O Dia do Trabalhador talvez precise ser lembrado pelo que ele carrega de mais simples e mais radical: corpos explorados dizendo basta. Antes de virar feriado com postagem bonita para “colaboradores”, o 1º de Maio nasce como memória de luta. Gente comum, atravessada por jornadas absurdas, compreendendo que viver não poderia ser apenas obedecer, produzir, adoecer e morrer cedo. Há algo de profundamente bonito nisso. Bonito porque toca questões muito básicas da vida.
O trabalhador, esse sujeito tantas vezes tratado como massa, número, custo, recurso humano, entendeu em algum momento da história que também tinha direito ao tempo. Direito ao descanso. Direito a preguiça boa. Direito ao sono sem culpa. Direito a ver o filho crescer, a sentar na calçada, a namorar, a estudar, a fazer da vida algo maior que a luta sofrida pela sobrevivência.
Mas o nosso tempo criou uma tragédia bastante sofisticada. A exploração aprendeu a usar novas roupas. A velha exploração com sua linguagem mais técnica, mais palatável, como se tudo fosse gestão, inovação e produção fosse liberdade.
A fábrica continua existindo, mas agora também cabe dentro do celular. O chefe continua existindo, mas às vezes aparece como cliente, meta, dívida e algoritmo. Pode estar no aplicativo que pune o motorista, no WhatsApp que chama fora do horário, no boleto que obriga mais uma entrega, no medo de ser substituído, na sensação permanente de estar atrasado para a própria vida. O trabalho se tornou um fluxo contínuo, ele vai entrando pelos cantos da casa, pelo horário do almoço, pela cama, pela cabeça nas madrugadas.
A escala 6×1 é uma das expressões mais brutais dessa miséria produtivista. Seis dias entregues ao trabalho para um dia de recuperação. Um dia que mal dá para lavar roupa, arrumar a casa, dormir um pouco mais, ver a família, respirar sem pressa.
Não se vive em um dia de descanso, a gente se desaba. O ponto central, não estamos falando só de carga horária, estamos falando de uma forma de organização da vida. É como se o corpo do trabalhador fosse tratado como máquina de bateria fraca: recarrega-se o mínimo necessário para voltar a funcionar e quando dá pino, a gente troca.
Aprendi a dar valor a um filosofo coreano interessante, Byung-Chul Han ajuda a iluminar uma ferida aberta. O sujeito contemporâneo já não é explorado apenas por uma força externa, claramente identificável. Ele também aprende a explorar a si mesmo. Vende sua imagem, sua disposição, sua simpatia, sua capacidade de adaptação. Cobra de si produtividade até no descanso. Sente culpa quando para. Sente fracasso quando não consegue acompanhar o ritmo. A sociedade produz gente exausta que ainda se pergunta onde errou. E talvez essa seja uma das coisas mais cruéis do nosso tempo: fazer a pessoa adoecida se auto explorar acreditar que a culpa do fracasso é dela.
Vivemos em um mundo que transformou a vida inteira em desempenho. E aqui existe uma camada meio perversa, pois o sujeito vai sendo empurrado a performar tudo, até a própria tentativa de descanso. Descansa-se mal, descansa-se com culpa, descansa-se já pensando na próxima semana. E no ambito profissional, também performa, performa piadas, risos, cuidados com o que falar, como se portar, com quem ser visto.
Burnout, niilismo, ansiedade e insatisfação se tornam patologias, sintomas de um modo de organização social que comprime o tempo humano até ele perder sabor. O trabalhador não adoece, trabalha muito, ganha pouco, descansa mal, se desloca por cidades hostis, se endivida para sobreviver e ainda precisa acreditar que é tudo consequência de esforço pessoal. No fim, isso vira uma espécie de pedagogia da culpa. Se você não conseguiu, é porque não quis o bastante, não acordou cedo o bastante, não se vendeu bem o bastante, não sorriu o bastante.
A tecnologia liberta o tempo, é o que dizem. Mas, em uma economia organizada pelo lucro, a máquina muitas vezes não liberta o trabalhador. Apenas aumenta a capacidade de extração sobre ele. E isso precisa ser dito com alguma simplicidade: o problema não é a máquina, tecnologia ou inovação existir, é como e para quem ela trabalha.
Se há tanta tecnologia e produtividade, por que o descanso segue sendo tratado como crime e não como direito? Produzimos cada vez mais meios, mas seguimos com pouca vida disponível.
É nesse ponto que que penso, a preguiça não é imoral, é condição de humanidade. É o tempo necessário para pensar, amar, criar, estudar, cuidar, caminhar a esmo, olhar a cidade, conversar na mesa, construir comunidade. Uma sociedade sem ócio produz corpos tristes. Produz gente funcional, mas sem imaginação. Gente que trabalha, consome, paga, dorme mal e recomeça. E talvez seja por isso que tanta gente esteja vivendo como se a vida fosse uma fila, uma fila que anda pouco, cansa muito e não chega em lugar nenhum.
O trabalho poderia ser uma força de desenvolvimento social. Poderia construir vidas melhores, casas mais dignas, ciência aberta, saúde, cultura, alimento, beleza, tecnologia comum. O problema está no trabalho sequestrado, reduzido à monocultura do lucro às custas da sobrevivência de muitos. Trabalhar poderia ser uma forma de participar do mundo, e não um modo de não afundar. Escrever este texto é trabalho e dá trabalho.
Também por isso é preciso entender a complexidade por trás do “empreendedor de si mesmo”. Há muita mentira na romantização do rico. A maior parte dos empreendedores de si mesmos estão apenas tentando retomar algum controle do tempo e sobrevivência diante de um mundo do 6×1, recuperar algum controle sobre o próprio tempo. E isso é muito importante de perceber, porque a gente muitas vezes lê esse movimento apenas pela caricatura liberal do sujeito que acredita que vai vencer sozinho, enquanto é só alguém tentando não ser esmagado. É uma tentativa de fuga. Muita gente não quer dominar o mercado, quer apenas não ser humilhada pelo chefe. Não quer virar bilionária. Quer poder buscar o filho na escola.
O empreendedorismo popular é só a precarização sem carteira assinada, sem férias, sem décimo terceiro, sem proteção social e sem rede, alimentado pela dor e o desejo de autonomia. O desejo é justo, embora a saída oferecida seja pobre.
O desafio político é transformar essa fuga individual em projeto coletivo. Não basta cada um tentar escapar sozinho. É preciso disputar a organização do tempo social. Reduzir jornadas. Enfrentar a escala 6×1. Garantir renda. Proteger o trabalhador das plataformas. Fazer a tecnologia servir à vida, não à exaustão. Reconstruir a ideia de trabalho como produção de mundo, não como máquina de moer de gente.
Se este texto incomodar alguém ficou feliz. O 1º de Maio precisa voltar a incomodar. Precisa deixar de ser uma data decorativa e perguntar, com alguma violência poética: quanto da vida ainda pertence a quem trabalha? E talvez a luta mais urgente do nosso tempo seja esta: devolver algum tempo ao trabalhador para que ele volte a ser pessoa.
