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Macunaíma, entre identidades e constelação.

Não sou um defensor da busca de identidades, mas sim dos agenciamentos.

Apesar de entender os caminhos pelos quais a busca de uma identidade é utilizada como instrumento de organização social e agregação, minha crítica ao tipo consiste em uma limitação que vejo acontecer por aí: a identidade, após ser definida com acúmulos de signos tende a se cristalizar num dado ponto no tempo.

Veja, boa parte das organizações humanas usou ou usa a identidade como ferramenta. Ao construir uma unidade nacional, a identidade é moldada pra se tentar criar um ser humano tipo representante daquela nação. Assim, por mais que a identidade garanta ao sujeito a estabilidade e contato com seu território (como diz Hall), ela entrava a solução em momentos de crise. Isto é, há momentos na história da vida em que a identidade precisa experimentar rupturas de seus campos seguros e lançar-se diante de um campo de forças e tensões para que algo diferente se faça.

Cristo era Judeu, e na qualidade de Judeu propõe novos parâmetros em uma terra dominada por Roma, a ruptura de Jesus com seus pontos estáveis e de solidez permitiu tanto ao judaísmo perpassar pelas ocupações Romanas, quanto ao monoteísmo cristão (e porque não também árabe) sobrepujar a visão de mundo representada pelo Panteão, este espaço que nada mais é do que uma biblioteca das muitas estruturas identitárias existentes no mundo naquela época.

O que me move são os agenciamentos, e o que quero dizer com isso? Trago aqui um Macunaíma subversivo ou subvertido. Mário de Andrade traz o personagem complexo, contraditório, numa história aberta porém que é muitas vezes traçado pelo senso comum como elemento de uma busca de identidade nacional, a busca da representação do povo brasileiro. Este traço que o senso comum reflete tem sua importância e foi necessário num dado momento histórico para o enfrentamento dos processos de apagamento social e embranquecimento deste país. Porém, Macunaíma se torna resistente e potente na medida em que revela ao Brasil que sua formação é africana, indígena, branca e repleta de muitas entradas e interfaces de luta pela vida.

Por este caminho que penso em Macunaíma. Macunaíma enquanto subversão, enquanto uma chave de agenciamentos. Macunaíma é a potência da constelação, cujo caráter se molda a luta que precisa ser travada pela vida. Um vir a ser Macunaíma é compreender que, dentro de um mesmo espectro de povo brasileiro teremos muitos devires a enfrentar, é compreender que mesmo tendo nascido numa família que não sofre as agruras do racismo você faz parte da galera que sofre com as perseguições da Polícia ao 474 (pois jovens negros da periferia não tem direito de ir a praia sem ser suspeitos de arrastão).

Devolver ao Brasil a sua cara é sermos capazes de retomar os agenciamentos, mesmo os mais contraditórios para avançarmos naquilo que é nosso sofrer comum, a ausência de direitos. E falamos aqui de direitos que só serão conquistados com enfrentamento e luta. Para lutarmos, sejamos Macunaíma em uma explosão de constelação, uma rede de agenciamentos cuja principal característica é sabermos onde estamos fluindo pelo território e sob que perspectivas.

Pois falamos de visões de mundo, de formas de entender e viver o tempo, o espaço e muitos outros caminhos e entradas possíveis. Este texto é parte de uma pesquisa apócrifa, em breve falaremos mais a respeito.

Rodrigo Bertame, rio de janeiro, 17 de setembro de 2023.

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