Pensando neste momento sobre o urbano e a arquitetura, uma vida bastou para que a cidade se pusesse em chamas. Isso é revelador sobre o que importa na cidade: o cidadão. O povo de Minneapolis, em um ato de justiça e revolta, remodela as espacialidades da mesma como um documento que rasga o sistema urbano racista e traz o território de volta aos seus. Vale lembrar que o povo norte-americano também enfrenta o COVID de forma estranha devido as escolhas de seu presidente. Ainda assim, Minnesota neste momento não recua da incessante luta pelo direito a vida.

Mineápolis é o ponto de partida de uma nova cartografia insurgente que revela a forma social com a qual se constituiu as Américas. Este imenso território que exterminou e escravizou seus povos originários, e outros inúmeros povos através de um modelo racista de constituição de suas nações. O sistema racista que organiza estes territórios passa por esta máquina de captura de saberes, vivencias e trabalho, e quando não consegue mais capturar elimina.

Neste mesmo ano de 2020, antes da doença chegar ao Brasil, a Escola de Samba Acadêmicos da Rocinha apresentava estes versos na passarela do samba:

“Chora Maria! Que a água do oceano sabe o gosto da lágrima que escorre em seu rosto. E os santos que aportam no cais da Bahia protegem quem já foi mercadoria”

Maria Conga Unidos da Rocinha 2020

Nossas cidades são estas escrituras de espacialidades que consideravam a maior parte de seus usuários como mercadorias e não como cidadãos. Esta é a construção social que funda nossa produção urbana.

Uma crítica progressista que surge em meio a isso: o Brasil precisa aprender com Mineápolis. Este a meu ver é um pouco do misto de nosso senso de emergência e justiça com um olhar ainda romantizado de que estamos presos em uma lógica de cidadão cordial. Na real, há uma diferença importante a destacar, as forças de controle do estado no caso do Brasil atuam de “maneira enérgica”, termo que elas usam para explicar a opinião pública como passam por cima dos direitos humanos conquistados a duras penas para efetivar atos de controle social.

Quem não se lembra das operações no Complexo do Alemão por volta de 2010, 2011 (épocas de governo Cabral) que unificou polícia militar, civil, exército e todas as mídias? Quem não se lembra do Massacre de El Dorado, ou das rebeliões prisionais no Norte do país? Quantos João ou George estavam nestes locais. Os espaços brasileiros tem este recorte, onde a questão da mobilidade urbana cruza com transportes que podem ser parados e revistados em dias de verão a caminho da praia. Dois jovens em uma moto e demarcações indígenas são escalas de uma mesma agenda espacial e territorial. Se a espaço preto e ameríndio não pode ser remodelado, ele é condenado e criminalizado seja por ações como quebrar um terreiro ou matar na favela: seja de fome de falta dágua ou de tiro.

Complexo do Alemão 2010

Não obstante, o que chamamos de cordialidade do cidadão brasileiro possivelmente é hoje mais fruto do excesso de força implementada pelo sistema de controle do que propriamente passividade do cidadão. Soma-se a isso o fato de que muitas vezes invisibilizamos ou não nos sentimos responsáveis (enquanto sociedade civil) por mortes que envolvem o recorte territorial e racial.

Em meio as recentes cartografias insurgentes vejo por exemplo nascer no Brasil dois movimentos, o primeiro: a imensa rede de redes de ajuda mútua que caminham ainda que sejam atravessadas por estes assassinatos. Segundo: alguns levantes insurgentes de manifestação de rua antifascistas, ainda que expondo-se aos riscos da doença.

Nossa encruzilhada atual parece estar neste processo. Por um lado, o governo nacional demonstra todo interesse em caminhar para a ruptura democrática através da força militar. Por outro lado, o território brasileiro paulatinamente tenta se auto-organizar através das redes formadas entre seus vulneráveis. Em uma agenda de lutas que é local e também global. Isso torna Mineápolis mais próximo de nós do que imaginamos.

Há nestas redes um caráter plural e difuso, mil facetas atuando, buscando suas entradas e seus caminhos. Muito destas redes sempre aconteceram, porém agora tem ganhado visibilidade, outros elos de redes começam a se formar nestes movimentos de emergência. Em maioria porém, todas parecem apresentar uma tendencia comum: não aceitar a ruptura dos marcos democráticos pela força. Esta tendencia comum pode ser a saída da atual situação do país? quero crer que sim.

O Haiti é aqui, Mineápolis é aqui, Maria Conga na Rocinha é aqui. O espaço é forma e conteúdo (já dizia Milton Santos). Quando a forma não comporta, não liberta ou emancipa o conteúdo, o conteúdo pode e deve modificar a forma. Assim que edificações são demolidas, caem, perdem o sentido de ser. Mineápolis em chamas é o conteúdo remodelando a forma.

Mineápolis 2020
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Um das saídas da pandemia passa pelo espaço

O Lockdown e o isolamento espacial são o grande tema do debate. Hoje podemos considerar como uma das mais importantes ferramentas para tentarmos impedir que a cepa que causa o COVID19 tenha mobilidade através de seus vetores que somos nós, reduzindo assim a pandemia.

É possível que vivamos muito tempo com este vírus circulando por ae, sem vacina ou profilaxia eficiente, estamos pensando em vida pós-pandemia porque prevemos um futuro pós-pandemico, mas esse futuro não é tão previsível quanto parece.
Neste sentido, cabe a quem trabalha com o espaço, lugar e território uma dura missão: cosntruir um plano de isolamento da cepa. Assim como foi com a MERS ou outras SARS que hoje se encontram retidas em alguns locais do planeta.
Infelizmente, movido por uma série de ajustes desajustados do governo federal do Brasil, caminhamos para ser um dos territórios do planeta que concentrará esta doença. Sim, esta é uma realidade que está diante de nós e que devemos enfrentar sabendo que pode ser algo de médio e longo prazo.
A notícia recente de que a FIOCRUZ tem conseguido aumentar significativamente a produção de testes pode ser um grande alento, pode nos permitir trabalhar dentro de um raciocínio de prevenção a partir dos testados como fez a Coreia do Sul. Nossa dificuldade porém está em confrontarmos esta realidade com o tamanho do território nacional e suas muitas relações discrepantes, desigualdade social, disputas, lutas urbanas e rurais, fronteiras e relações continentais e somar a isso a luta anti-científica do governo federal.
Podemos não conseguir encontrar a cura ou erradicar a COVID, mas podemos reduzir seu círculo de transmissibilidade a poucos espaços. Talvez concentrá-la em uma cidade, estado ou região, o que desafogaria o sistema global na luta contra a mesma. Por isso as políticas de isolamento espacial são tão importantes neste momento.

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Um pouco o que podemos construir para fugir de caminhos higienistas


O Brasil pós pandemia pode encontrar parte de sua saída econômica pela construção civil, isso é um padrão razoavelmente comum no país.

A construção civil brasileira é capaz de absorver uma diversidade de mãos de obra através de seus canteiros. E sobre isso me faz pensar ao menos em duas questões (que são meio corporativas e meio reformistas entendo, mas são questões a se pensar rs).

QUESTÃO 1 – OBRAS – 1 DE 1000 OU 1000 DE 1

Muitas experiencias mostram que movimentos como este geram mega obras, pois estas a gente consegue repactuar grandes empreiteiros, massa trabalhadora, movimenta vários nichos da economia e da gleba. É um modelo comum de construção de cidades e territórios diversos. Porém penso em outro protótipo, não é uma ideia nova e não é uma ideia que nasce do zero.

Por exemplo observei em um atelie da FAU-UFRJ com a professora Paula Albernaz e Diego Portas (creio que podem mostrar melhor) este raciocínio em que ao invés de investirmos 1000 em um único empreendimento, podemos pensar em mil empreendimentos de custo um.

Tal ação pode produzir coisas bem interessantes, mil canteiros espalhados, mil arquitetos diferentes atuando sobre estes canteiros em verbas que podem ser pulverizadas pela cidade girando os circuitos de economia local.

Este padrão pode funcionar bem para ATHIS, mas pode extrapolar este campo e capilarizar por todas as cidades. Um exemplo de sucesso em torno disso se dá com os coletivos de arborização de bairros como Vista Alegre + Verde ou o Plantar Paquetá

QUESTÃO 2 – RETOMADA DO ARQUITETO DE CANTEIRO e A ARQUITETURA POSSÍVEL

O fomento a obras de pequeno e médio porte também passam pelo fomento do trabalho do arquiteto atuante no canteiro, atuando em todas as fases da obra. Para a maioria das pessoas o projeto sem a obra construída é um problema, o brasileiro tem a cultura da construção e podemos fomentá-la e potencializá-la sendo parte destes processos.

Um exemplo interessante vem de outra instituição, a arquitetura da unisuam que conheci com os professores Gustavo Jucá Andrea Souza Cruz e Núbia Nemezio onde o incentivo vem do entendimento da intervenção no território de forma menos excludente e com um conjunto de projetos, soluções, estética e linguagem arquitetônicas que caibam em um mundo possível. A arquitetura não se prenda só no seu status de elemento de exclusividade. É totalmente diferente para um estudante projetar seu hotel em um hipotético endereço na Barra da Tijuca ou projetar seu hotel em um hipotético endereço dentro do Mandela (em Manguinhos).

Em ambas as situações (questão 1 e 2) poderíamos criar bancos solidários, linhas de fomento, editais, linhas de crédito e mil caminhos (que no Brasil parecem mais abertos a grandes empreiteiros) de forma a favorecer e fomentar os pequenos e médios empreiteiros e arquitetos construtores.

SOBRE GRANDES OBRAS.

É possível que tenhamos força política para pautar um dos principais buracos desvelados nesta crise, a questão sanitária. Para tal, os arquitetos precisam primeiro se ocupar de parte desta pauta, e entender como funcionará nosso encontro com os agentes de saúde coletiva e de sanitarismo

Creio ser difícil colocar o saneamento na proposta dos 1000 DE 1, pela condição estruturante e universal. Porém os arquitetos por sua vez poderiam se posicionar dentro de comissões e comités de bairro com a responsabilidade técnica de averiguar e auxiliar na consolidação das redes, seja por projeto, acompanhando obra, articulação política ou simplesmente denúncias.de forma que participemos tanto da construção coletiva dos planos até a execução dos mesmos, entendendo que pelo caráter estruturante estes tem que ser pensados enquanto um programa político mais amplo, porém necessário.

Para todas as propostas poderíamos criar um observatório dos bairros. instancias de gestão entre o poder público e a sociedade civil que mantivesse continuamente monitorado as relações comuns mais necessárias ao bem estar urbano como arborização, áreas livres, etc.

Em todos estes passos retomar a cultura da presença efetiva do arquiteto no canteiro de obras é um elemento fundamental, e com isso retomar o sentido de arquitetura ser obra construída.

O mais legal é que as experiencias que citei de leve aqui fui aprender com estes professores depois de burro velho e formado, em meio a dias de visita nas instituições, A gente sempre aprende algo e as universidades nunca param de produzir conhecimento.
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Redes de trabalho vivo dinamizam as lutas pela saúde coletiva nas cidades

#coronanasfavelas Maré Vive


É por certo que as cidades vão mudar. Muito provavelmente a vida pós pandemia nos trará novos hábitos. Isso é tão possível quanto todas as incertezas que isso significa. 


Há mudanças significativas acontecendo e que podem impactar em novo paradigma nas formas de trabalho. Se até pouco tempo atrás a lógica corporativa dominava as mentes no que se refere a trabalho: seja um profissional x ou y, hoje o que vemos são múltiplos fazeres em torno de uma luta comum. 

As disputas anteriores discursavam entre o profissional de certa categoria que representa um todo (ex: arquiteto que sozinho resolve todos os problemas da cidade), ou a flexibilidade e diluição (ex: arquiteto que vira motorista de uber). Creio que o que estamos vivendo está em outra via, onde o saber deste não está acima ou subjugado, mas sim integrado a diversos outros saberes. O trabalho coletivo, integrado e em sistema é o modelo que estamos experimentando neste momento. 

Não são os médicos enquanto categoria única, mas a sociedade como um todo que está unificando as pontas do sistema de saúde coletiva. Não está no hospital o tratamento contra o COVID-19, mas nas estratégias de usos e vivencias da cidade integrada às questões de sociabilidade e sanitarismo. Estas mesmas cidades também não estão sendo projetadas ou planejadas por urbanistas apenas, mas pela diversidade de ações de seus moradores. 

O sentido da categoria profissional como a mente de saber solucionadora por si só não tem mais a hegemonia. O que vemos operar é um conjunto de inteligencias coletivas, nas quais essas categorias inclusive fazem parte. Tanto os médicos que estão no front das UTIs aos Garis que estão no front de sanitização do espaço urbano, estamos todos reconstruindo nossas formas de atuar viver e se integrar. 
É notório que as cidades que apresentam os melhores resultados são as que tem operado de forma mais coletiva e integrada socialmente. Nova Zelândia por exemplo, agiu de forma sistêmica, com seu fechamento de aeroportos, testagem e isolamento de casos suspeitos e o forte isolamento social com base na conscientização da população que se sente parte da solução. Coreia do Sul focou na testagem em massa e rastreamento de assintomáticos, em inúmeros países (como é o caso do Brasil) optou-se pelo isolamento social na busca de conter os avanços da teia de disseminação virótica. Alemanha focou na rastreabilidade máxima dos casos, testagem em massa, isolamento e reforço financeiro no sistema econômico do país. China atuou com forte controle social para garantir o isolamento. 

No Brasil o trabalho se torna mais duro, mas pode ser um exemplo da ação em redes. A incapacidade da liderança central (seu presidente) centralizar as decisões é nossa melhor salvaguarda a tragédia completa. Além disso, temos um Sistema Integrado de Saúde que consegue pensar de forma nacional e local, associando uma série de elementos que vão da construção de hospitais de campanha até renda mínima aos mais vulneráveis. A saúde coletiva integra o micro e o macro, e todo cidadão se torna um agente público de saúde. Em Niterói, por exemplo temos desde políticas de testagem em massa até políticas de renda voltada para artistas independentes que se apresentam em redes sociais.

mapa solidário produzido por arquitetos cariocas.

O isolamento é praticamente o consenso do mundo. Ele fez nascer esta outra forma de vivenciarmos nossos lugares. Se como dizia Le Goff sobre a cidade dos tempos de São Francisco — a palavra urbana estava nas praças — hoje a palavra urbana parece estar nas redes.


Concomitante às estratégias mais estruturadas dos governos, o povo que está em isolamento também se organizou em torno de um circuito de redes. Conectados às pontas da saúde, vemos uma série de ações integradas e multidisciplinares que vão desde a conscientização, ajuda mútua, costuras, artes, denúncias, cartografias populares, monitoramento, entre outros. 

cartaz de grupos de apoio aos subúrbios do RJ
Podemos ver por exemplo:
  • redes de advogados,
  • redes de médicos,
  • redes de psicólogos,
  • redes de arquitetos e urbanistas,
  • redes de moradores de favelas, comunidades, vilas,
  • redes de ONGs e ativismos,
  • redes de artistas e artesãos,
  • redes de cozinheiros,
  • redes de compra e venda de comércios de bairro como forma de manter a economia popular ativa,
  • redes religiosas de ajuda mútua.

No recorte Rio de Janeiro, ainda podemos ver:

  • Escolas de Samba costurando EPIs e máscaras,
  • Brigadas populares de limpeza acontecendo no Santa Marta,
  • Brigadas populares de auxílio para levar água a quem não tem acesso a água,
  • Artistas independentes e famosos fazendo apresentações via internet criando espaços de sociabilidade,
  • lonas culturais e outros equipamentos de cultura funcionando como pontos de apoio e amparo social,
  • redes de pesquisadores trabalhando para produzir equipamentos de respiração mecânica de patente livre,
  • redes de urbanistas criando cartografias que permitem encontrar quem quer doar e quem precisa receber a doação, 
  • redes de franciscanos que promovem alimentação a população que não tem o que comer.

As redes tendem a surgir em tempos de emergência. São uma forma de organização social eficiente para estes momentos. Alinham por si mesmas, de maneira orgânica, a capacidade de agir com velocidade e gerencia colaborativa sobre diversos elos da pandemia. Atuam enquanto instrumentos de trabalho vivo direcionados a pauta comum, que hoje nos é universal: lutar pra sobreviver a pandemia.

Movimento Muda Beaga

É plausível crer que as narrativas corporativas do trabalho tradicional não conseguirão suplantar o trabalho coletivo, sistêmico e integrado (mesmo que seja trabalho realizado por redes de automação e algoritmos) e constituirão lá na frente outros campos da contradição  para se disputar. \”Trabalhe enquanto eles dormem, ou Trabalhem pois é só uma gripezinha\” são discursos de campos antigos que acabam por reduzir a vida a esta lógica corporativa do trabalho individual como forma de crescimento pessoal. Esta narrativa não terá efetividade neste momento para além de nos levar a tragédia.


O que estamos experimentando neste recorte, escala e momento é o trabalho cooperativo e internacionalizado. Nos movimentamos com base em informação e na dinâmica de trocas constantes onde autoria, patente, protagonismo estão em segundo plano. Assim, as redes caminham fortes rumo a se firmarem como paradigma. Sejam redes de dados e algoritmos para controle social com a consolidação de instrumentos de big data que propiciem quase uma automação de decisões sobre o urbano, sejam redes de diálogos em trabalhos, sejam redes de resistência e lutas anti-segregação, ou redes comunitárias de colaboração. Talvez estejamos caminhando para um ponto complexo onde a automação das decisões sobre a cidade se confrontem com a realidade dos muitos segregados dentro dela.


As novas lutas pelo trabalho talvez tenham que se deslocar do campo corporativo e caminhar para as lutas em defesa do trabalho vivo e mais amplo. Por exemplo, sindicatos lutando menos por uma visão de um grupo específico e mais pela visão do todo da produção e segregação. As pautas se tornarão cada vez menos a proteção a uma categoria e cada vez mais a proteção coletiva  dos sem trabalho, dos sem emprego e sem renda, cada vez mais a luta por novas formas de vida do que por empregos ou empregabilidades. 


Se esta forma de organização que começa a ganhar a produção das cidades em meio a crise sanitária se tornará um padrão, não temos como saber. Ainda é muito cedo para produzir algo assertivo a respeito da pós-pandemia, mas podemos dizer que um modelo de auto-organização produz resultados importantes de vivencias sociais e que estas devem ser consideradas em processos de emancipação das decisões políticas.

croqui sistematizando redes (autoria própria).

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Vamos garantir o isolamento em todas as cidades, pois ele funciona

Vamos garantir o isolamento em todas as cidades, pois ele funciona.
Primeiro, vale sacar o que é a curva exponencial:
(este exemplo não é a curva do brasil da foto)
Se a cada uma hora 1 elemento virar 2, teremos com dois elementos:
hora 1 = 2-4
hora 2 = 4-8
hora 3 = 8-16
hora 4 = 16-32 – 4 horas depois temos mais de 30.
hora 5 =32- 64
hora 6 =64-128
hora 7 =128-256 – + 3 horas depois temos mais de 250.
hora 8 =256-512
hora 9 =512-1024 – +2 horas depois passa dos 1000.
hora 10 =1024-2048
hora 11 =2048 – 4096
hora 12 =4096 – 8192
hora 13 =8192-16384 – +4 hs depois passa dos 15 mil.
hora 14 =16384- 32768
hora 15 =32768 – 65536
hora 16 =65536 – 131072 +3hs depois passa dos 100 mil.
hora 17 =131072 – 262144
hora 18 =262144 – 524288 +2hs depois passa dos 500mil.
hora 19 =524288 – 1048576 +1h depois passa dos 1 milhão.
hora 20 =1048576 – 2097152
hora 21 =2097152 – 4194304
hora 22 =4194304 – 8388608
hora 23 =8388608 – 16777216
hora 24 =16777216 – 33554432 +5h depois passa dos 30 milhões.
No fim de um dia 2 elementos virarão 33.554.432. trinta e três milhões quinhentos e cinquenta e quatro mil quatrocentos e trinta e dois elementos. Esse é um exemplo de como funciona o crescimento exponencial. É por isso que num dado momento onde você é um em um milhão os casos afetados são só números e em outro momento eles viram um vizinho, um conhecido, um familiar…
No gráfico abaixo estão os casos reais destas dobras no Brasil. É possível perceber com clareza como o intervalo entre a dobra da quantidade de infectados ficou mais espaçado, a partir principalmente do tempo de isolamento social. Se antes a dobra tinha começado a subir de dois em dois dias, a partir do isolamento começou a ocorrer entre quatro e cinco dias de diferença.
Esse espaçamento é o que está segurando o Brasil de virar um caos completo e é ele que precisamos garantir e ampliar.

Não é porque a curva aumentou que as políticas de isolamento devam ser amenizadas ou afrouxadas, e não é porque tá na cabeça do povo que a doença \”não pegou no Brasil\” que a gente deva afrouxar.
O Brasil já está com bastante casos. Já vemos nas cidades maiores os números virarem nomes de conhecidos e familiares. Quanto mais a gente segurar o isolamento maiores as garantias de passarmos pela crise com menos impactos dos mais diversos.
Enquanto o presidente está igual um vendedor de cruz da natividade vendendo sua cloroquina de nióbio, algumas cidades estão trazendo boas práticas como Niterói por exemplo. E este parágrafo não é pra fazer politicagem – Nesta hora devemos sinceramente cagar pra brigas entre dorianos, maianos, bolsominios e lulominions e centrar no que importa. Primeiro porque ninguém desses ou outros vai se capitalizar politicamente e de forma personalista com isso (seria crachá de oportunismo estampado na testa), e segundo porque esses caras cagaram no pau da saúde coletiva e saneamento esse tempo praticamente todo, e talvez a única diferença é que o presidente é nazi e sua posição, diferente da dos demais que são seres humanos, é de que as pessoas podem morrer em massa (como auschwitz e holodomor) em nome dos seus comparsas da necropolítica.
Retomando:
O isolamento é fundamental pois nos dá tempo para enfrentar a crise que a pandemia nos colocou. Ele garantirá maiores sucessos.
Esse tempo é precioso para, por exemplo:
– construção de hospitais de campanha.
– levantamento de quem pode ser relocado em quarentena para locais mais salubres com os quartos de hotéis
– comprar e produzir mais testes
– produzir mascaras de proteção
– ensinar a usar (colocar e retirar as máscaras) se não num adianta nada.
– ensinar a descartar as mesmas.
O discurso de afrouxar o isolamento em cidades médias é ruim. Primeiro porque em geral no Brasil, inúmeras destas cidades não tem hospital capaz de sustentar casos de covid (mesmo que poucos casos), segundo porque cria a falsa impressão de que podemos afrouxar todos as cidades, afinal o que é exatamente afrouxar um caso.
Bérgamo na Itália, tinha 120 mil habitantes, um número próximo de São Pedro da Aldeia no Rio de Janeiro e a cidade não conseguiu cremar seus mortos. É importante mostrar estes parâmetros, e mandar a real, sem teste em massa dificilmente isso será afrouxado.
Isso são só exemplos rápidos de um pouco do que precisamos neste momento. Para garantir passarmos com menos danos possíveis, precisamos de tempo e para ganhar tempo precisamos manter o isolamento como boa prática sanitária para não vermos o caos reinar no país.
Vale perceber que o isolamento físico não significa o isolamento social. Juntem-se em redes, formem elos, construam pontes de comunicação e solidariedade, nestas horas as vezes uma mensagem de bom dia para um morador de um local vulnerável já ajuda muito. Fortaleçam os laços horizontais da sociedade, unindo todas as pontas da saúde, da coletividade e da vida.
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