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Entre Carnavais, Sindicatos e lutas antimanicomiais, celebremos Ivone Lara e Império Serrano

Em um carnaval conectado pela festa, pelas lutas e pelo 8M, falemos a respeito. Entre o samba, a saúde pública e o sindicalismo operário, nasce uma potência oculta nas periferias do Rio de Janeiro, mais precisamente em Madureira, muito além da passarela e dos desfiles, nasce uma profunda história de carnaval.

Gostaria de celebrar, ainda em tempos carnavalescos, apesar de já estarmos na quaresma, Dona Ivone Lara. Mulher que traz consigo história que atravessa os corredores do Instituto Psiquiátrico do Engenho de Dentro e ecoa pelas ruas da Serrinha.

Feita de luta, resistência e transformação social profunda, que às vezes fica esquecida pelas narrativas oficiais. Ivone Lara fala com o Brasil como uma das maiores vozes da nossa música, primeira mulher a assinar um samba-enredo, rompendo fronteiras antes dominadas por homens.

Menina órfã, criada entre cavaquinhos e quintais com Pixinguinha e Donga, tornou-se enfermeira e uma das primeiras assistentes sociais negras formadas no país. Ivone é vanguarda num tempo em que mulheres negras sequer tinham acesso às salas de aula para alfabetização. Sua chegada ao Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro no Subúrbio Carioca, reduto da luta antimanicomial no país, trouxe uma revolução: a humanização da saúde mental pela música.

Ao lado da psiquiatra Nise da Silveira, Ivone foi essencial ao romper com a lógica do isolamento manicomial, que encarcera e desumaniza pacientes com sofrimento mental. Enquanto Nise enfrentava diagnósticos ultrapassados com a arte plástica, Ivone levou o samba para dentro dos muros, rompendo a barreira invisível que separava pacientes da sociedade. O samba, do corpo negro, periférico, trabalhador, era terapia e dignidade, era reintegração social e vida.

Paralelamente, em 1947, trabalhadores negros da estiva, associados à Sociedade da Resistência dos Homens Pretos, reinventaram o modo de organização de uma escola de samba. Aqui falamos do Império Serrano. O sindicato, que desde 1905 protegia direitos e cultivava a resistência negra no porto do Rio, ampliou sua luta do trabalho para o lazer, provando que o sindicalismo vai muito além do imaginário convencional de reuniões, burocracias e panfletos: é sobre classe, identidade, solidariedade, cultura e organização social, política e territorial.

Foi no solo sagrado da Serrinha que Ivone Lara tornou-se pioneira. Primeira mulher a entrar na ala de compositores de uma escola de Samba, abriu caminhos num universo onde o machismo ainda estruturava fortemente o modus operandi e deu voz e protagonismo à resistência das mulheres negras nas periferias. 

Com sua música, fortalecia sua agremiação, promovia encontros familiares, resgatava pacientes do isolamento e levava às famílias a importância do acolhimento. Esse ato, aparentemente simples, é profundamente político e subversivo num país que mantinha escondidas suas dores psíquicas e sociais. Um país que utilizava esses centros de depósito humano para aprisionar, sob a alcunha de loucos, as mais diversas figuras sociais: pobres, órfãos, homossexuais, todo tipo de ser humano que não se enquadrava nos padrões vigentes.

O Império Serrano de Ivone, Hélio e Fuleiro foi um terreiro-sindicato. A memória dos trabalhadores portuários, a luta de Ivone Lara, a luta sindical, a luta negra e a luta antimanicomial encontraram nesse espaço um elo próprio de partilha e troca, uma encruzilhada do comum. “Se o caminho é meu, deixa eu caminhar”, ela trilhou e o caminho se abriu.

As famílias operárias financiavam a escola com o suor dos seus próprios salários, afirmando seu direito à cultura e à festa como parte da dignidade humana. O samba, o trabalho e a luta por saúde formam um só canto de resistência. Nesse cenário, a presença feminina de Ivone Lara é duplamente revolucionária: numa ala de compositores dominada por homens, em uma agremiação forjada pela força da organização do trabalhador e numa instituição de saúde em plena transformação. 

Assim, podemos assumir que o sindicalismo teve um papel importantíssimo na consolidação do carnaval como um espaço de reivindicação e empoderamento para as populações negras e periféricas do Rio de Janeiro. Através da fundação de escolas de samba e outras associações carnavalescas, trabalhadores negros buscaram estratégias de reconhecimento social e político, em um Brasil onde fazer samba era considerado crime de vadiagem.

A influência sindical no carnaval também se manifestou na forma como os trabalhadores utilizavam os desfiles para expressar suas demandas sociais. Durante a década de 1930 e 1940, muitas das escolas de samba estavam ativamente envolvidas na organização de concursos como o Cidadão Samba, que serviam para fortalecer o protagonismo das agremiações no carnaval carioca. Além disso, o associativismo negro, fortemente vinculado às sociedades de resistência, ajudou a moldar a estrutura administrativa dessas escolas, tornando-as verdadeiros espaços de luta por cidadania e justiça social. Essas organizações servem até hoje como instrumentos para promoção de assistência social, educação e apoio jurídico, além de serem espaços de fortalecimento da identidade negra diante do racismo estrutural.

Dona Ivone Lara, uma das maiores compositoras da música brasileira, fora profundamente influenciada por este ambiente sindical e associativo que permeava o mundo do samba. Criada em meio a forte participação comunitária e cultural, ela vivenciou a estrutura organizada das escolas de samba para desenvolver sua carreira.

Dona Ivone Lara fortalece o samba a partir deste terreiro-sindicato, e contribui para transformar esse espaço em um ambiente mais inclusivo para as mulheres. Sua trajetória reflete a luta de inúmeras sambistas que, apesar dos desafios impostos pelo machismo e pelo racismo, conseguiram consolidar seu lugar no cenário cultural brasileiro. 

Como destaca Alessandra Tavares de Souza Pessanha Barbosa em sua bela pesquisa que pode ser lida aqui (e recomendo), o carnaval e suas agremiações foram fundamentais para que trabalhadores e trabalhadoras negras pudessem reivindicar cidadania e conquistar espaços de protagonismo na sociedade brasileira.

A vida de Ivone Lara revela como samba e saúde mental têm mais em comum do que aparentam: são espaços de liberdade e reconhecimento do outro em sua total humanidade. Assim como a luta antimanicomial busca restabelecer a dignidade dos pacientes, o samba, nascido das camadas populares, expressa a vida que resiste às diversas formas de exclusão.

Recontar essa história é sempre imprescindível, especialmente no Brasil, onde as lutas sociais se diluem nas memórias rasas das comemorações. Ivone Lara não é só a dama do samba. É a enfermeira, a assistente social, intelectual e a cria de sindicalista que compreendeu cedo que a luta por saúde mental é uma luta coletiva e política, uma luta da periferia, e que a alegria pode ser um instrumento poderoso contra qualquer forma de opressão. Ivone e Nise seguem no encantamento carnavalesco de Engenho de Dentro, a cada cortejo do Loucura Suburbana, um belo fruto das sementes que plantaram, a cada desfile do Império Serrano e em cada roda de samba desta cidade.

O carnaval é sobre a liberdade dos corpos, das lutas e das dores. Quem pensaria que esse encontro tão complexo envolvendo universidade, sindicalismo, feminismo, classismo e luta racial construiria um símbolo incontestável do Rio de Janeiro e do Brasil para o mundo? Em um belo feriado, o carnaval carioca representa uma força única.

Mas sempre é bom lembrar, enquanto o sistema tratava esse povo como vadio, o povo pobre construía, com a força dos instrumentos sociais e organizativos que tinham acesso. Deliberaram novas formas de viver, ter espaço e voz.

Dona Ivone Lara – desenho de autoria própria
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