Já se foi o tempo em que pesquisa científica era o espaço de grandes tratados e personagens icônicos. A imagem do gênio e sua descoberta que vemos até hoje por aí talvez não caiba mais na complexidade da vida contemporânea, ao menos não com a mesma qualidade que já fora um dia. Não falo isso desmerecendo os grandes nomes que já passaram na terra, apenas comentando sobre a readequação social do campo e da comunidade científica. É mister desmistificar este raciocínio do ser iluminado, como se não houvesse produção constante e historicidade nas trocas e descobertas.
Partindo deste ponto, vejamos aonde podemos chegar. As crises remodelam o mundo, e na década de 80 uma crise de saúde apareceu e ajudou a repensar os modelos de ciência, a AIDS. O advento da epidemia de AIDS, a comunidade científica operacionalizou suas ações junto a sociedade civil de uma forma interessante, enxergou a necessidade de trabalhar em conjunto com movimentos sociais, ativistas e diversos outros grupamentos. A lógica não era apenas laboratorial e a interdisciplinaridade ganhou um novo patamar e constituiu um paradigma.
A partir dos anos 80 fazer ciência implicava em reconhecer o diálogo com diversos atores sociais e as mais amplas expressões de conhecimento. Incluímos na pauta o âmbito social, sem o qual se tornaria inviável alguns avanços. Recentemente, vivemos a pandemia de COVID, e graças ao acúmulo destes estudos de método, somados a coragem de expansão de novas modelagens de pesquisas, a comunidade científica gerou um novo salto. Claro que abrimos a ressalva de que, como em qualquer relação social complexa, não podemos esconder que há no campo relações de racismo, misoginia e disputas de hegemonia e poder onde verdadeiras máquinas de pesquisa são engendradas por grandes captadores e fomentadores de recursos para pesquisas.
Quando o globo precisa se focar em segurar a pandemia, a ciência se sente obrigada a romper com alguns padrões. Um dos mais importantes que gostaria de destacar é a abertura dos dados, toneladas de dados, artigos, testes, eram abertos independente de passar por revisão de pares e publicações, a troca em rede se tornou o novo paradigma. Pela primeira vez no mundo, se viu de forma expressiva a comunidade científica trocar tamanho volume de informação em tão pouco tempo, quase que o brainstorm global de pensamento e estudo. Todos tínhamos acesso, mesmo não pesquisadores conseguiram encontrar com facilidade.
Para além disso, o tripé: política-economia-ciência precisou operar em nível global. Talvez esta tenha sido uma das maiores dificuldades, pois precisamos lidar com inúmeras disputas que iam desde a luta pela quebra de patentes até guerras políticas locais que se usavam dos resultados científicos como palanque constante. Apesar dos conflitos, creio que este seja o grande paradigma: precisamos incluir a desigualdade social como uma dimensão constante nas discussões e pesquisas. Segundo a pesquisadora Andrea Silva, “pessoas com maior nível de pobreza têm 55% maior risco de evoluir do HIV para Aids”, só para citar uma pesquisa que revela o quanto as desigualdades sociais impactam ainda hoje no cuidado de uma doença que deveria ter um tratamento universal. Podemos compor o mesmo debate quando vivemos a pandemia de COVID. Ainda hoje a África é o continente com menor taxa global de vacinação, temos 70% da população do continente não vacinada.
No Brasil, uma das maiores missões se passou na fase inicial da pandemia, quando o país mostrou o tamanho de sua vulnerabilidade: falta de saneamento e acesso a água potável e falta de condições de seguridade social para garantir períodos de lockdown demonstraram o quanto ainda estamos com o tripé político, econômico e científico desconectados.
Apesar das inúmeras mudanças algo se mantém, o desejo de se lançar ao desconhecido. Talvez essa seja a grande graça da aventura da pesquisa, quando a gente se lança ao risco do desconhecido e das incertezas para investigar e achar elementos que seguirão nos mantendo nas incertezas. Aqui me permito uma alegoria poética, olharmos para o campo da ciência como um horizonte de eventos, onde cada um de nós seja um pequeno fóton girando rumo a singularidade que nos interessa. O mais bacana é ver que, nada na ciência é possível sem uma rede global de trabalhadores e ferramentas unidos em torno da aventura.
Espero que o modelo da ciência aberta siga, cada vez mais interdisciplinar, sem ficar presa em patentes, premiações e títulos de valores e se torne um dia o paradigma de organização do pensamento e da criação humana.
Entendo que, em um mundo onde os modelos econômicos e estruturais da sociedade ainda prezam por relações de competição, individualismos, e transformação de inovações em propriedades de direito privado, outras formas de se organizar demorem a conseguir espaço. Porém, a pandemia nos mostrou com muita clareza as vantagens da ruptura dos modelos tradicionais de organização do trabalho científico.
Almejo viver num mundo onde pensar e trabalhar cientificamente seja explorar as mais inesperadas redes de colaboração, inserir o trabalho sobre o social e termos a responsabilidade de entender que os nossos resultados impactam vidas. Vimos o quanto ganhamos com isso enquanto humanidade.
