artigo, pensamento, Sem categoria

O LUGAR DO IMPERADOR: Adriano e o Complexo

As recentes declarações do Jogador Adriano nos faz pensar sobre um dos principais conceitos da arquitetura e da vida: O lugar.

Quando o jogador de milhões, no auge da sua carreira retorna ao Brasil e, principalmente, ao seu bairro, sua favela ou seu complexo como queiram chamar, o jogador vira alvo de uma campanha alvoroçada e constante. Não era raro ver as mídias associarem o retorno do jogador a uma decadência moral do tipo, está cercado de bandidos, associou-se ao tráfico, etc. Discurso este que caia no senso comum, Adriano era visto como aquele que teve todas as oportunidades e jogou fora.

A real é: o que o sistema realmente não tolerou foi a quebra do modelo de sucesso que ele vende. O retorno de um jogador, um artista um ídolo ao seu lugar de origem se torna perigoso a medida em que o discurso oficial precisa convencer que o seu lugar é \”errado\”. O que se espera de um jogador pobre que sai da favela ainda jovem e vai viver na Europa? Espera-se qualquer coisa, menos que ele retorne ao seu lugar pobre. Continuar a ler

Standard
artigo, Sem categoria

CIEPs o sonho de um Brasil possível

Em 08 de maio de 1985 era inaugurado na cidade o primeiro CIEP. Situado na Rua do Catete, um dos endereços políticos mais importantes do Brasil, o projeto arquitetônico-pedagógico, parceria de Brizola e Darcy, com traços de Niemeyer.

A arquitetura marcante de Niemeyer e o conceito de educação integral produzido por Darcy, que garantia a criança conhecimento, esporte, saúde e socialização, e garantia a comunidade um espaço de lazer e cultura, abriu a possibilidade real de fazermos um Brasil diferente. Como sonhava Brizola: “Dos CIEPs hão de sair aqueles homens e mulheres que irão fazer pelo povo brasileiro e pelo Brasil tudo aquilo que nós não conseguimos ou não tivemos coragem de fazer”. Continuar a ler

Standard
artigo, Sem categoria

Tragédia de um Rio que chuta a porta

 Alguns dias depois de escrever aqui a respeito do avanço desta nova estrutura material e cultural da violência organizada na cidade, uma tragédia nos aconteceu. 

Em uma operação de extrema violência que pode sim ser definida como chacina, 25 moradores do Rio de Janeiro morreram, outros ficaram feridos e muitos foram impedidos no seu direito de ir e vir. Fatos como balas no metrô, e vídeos de execução a queima roupa e com grau de violência só visto em crimes de guerra,  circulam pelas redes. 

A violência expõe uma das pautas cruciais desta cidade. Por um lado a milícia recorre a todas as forças para tomar territórios e avançar na conquista do poder paralelo da cidade, por outro o tráfico tenta manter estes espaços sob controle. Em um terceiro movimento, a polícia expõe sua violência como ferramenta principal de ação, direcionada a espetáculos voltados a prender e matar pobre.

A violência é base pedagógica da formação da maior parte do povo da nossa cidade. Naturalizamos a mesma. Quem mora em locais de violência, já está acostumado a diferenciar tiros de fogos.  Alguns somos capazes de detalhar o tipo de armamento, distância, e etc, apenas com o som do estampido. Esta é a vida de boa parte da população. Não é incomum que esse povo encontre nos concursos para polícia militar e civil uma saída de emprego e uma referência de presença do estado. Pois esta é a principal referência que o estado lhes dá. Em terras onde falta, água, asfalto, iluminação, saneamento, escola, posto de saúde, área de lazer, etc, eles estão presentes. Não adianta apelarmos para a legalidade em um país onde o direito é classista e pobres, com sorte veem seus problemas chegarem na primeira instância para seu apreciados, segunda instância e STF é uma quimera. 

A discussão sobre a violência não caminha, pois segue presa no senso comum por duas vertentes. Uma que envolve a solução pelo aumento da violência, solução essa que aprova chacinas, tiros na cabecinha e etc. Outra vertente, aponta as problemáticas estruturantes disso tudo, destaca os papéis do abuso de poder e da ruptura constitucional, entre outros, que mostra que solução real exige um trabalho de longo prazo. Ambas não conseguem responder por sua vez trazer uma solução real a curto e médio prazo.

Um dos grandes problemas é que estamos presos num ciclo trágico onde a população sente e deseja uma saída urgente. A violência exacerbada cola no povo que se vê vingado, e se torna um instrumento útil as forças de poder paralelo que disputam territórios onde o estado  falha.

Óbvio que ações como a chacina do Jacarezinho não resolverão o problema da violência no Estado do Rio, não desmobilização o crime organizado, não reduzirá assaltos ou tiro. Da mesma forma sabemos que não há saída simples para a situação em que nos encontramos. Se fosse prever o futuro, apesto que a sequencia dos atos será: ou o aumento da estrutura de defesa do comando de poder que controla o território, ou o ataque de outro poder que passaria a controlar o território. Em ambos os casos, o estado de vidência permaneceria como parte da realidade do território. O povo, seguirá exausto e descrente de tudo, comemorando fatos isolados como chacinas ou prisão de vereador miliciano assassino e etc, que são vistas como solução a curto prazo. 

Há um embate ético que atrapalha isso tudo. É preciso que parte de quem pensa uma saída concreta legal e legitimada por princípios de direito a vida perceba que o fascismo nesta escala se impõe porque é a escala onde boa parte do povo será cotidianamente violentada. As pessoas aliciadas para o tráfico ou milícia, as pessoas que buscam na violência seu ganha-pão (assaltando pedestre na rua), nunca serão vistas como oprimidas por aquelas pessoas que estão em condições sociais e econômicas parecidas e que por N motivos não entraram neste sistema.

Um processo de segurança pública precisaria de uma ação veemente a curto e médio  prazo de:

inibir roubos e furtos nos bairros,

sistema jurídico que resolva os problemas (falo de todas as cadeiras e não só do criminal),

desmontar o tráfico de armas a partir dos donos do poder e das fronteiras,

promover qualidade de educação e saúde ( que a médio e longo prazo dará os resultados mais significativas), 

Construir uma outra cultura onde 0 alcance de sucesso e prestígio (o famoso \”Subiu na vida\”)  não fique preso no sistema militar/paramilitar,

produzir ações de integração social entre os mais diferentes nichos da sociedade.

Bem, há uma lista enorme ele tarefas a serem feitas, estudadas e implementadas. Nenhuma será fácil, ainda mais na atual conjuntura onde quem nos governa tem na sua base de apoio grupamentos paramilitares que dominam grande parte do território, além de dominar parte do sistema econômico (quem acompanha o mercado de extrativismo de areia sabe ndo que estamos falando).

Enxergar o efeito nocivo que a exaustão e o abandono do Estado trouxe aos mais pobres é fundamental para recuperar minimamente a crença destes de que algo bom pode ser construído neste país. A saída pela terceirização do Estado aos poderes paralelos destas milícias que crescem será a pior escolha. E por que pessoas boas parecem comemorar a morte? infelizmente o resultado de séculos de políticas de controle social pela violência nos educou assim.

Standard
artigo, Sem categoria

Crônicas de um Rio que bate a porta

O longo processo de constituição da cidade do Rio sempre foi embebido em uma disputa que tange o controle da cidade por poderes paralelos armados. O que vemos na atualidade é uma nova fase disso se organizando. Estamos a um passo de nos consolidar Como um milíciocidade.

Importante ressaltarmos que: o que chamamos de paralelos me parece um certo equívoco, pois há interfaces claras entre os poderes que assumem o controle de determinados territórios e os poderes legalmente constituídos para cuidar dos mesmos.

Já é de longa data, pelo menos lá pelos idos dos anos 90, que a cidade do Rio viu organizar em seu território, uma nova forma deste poder. Filhos culturais das chamadas polícias mineiras, as milícias começaram a ocupar espaços notoriamente esquecidos pelo poder público, e seguiram por ele atuando como agentes em resposta a esta ausência do Estado. Isso ganhou vulto a medida em que alguns fatores aconteciam. Entre eles, a mudança organizativa dos grupos de tráfico que começavam a esvaziar o sentido de pertencimento do lugar por parte dos seus grupamentos, o desmonte dos poderes do jogo do bicho e a redução da capacidade de vereadores bico d’água responderem sozinhos a todos os anseios dos bairros onde faziam base. Claro muitas outras linhas podem sair daqui, mas destacamos essas no momento.

Os parâmetros destacados forma uma boa tríade de cultura que se comunicava rotineiramente com o povo de diversos bairros suburbanos, sempre preteridos em políticas públicas de qualidade quando comparados a outros lados da cidade.

Para os poderes legalmente constituídos, realmente o início do sistema miliciano poderia ser visto com bons olhos, visto serem grupos oriundos de pessoas que trabalhavam em departamentos do próprio estado, como polícia, bombeiros, etc. Grupos estes que há muito são arraigados com as lógicas estruturantes de poder deste país. O resultado deste enlace foi um processo oficioso de terceirização do controle territorial por parte do Estado para estes grupamentos.

Outro entrelaçamento importante está no crescimento em especial dos movimentos neopetencostais, principalmente os assembleianos. Aqui cabe entender com clareza sobre que recorte estamos falando. A potencia de uso do movimento neopetencostal está na capacidade de pulverização e de autonomia que cada parte (um templo, uma igreja, uma roda de pregação) tem sobre si.

Diferente de igrejas mais tradicionais, onde há uma certa organização padrão, como acontece nos batistas, metodistas, etc, assim como igrejas com certa centralidade como a católica. O movimento assembleiano permite que cada igreja de forma independente e autônoma fale e pregue por si tendo como base o milagre dos pentecostes e dons espirituais. É importantíssimo ressaltar este elemento, pois é justamente por esta capacidade de horizontalismo e descentralização que o movimento permite que nasça dentro de si as mais diversas linhas de crenças, linhas ideológicas, linhas de conexão social, etc. Há um fenômeno por sua vez que não pode ser descartado, o poder das rádios e tvs em um processo de disseminação de uma determinada cultura. Qualquer pessoa que assistir programas das mais diferentes épocas do pastor Malafaia por exemplo, notará como sua pregação forma uma cultura e modos de agir.


Se um Silas mais Jovem condenara práticas da chamada teologia da prosperidade, um Silas dos anos 90 e 2000 a colocariam no centro do discurso. Porém uma coisa era comum, o efeito de blocos dos iguais. Vemos em algumas pregações a construção clara do hábito de se afastar das pessoas que pensam e vivem diferente. Frases de efeito sobre amigos possivelmente gentios que não te acrescentam nada, familiares, festas do mundo, entre outros. Silas alimenta Um movimento religioso que organiza o povo em torno de iguais que repudiam os diferentes.

A capilaridade que as igrejas construíram no vazio cultural e cívico que deveria seu ocupado também por teatros, praças, parques, cinemas. A cultura cotidiana de vidência e falta de perspectiva. A crise econômica e crise de representação e 0 excesso de incertezas nos ajudam a explicar parte do busca desesperada de um grupo de identidade. São estes algumas elementos que somados a evolução das práticas de controle territorial da cidade nos coloca hoje a beira de transformar parte significativa do município em território onde o estado se torna impotente.

Os jovens sem perspectiva, o cotidiano de poder das milícias e uma cultura cristã que inverte a ordem dos testamentos. Se a bíblia nos leva do Senhor dos Exércitos Ao Cristo da Graça, parte da liturgia cotidiana faz o Cristo da Graça ser o Senhor dos Exércitos contra o mal maior. Aqui temos uma corruptela que permite naturalizar o nascimento de movimentos armados que operam em nome do Senhor, com suas bandeiras de Israel empunhadas demarcando seus territórios de controle, expulsam todos aqueles que entendem que são ímpios ou inimigos. Um sistema que cresce articulando as forças milicianas, forças do tráfico internacional de drogas e armas e as forças religiosas. 


Vale Lembrar que este tipo de movimento não é exclusivo do grupo religioso em questão, ele é um padrão de sociedade vendido. shoppings center e condomínios fechados por exemplo são a venda desse desejo para o povo. As esquerdas também não escapam desta armadilha, quando promovem discursos como: lado certo da história ou do tipo sair do grupo de família por conta do parente conservador segue o mesmo padrão proposto por Malafaia incentivando seus fiéis a se afastar dos parentes que ouvem “música do mundo\”.

O mundo hiper individualista não nos responde, somos seres coletivos. 0 mundo condominial responde parte o anseio da coletividade, mas não resolve plenamente a sociabilidade ao nos colocar nos guetos invisíveis e imaginários. Os guetos nos confortam, estamos com nossos iguais, nos alivia da dor da incerteza, mas são imaginários.


A bandeira monarquista ou a comunista na estrada do Quitungo não diferencia as condições materiais onde por exemplo ambos os seus donos precisarão andar longas distâncias para pegar um onibus ou comprar um pão e a noite farão no escuro pois a iluminação do bairro parece do tempo de D.Pedro. Assim como a bandeira de Israel não dará a Jovem que empunha uma arma em nome de Deus, o poder de um Rei Salomão, nem mudará o fato de que os grandes financiadores seguirão vivos em suas mansões enquanto ele e os seus morrem ainda jovens. 

A saída não é fácil, exigirá um trabalho coletivo de reconhecimento de demandas e anseios, de romper com a segregação social que as narrativas em bloco criam, romper com o cercadinho condominial, entre muitas coisas. Boa parte do povo só quer viver suas vidas, sair e voltar pra casa em paz. Essa galera está só cansada da aporrinhação que todos trazemos no excesso de debates, militâncias e embates e de viver sob a ameaça constante dessas estruturas de poder que os cerca. 

Se por um lado, um Estado que queira resolver este problema precisará assumir com coragem uma briga com inúmeras forças que estão no interior deste estado, das corporações  batalhões até a casa de vidro. Pelo lado da sociedade civil, entendo que não haverá trabalho de retomada social capaz de ser resolvido sem passar pela escala familiar, comunitária para aí então chegarmos na municipal e estadual. Assim como considero impossível uma saída que não passe pela ruptura dos cercados sociais e pela volta do contato com o diferente. Sair dos discursos maniqueístas é fundamental, são base para retomar os sequestro social em que estamos enfiados. Qualquer coisa fora disso seguirá alimentando as lógicas de grupos e guetos que vivem da violência e do terror ao diferente. 

Standard
artigo, Sem categoria

Viação Acari é apenas um elo da crise da Mobilidade Urbana

 

A cidade do Rio de Janeiro foi impactada ontem com a notícia do fechamento de mais uma empresa de ônibus. A Viação Acari pertencente ao consórcio Inter-Norte decretou falência, deixando a incógnita sobre o futuro de suas linhas e de seus trabalhadores.

A falência dos sistemas rodoviaristas na cidade refletem por sua vez o complexo emaranhado da política de mobilidade desta cidade, fruto de longa data. O texto por óbvio, não tem a pretensão de responder a tudo, mas de dar pinceladas em alguns elementos. Entre eles iniciamos dizendo que estamos em uma cidade complexa em termos de traçado urbano. Se por um lado parte pequena dela sempre recebeu melhoramentos ou projetos que permitiram um traçado planejado, uma parte imensa da cidade definiu seu sistema viário por colagens de loteamentos.

Cruzamento das ruas Dias da Cruz, Fábio da Luz  Souza Aguiar

Não é incomum, por exemplo, nós vermos ruas da cidade que sentimos que deveriam ser contínuas e não são. Assim também, é bem comum vermos bairros inteiros com traçados que parecem não ter certa racionalidade. Um exemplo disso pode ser notado comparando bairros vizinhos como Bento Ribeiro e Marechal Hermes como na ilustração abaixo.
Bairros de Marechal Hermes e Bento Ribeiro

É possível ver com clareza que em Marechal há um projeto inicial que visa uma linha vinda da estação criando quadras em vias ortogonais, com direito a praças pontuando a centralidade, e este raciocínio de ortogonalidade se espelha em boa parte do bairro, enquanto em Bento Ribeiro vemos ruas e quadras dispostas em formas mais livres, provavelmente resultado de diversos processos distintos de abertura de lotes e vias.

Esta cidade complexa não se pôs a planejar um sistema complexo que fosse capaz de responder as inúmeras peculiaridades que conformam o nosso tecido urbano de maneira a integrar toda a população dando-lhes o direito pleno de ir e vir com qualidade. Esta é uma das chaves estruturais do problema. Se num dado tempo, o sistema ferroviarista (bondes e trens) responderam bem e impulsionaram um já existente processo de ocupação suburbana da cidade, o lobby rodoviarista implementou a predominância deste sobre o poder dos trilhos, durante anos o resultado foi o desmonte dos bondes, o sucateamento dos trens e o pouquíssimo avanço do sistema metroviário.

Durante anos, os ônibus foram o principal meio de transporte da população carioca (em especial a suburbana). Apesar de não atuarem em massa como o trem, o ônibus permitia ligações de curta, média e longa distancia na cidade, além de dar mais capilaridade bairro a bairro. Quem não tem uma linha de estimação que dá voltas e mais voltas como um 940 por exemplo (que chega a passar duas vezes no mesmo ponto em uma mesma viagem)?

Porém os anos de hegemonia deste modal, embasados em articulação política e lobby de donos de empresas com políticos não favoreceu o próprio sistema, que se sucateou pelo comodismo. Quem nunca pegou um 910 sem parafusos, com o vidro imundo e com a companhia de baratas? Não é atoa que as vans e kombis, mesmo ilegais conseguem se manter atrativas e competitivas frente aos ônibus, mesmo com manutenção tão precária (ou mais) quanto os mesmos.

A mentalidade do período pré-olimpico carioca modificou alguns raciocínios, mas não a estrutura dos transportes. O BRT foi vendido como a grande novidade modal para os subúrbios e a reorganização da gestão das linhas em grandes consórcios de empresas se foi uma tentativa de melhorar a economia destas detentoras do controle do sistema de transportes rodoviários equivocou-se. A política de modais implementada a partir de 2015 gerou mais segregação, por criar mais baldeações entre ônibus, aumentando o tempo de viagem e o desconforto de muitos passageiros. O que ambos os movimentos não foram capazes de prever, é que a roda do tempo já estava passando e o ciclo vicioso que as empresas construíram estava no limiar de não responder mais às necessidades da cidade sem dar sinais de colapso.

Muitas linhas lucrativas para as empresas foram fatiadas com a reorganização dos serviços consorciados, tanto o BRT que eliminou inúmeras linhas de ônibus, quanto o fatiamento de linhas que faziam conexão direta norte-sul (que agora passariam a operar nos corredores norte-centro com um ônibus e centro-sul com outro) não trouxeram o lucro almejado a algumas empresas, além de dificultar o acesso da AP3 a AP2 (curiosamente a Viação Acari tem duas linhas que mantém esta conexão). Importante salientar que nesta mesma época, bairros como Cascadura, que atuavam como uma importante junção se viu esvaziado com o desmantelamento das inúmeras linhas em favorecimento da Transcarioca.

mapas dos donos da Viação Acari.

Quando vemos as rotas das linhas da Viação Acari, notamos como elas hoje estão pouco racionais, em muitos trechos da viagem as linhas seguem praticamente a mesma rota, em diversos casos são trechos facilmente atendidos por transporte ferroviário. Provavelmente o que temos hoje são rudimentos e vestígios de inúmeros recortes e reduções destas linhas na cidade.


A Viação Acari seguiu o mesmo ciclo vicioso de outras empresas que faliram no mercado. Não conseguindo manter padrão de horário, de qualidade dos transportes, tento linhas que praticamente competem entre si por trechos imensos da cidade, com CEOs e donos que gastam muito mais energia em negócios e lobbys com prefeituras e vereanças do que investindo na própria empresa. Empresas de ônibus urbanos na cidade do Rio operam muito mais em função da necessidade extrema do passageiro do que movimentando o interesse ou desejo deste passageiro, desta forma conseguem maximizar seu lucro oferecendo o mínimo necessário ao passageiro. Não dá para reclamar de uber ou van, ou quaisquer meios de transporte, se a empresa não for capaz de colocar suas rotas para funcionar com comodidade, segurança e pontualidade.

Assim, com um mix de problemas e diante de uma pandemia que modificou completamente a forma como vivenciamos a cidade, empresas como a Viação Acari tenderão a não conseguir sustentar seu funcionamento pelo acúmulo de má gestão e falta de planejamento no setor. Não há meio viável de investir em mobilidade urbana sem pensá-la dentro de um plano maior que foque no bem estar e qualidade de vida dos usuários. O problema do Rio de Janeiro é grave, com estrutura equivocada, que ao invés de fomentar integração urbana, compreender e atuar na real necessidade do cidadão, fomenta a segregação econômica e social do morador do Rio (e região metropolitana em geral) garantindo a margem de lucro na entrega do mínimo necessário para o trabalhador.

Como a chantagem que sustentava o serviço baseada na exploração do trabalho e no medo deste perder emprego por conta de atrasos que obrigavam o trabalhador a pegar qualquer transporte que o levasse pro emprego reduziu bruscamente com o aumento do home-office e do desemprego sistêmico, o sistema de ônibus viu reduzido sua maior fonte de coleta de passageiros. Junta essa redução, com a necessidade de mais manutenção na frota, que já é antiquada, e que parada não gera lucro, o que estava ruim piora.

Basta vermos o nome de um ou dois dos sócios da Viação Acari: Cassiano Antônio Pereira. — Sócio das empresas de ônibus do Grupo Rubamérica, Cassiano Antônio Pereira figura também como representante da Terceiro Tempo Assessoria e Marketing Esportivo, reconhecida oficialmente desde 2005 pela CBF como intermediária na negociação entre clubes e futebolistas. Outro: Valmir Fernandes do Amaral — Sócio em Viação Ponte Coberta, Expresso Nossa Senhora da Glória, Gardel Turismo, entre outros negócios.


Como acontece com a maior parte das falências deste tipo de serviço, quem perderá são os trabalhadores da empresa e a população mais pobre que de alguma forma dependia das linhas e hoje se vê na incógnita de saber se elas serão mantidas ou extintas. Seus donos certamente seguirão por aí, levando os recursos adquiridos nos anos de exploração dos serviços de transporte para outros locais e mantendo suas relações de negócios com os donos da cidade, nada diferente do que é uma família Barata.

Rotas das linhas da Viação Acari saindo dos Subúrbios em direção ao Centro.

Standard
artigo, Sem categoria

SALVE JORGE, SALVE O BRASIL, SALVE QUINTINO, SALVEM OS SUBÚRBIOS CARIOCAS!

 Dia 23 de abril de 2014, Quintino se veste de vermelho, fecha a rua, dança, solta fogos e canta.

O povo se reconhece no São Jorge por suas lutas diárias.
Esse é nosso Subúrbio Carioca no suor, na fé, na esperança, na cultura popular e na ancestralidade. Somos muitos formando o chão que a gente pisa e vive com o suor do trabalho estampado no rosto.
Neste Brasil, terra de todos os encontros, São Jorge encontra suas muitas faces: O Jovem, não mais tão jovem, que sente saudade de sua geral onde via Assis trazendo a Guanabara e que sincretismo belo seria a encruzilhada entre Assis e Zico em um só. Também é o jovem que sobrou na aeronáutica mas pega sua bike e sua mala e rasga Rio a dentro em suas entregas. A lojista que precisa enfrentar diariamente as armadilhas que o machismo estrutura na terra. O motorista de aplicativo que de tanto tomar nota baixa está sendo obrigado a fazer cansativas corridas que pouco dinheiro dá, mas se conseguir o suficiente pra comer um podrão no fim da noite está feliz. São Jorge é um moto-taxista na esquina da Clarimundo de Melo com a Saçu.
Jorge em seu cavalo é Maria no BRT, caminhando pelo vale do combate entre a incerteza da doença e a fé e esperança de que vai voltar da labuta e ver a filha se formar um dia. São muitos, como muitos são os Jorges do Brasil, na poesia, no ponto, no toque do tambor, na voz do pastor que não professa a fé mas ama seu irmão que professa, porque o Jesus que Jorge da Capadócia e o Pastor Jorge da Igreja Batista de São João de Meriti conhecia nos ensinou a importância do amor e da partilha. A fé não é algo que se julga, é algo que se admira, admirem-na!
São Jorge não é sobre crença, não é sobre fé, São Jorge é sobre Povo. Não preciso nem olhar para o invisível, pois a beleza está no visível mesmo, de um povo que se faz povo, de um deserto que vira dia de encontro. Este ano o encontro será no invisível, no virtual, mas isso não é problema pra quem caminha nos muitos mundos.
Nos subúrbios é assim, a gente nem sabe muito bem como ou porquê, mas estamos neste lugar onde o guerreiro e o ferreiro se confraternizam. A pobreza na nossa frente não intimida, ela é apenas nosso campo de batalha diário e armas de fogo não vão nos alcançar, mesmo que estejam passando lado a lado de nós.
Quem disse que a nossa bandeira nunca seria vermelha não conhece nada do Brasil, nunca pisou em Quintino num dia 23 de Abril, nunca viu Flamengo ser campeão brasileiro, são pessoas tristes que podem até passar uma vida sem entender a beleza de um bom feijão na panela, Deus tenha misericórdia delas um dia.
O corpo pode estar moído pelas batalhas, estar combalido pelo combate, mas não estará vencido, no dia ou na noite, mas os caminhos estão lá e os que nos odeiam não nos alcançarão. É esta fé que se faz o abrigo do Brasil profundo, dos que têm a fé aos que fazem a fezinha.
Aos que professam ou não a fé
SALVE JORGE,
SALVE O BRASIL,
SALVE QUINTINO,
SALVEM OS SUBÚRBIOS CARIOCAS!
Standard
artigo, pensamento, Sem categoria

Porque eu leio Koolhaas

Bom, primeiramente, esta é a parte um de um texto com este título, em breve produziremos outro para aprofundar a questão propriamente dita. A resposta ao que seria esta pergunta é simples de responder. Basicamente é importante ler Koolhaas, não por ele ser um arquiteto pensador de cidade, mas sim por ele ser um arquiteto que desenha, define e projeta arquiteturas de grande impacto nas metrópoles. 

O problema maior consiste porém no fato de que Koolhaas, embora não seja mais o arquiteto hype das escolas, ainda faz parte do nicho que hegemoniza conceitualmente a profissão. O arquiteto salvador, dono das verdades e das soluções, capaz de revitalizar toda a vida humana com um risco, um pensamento, um diagrama ou um powerpoint, mudam-se detalhes, elementos, concepções estéticas, mas pouco se muda a produção de ícones a construção de símbolos exclusivos a ser seguidos. Mesmo quando há mudanças de referencial, como vimos este ano com a premiação de Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal, o sistema imbuído de construir segue o mesmo. Também pouco falamos do principal, como estes profissionais consolidam-se no mercado.

Sobre a Koolhaas, o que me importa na leitura é menos seu entendimento de cidade e mais a forma como sua narrativa se relaciona diretamente com o seu papel no modo de produção urbana e arquitetônica do grande capital. Mas para nós o que interessa é o espaço imenso com o qual Koolhaas não se articula diretamente, e cuja produção é sombreada pela autoconstrução, pela construção simples, pelas estruturas diferenciadas, pela precarização profissional. Assim, a grosso modo, um texto de Koolhaas é praticamente um receituário do tipo de espaço projetado e concebido que este tipo de arquiteto quer e o koolhaanismo não reflete um movimento, no máximo um sistema publicitário de si.


Uma expressão pop de Koolhaas “Arquitetura é uma perigosa mistura de onipresença e impotência”, que já podemos comparar em sucesso ao paradoxo do abismo de Zaratustra, é uma ótima demonstração de como este arquiteto constrói sua narrativa por uma justificativa. Sua frase conceitual de arquitetura o coloca no limite de todas as possibilidades possíveis de serem feitas, além de lidar com o teto de total impotência diante da liberdade. Koolhaas não vai questionar o capital pois é impotente, porém ao construir seu edifício, tudo lhe é possível e o céu é o limite.


A profissão está em contradição, à medida em que houve uma expansão e democratização das universidades no Brasil, massificou-se o número de arquitetos. Assim, se a alguns anos tínhamos uma profissão com um certo controle social e econômico da entrada de novos nomes no campo de trabalho, hoje esta entrada está sem controle claro. A discrepância é que, esta massa de arquitetos não se encaixa no modelo hegemônicos da arquitetura ícone que produzem os Koolhaas da vida. Estes arquitetos seguem muitos deles periféricos, pobres e apartados da dinâmica do ofício.


A crise piora à medida que os modelos de empregabilidade derretem. Hoje o padrão é o desemprego e a luta pela sobrevivência. Você pode ser arquiteto ter um projeto hoje e ter que fazer viagens como uber amanhã para fazer o ganha pão. Cada dia mais, o novo mundo do trabalho gera novas relações também de título. Como se entender um arquiteto se seu trabalho é dissipado entre outras tarefas?


O mundo profissional costuma estudar os ícones por parâmetros diversos, crítica ao design, olhar estético, conceito, programa, paradigma. O buraco mais embaixo, porém, está na discrepância que há entre um CCTV (de Koolhaas) ter um custo de U$S 735 milhões de dólares em 2012, enquanto a massa trabalhadora enfrenta um mercado onde se encontram projetos prontos na internet por 30 reais. Esta é a realidade de imensa parte dos profissionais de arquitetura hoje (e não só de arquitetura), cujo sustento é totalmente inviabilizado por um processo material que não considera a profissão como algo de massa, como política de estado, mas apenas seu recorte de item de luxo.


Em épocas de pandemia e crise econômica, esta discrepância fica ainda mais acintosa e acirrada. Mesmo que o mercado se aqueça, possivelmente o capital já terá mudado a chave da precarização para outros pólos. A massa de profissionais tenderá a seguir aumentando à medida que novas universidades abrem cursos, e o sistema exclusivista chegará em um ponto de supersaturação.


Urge retomarmos o conceito de produção para todos. Ver a qualidade técnica e construtiva da caneta BIC ou de um copo Nadir Figueiredo, dois feitos do design e pensar, porque não podemos retomar este princípio em arquitetura? Não significa fazer arquiteturas de carimbo ou algo do tipo, mas sim tentar traçar um princípio: o trabalho que eu faço é embebido no desejo de exclusividade ou no interesse dos povos? Nisso os laureados Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal me parecem mais interessantes que Koolhaas, não tão onipresentes porém potentes. Não que eu considere louvar ícones algo interessante, apenas acho interessante tecer críticas e reflexões.


Imagem extraída de : https://klaustoon.files.wordpress.com/2014/07/clog-rem-its-not-easy-being-kool.jpg

Standard
artigo, Sem categoria

A saída tem que passar pelos pobres

Estamos diante dos piores momentos da pandemia. Em grande parte construído pelo desajuste e escolhas políticas erradas de Bolsonaro. Um ano de pandemia, perdemos muito tempo em disputas negacionistas e pouca ação concreta unificada. E sim, imensa parte disso tudo está na incapacidade do presidente atual se posicionar como se estivesse em uma guerra contra tudo contra todos, da ONU ao meu vizinho, qualquer um parece ser inimigo latente do Bolsonaro.

A saída bolsonarista, ao gritar a bravata de que a economia não pode parar, ao fechar possibilidades de seguridade social e ao tencionar que os mais pobres sigam trabalhando, aprofunda a crise da doença e perde o principal ativo para o país, seu povo que morre ou que sofre pelas perdas de familiares. Sua política lembra uma leitura contemporânea de eugenia, entrega a coletividade de braços abertos para a doença, e nós que tenhamos a sorte de não morrer.

Se o Lockdown era uma realidade necessária no início, hj se torna crucial. Porém há um embate material que devemos realmente considerar, o Lockdown não se resolverá por decreto ou lei, não sairá de cima para baixo sem campanhas de orientação e sem uma estrutura material de apoio.

Em meio a imensa crise humanitária, e sendo parte desta crise econômica, esta tem que estar na nossa pauta de solução também. 

Dizemos: temos de fechar bares e restaurantes! Mas não damos estrutura social para garantir aos mesmos a manutenção da vida de seus funcionários e donos.

Dizemos que não se deve abrir a escola antes da vacinação, mas não planejamos a inserção dos professores como prioritários para a vacinação. E não planejamos alternativas anticapitalistas de educação emancipadora capaz de contrapor os modelos “EAD” apresentados.

O país precisará construir um plano completo, não há dúvida, a pandemia irá perdurar por um bom tempo no Brasil. A crise econômica irá se expandir e isso depende de um projeto, que não será simples de agradar a todos como em tempos de vacas gordas. É imprescindível termos em mente, o Brasil de 2023 imerso na crise global e humanitária a construção das saídas precisam ser abertas o mais rápido possível ao debate popular para que sejamos capazes de construir para além do roteiro publicitário e midiático. 

As disputas de poder, de bastidores, conversas de eminencias pardas, não são tão prioritárias, o foco a meu ver é a materialidade de como produzir em meio ao caos a mudança que nos tire da queda livre em que estamos. 

Criar formas de amparo e sustentação dos pequenos e médios comerciantes via recursos públicos por exemplo pode ser um meio de girar a saída, assim como criar protocolos e orientações que facilitem o funcionamento destes (que podem atuar com entregas a domicílio por exemplo, entre outros). Por que não abrir linhas de crédito emergencial ou fomento para pequenos e médios negócios? 

Pra romper o aprofundamento da crise também precisaremos de novos pactos, como exemplo investir pesado no sistema de pesquisa e tecnologia. Investimento deste porte poderia nos inserir novamente no circuito de países que têm capital humano de qualidade para produção de saberes. 

Retomar investimento em softwares livres (uma luta que parecia perdida mas começa a dar sinais de querer voltar vide o caso do INRUPT), lutar por quebra de patentes em saúde e quaisquer itens imprescindíveis à vida humana na Terra. 

Tornar eficiente a gestão nacional de dados nacionais, repactuar a relação entre o sistema privado e o sistema público de saúde, é inaceitável passarmos o que estamos passando: leitos de UTI do sistema privado, por exemplo, não serem unificados ao do sistema público em meio a pandemia e diante de uma fila de doentes.

Se não tudo, ao menos a educação integral e a saúde deverão ser prioridade universal e pública, com olhar especial para os ciclos básicos e fundamentais do ensino e para a saúde preventiva. Esse é o investimento robusto que deixa um verdadeiro legado por séculos de gerações.

E o principal para o momento: Criar uma estrutura de seguridade social robusta capaz de implementar a renda mínima universal e uma aposentadoria que garanta dignidade. Lembrando que estes Programas, cujo conceito e necessidade de existir é considerado por pensadores de diversas vertentes políticas, dos progressistas até pensadores apreciados pela direita conservadora.

Assim, não bastará ao futuro, que o pacto seja com grandes empreiteiras criando uma massa de pleno emprego embasada na construção civil, ou com bancos em pró de crédito para criar uma massa consumidora. Por mais que este caminho possibilite massificar empregos e algum bem-estar social, não há saída que se sustente só por aí. Muito menos pactuar acordos de apoio e não violência com os poderes milicianos instaurados e que hoje dominam inúmeros territórios expulsando os sistemas do Estado de Direito deles e se constituindo como Estado paralelo.

Qualquer lugar que tenha recurso escasso, como o que esta crise do capital nos impõe, sabe que as escolhas políticas terão de ser muito bem ajustadas e acertadas e sabe que não dará para cobrir a todos. Resta a nós entender qual é a prioridade de cobertura. A meu ver, devemos pactuar com os mais pobres prioritariamente. Construir, não mais uma ascensão do bem estar baseada em consumo, mas sim baseada em capacidade de produção, saber técnico, conhecimento científico, entre outros. Os ricos irão chiar (não falo da classe média), mas é melhor que doa nestes um pouco para o bem de todos os que não tem fuga ou privilégio.

37021346_1392620540840084_7367492564896710656_n_thumb[2]

texto aumentado a partir do postado originalmente em:

https://twitter.com/rodrigobertame/status/1368483615311601667

Standard
artigo, Sem categoria

Qual o valor da terra? algumas ponderações

Quando o Brasil era Império toda a propriedade era do Rei. No fim do império, como se definiu o sistema de propriedade e posses? Em que momento esse sistema ganhou valor monetário? Quem enriqueceu com isso?

Quem liberou as primeiras terras, e onde se iniciou a linha de heranças dos grandes donos do Brasil? Não dá pra discutir um projeto de habitação ou distribuição social com um mínimo de equidade sem tocar na ferida que não sara: o valor da terra (urbana e rural).

Uma nota de reflexão: Em um dado momento da história a família brasileira media sua riqueza pela quantidade de pessoas escravizadas da qual era proprietária. A terra era um detalhe que se inverte com fim da escravidão por um lado, e alguns anos depois a promulgação da lei 601 de 1850 sobre as terras devolutas do Império, que permitia a aquisição de terras via sistema de compra e venda.

Em um prazo curto de tempo, o valor se esvai do corpo negro escravizado. Corpo este que já havia perdido o valor enquanto ser humano a pelo menos 300 anos, agora perde qualquer forma de valor social. Em um dos processos materiais e subjetivos mais violentos e que dura até os dias de hoje, a riqueza sai do corpo negro para a terra.

retornando…

Uma das feridas que o país precisa tocar está aí, devemos levantar quem são os donos da terra. Entender como se tornaram donos. Depois entender porque o valor da terra-brasil é como é e o que isso reflete na distribuição espacial da população em geral. Para aí então, reformularmos a organização espacial do país.

Temos nas cidades (em especial cidades de caráter mais global) uma infinidade de imóveis vazios que permanecem fechados, valendo verdadeiras fortunas. No Rio por exemplo, temos bairros inteiros bem infra estruturados que foram esvaziados pelo processo de especulação imobiliária de outros bairros e por aí vai.

Precisamos responder o porque de bairros com infraestrutura similar tem discrepâncias de 50% ou mais no preço dos imóveis (também similares). Precisamos responder porque o Sarney é dono de territórios do tamanho de um país, e muitas outras respostas.

A gente não mora porque é cidadão do município tal, a gente mora porque (e se) tem dinheiro x que nos permita morar no lugar y. O abismo que separa os Jardins de Diadema ou o Leblon da Maré é imenso e repleto de lastro histórico mal resolvido. No caso do Rio, vale lembrar que a Maré está tão perto do centro da cidade quanto o Leblon.

A quem não é herdeiro, a renda mensal do salário se torna a base de cálculo do direito de morar, e quanto menos renda, mais dificuldade temos pra habitar.

Um apartamento tipo em Copacabana custa quase dois milhões, um similar na Vila da Penha custa 300mil, na Tijuca 600mil e uma laje na Indiana custa 30mil. Para que a maioria seja comprado é necessário passar por um filtro simples que envolve basicamente ter um capital inicial considerável e ser aprovado pelos credores (em geral bancos e sistemas financeiros que são os donos do imóvel até você quitar a dívida). Latifúndio não consigo imaginar como se compra.

Quem mora de aluguel ou quem mora na favela sabe que a dinâmica é totalmente diferente do que se vê nos anúncios e imóveis. Assim como há diferença entre os latifúndios da família ACM ou as agroindústrias frigorificas e as rocinhas embaixo das redes de transmissão da light na divisa entre a Vila da Penha e Vicente de Carvalho. Neste caso não sei nem vislumbrar a diferença pois nunca vi latifúndio sendo vendido na OLX.

Como resolver?

Sinceramente, não vejo disposição de diálogo entre as estratificações, sejam os donos do poder que brigam entre si em aparentemente dois tipos de projetos, um nacional desenvolvimentismo precário que só abraça meia dúzia de setor contra um entreguismo internacional em ambos a cadeia de capital, renda e bens de produção se caminham com grupos de pode gringos.

Também vejo pouco movimento em uma classe média (termo meramente ilustrativo) que segue mantendo pequenos privilégios, independente de ser direita ou esquerda, pois as duas acabam por manter a estrutura funcionando. Dos mais progressistas aos mais liberais, se contentam com o diálogo que traz migalhas, seja em forma de editais e outros meios que são afeitos aos que caminham em ciclos bem relacionados de poder (não falo só de governo).

De outro lado temos os mais pobres, despossuídos de propriedade, com renda vulnerável, onde a vida se torna o imediato, pois o futuro só Deus sabe e as vezes pode dar merda nesse futuro, acordar e descobrir que teve um parente baleado, entre outros. Não adianta muito o pobres subir na vida (ser um dos poucos que terá a sorte do dinheiro) ele vai seguir sendo pobre ou no mínimo exótico dentro da classe média, e seguirá invisível para os Sarneys, Eikes e Véios da Havan da vida.

O pobre é o sertanejo Manoel de Glauber rocha sacaneado pela cruz e pela espada, um Macunaíma subversivo que num tem que ser cordial com ninguém que não mereça, Jojo Todynho que incomoda quando faz sucesso cantando funk ou ganha a Fazenda.

Jojo ganha dinheiro e não é formada em nada! – diz o povo indignado, mesmo povo que nunca perguntou a profissão do filho de alguém que passa o dia todo jogando vôlei e surfando. Este filho de alguém sai na revista Caras quando era entrevistado pelo Amaury junior, justificava a vadiagem com a resposta clássica: \”Tenho uns projetos\”. Enquanto isso pode viver como herdeiro, muitas das vezes herança que começou em algum momento lá atrás quando nasceram os grandes donos das terras do Rei. São muitos os códigos que estratificam. Essa classe média é tão invisível para os Sarneys da vida, quanto o Cesarão é para esta classe. Quem mora no Cesarão, mora porque? como conseguiu construir, comprar, alugar, trabalha, estuda? Quem mora no Cesarão sai na revista caras (nem sei se a revista existe ainda)? O Cesarão existe no mapa? Porque ele não foi construído na Avenida Lúcio Costa? Quem mora no Cesarão é filho de quem? será que o bisavô conheceu o Rei?

Quem mora no Cesarão não pode se dar o luxo de ser parado pela polícia e responder a pergunta sobre o que faz da vida com a frase: Tenho uns projetos.

E pensar que o Cesarão foi fruto de uma política habitacional, cujo primeiro equívoco, a meu ver, foi tentar resolver o problema de moradia sem mexer na questão da terra.

foto retirada da página de facebook: Santa Paciencia


Cesarão- Santa Cruz-RJ
O Conjunto Otacílio Camará foi inaugurado em maio de 1981, feito para atender famílias de baixa renda(não foi remoção) ele atendeu diversas famílias de trabalhadores da Extinta TELERJ.
Foto- Pedra azul- BN
Data- Junho de 1981
Pesquisa- Guaraci Rosa



Standard
artigo, pensamento, Sem categoria

Entre o espaço e o tempo fiquei me perguntando: qual o lugar do tempo?

No corre da vida fiquei tentando vislumbrar isso. Fui dar uma busca no campo da física, por ali, o nosso sentido de espaço já diz pouco, ao que parece no universo as relações que na Terra são coerentes não o são no espaço.

Por ali entendi um pouco mais sobre o conceito de tempo também como um conceito de transformação. Acho que nos acostumamos demais a pensar o tempo a partir do relógio, desmontar isso foi importante. Comecei a remontar e certas coisas passaram a fazer mais sentido. Quando os textos bíblicos (do tempo do bronze) diziam de homens de 400 anos, onde no máximo fariam sentido homens de 30, ou sei lá jornadas de 40 anos que poderiam ser feitas em dias. Se a gente para pra pensar o sentido de tempo daquela época, o paradigma girava em torno dos solstícios e a eternidade. Porque gastar energia construindo Stonehenge, ou as pirâmides de Guizé? provavelmente não caiba nos dias de hoje.

120076081_10158113714007950_6048877629498050430_o_thumb[1] 120217378_10158113713392950_7993122575858639643_n_thumb[7]

O mundo moderno e seu relógio e sua fábrica nos colocou na jornada diária, que também é pura convenção, se a gente sai do planeta Terra a jornada diária (uma volta da terra em torno de si mesma) perde totalmente o sentido. Aí voltei pra física e sua dobra no espaço-tempo que nem sei se cabe entendermos com certeza, mas pra viver na Terra basta pensar que o tempo não está dado como pensamos dentro de uma representação do relógio.

Numa entrevista com o professor Mauricio Javier (posso por o link aqui) ao questioná-lo sobre surgiram temas muito bons. Ressalto que o professor é colombiano, embebido na visão de mundo dos povos originários da América Latina. Cito dois momentos:

Momento um: quando ele diz que aprendeu com um membro de um povo originário sobre o tempo: o indígena lhe disse que pra eles só existe o presente e que o futuro é o passado que está a frente.

Momento dois: quando ele passou outro lapso de experiência de vida que achei interessantíssimo compartilhar.

Em meio ao extremo cansaço em que passava numa virada de noite fazendo um projeto, ele dormiu na prancheta. Diz ele que foi um cochilo de meia hora, porém nesse cochilo ele teve um sonho lúcido que durou OITO horas. Neste sonho ele projetou, fez todos os desenhos necessários tudo certinho. Quando acordou (óbvio que não tinha o projeto pois teria ficado no sonho) e após ele ter ido a classe no dia seguinte, conversou com os amigos e contou o sonho, e os amigos entraram na onda de desenhar o projeto que ele tinha feito durante o sonho.

Em 1998 Ryutaro Nakamura trazia a nós uma leitura futurista, em seu anime (que pra minha geração seria chamado de desenho japonês, mas o tempo já mudou isso) Serial Experiments Lain uma percepção importante no espaço-tempo. Quando uma espécie de rede mundial de internet está inserida no cotidiano, a separação entre o virtual e o real se torna cada vez mais difícil e complexa de lidar.

Quem precisa de um corpo quando se pode ter todos os dados do mundo? Porém ter todos os dados do mundo ou a onisciência não fazem de você um Deus se não tiver ninguém que o reverencie por isso. “Eu nunca vi você, como você diz que me conhece? [A resposta]: isso foi sempre um fluxo de informações e toma sempre novos rumos”. Estas são algumas das questões lançadas nesta obra cujo protagonista é um ente dúbio entre ser uma criança e ser uma inteligência artificial programada pela rede. O autor deixa de forma clara e instigante na abertura da trama que esta se passa no presente e neste instante. A cidade é a cidade do nosso tempo com seus postes de iluminação e cabos, e o complexo emaranhado de dados da rede mundial de internet também o é.

Saindo da arte ficcional e retomando alguns acadêmicos, David Bohm traz uma alegoria interessante ao apresentar que a semente por si pouco pouco contribui para a substancia material de uma árvore, que em última instancia vem da terra do ar da água, entre outros, cabendo a semente o elemento da informação que dirige este crescimento, o DNA. O Crescimento da planta retrata um sistema de transformação contínua das substâncias materiais do espaço onde ela está inserida (a nós esta é a parte que importa refletir para o momento). Transformação é uma boa palavra pra tentarmos encontrar uma alegoria para o tempo.  

Paul Virilio foi certeiro quando trouxe para o espaço físico (do nosso planeta) o paradigma do tempo e quando aponta a nossa dificuldade no cotidiano de entender o tempo contínuo. Em nosso cotidiano o tempo só faz sentido, só é vivido se for tempo interrompido (segundo ele) e é nesse momento que a gente enxerga o acontecimento. Um relógio são micro interrupções sequenciais, podemos pensar. Dentro deste prisma que entendemos porque não somos capazes de perceber que estamos mais velhos num recorte de horas ou minutos, mas percebemos nitidamente quando, já adultos, olhamos uma foto nossa de criança. Também dentro deste prisma que se torna muito difícil perceber o tempo instantâneo no qual caminham os fluxos de dados da internet por exemplo.  

Paul Virilio insere o tempo no espaço construído, considera ele que além da matéria, o espaço implica a “profusão de efeitos especiais  que afetam a consciência do tempo e das distâncias”. Em alguma mesa perto estava Cacciari compreendendo que os edifícios se tornaram acontecimentos, assim como a terra, água, ar, sol, semente se tornou um jequitibá.

E o espaço? Se o espaço é um recorte limitado em uma duas ou três dimensões, medido em alguma ordem de valor – chutemos o metro como exemplo.

Alguém lhe pergunta: Você vai na aula hoje? fica lá no outro prédio.

E você prontamente responde: Vou sim, chego em 15 minutos. (cadê o metro?)

E quando a aula é virtual e a sala que estava lá agora está no seu telefone, no seu bolso e o tempo entre a informação sair de lá chegar no satélite e retornar ao seu telefone é tão instantâneo que o espaço virtual fica parecendo um buraco negro?

Esta talvez seja a grande crise, a próxima jornada ou a jornada presente não está mais sendo dada por um dia (uma volta em torno do sol), mas pela instantaneidade das redes de comunicação. E este tempo já não é tão simples e confortável do corpo captar como antes.

120176781_10158112847582950_4203632463703793084_n_thumb[2]

Standard