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Breve Reflexão sobre Estética e o Desencontro entre Arquitetura e Sociedade

Um dos meus primeiros contatos com o campo da estética, ainda na faculdade de arquitetura, veio pelas disciplinas de estudo da forma e de expressão gráfica. Na minha formação, esses estudos quase sempre se apoiavam numa visão de mundo greco-romana, uma das matrizes das Belas Artes.

Mesmo quando o modernismo, que estruturou boa parte do início do meu percurso, proclamava ruptura com as Belas Artes, sua filosofia continuava orbitando o mesmo céu. A ideia de forma ideal, as proporções áureas, a promessa de uma harmonia estética ascética e hermética, como se servisse ao todo da sociedade. Essa base atravessou a escola e moldou projetos em que a pessoa raramente estava em primeiro plano, e a condição financeira, menos ainda. Enquanto isso, aqui fora, no chão do vivido, o mundo seguia construindo do seu jeito, com seus referenciais e seu campo real de possibilidades. Estudávamos lajes planas, quando para o povo o luxo era um telhado colonial, aquele sonho de capa de revista, tipo Casa Cláudia.

Mas, para não me perder, o desencaixe principal estava na própria base da formação. Pensávamos a vida por um viés de transcendência. Primeiro vem o projeto, emergindo como tentativa de semelhança com um mundo perfeito, no campo das ideias. O projeto segue seu rumo até que se dê a obra, sempre icônica, porque, nesse imaginário, a arquitetura não pode ser simulacro.

Só que a vida real não cabe nesse enquadramento. Ela acontece o tempo inteiro, processo atrás de processo. A arquitetura é acontecimento do espaço, concebido e vivido, e é aí que o sentido anterior não fecha. Quando retiramos a arquitetura desse campo transcendente e a trazemos para a experiência viva, o que se abre é justamente a discussão estética. Não existe mais uma boa e uma má arquitetura em si mesmas. Existem caminhos distintos por onde pensamos e operamos o espaço e o tempo da vida. A arquitetura segue o devir. Movimento permanente, criativo, transformador.

Essa diferença é decisiva quando queremos compreender como profissionais de arquitetura podem adentrar o universo da autoprodução do espaço construído. Na autoprodução, o essencial não é tanto o fim da obra, nem o resultado épico de um projeto. O que sustenta tudo é a possibilidade constante de adequação ao momento e ao modo de vida. Um filho que nasce é um quarto que se levanta. Um filho que casa é uma laje que vira novo lar.

É nesse encaixe que um pensar ético e estético da arquitetura pode encontrar talvez o caminho mais democrático de construção da espacialidade. Nós, humanidade, já organizávamos o espaço muito antes dos traços gregos, antes da sistematização das sequências de Fibonacci, antes de Imhotep. No início dessa virada, precisamos redesenhar a visão de mundo. Estar abertos a uma leitura transformadora da vida, onde a contradição e o movimento de ida e volta estejam diante de nós. Precisamos afrouxar o apego ao caminho moral do saber, a caça pela boa forma, pelo bom olhar, e nos permitir dialogar com os muitos olhares que montam e moldam a realidade. Fibonacci, afinal, é uma redução útil, não um altar. Ajuda a ler uma parte, mas não dá conta da complexidade quase infinita das formas da existência.

Se a nossa categoria conseguiu sistematizar o campo técnico-científico via universidades, a espécie humana organiza, por uma longa rede de oralidade, as trocas que operam na autoprodução. Gente que aprende desde pequeno com pais, avôs e bisavôs, que fizeram de tudo, de bibocas e palafitas a pontes, aterros, aberturas de túneis e até palacetes.

À medida que nos imbuímos dessa experiência e soltamos as amarras da busca icônica, começamos a entender. É explorando ao máximo a contradição e o diálogo entre o técnico-científico e o saber do lugar que podemos elevar, de fato, a qualidade espacial do mundo em que vivemos.

No fundo, a crise do saber técnico na arquitetura fala menos de perda e mais de urgência. Romper com certos modos atuais de fazer e de compreender o que é arquitetura, e recompor esse campo a partir dos processos reais de existência e dos valores que atravessam a sociedade de hoje.

 

 

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